S.O.S. R.H. – Entenda como funciona a prática de contratações e demissões de treinadores no futebol do Brasil | Parte 02

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PARTE 02 | A ENTRADA: ENTENDA O PROCESSO DE CONTRATAÇÃO DO TREINADOR.  

Ao estudar as orientações em torno da abordagem e tratamento de recursos humanos na gestão do esporte profissional, o processo de recrutamento se destaca como o primeiro passo na construção do relacionamento entre empregado e empregador, uma vez que nesta etapa dá-se início as interações práticas entre as partes. De um modo geral, para preencher cargos eventualmente disponíveis, os recrutadores tendem a buscar e atrair uma gama de candidatos que tenham interesse em passar por estágios de triagem, entrevistas, testes e avaliações por meio de diferentes mecanismos, originando um processo seletivo bem estruturado. Com uma seleção inicial dos candidatos que apresentam a devida qualificação para o cargo disponível e também demonstram um potencial de sintonia com a cultura interna do empregador, os responsáveis envolvidos no processo de recrutamento e gestão do capital humano consequentemente ajudam a organização a se aproximar dos seus objetivos estratégicos. Justamente por isso, torna-se imperativo entender as funções básicas de recrutamento, avaliação e desenvolvimento de pessoas, pois a gestão do capital humano carrega um potencial para alavancar vantagens de ordem estratégica e competitiva nas organizações empregadoras que operam no futebol. 

Em termos de planejamento de recursos humanos, tão logo uma oportunidade se apresente e uma nova posição esteja livre, uma substituição seja necessária, ou um evento de sucessão profissional seja antecipado, os gestores do capital humano que operam na estrutura esportiva devem prioritariamente analisar o cargo e suas funções, a fim de examinar a especificidade, as responsabilidades e as expectativas em torno da vaga disponível. Seguindo o raciocínio, torna-se primordial determinar que tipo de pessoa e profissional o empregador busca, assim como quais seriam os interesses em comum esperados pelo recrutador, garantindo um nível apropriado de sinergia entre as partes com alguma antecedência. 

Muito embora os métodos de seleção tendem a variar, as técnicas de recrutamento aplicadas a profissionais do esporte podem incluir, por exemplo, entrevistas padronizadas ou comportamentais, testes de aptidão ou capacidade cognitiva, análise de personalidade, portfólio de trabalho ou projetos anteriores, além de opções por consultorias ou centros especializados em avaliação pessoal. Pensando nos cargos de alta exigência e conhecimento técnico, cujas funções e responsabilidades são mais complexas, multidimensionais ou carregam maior dificuldade de definição, como no caso dos treinadores de futebol de alto rendimento, o processo de recrutamento e seleção torna-se ainda mais complicado ao empregador, aumentando o risco de uma rescisão contratual em curto prazo sempre que a decisão que sustenta o contratado apresentar falhas ou discrepâncias que dificultem uma sintonia efetiva entre as partes. Nesse cenário, os eventuais candidatos ao cargo devem ser avaliados não apenas com base em seus atributos e diferenciais de rendimento profissional, mas também em termos do seu potencial de interação com o núcleo de empregados e colaboradores que já pertencem à instituição, bem como sua interação com os ambientes interno e externo que influenciam o trabalho. 

Para compreender o recrutamento de um treinador segundo os testemunhos dos próprios entrevistados, o texto apresenta uma série de palavras e frases entre “aspas”, que destacam as informações devidamente associadas ao processo de análise do conteúdo qualitativo neste estudo acadêmico. Ademais, citações individuais com maior aprofundamento também foram utilizadas para enaltecer em detalhes algumas das experiências dos treinadores. Conforme antecipado na PARTE 1, vale lembrar que o anonimato dos entrevistados e suas menções específicas sobre clubes e pessoas permaneceram confidenciais. Portanto, enquanto os nomes dos clubes foram convertidos a suas respectivas regiões (ex.: clube do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste, do Nordeste, do Norte), os nomes das pessoas citadas pelos treinadores foram convertidos aos seus respectivos cargos no mercado de trabalho (ex.: um dirigente, um presidente, um diretor, um representante, um jogador). 

Sobre a entrada do treinador na realidade do contexto brasileiro, este estudo qualitativo responde a seguinte pergunta: 

Como os clubes de futebol de elite no Brasil conduzem o processo de recrutamento de um treinador na prática? 

RECRUTAMENTO DO TREINADOR 

, Universidade do Futebol

Questionados sobre o processo de recrutamento de um novo líder técnico sob uma perspectiva que possa identificá-lo, valorizá-lo e potencializá-lo como um capital humano estratégico na plataforma esportiva do clube, os treinadores envolvidos neste estudo refletiram a respeito das práticas efetivamente utilizadas para contratá-los na elite do futebol brasileiro. Curiosamente, eles reforçaram como as abordagens para a contratação tendem a ser “breves” e “aleatórias” numa alta frequência, justificadas pela predominância da “falta de profissionalismo entre os dirigentes” e a “ausência de conhecimento técnico” por trás do recrutamento e seleção de treinadores de alto rendimento no território. Segundo as percepções, o processo de gestão de recursos humanos em clubes de futebol do Brasil se destaca como amador e desestruturado. Além disso, os treinadores enfatizaram que, na realidade, “não existe processo, nem planejamento, tampouco organização” quando se trata de contratar um treinador profissional, sobretudo porque “os dirigentes buscam três ou até quatro perfis diferentes ao mesmo tempo”, preocupando-se em preencher o cargo no período mais breve possível. 

“ Na maioria das vezes acontece rápido porque os dirigentes já estão com a ‘corda no pescoço’, afinal alguém caiu e eles precisam de uma reposição urgente. Logo, começam a falar de nomes e soltar pesquisas na mídia. Vou ser sincero. Foram muito poucos os que fizeram uma abordagem técnica. Por exemplo, batendo um papo comigo antes da minha conversa com o presidente. Normalmente liga alguém já próximo ao presidente fazendo uma proposta e querendo saber se eu aceito. ”

A fim de exemplificar o recrutamento na prática, os treinadores revelaram sinais análogos à miopia e ao pensamento fechado na cabeça dos dirigentes que operam como empregadores no Brasil, desvendando a prevalência de círculos políticos e sociais na elite do futebol. Resumindo o funcionamento, um treinador expôs alguns motivos que podem ajudar a explicar por que os treinadores brasileiros são repetidamente contratados de forma aleatória: 

“ A contratação é feita com base no acesso de empresários aos clubes. Isso é uma verdade mesmo, de tato, contratos, amizades com dirigentes. Nunca é com processo. A coisa é feita sem critério, muito sem critério. Podemos falar que alguns clubes não são assim, mas isso seria uma inverdade muito grande. ” 

1. MÉTODOS DE SELEÇÃO 

Sob a óptica de uma gestão de recursos humanos, os métodos de seleção indicam as técnicas aplicadas pelas pessoas responsáveis a selecionar e analisar os candidatos ao cargo de treinador de futebol, posteriormente contratando o profissional escolhido para exercer a função no clube. No território nacional, entretanto, os argumentos persistiram em confirmar que “não existe processo seletivo”, independente da localização geográfica do clube. Enquanto um treinador mostrou uma aversão especial aos casos em que “os dirigentes querem negociar a contratação de um treinador por meio de um almoço”, a maioria dos entrevistados ressaltou que “não há uma conversa”, “nem entrevista”, exceto em raríssimos episódios. Em geral, os métodos de seleção utilizados diferem (muito) das técnicas profissionais sugeridas pela educação de gestores de recursos humanos no esporte de alto rendimento. 

“ Agora parece que há uma onda de entrevistas, mas eu ainda não tive essa experiência. Embora eu até concorde com isso, em alguns momentos as pessoas que contratam não têm capacidade de fazer esse tipo de entrevista. Praticamente há um pré-acerto por telefone e depois, muito rápido, já seguem com o acordo no clube, definindo os membros da comissão técnica, os números no contrato, a premiação. Hoje começou a moda de que vão entrevistar o treinador, mas eu ainda não passei por isso. ” 

Reconhecendo a ausência de um mínimo protocolo destinado a analisar o potencial do capital humano, tal como uma entrevista de emprego padronizada, os treinadores reagiram com ceticismo quando perguntados sobre como eles são selecionados pelos empregadores brasileiros. Um treinador inclusive amplificou uma anedota pessoal, apresentando argumentos que clamam por ações profissionais urgentes na seleção de líderes técnicos no país: 

“ Eu nunca fui entrevistado. Você acredita nisso? Eu trabalhei em 200 times! É um negócio ridículo. Como eu jogo, qual é a minha linha de trabalho, gestão, intervalo, psicologia, conceito, o que eu penso, modelo de jogo? Nada, nada, nada! Nunca, de coração. É uma vergonha. Agora há um clube do Sul que parece ter um manual de entrevistas para treinador. Eu pedi, quero ver, porque a gente fica chateado com isso. Na realidade, são várias as maneiras que se dá o convite. Uma vez no Sul eu recebi uma ligação de um amigo. Em outro caso, também no Sul, um dirigente sentou aqui para tomar um café dizendo que eu tinha que assumir o cargo pois eu seria o escudo político dele e ia receber cinco jogadores (que nunca chegaram). O diretor de um clube do Sudeste veio me visitar dizendo que os jogadores falaram bem do meu trabalho. Também do Sudeste, outro diretor alegou que precisava de ajuda porque o time era fraco. Em outra ocasião, tocou o telefone porque a primeira opção que eles pensaram não acertou, portanto o presidente me chamou, então eu cheguei e assinei. Houve um caso parecido no Sudeste, quando o primeiro nome não assinou e logo me ligaram. Era domingo à noite, mas segunda-feira cedo eu já estava lá. No Sul, anos atrás me ligaram 1h da manhã e às 11h eu estava no clube sem nem saber o salário porque os dirigentes eram meus conhecidos. Você vê o atropelo da coisa como é? Mas aí a gente também erra, né? ” 

Na mesma linha de raciocínio, outro treinador compartilhou abordagens semelhantes ao repassar uma sequência de contratações vivenciadas durante a sua carreira. Em suma, a informalidade na seleção do treinador se apresenta como uma norma histórica. Tal prática informal inevitavelmente compromete não apenas o desenvolvimento de carreira do treinador, além de qualquer tentativa de relação sustentável entre empregado e empregador, afetando, sobretudo, o progresso esportivo em cada um dos clubes de elite que optam pelo mesmo comportamento. Nesse cenário, a rotatividade impera sobre a continuidade, tanto para quem contrata quanto para quem permite ser contratado, impossibilitando trabalhos com consistência e embasamento técnico. 

“ Para você ter uma ideia, um dia eu saí de um clube do Sul e estava viajando para passar o Natal com a família. Quando eu chego em casa, eu já estou contratado por um clube do Nordeste. Ao rescindir com esse clube e retornar à minha casa, eu também já chego contratado. Em outro caso, no Sudeste, eu saí logo após uma final de campeonato e já fui contratado por outro clube no dia seguinte. Quando saí de um clube diferente do Sudeste, no dia seguinte assinei contrato com um clube de outro estado na mesma região. Ao ser despedido, o presidente de um clube do Sul já estava me esperando em um hotel na minha cidade. Ao sair desse clube no Sul, viajando no carro com a bagagem ainda desfeita me ligam do Sudeste para chegar ao clube no dia seguinte. A minha vida foi assim. Aí você me pergunta: Você parou para olhar? Não. E isso pesa hoje. ” 

Na prática do recrutamento de treinadores no Brasil, os métodos de seleção foram associados a duas alternativas: ligação telefônica e encontro pessoal. Ambos carregam particularidades que se distanciam (muito) das técnicas profissionais aconselhadas aos gestores que supervisionam uma modalidade esportiva de alto rendimento. Os dois métodos são detalhados a seguir. 

1.1. LIGAÇÃO TELEFÔNICA 

Uma ligação telefônica se refere a quando um treinador é abordado via telefone por um representante do clube. Repetidamente evidenciado como o método de seleção dominante no mercado dos dirigentes e clubes nacionais, “uma simples ligação telefônica” parece ser o suficiente para determinar a contratação de treinadores profissionais de alto rendimento na elite do futebol brasileiro. Conforme salientado por um treinador, “sempre se limitou a uma ligação telefônica”. Da mesma forma, outro treinador exemplificou: 

“ Quando um dirigente me liga, ele fala: ‘Olha, eu quero te contratar.’ Mas no final das contas ele nem sabe por que quer me contratar! Também há um outro tipo de ligação: ‘Quero conversar com você, saber quem você é, conhecer um pouco das suas ideias, a sua visão de futebol, queria que você avaliasse um jogo, que você visse a nossa equipe jogando’. Eu já vivi os dois tipos, mas o mais comum é uma ligação dizendo: ‘Quero te trazer pra cá’. ” 

De acordo com depoimentos recorrentes, os treinadores realçaram que se trata de “uma ligação após a oscilação da equipe”, que pode servir para perguntar se o treinador estaria interessado no cargo e deixar que o seu representante discuta os termos contratuais da oferta, ou simplesmente manter “uma hora de conversa” com o dirigente antes de aceitar ou declinar o convite. Tal distorção frente a qualquer técnica profissional voltada a gerir recursos humanos (dentro ou fora do esporte) levou os treinadores a reagirem de forma incrédula, e até suspeita, sobre o comportamento organizacional e a seleção de empregados em clubes de elite que transitam pelas principais competições do país. Três entrevistados revelaram o quão superficial pode chegar uma abordagem via ligação telefônica

“ Uma vez um dirigente me ligou dizendo que era a torcida que ia me pagar quando eu perguntei sobre o orçamento, a parte financeira do clube. ‘Você quer me contratar dizendo que a torcida vai me pagar? E se o clube perder os primeiros jogos, quem vai me pagar? E se o objetivo não for conquistado e a torcida parar de ir ao estádio?’ No Brasil é tudo muito assim. O que eu noto é que os dirigentes estão muito mais preocupados em acertar o salário e dar uma satisfação, porque é sempre dessa forma. ” 

“ As contratações ainda são feitas do nada, sem saber quem é o treinador, sem sentar para conversar. É um cargo de muita responsabilidade, portanto não deveriam dar uma equipe a um novo treinador por telefone. ‘XYZ, você quer vir treinar o nosso time?’ Eu me sinto mal em receber uma ligação dessa. Não é possível querer te dar uma responsabilidade assim e já ir falando de salário. ” 

“ Quando a gente recebe uma ligação, a primeira colocação do dirigente é a seguinte: ‘Eu tenho um projeto em que eu preciso da sua presença’. Projeto é utopia! ‘Não adianta você vir me falar de projeto, porque você quer que eu entregue resultados amanhã.’ O presidente de um clube do Nordeste me ligou para eu assumir o cargo nos últimos seis, sete jogos. Eu não sou mágico! O que eu vou melhorar? Essa é a nossa realidade. Como você vai ter segurança? ” 

1.2. ENCONTRO PESSOAL 

Passando da primeira à segunda alternativa entre os métodos de seleção utilizados no recrutamento do treinador brasileiro, um encontro pessoal se refere a quando o treinador se encontra pessoalmente com um representante do clube. Contudo, foram pouquíssimos os exemplos práticos de treinadores afirmando que efetivamente se encontraram ou se reuniram com os empregadores em algum momento antecedente à assinatura de um novo contrato, caracterizando os casos como uma ocasião rara. A fim de ilustrar o segundo método de seleção, todos os episódios que foram detalhados sobre um encontro pessoal são compartilhados abaixo: 

“ Eu fui entrevistado ao cargo apenas uma vez desde 2004, quando eu me tornei técnico de futebol. ” 

“ Eu só fui questionado recentemente por um ex-jogador que virou dirigente no Sul, onde ele fez uma reunião, me mostrou o clube, quis saber detalhes do meu trabalho e disse que estava fazendo isso com outros profissionais, mas no fim eu fui contratado. Foi só. ” 

“ Só houve um clube até hoje que me chamou e fez uma entrevista comigo num hotel quando eu estava trabalhando no Norte do país. Ali realmente teve. O resto te liga para acertar a parte financeira e pronto. Te mandam a passagem aérea se der certo, ou se não der certo eles vão atrás de outro. ” 

“ Quando eu fui entrevistado por um ex-jogador para assumir um clube, eu respondi tudo o que ele perguntou, mas no fim era eu quem não queria trabalhar no clube de jeito nenhum, porque ele estava me exigindo coisas que nem ele sabia ou tinha o domínio da situação. ”

“ Eu passei por um processo seletivo uma única vez na minha carreira, quando entrei na base de um clube do Sudeste. Esse foi o único processo em toda a minha carreira. Todos os outros casos me ligaram, eu demonstrei interesse e passei ao meu procurador, que foi quem negociou. ” 

“ Eu só recebi pessoas ligadas a clubes em duas ocasiões. Vieram me visitar para me conhecer, saber como eu sou, como eu trabalho. Não me refiro somente às equipes onde eu trabalhei, mas considerando todos os convites da minha carreira! Tenho até hoje os documentos que dizem como eram os clubes, quem eram os atletas, funcionários, área estrutural. Me procuraram para fazer uma avaliação. Em todos os outros casos foi um telefonema fazendo um convite, mas nenhum deles me perguntou como eu trabalhava. Aqui é um telefonema! Isso dá uma justificativa ao torcedor e à imprensa, mas não é efetivamente uma convicção. E quando você não conhece isso, você toma um susto. ” 

“ Eu tive três situações que me agradaram e que eu entendo como deveria ser o profissionalismo. Uma vez no Nordeste e duas vezes no Sul. Foram processos seletivos através de entrevistas para compreensão do meu modelo de jogo e método de trabalho, que facilita e ajuda porque muitas das vezes se contrata sem entender o treinador. ” 

“ Em toda a minha carreira, só uma vez o presidente de um clube me levou à cidade para conversar comigo, saber como eu pensava sobre futebol, me expôs todos os problemas do clube e depois me escolheu como treinador. Foi a única vez que eu trabalhei na minha vida com planejamento, com princípio, meio e fim. Esse é o grande problema do Brasil, porque aqui só há o fim. ” 

2. TOMADORES DA DECISÃO 

Representando um componente crucial no recrutamento do treinador, os tomadores da decisão são as pessoas responsáveis pelas decisões de emprego dentro dos clubes. Na prática, os tomadores da decisão são retratados basicamente como “dirigentes”, numa combinação que reúne presidentes, vice-presidentes, diretores estatutários, diretores executivos, diretores de futebol e gerentes de futebol. Segundo os treinadores entrevistados, no entanto, “pouquíssimos dirigentes” são capazes de conduzir uma “abordagem técnica” sob a perspectiva do futebol como modalidade esportiva de alto rendimento, refletindo as limitações das pessoas que mantêm os contatos com os treinadores e agem como especialistas na gestão do capital humano e da plataforma esportiva nos clubes do país. Aparentemente, o comportamento organizacional prevalece com um padrão semelhante entre os empregadores brasileiros, independente das terminologias utilizadas em seus organogramas. 

“ O dirigente que escolhe o treinador não se preparou para isso. E o presidente não tem ideia do que o clube realmente precisa. Seja ele um diretor mais jovem ou um presidente eleito com o discurso que vai mudar tudo e fazer diferente. Não se muda essa cultura, essa ideia, o perfil dessas situações de troca de treinador porque não se muda a ideia, o perfil e a qualidade do dirigente no clube. ” 

Para elucidar a ausência do conhecimento técnico e esportivo sinalizado pelos treinadores, um dos entrevistados com maior experiência no cenário nacional tentou esclarecer as distintas nomenclaturas entre as pessoas que operam como tomadores da decisão no Brasil. Ainda assim, a supervisão prática da modalidade (acima dos treinadores) carece de transparência, profissionalismo e direcionamento substanciais no território. 

“ Nada é claro. Existe uma confusão bastante grande nas funções dos clubes brasileiros. Até pouco tempo nós não tínhamos a figura do diretor executivo. Havia um diretor de futebol, que geralmente era um estatutário, um diretor político. Depois veio um supervisor, quase um ‘faz-tudo’, que acabou virando um ‘superintendente’ de tão importante que se tornou nos clubes. Na verdade, essa pessoa reunia todas as informações no clube. E mais recente começou a aparecer o diretor executivo, que a gente copiou da Europa, mas a figura, a função, ela é diferente entre os clubes. Eu não vejo a função do executivo entre o treinador e o elenco. Não deve existir nada entre os dois. Ele deve estar entre o treinador e a direção, que é o que acontece em determinados momentos. O diretor é ‘e-xe-cu-ti-vo’, como o nome diz, ele deve executar a política de futebol que o clube construir. Mas no Brasil ele se tornou tão importante que ele mesmo define a política de futebol do clube na maioria dos casos! Então às vezes esse executivo é a pessoa que conversa a respeito dos treinadores, enquanto em determinados clubes o presidente trata diretamente. ” 

3. TOMADA DE DECISÃO 

Migrando dos métodos de seleção e passando pelos tomadores da decisão, os antecedentes da chegada de um treinador ao seu novo empregador foram explicados por testemunhos sobre um suposto processo de tomada de decisão que precede o anúncio oficial do treinador pelo clube. Ou seja, a tomada de decisão indica o planejamento e o raciocínio para contratar um novo treinador profissional no Brasil. Na realidade, entretanto, as experiências efetivamente observadas pelos treinadores acentuaram “a falta de uma estrutura profissional”, uma vez que os dirigentes “contratam sem pensar” e trabalham “sem um plano estratégico” que possa sustentar a sua busca por um perfil em sintonia com o clube. As práticas a seguir parecem afastar a tomada de decisão de qualquer orientação teórica para profissionais de liderança em instituições esportivas. 

“ Você é contratado pelo oportunismo, pelo momento, por estar fazendo uma boa campanha numa equipe de menor expressão. Você é contratado pelo acaso, não por um planejamento. ” 

Os treinadores reiteraram como os dirigentes podem simplesmente “contratar pela mídia” ou optar por um novo nome “porque um treinador famoso está desempregado”. Um dos entrevistados inclusive fez questão de revelar a sua indignação sobre o termo que mais ecoa entre os empregadores brasileiros: o suposto “projeto”, cujo discurso vazio é defendido com uma avaliação superficial. 

“ O que me chamou a atenção em todas essas abordagens é que o discurso sempre defendeu um ‘projeto’: ‘A gente acredita em você, você é a nossa escolha para desenvolver esse projeto.’ Mas na prática nunca houve um projeto! O ‘projeto’ é sempre o próximo jogo, ou é sempre atender as expectativas que os dirigentes criam, mas que muitas vezes se distanciam da realidade. ” 

Para sustentar a tomada de decisão, cinco fundamentos foram evidenciados pelos treinadores: disponibilidade, resultados recentes, popularidade, média salarial e análise do cargo. Coletivamente, os argumentos a seguir iluminam uma melhor compreensão sobre como funciona o recrutamento e a seleção de treinadores no futebol profissional do Brasil. 

3.1. DISPONIBILIDADE 

O fundamento da disponibilidade baseia-se em descobrir se um treinador está disponível e interessado, pelo menos com alguma inclinação favorável, a assumir um novo emprego. Segundo os entrevistados, os dirigentes se precipitam a chegar a um novo acordo “antes mesmo de entender como ou o que o treinador pensa” em termos de sua filosofia de futebol. Independente dos treinadores estarem livres no mercado ou comprometidos com algum clube concorrente, a sua predisposição a assinar um novo contrato já indica um passo avançado para a decisão, assim como uma solução rápida na visão do eventual empregador, uma vez que os dirigentes “tentam convencer treinadores que se encontram empregados” a mudar de clubes e “até mesmo representantes de jogadores sugerem nomes onde os treinadores estão em perigo devido a resultados negativos”. 

“ Os dirigentes demitem um treinador, escolhem outro e logo fazem a ligação. Eles não querem saber como é o modelo de jogo, nem o método de trabalho, simplesmente por já colocar alguém no cargo para transferir a responsabilidade. Eu já passei por contratações assim e aceitei, pois tive que aceitar. Porém, eu confesso que elas não foram as melhores decisões que eu tomei. ”

Ao relembrar as suas próprias decisões precipitadas e convites declinados, alguns dos entrevistados reconheceram que é importante manter a calma quando um clube realiza a chamada ou estende um convite. Prioritariamente, sempre que um treinador de futebol de alto rendimento mostra conivência com a prática institucionalizada de contratar-e-demitir sem qualquer embasamento substancial, ele próprio basicamente assume parte da responsabilidade sobre um mero ato de transação no mercado de trabalho, optando por oferecer serviços temporários em vez de suas competências profissionais na função de líder técnico no esporte. A fim de evitar equívocos que comprometam a sua carreira, “os treinadores não deveriam aceitar todo e qualquer convite que aparece”, pois eles podem prejudicar o seu próprio desenvolvimento na profissão. 

“ Eu optei em assumir apenas um clube por temporada, iniciando um novo trabalho somente no ano seguinte em caso de demissão, porque se eu aceitasse todas as propostas que recebi eu já teria acumulado vinte empregos como treinador até o momento, estressando as oportunidades no país. Além disso, é uma postura política para contribuir à minha profissão. Se eu não acho justo sermos demitidos da forma que somos, tampouco acho justo que eu trabalhe em mais de um clube no mesmo ano. A não ser que eu sofra uma demissão repentina logo após assumir o cargo. ” 

3.2. RESULTADOS RECENTES 

O fundamento de resultados recentes captura percepções e opiniões acerca de resultados e conquistas em empregos recentes, apoiado pela discussão dos treinadores sobre como as decisões tendem a ser atribuídas a números e títulos em curto prazo. Aparentemente direcionados por uma prisão de intervalo em sua memória, os dirigentes tendem a “procurar quem estiver tendo sucesso no momento”, favorecendo “uma abordagem simplista” em vez de expandirem as suas análises. Quando questionados a respeito do nível superficial da avaliação que antecede uma decisão de recrutamento, dois treinadores observaram a importância entre saber distinguir os resultados do conhecimento do treinador: 

“ Dar um cargo de treinador só porque o sujeito foi campeão em outro lugar já começa errado. Trata-se de uma grande responsabilidade sendo repassada a alguém que você só viu pela televisão. No primeiro resultado ruim os dirigentes vão dizer que não imaginavam algo assim, mas eles nem se preocuparam em conversar para saber qual era a linha de trabalho do treinador antes de contratá-lo. Isso é primordial para o sucesso de um time e de um profissional. ” 

“ O clube não te contrata sabendo por que está contratando. Eles não têm essa ideia. ‘Vou contratar porque vai me oferecer isso.’ Não! ‘Esse treinador é bom pelo resultado recente e eu o contrato.’ Dentro do clube mesmo não existe uma estrutura para avaliar o trabalho que está sendo feito. Não há. A única leitura é se ganhou ou perdeu. Na verdade, as relações e as decisões giram em torno desse cenário. Se eles não conseguem avaliar o trabalho do treinador, a única referência que eles têm é o resultado. ” 

3.3. POPULARIDADE 

Seguindo ao próximo fundamento, a popularidade reúne percepções e opiniões sobre o grau de popularidade do nome do treinador entre os torcedores e a mídia. Em geral, ser retratado com um nome popular ou famoso na mídia, ou pelo menos ser bem recebido pela base de torcedores do eventual empregador já constitui um elemento de influência decisiva ao recrutamento e seleção do treinador. Na plataforma midiática em que se encontra o futebol profissional, os treinadores personificam uma imagem pública do clube, atuando como porta-vozes que buscam substituir sinais de frustração por sinais de segurança em uma rede configurada por partes que nem sempre apresentam sintonia entre os seus interesses. Coincidentemente, os treinadores brasileiros argumentaram que os dirigentes “contratam apenas uma marca” ou um “nome da moda em vez de um profissional”, já que os empregadores “não têm conhecimento sobre o que um treinador pode entregar, nem mesmo em termos de identidade, independente da cultura do clube”. 

“ Nós somos liderados por pessoas (não digo o diretor executivo, porque ele também é vulnerável) que não conhecem nada de futebol. Essas pessoas são literalmente torcedores do clube. A gente é liderado por apaixonados que olham mídias sociais, ao ponto que o treinador é contratado com base em enquetes feitas em redes sociais. Hoje em dia é assim que basicamente muitos clubes decidem por um treinador. ” 

Intrigados pela superfície de aparências externas norteando as decisões dos empregadores, os treinadores expressaram sua indignação sobre como os dirigentes se preocupam em divulgar “uma justificativa para os torcedores e para a imprensa”, pois “eles não entendem como os treinadores trabalham”. Ao exemplificar como as contratações podem ser afetadas por disfarces de pessoas que atuam no mercado, um treinador compartilhou uma anedota pessoal: 

“ Agora a nossa preocupação são os influenciadores, a torcida, as enquetes de jornalistas, porque isso está pautando se o treinador é bom, se ele sabe trabalhar ou não. Uma vez no Sudeste eu acertei um contrato às 23h e marquei o voo logo cedo para poder assinar e voltar à minha casa. No Nordeste eu viajei de madrugada para uma reunião às 9h da manhã. Havia seis pessoas presentes na reunião, mas o filho do presidente chegou, tirou uma foto e publicou na internet. Com a repercussão negativa dessa foto eu não acertei com o clube. A gente virou refém de mídia social! ” 

3.4. MÉDIA SALARIAL 

O fundamento intitulado média salarial manifesta a identificação do salário e das expectativas de bônus, ou premiação, bem como as cláusulas de rescisão contratual. Ao abordar o tema financeiro, os entrevistados refletiram sobre a ordem dos pensamentos durante o recrutamento realizado pelos clubes, alegando que “as finanças podem ser o aspecto primário” ou muitas vezes um fator exclusivo para decidir se um treinador será contratado. 

“ É engraçado isso porque normalmente obedece mais ou menos o mesmo ritual. O seu agente te liga falando do interesse do clube, aí você desenha algum tipo de proposta. Ou seja, há uma ligação e só após acertar com o clube você senta para conversar. Então há um acordo financeiro primeiro, depois uma conversa, mas eles não falam de planejamento ou metodologia. Não se coloca na mesa o que você traz na sua bagagem. Simplesmente é dada uma oportunidade para você trabalhar. ” 

“ Os dirigentes só estão preocupados em saber quanto você quer ganhar, se eles podem te pagar, determinar qual será o tempo de contrato, se vai ter cláusula rescisória ou não, e se você aceitar a proposta eles te mandam a passagem aérea. É só isso. ” 

De fato, tal ritual foi enfatizado pelos treinadores que repassaram as suas próprias experiências, sinalizando como os seus representantes simplesmente avançam com a discussão financeira e contratual para chegar à decisão final (sobre a contratação) logo após eles manifestarem o interesse pela vaga oferecida. Na prática, os dirigentes parecem tratar somente a respeito das suas próprias opiniões e condições contratuais, enquanto a conversa com o treinador fica limitada a aceitar ou rejeitar a proposta. 

3.5. ANÁLISE DO CARGO 

O último fundamento, nomeado como análise do cargo, relata as expectativas e necessidades do clube em torno das tarefas e objetivos do treinador. Apesar da definição teórica, quando o assunto se voltou a efetivamente conceituar a profissão de um treinador de futebol de alto rendimento, que pode ser distinguida pelo seu alto grau de exigência a aptidões de liderança sobre um processo de desenvolvimento esportivo que depende de um cenário contextual, os treinadores reforçaram a “ausência de discussões técnicas” durante o (suposto) processo de recrutamento e seleção conduzido por clubes da elite do futebol brasileiro. 

“ Aqui os dirigentes rotulam os treinadores da seguinte maneira: ‘Eu quero um disciplinador, um cara de diálogo, um técnico com características mais defensivas ou ofensivas.’ Eles não definem o treinador em função das características desse próprio profissional. ” 

Caminhando no sentido de preferência a estereótipos no território nacional, a análise do cargo de um treinador de futebol desconsidera a essência da profissão, que deveria ser qualificada pela capacidade de gestão de uma modalidade coletiva, cujas funções são diretamente influenciadas pela complexidade, dinâmica e aptidão dos atores que participam do processo não-linear de desenvolvimento do rendimento esportivo num determinado contexto competitivo também dependente de variáveis circunstanciais, seja pelas condições internas ou demandas externas que o cenário apresenta. Ao invés de identificar e valorizar os potenciais candidatos que podem ocupar o cargo de líder técnico no clube com uma visão além do curto prazo, as decisões se limitam ao julgamento especulativo dos dirigentes, que priorizam as suas expectativas pela prestação de serviços temporários até o momento em que seja necessário um próximo descarte. O problema em determinar um contrato eficiente se confunde entre a inexistência de uma avaliação interna e a prevalência de informações assimétricas dentro da instituição esportiva. Por fim, um dos entrevistados fez questão de explicar o raciocínio analítico que permeia entre os tomadores da decisão no Brasil com uma anedota recorrente: 

“ Ninguém pergunta muito sobre quais são as suas ideias, o que você entende, o que e como você pretende implementar, ou quanto tempo você precisa. Essa discussão nunca acontece. Geralmente é assim: ‘A nossa expectativa é tentar vencer o título estadual, brigar pelo Brasileiro, o elenco é esse, nós estamos mudando isso e temos essa margem para contratar.’ Nunca há uma discussão no sentido técnico. Por exemplo, eles poderiam me questionar assim: ‘Nós queremos jogar dessa maneira. Você é capaz de entregar isso?’ Ou então: ‘Nós não sabemos como nós queremos jogar, mas qual é o seu trabalho? Como você quer jogar? Como você desenvolve isso? Quais são as etapas? Como você entende que a gente deva construir o elenco?’ Enfim, nunca aprofundam nesse sentido. ” 

Seguindo adiante, a PARTE 3 revelará o processo de demissão de um treinador na elite do futebol brasileiro, apresentando os depoimentos sobre as etapas que envolvem a saída dos treinadores de seus respectivos clubes empregadores. 

Para finalizar, a PARTE 4 concluirá o estudo, ponderando os caminhos para uma possível reformulação prática na gestão humana e esportiva da área técnica de um clube profissional de futebol no Brasil. 

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Mestre em Gestão Esportiva pela Universidade do Esporte da Alemanha em Colônia, professor e doutorando em Ciência do Esporte pela Universidade de Bielefeld, Alemanha. Consultor esportivo e parceiro da Universidade do Futebol no Brasil

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