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A nossa indústria

Em reportagem do Jornal Valor Econômico desta terça-feira, dia 8, intitulada "Patrocínios de empresas começam o ano tímidos", relata o cenário vivido pela indústria cultural no tocante a dificuldade de captação de recursos ante a forte concorrência do esporte por conta dos megaeventos, em especial a Copa 2014 e Copa das Confederações 2013.

A matéria mostra claramente a relação e o posicionamento de ambas as indústrias no mercado do entretenimento, tal e qual a teoria do segmento nos mostra. A competição que o esporte e a cultura fazem é pelo interesse do tempo livre das pessoas e, naturalmente, os diferentes investimentos advindos das empresas, do governo e outros entes interessados.

Chama atenção o fato de o nosso segmento de esporte passar por um momento bastante favorável, reconhecido inclusive pelos “concorrentes”, e de como estamos nos preparando para a manutenção qualitativa deste status, bem como a estruturação em momentos que os segmentos concorrentes estiverem mais fortalecidos.

A discussão sobre o mercado é algo bastante complexo e não será conclusiva, como é natural imaginar – serve, no entanto, como ponto de reflexão, lembrando ainda que existe uma forte concorrência interna, dentro do próprio segmento esportivo por si só, que se ramifica em inúmeros tentáculos, partindo desde o âmbito global até as atividades locais/regionais de esporte.
 

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br
 

 

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O desafio de Belluzzo

Luiz Gonzaga Belluzzo foi eleito presidente do Palmeiras, com o que me pareceu um apoio irrestrito da mídia. Pudera. É, possivelmente, o mais qualificado presidente de um clube de futebol da história recente do país.

Não sei dizer outro presidente de clube com título de Doutor ou que tenha sido conselheiro econômico da Presidência da República. Ou, então, que tenha ganhado o prêmio Juca Pato, seja lá que prêmio é esse. Pelo nome, parece ser importante. E engraçado.

De qualquer maneira, Belluzzo tem uma árdua tarefa pela frente. Não é fácil ser presidente de clube de futebol. Você é, ao mesmo tempo, muitas coisas. Para o conselho, você é o muro das lamentações. Para os jogadores, você é um caixa bancário. Para a imprensa, você é uma fonte inesgotável de notícias. E para a torcida, você é o demônio. E nem sequer ganha para isso.

Não só não ganha como também perde. E muito. Tempo, cabelo, essas, coisas. 

Se há uma coisa que presidente de clube não tem, é tempo. Afinal, você, de um dia pra outro, vira representante de uma organização que possui milhares de sócios oficialmente e sabe-se lá quantos milhões de torcedores. Não falta gente pedindo pra você fazer uma visita aqui, uma reunião ali, tomar um café acolá.

E é aí, nessa questão, que está talvez o maior desafio da presidência de Belluzzo. Não se podem questionar seus interesses, que obviamente estão voltados aos rumos da macro-organização do que um envolvimento maior com os meandros da instituição. Mas como uma pessoa tão atarefada e envolvida até com os rumos da nossa própria nação conseguirá equilibrar a demanda profissional com a demanda palestrina? O tempo, obviamente, vai dizer.

E também em tempo, o prêmio Juca Pato é um prêmio literário concedido pela União Brasileira dos Escritores. Já foram contemplados com ele o ex-presidente Fernando Henrique, Sérgio Buarque de Holanda, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo e seu filho, Luiz Fernando Veríssimo, que bem que poderia a onda e se tornar presidente do Internacional.

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Lula e o futebol

Antes de começar essa coluna, é importante deixar bem explícito aqui qual é o meu viés político. Nunca votei no Lula, tampouco no PT. Isso não quer dizer, necessariamente, que eu desaprove ostensivamente a política do governo federal atual. Não. Respeito o partido, entendo o seu posicionamento e acredito que desempenha um papel essencial em qualquer sociedade democrática. Mas não engulo muito a retórica, principalmente a extremista. Mas o fato de que muito daquilo que o partido pregava não ter sido feito durante o tempo de governo do Lula me faz aplaudi-los.

Agora que você já sabe qual é a minha opinião sobre o presidente, permita-me tecer algumas palavras a respeito da excelente entrevista realizada pelo programa ‘Bola da Vez’, da ESPN Brasil. Foi a primeira vez, pelo menos que eu tenha visto, que um programa conseguiu conversar com o presidente exclusivamente sobre esportes, em especial o futebol. Em geral, as entrevistas pincelam o assunto, o que não dá às respostas uma legitimidade interpretativa minimamente possível. Eis que o programa nos permitiu ver o que de fato se passa na cabeça da figura maior do nosso Estado.

Em todos os lugares, independente da riqueza, é a postura do Estado que constrói o caminho para a evolução ou para a regressão do esporte. Na Inglaterra, foi a obrigatoriedade imposta pelo governo que obrigou os clubes a transformarem os seus estádios na década de 90. Não fosse por ela, é possível que os estádios ingleses hoje não fossem tão evoluídos, o que implicaria também no atraso da evolução dos estádios em outros lugares do mundo. Na Europa, por sua vez, foi a postura da Comissão governante que obrigou a adequação dos contratos de trabalhos de jogadores a patamares mais próximos de profissionais ordinários. Todas essas mudanças, que foram essenciais para a modernização do futebol, aconteceram por conta da postura do Estado em relação ao esporte.

Na entrevista, Lula deixou claro, por seguidas vezes, como que ele enxerga o futebol no Brasil: como torcedor, corinthiano, apaixonado. E isso não é nada bom. Suas análises a respeito do futebol no país foram construídas por assunções generalizadas e massificadas, que pouco condizem com o que de fato acontece com o esporte no país. Disse ele, por exemplo, que tem que ser bolado um jeito para jogadores de futebol parem de sair do futebol tão cedo e que a Lei Pelé precisa ser readequada, uma vez que ela foi feita pensada nos jogadores, e não nos clubes.

Confesso que quando eu ouvi isso, dei uma pequena risada e balancei a cabeça negativamente. Ora. Um presidente, ex-líder sindical, que foi eleito por um partido que, teoricamente, representa o proletariado, diz – em cadeia nacional – que é preciso repensar uma lei que beneficia os trabalhadores para que ela passe a beneficiar as instituições? Que é preciso dar menos poder ao indivíduo? Onde foi parar o ditado “Quem bate cartão não vota em patrão”?

Em seu favor, Lula argumentou que o problema todo é que, se antes os jogadores eram reféns dos clubes, agora viraram reféns dos empresários, que são os principais beneficiados com a Lei Pelé. Esse é um exemplo explícito de como o discurso massificado é assumido pelo comandante geral do país sem a preocupação com a interpretação mais precisa da realidade.

Tivesse se preocupado em buscar as verdadeiras razões para o cenário atual, ou se pelo menos tivesse sido melhor assessorado a respeito do assunto, o presidente saberia que ninguém nasce escravo de ninguém, muito menos jogador nasce ligado obrigatoriamente a um empresário. O presidente saberia que a grande maioria dos jogadores de futebol que surgem como promessas são pessoas de baixíssima renda, com pouquíssimas perspectivas de vida fora do esporte. Saberia que, por conta disso, quando esse jogador se consolida como uma promessa, ele fica feliz por fechar com um agente por alguns milhares de reais, dinheiro esse que servirá para comprar comida, geladeira, fogão, reformar o telhado da casa, ou suprir qualquer outra necessidade básica a família do jogador possua. Qualquer pessoa de baixa renda que desempenhe uma função busca maximizar a receita no menor tempo possível. E é por isso que ela fecha com empresários, que posteriormente leiloam os direitos econômicos com clubes, o que acaba fazendo com que se ache que o jogador perdeu o controle sobre a sua própria vida. Na verdade, é bem possível que a vida do jogador esteja melhor por conta do empresário do que estaria sem o mesmo. Antes da Lei Pelé, era comum ouvir jogadores reclamando do poder dos clubes. Você já ouviu algum jogador reclamando do poder do seu empresário?

Ao que me pareceu, Lula falou como se estivesse sentado em uma mesa ao redor de amigos, sem muitas pretensões oficiais. E, talvez, o problema seja que ele pense no futebol como apenas um assunto interessante, que é um ótimo passatempo, mas com ramificações incompreensíveis. 

Não encampo a causa dos agentes de futebol, mas encampo a liberdade do indivíduo de tomar suas próprias decisões, ou estar ciente de cedê-la para que alguém mais preparado o faça. Lula, por ser um democrata de esquerda, também pensa assim. O problema, talvez, seja que ele torça muito por um jogo de futebol e que, com isso, deixe de pensá-lo como o complexo fenômeno que de fato é.

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Previsões para 2009

Mais um ano começando e mais um monte de previsões aparecendo por aí, seja em revista de fofocas, na bolsa de valores ou em colunas esportivas. Todos dividindo o mesmo grau de QI e a mesma capacidade de acertar as coisas do futuro.

Eu, que faço parte dos escritores de coluna, dos que perderam dinheiro na bolsa e dos que secretamente leem revistas de fofoca, também me permitirei a fazer as minhas furadas previsões. Também faço parte daqueles que demorarão a se acostumar com leem sem acento.

A bolsa vai subir e aquele casal legal vai se separar. Essas são minhas previsões para os itens que não interessam a esse site. Para aquilo que concerne esse espaço, aqui vão 05 palpites para 2009: 

 

 
1)    Se nada de excepcional acontecer, o São Paulo deve ser o campeão brasileiro de 2009. Não adianta ser o time mais rico se você gasta muito dinheiro com quem não vale tanto assim. O São Paulo atual não parece ser o caso. Muricy aparenta ter o mesmo impacto na indústria do futebol brasileiro que o Ferguson na indústria inglesa. É mais difícil prever o resultado para a Libertadores e para o Paulista, uma vez que estes são mais curtos e imprevisíveis, mas ele deve se sair bem.
 
2)    Se nada de excepcional acontecer, o Santos deverá ter problemas de performance ao longo do ano. O clube deverá voltar à fase pré-Robinho, uma vez que só saiu dessa era por causa do time excepcional ao qual pertencia o próprio Robinho. Foi uma alteração de curso que já foi compensada.
 
3)    Se nada de excepcional acontecer, Internacional e Cruzeiro parecem ser os clubes de fora do eixo RJ-SP, que a cada dia mais vira só eixo SP, com maior capacidade de se destacar. O time do Grêmio do ano passado foi excepcional. Nesse ano, as coisas devem voltar ao normal.
 
4)    Se nada de excepcional acontecer, os times do RJ devem ter problemas ao longo do ano, principalmente o Botafogo. O Vasco, que pode ser a surpresa do Estadual, deve voltar para a primeira sem maiores problemas, mas talvez de forma mais tortuosa que a do Corinthians.
 
5)    Se nada de excepcional acontecer, a janela de transferências será minguada. Somando isso às péssimas condições do mercado de patrocínio, clubes terão receitas comprometidas, o que gerará um problema para arcar com salários de jogadores com contratos feitos no período de bonança. Isso gerará descontentamento do elenco e consequente baixa performance. Na dúvida, vai sobrar para os técnicos. É possível que tenhamos um alto índice de troca de cadeiras durante o ano.
 
Essas, ao meu ver, são algumas das tendências do ano, baseado mais na capacidade de geração de receita e reaplicação em performance do que em uma própria análise do elenco de cada clube.

Nunca fui bom em palpites. Se nada de excepcional acontecer, eu devo errar em quase todos eles.

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Não foi tão competitivo assim

Ao contrário daquilo que muita gente disse ao longo dessa semana, o Campeonato Brasileiro de 2008 não foi o mais competitivo da história.

Certo. Havia tempo um campeonato não ia para a rodada final com o título em jogo, mas isso jamais pode servir de parâmetro para a análise de todo o campeonato.

Subjetivamente falando, a competição final não foi tão grande assim. Na última rodada, apenas dois clubes lutavam pelo título. Havia duas vagas para a Libertadores e três clubes lutando por ela. Só um ficaria de fora. A Sul-Americana não conta. E, na briga contra o rebaixamento, havia quatro clubes para duas vagas. Dos vinte clubes participando da competição, apenas nove brigavam por alguma coisa na rodada final, isso porque o Campeonato Brasileiro tem a grande sacada de rebaixar quatro times. Fossem dois rebaixados apenas, como na maioria dos lugares, o cenário seria menos competitivo ainda.

Mas também não dá pra reclamar de boca cheia. Poderia ser pior. Poderíamos ter chego à rodada final com tudo definido. Mas o futebol brasileiro não é assim. Como os clubes são bastante nivelados, dificilmente isso irá acontecer.

Esse nivelamento pode ser comprovado matematicamente. Existe uma fórmula que pode ser utilizada para mensurar a competitividade real de um campeonato. Os idealizadores dessa fórmula são os pesquisadores do Sport Business Centre da London University. Ela não é nada mais do que uma ferramenta normalmente utilizada para se mensurar a competitividade de mercados aplicada ao futebol.

Basicamente, pela fórmula chamada de H-Index, somam-se todos os pontos conquistados no campeonato e redistribui-se um percentual para cada clube. Aplicam-se médias e compensações, e no final você consegue chegar a um número que serve como uma pontuação da competitividade. Quanto menor for esse número, melhor.

O Brasileirão de 2008, por exemplo, teve o ‘H-Index’ de 104,4. Se comparado com os resultados dos últimos campeonatos finalizados pelas 5 maiores Ligas européias, o Brasil se sobressai. O campeonato Espanhol teve 107 pontos, o Alemão 107,4, o Italiano 108,8, o Francês 105,9, e o Inglês, o menos competitivo de todos, 113,7. O Brasil tem o campeonato mais competitivo, de longe.

É bom ressaltar que essa fórmula entende por competitividade o equilíbrio de pontuação entre as equipes, estejam elas em zonas de classificação ou não. Dessa forma, o campeonato mais competitivo que existe é aquele que todos os competidores acabam com o mesmo número de pontos. A fórmula não contempla as nuances de quantas equipes estão disputando um número x de vagas. A fórmula é aplicada a todos os lugares da tabela, e não apenas àqueles que brigam por conquistas ou contra o rebaixamento.

É por isso que ela permite dizer que esse campeonato não foi o mais competitivo de todos. Ele foi, na verdade, o terceiro menos competitivo desde a época dos pontos corridos. O mais competitivo foi o de 2005, com 103,2 pontos. Depois dele, vem o de 2003, que o Cruzeiro conquistou com 13 pontos a mais que o Santos, com 104,1 pontos, e o de 2004, com 104,2 pontos. O menos competitivo foi o de 2006, com 105,2 pontos e depois o de 2007, com 104,8 pontos. Nota-se, portanto, uma certa tendência de diminuição de competitividade ao longo dos anos, o que é natural na indústria do futebol. Com o tempo, caso as coisas se racionalizem, alguns poucos clubes deverão dominar os campeonatos.

Sorte que os clubes brasileiros são imprevisíveis. Amanhã, os clubes grandes de hoje podem ser rebaixados. Melhor assim.

Ainda bem que somos desorganizados. A graça é bem maior.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Sem chute

O Campeonato Brasileiro por pontos corridos é implacável e, cada vez mais, permite que se defina o time campeão sem precisar de tanto exercício de futurologia assim. O tricampeonato seguido do São Paulo, o sexto título tricolor da história, é perfeitamente racional e reforça a importância da continuidade no trabalho.

Há três anos que a comissão técnica do São Paulo é a mesma. Há três meses, sequer os treinadores de Ipatinga, Vasco e Figueirense eram aqueles que, no último domingo, disputaram a rodada derradeira do Brasileirão-2008. O que dirá da comissão técnica!

Até agora, parece que apenas o São Paulo entendeu que, para ter bom desempenho na era dos pontos corridos, é preciso ter o mínimo de seguimento ao trabalho. Num torneio em que o importante é ter constância, em que os erros devem ser minimizados pelo trabalho de longo prazo, trocar de treinador é o primeiro dos deslizes que se comete.

No início da competição, em maio, dois times eram apontados como francos favoritos à conquista: Palmeiras e Internacional. A vitória poderia ser justificada pela pujança do elenco das duas equipes. O Inter, aliás, se reforçou com D’Alessandro e Daniel Carvalho no meio do caminho, ficando ainda mais forte. Mas por que não ganharam?

O Inter trocou Abel Braga por Tite no andar da carruagem. O Palmeiras, a pedido de Vanderlei Luxemburgo, foi desmantelando a base montada por Caio Junior no ano anterior e criando um time à imagem e semelhança (cada vez mais disformes) do seu comandante. O resultado foi óbvio. Os times se perderam ao longo da competição, apesar de os gaúchos terem se encontrado na disputa da Copa Sul-Americana (com toda a imprevisibilidade do mata-mata).

Ao mesmo tempo, São Paulo e Grêmio mantiveram a linha de trabalho. Os tricolores não fizeram grandes mudanças, reforçaram os elencos que tinham em algumas posições, seguiram a linha de trabalho que já vinha sendo traçada.

Não à toa, no último domingo foram os dois que duelaram pela conquista da taça. E também não foi coincidência, sorte ou qualquer coisa do gênero o título continuar no estádio do Morumbi. Muricy Ramalho e companhia conhecem há três anos o grupo que lá está. Não precisam tirar coelhos da cartola para buscarem um resultado, basta seguir o trabalho.

No ano que vem, de partida já se pode dizer que o São Paulo é favorito ao título. Os outros candidatos à conquista nós teremos de esperar um pouco para dizer: não duvidem do Corinthians (que manteve Mano e a base construída no calvário de 2008). Ou do Inter (agora com Tite assegurado e o grupo mantido). Mas Palmeiras, Flamengo, Cruzeiro e Grêmio, para fazerem parte da lista, terão de fazer o básico neste ano que se encerra. Continuar o trabalho que teve início em 2008.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Sócio é tão bom assim?

Com a conquista da Copa Sul-Americana pelo Internacional ontem a noite, nada mais natural que se dê início a um ode à administração colorada, mais ou menos no mesmo esquema que se faz sempre que uma equipe conquista um título, uma vez que muitas análises feitas utilizam o fim para enaltecer o meio.

Uma das coisas que mais se falou e mais se irá comentar é a política de sócios do Internacional, que conseguiu a façanha de preencher o estádio apenas com os membros do clube. Ato, a princípio, louvável. Quem mais é capaz de tal coisa no Brasil?

Muitos enxergam na expansão do número de sócios algo muito positivo e utilizam o extremo referencial do Barcelona como prova desse sucesso. É um raciocínio simples, lógico e bem fundamentado, ainda que o Benfica tenha mais sócios que o próprio Barcelona e não é lá um grande exemplo de sucesso esportivo na atualidade. Agora, ter um estádio cheio de sócios é bom ou é ruim?

Pode ser bom, claro, uma vez que o sócio é um tipo de público mais identificado com o clube, com muito mais vínculo do que um torcedor normal. O sócio é mais interessado, tende a consumir mais produtos e em geral acredita que o clube é, de uma forma ou de outra, algo que faça parte da vida dele.

Isso, por um lado, é ótimo. Mas tem um lado complicado. Primeiro que, financeiramente falando, vale mais a pena ter um estádio lotado de torcedores normais do que de sócios. Em geral, o programa de sócio se confunde com um pouco com um pacote de ingressos, ou seja, ou dá o ingresso de graça, ou dá o ingresso com desconto. Pelos números, vale mais a pena ter um estádio cheio de pessoas que paguem mais do que pessoas que paguem menos. Além disso, o sócio tem um custo de manutenção relativamente alto, no qual incide brindes, camisetas, eventos especiais, tecnologia e pessoal para ativação e manutenção de relacionamento, e assim por diante.

Ou seja, na ponta do lápis, se você consegue naturalmente ter um estádio lotado sempre, sócio não é uma coisa boa. Isso vale tanto aqui no Brasil quanto na China ou em qualquer outro lugar do mundo. Mas como isso é muito complicado, também valendo para qualquer localização geográfica que seja, o sócio é uma excelente maneira para fazer disso uma coisa mais freqüente.

Ter um estádio lotado de sócios é excelente, mas não é o ápice. O melhor é ter um estádio lotado sempre. O programa de sócios é uma ótima ferramenta para isso.

É o meio, e não o fim.

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É ruim mas é bom

O jogo de ontem, e eu escrevo essa coluna antes dele, foi uma lição para a Copa de 2014. Quer dizer, não o jogo em si, mas sim o palco da partida, o novo estádio Bezerrão.

Muita gente reclama do novo estádio. Afinal, foram gastos 50 milhões dos cofres públicos em um estádio para 20 mil pessoas, no meio do nada, para um time da 3ª divisão. Eu também reclamaria, principalmente se eu morasse no Distrito Federal.

Como esse não é o caso, eu posso também elogiar o estádio. Nem que seja em partes.

Ninguém é muito fã de estádios financiados pelo poder público, mas a verdade é que o poder público sempre financia o estádio, direta ou indiretamente, em qualquer lugar do mundo, seja nos Estados Unidos, França, Alemanha ou na Inglaterra. Considerando que ainda vivemos em um país em desenvolvimento, é ainda mais normal que um estádio seja construído pelo Estado, uma vez que ou é assim, ou não tem estádio. Ainda mais em uma região não pertencente ao eixo Sul-Sudeste.

Outra coisa que não dá pra reclamar muito é do valor. Tudo bem que com 50 milhões você faz um monte de coisa, mas o preço de 2,5 mil reais por lugar do novo estádio do Gama está possivelmente entre os mais baixos do mundo. Para se ter uma idéia, o Wembley custou algo em torno de 17 mil dólares por lugar, o que gira perto de 40 mil reais por cadeira. Logicamente que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, mas não dá pra dizer que o Bezerrão ficou muito caro, pelo menos não pelos parâmetros de um novo estádio. Ou pelo menos pelos parâmetros do que ele poderia de fato ter custado, e de qual seria o seu tamanho, se ele tivesse sido construído na década de 60 ou 70.

Até porque, com 20 mil lugares, ele é do tamanho certo para o futebol brasileiro. Aliás, o Bezerrão bem que poderia ser um modelo a ser adotado de estádio para a Copa. Os 20 mil lugares aliados ao baixo custo o tornam um modelo de certa forma sensato e sustentável para o país. Apenas 05 equipes da Primeira Divisão possuem média de público superior à capacidade do estádio. Não faz, portanto, sentido algum que o modelo ideal se torne os estádios de 40 mil pessoas, principalmente em locais com pouca tradição futebolística, como é o caso do Distrito Federal.

Tudo bem que meia dúzia de banheiras hidromassagem e mais uma piscina também com hidromassagem não são lá um exemplo de sustentabilidade, tampouco a localização e a arquitetura interna. O Bezerrão é novo, mas está longe de ser um estádio de primeira linha.

Mas sejamos sinceros. As chances de a iniciativa privada arcar com os maiores custos da Copa do Mundo é muito pequena e deve ficar restrita aos pólos econômicos mais desenvolvidos. A grande maioria dos estádios será pago pelo poder público. O Bezerrão, pelo menos, custou pouco.

Poderia ser pior.

Bem pior.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Perigo em vista

Caros amigos da Universidade do Fubebol,

Antes de mais nada devo ao menos uma explicação aos nossos leitores, tendo em vista minha ausência das últimas duas semanas. Como já havia anunciado, a EPFL (Associação Européia das Ligas de Futebol Profissional), onde atualmente atuo, esteve reunida em Assembléia Geral na última semana, o que demandou ao menos um mês de intenso trabalho em torno das questões a serem lá discutidas.

De fato, existe atualmente grande preocupação das ligas européias no desenvolvimento sustentável do futebol e na manutenção da integridade do jogo. Diversas são as frentes de discussão que permeiam o tema, incluindo a saúde financeira dos clubes, a atenção para as apostas ilegais, regras específicas para o investimento estrangeiro direto nos clubes, as interferências de terceiros nas transações de jogadores, a proteção contra a exploração de menores, etc. 

O futebol enfrenta atualmente um momento crítico, em que precisa definir qual é o melhor modelo de gestão de clubes e de competições tendo em vista a globalização e, mais recentemente, a crise econômica mundial. Com relação a esse último tema, felizmente, o futebol poderá ter menor impacto negativo do que outros setores da economia, como o imobiliário, por exemplo.

Um dos holofotes dessa discussão diz respeito à propriedade intelectual das ligas e clubes e a gravidade das respectivas ações ilegais de terceiros, como a chamada “pirataria online”.

Sabemos que a principal fonte de recursos dos clubes é proveniente dos seus direitos de imagem, especialmente “ao vivo”, que são comercializados com emissoras de televisão por valores historicamente crescentes (no Brasil, vide o atual acordo realizado entre Rede Globo e Clube dos 13). Esses recursos são indispensáveis aos clubes para que haja o reinvestimento em categorias de base, ações sociais, distribuição solidária entre clubes para desenvolivmento das ligas e manutenção do equilíbrio competitivo entre as equipes, etc.

O que o fenômeno da internet está propiciando, entretanto, é uma grande usurpação dos direitos de imagem das ligas e clubes por parte de sites que se organizam para oferecer transmissões online de imagens ao vivo ao público em geral, sem a devida autorização dos detentores dos respectivos direitos de imagem.

Por ora, a incidência é baixa no Brasil em comparação com a Europa. Mas a tendência é de crescimento mundial desta prática indesejável. Em grande escala, ela pode por em risco toda a forma de negócio atual dos clubes e ligas e estabelecer uma crise sem precedentes no nosso mercado.

Temos que batalhar por regras mais rígidas. Tanto por parte das autoridades públicas, como por parte dos reguladores do esporte. Todos têm que se unir contra esse mal.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Decifrando a Sul-Americana

A Copa Sul-Americana é o campeonato estadual da América do Sul. No começo, os times grandes que jogam reclamam que atrapalha o calendário. Conforme o tempo vai passando e as chances de conquista vão aumentando, ninguém abre mão.

Esse é o argumento que você deve usar quando estiver conversando no bar. Em uma conversa mais séria, você pode até mudar o glossário, mas a idéia continuará essencialmente a mesma. A verdade é que a Copa Sul-Americana é uma competição forçada, que se baseia nos mesmos princípios dos campeonatos estaduais.

As duas competições servem, essencialmente, para preencher calendário e agradar mercados menores. Os campeonatos estaduais são, essencialmente, competições com fins políticos, que servem para atender a uma enormidade de clubes pequenos, na maioria das vezes vindo de cidades pequenas, que enxergam na competição uma das grandes chances de trazer para seu campo clubes de maior expressão regional e nacional. Sem os campeonatos estaduais para ocupar o início do ano, muitos clubes perderiam a razão de existir. É para manter esse status limiar de sobrevivência que o campeonato estadual ganha tanto apoio. Pensando economicamente, ele está longe de se justificar. Contudo, entretanto, todavia, ele cumpre esse caráter político e, porque não, cultural, uma vez que ajuda a disseminar o esporte de alto rendimento fora dos grandes centros, além de ser um grande expositor de talento.

A Copa Sul-Americana, assim como os campeonatos estaduais, está longe de se justificar economicamente. Ela atende essencialmente clubes menores, que jamais conseguiriam participar de uma competição de maior expressão. Por favor, não remeta isso ao mercado brasileiro, mas sim aos mercados periféricos. Os clubes brasileiros, assim como os clubes argentinos, são as instituições que se sacrificam para conseguir compor o laboratório político. É em cima deles que a Copa Sul-Americana se molda para que equipes da Bolívia, Equador e Venezuela, para ficar restrito apenas ao eixo esquerdista-bolivariano da América do Sul, possam ter a chance de ocupar seu calendário anual com outros grandes confrontos além daqueles pertencentes à Libertadores no primeiro semestre.

Há quem defenda um modelo da Sul-Americana semelhante ao da Copa da Uefa. Seria um erro. A América do Sul, obviamente, não tem nem o potencial de mercado e muito menos a diversidade de clubes como a Europa. Uma Sul-Americana igual à Uefa seria ainda menos viável do que o modelo atual.

Nos campeonatos estaduais, os clubes grandes pagam o pato da falta de estrutura econômica do resto do estado em questão. Na Copa Sul-Americana, os maiores clubes do Brasil e da Argentina pagam o pato pela falta de desenvolvimento econômico do resto do continente.

E do jeito que as coisas vão no eixo bolivariano, ainda irão continuar a pagá-los por um bom tempo.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br