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Relações perigosas

Eles não podem errar. Têm mais de dez câmeras em cima deles no jogo, esperando o momento de deslize para fazer o julgamento. E, num instante, a vida deles pode virar um inferno por causa de cinco centímetros de diferença.
 
Com o desenvolvimento da tecnologia no futebol, o trabalho do trio de arbitragem ficou ainda mais difícil. Sem dúvida que erros como aqueles cometidos por Ana Paula de Oliveira no Botafogo x Figueirense já aconteceram inúmeras vezes em jogos do passado, mas a ausência de tira-teimas e diferentes ângulos de câmeras não conseguiram captar a imprecisão do auxiliar.
 
Agora, porém, além de toda a parafernália tecnológica, os árbitros ganharam mais um “problema” para trabalharem. Cada vez mais parece nítida a intolerância da crítica com os erros de arbitragem. Erros que causam danos irreparáveis, como esta mesma edição 2007 da Copa do Brasil já vitimou Palmeiras, Atlético-MG e agora Botafogo em erros crassos dos árbitros e assistentes.
 
Obviamente a derrota por um erro do árbitro é doída, ainda mais quando envolve torneio mata-mata. Mas, às vezes, a crítica tem excedido o bom senso. Como na última quarta-feira, quando Ana Paula de Oliveira mais uma vez se envolveu em polêmica por conta de impedimentos mal marcados.
 
O Botafogo caiu por esses erros, assim como só chegou à semifinal da Copa do Brasil por conta de falha grosseira de Carlos Eugênio Simon no último minuto do jogo decisivo das quartas-de-final contra o Atlético-MG. Erros que acontecem e que fazem parte do futebol. Mas que, cada vez mais, são tratados com intolerância pelo meio do futebol.
 
Em seu blog, o respeitadíssimo jornalista Juca Kfouri fez as críticas de praxe a Ana Paula de Oliveira pelos erros em Botafogo x Figueirense. Mas incluiu uma informação aos leitores: Ana Paula e o Figueirense são patrocinados pela mesma empresa, a Umbro. De fato isso é verdade. Mas Ana Paula já não havia errado contra o Santos, também patrocinado pela Umbro, no clássico contra o São Paulo?
 
Juca não fez crítica alguma ao fato de a auxiliar atuar em jogo de clubes patrocinados pela mesma empresa que a usa como garota-propaganda. Mas a simples menção do fato leva a uma interpretação errônea de que ela havia agido de má fé ao marcar impedimento num lance em que não houve. Ou, ainda, todos se esqueceram de que caberia a ela também enxergar falta no lance do segundo gol do Botafogo, que foi ignorado pelo árbitro?
 
Hoje, ações de má fé de árbitros, pelo menos no Brasil, estão cada vez mais raras. Compras de resultados são casos esporádicos, como os de Edílson Pereira de Carvalho, em 2005. O que existe é erro, cada vez mais detectável. Mas cada vez mais absurdamente condenado.
 
Ana Paula de Oliveira é, entre todos os árbitros do Brasil, quem mais atrai a atenção da mídia. Logicamente é interessante a uma marca se associar a ela, que é personagem em matérias de revistas de comportamento e, quase sempre, tem fotos estampadas em jornais.
 
O retorno de exposição que ela garante à Umbro é, provavelmente, o mesmo que a empresa tem ao patrocinar um clube como o Figueirense, que nem sempre está sob mira da grande imprensa. A estratégia da empresa é clara, ter sua imagem ligada a um símbolo sexual do futebol brasileiro.
 
Cabe aos colegas jornalistas entenderem que o erro faz parte do trabalho dos árbitros. E ter o discernimento, mas não a ingenuidade, de saber que erros acontecem, fazem parte do cotidiano do futebol. E que, com os recursos tecnológicos, ficaram mais fáceis de serem identificados.
 
Imagine se as câmeras não tivessem mostrado a cabeçada de Zidane em Materazzi? Provavelmente Horacio Elizondo seria considerado um dos maiores ladrões de Copas pelo resto de sua vida.
 
Mas, se ele não tivesse expulsado Zidane, teria sido apenas um erro ou seria por que a Fifa é patrocinada pela Adidas, que também é patrocinadora dos árbitros e da seleção da França? No estádio, sem o recurso da TV, ninguém entendeu a expulsão do 10 francês na final da Copa…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Direito de resposta

Na última semana, mais uma vez o técnico do Corinthians, Emerson Leão, foi alvo de uma polêmica da imprensa. O treinador alvinegro decidiu rugir mais alto na sede da Rede Bandeirantes, exigindo um direito de resposta por conta de uma matéria publicada dias antes na emissora.
 
Leão tentou fazer uso do famoso “direito de resposta”, previsto na Lei de Imprensa. Sentindo-se prejudicado pela reportagem, Leão foi à Band exigir seu direito de se defender e dar sua versão sobre o fato. Após esperar um pouco até ter a entrada liberada na emissora, Leão obteve o que queria: deu a sua versão para a reportagem.
 
O episódio envolvendo o treinador corintiano permeia o cotidiano do jornalismo, especialmente o esportivo. A diferença é que, diferentemente de Leão, quase nenhum personagem se dá ao luxo de exigir resposta para uma matéria que não lhe agrada.
 
O rugido de Leão contra a Band pode levar a uma nova era no jornalismo esportivo. A cada dia que passa vemos atletas, dirigentes, árbitros e treinadores espernearem contra as famigeradas mesas-redondas que invadem nossa programação esportiva. O maior motivo de descontentamento é com o pouco comprometimento do jornalista em dar uma informação precisa, ficando ele muito mais comprometido com a audiência do programa.
 
Leão foi um que não pensou assim. Em vez de aceitar passivamente uma reportagem em que se sentiu prejudicado, saiu em busca de uma defesa. Assim como Rogério Ceni na folclórica discussão com Milly Lacombe.
 

Se mais Leões e Rogérios cobrassem dos jornalistas uma atitude mais consciente no exercício da profissão, sem dúvida que o universo do futebol ganharia em nível de debate nas suas mesas-redondas. Mas, enquanto isso, o direito de resposta fica só na teoria. E o discurso vazio segue a permear a TV quando o assunto é futebol.