Sobre as matrizes de jogos no futebol – Parte I

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Dentre os temas mais tratados nos nossos debates sobre futebol nos últimos anos, certamente um dos mais importantes está nas metodologias de treinamento. Aqui mesmo, na própria Universidade do Futebol, encontramos uma série de artigos, alguns deles meus, nos quais não apenas falamos de determinadas metodologias e/ou abordagens, como também refletimos um pouco melhor sobre o impacto da transição de uma metodologia em direção a outras (processo que exige tempo e paciência).

Neste sentido, uma contribuição muito importante são as chamadas matrizes de jogos, trazidas ao debate notadamente pelo professor Alcides Scaglia. Embora não se trate de um conceito novo, é um conceito menos debatido do que poderia ser, ou mesmo desconhecido para alguns colegas. Por isso, gostaria de aproveitar o espaço de hoje para discutirmos um pouco sobre as matrizes de jogos. Por se tratar de um tema não exatamente curto, prefiro dividir o texto em duas partes: na primeira, darei uma panorama prévio, uma espécie de sustentação das matrizes. Na segunda, tratarei mais especificamente de cada uma delas.

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Para pensarmos as matrizes de jogos, vamos dar um passo atrás e considerar uma primeira noção, também menos simples do que parece: a noção de jogo. Embora seja uma palavra óbvia para nós que trabalhamos com futebol, existem alguns detalhes sobre o jogo que estão abaixo da superfície. Por exemplo, quando pensamos em jogo, precisamos ter em mente que se trata de algo que tem regras; que tem um espaço definido; que tem um tempo próprio (que não é o tempo cronológico, é outro tempo); que é uma espécie de suspensão temporária do real – ou, se você preferir, é um outro real, uma outra camada de realidade, por isso a passagem do tempo também é diferente da que estamos acostumados na vida cotidiana. Na mesma linha, acho importante nos lembrarmos daquela passagem, classicamente apresentada pelo professor João Batista Freire (no também clássico O Jogo: entre o riso e o choro) na qual descobrimos que jogo pode ser tudo aquilo que a minha subjetividade considerar como jogo. Este é um ponto necessário, pois o jogo não é bem um fenômeno objetivo, não é um objeto em si: o jogo está numa cada de percepção, de subjetividade, de intenção (ou intencionalidade), nas relações que nós somos capazes de fazer com o jogo que jogamos. Aliás, daqui podemos pensar sobre a escolha de um dado exercício ou jogo nos nossos treinamentos: não se trata do jogo em si, mas das relações e do sentido que somos capazes de dar ao jogo propomos ou ao jogo que jogamos (como escrevi, faz pouco tempo, neste texto). Daí a importância de nos preocuparmos não apenas com o método, mas também com a didática.

Ainda de um ponto de vista mais conceitual, não nos esqueçamos do jogo envolvido em uma dimensão de complexidade. Neste caso, vale lembrar que complexo é uma palavra vinda do latim complexus – aquilo que é tecido junto. Não por acaso, no texto em que apresenta a noção de matrizes de jogos, o professor Alcides Scaglia, junto dos amigos Riller Reverdito, Lucas Leonardo e Cristian Lizana, retoma o chamado padrão organizacional sistêmico: num jogo como o futebol, que antes de tudo é jogo, que é um jogo coletivo e, além disso, que é um jogo coletivo de invasão, tática, técnica, físico e mental, assim como ataque, defesa e transições, estão todos tecidos juntos, não se separam, são dimensões inquebrantáveis, como dizem nossos colegas portugueses. Elas podem até ser separadas de um ponto de vista didático, ou às vezes de um ponto de vista analítico – mas não se separam de um ponto de vista prático. Repare que aqui já estamos com um pé naquele debate entre metodologias mais tradicionais de ensino/treino do futebol contra as chamadas ‘novas tendências’: a partir do jogo, é possível articular formas e conteúdos de treino menos distantes do jogo formal, com exigências e problemas análogos aos do jogo formal, com um nível de intensidade físico/mental eventualmente idêntico ou até mesmo superior ao do jogo formal. Por isso, como também aprendi com o professor Alcides, vale a pena questionarmos aquele adágio que nos diz que treino é treino e jogo é jogo: se é assim, então por que treinamos? Talvez um outro caminho seja o de pensar que treino é jogo e jogo é treino, que o treino existe para se jogar e o jogo formal existe também como treino, é um treinamento muito particular, de exigências particulares e que de ensinamentos também muito particulares. Como disse outro dia o Pedrinho, comentarista do SporTV, falando alguma coisa sobre a falha do goleiro Hugo Souza contra o São Paulo, repare como nós carregamos algumas heranças que precisam, de alguma forma, ser questionadas.

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Ainda de um ponto de vista mais conceitual, chamo a atenção para as chamadas competências essenciais dos Jogos Esportivos Coletivos. É um conteúdo trazido ao debate pelo professor Julio Garganta, sendo as competências essenciais basicamente três: relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação. Quando um jogador se coloca em situação de jogo, quando põe a prova suas competências (poder fazer) e habilidades (saber fazer), basicamente espera-se uma relação amistosa com o implemento do jogo (no caso do futebol, a bola – repare aqui nisso que chamamos geralmente de técnica), uma relação amistosa com o espaço de jogo (repare nisso que chamamos de tática, especialmente se pensarmos nela como gestão do espaço/tempo de jogo, de modo individual, grupal e coletivo), assim como uma capacidade importante de comunicação, não apenas a partir da fala, mas a partir da ação, uma comunicação de corpo inteiro (e repare aqui na importância, por exemplo, da orientação corporal dentro do jogo jogado, sobre a qual escrevi recentemente).

Se para jogar bem é preciso relacionar-se bem com a bola, estruturar bem o espaço (individual/grupal/coletivamente) e comunicar-se na ação, repare que faz sentido não apenas treinar como se joga, mas também modelar as referências do jogo que se joga de acordo com a intenção, com os objetivos específicos de treinadores e comissões técnicas. Aqui, vamos pensar em dois tipos de referências: referências estruturais e referências funcionais. As referências estruturais nada mais são do que “elementos formais que compõem o jogo: companheiros, adversários, bola/implemento, espaço, alvo e regras” (SCAGLIA et.al, 2014¹). As referências funcionais, por sua vez, são orientadas pelos chamados princípios operacionais e pelas regras de ação. Mas, por ora, vamos ficar por aqui. 

Pois como escrevi no início, gostaria que tivéssemos hoje um desenho prévio, a partir do qual podemos pensar as matrizes de jogos com mais segurança. No próximo texto, partirei dos princípios operacionais e das regras de ação para falarmos mais detalhadamente das matrizes, a saber: jogos conceituais, jogos conceituais em ambiente específico, jogos específicos, jogos contextuais.

Seguimos em breve.

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¹SCAGLIA, A. J.; REVERTIDO, R. S.; LEONARDO, L.; LIZANA, C. J. R. O ensino dos jogos esportivos coletivos: as competências essenciais e a lógica do jogo em meio ao processo organizacional sistêmico. Movimento, Porto Alegre, v. 19, n. 04, p. 227-249, ago. de 2013.

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Hudson Martins é Graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. além de Graduado em Ciências do Esporte e Mestre em Educação Física pela Unicamp. Atualmente, treinador pela Elleven Futebol Studio, em Campinas.

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