Não é a criança que precisa se adaptar ao futebol.
É o futebol que precisa fazer sentido para a criança.
Por: Thiago Filla de Almeida
O QUE SABEMOS SOBRE A CRIANÇA?
O quanto, de fato, conhecemos sobre a fisiologia da criança?
Compreendemos como se dá o desenvolvimento infantil?
Em que idade podemos interpretar como a criança percebe e responde às diferentes situações e circunstâncias do jogo?
Afinal, a criança quer brincar. Mas isso não significa simplificar o jogo, e sim compreendê-lo a partir de quem joga.
Outras modalidades já nos ensinam muito sobre isso:
no basquete, a altura da tabela é reduzida;
no vôlei, a rede é mais baixa e existe o mini vôlei;
no tênis, a quadra diminui, assim como a bola e os equipamentos.
Dentre inúmeros outros exemplos.
E o futebol?
Diminuir o campo dá trabalho?
Pedir traves menores é inviável?
Usar uma bola adequada descaracteriza o jogo?
Ao longo da minha trajetória, participei de diversos arbitrais e discussões sobre adaptação dos espaços de jogo. Estive, inclusive, envolvido na construção de um projeto de trave ajustável. Mas, para que esse tipo de iniciativa aconteça, sempre surge a mesma pergunta: quem está disposto?
Já ouvi pais dizerem que, com campo e trave menores, “não tem graça”.
Professores que resistem a redesenhar uma linha ou adaptar o espaço.
Enfim… quando o futebol vai olhar para a criança?
Em nosso país, existem experiências interessantes, mas, para o chamado “país do futebol”, ainda são poucas.
E não se trata da ausência de pedagogia.
Não se trata de dizer que “faltam teorias”.
É justamente o contrário.
É assumir responsabilidade:
de estudar a criança,
de compreender o jogo,
de reconhecer a rua como um espaço legítimo de aprendizagem.
Porque a rua não é improviso vazio.
O jogo ali tem lógica, tem intenção, tem sentido.
São as próprias crianças que ajustam o espaço para que o futebol aconteça.
Fundamentar a prática não é engessá-la.
É dar sentido ao que se faz.
É olhar para o jogo da criança sem a intenção de moldá-lo à força, mas com a disposição de entender o que ele revela.
É estudar para adaptar mais, intervir melhor e, muitas vezes, intervir menos.
No fim, talvez o maior desafio não seja ensinar futebol, mas estar disposto a aprender com quem joga, como nos provoca João Batista Freire, com um olhar que ultrapassa o jogo e alcança a vida, inclusive a educação em nosso país.
Referências
– Alcides Scaglia
– Danilo Augusto Ribeiro
– João Batista Freire
– Wilton Carlos de Santana

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
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