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Cerca de três meses antes da coroação do pentacampeonato mundial que o Brasil conquistara ao derrotar a Alemanha em Yokohama (lá em 2002), uma semente de pensamento crítico aos bastidores do esporte era plantada a partir da Casa Branca nos EUA.

Condoleezza Rice, uma das figuras mais emblemáticas no governo de George W. Bush (à época ainda como conselheira de segurança nacional, passando a secretária de estado no segundo termo da mesma administração) e que também atuara na linha de frente pelo fim da Guerra Fria junto a George H.W. Bush – o pai – entre 1989 e 1991 (dialogando com os soviéticos no ápice da queda do Muro de Berlin), posicionou-se como uma visionária ao anunciar um sonho ainda distante, outrora destoado como mera ilusão, mas que despertara o potencial para futuras reformas no esporte.

Seu sonho era assumir a NFL como comissária da liga. Sim, tornar-se CEO do futebol da bola oval.

As duas primeiras décadas do século XXI se desenrolaram com as guerras do Afeganistão (ainda vigente) e do Iraque sob o radar de Condoleezza Rice, cuja descendência afro-americana ganhara tons de confiança, otimismo e esperança ao testemunhar Barack (e Michelle) Obama conduzir(em) a maior potência do livre mercado ao protagonismo empático, participativo e democrático. E mesmo com recentes obstáculos, o esforço pela manutenção de oxigênio diplomático finalmente voltou a respirar novos ares, agora respaldado por Kamala Harris como símbolo de continuidade na quebra de estereótipos no alto escalão.

Ao mesmo tempo, desde o pentacampeonato, uma das maiores nações do futebol global manteve-se ativa em quatro ciclos de Copa do Mundo (ou cinco, se já validarmos 2022), acreditando que uma nova taça pudera simbolizar sua métrica de sucesso frente a opinião pública. Embora importante, a qualidade da Seleção em um torneio de curto prazo (que acontece a cada quatro anos) difere (e muito) da qualidade do esporte praticado no país. Pois enquanto um elenco nacional tem o privilégio de atrair peças de vanguarda europeia, o desenvolvimento sistêmico da modalidade ainda depende de uma estrutura doméstica com mentalidade estratégica, orientação tática e valorização operacional. Aqui, isso seria um sonho ou ilusão?

É verdade que Condoleezza Rice não assumiu (até o momento) a tão sonhada liderança executiva do esporte que atrai os maiores índices de audiência e apelo comercial no planeta, apesar de receber incentivo midiático no território. Por outro lado, ela vivenciou (em 2016) a implementação de regras exigindo que a NFL passasse a entrevistar pelo menos uma mulher para cada um de seus cargos executivos, potencializando a presença feminina com taxas que se aproximam de 35% nos escritórios da liga nos últimos anos. Evolução de longo prazo é assim mesmo, gradual quando há consistência.

Aliás, 2021 marca o primeiro Super Bowl da história com uma árbitra dirigindo a final em campo. Para quem desconhece o esporte, 40 das 50 maiores audiências do século atual na TV americana são ocupadas por jogos da NFL (com números recentes acima de 100 milhões de espectadores acompanhando a final da liga somente nos EUA – Pressão de Copa do Mundo para a arbitragem!). Enquanto Sarah Thomas rompe paradigmas no futebol americano, Jeanie Buss (proprietária e presidente do Los Angeles Lakers) e Becky Hammon (auxiliar técnica de Gregg Popovich no San Antonio Spurs) representam a mudança de mentalidade no basquete masculino, cuja liderança enaltece a competência feminina dentro e fora das quadras na NBA (que já supera uma dezena de profissionais do gênero ocupando cargos técnicos na liga).

Expandindo os exemplos no cenário esportivo masculino, podemos transitar pelo beisebol, onde Kim Ng foi recém-apontada como gerente geral do Miami Marlins na MLB (a primeira mulher na função desde a criação do posto em 1927), pelo tênis, onde Zehra Mešić foi promovida a vice-presidente de finanças da ATP (acumulando experiências com orçamento e contabilidade no circuito masculino desde 2006), e até mesmo pelo rugby, onde Raelene Castle se destaca como referência de gestão na modalidade (CEO na Austrália entre 2017 a 2020). Quanto ao futebol europeu, Susan Whelan (CEO do Leicester City), Rebecca Caplehorn (diretora de operações de futebol no Tottenham) e Marina Granovskaia (diretora executiva de futebol no Chelsea) são apenas alguns nomes que, além de consolidarem a fortaleza estratégica feminina, inspiram gerações de novas entrantes no direcionamento do futebol masculino.

E já que mencionamos as profissionais da Premier League, migramos do âmbito esportivo ao acadêmico na Inglaterra, onde um estudo avaliou a administração pública no combate ao COVID-19 (com uma amostra de 194 países no início da pandemia), apresentando padrões de desempenho superiores em nações cuja liderança era feminina. Pesquisadoras da Austrália e dos EUA também investigaram o tema, convidando à reflexão. Ao diferenciar os territórios em que chefes de estado eram mulheres (ex.: Alemanha/Angela Merkel, Nova Zelândia/Jacinda Ardern, Taiwan/Tsai Ing-Wen), prioridades relacionadas à condição humana, à saúde pública e à redução de riscos evidenciaram a eficiência feminina na gestão de crises em um sistema político, auxiliando a segurança socioeconômica além do curto prazo.

“As mulheres pertencem a todos os locais onde decisões importantes estão sendo tomadas. Elas não deveriam ser a exceção.” – Ruth Bader Ginsburg

A liderança feminina frente a um ambiente historicamente masculino é, de fato, uma realidade.

Realidade que pode estimular uma nova cultura, muito além de um único clube ou de uma sexta estrela.

Imaginem o futebol brasileiro (masculino) comandado por figuras com maior orientação interpessoal no tratamento individual e no pensamento coletivo, aumentando a proatividade e conduzindo a cadeia de forma democrática, participativa e colaborativa. Qualidades identificadas na essência da liderança estratégica feminina, que certamente tendem a contribuir com a transformação necessária na gestão da modalidade no nosso país.

Um caminho pela mudança no controle das oscilações emocionais em clubes e federações, que ainda buscam provar posições de autoridade em relação aos seus pares.

Um caminho pela mudança na influência do desconhecimento técnico proliferado em conselhos deliberativos e presidenciais, especialmente nas reações impulsivas em casos de acúmulo de derrotas – quando o excesso de testosterona fecha os olhos ao racional.

E, sobretudo, um caminho pela mudança de comportamento na tomada de decisões, valorizando o torcedor – o dono real de cada clube – e fortalecendo iniciativas progressistas com incentivo à tecnologia, à ciência e ao desenvolvimento de capital humano no território brasileiro.

Confiem. Já estamos na terceira década do século XXI.

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Mestre em Gestão Esportiva pela Universidade do Esporte da Alemanha em Colônia, pesquisador e doutorando em Ciência do Esporte pela Universidade de Bielefeld, Alemanha. Consultor esportivo e parceiro da Universidade do Futebol no Brasil

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