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Musculação, personal-training e periodização: o que Rui Faria diz sobre isso!

Hoje minha coluna terá desenho diferente. Será informativa, mas não serão minhas as palavras que conduzirão seu conteúdo.

Apresentarei (com os devidos ajustes a “língua portuguesa brasileira”) um pequeno trecho do livro “A justificação da Periodização Tática como uma fenomenotécnica: a singularidade da intervenção do treinador como a sua impressão digital” escrito por Carlos César Araújo Campos e publicado pela MCSPORTS em novembro de 2008.

Trata-se de uma das entrevistas realizadas pelo autor e apresentada no terceiro anexo presente no livro. O entrevistado é Rui Faria (adjunto de José Mourinho que vem acompanhando o treinador ao longo dos anos e hoje esta com ele na Internazionale de Milão).

Obviamente não tenho intenção de fazer propaganda do livro. Mas como o tema “periodização no futebol” tem “pegado fogo” na Universidade do Futebol nas últimas semanas (e sendo eu um dos incendiários), boto mais lenha na fogueira e sugiro sim, que quem puder, leia o livro.

Pergunta: Mas estando a top, onde qualquer detalhe é decisivo, não sente necessidade de uma individualização do treino com recurso a máquinas de musculação, piscina e personal-training… Insisto nisso porque somos confrontados diversas vezes, mesmo dentro da nossa Faculdade, com fato de vocês no Chelsea, utilizarem este tipo de recursos? Confirma isso? Em que moldes o faz?

Rui Faria: Só por idiotice e falta de rigor científico se pode afirmar uma coisa dessas porque a necessidade em termos de evolução do jogo é de tal ordem que não temos tempo para pensar nesse tipo de particularizações e nessas questões. A nossa perspectiva de trabalho não fomenta isso porque não acredita que isso possa privilegiar em termos de rendimento; e como o que nós queremos é rendimento e isso passa por organização; é de extrema idiotice por em causa ou dizer-se – e eu não sei onde se foi buscar essa idéia – que temos personal-trainers ou fazemos musculação. É uma falta de rigor científico enorme fazer-se comentários desse gênero pois quando nós já não temos tempo para treinar aquilo que é fundamental para nós, quanto mais para treinar coisas que não fazem parte da nossa forma de pensar o treino; portanto elas não fazem parte da nossa natureza mesmo que tivéssemos tempo e que fique bem claro que elas não existem na nossa forma de treinar! Volto a repetir que só por idiotice e por falta de rigor científico é que as pessoas podem dizer que tínhamos personal-training ou que fazíamos treinos na piscina!

Aliás queria te pedir para que, quando fosses novamente confrontado com essas afirmações, convidasses essas pessoas a fazer um estágio conosco para saber qual é a nossa realidade e para terem maior rigor quando fazem esse tipo de observações. Não temos que provar nada a ninguém nem temos necessidade de dizer que fazemos coisas que depois na realidade não fazemos, portanto até me dá vontade de rir quando me dizes que ouves isso.

O principal responsável era o treinador e em seguida era eu e como segundo responsável da estrutura técnica afirmo que é ridículo pessoas dizerem que fazemos um determinado tipo de coisas que na realidade não fazemos! Quem não acreditar pode vir observar e constatar o que estou a dizer.

É fácil perceber que durante um processo de reabilitação médica, existam jogadores que tenham, pela forma como o departamento médico se organiza, responsáveis pelo seu processo de reabilitação, de superação da lesão, e estes jogadores eram entregues a elementos do departamento médico que tinham em determinadas horas o cuidado de tratar deles e atividades para fazer com jogadores sendo que aí sim, utilizavam os meios que eles consideravam serem importantes para a sua recuperação mas aqui os jogadores não estavam a trabalhar no terreno, não estavam entregues a equipe técnica pois estamos a falar do processo de recuperação funcional e biomecânica. A partir do momento em que os jogadores estavam recuperados funcionalmente e voltavam para o terreno, todo o trabalho era progressivamente específico em termos de modalidade e Modelo de Jogo.

Não temos necessidade de provar nada a ninguém, até pelo trajeto que temos feito, nem temos necessidade de dizer que fazemos uma coisa e fazermos outra só porque nos lembramos de dizer que somos diferentes. Nós somos efetivamente diferentes e para as pessoas que não conseguem perceber essa realidade é-lhes mais fácil dizer que nós somos iguais a eles do que dizerem que trabalhamos duma forma diferente porque só sabemos como eles treinam mas eles desconhecem completamente a nossa forma de operacionalizar o treino. (páginas 187 e 188).

Então senhores, continuemos com as nossas reflexões…

Nas próximas quatro semanas as Colunas Táticas entram de férias, mas em fevereiro voltam a todo vapor. Bom início de ano a todos!

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O que aprender com Luiz Felipe Scolari

O futebol como já insisti outrora, é invariavelmente visto de forma demasiadamente simplista. E se isso já fora privilégio dos “boleiros”, hoje parece contaminar também nossos estudiosos da bola.
Amparados pelo discurso científico, caem em armadilhas contrárias as suas próprias crenças.
Dia desses, estampou as manchetes de jornais ingleses a contestação por parte de alguns jogadores do Chelsea sobre decisões tomadas, conhecimento tático e forma de se treinar do treinador brasileiro Luiz Felipe Scolari (“Big Phill”).
O “Big Phill” começou com desempenho magnífico. Em poucas semanas de trabalho jornais do mundo todo cantavam aos quatro cantos que Felipão bateria os recordes do seu antecessor no comando da equipe inglesa, José Mourinho.
As coisas não saíram exatamente como o planejado (ou melhor, não saíram como jornalistas, “especialistas” e torcedores planejavam). As críticas não demoraram a aparecer e recentemente, aproveitando-se do advento da reclamação interna dos próprios jogadores, nossos “cientistas do esporte” passaram a reiterar suas convicções sobre a “incapacidade e falta de conhecimento” do treinador brasileiro.
É fato, concreto e indiscutível, o bom desempenho em resultados de jogos e competições de Scolari (sem ir muito longe) pelo menos nos últimos 10 anos. É fato também que desde seus tempos de Grêmio ele tem como companhia o estereótipo de “paizão”, “motivador” e “xerifão”, e que muitas pessoas há tempos atribuem a essas características o bons resultados que vem alcançando na carreira.
Para os críticos, falta-lhe conteúdo e conhecimento sobre as coisas do jogo.
Senhores, não sei o que lhe falta. Realmente também não penso que esteja Felipão (ou qualquer outra pessoa) apto a ter bons resultados em ambientes diferentes tomando sempre as mesmas decisões e aplicando sempre as mesmas idéias.
Isso pode ou não, ser grave problema, dependendo do tempo que se leva para perceber o ambiente e se reajustar às novas situações.
Achar não é ciência, mas tendo (não sendo científico) a pensar que Scolari vai ser mais rápido do que os problemas. Terá mais dificuldades para isso dessa vez do que nas vezes anteriores; mas já demonstrou inteligência para tal.
O “peso” atribuído a determinadas variáveis no futebol inglês é diferente do futebol português, do brasileiro, do italiano, etc. Vencer em diferentes países requer competências dominantes distintas.
Não estou eu aqui defendendo métodos de treino, modelo de gestão ou conhecimento tático do treinador brasileiro. Primeiro porque não acompanho seu trabalho no dia-a-dia de treinos e jogos. Segundo porque o “jogar” do Chelsea realmente já fora melhor em outros tempos (mas há de se lembrar que a equipe de Felipão teve desfalques importantes em diversos jogos desta temporada).
O que estou defendendo aqui é que no “futebol complexo” em que acredito, estudo e aprendi a pesquisar, todas as variáveis e dimensões são importantes, a todo tempo, o tempo todo.
Então, para uma visão não simplista, dever-se-ia analisar um trabalho não pelo excesso de tal competência ou ausência daquela outra, mas pelo como são resolvidos os problemas e são movimentadas as “engrenagens” para tais soluções no ambiente complexo em que se encontra.
Daí, ao invés da armadilha de criticar Scolari por ignorância nisso ou naquilo, saboreemos e aprendamos como ele resolverá ou não, os problemas do seu ambiente “futebol inglês”, e entendamos, de uma vez por todas, que, didaticamente, as inter-relações entre “as coisas” são tão importantes quanto “as coisas”, sempre…
E terminando:
Para Dante, o lado sinistro é o que conduz ao inferno, enquanto o lado direito leva o céu. De qualquer forma, é sempre bom ter os dois lados atentos”. (trecho do livro “O aprendiz do tempo” de Ivo Pitanguy)

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Preparação Física vs "Periodização Tática": os erros de um combate!

Entendamos de uma vez por todas senhores: a “preparação física” é importante para se jogar futebol!

Não seria eu “louco” de dizer o contrário. Estaria contra mim mesmo e contra o norte que escolhi (a Teoria da Complexidade) se desprezasse (ou menosprezasse) a “preparação física”.

E preciso hoje falar sobre isso porque tenho ouvido, visto e lido muitas coisas equivocadas a respeito do assunto.

Um sem número de estudiosos, pesquisadores e treinadores têm alardeado aos quatro cantos do mundo o que chamarei de “periodização tática” portuguesa. Não discutirei aqui dessa vez os conteúdos e nortes dessa proposta. É fato, porém, que antes dos portugueses; russos e franceses (e mais recente do que esses, os espanhóis) já apontavam outros rumos para a iniciação, especialização e treinamento de alto rendimento nos esportes coletivos (e aqui em especial, no futebol).

Os portugueses ganharam força na sustentação da sua teoria com a rápida ascensão do treinador José Mourinho. Não sei se Mourinho e pesquisadores portugueses estão falando a mesma língua, mas os ventos sopram que sim.

Infelizmente vejo muita distância entre o que se está propondo em Portugal (especialmente os “filhos” da Universidade do Porto) e o que realmente está acontecendo em Portugal; assim como vejo grande abismo entre os conceitos e construtos que nasceram de russos e franceses (e de alguns próprios portugueses que estudaram Jogo, Complexidade, Caos, Imprevisibilidade, etc) para a prática portuguesa.

Tenho a impressão, por vezes, que tem se buscado ser igual à Mourinho e não explorar a fundo no dia-a-dia dos campos as bases teóricas que são discutidas.

A ação de um treinador transcende o método (leiam a tese do Dr. Hermes Balbino: “Pedagogia do treinamento: método, procedimentos pedagógicos e as múltiplas competências do técnico nos jogos desportivos coletivos”), mas o método terá grande peso no alto nível competitivo quando as ações de diversos treinadores tiverem equivalência e fizerem com que suas equipes vençam.

Então, para avançar não se deveria buscar Mourinho, mas sim ir à frente com o método.

É ponto pacífico e muito claro que o treino técnico-tático tradicional não era, há décadas atrás, suficiente para garantir boa performance de jogo ao longo de 90 minutos (assim como nos moldes atuais também não é – e tenho muitas dúvidas se os “óculos portugueses” [e aqui excluo Mourinho] seriam; realmente creio que não!).

É ponto claro (e não tão pacífico) que dentre as decisões possíveis para se tentar compensar em “sobrecarga” a incapacidade do treino técnico-tático tradicional de gerar respostas “adaptativas” positivas e adequadas (me desculpem os biólogos), a escolhida não foi a melhor (criou-se em separado, o treino físico).

Há muito venho dizendo que não é possível separar o que é físico, do que é tático, do que é técnico, do que é mental no jogo de futebol. Sinto não saber como ser mais claro.

Tudo que vejo em um jogo carrega tudo (todas as variáveis, juntas e ao mesmo tempo).

Isso significa que o treinamento para preparação do jogador de futebol precisa sim contemplar a complexidade que é inerente ao jogo.

Com isso, não estou eu a defender a tal “Periodização Tática” portuguesa; não nos moldes que ela é proposta, porque vejo nela uma dificuldade dos seus “mentores” de levá-la a prática. E não é pela inconsistência da teoria, nada disso! Os construtos são em sua maioria muito fortes.

O fato é que não considero boa a “decodificação” que fazem do seu ótimo corpo teórico quando o levam para a prática. Então o problema não está na proposta em si (ainda que também tenha minhas considerações sobre isso), mas no como ela vem sendo construída na prática.

Não estou eu aqui também a defender o treinamento tradicional ou o treinamento físico fragmentado. Isso já deveria ter sido superado.

O fato de algumas frentes pelo mundo estarem tentando novas perspectivas para o treinamento do jogo de futebol, pautadas no mesmo pressuposto teórico, não quer dizer que tenham a mesma interpretação e formatação desse pressuposto.

Por enquanto, o que posso dizer é que estão enganados aqueles que entendem que um modelo de periodização, treinamento ou seja lá o que for, que estruture suas bases de forma a não separar o que é tático, técnico, físico e mental não pode sustentar o desempenho atlético de um jogador em jogo.

Estão enganados também os que vêm no “modelo português” (ou em um único português – Mourinho) a resposta pronta ou salvação do treino no futebol, assim como se enganam os que trazem como solução paralela o que é chamado de Modelo de Treinamento Integrado (que teve especialmente trabalhos e pesquisas russas, americanas e alemãs como fonte primeira de inspiração) através de uma falsa não-fragmentação do jogo de futebol.

O que proponho, senhores é outra coisa e posso desde já dizer que em breve publicarei resultados a respeito disso. Sem maniqueísmos lembro que os Modelos Tradicionais, de Blocos, Cargas Seletivas, Periodização Integrada, Periodização Tática, Periodização Composta, etc, precisam ser conhecidos para que suas idéias sejam discutidas e para que os porquês das coisas fiquem claros na opção por esta ou aquela conduta de trabalho.

O que precisamos buscar é uma “Periodização de Jogo®( Leitão 2009 no prelo)“que contemple realmente o jogo, em dinâmica e carga (cognitiva, fisiológica, física, etc) fractalmente.

Que fique claro: o mais importante não é o que é tático; o mais importante não é o que é físico, técnico ou mental.

O mais importante é o que é JOGO e ponto.

Se não entendermos a fundo o que é JOGO e não soubermos transferir aos campos aquilo que nossos construtos teóricos apontam, acabaremos acusando proposta, modelo e método de falhos, mas estaremos nos cegando para o problema real, que é a nossa incapacidade de levarmos à prática o nosso discurso.

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O Scout que não explica o jogo

Uma das diversas coisas que me desperta interesse no futebol é o “scout” de jogo.
Ferramenta informativa, pode ser, dependendo como é construída, uma fiel explicação dos “porquês”, “como”, “quês”, “onde” e “quando” do jogo.
Tenho uma ligação profunda com estudos de scout. Entre trabalhos que escrevi, orientei e fui banca, são pelo menos 15. Então me sinto no direito de mais uma vez chamar a atenção para algo que ainda me incomoda.
Quando alguém faz um conjunto de exames que supostamente deveriam diagnosticar uma doença e esses não a acusam quando ela está presente, temos um grande problema.
Se um exame não consegue diagnosticar aquilo que se propõe, não serve para o diagnóstico. Se diversos exames apontam “saúde” em uma pessoa enferma, é porque o exame correto ainda não fora realizado.
O scout pode ser como um exame para explicar patologias já instaladas, mas também pode ser “check-up” preventivo antes da doença realmente aparecer (ou simplesmente um relato sem utilidade para explicações de causa-efeito por não se correlacionar com os fenômenos presentes no jogo – é o que na maioria esmagadora das vezes acontece).
Para ficar mais claro o que quero dizer exponho abaixo algumas das informações de um jogo que aconteceu recentemente. Selecionei algumas das informações do relatório de scout (mas acreditem todas elas levariam a mesma conclusão!).
Eis as equipes:


Os números do jogo:

Quem ganhou o jogo?
Abaixo, alguns dados do jogo no campograma:

Eu poderia aqui “encher” a coluna de informações do relatório do jogo. Todas elas direcionariam nosso pensamento para o mesmo lugar.
Um dos “scoutistas” chegou até a dizer “como pôde, com esses resultados, a equipe “?” ter perdido o jogo”?
Exatamente caro amigo, como pôde?
E está aí a questão necessária que uma análise de jogo precisa responder (não coloquemos a responsabilidade disso na “sorte”).
Se nesse caso em especial, o objetivo do scout fora explicar o jogo, não conseguiu.
A equipe “B” venceu a partida. Os “exames” apontaram o contrário.
Então fazemos o que? Mudamos o scout ou o resultado do jogo?

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Se jogo é jogo e treino é treino, abandonemos os treinos (e fiquemos com o jogo!)

Faz alguns anos redigi um trabalho científico, em Ciências do Desporto, a respeito da imprevisibilidade como princípio de treinamento nos jogos desportivos coletivos. O trabalho fora aceito por uma revista científica mas acabou não publicado.

Passou um ano e recebi da mesma revista o “aviso” de que ele (o artigo) estaria presente na próxima edição. Como a Ciência é dinâmica, veloz e implacável com o tempo, achei por bem não mais autorizar a publicação (um ano havia se passado, e a contar os meses que levou para o aceite inicial, era tempo demais – o que poderia ser novidade em um primeiro momento, na minha opinião não causaria mais impacto algum).

Mas eis que dia desses, num embate científico surgiu a seguinte questão: a imprevisibilidade pode ser treinada (em nosso caso específico, no futebol)?

Já escutei muita bobagem a respeito do assunto. Certa vez um pesquisador aficionado por futebol disse que imprevisibilidade para ele era “urubu marcando gol” ou “bola murchando antes de cruzar a linha de meta”.

Obviamente a imprevisibilidade a que me refiro é a característica “mais inerente das inerentes ao jogo”; é e está no jogo assim que ele se inicia, independente de “urubus, corujas ou bolas furadas”.

E se há equívoco por um lado no conceito; por outro há na sua aplicação.

Dia desses, assistindo a um jogo do campeonato italiano, um dos comentaristas (brasileiro), ao explanar sobre um chute ao gol da região da meia-lua após passe vindo pela lateral esquerda, disse que “raramente acontece no jogo um lance como aquele, bem parecido com os treinamentos de finalização em que se repete à exaustão aquele tipo de movimentação”; e que por isso era inadmissível que o jogador tivesse chutado a bola para fora do gol.

Noto, nas minhas observações e nas falas do “cientista aficionado” e do “comentarista esportivo”, que ainda treina-se muito o que é previsível e que portanto não vai acontecer no jogo, porque ainda se considera que o que é imprevisível não é treinável (total desconhecimento sobre o jogo!).

A imprevisibilidade está no jogo, quer queiram ou não. Dominá-la totalmente seria o fim do jogo (a equipe que o fizesse não mais perderia). Mas não é possível, e não estou eu aqui a defender isso.

O que estou a defender é que o treinar tem que estar atrelado ao jogar (mais uma vez precisamos lembrar que “treino é jogo e jogo é treino”).

Treinar a imprevisibilidade significa possibilitar à equipe e jogadores pré-disposição e eficácia imediata para resolver problemas (situações-problema) tornando aqueles que seriam totalmente desconhecidos (imprevisíveis), parcialmente ou totalmente conhecidos.

Não se trata de tornar o jogo previsível, mas sim menos imprevisível.

Enquanto isso não for compreendido viveremos ainda do “treino é treino, jogo é jogo”. Então, treinar para quê?

Sendo assim, em prol do jogo, por fim sugiro: abandonemos os treinos.

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O experimento "quase científico" de uma vitória

Dia desses fiz um experimento “quase científico” em uma partida realizada pela equipe que dirijo. Era um jogo amistoso, parte dos preparativos para uma competição futura.

Sob a perspectiva organizacional do jogo, as duas equipes iniciaram a partida com a organização defensiva adequada para controlar as organizações ofensivas adversárias. A minha buscava a recuperação da posse da bola na “linha 1”; a adversária, impedir progressão a partir da “linha 3”.

Os princípios operacionais de ataque das duas equipes não eram os adequados para desequilibrar as organizações defensivas propostas.

Obviamente que com poucos minutos de jogo ficava evidente a necessidade de uma intervenção que mudasse o princípio operacional de ataque dominante (tanto da minha equipe, quanto do adversário).

Ficávamos com a bola, controlávamos o jogo, ocupávamos melhor os espaços e não corríamos risco algum de sofrer um gol (mas também não chegávamos nem perto de “assustar” o goleiro adversário).

Exceção feita aos princípios operacionais de ataque (e de transição ofensiva), todas as outras dimensões de controle estavam apropriadas ao jogo e sendo bem executadas (tarefas de ação, plataforma de jogo, princípios estruturais, norteadores da ação, etc) na direção do cumprimento da lógica do jogo.

Todas as evidências apontavam para a necessidade de alteração dos princípios operacionais de ataque; mas…

Resolvi mexer em todas as variáveis “alteráveis” menos nos princípios operacionais de ataque e observar mudanças que isso desencadearia.

Em tese, as “alterações desnecessárias” deveriam alterar um pouco (bem pouco!) a dinâmica do jogo, mas não “resolvê-la” (pois os problemas que estavam associados à dinâmica daquele jogo, naquele momento, não teriam correlação alta com as mudanças que eu estava realizando).

O tempo foi passando. Terminou o 1º tempo. O jogo continuava apresentando o “mesmo rosto”. Insisti no experimento. Não alterei o que precisava ser mudado e aguardei ansioso para saber quais seriam as “mexidas” do meu companheiro de profissão do “banco ao lado”.

Cinco minutos de algum desequilíbrio (mudei jogadores de posição e dei funções que normalmente não eram as deles) e lá voltou o mesmo jogo do 1º tempo.

A lógica do jogo pedia, para seu cumprimento, alterações nos princípios de ataque.

O jogo caminhava para o zero a zero. Quando faltavam 15 minutos para o término da partida, fim do “experimento”; veio então a grande substituição da minha equipe no jogo: saía o princípio operacional de ataque “manutenção da posse da bola” e entrava a “progressão ao alvo” (terminava o jogo em largura, com muitos passes horizontais, de circulação da bola sem intencionalidade clara de progressão, e começava o jogo de profundidade, vertical, mas sem bolas alongadas, com “desapego” a manutenção da posse da bola, e com chegada rápida ao alvo).

O jogo se mudou completamente.

Como o adversário manteve sua organização de ataque da mesma maneira, o jogo se transformou em um “ataque versus defesa”. Resultado: vencemos por um a zero.

Poderia ter terminado zero a zero (assim como, antes da grande alteração, a partida já pudesse estar com um ou dois gols para uma das equipes). O fato é que quando fora alterada pontualmente aquela variável que estava comprometendo a dinâmica ofensiva de minha equipe no jogo, ele (o jogo) se transformou por completo.

Nesse caso em especial, a alteração de um princípio operacional gerou uma grande alteração no jogo em direção ao cumprimento de sua lógica. Mas nem sempre é assim. Algumas vezes o problema para o cumprimento da lógica do jogo não está no cumprimento ou alteração deste e daquele princípio.

E é bom que isso fique bem claro, porque, equivocadamente, treinadores, pesquisadores e equipes dão maior valor ao cumprimento de um princípio operacional do jogo, em detrimento do cumprimento da lógica do jogo.

A lógica do jogo deve ser sempre a meta a ser cumprida. Princípios operacionais, estruturais, etc e tal, são meios para alcançá-la (a lógica do jogo).

Equipes de futebol devem ser preparadas para o cumprimento da lógica do jogo (e isso é o “jogar bem”).

Cumprir a organização defensiva, por exemplo, de acordo com um modelo de jogo, pautada em determinado princípio, só fará sentido se isso for feito para se alcançar o cumprimento da lógica do jogo.

Caso determinada variável do modelo de jogo não esteja adequada em uma partida (ou momento da partida), é ela, a variável, que deve ser alterada.

Porém, o que tenho notado, é que muitas decisões acabam sendo tomadas para mudar não as variáveis do modelo de jogo, e sim a lógica do jogo.

Como ela (a lógica do jogo) é imutável, decisões erradas fazem com que, na tentativa de se aproximar do jogo e da vitória no jogo, muitos treinadores, pesquisadores e equipes têm cada vez mais se distanciado do próprio jogo e da conquista da vitória.

E aí, o de sempre. Equipes continuarão ganhando e perdendo sem saber exatamente porque.

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A "autátic-tópsia" (tática+autópsia) de uma derrota

 

O futebol tem conteúdos “escondidos” entre as linhas que anunciam o resultado final de um jogo. Se ficarmos atentos, é possível que possamos aprender muito com esses conteúdos.

Olhando então aos arredores, entre linhas, conteúdos e esconderijos trago à tona questões de uma partida válida pelas quartas de final dos “Jogos Abertos do Interior 2008” (do estado de São Paulo – Brasil/ torneio sub-21).

Chamemos as equipes de equipe “A” e equipe “B”.

O modelo de jogo da equipe “A”, bem definido pelo seu treinador (típico em outras equipes que dirigira) apresentava as seguintes características básicas:

Organização Ofensiva:

·         Jogo direto, com lançamentos em progressão ao campo de ataque sem preocupação com a manutenção da posse da bola.
 
Organização Defensiva:
·         Marcação individual por setor e estratégias para impedir progressão ao alvo a partir da “linha 3”.
 
Organização das Transições Ofensivas:
·         Primeira ação após recuperação da posse da bola em progressão ao ataque (com velocidade) alternando 4 e 5 jogadores à frente da linha da bola.
 
Organização das Transições Defensivas:
·         Recomposição rápida dos jogadores atrás da “linha 3”, sem “ataque” a bola.
 
Plataforma de Jogo:
·         1-4-4-2 alternando com “falso” 1-3-5-2.
 
O campo de jogo tinha dimensões aproximadas de 100 metros de comprimento por 68 metros de largura.

A equipe “A” era tida como a favorita no confronto. Era mais velha, mais experiente e havia jogado dois jogos em dias consecutivos (contra três jogos em dias consecutivos da equipe “B”), portanto, deveria estar menos “cansada”.

A equipe “B”, conhecendo o modelo de jogo e princípios operacionais da equipe “A”, tendo versatilidade nas suas opções para cumprir diferentes estratégias de jogo, optou por um “contra-modelo” para o confronto:

Organização Ofensiva:

·         Progressão rápida ao alvo, com jogo vertical, mas não direto, sem preocupação com a manutenção da posse da bola (intenção: evitar a circulação de bola que a organização defensiva adversária tentaria induzir – em outras palavras evitar o jogo lento de ataque com que o adversário estava habituado).
 
Organização Defensiva:
·         Marcação Zonal, com estratégias para impedir progressão ao alvo a partir da “linha 3”, com pressing intenso em caso de penetração adversária após essa linha (intenção: fazer o adversário, que não estava acostumado a ficar com a bola, ficar com ela – buscando roubá-la em setores específicos para chegar rapidamente ao ataque).
Organização das Transições Ofensivas:
·         Primeira ação após recuperação da posse da bola em progressão ao ataque (com velocidade) alternando 5 e 6 jogadores à frente da linha da bola (intenção: desorganizar o sistema defensivo adversário, evitando seu “equilíbrio espacial”).
 
Organização das Transições Defensivas:
·         Recomposição rápida dos jogadores atrás da “linha 3”, sem “ataque” a bola (intenção: buscar rápida ocupação de espaços determinados do campo de jogo para não permitir o jogo direto e rápido do adversário, induzindo-o a circular a bola no campo de defesa).
 
Plataforma de Jogo:
·         1-4-1-4-1.
 
O contra-modelo de jogo da equipe “B”, tinha como principais intenções induzir a equipe “A” a jogar fora do seu “modus operandi” e aproveitar os desequilíbrios que essa indução poderia gerar.

Abaixo, algumas informações básicas sobre o scout do jogo:

A equipe “A” alternou momentos em que circulou a bola com momentos em que “queimo-a” ao ataque, forçando lançamentos em regiões equilibradas da equipe adversária. Teve dificuldades em chegar à área com a bola e teve também um número pequeno de finalizações. Foi eficaz. Em três chances no 1º tempo, um gol.

O gol merece comentários.

Na equipe “B” predominaram as ações verticais, com jogo rápido e curto (conforme planejado). Em alguns poucos momentos também circulou a bola (o que não fazia parte da sua estratégia dominante). Resultado; em um desses poucos momentos, errou, pe
rmitiu o contra-ataque e sofreu o gol.

A equipe “B”, apresentou um controle quase que total do jogo. Em boa parte do tempo teve também o domínio da partida. Começou vencendo (em uma jogada de contra-ataque). Executou suas estratégias em busca do cumprimento da “lógica do jogo”, mas acabou derrotada em uma jogada de bola parada no 2º tempo (quando já jogava no 1-4-3-3, marcava na linha 1 e acabava de perder uma grande chance de ampliar o marcador da partida).

Eliminada da competição, diversas reflexões e lições. Abaixo, algumas delas:

1) Uma equipe sub-17 (equipe “B”) disputou um torneio sub-21. Desacreditada até pelos seus torcedores e pares chegou as 4as de final (JOGAR bem – que é diferente de JOGAR bonito – na maior parte das vezes vai levar a vitória, mas não a garante!);

2)  Uma equipe sub-17 jogou contra equipes sub-21 e para aqueles que ainda fragmentam o futebol, não levou desvantagens “físicas” (como isso foi possível?);

3) Ganha uma partida, aquela equipe que cumpre de maneira mais eficiente e eficaz a LÓGICA DO JOGO (qualquer outra coisa que digam, é “balela”);

4) A equipe “B” não ficou satisfeita, porque independente da descrença externa e da posterior bajulação por ter “ido tão longe”, foi aos “Jogos Abertos” para ser campeã; 

5) O tamanho de um homem não está nem em sua estatura (“altura”) e nem no número de anos que viveu. O tamanho de um homem está “dentro do peito” na força que carrega no seu coração.

É isso…

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Defender à Zona ou Jogar à Zona?

Toda vez que se discute o tema “Zona” no futebol, na grande maioria (e quase unanimidade) das vezes explora-se o sistema defensivo (ou o “defender-se à zona”).

Zona orientada por linhas horizontais, zona orientada por linhas verticais, zona orientada pelas duas ao mesmo tempo (bi dimensional). De regras de ação mais, ou menos elaboradas, fato mesmo é que o sistema defensivo é o grande polarizador dos debates sobre o assunto.

No Brasil alguns “manuais táticos”, ou pelo raso conteúdo ou pela falha “tradução”, acabam por provocar equívocos associando muitas vezes o marcar por zona à plataforma 1-4-4-2 em linha (duas linhas de quatro jogadores). Em outras palavras é como se marcar à zona significasse sempre organizar a equipe na dita plataforma (e tão somente nela), como se em outras variações do 1-4-4-2 ou em qualquer outra plataforma isso (o marcar à zona) não fosse possível – ou ainda como se, ao optar-se pelo 1-4-4-2 em linha só fosse possível marcar à zona.


Isso obviamente não faz sentido.

A opção pela plataforma de jogo a ser utilizada está fractalmente ligada a todas as variáveis e dimensões do modelo de jogo escolhido. Isso é fato. Porém a escolha desta ou daquela plataforma não está necessariamente condicionada a esta ou aquela orientação defensiva (e vice-versa).

É necessário que se compreenda a interação entre plataforma escolhida e orientação defensiva determinada.

Marcar a zona (linha vertical, horizontal, duas dimensões, etc), individualmente, homem a homem, de forma mista ou de forma híbrida é uma das variáveis do sistema defensivo; não é a única.

O tema “zona” chama a atenção porque apesar de “antigo”, é recente nos fóruns de discussão sobre tática no futebol (especialmente porque vem se destacando a defesa à zona em grandes equipes de alguns países da Europa e já algum tempo em outros jogos desportivos coletivos).

O fato é que por mais que se discuta ainda estamos longe de esgotar o tema.

Existem vários espaços a serem preenchidos.

Um exemplo disso é que ainda falamos do defender à zona, quando deveríamos falar do jogar à zona (ou a “zona” estaria restrita ao sistema defensivo?).

Ainda que a dissociação de defesa, ataque, transição defensiva e transição ofensiva seja mais didática do que concreta, podemos ter orientações e estratégias distintas para as regras de ação de cada um desses quatro momentos do jogo e uma delas possível (das estratégias), é por exemplo, que a organização ofensiva também seja zonal.

Atacar à zona é tão possível quanto o defender à zona e muitos bons treinadores europeus há muito tempo têm se valido disso na organização ofensiva de suas equipes.

Espero que não demore muito tempo para que o tema seja explorado nos fóruns futebolísticos de discussão.

Retomarei e me aprofundarei no tema em outra oportunidade. Por enquanto, que nossas/vossas mentes inquietas digiram o assunto, e que a defesa à zona avance ao ataque em zona e por fim ao “jogar à zona”.

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O treino psicológico no contexto tático: fragmento ou fractal?

Em belo texto escrito pelo professor Lucas Leonardo, intitulado “O fim da Preparação Física“, ele, o autor, faz uma reflexão interessante sobre a fragmentação do jogo de futebol.

“(…) Para agüentar o jogo, treina-se o físico. Para executar o jogo, treina-se o técnico. Para movimentar-se no jogo, treina-se o tático.”

E questiona: “(…) Para agüentar, executar e movimentar-se no jogo basta treinar o jogo, afinal se é jogo que tenho que agüentar fisicamente, executar tecnicamente e movimentar taticamente, qual seria a melhor ferramenta para isso do que usar do jogo para preparar para o jogo?

E se através do jogo eu serei capaz de agüentar, executar e movimentar uma partida de futebol, os treinos físicos, técnicos e táticos isolados acabam. Treina-se o JOGO.”

Apropriando-me da idéia do autor, adicionaria mais um ingrediente nessa apimentada discussão. O jogo de futebol é jogo, é tático, é técnico, é físico e também mental. E é daí (do “mental”) que podem surgir algumas novas (velhas!) polêmicas.

A psicologia no e do esporte é, de certa forma, bem recente no futebol. Muitas barreiras já foram superadas e diversas discussões já foram realizadas sobre o tema. Avaliações de traço-estado, perfil “a”, “b” ou “c”, abordagem “x” ou “y”, presença ou não do psicólogo em treino, treinador-psicólogo, psicólogo-treinador, “stress-training”, “tracking”, etc e tal.

Interessante que, se sob a perspectiva da preparação física (que já não é tão nova no futebol) a fragmentação e a dificuldade de se compreender a complexidade do todo são enormes, no caso da psicologia (e/ou preparação psicológica) os equívocos têm tomado a mesma direção.

Fractalmente falando, em toda sessão de treinamento a cada dia de trabalho, toda e qualquer atividade elaborada e proposta pelo treinador tem que trazer à carga exigências táticas-técnicas-físicas-mentais, de tal forma que o tático esteja contido no físico, o mental no tático, o técnico no mental e assim sucessivamente a todo o tempo, o tempo todo.

Se a moderna e atual perspectiva das teorias do treinamento desportivo no futebol vêm nos preconizar que “deve-se treinar conforme se deseja jogar” (de tal forma que jogo seja treino e treino seja jogo), não faria (e não faz!) sentido algum desenvolver e treinar em separado (treinamento mental, ou tático, ou físico, ou técnico) aquilo que será exigido em conjunto em jogo formal.

Aí virão os “apegados de Decartes” que dirão “mas estão aí os papers científicos, mostrando que exercícios de mentalização, visualização e etc e tal; que o POMS isso e aquilo podem e são úteis na melhora do desempenho atlético do futebolista”.

Mas não darei espaço. Poderia recorrer a Damásio, Morin, Stewart, Piaget, Prigogine, João Freire, Manuel Sérgio, Medina, Scaglia. Não faltariam conteúdos e argumentos convincentes.

Vou porém sugerir uma reflexão proposta pelo texto “O fim da Preparação Física”, quando o autor aponta que os moldes da preparação física atual surgiram pela ineficiência que os treinos técnico-táticos da década de 50 apresentavam sob a perspectiva de intensidade, densidade e volume de exigências “físicas”.

Como os estímulos dos treinos que eram propostos, sob a perspectiva da dominante “física” (chamada assim por mim, apenas com objetivo didático), não proporcionavam grandes exigências (sobrecarga), também não preparavam o atleta de futebol em sua totalidade.

Desta problemática, duas soluções possíveis:

1)    Redimensionar o treino técnico-tático, para que ele pudesse proporcionar as exigências físicas-técnicas-táticas do jogo; ou
2)    Dar um “treino adicional” que “completasse” as lacunas deixadas pelo treino técnico-tático (decisão errada!).
Como a solução encontrada fora a segunda, estamos aí somando anos e anos caminhado em direção contrária a complexidade do jogo.

Com a psicologia, a mesma coisa.

Como os treinos hoje, em sua maioria, não contêm exigências mentais-táticas-técnicas-físicas ao mesmo tempo (fragmenta-se o treino e o indivíduo), abre-se uma lacuna e com ela a necessidade de se complementar os treinos com “abordagens psicológicas”.

Mais uma vez, problema certo, decisão errada.

Se não compreendermos a complexidade do jogo de futebol, correremos o risco de mais uma vez voltarmos atrás com a história.

Já percebemos que falta algo, que existe um problema a ser solucionado; isso é fato. Mas mais uma vez estamos a atacar os sintomas e não a causa do problema…

Então peço licença para terminar com um trecho de um texto lido pela cantora Ana Carolina (poema “Só de Sacanagem“) em um show com Seu Jorge (e se minhas fontes estiverem corretas, fora escrito por Elisa Lucinda):

” (…) Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e todos os justos que os precederam. ‘Não roubarás!’, ‘Devolva o lápis do coleguinha’, ‘Esse apontador não é seu, minha filha’. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar! Até habeas corpus preventiva, coisa da qual nunca tinha visto falar, sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará! Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear! Mais honesta ainda eu vou ficar! Só de sacanagem!
Dirão: ‘Deixe de ser boba! Desde Cabral que aqui todo mundo rouba!
E eu vou dizer: ‘Não importa! Será esse o meu carnaval! Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos.’
Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo, a gente consegue ser livre, ético e o escambal.
Dirão: ‘É inútil! Todo mundo aqui é corrupto desde o primeiro homem que veio de Portugal!’
E eu direi: ‘Não admito! Minha esperança é imortal, ouviram? Imortal!’
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quizer, vai dar pra mudar o final!”

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Os meias que marcam e os volantes que armam: continuam fragmentando nosso futebol (até os mestres)!

No futebol brasileiro predomina o não-profissionalismo. Poucas são as ações que poderiam me fazer pensar o contrário. Claro, minorias existem e não por acaso têm tido maior êxito que seus pares majoritários.

E vejam, não estou nem sequer me referindo a ações e decisões no “campo político-administrativo”.

Já presenciei “presidente” de clube de futebol, em campeonato profissional de 1ª divisão ligando do celular ao banco de reservas para exigir do treinador a substituição deste e daquele atleta. Normal. Isso nem causa mais espanto, nem chama mais a atenção. Óbvio, existem aqueles que se submetem e aqueles que não se submetem a esse tipo de situação.

Já vi treinador “convidando” dirigente a se retirar do vestiário em dia de jogo dando três segundos de prazo para o ato ou senão… Já vi clube dispensar atleta por causa da estatura, do peso e até por cisma.

No futebol predomina o “eu acho”. E de tanto “achar” parece que foi aumentando também o número de coisas a se perder.

Pois bem. Dia desses Wanderley Luxemburgo, em um programa esportivo na TV, disse que hoje existem problemas nas categorias de base, no processo de formação dos atletas de futebol e que isso de certa forma tem atrapalhado muito a evolução e formação das equipes profissionais do futebol brasileiro. Deixou “escapar” entre linhas que os treinadores na “base” estão muito mais preocupados em vencer o jogo do próximo final de semana (ou conquistar o campeonato) do que com a real “formação de jogadores de futebol”.

E ainda que seu pensamento a respeito não tenha sido aprofundado no debate, o seu “entre linhas” é fato.

Pois bem. Gostaria, a partir desse fato, destacar três pontos:

1)     Treinadores das categorias de base talvez não tenham claro qual o seu papel;

2)     Dirigentes e coordenadores de categorias de base talvez também não tenham claro qual o papel e objetivos de treinadores e equipes nas categorias de base;

3)     Bons projetos de formação real de jogadores foram, são e continuarão sendo assassinados por investidores, dirigentes amadores, coordenadores e treinadores presos a paradigmas ultrapassados e crenças baseadas em achismos dos mais diversos tipos.

É ponto pacífico que treinadores de equipes sub-13 (sub-15, sub-17 etc e tal), por exemplo, enxerguem suas “crianças” como atletas adultos em miniatura e, por falta de conhecimento e preparo, ajam (conforme modelam em suas abstrações) como treinadores em final de Copa do Mundo falando com atletas experientes e aptos a entendê-lo (sem se aterrorizar com os gritos desprovidos de inteligência e razão).

É fato que treinadores querem vencer a qualquer custo. Mas é fato também que o mesmo dirigente que o contrata sob a “ladainha” (que ele mesmo diz em frente ao espelho para tentar se convencer) de que resultados de jogos não são importantes, é o mesmo que meses depois quer “decapitar” o treinador que não foi lá tão bem com as vitórias.

Como o dirigente não entende de processo e nem mesmo sabe o que é formação, acaba sendo comum que ele, no final das contas, queira saber somente das vitórias. E o treinador, para se proteger, assume o pacto da mediocridade e vai até as últimas conseqüências com seu plano “maquiavélico” rumo às conquistas.

Não senhores!

Não estou eu aqui a dizer “esqueçam as vitórias; ou formamos jogadores, ou vencemos campeonatos”. Simplesmente porque não acredito que uma coisa está desconectada da outra, ou que uma desabone ou elimine a outra.

Conquistar vitórias também faz parte do PROCESSO de formação. Mas elas vêm (ou deveriam vir!) com o próprio PROCESSO (ao seu tempo – e se falamos de categorias de base, o tempo é algo importante; muito importante!).

Mas o problema é muito mais amplo e profundo do que parece. Estamos vendo apenas a ponta do iceberg.

Uma coisa é entender que as categorias de base fazem parte de um processo de formação de jogadores de futebol. Outra é entender o que é jogar futebol (sem fragmentar o que é tático do que é técnico, do que é físico do que é mental – e isso até alguns dos “mestres” que nos encantam tem dificuldade para entender, conceber, discursar/agir), o que ensinar, porque, como ou quando e principalmente o que é processo.

E aí termino então com um trecho de um texto do Tostão (“Estatutos do futebol”). O que eu quero dizer com ele? As entrelinhas dirão por si só…

“(…) Repito, pela milésima vez, que muito mais importante que esquemas táticos é a qualidade dos jogadores. Porém eles brilham muito mais quando jogam em equipes organizadas.

A solução mais urgente para formar talentos no meio-campo é os técnicos, desde as categorias de base, pararem de escalar volantes que só marcam e de colocar armadores habilidosos para jogar somente como meia-atacantes. É preciso descobrir solistas, pianistas. O meio-campo está saturado de carregadores de piano (…)”

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