ANÁLISE E DEFINIÇÃO

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Por: Bruno Loureiro

Olá a todos! Dentro do nosso percurso sobre as análises, refletimos sobre os pilares que explicam como fazer, por que fazer e que tipologia de análise realizar com base nas necessidades, no contexto e na realidade de cada equipe.

Neste artigo, aprofundaremos talvez uma das questões mais importantes, mas muitas vezes deixada de lado pelo simples fato de ser de conhecimento geral. Dentre as reflexões, tentaremos dar um guia sobre os aspectos a serem levados em consideração para definir cada tipo de ação coletiva ou individual.

Através do glossário da CBF, já temos uma excelente definição das tipologias de ação que ajudam a unificar a linguagem e o entendimento para a organização de uma linha comum de análise.

Segundo a literatura, a partida de futebol pode ser definida em duas ou quatro fases (+ bolas paradas): POSSE e NÃO POSSE, com as transições fazendo parte da organização da fase ofensiva e defensiva. Para um melhor entendimento, usaremos as 4 fases, modelo também chamado de CICLO DO JOGO:

  • Fase ofensiva
  • Transição defensiva
  • Fase defensiva
  • Transição ofensiva

Seguindo o ciclo de jogo, como podemos definir cada fase respondendo às seguintes perguntas:

Quando uma equipe ou jogador entra realmente em posse de bola?

Quando começam e terminam as transições ofensivas e defensivas?

Quais são as tipologias de transição?

Apesar de pensarmos instintivamente em responder “facilmente” a essas perguntas, vamos destacar os pontos-chave para essas definições.

POSSE E NÃO POSSE DE BOLA

Quando uma equipe/jogador entra realmente em posse de bola? Quantos toques ou quanto tempo com a bola o jogador precisa ter para que se configure a posse? Se imaginarmos um cruzamento na área e um defensor rebatendo a bola de cabeça, esse gesto técnico pode ser definido (em nível estatístico) como ganho ou perda de posse de bola de uma equipe por uma fração de segundo?

Claramente, esta é uma situação muito veloz e altamente específica que não altera esse dado estatístico significativamente ao longo de uma partida mas serve como ponto de partida.

Segundo Paco Seirul-lo em seu livro (Espaços de Fase, 2000), uma equipe entra em posse de bola apenas quando a mesma fica à “disposição” do time (cerca de 2 a 3 passes). Ou seja, mesmo que a equipe recupere a bola, é indispensável o tempo para que o coletivo possa se organizar e a bola fique sob o controle efetivo dos jogadores.

Já segundo o estudo científico de Hoernig (2017), a posse de bola pode ser dividida em dois macroprincípios:

POSSE INDIVIDUAL COM BOLA (PIB): Entende-se como o momento em que um jogador tem a possibilidade de realizar uma ação com a bola dotada de intencionalidade tática, como um passe ou uma condução.

AÇÃO INDIVIDUAL COM BOLA (AIB): Compreende-se quando a bola entra no raio de ação de um jogador e ele tem a possibilidade de escolher, de modo consciente, entre diversas ações de jogo — como condução, passe ou até mesmo a proteção da bola (ação ofensiva, segundo o Glossário da CBF) — sem precisar, necessariamente, tocá-la de imediato.

Quando um jogador faz um passe consciente com intencionalidade tática (como um lançamento), a posse ainda é considerada da equipe até que a bola entre no “PIB” de um jogador adversário.

Apenas essa simples reflexão sobre algo tão instintivamente simples de ser respondido nos faz pensar quão complexa pode ser uma análise objetiva de qualquer dado técnico-tático no esporte. Para começar a conceituar cada situação, precisamos ter alguns pontos-base bem definidos:

Contexto de jogo (bola – adversário – balizas – companheiro – regras)

  • Tempo e espaço da ação
  • Número de jogadores envolvidos
  • Número de adversários atrás da linha da bola

Usaremos esses pontos para tentar começar a definir as transições dentro de um ciclo de jogo, critérios que também podem ser utilizados em outros momentos, como o bloco médio/baixo/alto, ataque posicional, construção ou desenvolvimento.

TRANSIÇÕES

As transições são caracterizadas pelo momento no qual a equipe que está em posse acaba passando o “PIB” para o “AIB” de um jogador adversário. Este curto período de tempo necessita de uma rápida reorganização ofensiva/defensiva para atenuar ou acelerar a jogada com base no contexto.

Quanto tempo dura uma transição?

Como defini-las com base na zona do campo?

Como posso dividir as suas tipologias?

Efetivamente, não é simples responder a todas essas perguntas, mas, através de algumas definições, podemos analisar de forma mais organizada os diferentes momentos. Iremos refletir sobre pelo menos três diferentes tipologias de transição:

TRANSIÇÃO VELOZ: Se a equipe recupera a bola no meio de campo adversário (mais próximo do gol), essa tipologia de transição provavelmente será mais veloz, com menos jogadores envolvidos e menos passes até se chegar a uma finalização, a fim de reduzir o tempo de reorganização adversária. O primeiro gol do Brasil contra a Escócia poderia servir como exemplo:

  • Recuperação da bola através de pressão individual.
  • Recuperação da bola no meio de campo adversário (zona 3) com duração de quatro segundos (máximo 10’’).
  • Dois jogadores ofensivos envolvidos (máximo 3).
  • Um jogador adversário atrás da linha da bola (máximo 7).

TRANSIÇÃO CONSTRUIDA: Esta tipologia de transição se caracteriza por ter a bola recuperada em qualquer ponto do meio-campo defensivo (zona 1 ou 2). Se a equipe que recuperou a bola envolveu quatro ou mais jogadores, com tempo mínimo de dez segundos, ao menos três passes até a chegada ao gol adversário e a equipe adversária mantendo até seis jogadores atrás da linha da bola, teremos uma “transição manobrada”. O gol de Marrocos contra o Brasil na primeira partida após a Copa do Mundo poderia se encaixar nesta tipologia:

  • Recuperação em duelo (dividida) vencido.
  • Recuperação no meio-campo defensivo (zona 1/2) com duração de doze segundos.
  • Quatro jogadores ofensivos envolvidos.
  • Seis jogadores atrás da linha da bola.

TRANSIÇÃO VERTICAL: Quando se recupera a bola no meio-campo defensivo, não necessariamente o número de passes, jogadores envolvidos e o tempo de ação total serão altos. Uma boa organização de ataque preventivo pode acelerar a transição com um ou dois passes, ou até mesmo uma condução de bola em velocidade, aproveitando o “campo aberto” deixado pelo adversário em um tempo máximo de doze segundos. Como exemplo, podemos utilizar o gol do Danilo no amistoso contra a Croácia:

  • Recuperação em duelo aéreo vindo de um escanteio.
  • Recuperação na zona 1 com onze segundos de duração.
  • Três jogadores envolvidos (AIB) com verticalização rápida.
  • Cinco jogadores totais atrás da linha da bola.

Como o futebol não é uma ciência exata, é normal haver jogadas que as tipologias se misturem ou que podem mudar de tipologia dentro da mesma ação (Da transição manobrada à ataque posicional); a sensibilidade para entender o contexto será sempre o fator fundamental para uma boa análise e divisão das tipologias de ação.

Uma vez definida, como podemos utilizá-la dentro de uma metodologia de treinamento?

Dividindo e analisando as diferentes maneiras pelas quais a equipe cria ou sofre transições, passamos a ter um quadro mais completo para trabalhar na origem da situação — que pode ser a fase de construção (no caso do exemplo da Escócia) ou a marcação preventiva (no caso de Croácia/Brasil). Qualquer divisão das ações e análise tem como objetivo entender melhor as dinâmicas do jogo para poder “conhecer para reconhecer e corrigir” situações de ordem coletiva, grupal e, principalmente, individual, com base no modelo de jogo de cada treinador.

E você, concorda com uma subdivisão levando em consideração essas variáveis? Colocaria ou retiraria algum item?

Estarei à disposição para aprofundarmos o assunto.

Grande abraço a todos!

Referências

https://drive.google.com/file/d/16jxs8YBWcsx2vHpI08RvmvXmU5eStgA1/view?userstoinvite=cassiocidade47@gmail.com&sharingaction=manageaccess&role=reader&ts=6a446ed9

Bruno Loureiro Batista é Treinador/Analista de Partidas Individuais no setor de base da Juventus FC. É graduado em Ciências do Esporte pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui licença UEFA A. Possui experiência em análise de desempenho e desenvolvimento individual de atletas, atuando no futebol europeu de alto rendimento.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruno-loureiro-batista-a95681165/

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