Por: Tiago Corradine
Recentemente, o excelente texto do meu amigo Rafael Castellani, intitulado “Quem vai construir as pontes capazes de humanizar e transformar o futebol e a sociedade?”, trouxe à tona uma reflexão profunda que ressoa diretamente com a minha jornada e propósito no futebol. Essa provocação me leva a um recorte específico, mas de extrema importância: o papel do coordenador técnico de categorias de base, seja em clubes ou outras instituições esportivas, como um verdadeiro nexialista.
Minha trajetória, que iniciou nas quadras de futsal e se aprofundou na universidade pública, sempre foi pautada pela crença de que o futebol é muito mais do que um jogo. É uma ferramenta poderosa de transformação social e humana. Como mencionei em meu artigo “O Florescer da Infância no Futebol: Um Chamado à Formação Integral”, defendo a formação integral de atletas e cidadãos(ãs), onde o desenvolvimento humano e social caminha lado a lado com o aprimoramento técnico. Não podemos permitir que o futebol se torne um palco de exploração precoce, onde a criança e adolescente seja visto apenas como um ativo a ser lapidado.
O Nexialista no Futebol de Base: Um Construtor de Conexões
O termo nexialista descreve um profissional com uma visão ampla e integrada do conhecimento, capaz de conectar diferentes áreas do saber. No contexto do futebol de base, essa habilidade é fundamental. O coordenador técnico nexialista é aquele que não se limita a uma única dimensão do desenvolvimento do(a) atleta. Ele compreende que o sucesso em campo está intrinsecamente ligado ao bem-estar psicológico, social, educacional e familiar do(a) jovem.
A Essência do Nexialismo: Da Ficção à Realidade Contemporânea
A palavra “nexialismo” tem suas raízes na ficção científica, cunhada por A.E. van Vogt em sua obra de 1950, The Voyage of the Space Beagle. Na trama, o Dr. Elliott Grosvenor era o único membro da tripulação capaz de integrar diversas especialidades científicas para resolver dilemas complexos que os demais, isolados em seus campos de atuação, não conseguiam compreender. Van Vogt, de forma visionária, antecipou a necessidade de uma ciência das conexões, que hoje conhecemos como pensamento sistêmico e interdisciplinaridade (transdisciplinaridade, talvez?)
No cenário contemporâneo, o empresário e pensador Walter Longo resgatou e popularizou o conceito, adaptando-o para o mundo dos negócios e da comunicação. Longo argumenta que estamos vivenciando o fim da “Idade Média” (caracterizada pela massificação) e o início da “Idade Mídia”, onde a individualidade e a capacidade de segmentação se tornam cruciais. Nesse contexto, o nexialista emerge como um perfil profissional distinto, que se diferencia do especialista (que sabe tudo sobre uma coisa) e do generalista (que sabe um pouco sobre muitas coisas). O nexialista, por sua vez, “sabe onde buscar o nexo entre as coisas” , atuando como um curador de significados e um tradutor de linguagens entre diferentes áreas.
O Nexialista na Era da Inteligência Artificial e do Capitalismo
Em um mundo fortemente influenciado pela tecnologia, pela Inteligência Artificial (IA) e por uma visão capitalista que muitas vezes prioriza o lucro em detrimento do humano, o papel do nexialista torna-se ainda mais vital. A IA, com sua capacidade de processar dados em velocidade e identificar padrões é uma ferramenta poderosa, mas carece de contexto, propósito e ética. É aqui que o nexialista se destaca como o contraponto consciente da IA .
Enquanto as máquinas automatizam o “fazer”, o nexialista foca no “porquê” e no “como conectar”. Ele é o profissional que:
● Oferece direção e ética: Em meio à avalanche de dados gerados pela IA, o nexialista fornece o discernimento necessário para transformar informação em sabedoria aplicável e eticamente responsável.
● Gera sentido: Se a IA produz conteúdo, o nexialista é quem gera sentido, conectando fragmentos de informação em um mapa coerente e compreensível.
● Cultiva a inteligência humana: Em um cenário onde o conhecimento técnico puro pode se tornar obsoleto rapidamente, o nexialista valoriza e desenvolve habilidades intrinsecamente humanas, como a visão holística, a curiosidade, a comunicação empática e a liderança colaborativa. Essas são as competências que permitem navegar pela complexidade e pela ambiguidade, características marcantes do capitalismo contemporâneo e da era digital.
Cenários e Exemplos de Ações Transformadora\
Um coordenador técnico nexialista atua em diversas frentes, promovendo ações transformadoras:
- Desenvolvimento de Metodologias Integradas: Em vez de focar apenas no treinamento tático e técnico, o nexialista implementa metodologias que incluem sessões de desenvolvimento socioemocional, acompanhamento escolar e programas de mentoria. Por exemplo: a criação e unificação de um “currículo de vida” paralelo ao currículo esportivo, onde temas como inteligência emocional, planejamento financeiro, antifragilidade e cidadania são abordados de forma prática.
- Gestão de Conflitos e Mediação: Em situações de pressão, como a ‘’disputa por jovens talentos’’ ou a alta expectativa de pais, o nexialista atua como mediador, buscando soluções que priorizem o bem-estar da criança e do(a) adolescente e não apenas o resultado imediato ou o retorno financeiro. Ele é a voz que defende o “florescer da infância” contra a mercantilização precoce.
- Criação de Redes de Apoio: Reconhecendo que o clube não é uma ilha, o nexialista estabelece parcerias com escolas formais e não formais, centros esportivos, culturais, assistenciais e outras instituições. Essas redes garantem que os jovens tenham acesso a um suporte completo, tanto dentro quanto fora do ambiente esportivo, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade.
- Promoção de um Ambiente Lúdico e Ético: Inspirado pela visão de um “futebol mais humano, lúdico, ecológico e menos mercadológico”, o coordenador nexialista assegura que o ambiente de base seja um espaço de alegria, experimentação e aprendizado. Ele combate a pressão excessiva e a adultização, defendendo o direito de ser criança e de se desenvolver no próprio tempo.
O Chamado à Ação
A pergunta do Rafael Castellani “Quem vai construir as pontes?” encontra uma resposta clara na figura do coordenador técnico nexialista. Somos nós, profissionais comprometidos com a formação integral, que temos a responsabilidade de erguer essas pontes. É um trabalho contínuo, que exige apoio, equipe, estrutura, convicção, sensibilidade, coragem e uma visão sistêmica.
A missão é clara: garantir que a performance vá além das quatro linhas, impulsionando jornadas de vida únicas e permitindo que cada jovem floresça em seu próprio tempo. Acredito que, ao abraçarmos o papel de nexialistas, podemos, de fato, transformar o futebol e, consequentemente, a sociedade, construindo um futuro mais justo e inclusivo.

Tiago Corradine é Diretor Técnico da Fundação Real Madrid no Brasil. Graduado em educaçõ física pela UNICAMP, enxerga o futebol como ferramenta de transformação social e atua como nexialista — construindo pontes entre performance e formação humana. Com passagens por EUA, Espanha e Coreia do Sul, é especialista em desenvolvimento de atletas antifrágeis, gestão de escolas de futebol e consultoria para o Certificado de Clube Formador (FPF).
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/tiago-corradine-3b19a884/


