Qual o lugar da experiência na formação de treinadores e atletas?

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Crédito da imagem: FC Bayern/Divulgação

Não faz muito tempo, nós começamos aqui uma série sobre o processo de articulação de filosofias de treinadores – de futebol, mas não apenas. Ali, apresentei um pouquinho do meu entendimento sobre as filosofias, porque elas devem ser pensadas no plural, ao invés do singular, e de que forma isso pode se converter em práticas mais refinadas.

No texto de hoje, gostaria de falar um pouco mais disso, mas agora tratando de um outro ponto, não apenas importante na articulação de filosofias, mas na própria formação de treinadores e de atletas de futebol: a experiência. Mais precisamente, gostaria de apresentar uma outra forma de pensar e de sentir a experiência e de que modo essa outra forma de pensar e de sentir pode ser decisiva nos nossos processos formativos.

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O termo experiência não é novo, muito pelo contrário: é uma palavra relativamente batida não apenas na literatura mais científica de formação de treinadores, mas também nas nossas práticas cotidianas. Outro dia mesmo, assistindo a um comentário do Jamie Carragher, ex-zagueiro do Liverpool e da seleção inglesa, o via dizer que grandes treinadores do futebol internacional só chegam ao mais alto nível pelo elevado grau de experiência acumulado. Não deixa de ser um pensamento com o qual todos nós simpatizamos de alguma forma: pessoas experientes teriam um grau de conhecimento que pessoas menos experientes, por sua vez, não têm.

Este sentido de experiência, a que o Carragher se refere, está muito claramente associado à uma noção mais clássica de experiência: perícia adquirida a partir da prática sistemática de uma certa atividade ao longo do tempo. O sujeito experiente, via de regra, é aquele que acumulou horas e horas e horas de prática em uma atividade bastante específica, e são as horas de prática naquela atividade que o fazem chegar aos mais altos degraus de performance. Um pianista, como repetimos naquele exemplo já batido, não se faz pianista correndo em volta do piano, mas tocando piano por milhares de horas. Na literatura científica, especialmente a partir do trabalho do sueco Anders Ericsson, é isso que se chama de prática deliberada, cujo grau de especificidade é bastante razoável. Um livro que populariza bem esse conceito é o Fora de Série, do Malcolm Gladwell – onde aparece, com exemplos famosos, a hipótese das dez mil horas de prática para se chegar à excelência.

É bem verdade que certas atividades exigem um grau de especificidade maior do que outras. Muito bem, qual seria o grau de especificidade do futebol? No bom livro Range (traduzido no Brasil como ‘Por que os generalistas vencem num mundo de especialistas’), o também jornalista David Epstein nos dá uma pista interessante: segundo ele, citando um psicólogo chamado Robin Hogarth, haveria basicamente dois tipos de ambientes: ambientes generosos e ambientes perversos. Os ambientes generosos seriam aqueles nos quais a experiência, de um ponto de vista clássico, pode ser suficiente: a prática hiperespecializada permite o reconhecimento intuitivo de um determinado número de padrões repetitivos (pense no jogo de xadrez, por exemplo). Por outro lado, nos ambientes perversos, o nível de complexidade parece tão demasiadamente elevado que a prática especializada, ao invés de facilitar, limita a aprendizagem. Segundo o próprio Epstein:

“Quando conhecemos as regras e as respostas, e elas não mudam com o tempo – xadrez, golfe, música clássica -, podemos defender a prática hiperespecializada ao estilo de gênio desde o primeiro dia. Mas esses são modelos pobres para a maioria das coisas que os humanos querem aprender.”

Quando pensamos num autor como Claude Bayer, muito importante no nosso entendimento pedagógico dos Jogos Esportivos Coletivos, e mais especificamente na noção de habilidades fechadas e habilidades abertas – sendo as abertas aquelas que florescem em ambientes de elevado grau de incerteza e complexidade – fica mais ou menos claro em que ambiente se encontra o futebol e onde nós, profissionais do futebol, devemos nos encontrar.

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Embora a experiência possa sim ser a perícia adquirida pela prática sistemática, pode ser que não seja apenas isso. Na verdade, de um ponto de vista histórico, a palavra experiência foi sendo modelada e mesmo banalizada pelo uso constante. No mestrado, buscando referências que me ajudassem a pensar o futebol de outras formas, encontrei um autor maravilhoso, chamado Jorge Larrosa, que apresenta uma outra interpretação para a experiência: ao invés de prática sistemática, a experiência seria ‘isso que me passa’. A experiência, em primeiro lugar, não seria exatamente uma consequência das escolhas do indivíduo, mas sim um acontecimento externo, alheio à nossa vontade e aos nossos saberes e, mais especificamente, um tipo de acontecimento que não pode ser produzido ou fabricado por nenhum de nós – essa, diga-se, é a diferença entre experiência e experimento. Em segundo lugar, a experiência tem uma dimensão de ida e de vinda, um certo caráter reflexivo: embora venha de fora, ela só pode se fazer em nós, enquanto sujeitos. Por fim, repare que o corpo seria uma espécie de território de passagem da experiência, daí que a experiência tenha um viés pedagógico, não exatamente pelo número de supostas experiências que se têm, mas pelo sentido que somos capazes de dar às experiências, porque elas nos deixam uma espécie de marca, de cicatriz. No mestrado, aliás, estudei exatamente a importância dessas cicatrizes nos nossos processos de articulação de filosofias de treinadores de futebol.

Reparem que são de fato duas visões muito diferentes da experiência, e que as diferenças entre elas residem num ponto muito simbólico: se, de um lado, a experiência é vista de um ponto de vista quantitativo (horas de prática) do outro ela é vista de um ponto de vista qualitativo (sentido). É simbólico porque vai no coração de vários dos temas que são tão importantes em ambientes como a própria Universidade do Futebol: para citar dois exemplos, o pensamento complexo nos mostra que não basta saber mais – é preciso saber melhor, religar os saberes (Morin). Do treinamento, sabemos que a carga não é mais apenas física, é também tático-técnica e mental, ao mesmo tempo, e que tão ou mais importante do que o volume é a intensidade: a qualidade dos estímulos, de um ponto de vista individual e coletivo.

Mas para se fazer experiência, desse outro ponto de vista, mais qualitativo, é preciso fazer uma outra inversão: se a experiência, enquanto prática sistemática, presume uma afirmação das nossas próprias vontades, dos nossos saberes e poderes, por outro lado a experiência enquanto isso que me passa só pode acontecer se estivermos abertos: o sujeito demasiadamente fechado, seguro de si, que se sente poderoso e até mais forte do que a própria vida, dificilmente será capaz de fazer experiência, porque a experiência presume exatamente o contrário – um razoável grau de modéstia (especialmente de um ponto de vista do conhecimento, saber que não se sabe de tudo) e especialmente um reconhecimento das próprias fraquezas e limitações. Se você preferir: o sujeito da experiência é, necessariamente, frágil. E de um modo que é da fraqueza que nascem as suas próprias forças.

Afirmações como a do Carragher, que citei acima, não estão de todo equivocadas: em certas atividades, é de fato preciso ter muitas horas de prática para apresentarmos um certo grau de perícia. Mas, no caso de ambientes como o do futebol, o tipo de habilidades que nos são requeridas são outras, muito mais abertas do que fechadas, o que significa que é perfeitamente possível tornar-se experiente sem um elevado número de horas de prática num determinado contexto: veja, por exemplo, o que fizeram nos últimos vinte anos sujeitos como José Mourinho, Pep Guardiola (ambos absolutamente inovadores ainda muito jovens), André Villas-Boas, Julian Nagelsmann e mesmo um sujeito como Hans-Dieter Flick – não exatamente jovem de um ponto de vista clássico, e mesmo assim supostamente inexperiente como treinador principal num gigante como o Bayern de Munique. E vejam o exímio e corajoso trabalho (o que dizer do comportamento agressivo da linha de quatro na fase defensiva?) feito por ele até agora. Embora inexperiente de um ponto de vista tradicional, quantitativo, Flick provavelmente soube dar um sentido muito refinado ao que se passou na sua vida – e talvez fosse muito ‘experiente’ como treinador principal sem sabê-lo.

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Algumas das possíveis relações entre a experiência, enquanto isso que me passa, e a formação de treinadores e treinadoras estão apresentadas neste artigo, em que faço uma introdução ao tema. O curioso é que esse tipo de inquietação veio menos de curiosidades teóricas do que das minhas próprias experiências como treinador, a partir das apostas que vamos fazendo na prática. E isso, na verdade, tem um caráter duplo: ao mesmo tempo que foi me ficando visível que a experiência não era necessariamente a prática sistemática e hiperespecializada, também vai me ficando visível que pensar a experiência de uma outra forma tem repercussões fundamentais no processo de formação de atletas.

Por exemplo, um processo pedagógico que considere o saber da experiência precisa ter claro que a experiência nunca é universal – mas sempre subjetiva. Ou seja, ainda que tenhamos os mais refinados processos pedagógicos e metodológicos, não podemos perder de vista que, numa mesma situação, para dois jogadores diferentes, pode ser que nenhum dos dois faça experiência ou que, então, ambos façam experiências absolutamente diferentes. Um mesmo jogo, de 6×6+2, num espaço de 30x20m, será absolutamente diferente para cada um dos 14 jogadores envolvidos. Ter em conta esse grau de subjetividade de experiência – que não deixa de se relacionar, de alguma forma, com o princípio da individualidade biológica – e fazer dele concreto, a partir do ensino e aprendizagem de estratégias mais refinadas para se dar sentido às experiências que se faz (e vejam que aqui me atenho apenas às experiências no ambiente de treino, ainda não falamos das experiências de vida) é um problema absolutamente importante a ser solucionado no planejamento, aplicação e avaliação das nossas sessões de treino e no desenho dos nossos processos pedagógicos. Aqui também aparecem, por exemplo, as relações todo/partes, de que tanto falamos a partir das consultas do Edgar Morin.

Pensar a experiência de uma outra forma não nos fará campeões de nada de um dia para o outro. Mas provavelmente nos fará pensar melhor. E são esses movimentos, como bem sabemos, que refinam o pensamento, o sentimento e especialmente a prática do futebol – de hoje e de amanhã.

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Hudson Martins é Graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. além de Graduado em Ciências do Esporte e Mestre em Educação Física pela Unicamp. Atualmente, treinador pela Elleven Futebol Studio, em Campinas.

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