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O maior espetáculo da Terra

O Real Madrid foi pentacampeão europeu, de 1956 a 1960. Voltou a ganhar a Europa em 1966, mas apenas com o excelente ponta-esquerda Gento dos craques lendários da máquina real das cinco coroas. Como o primeiro título mundial (Intercontinental, para os europeus…) só foi disputado em 1960, o maravilhoso e irreal Madrid de Di Stéfano, Puskás, Kopa e belíssima companhia só conquistou uma taça planetária. 

Uma a menos que o Santos de Pelé, que, em 2008, celebra os 45 anos do bi do time de Pelé. Ou melhor: do time que nem precisou Dele para ser bi, contra o Milan, em três jogos, em 1963. Almir Pernambuquinho, o “Pelé branco”, ganhou a disputa com Amarildo, o Possesso milanista, bi mundial pelo Brasil em 1962, e ajudou um time espetacular a ganhar o planeta pela segunda vez. Sem Pelé – machucado.

O imenso mérito daquela seleção que se fez na Vila Belmiro foi independer de Pelé para ser maior que o mundo da bola. O Santos já era bi paulista (1955-56) quando Ele chegou ao time principal, ainda com 16 anos. Com Pelé, claro, passaria a patamares interplanetários. Campeão estadual em 1958, 1960 a 1962, 1964-65, 1967 a 1969. Pentacampeão do único torneio nacional da época, a Taça Brasil, de 1961 a 1965. Tetra do Rio-São Paulo. Duas Libertadores. E os dois mundiais.

O primeiro, em 1962, ganhando do Benfica por 3 x 2, no Rio. Goleando e encantando na Luz, em Lisboa, justificando o nome do estádio do rival, impiedosamente goleado por 5 x 2. Quando, na feliz imagem de um jornalista português, o Santos passou os 45 minutos iniciais sem tocar os pés no gramado. Tanto que jogou. Tanto que pelezou.


O time que não pisou no gramado do estádio da Luz

Mas, insisto, não era só Pelé. Era todo o time. Mesmo com um treinador que, na preleção, costumava pedir ao time para fazer um gol logo de cara para tranqüilizar e, depois, fazer o que eles (muito) bem entendiam. Esse era Lula, treinador multicampeão na Vila, de 1954 a 1967. Mas capaz de “preleções” dessa profundidade. Ou de pedir para que os dois pontas voltassem para o meio e, juntamente com os dois médios, fizessem um “triângulo” com quatro jogadores…

Podem dizer que um timaço como aquele não precisava de treinador… Pode ser. Mas Lula ganhou tudo isso. Sem ser nada daquilo. Palmas para ele. Mesmo quando fazia mexidas incompreensíveis. Até hoje, nenhum santista entende o porquê dele, no jogo decisivo contra o Benfica, em 1962, sacar o meia-direita Mengálvio (técnico, porém lento) para adiantar o polivalente lateral Lima para o meio, e deixar o veterano zagueiro Olavo improvisado na lateral-direita para marcar o ótimo ponta português Simão.

A idéia era marcar mais a partir do meio-campo, e deixar o time mais rápido. Foi uma temeridade. Simões jogou muito para cima de Olavo. Mas o Santos jogou ainda demais. Tem a ver com a mexida de Lula? Para o ponta-esquerda Pepe, maior artilheiro humano da história do clube (“Pelé nasceu em Saturno, responde ele), melhor treinador entre os craques bicampeões mundiais, Lula errou:

– Foi uma imprudência o que fez o  nosso treinador. Mas deu tudo certo, apesar disso.

Lula quase repetiria seus experimentos contra o Milan, no segundo jogo decisivo do Mundial de 1963. O Santos precisava vencer. Perdera para a ótima equipe italiana por 4 x 2, em Milão. No Rio , só a vitória interessava. E Lula deixou escapar que colocaria o meia Batista no lugar de Pepe, para compor mais o meio-campo. Por sorte do Santos e da bola, o treinador foi convencido pela direção santista que Pepe não poderia ficar de fora. Depois de perder o meio-campo e o primeiro tempo por  2 x 0, o Santos virou para 4 x 2. Dois gols de Pepe, sob chuva pesada como a bola e as balas do Canhão da Vila.

Tudo dava muito certo porque era fácil jogar certo com tantas feras. Uma equipe que fazia seis ou sete, e tomava dois ou três. Não pela fragilidade defensiva, ou por insuficiência técnica. Mas pelo gosto em atacar. Na campanha da segunda Libertadores, o Santos fez 3 x 0 no Boca, no Maracanã, com 28 minutos. Levou um gol do ótimo meia Sanfilippo num contragolpe sofrido no fim do primeiro tempo. Quando o cabeça-de-área Zito resolveu se lançar ao ataque juntamente com o meia Lima, armando uma jogada com os dois pontas Dorval e Pepe enfiados, e mais a dupla Pelé-Coutinho na entrada da área. No contra-ataque, Sanfilippo foi lançado às costas do imenso Mauro, dos mais técnicos zagueiros da história brasileira, que fazia notável dupla com o quarto-zagueiro Calvet, de refinada técnica e capacidade de antecipação. A dupla exposta pelo time que atacava como se fosse o fim do mundo que, no fim, sempre acabava sendo santista. Mesmo com laterais que não eram brilhantes. Mas eram eficientes. Sobretudo Dalmo, que batia bem na bola e, destro, jogava com eficiência nos dois lados.

Soubesse segurar a bola um pouco mais, “administrar mais o jogo”, talvez o Santos tivesse ganho alguns jogos a mais nos anos 60. Certamente teria tomado menos gols. Mas não seria cultuado pela eternidade como o timaço que foi. Justamente por não se contentar apenas em jogar bola e fazer gols.

Para interagir com o autor: mauro@universidadedofutebol.com.br

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Pra frente Brasil!

Há 12 anos, após um dos muitos gols do selecionado brasileiro na Copa do México (aquela do tri), o então radiante Presidente Emílio Garrastazú Médici, plagiando o nosso D. Pedro I, saltou de sua poltrona, sob os olhares assustados de seus secretários, e lá do Palácio das Alvoradas, bradou: Ninguém segura mais este país.

 

Acredito não haver necessidade de lembrar a todos o significado do governo Médici para a história sócio-política brasileira… E mais do que nunca, a partir daquela época passou-se a crer que o futebol poderia, de fato, servir como válvula de escape ou até mesmo como anestésico para uma nação à procura de sua identidade e de seu futuro.

 

E assim foi. Não só o futebol, mas todo o desporto, em diversos momentos da vida social brasileira, tem servido como agente de controle de conflitos sociais, canalizando para si tensões que certamente explodiriam contra aqueles que possuem o interesse de manter e reproduzir o atual estado de coisas. Para muitos, a culpa era do futebol em particular, ou até mesmo do desporto como um todo, agente de alienação popular…

 

Mas de lá para cá esse mesmo povo começou a dar mostras de que tudo poderia ser diferente. As Associações de Bairros, as Comunidades Eclesiais de Base, os Movimentos estudantis começaram a ganhar corpo. Em 1978, às vésperas da cerimônia de abertura de mais outra versão da Copa do Mundo, eclodiu no ar, lá pelos arredores de São Bernardo do Campo, um grito uníssono.

 

Seria Gil, nosso ponta direita? Teria sido Rivelino, liberado pelo departamento médico? Não, não era mais nada disso. Simplesmente os ferramenteiros da Saab-Scania, em greve já fazia algum tempo, recebiam a notícia de que também os trabalhadores da Ford tinham aderido ao movimento grevista.

        

Parece importante fixar todos esses momentos, não porque ingenuamente devamos acreditar que, enfim, chegou a hora em que a Copa do Mundo possa vir a ser considerada, apenas, uma disputa esportiva, e não uma questão de honra e afirmações nacionais a fomentar as emoções de todos os brasileiros durante todos os minutos de todos os dias em que ela se desenvolver, ou ainda durante todas as semanas imediatamente seguintes (quem sabe, até novembro) caso a seleção tenha sucesso.

 

A importância está na constância cada vez maior de momentos iguais ou semelhantes àquele mencionado. A cada instante a sociedade se volta para o debate de mais um tema. É como se, enfim, o gigante adormecido começasse a despertar.

 

E com essa impressão, o medo de torcer para “o” (e não “um”) Brasil campeão esvai-se na certeza de que esses momentos de alegria não mais abafarão o acordar do povo brasileiro.

Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br

*Lino Castellani Filho é Doutor em Educação, docente da Faculdade de Educação Física/Unicamp, pesquisador-líder do “Observatório do Esporte” – Observatório de Políticas de Educação Física, Esporte e Lazer – CNPq/Unicamp, e foi Presidente do CBCE (1999/2003) e Secretário Nacional de Desenvolvimento do Esporte e do Lazer/Ministério do Esporte (2003/06).



[1] Publicado no periódico Panfleto, do Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Maranhão, UFMA. São Luis, MA, Julho de 1982. 

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Sobre o Brasil e a Copa América

O Brasil não deveria jogar a Copa América. Não essa, pelo menos. Nem o Brasil, nem qualquer outro país, fora a Bolívia. A Copa América, nesses moldes, deveria ser um amistoso entre Venezuela e Bolívia. Talvez um gol a gol entre Chávez e Morales, com Rafael Correa esperando do lado de uma das traves.
 
A Copa América é uma piada. Virou uma quitanda de produtos populistas. Não foi feita para se jogar futebol, mas sim para propagar ideais defasados e incompatíveis com o mundo atual.
 
A começar pelo primeiro jogo, entre Venezuela e Bolívia, que – repito – poderia ser muito bem um gol a gol entre os respectivos presidentes. Ou uma disputa de embaixadinha. Alguma, qualquer, dúvida de que houve manipulação direta da tabela, e conseqüentemente da própria Copa em si, para servir a ideais populistas? É um absurdo que ninguém esteja falando nada.
 
Mais absurdo é que a Venezuela, Chávez, no caso, se auto proclame líder de um sistema político revolucionário que irá mudar o mundo, o tal do socialismo do século XXI, mas utilize práticas características de quase cinqüenta anos atrás. A Copa América de 2007 é muito semelhante à Copa do Mundo de 1978 na Argentina, e, porque não, à Copa de 50 no Brasil. É um evento bancado pelo Estado e, por conseqüência, serve como instrumento da propaganda estatal.
 
A Venezuela, sabe-se, não é um país muito adepto ao futebol. Tampouco tem lá muita tradição esportiva. Nem por isso deixou de construir novos e enormes estádios, na sua maioria ovais, seguindo ao padrão dos regimes militares. É a mesma coisa que aconteceu por aqui no século passado, e, se tudo der errado, vai ser a mesma coisa que vai acontecer por aqui em breve. É óbvio que os estádios vão ser subutilizados. É óbvio que é um desperdício de dinheiro. E é óbvio que os novos estádios servem para a mesma coisa que serviram o Maracanã, o Mineirão e o Monumental de Nuñez: para puro e simples populismo.
 
A Copa América pode até dar um certo início ao futebol na Venezuela, mas certamente vai condenar o esporte a anos, talvez décadas, de servidão ao interesse do Estado. Tal qual ocorreu por toda a América Latina, nos seus mais diferentes níveis. A Copa América serve, enfim, como um brinquedo bolivariano.
 
Um país como o Brasil, que dá sinais de tentativa de ingresso em mercados mais racionais e desprovidos de tanta influência política, jamais deveria consentir com um evento como esses, assim como não deveria consentir com tanta falta de atitude às bravatas e ações de Chávez.
 
Se bem que se for levar em conta que a idéia por lá é estrutura bancada pelo dinheiro público, tanque na rua pra garantir segurança e imagens de políticos aparecendo em todos os locais possíveis, não tem muito que o Brasil possa fazer. Afinal, antes de mexer na casa dos outros, é melhor arrumar a nossa própria.

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Imortalidade imprevisível

Escrevo depois da final da Copa Libertadores, que – como você bem sabe numa hora dessas – foi conquistada pelo Boca Juniors.
 
Nenhuma surpresa, aliás. Afinal, o Boca Juniors é sempre favorito a conquistar campeonatos sul-americanos, principalmente depois que Maurício Macri chegou à presidência do clube, em 1995. Macri, aliás, é uma figura interessantíssima. É possivelmente o maior presidente que o Boca Juniors já teve, e foi o grande responsável por tornar o clube, hoje, em uma das mais reconhecidas marcas da Argentina.
 
Em 2003, Macri se candidatou a Chefe de Governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires. Ganhou no primeiro turno, perdeu no segundo. Acabou, no fim das contas, se elegendo deputado federal de Buenos Aires em 2005. Em 2007, saiu novamente candidato a Chefe de Governo. Por isso, dizem alguns, preocupou-se tanto em reforçar a equipe do Boca para a disputa da Libertadores. O sucesso no gramado seria essencial para o sucesso nas urnas. Muitos atribuem a estranha vinda de Riquelme para o time no começo do ano a uma manobra política de Macri para conseguir ainda mais popularidade. Aparentemente deu certo. No primeiro turno das eleições pra Chefe de Governo, Macri ficou com 45% dos votos. Ontem, o Boca foi campeão da Libertadores. A votação do segundo turno é neste sábado. Alguém tem alguma dúvida do resultado? Também não deve ser nenhuma surpresa.
 
Surpresa, porém, foi o Grêmio ter chegado à decisão da Copa Libertadores. Quer dizer, pra quem acompanha o futebol brasileiro regularmente, nem é tanta surpresa assim. Dizem que o time é bom e que o técnico também. Porém, é sempre bom lembrar que dois anos atrás o Grêmio estava disputando a segunda divisão do Campeonato Brasileiro.
 
O fato de o Grêmio ter conseguido ser promovido para a primeira divisão em um ano e no seguinte conseguir se classificar à Libertadores já é, por si só, um feito digno de nota. Seria um caso impensável em alguns outros mercados, mas é algo que vem se tornando corriqueiro no Brasil. Basta lembrar que o Palmeiras havia disputado a segunda divisão em 2003, mas nos dois anos seguintes terminou em quarto lugar da primeira divisão.
 
O Grêmio, porém, fez mais. Não só se classificou pra Libertadores como chegou à decisão do principal campeonato do continente, dois anos depois de estar na segunda divisão do campeonato nacional. Para se ter uma idéia de como isso soa estranho para os ouvidos de quem não está muito acostumado com a dinâmica do futebol sul-americano, seria mais ou menos a mesma coisa que o Treviso, time italiano que foi promovido para a primeira divisão na temporada de 2004/2005 da Itália, tivesse sido o campeão da Champions League desse ano, e não o Milan.
 
O feito do Grêmio é comparável ao feito do São Caetano, que quase foi o campeão continental em 2002. A diferença é que o São Caetano vinha de um campeonato brasileiro disputado com as finais em mata-mata, o que sempre favorece a imprevisibilidade, ainda que o time tenha acabado em primeiro na fase classificatória.
 
De qualquer maneira, são fenômenos não muito incomuns por aqui. A capacidade da América Latina de produzir elementos-surpresa em campeonatos é impressionante – Grêmio, São Caetano, Once Caldas, e assim por diante.
 
Os fatores que contribuem para esses fenômenos são diversos, e passam por contratos de curta duração, pouca responsabilidade fiscal, mercado voltado para exportação e todas essas outras coisas que você já deve bem saber. E isso tudo acaba criando uma aura de possibilidades em que boa parte dos clubes, independentemente da sua condição, acredite que tenha chance de vencer o campeonato.
 
Foi isso que permitiu ao Grêmio chegar à decisão e acreditar, novamente, em ser imortal, visto a remota possibilidade de vitória depois do primeiro jogo contra o Boca.
 
Imortal, também, será Daniel Filmus, se conseguir vencer o Macri na eleição de sábado. Mas aí o resultado é bem mais previsível.

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Seleção brasileira e Wembley: dois símbolos do futebol moderno

Amanhã, sexta-feira, o Brasil disputa uma partida amistosa com a seleção da Inglaterra. Será uma partida bastante simbólica, bem dizer. É a primeira partida entre seleções principais no recém-inaugurado estádio de Wembley, aberto ao público depois de uma saga de atrasos e estouros de orçamento. O estádio é bonito, coberto, moderno e elegante. É o mínimo que se pede, uma vez que custou mais de 3 bilhões de reais. Ainda assim, críticas recaem sobre a qualidade do gramado, muito solto, que certamente não condiz com 3 bilhões de reais. Dizem que o mínimo que se pode exigir de um estádio é uma grama decente, não importa o que o circunde. De nada adianta ter um bom lugar para sentar se não há um bom lugar para se jogar.
 
O que você prefere: Um Wembley atrasado, superfaturado e com problemas no solo ou um Pan atrasado, superfaturado e com problemas no solo?
 
De qualquer maneira, o simbolismo do Brasil quebrar a champagne de partidas internacionais no casco do novo Wembley, nem de perto tem a importância real que um outro símbolo representado por essa semana de amistosos da seleção. O jogo seguinte à partida de Wembley, em Dortmund, Alemanha, contra a seleção da Turquia, será a vigésima partida seguida da seleção principal fora do país. O último jogo em território nacional foi em 2005, no dia das crianças, 12 de outubro. E só jogou porque foi obrigado, diga-se, uma vez que a partida contra a Venezuela foi pela Eliminatórias da Copa de 2006. A última partida não oficial do Brasil em sua terra de origem foi contra a Guatemala, no dia 24 de abril de 2005, mais de dois anos atrás, realizada em celebração ao aniversário de 40 anos da Rede Globo.
 
Nada disso é surpresa. A seleção brasileira é uma marca global, e certamente possui mais demanda externa do que interna. Mais certo ainda é a superioridade da disposição de gasto do mercado externo em relação ao mercado interno. Quem paga mais, leva. Regra de mercado.
 
Também não é surpresa que Londres será palco da seleção pela quarta vez nos últimos nove jogos. Afinal, não existe outro lugar do mundo em que se gaste tanto dinheiro com futebol. E, também, não há outro lugar no mundo, tirando o Brasil, que tenha tanto brasileiro junto. Estimativas sugerem algo entre 80 e 100 mil cidadãos brasileiros morando em Londres. Como uma boa parte desse montante é ilegal, ninguém sabe ao certo. É possível que Boston tenha mais imigrantes brasileiros, mas como por lá não existe futebol, desconsidere-se.
 
 A surpresa, no entanto, fica para a repercussão desse fato. Não é preciso que eu diga aqui que a seleção brasileira não joga há tempos no Brasil para que você perceba isso. Todo mundo sabe que faz tempo que não tem um amistoso por essas bandas. Porém, aparentemente, ninguém se importa muito. O público não se manifesta, a imprensa não fala nada, e o presidente – ou qualquer representante do Estado – sequer comenta. Um comportamento bastante estranho para quem há alguns anos atrás defendia a investigação do poder público na esfera do futebol, a CPI do Futebol, sob a justificativa que “devemos recordar que a importância do futebol em nosso País e o fato de que todos os brasileiros devemos muito a esse esporte – que nos projetou no cenário internacional – impõe-nos a obrigação de cuidar para mantê-lo no elevado patamar que alcançou com a dedicação, o esforço e o suor de muitos compatriotas” (CPI do Futebol, Volume 1, página 12).
 
Tudo bem que é cada um com seus problemas, e o governo brasileiro ultimamente tem tido bastante, mas ainda assim a passividade da população de um modo geral espanta.
 
Espanta, mas também sugere.
 
Uma análise fria sobre esse fenômeno – seleção jogando fora e ninguém reclamando – indica que talvez alguns paradigmas estejam sendo quebrados, na medida em que o país e sua sociedade evoluem. Futebol no Brasil, em especial a identificação com a seleção nacional, não surgiu naturalmente, mas foi uma coisa imposta a todo mundo, principalmente a partir da metade do século XX. Na medida em que o tempo foi avançando, essa imposição estatal do futebol foi diminuindo. Novos esportes, novas condições de acesso e novas tecnologias permitiram que o interesse do cidadão brasileiro fosse sendo diluído em diversas segmentações, raramente compondo um elemento de massa maior. Adicionando a isso uma série de outros fatores, é natural que a identificação do país com a seleção venha sendo diminuída com o passar dos anos.
 
Concomitantemente a esse fenômeno, houve uma explosão mercadológica global da marca da seleção brasileira. Em tempos de globalização, glocalização e cosmopolitização, nada mais natural que a demanda externa baseada em mercado se superasse a demanda interna baseada em instrumentos simbólicos.
 
A sociedade brasileira está passando por um intenso processo de mudança, dia após dia.
Essas mudanças podem ter influência direta na demanda pelo futebol.
Um dia, os brasileiros podem deixar de gostar de futebol.
Um dia, os brasileiros podem preferir jogar peteca.
Seria um dia bastante simbólico.

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Nelinho x Vanderlei Luxemburgo

Dias atrás pude acompanhar em um programa de televisão, troca de opiniões entre o ex-lateral direito do Cruzeiro e Seleção Brasileira, Nelinho, atualmente comentarista esportivo, e o competente treinador de futebol Vanderlei Luxemburgo.
 
Nelinho defendia que a influência do treinador no resultado de uma partida é muito menor do que alardeiam hoje parte da imprensa e dos próprios treinadores.
 
Luxemburgo, não querendo demonstrar prepotência, até admitiu que o treinador pode não ganhar jogo, mas é fundamental para que uma equipe ganhe campeonatos ou títulos.
 
 Em outra parte da conversa chegou-se até a quase um consenso de que o treinador tem cerca de 30% de participação no resultado, ficando os outros 70% para os jogadores.
 
Achei muito engraçado e até surpreendente que profissionais tão destacados e inteligentes como Nelinho e Luxemburgo colocassem a questão desta forma tão simplista. Como se fosse possível precisar, matemática ou estatisticamente, situações tão complexas presentes em um jogo ou uma partida de futebol.
 
Numa reflexão mais filosófica sobre o tema, talvez possamos encontrar melhores explicações para este tipo de visão, se entendermos um pouco o papel dos pensamentos mecanicista, cartesiano e positivista na formação de nossa cultura.
 
Tais modelos de pensamento que até o século 20 tiveram, em diferentes proporções, inegável influência no desenvolvimento do conhecimento e das ciências, já não dão conta de compreender e interpretar a realidade de forma mais ampla.
 
É preciso buscar novos referenciais se quisermos continuar desvendando os mistérios que cercam os diferentes seres humanos que vivem em diferentes sociedades.
 
São, sem dúvida, estes novos referenciais que também permitirão uma melhor leitura sobre a complexidade na qual está envolta uma aparentemente simples partida de futebol.   

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Bem-vindo a Liverpool

Por razões de pesquisa, encontro-me no momento em Liverpool, onde não vou ficar por muito.
 
Ainda bem, diga-se de passagem. Por mais que sempre haja um certo glamour em se viajar para o exterior, em especial para paises como a Inglaterra, a verdade é que Liverpool pouco tem a oferecer, principalmente pra quem retorna.
 
A cidade, a princípio, parece ser muito maior do que realmente é. O mito que paira sobre a região é enorme, mas a realidade em pouco condiz com o imaginado. O fato de Liverpool ter sido berço de uma das maiores bandas da historia, e por ser casa e dar nome a um dos mais famosos times de futebol do planeta, faz com que Liverpool pareça uma metrópole.
 
Nem perto disso.
 
Liverpool é uma cidade mediana, como tantas outras na Inglaterra. Hoje é praticamente um subúrbio de Manchester. Sua população esta próxima de 400 mil habitantes. Em um passado distante e glorioso, foi uma cidade que teve uma importância muito grande durante a Revolução Industrial, devido a sua grande área litorânea que foi quase que inteiramente preenchida pelo porto. Estrategicamente, Liverpool servia muito bem ao comércio da Inglaterra com os Estados Unidos, e também como escoamento da produção industrial de Manchester. Por conta disso, desenvolveu um certo parque industrial voltado principalmente para os serviços marítimos.
 
Com o crescimento de Londres, com o desenvolvimento de novas tecnologias e com a decadência do império britânico, Liverpool foi perdendo sua importância. Desde o começo do século XX, a cidade amarga uma intensa recessão. Em uma pesquisa de 1998, foi considerada a pior cidade para se morar na Inglaterra, principalmente por causa da sua alta taxa de desemprego, violência e degradação. Hoje é uma cidade deprimida.
 
O futuro, porém, traz esperanças. Em 2008 será a capital européia da cultura. Por conta disso, obras de revitalização estão sendo realizadas por toda a cidade. Ruas e parques estão sendo reformados, e novos prédios e complexos comerciais estão sendo construídos. Entretanto, paira a incerteza sobre a eficácia das reformas. Há uma suspeita de que elas amenizem temporariamente a situação atual, mas que em alguns anos tudo pode voltar a ser como é hoje.
 
O clima também não ajuda em nada. Chove quase todo dia, e a media de temperatura não ultrapassa 20ºC durante o ano. Durante o inverno, faz frio, mas não tanto para que se tenha neve, ou seja, o inverno tem frio e chuva, alem de pouco mais de seis horas de sol por dia.
 
Não por acaso, os poucos espaços sociais disponíveis são muito valorizados, em especial os pubs, que são uma mistura de bar com hotel, e que servem como um grande centro agregado das comunidades locais.
 
É dentro desse cenário que cresce o futebol, que serve como uma espécie de escape pra boa parte das mazelas geográficas, econômicas e sociais. Não à toa os clubes são tão valorizados e os torcedores tão identificados com o time. Alguém certa vez disse que em Liverpool, “as mulheres são feias, a comida é ruim e o clima é horrível. Graças a Deus existe futebol”.
 
Dessa forma, clubes oferecem mais a comunidade do que meramente o jogo do futebol. Pelo contrario, clubes são efetivamente parte da comunidade. Alguns dizem que a comercialização recente afastou os clubes de seus torcedores, e que hoje o papel comercial e o papel social são conflitantes. Outros argumentam que, na verdade, a melhora estrutural dos clubes permitiu que eles passassem a oferecer mais a comunidade agora do que antes. O comercial de fato ajudou o social.
 
Seja lá qual for o seu ponto de vista, e fato que a relação dos torcedores com os clubes na Inglaterra, e seus diversos significados, diferem muito daquela dos torcedores com os clubes no Brasil. Ou na Alemanha. Ou na China. Ou na Argentina. Ou na Guatemala.
 
E é justamente por isso um dos fatores pelo qual não se deve levar o exemplo do futebol inglês muito a risca quando se pensa no futebol brasileiro. Ou qualquer outro exemplo do mundo.
 
Não é que o futebol inglês seja melhor que o brasileiro.
E também não é que ele seja pior.
Não é uma questão de juízo de valor.
É uma questão de realidades completamente diferentes.

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Milionário compra objetos de Puskas

No dia primeiro de novembro, o milionário húngaro George Budna desembolsou cerca de 340 mil reais para adquirir mais de 100 objetos pessoais do maior jogador de futebol húngaro da história, ex-jogador do Real Madri e um dos maiores artilheiros de todos os tempos, Ferenc Puskas.

 

A coleção do craque estava programada para ser leiloada em Chester, Inglaterra, no dia seguinte. Com a compra, Budna pretende manter a coleção na Hungria para futuramente exibí-la em uma Galeria da Fama do Futebol que será construída em Budapeste.

 

Dentre os objetos adquiridos estão o troféu Chuteira de Ouro que Puskas recebeu da Fifa em homenagem aos seus 83 gols em 84 partidas pela seleção húngara, a medalha de vice-campeão da Copa de 54, e uma camisa da seleção brasileira autografada por Pelé em que se lê “To Puskas Happy Birthday do Amigo Edson Pele”.

 

A família de Puskas vinha há tempos tentando arrecadar dinheiro para o tratamento do ex-jogador, que sofre do Mal de Alzheimer.

 

Recentemente, o Real Madri foi bastante criticado por jogar um amistoso na Hungria na tentativa de ajudar a levantar fundos para o tratamento de seu ex-jogador. Pela presença de seus galáticos em campo, o time espanhol recebeu aproximadamente 350 mil reais dos organizadores. Os fundos levantados para Puskas somaram pouco menos de 30 mil reais.

 

O Real Madri se defende das críticas em relação à distribuição do dinheiro dizendo que desde setembro de 2000 envia mensalmente auxílio financeiro à família de Puskas, que por sua vez argumenta que o nome do ex-jogador foi usurpado para a realização da partida.

 

Pouco tempo após o anúncio dos polêmicos valores envolvidos no amistoso, a mulher de Puskas recebeu dos organizadores a promessa de que irá receber mais 225 mil reais para o tratamento de seu marido.

 

A Fifa também contribuirá financeiramente com o tratamento de Puskas. Apesar da decisão já ter sido anunciada, o valor dessa contribuição ainda está para ser definido.

 

Com a soma dos fundos arrecadados, espera-se poder pagar o tratamento completo do ex-jogador, assim como criar uma fundação em seu nome para pesquisar possíveis tratamentos para a Doença de Alzheimer.

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