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O grito do gol

A determinação da toda poderosa Federação Internacional de Football Association, Fifa, com relação à limitação das expressões de alegria em campo a meros cumprimentos formais, nas ocasiões de comemoração de gols, momento supremo do jogo de bola, é muito mais significativa do que desejam alguns que a defendem como instrumento coibitivo dos excessos, tais como os beijos e abraços, nas horas dos gols,

posicionamento este no mínimo de alto significado machista.

 

Na verdade está em jogo nada mais nada menos do que a própria liberdade de expressão do indivíduo, de cunho, neste caso específico, totalmente popular, dada a presença do futebol como parte integrante da cultura popular brasileira.

 

Se, como era de se esperar, pronunciamentos das autoridades responsáveis pelo futebol nacional, não foram ouvidos (pois é lógico o interesse que a eles, o controle das manifestações populares, desperta, fazendo-as permanecerem sob seus domínios), é digno de aplausos os diversos depoimentos de atletas de destaque no cenário futebolístico brasileiro, que com palavras refutaram tal deliberação, dando na prática a verdadeira e merecida resposta a tão repugnante imposição:

 

Gols, cada qual mais festejado do que nunca!

 

Este recente episódio de autodeterminação dos atletas brasileiros nos reporta a um outro ocorrido nos idos de 1927, e detalhado no livro de Mário Filho, O negro no futebol brasileiro, e que pedimos licença aos leitores para, neste artigo, passar a narrar.

 

… Cinqüenta mil pessoas comprimidas nas arquibancadas gerais, de pé, batendo palmas para o Presidente da República. Era gostoso receber uma ovação daquelas, nada preparado, tudo espontâneo. Washington Luís descobria, ao mesmo tempo, a força e a beleza do esporte. Subitamente o jogo pára, não continua… O juiz tinha marcado um pênalti contra os paulistas, os paulistas iam abandonar o campo. Washington Luís fica sério, dá uma ordem a um oficial de gabinete. Era a ordem para o jogo continuar, uma ordem do Presidente da República.

 

E lá desce o oficial de gabinete… A notícia se espalha, Washington Luís tinha mandado acabar com aquilo… O jogo ia recomeçar. O oficial de gabinete entra em campo debaixo de palmas, vai até Amílcar e Feitiço. E de cara amarrada dá o recado: – O Presidente da República ordenava o reinício do jogo. A resposta de Feitiço, mulato disfarçado, que nem era capitão do escrete paulista, foi que o doutor Washington Luís mandava lá em cima – lá em cima sendo a tribuna de honra… Cá embaixo – cá embaixo sendo o campo – quem mandava era ele. E para mostrar que mandava mesmo, que não era conversa, fez um sinal, os jogadores paulistas saíram atrás dele. Washington Luís, Presidente da República, não teve outro remédio, senão ir embora, ofendidíssimo.

Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br

*Lino Castellani Filho é Doutor em Educação, docente da Faculdade de Educação Física/Unicamp, pesquisador-líder do "Observatório do Esporte" – Observatório de Políticas de Educação Física, Esporte e Lazer – CNPq/Unicamp, e foi Presidente do CBCE (1999/2003) e Secretário Nacional de Desenvolvimento do Esporte e do Lazer/Ministério do Esporte (2003/06)
 

 


 

[1] Publicado na seção opinião do diário O Jornal – São Luis, MA – do dia 14 de outubro de 1981, quinta feira. 

 

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Vencemos! Vencemos?

Em 1990 ficou célebre a declaração do Lazaroni, então técnico da nossa seleção, de que seu objetivo era conquistar o título, pouco lhe importando se isso se desse através de um gol feito com a mão, aos 49 minutos do segundo tempo e em completo impedimento! Não ganhamos… E ele foi crucificado.

 

A Geração Dunga, como ficou batizada, passou a carregar o estigma de incompetente, descaracterizadora dos valores que davam luz própria ao futebol brasileiro, onde a habilidade técnica estava em perfeita sintonia com um jogo de alto padrão estético, plástico e lúdico no qual Garrinchas, Pelés e Tostões desafiavam a lógica da vitória, em muitos momentos preterida por um chapeuzinho a mais, uma bola por entre as canetas dos joãos que ousavam nos enfrentar.

 

É esclarecedor o sentimento – triste, mas de peito lavado – vivenciado por todos nós nas duas Copas anteriores à de 90, nas quais mesmo eliminados prematuramente da competição, nos sentimos confortados pelo reconhecimento internacional de nosso ímpar valor.

 

Nesta Copa de 94, Parreira e Zagalo reproduziram, em dose dupla, a lógica de Lazaroni e de uma elite que tem no aforismo o importante é levar vantagem, certo, difundido pelo canhotinha de ouro da Copa de 70, o princípio ético (?) norteador do projeto histórico de sociedade que querem para o país.

 

Tão logo Baggio chutou aquela bola para longe da meta defendida por Taffarel, saímos às ruas festejando o tetra, mas… Engraçado… Por que, lá no fundo, nos sentimos constrangidos, com um gosto amargo na boca, como que se estivéssemos festejando a vitória de uma seleção que não é nossa, de um país que não é o nosso, que não reflete o sentimento de milhões de miseráveis absolutos que silenciosamente sonham, também eles, poder participar de um Brasil de fato vitorioso?

 

Vencemos! Vencemos? Esse futebol de resultados (qualquer semelhança com outras coisas de resultado não é mera coincidência) sinaliza para a vitória de um projeto de sociedade brasileira que não é nosso, pois aponta para a derrota de um povo solidário, sofrido mas orgulhoso de sua cultura e que quer o futebol, portanto, resgatado em toda a plenitude de sua riqueza, colocando por terra – de uma vez por todas – a falsa idéia de que para vencermos temos que, necessariamente, abrirmos mão daquilo que nos identifica enquanto brasileiros.

Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br

*Lino Castellani Filho é Doutor em Educação, docente da Faculdade de Educação Física/Unicamp, pesquisador-líder do “Observatório do Esporte” – Observatório de Políticas de Educação Física, Esporte e Lazer – CNPq/Unicamp, e foi Presidente do CBCE (1999/2003) e Secretário Nacional de Desenvolvimento do Esporte e do Lazer/Ministério do Esporte (2003/06)


 

[1] Publicado no folheto semanal Destaque, do Diretório Regional – São Paulo – Do Partido dos Trabalhadores, nº 187 (ano IV), 06 a 13 de agosto de 1994.

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Esgoto, Cólera e Tuberculose

Esqueça a decisão do TAS que dá mais poder aos clubes e menos poder à FIFA, ou – pelo menos, ao COI. Se a FIFA quer que o COI tenha poder, aí é outra história, mas de qualquer maneira, esqueça isso. É um assunto muito óbvio pra essa coluna. Eu ia voltar a falar da já longa luta entre os principais clubes do mundo e os órgãos reguladores do futebol. Acho que já falei muito disso. Chega. Pelo menos por enquanto.

Um assunto muito menos óbvio acabou não ganhando a devida repercussão. Mas tem potencial para criar um estardalhaço absurdo. Não vai, mas que tem potencial, isso tem.

O caso foi o seguinte: na Itália, um torcedor do Nápoli ganhou na justiça uma ação em que a Internazionale terá que indenizá-lo em 1.500 euros. O motivo alegado pela justiça foi ‘danos existenciais’. Tudo porque torcedores da Inter colocaram faixas na partida disputada contra o Nápoli no estádio San Siro chamando os napolitanos de ‘Esgoto da Itália’, numa alusão ao problema que a cidade sofre com a coleta de lixo. Além disso, outras faixas diziam coisas como ‘Olá, sofredores de cólera’ e ‘Napolitanos têm tuberculose’. Aí o cara se sentiu ofendido, no caso existencialmente ofendido, enfiou um processo e vai levar uma pequena grana pra casa.

Ok, convenhamos que chamar alguém de ‘sofredor de cólera’ não é um negócio muito aplaudível. Ainda mais se a pessoa realmente teve algum problema do tipo, que não sei se é o caso. Entretanto, a ofensa mútua e bruta sempre foi um dos combustíveis do futebol. É quase que uma premissa do jogo. Você vai a uma partida para torcer, xingar e ser xingado. Quem acompanha futebol conhece essa regra não-escrita. É uma questão de costume, de tradição.

Pelo menos era assim. A sociedade e o futebol, por conseqüência, vêm sofrendo um processo de racionalização comportamental ao longo dos anos. Coisas que eram possíveis antes, hoje são reprimidas. Coisas possíveis hoje, serão reprimidas amanhã. Os esportes não fogem disso. Cada vez menos são permitidos os desvios comportamentais, principalmente de dirigentes, técnicos e jogadores. Tira um pouco da graça, claro, mas é uma transição socialmente imposta. Não tem muito o que fazer. Alguns chamam esse processo de ‘macdonaldização’, numa óbvia alusão à rede de fast-food estadunidense, que é essencialmente o processo em que as pessoas ficam tão preocupadas com o que os outros dizem que tudo acaba perdendo a graça, no caso o sabor. Tal qual um sanduíche feito em poucos minutos. Fica tudo meio pronto. Um tanto quanto previsível. Entretanto, essa limitação comportamental sempre ficou restrita aos atores do jogo, e não aos espectadores. Com essa imposição também migrando pro lado de fora do campo, a coisa toma outro rumo, que não necessariamente é legal.

Dá pra entender as razões que levam um juiz a dar uma sentença dessas, principalmente dada a onda de violência entre torcidas na Itália. Não acho que a moda vá pegar em outros lugares, mas – se pegar, o futebol certamente vai perder um pouco da sua graça e, talvez, um pouco do seu público. Futebol é um jogo, sim, mas a provocação entre torcidas faz parte do pacote. Tudo, obviamente, dentro dos limites aceitáveis. E o impasse todo talvez seja justamente esse. Cada dia que passa, o limite fica menor. Quanto o futebol irá agüentar sem mudar a sua essência?

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Brasileiros que vivem na Suíça mantêm paixão pelo futebol

Os brasileiros que vivem atualmente em Zurique, na Suíça, deixaram o país do futebol, mas não perderam a paixão pelo esporte. Na cidade onde a Federação Internacional de Futebol (Fifa) anuncia na terça-feira se o Brasil será sede da Copa do Mundo de 2014, os brasileiros não deixam de se reunir para assistir aos jogos nas copas do mundo.
“É uma festa, tem batucada na rua, tudo fica verde a amarelo. Nos reunimos e é sempre uma festa, estamos sempre procurando uma razão para fazer festa e a Copa é uma”, conta Heloísa Marques, que tem uma casa de dança em Zurique, onde brasileiros se reúnem para dançar ritmos do Brasil.
Atualmente cerca de 45 mil brasileiros vivem na Suíça, de acordo com dados do consulado brasileiro. Para acompanhar os jogos brasileiros, é preciso assinar canais fechados de televisão. “Tem um pacote de canais brasileiros e a maioria dos homens assina por causa do canal de esportes”, afirma a carioca Vanessa Balestra, que se casou com um suíço e vive no país há quatro anos.
E os brasileiros que vivem em Zurique não gostam só de assistir ao futebol, também gostam de jogar. “Tem pessoas que se reúnem para jogar. A infra-estrutura aqui é excelente, todos os bairros têm campos”, afirma Severino Rodrigues, que está há quatro anos no país.
Anderson Santana mora em Zurique desde os 14 anos de idade, quando a mãe se casou com um suíço. O brasileiro trouxe com ele o entusiasmo pelo futebol. Santana jogou em clubes amadores da Suíça até que organizou com amigos brasileiros um time de futebol de areia que já chegou a ser campeão da Copa de Futebol de Zurique.
Ele conta que também não faltam as chamadas “peladas”. “Todo domingo temos um jogo que é mais brincadeira, fazemos um churrasquinho e jogamos. Fazemos torneios.”
Apesar de manterem a ligação com o esporte, apenas um dos entrevistados tinha ouvido falar sobre o evento de amanhã na Fifa, que terá a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de ministros e de governadores, além de dezenas de convidados.

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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Hora de agir

José Geraldo Couto chamou a atenção, em coluna publicada a semana passada na Folha de S. Paulo, para a barbárie que tem acometido o futebol mundial.
 
De Paulo Serdan a Vladimir Putin, parece que todos resolveram usar o esporte para extravasar a violência, para manifestar a revolta com o mundo.
 
O futebol, pela popularidade que tem, sempre foi e sempre será usado pelos governantes para se promoverem e/ou acalmar o povo sedentoçpor mudanças. Foi assim nos anos 70 com a seleção brasileira e com o Campeonato Brasileiro, ou com o time francês campeão mundial em 1998. Na ocasião, os Bleus mostraram uma França de todas as cores.
 
A Alemanha também aproveitou a Copa do Mundo no ano passado para espantar o passado nazista que acompanhou o país por mais de meio século.
 
Não é de se estranhar que o futebol continue a mover multidões e a formar o comportamento das pessoas. O que não é possível acreditar é como ainda vemos o esporte servir de escudo para a organização e formação de grupos extremistas.
 
O futebol, nos anos 30 e 40, não estava tão desenvolvido a ponto de brecar movimentos de extrema direita que eclodiam na Europa. Hoje, porém, a história é muito diferente.
 
Além de termos vivido e estudado os reflexos de ações de extrema-direita no mundo todo, sabemos o alcance de mídia que o futebol têm.
 
É hora de não ficar apenas na estratégia de marketing. Da Fifa ao Íbis, o mundo do futebol tem de se unir e começar a ser usado para propagar a união, a miscigenação, o convívio das diferentes raças em harmonia.
 
Os problemas do futebol já são em demasia. É preciso trabalhar desde já para que ele não se torne também um foco de ódio e segregação. Do contrário, sua falência será questão de tempo. Pouco tempo.
 
Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br
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Futebol e racismo

O Brasil celebrou em 20 de novembro o Dia da Consciência Negra. E como recomendam as pessoas que se preocupam com o crescimento e desenvolvimento de nosso país de forma justa e democrática, esta data é adequada para que façamos uma reflexão crítica sobre as condições de vida da população negra brasileira.
 
Aproveitando, portanto, o momento procurei refletir um pouco sobre alguns aspectos que envolvem a inserção do negro no futebol brasileiro.
 
Não são poucas as pessoas que afirmam não existir preconceito de cor ou racismo no Brasil. 
 
Há aqueles também que consideram o futebol como uma das instituições mais democráticas que possuímos e que não faz distinção de raça ou de classe social para abrir portas aos seus atores, desde que sejam talentosos.
 
E concluem afirmando que o futebol é um canal privilegiado que promove a inclusão e a justiça social, dando oportunidade a todo mundo, indistintamente.
 
Visto por certo ângulo até podemos dar alguma razão a tais argumentos.
 
De fato, se formos analisar a porcentagem da população negra e mulata de nosso país e compararmos com o número de atletas da raça que praticam futebol e nele se destacam como profissionais, vamos encontrar muitos deles nos clubes espalhados pelo Brasil.
 
Faça o exercício de verificar em algumas revistas especializadas, álbuns de figurinhas ou mesmo sites dos diferentes clubes brasileiros e você vai notar que há um número razoável de atletas negros e mulatos em grande parte das equipes.   
 
Entretanto, se formos analisar um pouco mais profundamente, verificaremos que esta democracia e os canais de inserção ou inclusão social não são tão amplos assim.
 
Se tiver um pouco de paciência tente, por exemplo, descobrir quem são os treinadores que dirigem os diferentes times. Pegue os 40 clubes que disputam as séries A e B do Campeonato Brasileiro e vai descobrir que não há mais do que 2 ou 3 treinadores negros ou mulatos dirigindo essas equipes.
 
Mais difícil para pesquisar, mas também interessante é verificar quantos dirigentes negros ou mulatos possuímos no futebol brasileiro. Infelizmente vamos descobrir que eles são em números muito reduzidos.
 
Seria isto simples coincidência ou o reflexo do preconceito e racismo ainda vigente entre nós?
 

Eu, particularmente, não tenho dúvida alguma quanto à resposta.

Para interagir com o autor: medina@universidadedofutebol.com.br

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Futebol brasileiro não passa de um grande fingimento

O futebol brasileiro, sabe-se muito bem, é mundialmente conhecido pela imensa técnica e habilidade de seus jogadores. É, também, mundialmente conhecido pelo talento inequívoco desses mesmos jogadores em cavar faltas e potencializar eventuais cartões amarelos e vermelhos para seus adversários.
 
Talvez o maior exemplo disso tenha acontecido na Copa do Mundo de 2002, na primeira partida contra a Turquia, quando Rivaldo – eleito o melhor jogador do mundo alguns anos antes – levou uma bolada na coxa, colocou a mão sobre o rosto, caiu no chão, e cavou a expulsão do jogador adversário. “Brasileiros fingidos!”, deve ter exclamado polidamente algum torcedor turco ao ver o replay detalhado do lance.
 
Vampeta, companheiro de Rivaldo na seleção pentacampeã, também acha isso. Quando ainda jogava no Flamengo, o jogador bigodudo foi perguntado qual era a razão do fraco desempenho da equipe. Vampeta então respondeu que o Flamengo fingia que pagava, e ele fingia que jogava. Era tudo, enfim, um grande fingimento. Sem saber, acho, ele criou um dos maiores provérbios da história dos recursos humanos, além de cravar uma máxima da administração esportiva que merece ser copiada, citada e referendada por um bom tempo.
 
Talvez Vampeta não tenha chegado a alcançar o status de craque do futebol brasileiro, mas – sem dúvida alguma – Vampeta é um gênio. E não só por ter sido um dos últimos jogadores a usar bigode e nem por ter dado cambalhotas na rampa do Planalto. Não. Vampeta é um gênio porque conseguiu simplificar o futebol brasileiro em uma única frase. Coisa que só os gênios são capazes de fazer.
 
É triste admitir, mas é verdade. O futebol brasileiro não passa de um grande fingimento. Os clubes fingem que pagam e que se mobilizam pelas reformas estruturais mais básicas. Os jogadores fingem que jogam e que querem ficar no clube, e não se transferir pra algum mercado que pague melhor. A torcida, principalmente a organizada, finge que vai pro estádio pra assistir um jogo e não pra descarregar suas agruras e sair no sopapo com o cara do lado, ou com a polícia. A polícia finge que vai pro jogo pra servir e proteger, e não pra descarregar suas agruras saindo no sopapo com o cara do lado, ou com a torcida. A imprensa finge que se preocupa com o estado primário da organização interna do seu produto. E o governo, por fim, finge que vai atuar seriamente pra mudar o estado caótico e não lá muito otimista em que as coisas atualmente se encontram.
 
É tudo um baita de um fingimento danado.
 
Como eu mesmo faço parte desse ambiente, admito tristemente que também estou dentro de todo esse fingimento. É verdade. Eu finjo que estou realmente preocupado e que vou fazer alguma coisa pra melhorar isso tudo. Eu até quero, mas sei que não vou. Não confio nas minhas capacidades a ponto de achar que o meu esforço valha a pena e que dará algum tipo de resultado. Eu finjo que é possível, mas sei que não é. Não sou um gênio.
 
Talvez seja hora de eu deixar crescer um bigode.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Sociedade, futebol e preconceitos

É incrível como o mundo chamado civilizado entra no século 21 ainda tão cheio de preconceitos.
 
O preconceito, como o próprio nome indica, é um pré-conceito sobre determinados assuntos que não compreendemos muito bem, mas que temos opiniões aparentemente conclusivas sobre eles, fazendo-nos comportar de maneira injusta diante do outro, diante do ser humano que nos cerca.
 
É, enfim, uma atitude de discriminação que costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém diferente de nós nos aspectos social, racial ou sexual.
 
Há preconceitos de toda ordem. Para ficarmos nos principais, observamos preconceito à outra cor de pele (racismo), preconceito às outras religiões, preconceito em relação às mulheres (machismo), preconceito de classe social, preconceito contra pessoas de outras orientações sexuais (homossexuais e bissexuais) e até preconceito contra pessoas de outras nacionalidades.
 
Neste contexto é curioso observar que o futebol, como esporte mais popular do mundo, e que bem poderia ser um poderoso instrumento de educação, cultura e desenvolvimento, é paradoxalmente uma das instituições mais conservadoras e que concentra preconceitos.
 
Lembro-me que certa vez, como membro da comissão técnica de um famoso clube de futebol brasileiro, com o intuito de melhorar a performance e equilíbrio emocional da equipe, tentava introduzir técnicas alternativas de preparação dos atletas, por meio de aulas de yoga.
 
Eram aulas semanais e optativas, ou seja, nenhum atleta era obrigado a fazê-las. Mas aos poucos vários deles passaram a se interessar e se beneficiar dessa prática. E isso começava a incomodar alguns atletas mais preconceituosos.
 
Por se tratar de uma atividade bastante diferente dos mais tradicionais e rudes exercícios das rotinas dos jogadores e devido ao fato das aulas serem ministradas por uma mulher, um dos atletas (que por sinal hoje é um famoso treinador brasileiro) me questionou mais ou menos desta forma: “Professor, vai ter aula de yoga amanhã? Eu respondi: “Sim, vai… Por quê? Você vai querer fazer a aula?” Ao que ele me respondeu: “Não, não… é que vou pedir pro roupeiro preparar os colans cor-de-rosa e as sapatilhas para que a bonequinhas possam fazer a aula”.
 
Exemplos como esse e de outros preconceitos, infelizmente ainda são comuns no futebol e em nossa sociedade, e as chances de os superarmos definitivamente ainda são remotas.
 
Isto me faz lembrar a frase do físico e pensador Albert Einstein que concluiu ser mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.

Para interagir com o autor: medina@universidadedofutebol.com.br