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Quem quer dinheiro?

A Delloite soltou algumas informações sobre seu novo relatório a respeito das finanças dos clubes europeus. Pouca coisa mudou. Quer dizer, de modo geral, pouca coisa mudou, a não ser entrou muito mais dinheiro no caixa dos grandes clubes, pra variar, em especial os ingleses, para variar um pouco mais.
 
Na verdade, os clubes ingleses conseguiram uma receita de aproximadamente R$ 8 bilhões na temporada 07/08. E isso é dinheiro, muito dinheiro. Tanto dinheiro que corresponde a aproximadamente um quarto do total arrecadado por clubes em toda a Europa, que chegou à cifra de cerca de R$ 37 bilhões.
 
Entretanto, o aumento de receita significou também um aumento de gastos com salários e transferências, coisa que é quase regra no mundo do futebol. Se da temporada passada para a atual a receita dos clubes da Premier League subiu 11%, o gasto com salários e transferências cresceu 13%. O poder dos clubes ingleses fica cada vez mais visível no mercado e, não por acaso, esses clubes tendem a ter maiores chances de melhor desempenho em torneios continentais, como foi o caso da Champions League desse ano.
 
Mas se os clubes ingleses andam comprando muita gente de fora, eles também deixam cada vez mais de produzir jogador dentro de casa. Não por acaso, também, a Inglaterra está fora da Eurocopa e gerando reclamações do seu técnico, Fábio Capello, por conta da falta de opções disponíveis. Um relatório da BBC divulgado nesta semana comprova isso. Nesta temporada, os clubes da Premier League bateram recorde de não escalação de titulares ingleses. Dos 498 que entraram em campo no começo do jogo durante todo o campeonato, apenas 178, 34%, eram ingleses.
 
Outro relatório que menciona o baixo aproveitamento de talento local foi feito pelo Professional Football Player’s Observatory, que analisou os clubes e jogadores que disputaram a Champions League deste ano. O relatório afirma que de todos os jogadores que estavam registrados na competição, apenas 20% vinham das categorias de base de seus respectivos clubes e 60% eram jogadores estrangeiros.
 
Isso apenas colaborou ainda mais para a Fifa, mais especificamente o presidente Joseph Blatter, forçar o seu projeto dos 6+5 já tão falado por essas bandas. De acordo com ele, a idéia é proteger as seleções nacionais e os clubes menores. Com menos jogadores disponíveis para o mercado externo, a lógica é que o mercado local tende a se fortalecer. Blatter diz ter o apoio de todo mundo, inclusive das federações européias. Ou seja: o mundo do futebol está pronto para aceitar a regra.
 
O problema é que o mundo do futebol não é soberano, por mais que ele queira ser. Para que a regra do 6+5 seja aceita pelos clubes, ela tem que ser aceita pelas regras dos países nos quais esses clubes estão inseridos. Enquanto que boa parte do mundo deve aceitar isso sem maiores problemas, na Europa a coisa muda.
 
Tendo um passado recente de guerras étnicas que dizimaram gerações, a Comissão Européia rejeita qualquer hipótese de discriminação do indivíduo por conta do lugar em que ele nasceu, desde que dentro da Comunidade Européia. Portanto, não há, a princípio, qualquer possibilidade de que a regra do 6+5 seja aceita por aquelas bandas, uma vez que você irá cercear o direito de trabalho de um cidadão apenas por conta do lugar em que ele nasceu. E como bem disse Vladimir Spidla, comissário europeu do trabalho, “jogadores profissionais são trabalhadores”. E trabalhadores são livres para escolherem onde querem trabalhar.
 
Principalmente na Inglaterra, porque lá paga mais.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Viver ou morrer

Nos idos tempos de Fernando Henrique Cardoso, o governo adotou o lema “Exportar ou Morrer”, que obviamente remetia à necessidade do país se posicionar com mais propriedade no mercado globalizado, principalmente como fornecedor de matéria-prima, produtos e serviços. Desde então, adotando uma política bastante ferrenha, o Brasil tem conseguido seguidos superávits da balança comercial, o que possivelmente ajudou no fortalecimento da economia nacional.
 
Esse fenômeno, curiosamente – mas não necessariamente diretamente atrelado, foi contemporâneo ao aumento de transferências internacionais de atletas brasileiros. Na medida em que o país exportava mais produtos e, principalmente, matéria-prima, mais jogadores deixavam o futebol nacional. Afinal, no futebol brasileiro, a matéria-prima é boa e o valor relativamente barato, principalmente por conta da defasagem dos poderes da moeda nacional em relação aos principais mercados compradores de jogadores.
 
Bom, com o tempo tudo isso foi mudando. Hoje, o superávit da balança já não é tão grande, uma vez que, com o mercado interno de consumo aquecido, o país começa a importar cada dia mais. Com o mercado bom, a moeda estabilizou em relação a outras mais importantes, ainda que tenha ganhado muito valor em relação ao dólar, mas hoje em dia qualquer um ganha do dólar. Porém, o pensamento reinante indica que o Brasil iniciou uma guinada ao desenvolvimento sustentável e, a não ser que algo mais radical aconteça, ele deve se estabelecer como uma das grandes potências mundiais em breve. Com isso, a tendência é que ele fortaleça ainda mais a sua moeda e enfrente maiores dificuldades de exportar produtos e matéria-prima, principalmente aquelas em que a grande competição se dá por conta do preço, que é o caso das commodities.
 
Jogador de futebol, para mercados menos desenvolvidos, pode ser considerado uma commodity. Não é a toa que os jogadores que mais saem dos seus países são jogadores com origens em localidades subdesenvolvidas. O preço é algo que importa, e muito.
 
Pois bem. Dado o momento que atravessa o Brasil e a possível valorização do Real no mercado internacional, como fica o mercado de transferência de jogadores? Haverá um efeito contrário ao “Exportar ou Morrer”? Ficará o jogador brasileiro tão caro que será melhor contratar jogadores de outros países menos desenvolvidos, principalmente da América do Sul?
 
O que vai acontecer, exatamente, é complicado dizer. Mas que vai haver alguma mudança, isso vai. Quer dizer, já ta acontecendo. É cada vez maior o número de jogadores estrangeiros presentes em clubes brasileiros. Entretanto, essa tendência não deve ser muito acintosa, afinal tem muito jogador de futebol no Brasil. E a partir do momento que os clubes de fora fecharem a porta por conta do preço, esses jogadores terão que se voltar ao mercado interno, que já está um pouco saturado. Com mais oferta e a mesma demanda, o preço cai. Jogadores ganharão menos e os valores de transferência serão menores. Talvez chegando ao ponto de voltar a valer a pena financeiramente para o mercado internacional. Aí a situação não se altera muito daquilo que existe hoje.
 

O problema é a hora que os jogadores em formação perceberem que dá pra ganhar dinheiro mais fácil em outros mercados de atuação. Aí sumirão jogadores e o futebol brasileiro precisará adotar uma política de importação ferrenha. Daí tudo muda. Afinal, o futebol brasileiro não irá mais exportar. Isso significará que ele pode morrer?

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Três pequenas medidas

O presidente Lula reclamou do excesso de transferências de jogadores do Brasil para o exterior. Normal. Segue, como sempre, o discurso mais fácil. O discurso mais simples. O discurso mais compreensível.
 
Como a maioria dos brasileiros que acompanham futebol, Lula se incomoda com a saída dos atletas. Ainda mais ele, torcedor do Corinthians, que vê hoje um time bastante desfigurado em relação àquele de quando o time foi campeão brasileiro.
 
Lula tem razão para ficar preocupado. Afinal, nunca na história desse país tantos jogadores foram embora. Nos oito anos de governo FHC, a média de transferências foi de 560 jogadores por ano. Nos quatro primeiro anos de governo Lula, a média saltou para 842 jogadores, mais de 50% a mais.
 
Obviamente que a culpa, se é que existe algum sentimento de culpa envolvido nesse processo, não cabe principalmente ao governo Lula. Mas ele, diferentemente de qualquer outro cidadão comum do país, pode de fato ajudar a atenuar o tamanho desse êxodo. Eis aqui, então, uma lista de três pequenas recomendações ao presidente Lula para diminuir o número de transferências internacionais que tanto lhe incomoda:
 
1) Reduzir a desigualdade:
 
O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, o que não é novidade pra ninguém. O que pode ser uma informação nova é que o tamanho da desigualdade de um país está diretamente atrelado ao número de jogadores de futebol presentes em campeonatos estrangeiros. Estudos comprovam que quanto maior a desigualdade social de um país, dentro de certo contexto, maiores são as possibilidades de sucesso internacional do selecionado nacional. Como países desiguais tendem a não ter condições econômicas para sustentar um campeonato forte, cria-se o cenário perfeito para a evasão de talentos. Obviamente que a redução da desigualdade também implicaria em uma perda de poderio da seleção brasileira, mas isso é outra história.
 
2) Melhorar a educação:
 
O Brasil tem excesso de jogador. Como tem excesso de laranja. O mercado interno não consegue absorver, o que eventualmente favorece a exportação. Ou seja, mesmo que os principais clubes do país não vendessem jogadores, ainda assim o número de transferências seria alto, principalmente de jogadores mais jovens, que na falta de absorção interna, buscariam o mercado externo. Casos como do Eduardo da Silva, do Arsenal e da Croácia, se multiplicariam. Para atenuar esse processo, é imprescindível que se melhore o sistema educacional, oferecendo maiores possibilidades de ascensão social para jogadores que não se consigam achar espaço nos clubes do país. Crianças das classes mais baixas que hoje saem de casa aos nove anos de idade para tentar jogar futebol e dar melhores condições para sua família poderiam permanecer na escola e ainda assim ter chances de subir de classe social. Eventualmente, a melhora da educação poderia refletir na perda de desempenho futuro da seleção brasileira, mas isso é outra história.
 
3) Reduzir os impostos ou melhorar o serviço público:
 
Com uma das duas ações, o governo desafogaria a classe média, que ganharia poder de consumo e poderia eventualmente decidir torrar parte da renda em jogos de futebol sem comprometer o orçamento familiar. Dessa forma, os principais clubes do país teriam mais mercado para se desenvolver, o que eventualmente poderia reduzir a necessidade da venda de jogadores para clubes de fora do país. Isso traria uma série de outras conseqüências, mas também é outra história.
 
Essas três pequenas recomendações não solucionariam todos os problemas do futebol brasileiro, infelizmente, mas já seria uma boa ajuda. Elas também não impediriam que jogadores como Kaká e Ronaldinho fossem jogar em outros países, mas colaborariam para que o Elano não fosse para o Shaktar.
 
De qualquer forma, essas três medidas não devem ser cobradas do governo apenas como forma de acabar com a evasão de talentos de jogadores de futebol. Elas devem ser cobradas para a melhora do país como um todo.
 
O problema é que a hora que algum representante ouvir isso, ele provavelmente vai dizer que, nesse caso, a história é bem diferente.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br