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A importância de uma curadoria de cultura institucional nos clubes de futebol

Crédito imagem: Vitor Silva/Botafogo

Não é de hoje que percebemos o desnivelamento técnico e estrutural entre o futebol brasileiro e o europeu. Algumas iniciativas possíveis e promissoras, como a Liga Brasileira de Clubes (Libra) e as Sociedades Anônimas do Futebol (SAF´s), nos mostram possibilidades interessantes para tornar este esporte um produto mais rentável e de melhor qualidade aos olhos do público local e global. Entretanto, o cenário colocado para estas iniciativas se consumarem ainda se encontra nebuloso: para a Libra, é necessário criar um consenso de grupo e, os clubes de maior torcida são resistentes em perder certos benefícios que possuem no atual modelo de cotas televisivas, por exemplo; e, em relação à SAF, grande parte dos clubes interessados em abandonar o modelo associativo estão com suas finanças comprometidas e com estruturas desportivas deficitárias, afastando a possibilidade de negociações vantajosas junto aos investidores.

Quando colocamos uma lupa sobre muitos clubes brasileiros, também é possível perceber uma característica oposta ao que se observa no mercado europeu e que compromete o desenvolvimento institucional: a grande rotatividade de profissionais nos mais diversos setores, tanto os ligados ao esporte em si, quanto à sua administração. Além da falta de continuidade nos projetos, essa característica impacta diretamente na reprodução da cultura interna da instituição.

A cultura organizacional é a representação do modus operandi e da imagem compartilhada por uma instituição e pode ser percebida tanto pelo seu público interno (colaboradores), quanto externo (clientes, fornecedores, imprensa, parceiros e a sociedade como um todo). Por exemplo, quando um colaborador é contratado, ele traz experiências de outros lugares que atuou e pode levar um tempo até que possa compreender, se adaptar e reproduzir a cultura da sua atual instituição. Já, quando ocorre uma demissão em massa em um setor, os novos colaboradores não terão uma referência de conduta clara e possivelmente criarão uma cultura paralela que pode se chocar com a cultura esperada.

Obviamente, qualquer cultura organizacional está sujeita a produzir aspectos positivos e negativos na forma como as pessoas se relacionam e desenvolvem as suas atividades. Por isso, é importante que a cultura seja a todo momento avaliada, para que os gestores possam perceber se ela está alinhada aos pressupostos presentes na missão, visão e valores da instituição.

Quando um novo presidente toma posse de um clube e a filosofia de trabalho é alterada, será necessário avaliar quais colaboradores se encaixam e quais terão dificuldades em atuar no novo cenário. Por outro lado, o clube que mantem a mesma lógica de trabalho perpassando por diferentes gestões, tende a ter uma cultura corporativa mais ajustada e marcante, gerando maior confiança e adaptabilidade dos novos colaboradores.

Para que a cultura corporativa seja um item de diferenciação positiva em um clube de futebol, diversas inciativas precisam ser adotadas, mas destacamos duas: 1) aumento do número de profissionais capacitados para atuar em todas as áreas do futebol, diminuindo a necessidade de substituição de talentos devido à oferta de propostas financeiras mais vantajosas de outros clubes; 2) o desenvolvimento de políticas de retenção e capacitação interna dos colaboradores, os quais tendem a criar maior vínculo e identidade com as cores e a história do clube em que atuam, servindo como guardiães de sua cultura organizacional.

Na verdade, muitos outros fatores e detalhes invisíveis compõem a cultura organizacional, tais como o acervo de valores, crenças, ética e atitudes que caracterizam uma instituição. Assim como a agulha de uma bússola é capaz de revelar uma direção, todas essas características auxiliam a direcionar as práticas de trabalho e a forma como as pessoas se relacionam, tanto interna quanto externamente à empresa.

Os clubes, principalmente àqueles cuja intenção é aderir à modalidade SAF, devem pensar na implantação de uma curadoria de cultura institucional, a fim de valorizar sua história e adaptá-la às prerrogativas impostas pelas mudanças constantes da tecnologia, da informação e das novas demandas do mercado. Do ponto de vista etimológico, curadoria significa o ato, processo ou efeito de curar, cuidar. A função desta curadoria nos clubes é subsidiar todos os seus setores na pesquisa, seleção e compartilhamento de informações que mantenham a espinha dorsal da instituição alinhada às suas tradições e aos seus objetivos. Sem esta estrutura, um investidor ao assumir o comando de um clube pode transformá-lo de tal forma que não será mais possível reconhecer sua tradição e características. Precisamos lembrar que o futebol e seus clubes não são feitos apenas de cifras financeiras, mas também, de traços culturais subjetivos que dão identidade à lugares e a milhares de pessoas.

As grandes empresas geralmente possuem manuais de conduta, os quais contém informações sobre a postura e atitudes esperadas dos seus colaboradores em diferentes situações cotidianas, envolvendo tanto o público interno quanto externo. Trata-se de um ótimo mecanismo de registro, porém, não servirá ao seu propósito se ficar armazenado dentro de gavetas ou se o colaborador contratado não possui o perfil esperado. Nesse sentido, de forma estratégica é possível selecionar e formar multiplicadores capazes de difundir entre os colegas a vivência de uma cultura institucional rica e pujante, capaz de integrar pessoas e equipes e estimular a criatividade e a ousadia responsável por tornar determinado clube único e admirável. Parafraseando o ditado romano antigo atribuído à Júlio César: “um clube de futebol não basta ser organizado, tem que parecer organizado”.

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SAF e a cultura organizacional dos clubes de futebol brasileiros

Crédito imagem: Reprodução/Sérgio Santos Rodrigues/Instagram

Pouco tempo após a sua criação e aprovação constitucional, o torcedor brasileiro já começa a incorporar em seu vocabulário a sigla SAF – Sociedade Anônima de Futebol. Muitos clubes brasileiros já iniciaram os trâmites legais e organizacionais para deixarem o formato associativo e adotar o novo formato empresarial. Na modalidade SAF, clubes de futebol podem ser “vendidos” total ou parcialmente para um ou mais investidores e, com os recursos financeiros acertados no negócio, esperam ter suas dívidas quitadas e aportar maiores investimentos em infraestrutura e contratação de atletas qualificados. Nesse mundo ideal, muitos torcedores e dirigentes já esperam ansiosos para comemorar os próximos títulos dos principais campeonatos e copas nacionais e internacionais.

Porém, é necessário lembrar que o Campeonato Brasileiro da série A, por exemplo, vai continuar apenas com uma vaga para campeão e outras quatro vagas para o descenso à série B. Sendo assim, teremos muitos clubes em que a adoção da SAF não trará nenhuma possibilidade de títulos relevantes, mas ao menos os possibilitará competir em certo pé de igualdade e, quem sabe, manter-se na divisão principal. Em um paralelo com a empregabilidade, às vezes precisamos fazer um curso de idioma e uma pós-graduação, não para conseguir um melhor salário, mas apenas para mantermos nossos trabalhos.

Os clubes bem estruturados e com torcidas gigantes talvez não adotem o modelo SAF, pois já conseguem realizar relevantes aportes de investimento pelo modelo associativo. Mas, tudo leva a crer que os clubes médios e pequenos que não adotarem o novo modelo ficarão para trás, pois terão muitas dificuldades em captar recursos financeiros de patrocinadores, os quais tenderão a buscar modelos de negócio mais confiáveis.

É importante enfatizar que os clubes que já adotaram ou adotarão o modelo SAF estão em diferentes patamares organizacionais e patrimoniais. Para um investidor essa informação é relevante, pois clubes estruturados oferecem menor risco no negócio, o que possibilita investir maiores valores e prever lucros com maior precisão. Já os clubes menos estruturados e endividados tendem a aceitar negociações desvantajosas, pois nenhum investidor experiente irá apostar suas fichas em um negócio de alto risco. Portanto, clubes que se prepararam melhor para esse novo modelo terão mais chance de prosperar e, quem sabe, romper a bolha dos seletos clubes campeões das grandes competições.

Porém, existe um componente fundamental para análise e que somente por meio dela, um clube se organiza e se estrutura de maneira eficaz: a cultura organizacional. Assim, também chegamos ao ponto de reflexão principal deste texto: uma empresa bem-sucedida não suportaria certos tipos de cultura institucional presentes em muitos clubes de futebol brasileiros.

As empresas são e continuarão a ser locais de convivência entre pessoas das mais variadas características culturais e comportamentais, mas, todas elas devem estar em sintonia para que os objetivos corporativos sejam alcançados. Em nosso país, é relativamente comum presenciarmos clubes com elencos de atletas altamente qualificados realizarem campanhas medíocres, muitas vezes culminando com o rebaixamento à série B e aos consequentes prejuízos financeiros milionários. Mesmo sendo um esporte, a certo grau de previsibilidade é algo fundamental em qualquer negócio.

Toda empresa de sucesso possui procedimentos operacionais muito claros, além de protocolos diversos que orientam seus colaboradores a agirem em diferentes situações. Com isso, a empresa vai construindo um “memorial de ações”, representado pelos manuais técnicos e de conduta, que servem como balizadores do trabalho diário. Quando situações inusitadas ocorrem, rapidamente essas passam a constar nestes manuais. Tudo isso contribui para o engajamento dos colaboradores e para o desenvolvimento de uma cultura institucional viva e eficiente.

Agindo dessa forma, independente da saída ou entrada de novos colaboradores, a empresa mantém um funcionamento coeso com a sua história e com os seus valores, o que gera credibilidade perante seus consumidores, fornecedores, parceiros e à sociedade como um todo. Lamentavelmente, muitos clubes de futebol possuem um funcionamento caótico nesse sentido. Apesar de avanços ocorridos nas últimas décadas, com a profissionalização de diversos setores dos clubes, ainda existe muita interferência política e amadorismo na captação e contratação de colaboradores para certas funções.

Outros clubes já estão bastante profissionalizados em todas as suas áreas, mas devido à pressão por resultados rápidos, promovem mudanças constantes no quadro de atletas e de profissionais das comissões técnicas, o que contribui para o desenvolvimento de uma cultura organizacional fraca e volátil, incapaz de estabelecer uma relação harmoniosa com a missão, objetivos e valores contidos no planejamento estratégico do clube.

Assim como certos elementos da cultura existentes em nossa sociedade são passados através das gerações e formam o que podemos chamar de uma “identidade nacional”, a cultura de uma empresa é mantida e fortalecida pelas ações dos colaboradores mais antigos, as quais são ensinadas e transmitidas aos recém-contratados. Um clube com mudanças frequentes no quadro de colaboradores terá dificuldade para desenvolver uma cultura organizacional reconhecível e confiável. Como resultado desse cenário, existe a possibilidade de cada indivíduo assumir um comportamento que mais lhe beneficia. Em outras palavras, os egos se sobressaem perante o sentido coletivo e o caos acaba reinando na instituição.

O fato é que os clubes que irão adotar o modelo SAF precisam estar atentos às necessidades técnicas, culturais e econômicas contemporâneas, reavaliando suas estruturas de trabalho com vistas ao desenvolvimento de uma cultura organizacional que forneça o suporte necessário a todo trabalho nele desenvolvido. Somente na direção de um pensamento sistêmico é possível criar um elemento integrador entre todas as áreas e colaboradores do clube: do marketing à comissão técnica, do presidente ao massagista. Dessa forma, o clube passa a ser reconhecido como uma instituição comprometida com o esporte e com a sociedade, gerando a confiança dos sócios, torcedores, imprensa e deles: os investidores.