Categorias
Colunas -

A força do treino no futebol

Crédito imagem: Leonardo Moreira/Fortaleza

Não quero repetir que contratar técnico estrangeiro não é garantia de sucesso. Se tivermos vinte treinadores de fora no Brasileirão, ainda assim, apenas um será campeão e quatro serão rebaixados. Já critiquei dirigentes que vão no modismo, tentando surfar na onda do sucesso de outros clubes, desprezando totalmente o contexto – não é porque deu certo trazer um técnico estrangeiro no time A que necessariamente o time B será vencedor usando do mesmo expediente.

Porém, observando atentamente declarações de jogadores e desses próprios técnicos, além de vídeos oficiais das atividades internas (o acesso da imprensa segue restrito por conta da pandemia), tem me chamado a atenção a valorização do treinamento por parte desses profissionais. É comum ouvirmos atletas falando que nunca aprenderam tantas coisas novas. Pronto! Aqui temos um diferencial!

A nossa cultura nunca valorizou o treino. Sempre aceitou-se por aqui treinar de qualquer jeito. Pular sessão de treino. Como se fosse algo normal. E não é! Não existe jogo de qualidade sem um treino de qualidade. Não é um estádio lotado que fará o jogador, por exemplo, ser intenso e agressivo nas ações com e sem a bola. Não adianta o treinador ficar a beira do campo berrando, cobrando isso. Tem que ser algo treinado! Tem que estar no inconsciente do atleta. Tem que ser comportamento! E sem uma metodologia muito clara e bem executada durante a semana nenhum princípio de jogo será transferido pro jogo de domingo.

Claro que há treinadores brasileiros que dominam conhecimentos avançadíssimos de treino. Mas falo aqui de uma cultura. Nossa “escola” de treinadores é super recente. Temos pouquíssima literatura nacional a respeito do tema. Afinal, no futebol “antigo” o bom treinador era aquele que não atrapalhava. Os nossos jogadores eram os melhores do mundo, então para que treinar?

O sucesso no futebol é constituído de inúmeras variáveis. O treino é uma delas. Se essa onda de profissionais estrangeiros servir para elevar o nível e a consciência a respeito do treinamento por aqui já terá sido de grande valia. Treinadores vão, mas a cultura fica. E pelo nível do nosso futebol hoje já deu pra perceber que as fórmulas do passado não funcionam no presente e muito menos funcionarão no futuro.

Categorias
Colunas -

Rótulos e modismos no futebol brasileiro

Crédito imagem: Divulgação/Al-Duhail

Dezembro de 2016. O Corinthians ainda sentia a ausência do técnico Tite, que alguns meses antes havia saído do clube para assumir a seleção brasileira. Sem treinador, o Corinthians não sabia muito bem que rumo tomar. Tentou alguns nomes, cada um com um perfil, ouviu alguns nãos, e de repente, muito de repente mesmo, sem qualquer tipo de convicção, com a temporada 2017 prestes a começar, pinçou o então auxiliar Fábio Carille. Uma solução barata, acessível e que faria os dirigentes ganharem tempo na busca por um nome de mais peso. 

Mas Carille tinha qualidade. Passou muito tempo aprendendo com Tite e Mano Menezes. A solidez defensiva que marcou a década vitoriosa do clube tinha o dedo de todos e Carille soube transportá-la ao seu trabalho autoral. Pelo tempo de casa, ele conhecia muito bem o clube, o ambiente interno e a torcida. E os resultados positivos passaram a acontecer. De quarta força a campeão Paulista e Brasileiro. 

Vendo o Corinthians vitorioso com essa “fórmula” os outros times passaram a copiá-la. Oras, se deu certo lá pode dar certo aqui, pensaram vários dirigentes pelo país. A moda então passou a ser apostar em técnicos jovens. Vindos da base ou auxiliares permanentes… só que pouca gente entendeu que o contexto vitorioso de Carille no Corinthians era extremamente único. Como todo contexto é: não dá para desprezar as relações internas e externas, a identidade, a história, as finanças, enfim, cada cenário é de uma forma e pede uma intervenção única. 

Como não se tratou de apenas uma temporada, em 2018 o campeão brasileiro foi o Palmeiras com o experiente Luis Felipe Scolari no comando. Adivinha qual foi a tendência? Exato, técnicos medalhões. Com vivência. Que conseguiam dominar o vestiário, coisa que os mais jovens não sabiam… veja que aí o exemplo de Carille em 2017 já não valia…

Nesta linha do tempo, está mais do que claro porque todo mundo quer em 2022 um técnico português… isso mesmo, porque as últimas três Libertadores foram vencidas por Abel Ferreira e Jorge Jesus. 

Enquanto não houver qualificação profissional, convicção, visão de médio e longo prazo e embasamento técnico em quem tem a caneta nas mãos, o futebol brasileiro seguirá refém de rótulos e modismos.

Categorias
Colunas -

Como (não) escolher um treinador

Crédito imagem: AFP

O espaço gigantesco que o treinador ocupa hoje no contexto do futebol mundial não é por acaso. Em um cenário globalizado, em que a informação e o conhecimento são acessíveis a todos, mais do que a quantidade do que se sabe, vale a sabedoria em escolher os elementos certos que aproximem um grupo da vitória. Além disso, a flexibilidade para se adaptar a diferentes ambientes, dentro de uma inteligência circunstancial, também é uma competência de extremo valor para um técnico ter sucesso.

Por isso, contratar um profissional não pode ser algo aleatório. Com base em ‘achismo’ ou ‘vi e ouvi falar bem’ desse sujeito… aqui, mais do que ideia de jogo, conceitos, modelo, falo de comportamento, perfil emocional e relacional. Quais clubes, sobretudo brasileiros, sabem de fato o ‘pacote’ que estão comprando?

Tomo como exemplo a busca atual do Flamengo para o substituto de Renato Gaúcho. Se justifica racionalmente a busca prioritária por um profissional português? Entendo a passagem brilhante de Jorge Jesus pelo clube e até mesmo a referência de Abel Ferreira no Palmeiras. Porém a capacidade deles em nada tem a ver e vai muito além do fato de serem portugueses. Um mínimo elemento é o idioma. Só! Até porque muita gente no clube carioca não entendia algumas coisas que Jorge Jesus falava…

Português, espanhol, brasileiro….a nacionalidade não pode ser critério para a escolha do líder do processo de um time de futebol. Um treinador vai muito além do passaporte. Repito: o que vai definir o sucesso do trabalho é capacidade relacional, gestão do ambiente, boas relações interpessoais, inteligência emocional, metodologia de treino, ideias adaptáveis e eficazes de jogo e etc. O sucesso é previsível. É construído e arquitetado. Apego emocional e pouco critério sólido não combinam com títulos… tentativa e erro não cabem em um mundo profissional…

Categorias
Colunas -

Vamos desfrutar de Abel Ferreira

Crédito imagem: Reprodução/SE Palmeiras

O empoderamento que os treinadores estrangeiros têm aqui no Brasil é inegável. O ambiente os protege mais. Torcida, imprensa, diretoria…todos têm uma paciência e uma tolerância maior. Porém, chega um momento que esse prazo extra se esgota e eles entram no mesmo balaio dos técnicos brasileiros: ou ganha ou sai. Por isso, no final das contas, o que vai prevalecer é a competência. É a qualidade do trabalho. Independentemente da nacionalidade, todo técnico aqui no Brasil paga, cedo ou tarde, pelo imediatismo e ausência de critério de avaliação por quem toma as decisões.

Por isso, quando o português Abel Ferreira vem aqui e com tão pouca idade – 42 anos – conquista esses excelentes resultados com o Palmeiras e, mais do que isso, convence não só pelo jogo, mas também pela comunicação, pelo exemplo, oratória e mentalidade, devemos aproveitar, usufruir e aprender ao máximo.

Abel é um estrategista nato e estuda o jogo nos seus pormenores. Ainda temos dificuldades em avaliar e conceituar termos como jogo bonito, jogo propositivo, jogo eficiente e etc. Ainda paira uma errônea ideia de que para jogar bem tem que ter mais posse de bola que o adversário, ficar mais tempo instalado no campo ofensivo, trocar mais passes e etc. Abel nos mostra que a beleza está em se ter uma ideia clara do que fazer com e sem a bola, em todas as fases do jogo, e executar tudo isso o mais próximo da excelência. 

E o que dizer da mentalidade preparada para o alto rendimento que o técnico português demonstra em cada aparição pública, com os microfones… além de explicar detalhadamente o porquê de cada decisão técnica e tática, Abel fala com uma propriedade acima da média para os nossos padrões sobre alta performance, cultura vencedora, sucesso pessoal e coletivo. Com seus conhecimentos sobre PNL (Programação Neurolinguística), o português dá aula em cada entrevista sobre liderança, relações interpessoais e de como fazer uma gestão eficaz do ambiente.

Um dos erros que não podemos cometer no futebol é acreditar que já sabemos tudo. Que o nosso conhecimento atual, seja pelo estudo seja pelo tempo de prática, já nos condiciona ao sucesso. É preciso humildade e mente aberta para aprender com tudo e com todos. Enquanto ficarmos repetindo que somos os pentacampeões mundiais e que os outros é que têm que aprender com nós estaremos não apenas parados no mesmo lugar, mas sim regredindo. Sim, temos que aprender com o português Abel Ferreira!