Desenvolvimento motor e o espaço da liberdade – é um risco não deixar as crianças se arriscarem

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O desenvolvimento motor deve ser entendido como uma mudança contínua no comportamento motor ao longo da vida e que é provocado pela interação entre as exigências da tarefa motora, a biologia do indivíduo e as condições ambientais[1]. Esse conceito reforça a tese de que o movimento nada mais é do que vida.

Modelos clássicos discorrem sobre a existência de fases e estágios do desenvolvimento motor, que vão desde o movimento reflexo, passando pelos movimentos rudimentares, fundamentais, chegando à fase denominada especializada; em cada estágio descrito, há características próprias associadas aos movimentos esperados em determinadas faixas etárias.

Essas sequências não consideram aspectos culturais e sociais no desenvolvimento do indivíduo, salvaguardando marcadores padronizados de movimento. Em sua obra Educação de corpo inteiro: teoria e prática da Educação Física[2], o Professor João Batista Freire entende que, ao considerar padrões do movimento, o mundo deveria ser padronizado da mesma forma. Assim como não podemos controlar a imprevisibilidade ou os perigos presentes no mundo, em vez de padrões, deveríamos considerar a manifestação de esquemas motores, onde os movimentos são construídos pelos sujeitos, em cada situação e que levam em conta a subjetividade biológica e psicológica de cada um, além das condições ambientais.  

Quanto aos perigos do mundo, que é o tema deste artigo, dá para proteger as crianças de todos eles? Elas devem ou não correr riscos? Para responder tais questões, é interessante pontuar a diferença entre perigo e risco: enquanto o primeiro está relacionado ao agente causador, o segundo se refere à possibilidade de ocorrência do fato e depende do nível de exposição ao perigo, por exemplo: uma piscina oferece perigo para quem não sabe nadar e o risco é o afogamento. Levando em conta que tais conceitos caminham juntos e que fazem parte de todo e qualquer ambiente, não é razoável tentar eliminá-los totalmente do desenvolvimento da criança[3]

Na contramão dessa ideia, e a partir da concepção de que o risco é um fator adverso, pesquisadores da área têm estudado sobre uma cultura de aversão ao risco, ou seja, cada vez mais o ambiente que a criança brinca é controlado e, consequentemente, previsível; no ímpeto de eliminar qualquer tipo de proximidade aos perigos e riscos do mundo, estabelecendo diversas restrições, o desenvolvimento da criança acaba sendo limitado. As tentativas de controlar totalmente os aspectos ambientais – sendo uma missão (praticamente) impossível -, resultam em um repertorio motor pobre; isso porque é a interação entre os fatores ambientais, individuais e da tarefa, que balizam e influenciam diretamente o desenvolvimento humano.  

Falas como: “cuidado para não se sujar” ou “atenção para não se machucar”, ou até mesmo orientações que limitam a exploração do ambiente por parte da criança, como por exemplo, repreendê-las ao tentar subir o escorregador – sendo que essencialmente a função do brinquedo é descer -, podem parecer insignificantes, mas elas exprimem essa tentativa de moderar as ações das crianças e a de limitar o brincar. Há também a influência dos aspectos sociais, que tornou raro o jogo de rua, que foi substituído por uma “cultura de telas”, resultando num tempo livre considerado passivo e que arrebatou experiências ricas – em todos os sentidos – que a brincadeira de rua proporciona ao indivíduo. Restrições excessivas, ambientes e brinquedos previsíveis, que oferecem poucas oportunidades de interações sociais, são pouco desafiantes e não lidam com o risco, e refletem um desenvolvimento motor aquém do esperado. 

Convido-os a refletir sobre um ponto: se a essência do movimento é a vida, brincar com o risco e se desafiar é necessário, e é isso que vai trazer vitalidade no decorrer do nosso desenvolvimento. É inegável que, biologicamente, temos uma predisposição à proteção e, talvez, isso explique os comportamentos dos adultos que tentam de todas as maneiras controlar os ambientes e proteger as crianças. Mas devemos atentar para os excessos. Nossas experiências não são todas iguais e, por isso, temos que olhar para o nosso ambiente e perceber a potência que ele carrega e a influência que ele exerce sob o nosso desenvolvimento e aprendizagem. Afinal, aprendemos e nos desenvolvemos a partir da liberdade e não do controle do risco.


[1] GALLAHUE, D.L.; OZMUN, J.C.; GOODWAY, J.D. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. Tradução: Denise Regina de Sales; revisão técnica: Ricardo D. S. Petersen. – 7. ed. – Porto Alegre: AMGH, 2013.

[2] FREIRE, JB. Educação de corpo inteiro: teoria e prática da educação física. São Paulo: Scipione, 2009.

[3] Seminário apresentado pela Professora Doutora Rita Cordovil, no III Encontro Mineiro de Comportamento Motor, disponível no link: < https://www.youtube.com/watch?v=kl3iCmMxi5M> Acesso em: 11 de setembro de 2020.

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Formada em 2016 no curso de licenciatura e bacharelado em Educação Física pela Universidade Paulista (UNIP) e Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFEUSP). Participou das Olimpíadas Estudantis da cidade de São Paulo como atleta e como Professora na modalidade Futsal; como docente comandou equipes femininas e masculinas, de crianças/adolescentes entre 9 e 15 anos.

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