SAF e a cultura organizacional dos clubes de futebol brasileiros

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Crédito imagem: Reprodução/Sérgio Santos Rodrigues/Instagram

Pouco tempo após a sua criação e aprovação constitucional, o torcedor brasileiro já começa a incorporar em seu vocabulário a sigla SAF – Sociedade Anônima de Futebol. Muitos clubes brasileiros já iniciaram os trâmites legais e organizacionais para deixarem o formato associativo e adotar o novo formato empresarial. Na modalidade SAF, clubes de futebol podem ser “vendidos” total ou parcialmente para um ou mais investidores e, com os recursos financeiros acertados no negócio, esperam ter suas dívidas quitadas e aportar maiores investimentos em infraestrutura e contratação de atletas qualificados. Nesse mundo ideal, muitos torcedores e dirigentes já esperam ansiosos para comemorar os próximos títulos dos principais campeonatos e copas nacionais e internacionais.

Porém, é necessário lembrar que o Campeonato Brasileiro da série A, por exemplo, vai continuar apenas com uma vaga para campeão e outras quatro vagas para o descenso à série B. Sendo assim, teremos muitos clubes em que a adoção da SAF não trará nenhuma possibilidade de títulos relevantes, mas ao menos os possibilitará competir em certo pé de igualdade e, quem sabe, manter-se na divisão principal. Em um paralelo com a empregabilidade, às vezes precisamos fazer um curso de idioma e uma pós-graduação, não para conseguir um melhor salário, mas apenas para mantermos nossos trabalhos.

Os clubes bem estruturados e com torcidas gigantes talvez não adotem o modelo SAF, pois já conseguem realizar relevantes aportes de investimento pelo modelo associativo. Mas, tudo leva a crer que os clubes médios e pequenos que não adotarem o novo modelo ficarão para trás, pois terão muitas dificuldades em captar recursos financeiros de patrocinadores, os quais tenderão a buscar modelos de negócio mais confiáveis.

É importante enfatizar que os clubes que já adotaram ou adotarão o modelo SAF estão em diferentes patamares organizacionais e patrimoniais. Para um investidor essa informação é relevante, pois clubes estruturados oferecem menor risco no negócio, o que possibilita investir maiores valores e prever lucros com maior precisão. Já os clubes menos estruturados e endividados tendem a aceitar negociações desvantajosas, pois nenhum investidor experiente irá apostar suas fichas em um negócio de alto risco. Portanto, clubes que se prepararam melhor para esse novo modelo terão mais chance de prosperar e, quem sabe, romper a bolha dos seletos clubes campeões das grandes competições.

Porém, existe um componente fundamental para análise e que somente por meio dela, um clube se organiza e se estrutura de maneira eficaz: a cultura organizacional. Assim, também chegamos ao ponto de reflexão principal deste texto: uma empresa bem-sucedida não suportaria certos tipos de cultura institucional presentes em muitos clubes de futebol brasileiros.

As empresas são e continuarão a ser locais de convivência entre pessoas das mais variadas características culturais e comportamentais, mas, todas elas devem estar em sintonia para que os objetivos corporativos sejam alcançados. Em nosso país, é relativamente comum presenciarmos clubes com elencos de atletas altamente qualificados realizarem campanhas medíocres, muitas vezes culminando com o rebaixamento à série B e aos consequentes prejuízos financeiros milionários. Mesmo sendo um esporte, a certo grau de previsibilidade é algo fundamental em qualquer negócio.

Toda empresa de sucesso possui procedimentos operacionais muito claros, além de protocolos diversos que orientam seus colaboradores a agirem em diferentes situações. Com isso, a empresa vai construindo um “memorial de ações”, representado pelos manuais técnicos e de conduta, que servem como balizadores do trabalho diário. Quando situações inusitadas ocorrem, rapidamente essas passam a constar nestes manuais. Tudo isso contribui para o engajamento dos colaboradores e para o desenvolvimento de uma cultura institucional viva e eficiente.

Agindo dessa forma, independente da saída ou entrada de novos colaboradores, a empresa mantém um funcionamento coeso com a sua história e com os seus valores, o que gera credibilidade perante seus consumidores, fornecedores, parceiros e à sociedade como um todo. Lamentavelmente, muitos clubes de futebol possuem um funcionamento caótico nesse sentido. Apesar de avanços ocorridos nas últimas décadas, com a profissionalização de diversos setores dos clubes, ainda existe muita interferência política e amadorismo na captação e contratação de colaboradores para certas funções.

Outros clubes já estão bastante profissionalizados em todas as suas áreas, mas devido à pressão por resultados rápidos, promovem mudanças constantes no quadro de atletas e de profissionais das comissões técnicas, o que contribui para o desenvolvimento de uma cultura organizacional fraca e volátil, incapaz de estabelecer uma relação harmoniosa com a missão, objetivos e valores contidos no planejamento estratégico do clube.

Assim como certos elementos da cultura existentes em nossa sociedade são passados através das gerações e formam o que podemos chamar de uma “identidade nacional”, a cultura de uma empresa é mantida e fortalecida pelas ações dos colaboradores mais antigos, as quais são ensinadas e transmitidas aos recém-contratados. Um clube com mudanças frequentes no quadro de colaboradores terá dificuldade para desenvolver uma cultura organizacional reconhecível e confiável. Como resultado desse cenário, existe a possibilidade de cada indivíduo assumir um comportamento que mais lhe beneficia. Em outras palavras, os egos se sobressaem perante o sentido coletivo e o caos acaba reinando na instituição.

O fato é que os clubes que irão adotar o modelo SAF precisam estar atentos às necessidades técnicas, culturais e econômicas contemporâneas, reavaliando suas estruturas de trabalho com vistas ao desenvolvimento de uma cultura organizacional que forneça o suporte necessário a todo trabalho nele desenvolvido. Somente na direção de um pensamento sistêmico é possível criar um elemento integrador entre todas as áreas e colaboradores do clube: do marketing à comissão técnica, do presidente ao massagista. Dessa forma, o clube passa a ser reconhecido como uma instituição comprometida com o esporte e com a sociedade, gerando a confiança dos sócios, torcedores, imprensa e deles: os investidores.

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Fernando Schena é Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Paraná e Gestor Técnico de Futebol pela Universidade do Futebol, onde é membro do Grupo de Estudos sobre Neurociência e Performance.

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