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Não dê bola à bola

Todo início de campeonato é a mesma história. Volta das férias, o jogador ainda tentando se readaptar ao ritmo acordar, treinar, almoçar, treinar. Do outro lado, a imprensa segue algo mais ou menos parecido. Uma volta à rotina de treinos, de entrevistas pós-atividade, de matéria muito mais fácil do que no tenebroso período das férias.

E é exatamente nessa hora que nós percebemos o quanto os jornalistas não se preparam para entrevistar os jogadores nesse período de ressaca do pós-férias e do pré-temporada. Quando a bola rola, o noticiário é pautado pelo resultado dentro de campo. Mas, antes disso, as perguntas sempre giram em torno dos mesmos assuntos.

“Como é chegar ao novo clube?”; “Qual a expectativa de jogar com o fulaninho?”; e a fatídica “O que você achou da nova bola?”.

Oras, quem dá bola para a nova bola?

Sinceramente essa é a pergunta que sempre é feita antes do início da temporada. Antes, com os estaduais no primeiro semestre e o Brasileirão no segundo, o questionamento era feito duas vezes ao ano. Mas, atualmente, a bola no Nacional rola na semana seguinte às decisões estaduais, e com isso a pergunta sobre a bola é esquecida.

Mas qual a utilidade de saber se o jogador gostou da nova bola?

Sinceramente, quando era criança, até achava que essa opinião fazia diferença. Depois, porém, comecei a achar que bola é bola, o que importa é que ela exista. Seja uma lata de refrigerante amassada ou uma redonda de couro, o que precisamos fazer é chutá-la. Ok, no nível profissional até que pode ter diferença, mas realmente não dá para confiar em quem responde as suas impressões sobre a nova bola.

O primeiro argumento lógico é o seguinte: o cara está voltando de férias, ainda pegando o ritmo e não se acostumou com chutar (ou defender) a redonda. É, mais ou menos, como o aluno que volta à aula numa sala nova. Ele sempre vai dizer que preferia a antiga.

Mas vamos pensar também sob a ótica do marketing nessa resposta. No caso do Campeonato Paulista, por exemplo, a bola é fabricada pela Topper. No futebol, a empresa patrocina três jogadores: Jorge Wagner, do São Paulo, Ibson, do Flamengo, e recentemente fechou com Marcos, do Palmeiras.

Todos os outros atletas ou tem contrato com alguma outra marca, ou estão em busca de um. Conclusão: como ele ficaria dando bola para a bola de um fabricante concorrente daquele que o ajuda a pagar as contas no final do mês? Ou para quê o atleta falaria bem da bola da Topper se a marca não o patrocina?

A falta de assunto de volta de temporada sempre gera uma tola discussão sobre a bola do campeonato. E todos que reclamam depois entram em campo e fazem gols ou defesas espetaculares. E qual é a da bola numa hora dessas?

O melhor é parar de dar tanta bola para a bola e deixá-la rolar em paz…

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Balanço do ano

Mais um ano vai-se embora. Corrido, passageiro, com muitas novidades, outro sem-número de polêmicas, mas, sobretudo, com muitos exemplos de como é tênue a linha que separa o bom comportamento da imprensa da exploração banal da notícia.

O ano de 2008 teve alguns episódios marcantes que revelam a efemeridade da conduta dos jornalistas, especialmente quando o assunto é algo tão passional e dinâmico quanto o futebol.

Talvez o personagem do ano seja Ronaldo. Em junho, o Fenômeno foi manchete de todos os jornais após o escândalo em que se envolveu com a travesti Andréa Albertini. Acabado, humilhado, um astro em decadência. O antigo camisa 9 da seleção foi duramente criticado e, mais do que isso, colocado no rol dos craques-problemas, daqueles que não tem mais solução.

Mas aí veio dezembro. E a contratação do Ronaldo pelo Corinthians recolocou-o nos céus. Em época de crise, nada como uma notícia bombástica para desviar o foco da imprensa e reacender no corintiano o desejo de ver o time vitorioso no regresso à Série A do Brasileirão. E Ronaldo, como num passe de mágica, voltou a ser gênio, voltou a ser aquele rapaz acostumado a cair no fundo do poço e se reerguer.

Foi assim também com Muricy Ramalho. Execrado após mais uma derrota na Copa Libertadores, o treinador ficou na corda-bamba. O São Paulo foi nocauteado, e os abutres da informação já previam um 2009 com Muricy em outro clube e com um Tricolor tentando se reerguer depois da hegemonia do bicampeonato nacional.

Mas aí veio dezembro. E a conquista do hexacampeonato brasileiro elevou Muricy ao topo, a ponto de ter como indiscutível a sua presença na seleção. Afinal, só ele ganhou três nacionais na seqüência e pelo mesmo time. Só Muricy acreditava no título tricolor. Só Muricy era ranzinza porque precisava ser. Só Muricy sabia como ser campeão. Só Muricy…

Ou, ainda, com o Internacional de Porto Alegre. Que foi apontado por todos como o grande fiasco do ano antes mesmo de ele acabar. Afinal, com investimento em nomes do calibre de Daniel Carvalho e D’Alessandro, era impossível algum outro time ir bem no Campeonato Brasileiro além do Colorado. Indefinições, jogadores lesionados, falta de entrosamento. Tudo contribuiu para o Inter ser um figurante de luxo no Brasileirão.

Mas… Claro. Aí veio dezembro. E o Inter foi o primeiro time do país a ser campeão da Copa Sul-Americana. Torneio que não valia nada até o ano passado, mas que depois de ter um vencedor do Brasil, passou milagrosamente a ser uma competição importante na visão tacanha da imprensa. E Tite, de motivador sem tática, passou a ser o artífice da vitória colorada, fazendo do Inter o “campeão de tudo”, como brincaram seus torcedores e se esbaldaram os profissionais de imprensa pelo Brasil afora. Simplesmente um luxo!

Por falar em luxo, quem viu a vida trocada neste ano foi Luxa, ou Vanderlei Luxemburgo. Um começo de ano provando que ele vale os R$ 500 mil por mês que são pagos. Palmeiras campeão paulista depois de 12 anos. Time dos sonhos com o dinheiro injetado pela Traffic, clube projetando a modernização do estádio, time líder do Brasileirão após quatro anos.

Mas… Aí veio a TV Globo, que convidou Luxemburgo para comentar um jogo de futebol. Até aí esse era o menor dos problemas, se não fosse um mero detalhe: a partida era do próprio Palmeiras, pela Copa Sul-Americana, então desprezada pelo time após perceber o óbvio, que o elenco era fraco demais para disputar em boas condições duas competições simultâneas.

E Luxa foi para a telinha, ao mesmo tempo em que, pelo rádio, instruía o auxiliar Nei, que lá da Argentina tentava dar rumo para um time que perdia o seu rumo exatamente naquele momento. E Luxemburgo viu não só o Palmeiras perder, mas sua pose de “melhor do Brasil” começar a ser contestada. Não pela imprensa, que não condenou o imponderável. Mas pela torcida e, principalmente, pelos próprios jogadores do clube.

O Palmeiras desandou e não foi campeão nacional, mas no final das contas conseguiu a vaga na Libertadores graças ao fracasso de outro treinador que foi do céu ao inferno pelo segundo ano seguido: Caio Júnior, comandante que não soube comandar o Flamengo na reta decisiva do Brasileirão para assegurar uma vaga na competição sul-americana.

E temos outros incontáveis exemplos de céu e inferno neste ano que chega ao fim. E por que isso acontece? Para variar, o resultado pauta o noticiário esportivo. E, dessa forma, quem trabalha na área acaba na gangorra da opinião pública. Tão volátil quanto o placar de um jogo.

Que o novo ano traga um pouco de lucidez para a imprensa e paute os jornalistas para buscar a profundidade nas análises, deixando o resultado do jogo para mostrar que o esporte é tão legal por ser extremamente imponderável. O São Paulo e o piloto Lewis Hamilton que o digam.

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Em busca do motivo

A definição cada vez mais próxima do Campeonato Brasileiro pode representar um divisor de águas para o jornalismo esportivo no país. Mais do que desejo de um sonhador, a arrancada decisiva e definitiva do São Paulo, a persistência do Grêmio, a inconstância do Cruzeiro, a empolgação do Flamengo e o desalinho do Palmeiras mostram para o jornalista que o futebol hoje é algo muito diferente daquilo que ele acreditava há questão de cinco anos.

Quando a imprensa bradava a “europeização” do principal campeonato do país, o fazia em busca de alguma coisa que não entendia direito o que era. Calendário racional, mais dinheiro, estádios mais bonitos, platéias lotadas, craques em campo… No fundo, no fundo, a idéia era de que, ao ter um campeonato em pontos corridos, sem fórmulas malucas e com continuidade, teríamos um futebol brasileiro endinheirado e emocionante.

Agora, na sexta edição do Brasileirão por pontos corridos, corremos o grande risco de ter tido três deles com o mesmo campeão, algo inédito na história do país que se gaba ser o “do futebol”. E, numa típica mania brasileira, iremos perguntar em dezembro: “A culpa é de quem?”.

Por que temos sempre de tentar achar um “culpado” para quando acontece algo que não prevíamos ou, então, que não queríamos que acontecesse? E por que o Brasileirão por pontos corridos não é tão legal quanto parecia ser?

Pode ser porque continuamos a exportar nosso pé-de-obra, porque não melhoramos as condições em nossos estádios, ou então porque insistimos em tratar o torcedor como gado, e não como o mais precioso dos consumidores (é bem da verdade que muitos clubes já “descobriram” que a fórmula mágica é essa, e não a maneira como se disputa a competição).

Mas a verdade é que a aparente falta de “diversidade” que o Brasileirão por pontos corridos promove nada mais é do que a essência de sua fórmula. O mais preparado vence, não fica a mercê da oscilação nervosa de uma final, de um mata-mata.

Pergunte a quem joga qual modelo é melhor. A incerteza de uma decisão ou a constância dos pontos corridos? Ou, ainda, pergunte a quem gerencia um clube. É melhor não saber até quando o time tem de atuar ou é preferível saber todas as datas em que a equipe entrará em campo com mais de um ano de antecedência?

Os pontos corridos mudaram o conceito de muita gente no futebol. Falta a imprensa deixar de ter a mente tão tacanha, igual àquela que fez os pontos corridos serem obrigação para a CBF. O fato é que se aproxima uma mudança de conceito na cabeça da imprensa brasileira. E ela, necessariamente, passa pela arrancada são-paulina. Coroando um trabalho de continuidade, de manutenção de fórmulas que deram certo, de reposição de peças que não funcionam, de manutenção daquelas que fazem a engrenagem andar.

É hora de a imprensa olhar um pouco além do mero resultado. Não buscar o culpado, mas o motivo. Só assim as coisas evoluirão.

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Estresse coletivo

A cada dia que passa fica cada vez mais a certeza de que, o que era para ser uma grande sacada do futebol como negócio, se transformou no maior vilão da bola neste século XXI. A tal entrevista coletiva pós-jogo é uma das coisas que mais atrapalham e irritam o bom andamento do noticiário esportivo e, também, do dia-a-dia de um clube.

Que o digam Muricy Ramalho, Dunga, Renato Gaúcho, Wanderley Luxemburgo e tantos outros treinadores, carismáticos ou não, que estão atualmente saturados com um modelo adotado no futebol pelos ingleses em meados dos anos 1990.

A entrevista coletiva serve para “livrar” o treinador e os jogadores do calor do jogo. Sim, é muito mais seguro você ter uma entrevista coletiva realizada cerca de uma hora após uma partida do que ali, ainda à beira do campo, irritado ou emocionado pelo resultado.

Quando os ingleses decidiram adotar o padrão de entrevistas coletivas, a idéia era facilitar o trabalho da imprensa e, ao mesmo tempo, reduzir o risco de algo der errado numa entrevista mais acalorada ainda no gramado. Da mesma forma, a coletiva permite agilizar a saída do time para casa após o jogo, uma vez que a imprensa só tem aquela oportunidade para entrevistar os protagonistas da partida.

Mas, num fenômeno mundial, a entrevista coletiva caiu num grande vazio, que destrói o bom jornalismo e altera os ânimos de seus interlocutores. Ainda mais quando o time perde e, à exceção de Muricy Ramalho, quase todo treinador coloca a culpa no árbitro.

Hoje, a coletiva virou também sinônimo para uma enxurrada de repetição de perguntas e respostas com palavras diferentes (ou não!!!) para cada uma delas. “Por que o time perdeu?” e “O time perdeu por que os desfalques fizeram falta” são, necessariamente, a mesma indagação feita com palavras diferentes.

Para piorar, a popularização da TV a cabo, aliada ao fenômeno dos programas pós-jogo, destroçou de vez com qualquer tipo de “glamour” que o futebol tinha no imaginário popular. Hoje é tão banal ouvir os treinadores após uma partida que a opinião deles (e dos comentaristas, claro!) caiu na mesmice.

Atualmente é obrigação um técnico dar entrevista coletiva após o jogo. Os jogadores ainda conseguem se esquivar, mas o treinador nunca pode deixar passar. Isso valoriza a imagem de super-poderosa que é atribuída à classe, mas ao mesmo tempo revela o estado de tensão em que hoje se encontra o relacionamento entre imprensa e clube de futebol.

Nem mesmo quando foi pentacampeão brasileiro Muricy Ramalho aliviou de tom com os jornalistas. Da mesma forma, a cada triunfo ou a cada derrota na seleção, Dunga distribui farpas bem ao seu estilo de quando era jogador.

E isso acontece pela tensão que uma entrevista coletiva carrega em si. Entre os entrevistados está o peso da derrota, a felicidade da vitória ou mesmo a encheção de sempre dizer a mesma coisa. Do lado de quem pergunta, está a ânsia em ser o primeiro, a necessidade em mostrar conhecimento, o desejo de fazer sua pergunta ser “repercutida”.

E o conteúdo, nessas e outras, entra no vazio, fazendo com que aquilo que era para ser uma grande idéia para facilitar o trabalho de todos e tornar a comunicação eficiente se transforme numa fonte constante de gerenciamento de crise.

Entrevista coletiva, hoje, é sinal de estresse coletivo. E a informação que vá para o lixo…

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Showman

“Vai ganhar, vai perder. Vai ganhar, vai perder. Vai ganhar, vai perder. Perdeu… Ganhou!!!!”. Foi dessa forma que mais da metade da população brasileira ouviu a narração da sétima medalha de ouro do americano Michael Phelps no “fantástico” Cubo D’Água, como ficou batizado o complexo aquático dos Jogos Olímpicos de Pequim.

O autor da pérola, misto de torcida com (des) informação, não poderia ser outro além de Galvão Bueno. O narrador principal da Globo já se tornou figurinha carimbada em algumas competições na China, não estranhamente sempre aquelas em que vão “ficar para a história das Olimpíadas”, como sempre faz questão de frisar.

A maneira como se comporta nas transmissões faz de Galvão uma espécie de ser eterno dentro do gênero de narração esportiva no Brasil. Por aqui, a técnica é o de menos. Mais importante do que alguém que tenha propriedade no assunto, é preciso uma pessoa que coloque emoção na garganta, que faça do “vai ganhar, vai perder” um estilo.

Dependendo da modalidade esportiva abordada, não restam dúvidas de que esse tipo de narração é adequado. Num jogo de futebol, por exemplo, em que a esmagadora maioria da população está acostumada a acompanhar, cabem aos telespectadores e aos comentaristas repararem nos detalhes técnicos. Tanto que o estilo “fulano passa para cicrano” não dá mais para engolir durante o rolar da bola. Muito mais divertido é o “manda o bambu daí” de Silvio Luiz.

Mas quando chegam as Olimpíadas, vemos uma nova realidade na transmissão esportiva brasileira. Afinal, com tanta modalidade em disputa, as emissoras têm de chamar toda a sua equipe para poder participar da transmissão. E aí o que vemos é uma salada de frutas de gêneros de narração.

Galvão entra na lista dos “imortais”, juntamente com Luciano do Valle e Silvio Luiz. Ícones da antiga escola da narração, os três inspiraram muitos que hoje estão por aí, mas que tentam fugir daquele estilo que virou grife. Afinal, não dá para imaginar alguém falando “pelo amor dos meus filhinhos” numa transmissão que não seja Silvio Luiz. Da mesma forma, comemorar uma medalha com um “ééééééééééééé… do Brasil” só pode ser privilégio de Galvão.

Com isso, em tempos olímpicos (e com TV a cabo, é claro) começamos a observar que esse antigo gênero de narração começa a virar espécie em extinção na TV brasileira. O “showman” acabou. Ou melhor, está próximo de acabar, quando se aposentar essa trinca de “monstros sagrados” do esporte brasileiro na televisão.

Nos outros canais, nas outras vozes, a emoção dá lugar à tecnicidade. Nada contra, pelo contrário, é uma evolução do conhecimento de quem transmite o esporte para nós. Mas com quem vamos nos irritar ou emocionar até chorar? A técnica exagerada faz do esporte algo sem a mesma emoção que tem.

Cléber Machado não consegue (e nem quer) ser Galvão Bueno. Tem muito mais conhecimento técnico. Sabe que quando um jogo está 3 a 0 para o adversário, o torcedor sabe que a chance de o Brasil virar é muito menor. Com isso, a vontade de narrar um ataque brasileiro é infinitamente inferior. E isso faz, muitas vezes, sua transmissão ser mais “pasteurizada”.

É preciso esperar para ver se o torcedor brasileiro estará acostumado a esse estilo mais sóbrio de narração. Se ele quiser um “showman”, não encontrará tão rápido alguém nessa nova geração. Sorte que essa trinca pode ter ainda mais umas duas ou três Copas do Mundo na bagagem.

Mas daqui a uns dez anos o “knowman” vai ocupar o espaço da transmissão esportiva. Será que isso representará o início de uma era mais preocupada com o conhecimento no esporte?

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Monocultura

A realização dos Jogos Olímpicos em Pequim reforça a monocultura esportiva brasileira. Não, o problema não é o país penar para figurar nas finais de algumas modalidades, ou então suar para se colocar alguns segundos atrás dos melhores do mundo. A maior dificuldade para o torcedor numa edição de Olimpíada é conhecer o esporte que está na tela.

Com a cultura do futebol impregnada na transmissão esportiva, entender uma “nova” modalidade é cada vez mais complicado para o torcedor que quer apenas sentir a vibração que é a realização das Olimpíadas.

O ufanismo aflora em cada disputa brasileira e, para piorar, deflagra o despreparo que o país tem em tratar de qualquer esporte como objeto da informação. Até mesmo do futebol!

Sim, porque durante Brasil x Coréia do Norte, no futebol feminino, todas as emissoras que exibiram a partida só se “esqueceram” de lembrar que o time norte-coreano era o mesmo que foi campeão mundial sub-20 em 2006. E daí o 2 a 1 ter sido encarado como uma vitória “magra”.

E o que fazer quando saímos do campo e vamos para as águas? Tudo bem, o mundo inteiro sabe que o Michael Phelps é um absurdo. Só que parece que isso não é levado em conta quando Thiago Pereira cai na mesma piscina que o americano…

Da mesma forma que as competições do judô, em que muitas vezes nos pegamos torcendo tão bem quanto quem está narrando as partidas.

O fato é que, a cada quatro anos, fica ainda mais claro que o país não tem uma cultura esportiva. Desde pequenos não somos ensinados a entender todos os esportes, a estudar regras e maneiras de praticar, a conhecer movimentos, estilos, performances.

Isso tudo fez do Brasil o “país do futebol”, mas que até mesmo quando trata desse assunto vê a imprensa cometer exageros e realizar análises superficiais, muitas vezes deturpadas por uma falta de conhecimento técnico do assunto.

Nas Olimpíadas, não ter ex-atleta como comentarista é uma espécie de heresia para os veículos de comunicação. Afinal, parece que quando o assunto é outra modalidade além do futebol, torna-se obrigatória a presença de um “especialista”.

Enquanto isso, numa partida de tênis, só falta o narrador, depois de gritar “pra foooora” num erro do tenista, se esbaldar no grito de “goooool” quando a bola estufar a rede!

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Falta de estudo

Na última década, o futebol brasileiro assistiu à consolidação da presença da assessoria de imprensa no dia-a-dia de um clube. Até o final dos anos 90, o torcedor estava acostumado a ver qualquer jogador do time dando entrevista após um treino, falando como quisesse, para quem lhe conviesse.

Aí vieram os grandes investimentos, as contratações a peso de ouro e a europeização do relacionamento jornalista-atleta. Foi quase na virada do milênio que começamos a ver os primeiros “assessores” de imprensa nos clubes. Preocupados com a informação e, principalmente, com a maneira como a informação ia de jogadores e treinadores para os veículos de imprensa. 

Os primeiros anos desse relacionamento foram turbulentos. Brigas, jogadores e treinadores brigando com jornalistas mais “abusados”, assessores ganhando a fama de vilões. Agora, porém, o equilíbrio na relação parece que começa a ser atingido. E o problema é que, com isso, entramos na era do emburrecimento da cobertura do futebol.

Assessoria de imprensa começa a significar para o jornalista ter todo tipo de informação à mão, sem precisar de esforço, sem ter de se preocupar em correr atrás da notícia. É só reparar. Portugal, até hoje, é para mim o exemplo mais claro dessa pasteurização da informação. 

O país tem quatro grandes veículos dedicados exclusivamente ao esporte. E é praticamente raro você ler qualquer notícia diferente num dos quatro. O jornalismo sempre se baseia nas declarações pós-treino. Como sempre são os mesmos jogadores a falar para toda a imprensa, a situação não muda muito de figura de um jornal para outro.

No Brasil, ainda temos muito a cultura de buscar uma notícia exclusiva, de tentar encontrar algo diferente dentro da mesmice que é um treino. Mas geralmente isso só acontece quando se fala de todo o clube, e não especificamente de um único atleta. Por quê?

Porque a preocupação de estudar um jogador não está no dia-a-dia de um jornalista. Ele quer esmiuçar tudo do clube, mas não do atleta. E aí é que vemos o quanto a falta de estudo ajuda para a pasteurização da cobertura.

Nas próximas semanas veremos jogadores chegando e voltando da Europa, com a janela de transferências para o exterior em franca atividade. E, com isso, atletas que já foram ídolos em um determinado clube desembarcarão agora numa agremiação rival. 

Em vez de lembrar o passado desse jogador e procurar, dentro dessa história, alguma coisa diferente para destacar, o jornalista vai esperar a apresentação do atleta para então, baseado nas suas respostas, produzir o noticiário que irá ao público. 

“Fulano diz que não comemorará gol contra ex-clube”

“Cicrano diz que respeita ex-clube, mas celebrará o gol”

Sim, ainda veremos, nos próximos dias, algumas manchetes edificantes como os dois exemplos acima. Por incrível que pareça, aquela frase despretensiosa dita por Edmundo no ano 2000 virou hit para quando um novo atleta é apresentado após passagem num grande rival.

Romário e Edmundo foram bons protagonistas de histórias assim. Marcelinho Carioca, toda vez que joga contra o Corinthians, tem de passar por semelhante périplo. Da mesma forma que Tinga teve de se explicar bastante depois de ter sido campeão da Copa do Brasil pelo Grêmio e ganhar a América no Inter. 

Falta estudo sobre o jogador para não cair na mesmice de sempre. Falta vontade ao jornalista de não pensar no trabalho apenas no período em que está dentro da redação. E falta mais vontade ainda de “driblar” a assessoria, não se contentando com a informação que esta lhe manda. 

Do contrário, o jornalismo esportivo no Brasil caminha para a mesma pasteurização de Portugal.

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O peso da notícia

Sempre fui contra a mania, criada pelos ingleses e rapidamente adotada pela Fifa, de sonegar imagens de vandalismo nos jogos de futebol. Desde a década de 90 que os britânicos não mostram pela televisão torcedores invadindo o campo, violência entre torcidas, etc.

 

Onde fica o jornalismo nessa história? Até que ponto é correto, para quem está em casa, não saber que o jogo está paralisado por uma invasão ao gramado? Ou, ainda, que ninguém consiga entender porque os jogadores estão mais preocupados com o que se passa na arquibancada do que com a bola?

 

Afinal, na final do Mundial de Clubes de 2005, o mundo inteiro mostrou as fotos do torcedor corintiano que invadiu o campo de um dos jogos do São Paulo e entregou a Rogério Ceni um bicho de pelúcia do personagem bambi. Menos quem estava em casa, acompanhando ao vivo a partida, conseguiu ver a provocação.

 

Nas últimas semanas, porém, finalmente consegui entender o motivo de tamanha precaução dos ingleses.

 

Desde o início do ano que o Brasil tem acompanhado uma série de notícias sobre pessoas que resolvem andar com seus carros pela contramão de uma estrada ou avenida muito movimentada. Não lembro ao certo o número, mas lembro de ter lido pelo menos umas seis notícias diferentes com o mesmo enredo.

 

Recentemente, foi a vez de o relato da fuga das amigas adolescentes em direção a Buenos Aires ganhar os jornais. Mesmo com o caso resolvido, poucos dias depois mais um adolescente sumiu com a idéia de desbravar algum lugar distante.

 

E como fica o papel do jornalista nessa história? É correto divulgar a notícia? Sem dúvida que é. Mas será que é válido publicar a matéria e, indiretamente, encorajar outros a tomarem o mesmo tipo de atitude?

 

É isso que os ingleses decidiram abolir, em nome do futebol-espetáculo. Mostrar ao mundo um jogo limpo, sem invasões de campo, sem duelos entre torcedores, com o foco apenas na qualidade do espetáculo, na festa da torcida, no grito de gol do craque.

 

Por mais que exista razão jornalística, o peso da notícia deve ser considerado. Afinal, antes de ser jornalista, a pessoa é um ser humano. Deve estar sempre consciente do que é fato jornalístico e do que deve ser também um ato cidadão.


E o futebol com isso? O crescimento da modalidade como negócio passa pela profissionalização da exposição do esporte. E, entre uma bela jogada ou uma pisada de bola da torcida, não há dúvida do que é melhor para o negócio…

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Estado de choque 2

Recentemente abordamos neste espaço o escandaloso tema que foi o vexame, ocorrido no Recife, do confronto entre policiais e jogadores do Botafogo após a trapalhada de André Luís. O caso parece ter levantado uma batalha que ultrapassa os limites da racionalidade e, finalmente, começa a gerar na imprensa o debate do papel do jornalista no esporte.

Desde o caos no Recife, uma batalha se espalhou pelos especialistas da imprensa. O ápice dessa disputa veio mais uma vez do You Tube, com o vídeo cada vez mais famoso em que Luciano do Valle desabafa contra colegas de emissora e dá uma banana para o bom senso cobrando, exatamente, racionalidade daqueles que trabalham com ele.

Luciano está acima do bem e do mal para muita gente. E o que ele fez foi colocar o dedo na ferida que, a cada dia, abre mais na entranha do jornalismo esportivo. Qual o senso de responsabilidade de quem empunha microfones ou dedilha as teclas de um computador?

É cada vez mais um senso comum entre os coleguinhas que falta um parâmetro para nortear o trabalho dos profissionais da imprensa esportiva. Ainda temos muitos ex-atletas no cargo que poderia ser ocupado tranqüilamente por um jornalista. E muitas vezes jornalistas que descumprem o juramento feito quando da sua formatura na faculdade.

O fato é que, finalmente, começa a ganhar corpo o debate para que seja criado um código de boa conduta (para não dizer um código de ética, mesmo) no jornalismo esportivo. Será que é possível usar o microfone para dizer sentenças definitivas sobre determinado tema sem que se tenha o mínimo de responsabilidade sobre aquilo que se fala?

Pode um profissional da imprensa esportiva falar o que quer e não ser punido por dizer o que não deve? Será que nunca vamos ter um termômetro para medir o impacto de uma declaração de uma pessoa numa emissora de TV, num jornal, na internet, na rádio, no bar da esquina no comportamento do torcedor?

Certamente não existe fórmula fechada sobre o exercício do jornalismo. Cabe ao jornalista seguir o seu parâmetro ético para nortear seu trabalho. Mas começa a ser cada vez mais evidente que, do jeito que está, não dá para ficar. O jornalismo tem cedido espaço ao achismo e, com isso, reforçado todos os preconceitos, de todos os lados.

O estado de choque em que ficou o futebol no jogo André Luís x Polícia de Recife não pode, sinceramente, voltar a chocar o país quando algo de mais grave acontecer em decorrência de insultos proferidos por pessoas irresponsáveis com sua profissão.

Ou começamos a pensar duas vezes antes de falar, ou veremos o profissional de imprensa não ter mais o direito de ter voz para falar. E aí o estado de choque vira estado de sítio.

PS: Pretendia abordar nesta segunda os reflexos de Paraguai x Brasil na cobertura da imprensa e no futuro de Dunga no time nacional. Até pelo fato de estar no Paraguai trabalhando no jogo pelo Bandsports. Mas o blecaute brasileiro deixa o céu de Dunga completo de nuvens. Só que, como Dunga é Dunga, a sorte é bem capaz de soprar a seu favor na quarta-feira. E o Brasil, de quarto colocado, salte para segundo. Impossível não é. Ainda mais tendo um rival que gosta de deixar o Brasil jogar como é a Argentina. E aí, para variar, a bola vai calar a crítica. E os problemas vão continuar…

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Um novo discurso

“Não adianta. Vamos ficar aqui até amanhã procurando uma explicação e ela não existe. Nós perdemos porque é o futebol”…
 
Foi assim que um “nocauteado” Muricy Ramalho começou a responder à entrevista coletiva após a emocionante vitória do Fluminense sobre o São Paulo pela Libertadores. Derrota sem explicação, assim como a vitória é daquelas justificáveis apenas pela enorme força de vontade do time e, claro, pelo “Sobrenatural de Almeida”, o personagem criado por Nelson Rodrigues para explicar o inexplicável.
 
Mesmo assim, Muricy ficou cerca de 40 minutos respondendo a uma sabatina de perguntas, quase sempre chegando às mesmas respostas. Sem andar um passo à frente, sem questionar o planejamento do time para a temporada, sem ter o que falar ante um resultado simplesmente típico do futebol.
 
Mas o ritual foi cumprido. A imprensa martelando na tentativa de encontrar um culpado. Muricy com cara de cansaço físico e mental respondendo da mesma maneira desconexa e desinteressada às questões.
 
Na sala ao lado, a mesma coisa. A imprensa em busca de uma história diferente dentro da entrevista para exaltar o brilhantismo do Fluminense. Renato Gaúcho, embriagado pela euforia de uma das mais lindas vitórias da história do Tricolor carioca, falando coisas desconexas.
 
No dia seguinte, em Santos, a história repetida, mas com um enredo um pouco diferente. Nem bem terminou o jogo e o time santista correu aos microfones para dizer que a eliminação para o América era culpa do árbitro da primeira partida, que havia mal anulado um gol no minuto final da partida.
 
E a imprensa? Bem, era preciso dar corda para essa história…
 
Os jornalistas necessitam de vitoriosos e vencidos, de mocinhos e bandidos, de culpados e inocentes. É assim desde o início do jornalismo, quando os primeiros “repórteres” eram pessoas que defendiam um ponto de vista e produziam as notícias conforme esse interesse.
 
Hoje, com o desenvolvimento dos meios de comunicação e do acesso às informações, o noticiário deixou de ser tão tendencioso. Mas a essência é a mesma. A imprensa precisa de uma história diferente para se sentir satisfeita. E, para isso, nada melhor do que uma decisão.
 
A emoção de um duelo como foi Fluminense x São Paulo é mais do que suficiente para que saiamos da mesmice. Do choro de Washington ao momento de reflexão no meio de campo de Renato, tudo é notícia. Mas e quando temos a derrota?
 
Aí o discurso é o mesmo. E os meios para obtê-los, idem. Uma saraivada de perguntas até a tentativa de um deslize, de uma declaração polêmica. Afinal, é daí que a notícia aparece, daquilo que sai da mesmice.
 
Mas para sair da mesmice, infelizmente, a imprensa segue o mesmo roteiro. E se, na coletiva de imprensa com Muricy, um jornalista ousasse perguntar a ele como faria para motivar o time a entrar de novo em campo no domingo? E se não ficassem apenas questionando sobre Adriano e a sua possível permanência mesmo com a saída da Libertadores?
 
Um novo discurso levaria provavelmente a uma nova notícia. Mas será que a imprensa está preparada para isso?

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