Por: Nicolau Trevisani
Próximo dos 40 anos e vivendo os capítulos finais de uma das maiores carreiras da história do futebol, Lionel Messi abriu a Copa do Mundo de 2026 com uma atuação que chamou atenção não apenas pelo hat-trick diante da Argélia, mas principalmente pela forma como participou do jogo.
Os três gols naturalmente ocuparam as manchetes. Mas, ao observar a partida com mais atenção, talvez o aspecto mais interessante não tenha sido a quantidade de gols marcados, e sim a maneira como Messi parecia se relacionar com tudo o que acontecia ao seu redor.
Em reflexões anteriores publicadas na Universidade do Futebol, procurei discutir como a performance esportiva não pode ser compreendida apenas a partir de variáveis físicas, técnicas ou táticas. O rendimento emerge da interação constante entre percepção, tomada de decisão, emoção e comportamento dentro de um contexto específico.
Sob essa perspectiva, a atuação de Lionel Messi diante da Argélia oferece uma oportunidade interessante para refletirmos sobre um conceito amplamente estudado na psicologia da performance: o estado de Flow.
Desenvolvido por Mihaly Csikszentmihalyi, o conceito descreve um estado de profunda imersão na tarefa, no qual atenção, ação e percepção parecem funcionar de maneira altamente integrada. Nesses momentos, o atleta tende a apresentar elevada concentração, sensação de controle, clareza sobre os objetivos da tarefa e uma relação quase total com as demandas do presente.
Para o autor, o Flow tende a emergir quando existe um equilíbrio adequado entre o desafio apresentado pela atividade e a capacidade percebida pelo indivíduo para enfrentá-lo. Quando isso acontece, a atenção deixa de estar voltada para fatores externos e passa a concentrar-se integralmente na execução.
Ao observar Messi durante a partida, é difícil não enxergar diversos elementos compatíveis com esse estado.
Enquanto milhões de pessoas assistiam ao jogo pensando no peso histórico daquela Copa do Mundo, Messi parecia preocupado apenas com a próxima ação.
Enquanto torcedores e jornalistas discutiam legado, títulos e recordes, ele parecia concentrado apenas nas informações produzidas pelo próprio jogo.
Essa talvez tenha sido a principal impressão transmitida por sua atuação.
Messi parecia completamente conectado ao presente.
Seus deslocamentos surgiam no momento adequado. Suas decisões aconteciam com naturalidade. Seus movimentos pareciam econômicos, precisos e funcionais. Em diversos momentos, a sensação era de que ele antecipava situações antes mesmo que elas se tornassem evidentes para os demais jogadores em campo.
Sob a ótica da teoria do Flow, isso faz bastante sentido.
Uma das características mais marcantes desse estado é justamente a redução da interferência de estímulos externos na execução da tarefa. O atleta deixa de direcionar sua atenção para consequências futuras e passa a concentrar seus recursos atencionais naquilo que está acontecendo naquele instante.
O foco deixa de ser o resultado, a crítica, a repercussão ou a classificação. O foco passa a ser a próxima decisão, o próximo espaço e a próxima ação.
E talvez seja exatamente isso que observamos em muitos dos grandes momentos da carreira de Messi.
Ao longo da partida contra a Argélia, não parecia existir qualquer conflito entre percepção e ação. As respostas surgiam rapidamente, os comportamentos pareciam fluidos e a relação entre o jogador e o contexto do jogo acontecia de maneira quase orgânica.
É justamente essa fluidez que levou Csikszentmihalyi a utilizar a palavra “Flow”. A experiência subjetiva de estar tão conectado à tarefa que a ação parece simplesmente fluir.
Talvez o grande desafio de uma Copa do Mundo não seja apenas técnico, físico ou tático.
Talvez seja atencional.
A Copa do Mundo produz um ambiente capaz de retirar constantemente o atleta do presente. A responsabilidade de representar um país, a pressão da torcida, a cobertura da imprensa e a importância histórica de cada partida empurram o jogador para aquilo que pode acontecer.
Mas o desempenho acontece no agora.
E talvez seja justamente por isso que o conceito de Flow seja tão relevante para compreender performances excepcionais.
Os grandes jogadores não necessariamente são aqueles que ignoram a pressão.
Muitas vezes são aqueles que conseguem permanecer conectados à tarefa apesar dela.
Ao observar Messi contra a Argélia, a sensação era justamente essa.
Não parecia um jogador tentando construir um legado.
Não parecia um jogador preocupado com a repercussão do jogo.
Parecia apenas um jogador completamente conectado ao futebol.
E talvez seja exatamente nesse ponto que algumas das maiores performances esportivas conseguem emergir.
Porque, no fim, o futebol continua sendo um jogo de percepção, decisão e ação. E quando essas três dimensões conseguem funcionar em perfeita sintonia, aquilo que chamamos de performance muitas vezes passa a parecer algo simples.
Mesmo quando está sendo realizado por um dos maiores jogadores da história em uma Copa do Mundo.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
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