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Na última década, o futebol brasileiro assistiu à consolidação da presença da assessoria de imprensa no dia-a-dia de um clube. Até o final dos anos 90, o torcedor estava acostumado a ver qualquer jogador do time dando entrevista após um treino, falando como quisesse, para quem lhe conviesse.

Aí vieram os grandes investimentos, as contratações a peso de ouro e a europeização do relacionamento jornalista-atleta. Foi quase na virada do milênio que começamos a ver os primeiros “assessores” de imprensa nos clubes. Preocupados com a informação e, principalmente, com a maneira como a informação ia de jogadores e treinadores para os veículos de imprensa. 

Os primeiros anos desse relacionamento foram turbulentos. Brigas, jogadores e treinadores brigando com jornalistas mais “abusados”, assessores ganhando a fama de vilões. Agora, porém, o equilíbrio na relação parece que começa a ser atingido. E o problema é que, com isso, entramos na era do emburrecimento da cobertura do futebol.

Assessoria de imprensa começa a significar para o jornalista ter todo tipo de informação à mão, sem precisar de esforço, sem ter de se preocupar em correr atrás da notícia. É só reparar. Portugal, até hoje, é para mim o exemplo mais claro dessa pasteurização da informação. 

O país tem quatro grandes veículos dedicados exclusivamente ao esporte. E é praticamente raro você ler qualquer notícia diferente num dos quatro. O jornalismo sempre se baseia nas declarações pós-treino. Como sempre são os mesmos jogadores a falar para toda a imprensa, a situação não muda muito de figura de um jornal para outro.

No Brasil, ainda temos muito a cultura de buscar uma notícia exclusiva, de tentar encontrar algo diferente dentro da mesmice que é um treino. Mas geralmente isso só acontece quando se fala de todo o clube, e não especificamente de um único atleta. Por quê?

Porque a preocupação de estudar um jogador não está no dia-a-dia de um jornalista. Ele quer esmiuçar tudo do clube, mas não do atleta. E aí é que vemos o quanto a falta de estudo ajuda para a pasteurização da cobertura.

Nas próximas semanas veremos jogadores chegando e voltando da Europa, com a janela de transferências para o exterior em franca atividade. E, com isso, atletas que já foram ídolos em um determinado clube desembarcarão agora numa agremiação rival. 

Em vez de lembrar o passado desse jogador e procurar, dentro dessa história, alguma coisa diferente para destacar, o jornalista vai esperar a apresentação do atleta para então, baseado nas suas respostas, produzir o noticiário que irá ao público. 

“Fulano diz que não comemorará gol contra ex-clube”

“Cicrano diz que respeita ex-clube, mas celebrará o gol”

Sim, ainda veremos, nos próximos dias, algumas manchetes edificantes como os dois exemplos acima. Por incrível que pareça, aquela frase despretensiosa dita por Edmundo no ano 2000 virou hit para quando um novo atleta é apresentado após passagem num grande rival.

Romário e Edmundo foram bons protagonistas de histórias assim. Marcelinho Carioca, toda vez que joga contra o Corinthians, tem de passar por semelhante périplo. Da mesma forma que Tinga teve de se explicar bastante depois de ter sido campeão da Copa do Brasil pelo Grêmio e ganhar a América no Inter. 

Falta estudo sobre o jogador para não cair na mesmice de sempre. Falta vontade ao jornalista de não pensar no trabalho apenas no período em que está dentro da redação. E falta mais vontade ainda de “driblar” a assessoria, não se contentando com a informação que esta lhe manda. 

Do contrário, o jornalismo esportivo no Brasil caminha para a mesma pasteurização de Portugal.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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