O que podemos aprender com a NFL e o draft?

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Crédito imagem – Tony Dejak/ AP Photo

Termina hoje, sábado dia 1º de maio, o chamado Draft 2021 da National Football League (NFL). Para os que ainda não sabem ao certo o que isto significa, o Draft é um evento que dura três dias e ocorre anualmente, servindo ao único propósito de recrutamento de jogadores universitários elegíveis para ingressarem, profissionalmente, na renomada NFL, uma liga esportiva composta por 32 times e que se divide em duas conferências: a National Football Conference (NFC) e a American Football Conference (AFC).

Não é novidade que a NFL vem ganhando cada vez mais fãs no Brasil. No entanto, pouco se comenta sobre o Draft. Acompanhada por milhares de espectadores ao redor do mundo, o evento é o principal modo de recrutamento dos talentos vindos das universidades, momento em que são selecionados por volta de 200 novos jogadores que mais se destacaram no futebol americano universitário.

Os direitos de transmissão do Draft são negociados, e a crescente popularidade do evento movimenta interesses decorrentes dos inúmeros patrocínios e comerciais transmitidos durante os intervalos, pois as marcas dos mais variados produtos e serviços pagam valores substanciosos para terem alguns segundos de visibilidade.

O Draft ocorre desde 1936, mas nos últimos anos cativou, de maneira surpreendente, a atenção do público em geral, uma vez que NFL soube explorar o seu potencial.

Com torcedores extremamente apaixonados pelos seus times, o evento possibilita a todos assistirem, em primeira mão, se os seus respectivos times conseguirão draftar – o que significa o ato de contratação dos jogadores durante o Draft – algum novo fenômeno ou o jogador que os demais times almejavam.

Até mesmo a ordem da escolha dos jogadores torna a dinâmica interessante: são sete rodadas (rounds) e a primeira delas determina a sequência das demais. Além disso, a ordem é baseada no desempenho dos times na última temporada, iniciando-se pelos times que tiveram o pior desempenho e seguindo para os que mais se destacaram.

Desta forma, busca-se criar mais chances para que os times que não se saíram tão bem na temporada consigam se reerguer com a ajuda dos novos talentos. Nessa lógica, os dois times que participaram do Super Bowl (que é a final disputada entre os times vencedores de cada conferência) são colocados no final da fila para a escolha.

Em teoria, essa dinâmica estimula a competência no esporte, uma vez que possibilita o equilíbrio técnico entre as equipes. Para ilustrar, no Draft de 2021 o primeiro time a escolher foi o Jacksonville Jaguars, e os últimos, o Kansas City Chiefs e o Tampa Bay Buccaneers, atuais campeões.

Assim, o Draft ganhou importância para o desenvolvimento dos times e para o teor comercial ao longo dos anos – quanto mais competitivo for o esporte, maior será o público –, além de constituir uma importante parte da cultura desportiva dos EUA. Consequentemente, o evento reflete, a seu modo, uma representação do “sonho americano”, pois possibilita que jovens atletas emerjam do anonimato – e muitas vezes da pobreza – para se tornarem referência de toda uma geração e serem coroados em rede nacional, garantindo-lhes contratos milionários.

Essa expectativa acaba que se desdobra em incentivos às categorias de base do futebol norte-americano. A título de exemplo, a própria NCAA Football – o principal campeonato nacional de futebol universitário nos Estados Unidos – faturou US$ 913 milhões no ano de 2013. Por sua vez, a CBF faturou R$ 436 milhões no mesmo, o que é, comparativamente, muito inferior.

Não bastasse isto, os 123 times que participam da NCAA reportaram uma receita combinada de US$ 3,2 bilhões (na época, isso equivalia a 7 bilhões de reais) em 2013 ao Departamento de Educação dos EUA, enquanto no Brasil a elite do futebol arrecadou menos da metade (R$ 3,1 bilhões).

Em termos de público, o futebol americano da NCAA também impressiona, levando, em média, 50 milhões de torcedores aos estádios. A conferência Sudeste, a mais forte dos EUA, tem em média de 70 mil por partida, e a Universidade de Michigan movimenta 100 mil torcedores em média durante a temporada, lembrando que isso não é a NFL (a liga profissional), mas apenas o futebol americano entre universidades.

Até hoje, esses números não param de aumentar. Quem estuda em uma universidade cria vínculos e constrói sua identidade, pois enxerga no esporte um caminho para visita-la, reviver bons tempos e torcer pelos times da casa. Trata-se de um vínculo diferente em relação ao torcedor de um time de futebol brasileiro, e muitos ainda não perceberam o seu potencial, inclusive financeiro.

Com tudo isto em mente, propomos uma reflexão: o que podemos aprender com a NFL e o Draft? Ora, a popularidade do futebol norte-americano, a publicidade envolvida e os números movimentados apenas reforçam a necessidade de criação de incentivos concretos e relevantes em nossas categorias de base, pois há, aqui, um imenso potencial ainda não explorado.

Isto é surpreendente quando se leva em consideração que o Brasil é conhecido por ser “o país do futebol”, e a causa disto certamente não é falta de público, pois se fosse realizada uma comparação com os torcedores norte-americanos no quesito amor ao esporte, a paixão dos torcedores brasileiros não deixaria nada a desejar.

E mais: como poderíamos nos inspirar em uma nação que transformou um esporte em um espetáculo e em matéria-prima para um negócio multibilionário? Poderíamos aplicar um conceito similar em nossas peneiras? Afinal, as peneiras nada mais são do que uma seleção que os clubes fazem para descobrir novos talentos que ainda não começaram a carreira profissional.

Sabemos que a realidade no Brasil é complexa: o governo não subsidia de maneira adequada a prática dos esportes, e os investimentos vindos da iniciativa privada ocorrem a passos lentos. No entanto, o potencial de desenvolvimento esportivo e econômico existe, e podemos começar aos poucos, com maiores incentivos, construção do sentido de unidade e lealdade ao clube e valorização da jornada de cada jogador até a ascensão às categorias profissionais.

Sem dúvidas, trata-se de um árduo trabalho a ser desenvolvido no decorrer de anos. Afinal, a própria NFL demorou anos para transformar o Draft e suas “categorias de base” no que são hoje. Mas é inegável o sucesso de seu empreendimento, que deve servir de inspiração para outros esportes, atletas e torcedores.

No caso do futebol brasileiro, cuja modalidade tem alcance mundial e muita força na América Latina e na Europa, o seu potencial é significativo e merece ser explorado mediante investimentos adequados, estratégias de marketing certeiras e comprometimento perene por parte dos gestores. Quem sabe daqui alguns anos também tenhamos um evento no estilo Draft, à brasileira, similar ao da NFL – e até uma palavra própria, que seja nossa, para nos referirmos a ele?

Ana Beatriz Rausse de Almeida
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