Uma reflexão sobre governança, estrutura e responsabilidade institucional no esporte.
Durante muitos anos, o futebol brasileiro se acostumou a olhar para o lugar errado.
Quando os resultados não vêm, a análise quase sempre recai sobre treinador, elenco, esquema tático ou desempenho dentro de campo. Mas, para quem vive os bastidores, a realidade é outra: na maioria das vezes, o problema não começa no campo. Começa muito antes. Começa na forma como o clube é estruturado e gerido.
Escrevo essa reflexão também como forma de me apresentar e de iniciar minha contribuição junto à Universidade do Futebol, instituição que sempre acompanhei e onde busquei conhecimento ao longo da minha trajetória no esporte.
Sou profissional com mais de duas décadas de atuação no esporte e no terceiro setor, com formação na área contábil e tributária, e experiência na estruturação de processos, governança e gestão institucional.
Venho de uma família simples, do interior de Minas Gerais, onde aprendi, ainda em casa, valores que carrego até hoje: responsabilidade, honestidade, acolhimento e respeito ao próximo. Meus pais não tiveram acesso à formação acadêmica, mas foram meus maiores mentores. Foi com eles que aprendi que fazer o certo não depende de cargo ou visibilidade, mas da forma como enxergamos o mundo e dos princípios que escolhemos sustentar.
Minha trajetória profissional também não começou no futebol profissional. Começou no trabalho de base, na observação atenta e no compromisso com o que precisava ser feito.
Ao longo do caminho, atuei em instituições que me permitiram compreender o esporte a partir de sua estrutura fiscal, contábil, tributária, financeira e institucional. No Minas Tênis Clube, participei da construção de áreas fundamentais, como processos tributários, convênios, licitações e a estruturação do departamento ligado à Lei de Incentivo ao Esporte.
Mais tarde, no Cruzeiro, vivi diferentes fases de um grande clube: momentos de conquista, reconhecimento e excelência, mas também momentos de crise profunda, perda de credibilidade e fragilidade institucional.
Foi vivendo esses extremos que entendi algo que hoje considero central:
O futebol brasileiro sofre menos por falta de talento e mais por ausência de estrutura.

Temos talento de sobra. Temos atletas brilhantes, torcidas apaixonadas, força cultural e enorme capacidade de mobilização social. O que muitas vezes falta é base para sustentar tudo isso de forma responsável e duradoura.
Ainda convivemos com problemas que se repetem em diferentes níveis do futebol brasileiro:
• ausência de governança formal
• concentração de decisões
• falta de processos claros
• fragilidade de controles
• baixa maturidade institucional
• conflitos de interesse
• desorganização financeira e documental
• pouca cultura de transparência
Em muitos casos, o clube cresce esportivamente antes de estar preparado para sustentar esse crescimento administrativamente. E, quando isso acontece, o preço chega, quase sempre alto demais.
O futebol é apaixonante, mas paixão não substitui gestão.
Durante muito tempo, o ambiente esportivo naturalizou estruturas frágeis, informalidade e decisões personalistas. Esse modelo pode até sobreviver por algum tempo, especialmente quando há resultado esportivo ou aporte financeiro. Mas dificilmente constrói longevidade.
Sem governança, o clube depende de pessoas.
Com governança, o clube constrói instituição.
Essa talvez seja uma das discussões mais urgentes do esporte brasileiro.
Quando falamos em governança, não estamos falando de burocracia. Estamos falando de clareza, responsabilidade, transparência, controle, planejamento e capacidade de tomar decisões com base em critérios, e não apenas sob pressão.
Ao longo da minha trajetória, também tive a oportunidade de atuar em espaços institucionais do esporte, incluindo a prestação de contas no Ministério do Esporte, participação em grupos técnicos do terceiro setor e atuação como relatora em comitê desportivo ligado à lei de incentivo estadual em Minas Gerais.
Essas experiências ampliaram ainda mais a minha convicção de que o esporte brasileiro não precisa apenas de investimento.
Precisa de maturidade institucional.
Investimento sem estrutura pode gerar crescimento.
Mas não garante sustentabilidade.
Por isso, tenho defendido cada vez mais uma mudança de mentalidade.
Gestão não é acessório.
Gestão é condição de continuidade.
É o que permite que o clube sobreviva às mudanças, às crises, às trocas de liderança e aos ciclos esportivos.
Mais do que formar atletas, o futebol precisa formar instituições.
Antes de atrair recursos, precisa aprender a organizar recursos.
Precisa desenvolver capacidade de prevenir, planejar e construir legado e não ter que reagir a crises.
Essa discussão se torna ainda mais relevante quando olhamos para o papel do esporte na sociedade.
Um clube não é apenas um time.
Ele pode ser uma plataforma de desenvolvimento humano, formação cidadã, pertencimento e impacto social real. Mas, para cumprir esse papel com responsabilidade, precisa ser sustentado por gestão.
Não há impacto consistente sem estrutura, nem confiança sem transparência e somente com governança uma organização terá futuro sustentável
Talvez o grande desafio do futebol brasileiro hoje seja esse:
Parar de olhar apenas para o campo e começar a olhar para aquilo que sustenta o jogo.


Deis Chaves é executiva do futebol e atual CEO do Nova Venécia SAF, com mais de 20 anos de experiência na área. Foi diretora de projetos do Cruzeiro EC por 13 anos, liderando iniciativas estratégicas e captação de recursos. É formada em Ciências Contábeis, com especializações em Direito Tributário e gestão do futebol, além de atuar como professora e palestrante na área esportiva.
LinkedIN: https://www.linkedin.com/in/deis-chaves-projetos/



13 respostas em “Estamos olhando para o lugar errado no futebol brasileiro”
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