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30/01/2018

As vaias nos Estaduais: apenas pressa?

Disputado no último sábado (27), o clássico entre Flamengo e Vasco, válido pelo Estadual de futebol do Rio de Janeiro, não teve gols. Não chamou atenção por dribles, jogadas de efeito ou mesmo pela disposição. No entanto, há um motivo para o jogo ter sido extremamente emblemático: foi a partida em que uma parcela considerável da torcida rubro-negra demonstrou ter perdido totalmente a paciência com Éverton Ribeiro e Rômulo, dois dos reforços mais caros que desembarcaram na Gávea nas últimas temporadas. Ambos foram vaiados por torcedores que queriam mais espaço para atletas como Lucas Paquetá e Ronaldo, que atuam nas mesmas posições dos medalhões criticados.

Rômulo chegou ao Flamengo no início de 2017, e Éverton Ribeiro foi contratado meses depois. Ambos voltaram ao Brasil sob grande expectativa – eram postulantes a vagas na seleção quando foram negociados por Cruzeiro e Vasco, respectivamente. Pelo que fizeram anteriormente em suas carreiras e pelos valores que movimentaram na ida e na volta ao país, preencheram sonhos de muitos rubro-negros.

As duas negociações têm a ver com um momento positivo das finanças do Flamengo. A diretoria vigente conseguiu reduzir consideravelmente a dívida, aumentar o potencial de investimento do clube e reforçar o elenco com jogadores de um nível alto de custo.

Entretanto, a chance de ir ao mercado e brigar por nomes de peso fez com que o time carioca fechasse um pouco os olhos para seu próprio DNA. A reação dos torcedores ao rendimento claudicante dos reforços tem muito a ver com o time que eles gostariam de ver em campo: um perfil mais aguerrido, mais ligado às raízes. Em outras palavras, os rubro-negros podem até se empolgar com atletas que recebem salários milionários, mas ainda preferem jogadores forçados no próprio clube e que realmente os representem em campo.

Os torcedores não vaiaram Rômulo e Éverton Ribeiro apenas porque os reforços ainda não se encaixaram (e essa falta de encaixe pode ter inúmeras razões). Vaiaram porque o time que eles gostariam de ver em campo teria Ronaldo, Lucas Paquetá e outros garotos revelados pelo próprio Flamengo, identificados com o clube e com o Rio de Janeiro.

Os apupos também refletem um aspecto cruel do atual calendário do futebol brasileiro. Os torneios estaduais, do jeito que estão posicionados, funcionam apenas como usinas de pressão e de rótulos. O primeiro mês de 2018 ainda não acabou, mas já serviu para criar craques e determinar nomes desprezíveis.

No Santos, por exemplo, o menino Rodrygo, de 17 anos, precisou de poucos minutos em campo para se tornar o próximo raio da Vila. Montagens já começaram a circular entre torcedores com fotos que simbolizam passagens de bastão entre Pelé, Robinho, Neymar e o novo candidato a jogador.

Em contrapartida, Rodrigão precisou de apenas alguns jogos da temporada para ratificar a desconfiança que a torcida tinha com ele. O centroavante já foi eleito como vilão e ponto fraco de um elenco com tanto a se acertar na atual temporada.

Kazim (Corinthians) e Borja (Palmeiras) também já convivem com pressão a despeito de terem feito poucos jogos na temporada. E Felipe Melo, que até outro dia era uma incógnita na equipe alviverde, virou uma das grandes armas do meio-campo montado por Roger Machado.

A sensação de que o futebol brasileiro tem vivido de certezas inócuas e voláteis, por mais paradoxal que isso seja, tem sido ainda mais clara numa temporada em que os principais times do país não tiveram tempo para se preparar adequadamente. O futebol pode evoluir em diferentes aspectos, mas nunca vai atingir um patamar mais alto se não respeitar as necessidades básicas de aspectos físicos e técnicos.

Num calendário apertado pela Copa do Mundo e por estaduais que teimam em não diminuir, a primeira fase da temporada serve apenas para que os grandes times do país sejam testados em condições inadequadas e convivam com pressão que não faz nada bem ao trabalho.

Contudo, não se pode confundir a pressa que os estaduais geram com um descolamento entre o projeto dos clubes e o anseio de seus torcedores. O processo de comunicação deve lutar constantemente com esses exageros do Brasil no início do ano, mas também precisa considerar a importância de entender o que o público quer. Os flamenguistas são apenas um exemplo disso.

Comentários

  1. Marcelo disse:

    Um dos dois citados jogadores, Éverton Ribeiro, tem sido vaiado pq não vem correspondendo às expectativas justamente criadas em cima dele. Por algum motivo, ainda não vingou no fla, mas não é pq os torcedores querem a prata da casa etc.. claro que se o jogador for Um craque e ainda for formado na Gávea melhor…por diversas razões. Mas Não vejo que a identigicacao com o clube esteja ligada ao jogador ser das divisões de base. Éverton Ribeiro me parece a princípio abaixo do potencial de desenvolvimento físico que poderia alcançar….poucos jogadores atuais no mercado tem as qualidades que Possui. Sem contar que não esteve tão abaixo dos outros jogadores, mas abaixo sim das expectativas que são geradas pela qualidade que sabemos que possui.

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