Categorias
Sem categoria

O ídolo e a mídia

Estádio Palestra Itália, São Paulo, por volta das 20h45 de domingo, dia 21 de setembro. Fazia cerca de meia hora que o Palmeiras, naquele mesmo estádio, havia derrotado o Vasco por 2 a 0, colocando-se a um ponto da liderança do Campeonato Brasileiro. Com o gramado ainda iluminado, cerca de mil torcedores ainda se aglomeravam num lado da arquibancada.

Animado, o grupo começou a cantar: “Ô, ô, ô, ô! Libera o Marcão!”

O grito, acompanhado do bumbo da torcida organizada, tinha um endereço certo. O goleiro Marcos, que havia acabado de completar o jogo de número 400 com a camisa do clube paulista. Cerca de cinco minutos depois (e de insistentes gritos, alguns outros não tão simpáticos endereçado à imprensa), Marcos foi à beira do jardim suspenso palestrino e atirou a camisa para os torcedores, em mais uma mostra de simpatia e sintonia com a torcida.

O gesto do goleiro e hoje capitão do time palmeirense mostra bem o quanto um ídolo é importante para um clube e, também, para a mídia que vive do esporte.

Marcos ficou cerca de meia hora após o jogo concedendo entrevistas para repórteres dos principais veículos de mídia TV e rádio do país. Ele ainda teria de descer ao vestiário, tomar banho e, depois, dar mais entrevistas para outros jornalistas da imprensa escrita.

E esse “périplo” do santo palmeirense não era inédito, nem motivado pelo fato de que Marcão havia completado 400 jogos no time alviverde. Toda partida do Palmeiras no Palestra Itália tem essa rotina. Após o apito final, lá está Marcos conversando com os jornalistas, à espera do pedido de “alvará de soltura” dos torcedores, para então começar a descer os vestiários e voltar a dar entrevista para a imprensa.

Marcos é ícone, ídolo, referência. Num clube em que a maioria dos jogadores não tem nem três anos de casa, um atleta que há 12 anos fez sua estréia no time principal e participou das mais importantes conquistas da história do clube tem de ser naturalmente o porta-voz da instituição.

O comportamento da imprensa esportiva na cobertura do cotidiano é pautado pelo ídolo. Aquele cara que consegue atrair a atenção dos torcedores, que consegue ditar o ritmo das pessoas, é aquele que concentrará mais de 60% (em alguns casos, dependendo da fase do time e do atleta, 95%) das atenções da imprensa nos treinos e jogos.

A situação descrita acima é, com algumas modificações no enredo, repetida na maioria dos campos do país, com os mais diferentes jogadores. No mesmo Palestra Itália, ontem, Edmundo foi o último atleta a deixar o campo pelo time do Vasco. Assim como, no Morumbi, é Rogério Ceni quem fica até mais tarde para dar entrevista. Ou, no Mineirão, Marques explica vitórias e derrotas do Atlético Mineiro.

Sem um ponto de referência, torcida e imprensa não sabem como se comportar. Relatos de jogos sempre são feitos em cima de heróis. Seja ele eterno, como Marcos, ou passageiro, como o salvador do time naquela partida recém-encerrada.

Por isso que o futebol brasileiro, para resgatar seu prestígio em todas as esferas, do campeonato nacional à seleção, precisa se preocupar em formar mais ídolos. Eles movem a imprensa, que por sua vez contribui, ao reproduzir os feitos desse ícone, para que a paixão da torcida se transforme em consumo, gerando muito dinheiro e mais chances de formar novos craques. Sem isso, qualquer esporte está fadado a cair no esquecimento. Alguém lembra de outro ídolo no basquete masculino brasileiro depois de Oscar?

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Caótico, mas tranqüilo

Eis que agora quem patrocina o Manchester United são os Estados Unidos da América, literalmente.

Anteriormente, a influência estadunidense na equipe era privada, restrita a um investidor como dono e uma companhia como patrocinadora. Agora, porém, com a crise que assolou o mundo e particularmente a AIG, a patrocinadora do clube inglês, as coisas mudaram. Afinal, quem manda na AIG agora é o governo dos Estados Unidos da América. O nome por trás do patrocínio de uma das mais importantes equipes de futebol do planeta é ninguém menos do que George W. Bush, himself. Curioso, não?

Fica mais curioso se você considerar que o primeiro jogo pós Bush será contra o Chelsea, o símbolo de ostentação russa. De um lado, os EUA e sua mega-seguradora estatal. De outro, a Rússia e seus bilhões. Manchester United contra Chelsea será praticamente uma encenação daquilo que seria a Guerra entre EUA e Rússia, não tivesse ela sido fria. Obviamente que as distorções precisam ser relevadas. De um lado um comandante brasileiro. Do outro escocês. Os principais jogadores são portugueses, sul-americanos e africanos. De russo e de americano no campo, nada.

O contrato de patrocínio da AIG com o Manchester United prevê o pagamento de uns 190 milhões de reais ao longo de quatro anos. A princípio, o caos financeiro instaurado pelos irmãos Lehman e a pseudo-estatização da AIG não devem influenciar nesse pagamento. Até porque é um dinheiro que o Manchester United decididamente não pode abrir mão, principalmente com a recém aquisição dos seus vizinhos pelos petroleiros árabes. As declarações, por enquanto, são de calma e segurança. Mas com o mercado do jeito que está, vai saber. A grana da AIG responde por apenas uns 10% do faturamento anual do clube. Entretanto, a perda do montante pode colocar o clube em uma situação delicada. Ainda mais porque boa parte do dinheiro que permitiu a aquisição do Manchester pela família Glazer veio a partir de crédito bancário, cujas taxas também estão no olho do furacão desses últimos dias.

Mas não há razões para preocupação. Afinal, a segurança da torcida do Manchester United depende apenas do George W. Bush. O que pode sair errado?

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

O deus Dunga

Se o resultado de Chile x Brasil tivesse sido outro que não os 3 a 0 para o time de Dunga, o título desta coluna precisaria substituir apenas o “o” pelo “a”. Sim, porque, para variar, a imprensa brasileira que já previa o adeus de Dunga antes da partida deu mostras de que, agora, o técnico do time nacional está mais próximo do Olimpo.

A bronca do presidente Lula durante a semana serviu, mais uma vez, para que os jogadores dessem garantias de manchetes à imprensa e ao mesmo tempo encontrassem a motivação perdida para mostrar pelo menos um pouco de vontade de defender a seleção. Com isso, obviamente, a vitória veio fácil, fácil, como há muito não se via.

Até mesmo a frustração de Ronaldinho Gaúcho de ser substituído por um lateral (!) quando o time tinha um jogador a menos será agora explorada como sinal de que a seleção voltou a ser uma Seleção, com S maiúsculo!

O problema existe desde que a imprensa começou a cobrir o futebol. A interferência dos jornalistas sobre a seleção brasileira nunca foi a exceção, mas a regra que ditava o bom rumo do time brasileiro. Que o diga a Copa de 1958, quando Paulo Machado de Carvalho usou um colegiado de profissionais da imprensa para ajudá-lo no comando do time campeão do mundo.

Só que, nos dias de hoje, a cobrança exercida sobre o treinador da seleção chega a ser fora do comum. Escalação, convocação, não-convocação, convicção. Tudo é motivo para crítica. Dunga perdeu pontos com o “fiasco” olímpico. Não se questionou que, com uma seleção remendada e sem treinamento, ele conseguiu levar o time ao pódio olímpico, mais ou menos como Klinsmann fez com a Alemanha na Copa de 2006 (e que credenciou Dunga a assumir o Brasil).

O trabalho do jornalista é pautado pelo resultado. E só. Nesta segunda e até quarta-feira, os colegas que estarão enfurnados na Granja Comary para os treinos até o jogo contra a Bolívia só vão perguntar o que Dunga fará com o trio que deu a vitória sobre o Chile: Diego, Robinho e Luis Fabiano.

E, daqui a pouco, o processo de canonização virá. Com direito a discussão se não é hora de barrar medalhões como Kaká do time, já que a palavra do “capitão do tetra” terá mais peso do que qualquer histórico recente na seleção.

Nesta semana ninguém mais vai questionar a seca de gols que existia, a falha em Pequim, ou as broncas do presidente Lula. Do adeus próximo, Dunga vira deus. Até a próxima rodada complicada que terá pela frente… Sorte a dele, pelo menos, que o furacão de enfrentar o Paraguai fora, a Argentina em casa e depois as Olimpíadas já passou.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Marca forte

Um dos principais fatores para o fortalecimento da marca de um clube é, necessariamente, os ídolos que por ele passam. Jogadores que marcam a sua história no futebol e que reforçam momentos vitoriosos do clube são aqueles que, invariavelmente, elevam o nome da instituição onde quer que vão.

No último final de semana, a cidade de East Midlans, na Inglaterra, recebeu a abertura da Superleague Formula, competição entre carros que representam clubes de futebol. Foi o início do que pode se chamar de grande sacada esportiva, numa mistura de duas paixões mundiais: carro e futebol.

Mas do que adianta fazer uma corrida de carros de futebol se o que é mais precioso na história de um clube, que são os ídolos, não estiverem presentes. Foi assim que pensou o Milan, que faz parte da Superleague e que hoje é um dos mais avançados clubes em termos de marketing.

Em meio ao paddock, sala de imprensa e área VIP do autódromo de Donington, circulava entre as pessoas Franco Baresi. Sim, aquele zagueiro, que fez o Milan aposentar a sua camisa de número 6, aquele que Romário classificou como o jogador mais difícil que enfrentou durante toda a carreira.

Baresi estava lá, curtindo a prova, conversando com os jornalistas, sendo solícito aos pedidos para tirar fotos e dar entrevistas. Baresi cumpriu sua função como embaixador do Milan. Ajudou a reforçar a marca do clube na estréia milanista no automobilismo. E, também, ampliou a cobertura da mídia para o início da Superleague.

Por essas e outras que o futebol da Europa, cada vez mais, se assimila às ações de marketing das grandes ligas esportivas americanas. Em busca da massificação de um esporte, o Milan levou para a Inglaterra um dos jogadores que mais representa a história de seu clube. Foi o único, entre os 17 que participam da competição, a ter uma idéia parecida.

O Flamengo, em peso, esteve em Donington. Marcio Braga e Ricardo Hinrichsen, respectivamente presidente e vice-presidente de marketing. E Zico, Junior ou qualquer outro bom representante do clube Rubro-Negro?

O sucesso da estréia de uma nova modalidade que reúna clubes de futebol passa, necessariamente, pela exploração comercial das fortes marcas que são os clubes. Do contrário, será mais uma boa idéia jogada no lixo…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Morrendo pela boca

Renato Gaúcho assumiu publicamente a bronca de ser, como treinador de futebol, o mesmo cara polêmico e irreverente que era como jogador. Comprou a briga com toda a imprensa ao dizer que o Fluminense faria quantos gols fossem necessários para ser campeão da Libertadores.

O problema é que seus comandados fizeram apenas o necessário para levar o jogo para os pênaltis. Aí…

Renato morreu pela boca. Falou tanto antes que, ao final, só restou mesmo dizer que havia sido “nocauteado”. A derrota, em pleno Maracanã, após um primeiro tempo arrasador, um início de segundo muito bom e mais 60 minutos (entre o jogo estar 3 a 1 e encerrar a prorrogação) de pernas cansadas, revelou que técnico não é jogador.

Dos ex-grandes jogadores da história e bons técnicos do presente, Renato se mostra ser um deles. Por mais que se reclame das entrevistas com óculos escuros, do estilo marrento de ser, das polêmicas declarações, Renato mostra cada vez mais que sabe comandar uma equipe.

Mas agora, por falar demais, Renato começa a ser bombardeado pela opinião pública. Enquanto o Flu ia bem, dar entrevista de óculos escuros era “estilo”. Se o time ganhava tal qual ele prometia, era “carisma”. E Renato já começava a ter o nome ventilado para a Copa de 2014!!!!

Agora tudo mudou. Renato é infantil, não sabe separar o gramado da área técnica, ainda pensa que pode falar como quando era jogador, etc.

Mais uma vez a imprensa mostra que trabalha com o resultado. Sem o título, Renato se transformou em vilão. Seu estilo, até então elogiado, passou a ser visto como precipitado, fanfarrão, fora do padrão para um treinador de ponta.

Renato Gaúcho é excelente treinador. Teve ótimos resultados com Vasco e Fluminense, levou um desacreditado Tricolor do Rio ao vice-campeonato da Libertadores. Mostrou que sabe trabalhar tanto com um time mediano, como era o Vasco de dois anos atrás, quanto com uma equipe estrelar, como foi o Flu destes dois últimos anos.

Mas agora, infelizmente, a batata começou a assar. Corretamente o Flu priorizou a conquista continental para então começar a pensar no Campeonato Brasileiro. Renato já disse que colocará o time entre os quatro primeiros. Mas, até agora, ele é o primeiro dos últimos.

O estilo Renato é de continuar a falar que é possível. Mas precisa ver se a imprensa está madura o suficiente para ver o discurso como uma forma de motivar os atletas e tirar o foco de outras eventuais picuinhas que podem surgir. Se não, ninguém garante Renato até o final da temporada…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Paixão, não!

Hoje é Dia dos Namorados, como você deve bem saber. Afinal, são inúmeras mensagens te avisando sobre isso, sejam elas sendo emitidas pelas lojas, pelos shopping centers, pelas empresas de telefonia móvel ou pela sua mãe que não pára de te ligar falando que ta mais do que na hora de ela ter uma nora, ou um genro, de verdade.
 
E o que faz o Dia dos Namorados ter importância para esta coluna em questão e, mais especificamente, para o futebol? Aliás, o que é que o namoro tem a ver com o futebol?
 
A resposta é até meio óbvia. Ambos, dizem, são movidos pela paixão. É a paixão que serve como o combustível principal de uma relação amorosa, principalmente na sua fase mais frágil e irresponsável, o caso do namoro. Quando a paixão acaba, o namoro se esfacela. Afinal, ainda não vieram os filhos, as pensões e as divisões de bens, então não há muito com o que se preocupar quando a relação é rompida.
 
No futebol, dizem que o combustível essencial da relação entre o clube e o seu torcedor também é a paixão. É ela que faz com que os torcedores cometam loucuras pelo seu time, que chorem, que gritem, que esperneiem e que comprem produtos, seja lá quais esses forem.
 
Toda vez que alguém fala sobre alguma coisa de anormal no futebol, o discurso de justificativa tende a ser “Ah… Isso é a paixão do futebol…”. Aí, quando um clube vai trabalhar o seu público, dizem que ele precisa saber explorar a paixão do torcedor, que ele precisa conseguir capitalizar esse sentimento tão nobre.
 
O problema é que a referida paixão é só uma nomenclatura que simplifica diversos outros laços entre o torcedor e o clube de futebol. Ninguém é apaixonado por uma equipe. A paixão verdadeira, o sentimento amoroso desencadeado por reações químicas, inexiste na relação clube-torcida. O que há, de fato, são outras tantas variáveis psico-sociais que fazem a intermediação do processo. Estudos sérios enumeram diversas, que passam por sentimentos de identidade, de idolatria e de cultura familiar. A paixão não é citada em momento algum.
 
Enquanto clubes e torcidas acreditarem que a relação se resume à paixão apenas, os clubes terão dificuldades em ativar o seu público e seus torcedores não terão suas reais necessidades supridas.
 
Nenhuma relação entre clube e torcida deve ter sua sustentação baseada na paixão. Aliás, nem um namoro deve funcionar dessa forma.
Portanto, compre um presente.

Para interagir com o autor: oliver@cidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Crise mal resolvida

O espaço deveria ter sido usado hoje para falar das incontestáveis conquistas estaduais pelo país afora. Incontestáveis tanto quanto os 8 a 1 do Inter sobre o Juventude, expurgando a eterna “pedra no sapato” do time colorado, naquela que deve ter sido a maior vantagem em decisões desde que o futebol é jogado (pelo menos não consigo puxar na memória outro placar tão dilatado assim). Ou falar da festa do bi do Flamengo, do gosto inédito de campeão do Itumbiara, ou ainda do fim do jejum de 11 anos palmeirense, com a sua nova versão da Parmalat.
 
Mas neste espaço o combinado é tentar trazer o tema da comunicação no futebol. E, nesse assunto, a notícia da semana foi ele, Ronaldo. Não pelos gols em profusão, não por mais um processo de recuperação de lesão, não por mais uma bela namorada que apresenta.
 
Ronaldo causou o maior estrago em sua imagem na segunda-feira passada, quando teve de ir para a delegacia após se envolver numa “festinha” com três travestis da Avenida Sernambetiba, no Rio de Janeiro. O Fenômeno acusa um travesti de extorsão. Do outro lado, o travesti acusa Ronaldo de calote, além de dizer que o jogador havia pedido para que um deles fosse comprar cocaína.
 
Agora, é velha história da palavra de um contra o outro. Na Justiça. A balança deve pender para o pentacampeão do mundo. Para o público e, especialmente, seus patrocinadores, o que pesou foi o silêncio de Ronaldo.
 
Desde segunda, o jogador não foi a público se pronunciar sobre o caso. Uma lacônica nota divulgada por sua assessoria de imprensa na terça-feira, um dia após o caso ser revelado, não falava diretamente sobre o caso e, o que é pior, não trazia nenhuma declaração de Ronaldo sobre o tema.
 
Na quinta-feira, feriadão do dia 1º, nova nota da assessoria de imprensa, com uma frase de Fabiano Farah, empresário de Ronaldo. Nela, o agente dizia que Ronaldo não perderia seus patrocinadores por conta da confusão, afirmando que o atleta não havia feito nada de ilegal em toda a história.
 
A nota, porém, chegou tarde. Na quarta-feira o jornal O Dia, do Rio, já trazia notícia dizendo que a Nike poderia romper o acordo avaliado em quase US$ 100 milhões anuais por atitude incompatível com a reputação da marca. A resposta de Ronaldo e seu staff, mais uma vez, veio com um dia de atraso.
 
No sábado, o colunista Ancelmo Góis, de O Globo, publicou nota dizendo que a TIM já havia desistido de patrocinar o atleta, para quem paga US$ 8 milhões ao ano.
 
E Ronaldo só foi dar as caras no domingo, em entrevista exclusiva ao Fantástico. Lá, confirmou que esteve com os travestis, disse que não é disso, mas que tinha tido uma crise no relacionamento e que vai ter de “reconstruir a casa devastada pelo furacão”.
 
Em vez de dar a cara para bater numa coletiva de imprensa, em que as mais diferentes perguntas poderiam ser feitas a ele, Ronaldo escolheu o conforto de uma entrevista exclusiva previamente combinada, em que pudesse ajustar a casa sem desajustar a compostura com perguntas indesejadas.
 
Ronaldo diz que não gosta de abrir sua vida particular para as pessoas. O que ele tem de entender é que sua imagem é pública, e que é praticamente obrigatório que ele tenha a vida aberta à população, que não quer saber apenas dos sorrisos na hora dos gols.
 
O gerenciamento da crise envolvendo o Fenômeno foi péssimo. Nunca houve pró-atividade de Ronaldo e seu staff na prestação do serviço aos fãs do jogador. As respostas sempre foram reativas, após mais alguma bomba estourar. Só depois de uma semana que Ronaldo deu a cara a tapa, e ainda assim numa insossa entrevista exclusiva, em que geralmente o jornalista não ataca o seu entrevistado.
 
Não é apenas por seu talento que Ronaldo conquistou tudo o que tem na vida hoje. O carinho da torcida por ele é parte de seu sucesso. Rivaldo, outro craque de bola, mas sem empatia com o torcedor, que o diga da diferença comercial que é ser um ídolo da torcida ou “apenas” um craque de bola. Ronaldo deve entender que, por mais que queira, sua vida é interesse da vida das pessoas.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

A conquista da derrota

O que você ganha com o futebol?
 
O que o futebol oferece para você?
 
Por que você paga para ter acesso ao futebol?
 
Ninguém sabe muito bem. Nem você, se bobear. E essas questões são fundamentais para uma perfeita compreensão do mercado. Afinal, qualquer mercado é estabelecido na inter-relação entre oferta e demanda. Agora, qual é a oferta e qual é a demanda do futebol?
 
Uma análise rápida, e talvez superficial, sugere que as pessoas pagam para ver o time ganhar um jogo. É para isso que elas gastam dinheiro e é isso que elas esperam poder consumir, uma vez que a vitória oferece sensações ímpares de satisfação e superioridade. Dessa forma, é possível entender o futebol como uma aposta: você investe na possibilidade de se sentir bem. Entretanto, o retorno não é garantido e depende de infinitas variáveis, tal qual uma aposta qualquer. E quanto mais dinheiro você gasta com um clube, maiores são as chances de ele conquistar a vitória, uma vez que com mais dinheiro disponível o clube consegue ter maior controle sobre as variáveis incidentes no resultado de um jogo. Portanto, quanto mais grana você gasta com o seu clube, maiores são as chances de você obter o que deseja, tal qual – novamente – uma aposta.
 
Mas como o público de um clube de futebol é muito grande, o seu dinheiro acaba significando muito pouco, logo o ideal é que você consiga angariar um número cada vez maior de torcedores, para que esses também possam gastar (e gerar) dinheiro, o que eventualmente também aumentará as suas possibilidades de obter o resultado desejado pelo dinheiro aplicado. Nesse caso, a torcida acaba virando uma grande aposta coletiva com fomento de base.
 
Entretanto, quando um apostador percebe que o dinheiro da sua aposta não incrementa as suas chances de ganhar, ele naturalmente deixa de apostar. Logo, quando um clube não consegue converter o capital proveniente da sua torcida em resultado em campo, ele está fadado ao fracasso.
 
Isso, porém, não é necessariamente verdade. Clubes conseguem sobreviver por um bom tempo mesmo sem apresentar resultado em campo, o que sugere que a idéia de que a torcida paga para ver o time ganhar não é necessariamente verdade. Muita gente tem estudado bastante sobre o que leva as pessoas a consumir futebol. Ainda não conseguiram chegar a uma resposta definitiva. Mas é certo que, no jogo, a vitória paga a aposta. Mas, aparentemente, a derrota paga também.

Para interagir como autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

A inteligência no futebol

Durante anos propagou-se no país a máxima de que todo jogador de futebol era burro. Independentemente da idade, time, local de nascimento, o fato era que o atleta não estava preparado para falar às câmeras da TV ou aos microfones da rádio. Ao longo do tempo, colecionaram-se exemplos verídicos dessa “ignorância coletiva” do futebol.
 
Hoje continuam-se os exemplos, turbinados por You Tube e similares, de escorregadas e trapalhadas de craques da bola e pernas-de-pau do microfone. Mas é cada vez mais claro que a falta de inteligência não pode mais ser atribuída a toda classe futebolística.
 
Falar na TV ou no rádio não é fácil. Quem já teve a experiência sabe disso. Dar uma entrevista, sem saber a pergunta que virá pela frente, também é motivo para um certo “travamento” de quem vai falar. Recentemente a onda era dizer que “o time está bem eeee…”. A brincadeira pegou entre os meninos letrados que viram a propagação do futebol pela televisão nas duas últimas décadas.
 
Mas não dá para culpar o jogador pela falta de tutano. Geralmente as perguntas feitas a eles são envoltas de muito mistério e complexidade.
 
“Seu time está perdendo, e agora?”.
 
“Agora é levantar a cabeça, partir para cima eee…”.
 
Por acaso teria sido melhor o jogador dizer qual era a tática armada para surpreender o adversário e, com isso, poder vê-la neutralizada? Definitivamente o jogador não é burro.
 
E uma prova disso foi a atitude tomada ontem, domingo, pelos botafoguenses vice-campeões da Taça Guanabara, no Rio. Diante de uma platéia de repórteres, os atletas roubaram a cena do campeão Flamengo. Juntos, reclamaram da arbitragem, se emocionaram, mostraram indignação com a derrota.
 
Não tem o que se criticar no lance do pênalti sobre Fábio Luciano, tem muito o que se contestar de diversos outros lances da partida que o árbitro Marcelo de Lima Henrique apitou turbulentamente. Mas a única coisa boa que se pode tirar de todo o episódio, além da demonstração de união do time botafoguense, é a mostra de muita inteligência que todos mostraram.
 
É raro você ver um time inteiro tomar uma decisão de ir à entrevista para a imprensa, visivelmente emocionados, prestar depoimentos aos jornalistas. Muito mais raro é você ver uma sala de imprensa atônita, sem esboçar reação diante dos discursos de Tulio e Lucio Flávio, os dois porta-vozes dos jogadores na coletiva-desabafo. Mas é uma pena que tudo isso tenha sido motivado pelo árbitro.
 
A começar pela preocupação dos clubes com a formação de seus atletas de base, passando pela profusão dos assessores de imprensa, o futebol nas últimas décadas assistiu a uma sensível evolução no preparo dos jogadores para a entrevista.
 
Muitas vezes o conteúdo é atrapalhado por perguntas esdrúxulas e por atletas concentrados, que fingem que ouvem o que lhe é perguntado e respondem de forma padronizada, para não se comprometer e não comprometer o time. Mas é bom ver sinal de inteligência no futebol. É isso que faz cair a barreira do preconceito e permitirá que, no futuro, tenhamos mais Kakás, Raís, Sócrates, Leonardos e Rogérios, que além de craques em campo são hábeis com o microfone.
 

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Quem tem rádio é rei

Matéria nesta Cidade do Futebol da última sexta-feira dá conta do enrosco em que se meteu o futebol catarinense. A associação das emissoras de rádio está na Justiça para ter os direitos de transmitir, sem qualquer contrapartida, os jogos do Estadual (veja mais aqui).
 
O resultado final está longe de sair e provavelmente só acontecerá depois que o campeão catarinense tiver sido decidido. E do jeito que é Justiça, talvez seja o campeão de 2010… Mas o fato é simples: os clubes começaram a acordar para um problema grave de ausência de receita.
 
A popularização do futebol no Brasil aconteceu nos anos 30 e 40 graças às ondas do rádio, que levavam aos torcedores a emoção do campo para dentro do lar. Só que foi exatamente por conta dessa origem da transmissão do esporte que o futebol hoje vive um de seus maiores problemas.
 
Quando folclóricos narradores, comentaristas e repórteres de campo tinham de subir no telhado de casas para poder narrar os jogos aos ouvintes, obtínhamos excelentes histórias para contar. Só que, ao cederem à insistência dos empresários da comunicação, os clubes criaram um monstro.
 
As rádios encontraram o caminho para a audiência e, conseqüentemente, para o faturamento publicitário, a partir da transmissão do futebol. Os clubes, no início, tentaram coibir o ganho elevado de dinheiro das emissoras proibindo-as de transmitir as partidas. O receio, à época, era perder dinheiro com a bilheteria. Quando perceberam, porém, que o público ia ao estádio mesmo com o jogo transmitido pelas ondas do rádio, os dirigentes baixaram a guarda. E aí que começou o problema.
 
Hoje, com o recurso da televisão, nem mesmo ir a uma partida é necessário. As narrações acontecem de dentro de um estúdio, ou até mesmo da sala da casa. Outro dia, aliás, em plenas férias do futebol no Brasil, o Real Madrid de Robinho era irradiado pelas ondas da AM paulistana.
 
A maior fonte de receita da Fifa na atualidade é a venda dos direitos de transmissão de seus eventos, em especial a Copa do Mundo. São quase US$ 2 bilhões em receita com a venda para mais de 200 países. Só que os direitos não se limitam à televisão. A rádio paga, e muito, para poder exibir ao vivo os 64 jogos do Mundial. E não chia.
 
Por que as rádios brasileiras continuam achando que é possível transmitir o futebol sem ter de pagar por isso? Os clubes ainda querem apenas como troca espaço na poderosa mídia da rádio. Mas nem isso os empresários parecem dispostos a ceder.
 
Só que, o que as emissoras não percebem, é que cada vez mais os clubes acordam para o aumento na fonte de receitas e nas estratégias de marketing para arregimentar torcedores e, a partir disso, dinheiro.
 

Na terra de cego, quem tem uma rádio é rei. Por enquanto.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br