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O neverland do futebol

Michael Jackson se foi. E, junto com ele, foi o seu neverland, a sua terra do nunca, a máscara em que ele mesmo se meteu e se acabou ao longo de quase 30 anos de sucesso na indústria da música e do entretenimento.

O maior erro na vida de Michael Jackson talvez tenha sido ter virado uma presa fácil ao massacre da mídia. Desde que surgiu lá nos Jackson Five, nos anos 60, Michael se prendeu a um rótulo que a mídia criou. O show-man dos palcos se transformou no homem da terra do nunca dentro de casa, preso a uma mansão, atolado em dívidas, viciado em remédios.

A deplorável forma como terminou a vida de Michael Jackson revelou o que há de pior na perseguição da mídia às celebridades. Ao longo de décadas, a pressão da imprensa sobre um astro do pop levou-o à ruína, perdido dentro da imagem que a própria mídia criou.

O que vale para a música, sem dúvida vale da mesma forma para o esporte. O astro é equiparado o tempo todo ao esportista de sucesso. Pressão da mídia, necessidade de dar grandes shows, vida privada sempre devassada pelos jornalistas… 

Na sexta-feira, Vanderlei Luxemburgo foi demitido do Palmeiras. O treinador decidiu usar o Twitter e o seu blog pessoal para anunciar a decisão da diretoria palmeirense. 

Hoje, Luxa talvez seja o mais midiático técnico de futebol do país. Só que essa sua habilidade no relacionamento com a mídia é o que mais tem levado-o ao seu neverland. Luxemburgo tem se perdido na imagem que a própria mídia criou para ele.

Manager, estrategista, rei do Brasileirão… 

Já foram muitos os adjetivos usados para descrevê-lo. Curiosamente, quase sempre todos foram aplicados no momento de glória da carreira do treinador. 

E, assim como Michael Jackson, o treinador Vanderlei Luxemburgo tem ficado cada vez mais preso a essa imagem criada no passado, esquecendo-se da sua essência, que é ser um treinador de futebol.

A pior coisa que pode acontecer a um profissional midiático é ele ficar preso ao rótulo que a mídia criou. E o futebol é repleto de casos assim.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Ambiente sagrado

Ah, as entrevistas coletivas pós-jogo… Sinceramente acreditava já ter visto de tudo nesse circo em que se transformou a entrevista à imprensa depois de uma partida. Técnico emburrado, time todo chorando a derrota, respostas atravessadas, time derrubando jogador, time derrubando treinador, treinador se derrubando, treinador sendo derrubado enquanto falava, juiz sendo ironizado de tudo quanto é jeito, perguntas bem-feitas, perguntas repetitivas…

Tudo para mim era próprio do ambiente de trabalho de um pós-jogo. Ainda mais quando era uma partida decisiva. Afinal, nervos à flor da pele geralmente provocam respostas espontâneas. E essas, por sua vez, quase sempre geram uma grande polêmica.

Mas não é que neste último domingo tivemos mais um episódio inédito na história das entrevistas coletivas? Netas de um treinador participando da sabatina feita pelos jornalistas, sinceramente, foi demais para a minha cabeça! 

Que a entrevista coletiva geralmente serve para não dizer nada todos nós já sabemos. Mas o que justifica levar a neta para ficar ali, ao lado das câmeras do país todo? Ainda mais depois de uma vitória do time por 3 a 1 em casa?

Talvez nos anos 60 fosse até natural que os familiares frequentassem o ambiente de trabalho de um jogador. Mas, naquela época, não tínhamos tanta exposição do esporte na mídia e, muito menos, tanta necessidade de fazer entrevistas coletivas para conter o avanço da imprensa.

Luxemburgo, mais uma vez, ultrapassa a tênue linha que delimita a ética na profissão. Além do mais, expõe suas netas a um ambiente de conflito e discussão que geralmente envolve uma sala de imprensa em entrevista coletiva após um jogo.

Se Dunga foi tão criticado por usar roupas de gosto questionável produzidas pela sua filha, porque não questionar a atitude de Luxemburgo?

Não é legal expor crianças de dois até seis anos às câmeras de televisão e aos cliques dos fotógrafos. Ainda mais quando elas não têm a menor necessidade de estarem em frente a elas. 

Ao ligar a TV depois do jogo do Palmeiras, confesso que levei um baita susto ao ver as netas de Luxemburgo ali, ao lado dele. As meninas até que foram bem-comportadas, considerando-se a idade que têm. 

Deixar isso acontecer, porém, é que foi demais. Ambiente de trabalho é algo geralmente sagrado. Não é para qualquer um, tanta interferência atrapalha. Imagine se cada jornalista decidisse levar seu filho para assistir a uma coletiva pós-jogo? 

O pior foi não ter visto ainda nenhuma crítica construtuiva contundente a mais uma atitude despropositada de Vanderlei Luxemburgo…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Crise de identidade

Obina não tem nem duas semanas e já virou ídolo no Palmeiras. Antes mesmo de entrar em campo, a expectativa da torcida era gigantesca. Bastou jogar a primeira partida e o apoio foi irrestrito, fazendo do jogador um dos casos mais bizarros dos últimos tempos.

Mas o que Obina pode ter que os outros não tem?

O carisma, sem dúvida, é um dos primeiros fatores. O atacante parece enfeitiçar o torcedor, enchê-lo de esperança de que dias melhores virão com a sua grandiosa presença na área rival.

Só que parece haver algo maior, uma característica que está presente em Obina e não tanto em diversos outros jogadores que atualmente desfilam pelos gramados brasileiros.

Sim, é isso mesmo. Desfilam. Porque se comportam como se estivessem apenas de passagem pelo país. Numa espécie de desfile para o comprador internacional. Tal qual a modelo que se exibe na passarela em busca de um contrato com uma grande agência, ou com uma grande marca, muitos jogadores que atuam hoje no Brasil se comportam dessa forma.

Especialmente nos times “de aluguel”, com atletas contratados por grupos de investimento. É o caso do Palmeiras, que tem hoje três jogadores que se identificam especialmente com a torcida. Marcos, cria da casa e há 17 anos no clube; Pierre, contratado na era pré-Traffic; e Obina, recém-chegado ao clube e que não teve a contratação avalizada pela “parceira”.

Esses três jogadores parecem ter criado uma clara relação com o torcedor. São aqueles que os representam dentro de campo, que quando vão jogar não estão preocupados com o desfile, mas sim com aquilo que é o bem mais precioso: a vitória.

A crise de identidade acomete atualmente a maior parte dos clubes. Com a transformação do futebol brasileiro numa grande vitrine para a Europa, o jogador muitas vezes vai a campo com a certeza de que está ali apenas de passagem. Que não é importante jogar bem, se dedicar, alcançar a vitória. Que o fundamental é preservar as canelas para que seu empresário o coloque, na próxima temporada, para atuar no Barcelona, no Real Madrid, no Manchester…

Os craques de bola, assim, deixam de ser ídolos. E o Brasil se acostuma a ver, no jogador dedicado, o potencial de identificação com a sua torcida. Para quem precisa do ídolo para gerar mais receitas e manter times vencedores, essa é a pior coisa que poderia acontecer…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br