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A necessidade da polêmica

Palmeiras e Ponte Preta fizeram, em São Paulo, a mais chocha final de campeonatos estaduais pelo Brasil. Nada como o eletrizante Cruzeiro 5×0 Atlético-MG, ou como os emocionantes Flamengo 1×0 Botafogo e Juventude 1×0 Inter, na bacia das almas.
 
E a imprensa em São Paulo entrou no clima. Ficou chocha, não discutiu, não criou polêmica, não teve o que discutir diante de um jogo em que o Palmeiras foi bem na primeira etapa, sofrível na segunda e, mesmo assim, deixou claro o óbvio: será campeão estadual após 11 anos.
 
A polêmica não existiu, as mesas redondas não tiveram nenhum lance questionável na insossa partida para debater. O jogo não teve algo de diferente. Resultado: vamos falar dos outros Estaduais!!!!
 
Pois é: o domingão das mesas redondas ganhou um espaço para a depenada do Galo em Minas, para o cada vez mais polêmico Flamengo x Botafogo no Rio, até para o Ba-Vi na Bahia! Existe uma necessidade pela polêmica na imprensa esportiva que não há espaço para aquilo que é banal.
 
Ok, também somos assim quando estamos no nosso dia-a-dia. Prova disso foi o recente tremor de terra em cinco estados brasileiros. Quem sentiu o tremor sem dúvida contou em todos os detalhes o que viu, o que sentiu, o que pensou naquela hora.
 
É da mente humana querer fugir do que é o banal, do que é o dia-a-dia, do que é o cotidiano insosso. A imprensa age da mesma forma. Se Palmeiras e Santos (ou Corinthians) estivessem definindo o título paulista, mais uma vez os outros estaduais seriam ignorados pelas emissoras paulistas. Assim como, no Sul, as resenhas ficaram em cima da vitória no minuto derradeiro do Juventude. Ou, no Rio, só se discutiu a entrada decisiva de Obina no clássico.
 
Não tem como. A imprensa, assim como as pessoas, sente necessidade pela polêmica. E, num domingo em que não se teve polêmica no estado de São Paulo, o jeito foi buscar outros lugares para dar pano à discussão.
 
Ainda se o Valdívia tivesse levado o terceiro amarelo num lance discutível…

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Ah, os gols do Fantástico…

Última rodada de definições dos principais campeonatos Estaduais do país. Times grandes duelando contra alguns azarões. E, para variar, uma overdose de cobertura da imprensa em todo o país. O que poderia ser momento para a discussão de projetos e caminhos que o futebol têm tomado se transforma, invariavelmente, na antiga lenga-lenga que domina o noticiário esportivo desde os anos 50.
 
Término da rodada no Paulistão e, os principais canais por assinatura começam a uma massacrante cobertura das entrevistas coletivas após as partidas. Leão de um lado, Mano Menezes de outro, Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho acolá.
 
Muitas frases e poucos conteúdos. De quem responde e, em alguns casos, para não dizer na maioria, de quem pergunta, que não consegue fugir da obviedade.
 
“Leão, com o empate contra a Ponte Preta o Santos deu uma resposta aos críticos que diziam que o time reserva não conseguiria fazer frente ao adversário e atrapalharia o Corinthians?”
 
“Mano Menezes, o Santos acabou fazendo a parte dele. Talvez o Corinthians não tenha se preocupado demais com o resultado na Vila Belmiro que acabou esquecendo o que tinha de fazer em Bauru?”
 
“Muricy, agora é hora de pensar no confronto contra o Palmeiras. O resultado na fase de classificação serve de estímulo para a sua equipe provar que tem bola para ser campeã?”
 
“Luxemburgo, o mando de campo do jogo [das semifinais] é da Federação Paulista, que deverá fazer os dois jogos no Morumbi. Você acha que de fato é um estádio neutro?”
 
Invariavelmente essas foram as questões mais ouvidas e mais respondidas no início da noite do último domingo. No Rio Grande do Sul, o questionamento deve ter sido maior para a queda gremista diante do Juventude, com Celso Roth sendo pressionado pela “falha” no momento da decisão. Em Minas, os enfoques ficaram sobre o alívio cruzeirense de bater o Tupi e já evitar a semifinal contra o Galo, diferentemente do que ocorreu com Palmeiras e São Paulo.
 
O fato é que 30 minutos de televisão pós-jogo, atualmente, equivalem a uma sessão de tortura para quem espera alguma informação. São 30 minutos com aquele diz-que-diz improdutivo, com perguntas óbvias e respostas à altura.
 
E olha que hoje existem cinco canais por assinatura no país exclusivos de esporte!
 
Mais fácil era o tempo em que bastava ligar a TV na hora do Fantástico e esperar a narração do Léo Batista de todos os gols do Brasil, inclusive do quinto turno do returno do hexagonal decisivo triangular do Campeonato Pernambucano…
 

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Doença patológica

Uma coisa é reverenciar um possível futuro craque do futebol brasileiro, cada vez mais decisivo quando entra em campo e cada vez mais com cara de craque real, e não em potencial.
 
A outra é banalizar a informação.
 
Até agora, todas as estréias de Alexandre Pato foram memoráveis e dignas de nota. A começar em 2006, no Internacional, quando em seu primeiro toque na bola como profissional Pato colocou a redonda no fundo da rede palmeirense numa goleada vexatória do Inter sobre o Palmeiras. Para melhorar, em três jogos como atleta profissional, Pato já tinha no currículo um título mundial de clubes, feito que nenhum outro jogador alcançou na história.
 
Poucos meses depois, e Pato quebrou outro recorde. Foi para o Milan, em transação astronômica, para ficar apenas esperando completar 18 anos e poder, de fato, estrear pelo clube italiano. Antes, em amistoso, jogou e, para variar, marcou. Depois, para valer, entrou em campo e mais uma vez fez um gol na partida de estréia.
 
Na última quarta-feira, Pato seguiu a sina de estréias antológicas. Num lance de sorte e extrema competência, deu o ar da sua graça no sempre insosso amistoso entre Brasil e Suécia. Fez o gol da vitória no seu primeiro chute com a camisa brasileira. O único do jogo: tanto o chute, quanto o gol.
 
Pronto, era o que bastava!
 
Liderada por Galvão Bueno (!?!?), a imprensa começou a fazer um escarcéu de que a estréia de Pato na seleção era tão magnífica quanto os primeiros jogos de outros craques da nossa história, como Pelé, Zico, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Todos eles, no debute brasileiro, colocaram a bola na rede adversária.
 
Só que, para variar, a doença patológica contamina a maior parte da imprensa. O fenômeno Pato parece que turva a mente das pessoas. Ou pelo menos o bom senso delas.
 
Ok, Pato de fato parece cada vez mais fadado ao pleno sucesso ao longo da carreira recém-iniciada. Só que não dá para querer colocá-lo, em exigência e performance, no mesmo nível de excelência de consagrados jogadores do país.
 
Pato fez um gol pela seleção. O primeiro no seu primeiro jogo como profissional pelo time brasileiro. Mas não dá para jogar nas costas de Pato a responsabilidade de ser, para a equipe nacional, um atleta do calibre de Zico, Pelé e Rivaldo. Já exclui Ronaldinho Gaúcho da lista. Porque, até hoje, sua maior contribuição foi a conquista da Copa das Confederações, em 2005. Nada perto do que o cracaço de bola e tão ou mais reverenciado que Pato no início de carreira fez pelo Barcelona em 2006.
 
É preciso dar tempo para a maturação de Pato. Antes disso, é impossível credenciá-lo como um fenômeno da bola. Quem sabe a liderança brasileira na conquista dos Jogos Olímpicos, coisa que nenhum outro craque conseguiu, permita-nos dizer que Pato é divino.
 
Porque, até agora, ele fez apenas um gol em sua estréia pela seleção.
 
Coisa que, além de Pelé, Zico, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, também o fizeram Anderson Polga, Cristóvão, Donizete Pantera, Leandro Machado, Zé do Carmo…
 

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A mídia quer manter a história

“A mídia faz as pessoas se importarem, porque repete, repete, repete e repete a história. Fica batendo até a morte. A mídia quer manter a história”.
 
A frase acima é de Gay Talese, um dos maiores jornalistas da história dos Estados Unidos e do mundo. Nesta segunda-feira, Talese fala no jornal “Folha de São Paulo” sobre o escândalo sexual que derrubou o governador de Nova York. Ferrenho defensor do fim dos bordéis e das casas de prostituição, Eliot Spitzer foi desmascarado pela mídia e revelou-se um freqüentador assíduo de uma casa de prostituição comandada por uma brasileira.
 
Talese analisa, entre outras coisas, o comportamento da mídia em relação ao que era feito há 20 anos. Segundo ele, muita coisa mudou na imprensa. A começar pela noção do que é notícia. Quando questionado sobre o que via de notícia no caso de Spitzer, e se ele daria essa notícia, o jornalista saiu-se com essa.
 
“Não vou dizer que não publicaria, porque, se alguém mais publicar, você tem que publicar. Você não pode fingir que não viu, porque todo mundo sabe sobre isso, está na televisão, nos websites. Se você está no negócio de publicar jornais, tem que publicar o que é considerado notícia. É que hoje em dia tudo é notícia, o que não acontecia 30 anos atrás. É bom ou ruim? Eu não sei. O que acontece é que pelo menos força as pessoas a viverem em coerência com o que dizem”.
 
E o que isso tem a ver com o futebol?
 
Nada. E tudo. Assim como na vida dos políticos, o futebol é esmiuçado até o último final de cabelo pela mídia. O jogador foi ao banheiro, ele foi visto em suas férias numa clínica de repouso, ele foi visto fugindo da concentração, ele tossiu na cara do outro jogador com quem está brigado…
 
O futebol é hoje uma espécie de “Big Brother”. Não o personagem do livro “1984”, de George Orwell, mas o programa de TV. Todos querem dizer o que acontece com quem está envolvido no futebol. Ainda mais se esse alguém é conhecido do público em geral. O sucesso atrai, invariavelmente, a atenção e a overdose de cobertura da mídia.
 
Spitzer caiu nos Estados Unidos por pregar uma coisa e fazer outra na prática. No futebol, muitas vezes assistimos a carreiras destruídas exatamente por isso. A vida particular do atleta, teoricamente, não diz respeito a ninguém. Obviamente que lhe é permitido sair à noite, beber de vez em quando, sair com mulheres, homens e afins. O que não pode é o atleta ter seu rendimento em campo influenciado por causa do que é feito extra-campo.
 
É nesse momento que a mídia cairá matando, que fará de tudo para desmascarar aquele que não cumpre com o dever do bom ofício. Até lá, o atleta pode levar uma vida comum. Mas, se não o fizer, cairá no que prega Talese no início deste texto. A mídia bate na história até as pessoas se importarem com aquilo. E quando isso acontece, o caminho é irreversível.
 

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Muda o canal!

“O time não jogou bem”. “Não conseguimos fazer o que o treinador pediu”. “Faltou planejamento para a temporada”. “Cheguei para somar a uma grande equipe”. Se você acha que apenas o futebol brasileiro tem de conviver com esses jargões que falam tudo e não dizem nada, fique tranqüilo.
 
A praga das entrevistas evasivas não respeita nem mesmo os Estados Unidos, em que o desenvolvimento do esporte como negócio é tamanho que o país é tido como o exemplo a ser seguido no mundo todo.
 
Nos EUA, a gestão de carreira de atletas é tão evoluída a ponto de Hollywood usá-la como tema central em filmes. Mas, mesmo assim, quando a câmera acende e o microfone é ligado, tudo se parece tal como cá.
 
Estive na última semana numa viagem para Portland, cidade que abriga a sede da Nike, a toda-poderosa fabricante de material esportivo. Mais impressionante do que a enorme distância que separa o Brasil dessa cidade no estado de Oregon foi constatar a mesmice da cobertura esportiva na TV.
 
Sim, o astro do time de basquete diz o mesmo que o Finazzi depois do jogo do Corinthians. E o comentarista na TV fala as mesmas abobrinhas que o colega tupiniquim. O árbitro errou ou acertou, se aquela bola tivesse entrado, se no início da temporada o presidente do clube estivesse atento ao planejamento, se todos não fossem tão amadores…
 
Enfim, nada muda. A não ser a bola. Ela deixa de ser redonda e se torna oval.
 
Na semana do Superbowl, a superfinal do futebol americano, os jornais mal falam de outra coisa, a TV parece que não tem tempo de pensar em outro esporte…
 
E, tal como cá, a overdose de informação leva à bestificação coletiva. Nos EUA a mesa-redonda não é uma regra. Mas a fórmula “apresentador-comentarista”, tão decantada pela ESPN aqui no Brasil, parece ser a via de regra na terra do Tio Sam. Nem mesmo o calhamaço de estatísticas sobre atletas consegue fazer a discussão mais interessante.
 
Antes do Superbowl, a dúvida em todo o território americano era sobre Tom Brady. Será que o bonitão craque do New England Patriots e namorado da Gisele Bündchen, não necessariamente nessa ordem, estaria apto para disputar a decisão contra o surpreendente Giants e assegurar a inédita conquista invicta?
 
De fato ninguém sabia, mas todos se deliciavam em comentar sobre isso. Aliás, gostavam tanto que a decisão foi a mesma de todos os domingos à noite: desligar a televisão.
 

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Política de resultados

No fim do ano, pouco tempo depois de Adriano ter sido confirmado como reforço estrelar do São Paulo, os jornais de São Paulo estamparam em suas manchetes mais uma polêmica em que o jogador havia se metido, após sofrer um acidente de carro no Rio de Janeiro.
 
Em linhas gerais, todos diziam a mesma coisa. Adriano já começa o ano aprontando. São Paulo já vive primeira crise com Adriano. Polêmica volta a rondar a vida de Adriano.
 
Na última semana, após pouco mais de uma semana de trabalho, Adriano finalmente estreou com a camisa 10 tricolor. Contra o Guaratinguetá, fez os dois gols da magra vitória de virada do São Paulo. No dia seguinte, a capa não poderia ser outra:
 
“O Imperador está de volta!”.
 
Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno.
 
Adriano fez uma boa estréia, mas nada que surpreendesse. Da mesma forma que Alex Mineiro estreou no Palmeiras com dois gols contra o Sertãozinho. Assim como o Corinthians venceu bem o Guarani. Resultados e desempenhos absolutamente dentro do normal e que de maneira alguma podem revelar uma tendência do jogador ou do time para a temporada.
 
Afinal, Adriano e Alex Mineiro tiveram atuações medianas contra Rio Preto e Santos, respectivamente, e o Corinthians perdeu para o São Caetano no ABC.
 
Ou seja, nada de novo. Até mesmo no comportamento da imprensa, que a cada dia que passa se revela passional e dependente do resultado dentro das quatro linhas, tal qual o torcedor da arquibancada.
 
É impressionante como o jogador não pode ter oscilações na visão tacanha da cobertura jornalística. E o pior é que o fenômeno (não o Ronaldo, muito menos o bom Alexandre Pato) é mundial, vide o que os jornais da Itália mandaram de repórteres para Guaratinguetá!
 
O trabalho de Adriano no São Paulo é impossível de ser avaliado. Não existe, em nenhuma profissão, um empregado que em uma semana de trabalho já tenha obrigação de dar plenos resultados. O cara teve um bom começo, mas isso não significa que ele seja a solução daquela empresa.
 
Imagine se dentro das redações o ambiente de exigência fosse o mesmo do que os jornalistas impõem aos atletas, treinadores e dirigentes dentro das quatro linhas. Ia ter estagiário virando chefe numa semana e editor sendo demitido a cada erro produzido ou atraso na entrega do material…
 
A política de resultados da imprensa atrapalha o futebol. É ela quem faz o dirigente mal preparado ceder à tentação das análises emotivas e botar tudo a perder numa contratação, demissão, decisão, etc. Ou a imprensa mostra frieza e capacidade analítica no que faz, ou continuaremos a ter heróis e vilões a cada rodada, sem sair da superfície.

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Negócios na imprensa

“Mengão no G-4”; “Flamengo encosta”; “Libertadores próxima”. Essas foram as manchetes dos jornais do Rio de Janeiro na quinta-feira que sucedeu a vitória de virada do Flamengo sobre o Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro. Em São Paulo, a manchete era um pouco diferente: “Pentacampeão”! A referência, é claro, fazia jus à conquista do quinto título nacional pelo São Paulo obtida no dia anterior.
No Maracanã, na vitória flamenguista, o torcedor carioca só queria saber da conquista do terceiro lugar na tabela de classificação. No Morumbi, o são-paulino festeja a óbvia vitória e a bonita conquista de mais um título.
Nas emissoras de televisão, porém, o dilema foi grande. Flamengo e Corinthians duelavam no Maracanã, enquanto o São Paulo conquistava o título. De um lado, as duas maiores torcidas do país e os times responsáveis pelos maiores índices de audiência. Do outro, o desfecho do campeonato.
Na impossibilidade de conciliar as duas transmissões, a Globo, detentora dos direitos de exibir o campeonato, optou por exibir o Flamengo x Corinthians para todo o Brasil. A conquista da taça ficou em segundo plano, mas não foi esquecida.
O atraso providencial de 10 minutos para ter início o jogo do São Paulo fez com que, terminado o jogo das massas, a festa do título pudesse ser exibida em tempo real para todo o país.
Durante qualquer papo de botequim entre torcedores, a discussão sobre a imparcialidade da imprensa é levantada. Qual jornal defende qual time? Qual emissora protege determinado clube? A resposta, quase sempre, é a mesma, dependendo do lugar em que se está: Corinthians em São Paulo. Flamengo no Rio.
A rodada decisiva do Campeonato Brasileiro evidenciou o “racha” que existe na imprensa. Não de agir com o coração e ser imparcial, mas no dilema que existe entre o interesse comercial da empresa e o valor jornalístico de um acontecimento.
O São Paulo campeão é a principal notícia da rodada. Mas nem mesmo a vitória são-paulina vende tanto quanto um Flamengo embalado ou um Corinthians ameaçado pelo rebaixamento. Sem dúvida que, jornalisticamente, o título é o mais importante. Mas, para as vendas, é melhor falar do Flamengo, ou então mostrar o Corinthians em sua delicada luta para não ser rebaixado.
Cada vez mais o negócio interfere no futebol. Não só no que se refere às atitudes dos profissionais dos clubes e que circundam o esporte. Mas também na imprensa. Com o desenvolvimento do negócio esportivo, o futebol se torna um produto de entretenimento muito mais do que um produto jornalístico.
E, na dúvida entre o que mais vende ou o que é mais notícia, a empresa jornalística vai, paradoxalmente, escolher o que gera mais receita. E, no botequim, a discussão ainda demorará muito mais do que as cinco horas propostas por Paulo Coelho…

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A importância do esporte na TV

Nos últimos anos, a Band deixou de ser o “Canal do Esporte”. Após quase duas décadas de tardes de domingo que começavam em Rui Chapéu e acabavam no Apito Final, de tardes intermináveis para as mulheres e memoráveis para os homens, a emissora paulista havia decidido deixar vincular tanto a sua imagem ao esporte.
 
A estratégia era clara. Apostar na mulher, quase sempre desamparada ou, pior, estigmatizada pelos diferentes canais de televisão. A Band decidiu falar para a mulher ao mesmo tempo em que surgiu a Rede TV!, ao mesmo tempo em que a Record decidiu partir para ser a segunda no ranking de audiência.
 
Mas, nessa época, não foi só o esporte que deixou a Band. De 2000, quando exibiu a conquista do Mundial da Fifa pelo Corinthians, a 2004, a Band engatou um maré brava de audiência. De terceira, às vezes segunda emissora do país, ela caiu para o quarto lugar, ultrapassada pela Record. Para piorar, no ano seguinte, começou a ser deixada para trás pela imberbe Rede TV!.
 
O declínio parecia não ter fim. A Record, com Campeonato Brasileiro das Séries A e B e com as Copas do Brasil e Sul-Americana, aliados a programas cada vez com mais qualidade, consolidou-se em terceiro e começou a rivalizar com o SBT pelo segundo lugar na medição do Ibope. A RedeTV!, com Liga dos Campeões e Série B, aliados a Pânico, Leitura Dinâmica e Luciana Gimenez (?!?!?!), começou a se consolidar em quarto lugar.
 
E a Band?
 
Foi em 2005 que a retomada começou. Campeonatos Inglês e Italiano e a Liga dos Campeões da Europa. Com eles, o telespectador voltou a pensar na Band como alternativa para assistir esporte. Com a voz de Luciano do Valle no comando das transmissões, o público passou, ainda meio nostálgico, a voltar para a Band, que chegava a dar 12, às vezes até 16 pontos de audiência na competição entre clubes da Europa.

Em 2006, com a ginástica, a Band conseguiu números expressivos no Ibope, graças à febre Daiane dos Santos. Veio 2007 e, com ele, a volta dos campeonatos nacionais à tela da Band. Além deles, mundiais sub-17 e sub-20, e agora a Copa do Mundo feminina.
 
Resultado: a Band já começa a querer se consolidar em terceiro lugar na audiência, desbancando o SBT! E outros programas da emissora, como Jornal da Band, reprise da Família Dinossauro e Datena (?!?!?!?!), começam a se consolidar no horário, chegando até a beirar o segundo lugar no Ibope.
 
Até quando o SBT vai manter o esporte fora da sua grade?

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O bom senso no jornalismo

O Palmeiras protagonizou no último dia 7 de setembro uma das melhores ações de marketing no ano, no evento de lançamento do terceiro uniforme do time de futebol. Uma foto posada do time com 1.500 pessoas, entre torcedores e convidados, em plena cadeira numerada descoberta do Palestra Itália, selou uma interessante estratégia de promoção da nova camisa.
 
Mais do que a “oportunidade única”, jargão que virou dogma no marketing esportivo, o fato curioso do evento acabou sendo uma batalha entre os torcedores e a imprensa que cobria o evento.
 
Com o sol na capital paulista a pino e a temperatura beirando os 30°C, o torcedor teve paciência de esperar os seus ídolos para tirar a foto durante mais de três horas. O evento estava programado para começar às 10h30, mas os atletas só chegariam às 13h para o registro da imagem.
 
Enquanto o tempo passava, os torcedores se distraiam com o que podia. O problema, porém, foi quando o time entrou em campo para uma foto oficial. Os repórteres, que mal haviam chegado ao estádio, se amontoaram após o registro e começaram a fazer perguntas aos principais astros do time.
 
Obviamente, Edmundo foi o mais requisitado. Enquanto todo o time já havia descido aos vestiários e se dirigia à numerada para a foto oficial, o “Animal” continuava a dar entrevistas, a falar sobre novo uniforme, renovação de contrato, chance de título, de classificação à Libertadores, etc.
 
Foi nesse momento que a paciência do torcedor se esgotou. O atraso de uma hora para a foto ser tirada foi canalizado na atuação dos jornalistas naqueles quase 15 minutos em que Edmundo ficou “preso” dando entrevistas à imprensa.
 
Foi a gota d’água para os impropérios começarem. Sobrou até mesmo para quem não tinha nada a ver com a história, que foi o animador da platéia durante o evento. Edmundo, em ótima jogada de marketing, foi solicito com os jornalistas até o momento em que percebeu que toda a tensão do estádio estava voltada a ele. Saiu da entrevista correndo, acenando aos torcedores, que deliravam e gritavam por seu ídolo.
 
Jogo de cena à parte, o profissional de imprensa muitas vezes não percebe que o bom senso poderia ajudá-lo, e muito, no exercício de seu trabalho. A imagem de um jornalista fiel a seus princípios, que não vê hora para a notícia acontecer, que perturba quem quer que seja e quando ele quiser, que sempre vê espaço para mais uma pergunta já virou lenda.
 
No passado, os filmes americanos adoravam mostrar uma imagem caricata do jornalista como uma espécie de pessoa de outro planeta. A essência pode até ser essa, de alguém que é curioso em excesso, que não vê entrave para uma pergunta que derrube o entrevistado, que está muito bem informado de tudo o que acontece.
 
Mas a boa educação e, principalmente, o bom senso, não precisam deixar de existir.

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Na torcida

Com o término dos Jogos Pan-Americanos, o esporte brasileiro começa, aos poucos, a voltar à ordem natural de suas coisas. Sem a overdose de cobertura da mídia a todas as modalidades, regressamos ao período em que o futebol domina as ações.
 
Mas o excesso de cobertura de futebol na TV nos revela, a cada outro evento esportivo, como o Pan e, principalmente, os Jogos Olímpicos, um problema crônico na narração esportiva brasileira.
 
É cada vez mais nítida a dificuldade que o país tem em produzir narradores técnicos, que conhecem uma modalidade a fundo além do futebol.
 
Em 15 dias de Pan, o que se viu, ou ouviu, nas telas e dials país afora foi muito mais uma “torcida” pelo Brasil em vez da narração de uma competição. Narradores afônicos com a maratona aquática, indignados com a decisão dos árbitros no judô, eufóricos com os saltos que valem o ouro no Pan, mas nem o bronze em Olimpíadas e Mundiais, de Maurren, Jadel e Fabiana Murer.
 
Tivemos de tudo um pouco no Rio. Mas o que faltou, de fato, foi o jornalismo.
 
Em busca da medalha dourada, nossos narradores se especializaram em falar coisas que não fazem sentido, em achar culpados e explicações para o inexplicável. Jade se esborrachou no chão durante a apresentação nas barras. Era nítido que o ouro havia escapado entre os dedos, literalmente. Mesmo assim, em todas as emissoras, a impressão que se tinha era de que ainda havia esperança.
 
O único momento em que tal “ufanismo” não aconteceu foi no futebol masculino, quando, aos 40 do segundo tempo, o time brasileiro sofreu o quarto gol do Equador e ficou claro que a equipe seria eliminada da competição.
 
Não seria isso a prova de que, no Brasil, o narrador só não é um torcedor quando o assunto é futebol?

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