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O conteúdo construtivo

Dia desses recebi um link de um grande portal de notícias que falava sobre a queda de audiência dos canais por assinatura especializados em esportes. Em época de isolamento social, com os campeonatos paralisados e os atletas em quarentena, e ao passo que crescem as novas mídias e o envolvimento com as redes sociais, era natural que o número de pessoas ligadas na TV diminuísse. Entretanto, a queda deste número nos leva a repensar o futebol enquanto da sua gestão e marketing.

Em primeiro lugar, o conteúdo do futebol é infinito, haja vista o sucesso de audiência dos jogos antigos e todas as discussões que são levantadas em torno das reprises. Análises, reflexões, o que era bom e o que não era. O que podia ter sido feito de diferente e o que não. Percebem-se debates de muito fundamento e que nos dão a oportunidade para um olhar crítico sobre o cenário atual.

Ao mesmo tempo, nos faz refletir sobre as rasas discussões que acontecem na maioria dos programas esportivos nas grandes mídias de massa: rádio e televisão. Debates que não levam nada a lugar algum, que querem prever o futuro, que não analisam, não refletem, só exploram e ficam em cima dos problemas, não propõem soluções e, com isso, não agregam, não constróem, não servem – nos dois sentidos, o de trabalhar em favor de e o de encarregar-se de algo – à sociedade.

É necessário que o futebol, através das entidades de administrações da modalidade (federações e confederação) e das instituições de prática esportiva (clubes), reflitam sobre os seus papéis. Como o futebol quer ser visto? Como os clubes e as federações querem ser lembrados? Geradores da discórdia, da intriga, da malícia, do tráfico de influência e do jogo de interesses? A cada dia notamos mais de tudo isso nas ligações de poder em todos os setores deste país, o que acaba por gerar mais desgosto e ojeriza entre todos. Certamente não querem ser lembrados assim.

 

Garrincha no início dos anos 1960 ao lado de crianças após um treino do Botafogo FR. (Foto: Reprodução/Divulgação)

 

Nestes tempos em que tudo está parado é oportunidade para romper paradigmas, pensar diferente e crescer. Seguir adiante e em frente, que é o sentido da vida. É natural. Impossível pensar o Brasil sem o futebol, elemento fundamental na formação da nossa identidade nacional.

Com tudo isso, numa época em que os nossos valores e a nossa nacionalidade estão abalados com tanta intransigência e intolerância, o esporte que tanto amamos possui uma boa parte no dever da recondução para que se construa o país que realmente queremos: justo e sustentável. Que o bom senso e o respeito sejam indiscutíveis e inegociáveis. A partir daí não há dúvidas de que o conteúdo gerado será de muito mais valia, críticos capazes de gerar as inquietações necessárias às transformações que tanto queremos.

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Em tempo, uma citação que se relaciona com esta semana do 21 de Abril:

Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação. Vamos fazê-lo.”
Joaquim José da Silva Xavier, o ‘Tiradentes’ (1746-1792),
rtir da Independência do Brasil e herói da Inconfidência.

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Sobre os tempos

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu;
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.


Eclesiastes 3: 1-8

 

Por conta da COVID-19 o futebol está parado em praticamente o mundo todo. Campeonatos, transferências, as atividades corriqueiras da bola. As diárias discussões no rádio, TV e internet caíram bastante, até mesmo porque pouca coisa acontece. Ao mesmo tempo o conteúdo histórico é infinito e, percebe-se isso haja vista a programação dos veículos de comunicação, dos podcasts nestes tempos que precisamos nos resguardar e proteger a quem mais amamos. Em tempos que nos faz repensar sobre muita coisa, rever valores e os relacionamentos com quem nos é importante. Sobre como caminha a humanidade e para onde ela irá.

Assim também é no futebol. Tempos de rever para onde leva a ambição desmedida que coloca em risco a vida dos futebolistas e suas famílias. Dos torcedores também. Da urgência pelo respeito e pelo bom senso na condução das relações pessoais e profissionais a fim de preservar o que temos de mais importante: nosso bem-estar e paciência. De agir com profissionalismo e sensatez.

(Foto: Reprodução/Divulgação)

 

Estes tempos nos escancaram que não se tem o controle de todas as coisas, muito pelo contrário, estamos expostos e suscetíveis. Assim sendo, os resultados em campo também não estão no controle, afinal todos querem vencer. É preciso lidar com as situações e, com muito trabalho e paciência, superar e seguir.  O que é mais importante: a vitória descabida e imediata (efêmera e insustentável) ou a certeza do propósito (porque você é o que é), a noção do pertencimento, a sua identidade, de saber de onde se veio, onde se está e para onde se vai?

Existir, simplesmente.

Diante disso, apesar da incerteza destes tempos, que sejam eles para quebrarmos paradigmas e tabus a fim de preservarmos o futebol e os seus elementos mais importantes: o atleta e o torcedor. Há quem diga que este cenário é difícil de acontecer, mas há tempo pra tudo e, para o bom convívio e entendimento, já não cabem mais as velhas práticas, sejam elas nas relações pessoais, profissionais, na gestão do esporte e, especificamente, na do futebol. O contrário significaria retroceder. E acredito que estes tempos, atuais, não queiram nos ensinar isso: retroceder. Nunca.

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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Vamos trocar de roupa rapazes e mesmo que o tempo esteja inclemente e vocês caírem,
tem coisas piores na vida do que um simples tombo na grama, e a vida
é mesmo um jogo de futebol.”

 Walter Scott (1771-1832)
poeta e romancista escoc
ês

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A integração pelo futebol

O “Benelux” após a segunda grande guerra (1939-1945) foi o ponto de partida para a tão trabalhada e arranjada União Europeia e sua moeda única continental, o Euro, posto em circulação em 2002. Exemplo de integração que acreditamos fosse ser o caminho para o mundo todo. Em pouco mais de dois meses deste ano de 2020 já vemos o “Brexit”* (saída do Reino Unido da União Europeia) em execução. A tal onda de globalização, trans e multinacionalização dos anos 1990 e 2000 tem dado lugar a governos cada vez mais protecionistas, fechados em seus próprios interesses. Demonstrações de intolerância por todas as partes. Paulatinamente percebe-se uma – bem nítida – desintegração.
No entanto, apesar de esta incerta e turbulenta atualidade, uma simbólica resposta ao “Brexit” através da modalidade que os próprios britânicos consolidaram, o campeonato europeu de seleções de futebol, torna-se exemplo de integração. São ao todo doze estádios de doze cidades-sede, em uma dúzia de países daquele continente. Não mais todo o torneio concentrado em um ou dois países, mas por toda a Europa, de uma ponta a outra, de Bilbau a Baku; de Roma a São Petersburgo. Ironicamente, a final será disputada na capital do país que optou em não mais fazer parte da União Europeia, Londres (Reino Unido).
Há muito ainda a ser feito. Entretanto, em meio a estes tempos sombrios, a Euro 2020 é espécie de pontapé inicial do que o futebol é capaz de fazer: integrar.
E é capaz de fazer muito mais. A candidatura conjunta de Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai para a Copa do Mundo de futebol de 2030 pode estimular – por que não? – um por séculos tão sonhado processo de integração regional sul-americano. Se for resgatado na história, a atual “Liga dos Campeões da UEFA” foi concebida na esteira da euforia da integração europeia, nos anos 1950 do século XX. Na Copa América de 2020, Argentina e Colômbia assim o farão na medida do possível. A comunicação e marketing oficial do evento inclusive já trabalham a ideia de um continente integrado pelo futebol.

EURO 2020 (Foto: Reprodução/Divulgação)

 
Com tudo isso, assim como escrito em colunas anteriores, o futebol tem sido lugar para demonstrações de intolerância. No entanto, é preciso trabalhar de maneira incansável para que ele seja antes de tudo um manancial de bom senso e bons exemplos que o mundo muito precisa.

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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

O esporte possui um poder imenso para unir povos, além de promover a paz e o desenvolvimento.”
Ban Ki-Moon
ex-Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU)

 

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Os donos do negócio

É inegável que o futebol seja capaz de gerar bastante conteúdo. Faz não apenas parte do dia a dia das pessoas, mas da história de um bairro, de uma cidade, capaz de se confundir com a de um país. Identidade, pertencimento, grandes jogos e ídolos são apenas alguns poucos temas que podem ser abordados por uma mídia especializada na modalidade.
Já é, e muito bem feita, inclusive, por inúmeros veículos de comunicação e uma imprensa independente cada vez mais ativa, com enorme poder de alcance e que conquista cada vez mais audiência. Entretanto, engatinha entre os “donos do negócio”, de quem faz a gestão do futebol: as entidades de prática esportiva (clubes) e de administração do esporte (federações e ligas).
Haja vista o poder institucional e mobilizador – em termos de história, representatividade, significado, relevância para a sociedade -, clubes e federações podem trabalhar ainda mais a geração de conteúdo através do futebol em termos de mídia e otimizar suas receitas. Não apenas com negociação de direitos de televisão, mas cientes de que são os donos de um produto ímpar na indústria do entretenimento.
Isso mesmo, entretenimento.
Entretenimento que concorre com inúmeras opções de lazer. No entanto, a resgatar o que foi escrito acima -, futebol é identidade, vínculo, pertencimento, história e cotidiano. Além disso, clubes e federações podem criar um canal de comunicação importantíssimo para a transparência, democracia e princípio de equidade na instituição, elementos fundamentais para a governança. A prazo, a reputação da organização melhora diante da opinião pública e isso é capaz de atrair cada vez mais investimentos, por exemplo, em forma de patrocínio.

Foto: Reprodução/Divulgação

 
Tudo isso é apenas uma pequena parte do que pode ser feito. Marketing e comunicação capazes de trabalhar de um modo mais eficiente e efetivo, um produto inserido em indústria cada vez mais exigente. Ademais, colaborar para a governança da organização em questão.
Portanto, a partir do momento em que fizerem ideia do tamanho do mercado em que ligas, clubes e federações fazem parte e trabalharem para aumentar as receitas, isso naturalmente levará para um ambiente mais profissional e, consequentemente mais transparente em que todas as partes interessadas possuem um papel na tomada de decisão.

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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Não tenho nada em comum com pessoas preguiçosas que culpam os outros por sua falta de sucesso. Grandes coisas vêm do trabalho duro e perseverança. Sem desculpas”.

Kobe Bryant
(1978-2020)

 

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Os “Jotas" e a internacionalização do futebol do Brasil

Treinador galardoado com uma Ordem em seu país de origem. Reconhecimento internacional. Aumento expressivo pelo mundo da audiência da série A do campeonato brasileiro, no ano passado, por conta do fenômeno que tem sido Jorge Jesus como técnico do Flamengo. Pela presença de atletas e treinadores dos nossos países vizinhos, o futebol de clubes do Brasil é conhecido regionalmente, no contexto da América do Sul. É comum os programas esportivos da Argentina, Chile ou Colômbia mostrarem os gols de cada rodada do Brasileirão. No entanto, desta vez um oceano foi “navegado” e vislumbra-se, de maneira mais consistente, uma internacionalização deste futebol de clubes.

Imprensa estrangeira (portuguesa) destaca conquista de clube brasileiro através do trabalho de treinador conterrâneo. (Foto: Divulgação/Reprodução)

 
Não há dúvidas de que Jorge Jesus e os êxitos do Flamengo contribuíram em muito para isso. A vinda de um outro jota, Jesualdo (Ferreira), é capaz de colaborar com este processo. Mas não depende apenas disso. Não são poucos os treinadores europeus que por aqui passaram. Não conquistaram títulos expressivos ou não tinham renome em seus países. Um processo de internacionalização passa por isso também, afinal são elementos que atraem a mídia de outras partes e geram conteúdo. Ademais, lá fora deu-se mais atenção ao fato de o treinador ser estrangeiro, do que propriamente o triunfo do clube em si, como revela acima a reprodução da capa de diário esportivo de Portugal “O Jogo”. Certamente isso não teria acontecido se o Flamengo não tivesse conquistado os títulos do segundo semestre de 2019, tampouco se o técnico fosse outro, sem o recheado currículo do mister rubro-negro. Jesualdo possui um semelhante.
Ao mesmo tempo, o futebol do Brasil (federações, ligas e clubes) deve estar preparado para esta internacionalização. Estão sendo vistos mais lá “fora” e as oportunidades de negócio, naturalmente, aumentam mais. Não apenas para vender futebolistas, mas para que a base de fãs estrangeiros aumente e, por exemplo, simplesmente mais camisas sejam vendidas. É necessário saber comunicar-se com o mundo, quer seja em outros idiomas ou desafios de logística para que os seus produtos estejam ao alcance de todo o globo.
Com tudo isso, é importante – sem dúvida – a presença de atletas e técnicos de outros países. Mas comunicar-se com o mundo não depende disso. A globalização é algo muito antigo e o esporte é há muito tempo uma indústria internacional em um mercado cada vez mais profissional e competitivo. Já dizia Chacrinha: “quem não se comunica, se trumbica”.

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Esforce-se não para ser um sucesso, mas sim para ser de valor”.
Albert Einstein

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Lista de Desejos para 2020

Em tempos de virada de ano reflete-se o que foi feito nos últimos 365 dias e é comum definir metas e ações para o próximo ciclo. Longe da falta de criatividade ou da urgência em escrever algo, é frequente lermos textos dos mais diversos temas que listam aquilo que se espera para o próximo ano. Por mais que o cenário seja utópico e o contexto, complexo, pontuar o que se quer não é vulgar e serve de norte para onde se quer chegar.
No cenário da gestão e, especificamente marketing esportivo dentro do futebol, eis uma breve lista do que se espera para 2020:

  • Que a transparência nas ações das entidades de administração do esporte em nosso país seja prioridade;
  • Que o marketing do futebol trabalhe de maneira incansável na luta contra a intolerância, o racismo e a xenofobia;
  • Que exemplos de boa conduta e cidadania sejam comunicados, a fim de reforçar que o esporte é fonte inesgotável destes bons exemplos;
  • Que as boas práticas de gestão sigam contribuindo com bons resultados dentro e fora de campo;
  • Que as organizações esportivas saibam de maneira clara dos seus propósitos e trabalhem para eles de maneira profissional;
  • Que o futebol seja ainda mais gerador de emprego, renda e riqueza;
  • Que o produto “futebol do Brasil” seja valorizado, em respeito ao torcedor e ao atleta;
  • Que o marketing do futebol seja um manancial de estudos acadêmicos, afinal a ciência conduz à inovação e inovação é condição sine qua non para o desenvolvimento;
  • Que todos tenhamos paciência, porque os resultados não acontecem do dia para a noite;

 

Antes de tudo, não se pode esquecer da essência do futebol, e o que se quer para ele. (Foto: Divulgação/Reprodução)

  • Que os projetos conduzam para os resultados e não o contrário;

 

Um ano 2020 repleto de conquistas e realizações!

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Há quem sustente que o futebol não tem nada a ver com a vida do homem, com as suas coisas mais essenciais. Não sei o quanto essa gente sabe da vida, mas de algo estou seguro: não sabem nada de futebol.”

Eduardo Sacheri,
escritor argentino

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Futebol é ciência

É semana de Natal! Tempo de reflexão e confraternização. É costume trocar presentes e também época de boas novas, assim como foi há pouco mais de dois mil anos. Muito longe de quaisquer comparações, uma boa nova destes dias é a probabilidade da chegada de mais um treinador português para o futebol do Brasil: Jesualdo Ferreira, para o Santos Futebol Clube. Bom, esta coluna está sendo escrita na segunda-feira (dia 23), nada ainda até agora foi definido, por isso da expressão “probabilidade”. Independentemente da vinda dele, é notável a numerosa presença de técnicos portugueses nas principais ligas de futebol do mundo.

Notável, mas não surpreendente.

Há quase quatro décadas que o ensino superior em Portugal, através das suas principais escolas, dedica-se a entender o esporte, e claro, o futebol, como uma ciência. Quer seja dentro de campo, através das análises de jogo; ou fora dele, quando se estuda a gestão da modalidade. Todos os fenômenos são possíveis de serem estudados, analisados, quantificados e compreendidos. Com isso, há o controle e, com o controle, é possível gerir as situações em jogo e aquelas que o influenciam diretamente.

José Mourinho, renomado treinador português de futebol. (Foto: Divulgação/Reprodução)

 

Os grandes treinadores portugueses, sejam eles mais velhos ou mais novos, tiveram em maior ou menor escala contato direto com esta ciência. Há quem diga que o futebol não é uma ciência completamente exata, entretanto, ela te dá as condições para que a chance do erro seja infinitamente menor. Ao mesmo tempo, tem sido provado todos os dias que é sim possível combinar um bom futebol com boas práticas de gestão.

Os resultados de todos esses estudos, que começaram há décadas, não surgiram de maneira imediata. Demoraram para acontecer. O protagonismo mundial que o futebol luso possui levou tempo para que acontecesse. Houve um brilho nos anos 60 do século passado que levou muitos anos para voltar. Em uma primeira análise, especificamente em Portugal e em comparação com o Brasil, o imediatismo não conduz o plano de ação e a opinião pública cobra, sobretudo, pelo bom senso. Por estas bandas, hoje enxergam-se mudanças, mas historicamente é completamente o contrário. Neste cenário, entende-se a frase que esta coluna gosta muito, do Professor português Gustavo Pires: “o problema é que, no mundo do esporte, em inúmeras situações, os projetos decorrem dos resultados e não são os projetos que dão origem aos resultados”.

Diante disso, especialistas falam muito sobre um retrocesso do futebol no Brasil nos últimos anos e isso passa pelos 7 a 1 de 2014 e da ausência do país no topo do mundo da modalidade. Por isso é tempo e urgente que, seja no futebol ou em todos os campos da sociedade, tergiversemos da ambição desmedida, personalista e do imediatismo, para se agir com bom senso e planejamento (projetos), a fim de compreender as situações e resolvê-las e, deste jeito, deixar um legado (resultados).

Um Feliz Natal!

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

 

“O futebol é um serviço público.”
Professor Manuel Sérgio,
Filósofo português (1933 – )

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Se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro

O atual líder da série A do campeonato brasileiro de futebol, o Flamengo – também finalista da Libertadores -, encanta o país com o seu jogo. Dizem os especialistas que o estilo resgata a maneira que fez o Brasil ser reconhecido pelo mundo todo. Seus protagonistas são bem conhecidos. O que chama a atenção é que seus dirigentes trabalham bastante nos bastidores, sem aparecerem tanto. Realidade bastante diferente em comparação com outros anos.

Por outro lado, o clube mais popular de São Paulo, o Corinthians, não tem tido o mesmo desempenho. Muito pelo contrário. Os mesmos especialistas questionam a performance dentro de campo e apontam inúmeros fatores para isso. Diferente do clube carioca, o presidente do clube assume uma entrevista coletiva e dá delicadas declarações que podem interferir no trabalho do plantel.

O que este texto quer ressaltar é que dentro de uma organização existe hierarquia. Responsáveis diretos pela equipe são os membros de uma comissão técnica. Em último lugar, o presidente da instituição, ou o cargo mais elevado. Certamente ele pode querer comparecer a uma entrevista coletiva a fim de esclarecer inúmeras questões levantadas pela imprensa. Sobretudo em situações não muito boas, como foi após a derrota para o CSA. Entretanto é preciso cuidado com as palavras e as colocações, a fim de respeitar uma hierarquia e os comandos dentro desta hierarquia. O uso do vocabulário adequado, em consideração à instituição, à sua história e também à complexidade do momento. É necessário clareza, precisão, a comunicação minuciosamente planejada a fim de não deixar incertezas. A organização – neste caso, o clube -, precisa de um bom ambiente de trabalho para superar crises e uma palavra mal proferida pode, sem dúvida alguma, rotular pessoas, comprometer carreiras e também trabalhos.

Coletiva de imprensa do Flamengo. (Foto: Reprodução/Divulgação)

 

Todos competimos para vencer. Todos queremos ser campeões. No entanto nem todos podem ser campeões ao mesmo tempo, e sempre. É preciso mudar este pensamento, quer seja pelos dirigentes, quer seja pelos torcedores. Gastos indevidos e violência não proporcionam títulos, muito pelo contrário. Um dia, outrora, talvez, a falta de planejamento financeiro proporcionou conquistas para alguns clubes. Outros tempos. Atualmente não há mais quem queira cobrir estas contas. O patrocinador hoje além de levar em consideração os resultados esportivos, tem em conta os resultados institucionais, ou seja, o que a marca ganha em agregar-se a uma outra.

Com tudo isso, uma boa gestão do futebol passa pela comunicação. Uma boa comunicação é capaz de construir, fortalecer, conferir atributos positivos e proteger uma instituição, sem ser omissa. A má comunicação destrói tudo isso. E, para destruir, uma palavra apenas basta. 

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Onde tudo é de todos, nada é de ninguém”.

Pedro Trengrouse,
Professor de Direito Esportivo da Fundação Getúlio Vargas,
sobre o modelo associativo dos clubes de futebol do Brasil

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O futebol reflete uma (doentia) sociedade

Em jogo pelo apuramento ao campeonato europeu de seleções de futebol (Eurocopa) de 2020, a Inglaterra venceu a Bulgária, fora de casa, por 6 a 0. Era para que o placar e o bom futebol fossem celebrados. No entanto, a partida ficou marcada pelos insultos racistas de alguns torcedores búlgaros à seleção inglesa. No empate entre França e Turquia, os turcos comemoraram o gol com uma saudação militar em apoio a ação bélica das tropas do país na Síria. Em Pyongyang, nas eliminatórias para a Copa de 2022, um empate “oxo” entre as Coreias do Norte e do Sul, em um estádio “às moscas”.
É inaceitável que em pleno século vinte e um, o da inovação tecnológica, o da velocidade da informação, o do aumento do fluxo de pessoas e o da plena globalização, a humanidade ainda retroceda em casos de racismo, guerra e intolerância. Nas atividades cotidianas talvez isso passe desapercebido, velado. Mas não. O futebol escancara tudo isso. Como na tese de Marcel Mauss, do “fato social total”, o futebol o é. Por ele se entende a economia, a cultura, as relações humanas e a sociedade. Foi através do esporte-rei que se manifestaram os episódios de intolerância no Bulgária x Inglaterra, das restrições à liberdade no Coreia do Norte x Coreia do Sul e de apoio a ataques militares no França x Turquia.

Coreia do Norte e Coreia do Sul empataram em zero em estádio “às moscas” em Pyongyang. (Foto: Reprodução/AP)

 
Entende-se o porquê de o futebol ser palco de manifestações como esta. Em primeiro lugar, conecta-se com milhões de pessoas ao mesmo tempo. Representam identidades locais e regionais. Suas imagens correm o mundo todo e a opinião pública internacional dará julgamentos sobre cada episódio conforme o que é visto, como, por exemplo, avaliará a aproximação e abertura dos norte-coreanos se vissem um estádio repleto e com torcedores sul-coreanos. Como não foi isso o que aconteceu, talvez Pyongyang queira mostrar ao mundo que a sua abertura será muito mais lenta do que se demonstra em outros aspectos, como o político.
Entretanto, isso não justifica que o futebol deva ser espaço para estas manifestações. Muito pelo contrário. É preciso condená-las, puni-las severamente e relembrar a todos o porquê gostamos deste esporte: pela inclusão, pela união, pela alegria, pela partilha, pela universalidade, por ser um “idioma” único e compreendido por todo o mundo. Não há espaços para diferenças.
Assim sendo, há quem vai dizer que esta coluna está muito “romântica”. Pode ser que seja, sim. Há como mudar isso e esta mudança está na educação, no compartilhamento dos bons valores, do respeito, do jogo limpo. Os mesmos valores que lá no século XIX foram as bases para a criação do jogo de futebol.

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Dizem que o futebol não tem nada a ver com a vida do homem, com as suas coisas mais essenciais. Não sei o quanto esta gente sabe da vida, mas de algo estou certo: não sabem nada de futebol”.
Eduardo Sacheri, escritor argentino

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Imagem e Legado

Há uns dias o autor desta coluna conversava sobre a imagem que uma instituição esportiva quer que o mercado e o ambiente em que atua tenham dela, impressões que lhe sejam conferidas. Por imagem se entende como uma representação visual ou um domínio subjetivo. São, portanto, as representações mentais: visões, fantasias e esquemas. Em outras palavras: atributos.

Muito se falou dos amistosos recentes do Brasil em solo asiático, especificamente em Singapura. Especialistas falam que se trata da internacionalização da marca, o produto “Seleção Brasileira”, o lema “Nascido pra jogar futebol”, chamam a digressão de “Global Tour”, tal e coisa, coisa e tal. Muito disso tem como objetivo trabalhar a imagem da equipe nacional no Brasil pelo mundo, com base em toda a história construída, de títulos e ídolos sempre recordados, em como a “seleção” quer ser lembrada, o legado que ela constrói e deixa por onde passa.

Para que isso aconteça, não basta apenas jogar. Atuar, simplesmente, não deixará legado algum. Legado, segundo o dicionário, é o que é transmitido às gerações que se seguem. Para construí-lo, que está diretamente associado ao conceito de imagem tratado nesta coluna (representações mentais), faz-se necessário envolvimento, criação de vínculo, laços, relações próximas e estreitas. A exemplo do que houve na Copa do Mundo de Rugby, em que alguns jogos foram cancelados por tufão, uma das equipes que tiveram o jogo cancelado trabalhou na limpeza da cidade afetada pela tempestade. Outro exemplo – e vocês vão muito bem se lembrar – é o da Alemanha no Brasil durante o Mundial de 2014: a proximidade, as relações humanas construídas e o trabalho de relações públicas são até hoje mencionados e diretamente influenciaram na imagem da seleção e do futebol alemão.

Neymar durante amistoso do Brasil em Singapura e a placa “Brasil Global Tour” ao fundo. (Foto: Reprodução/Divulgação)

 

Assim sendo, internacionalizar uma marca esportiva, globalizar um produto não significa somente jogar em determinado lugar, fazer um ou outro gol, “dar autógrafo” e ir embora. Nos dias de hoje os vínculos são cada vez mais raros e o ser humano carece deles. São estes tipos de relações que permanecem, contribuem para a imagem e duram muito. Este é o legado.

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“O Brasil precisa vencer pelo que ele tem de sua essência: pela alegria, pela criatividade, pela música, pela boa paz, pela generosidade e pelo amor. Vencer com o que há de pior no espírito humano é uma grande derrota. Afinal, somos ou não o tal país do futuro?”
Afonso Celso ‘Afonsinho’ Garcia Reis