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Formação profissional para o futebol

A iniciativa da criação do curso de treinadores da CBF veio preencher uma lacuna bem carente no futebol brasileiro. Até então não existia uma escola de formação de profissionais do futebol fora das universidades. Estas por sua vez, não têm como objetivo principal a formação de treinadores, algumas se preocupam unicamente com a formação de pesquisadores e docentes, outras em cumprir conteúdos e receber as mensalidades.

Os cursos de mestrado, com objetivo principal de fomentar pesquisas e preparar novos professores para os cursos de graduação têm sido confundidos com formação profissional continuada, um equivoco estratégico na carreira de quem quer ser um melhor treinador ou preparador físico de futebol.

Neste sentido, as informações e as tendências modernas a respeito de treino não podem ser encontradas onde se concentram esforços em normas técnicas ou métodos estatísticos, isso se o "quê" e não o "porquê" forem mais importantes.

O que não quer dizer que a ciência não continue a ser a grande fonte de informações e que não conduza a rotina profissional nos clubes, o fato é que precisamos fazer 3 perguntas: "as universidades preparam realmente os alunos para o mercado de trabalho em suas respectivas modalidades?", "ser mestre ou doutor é ter mais conhecimento com certeza, mas significa ser um profissional de campo melhor?", "será que a gestão do futebol é a única responsável pelos clubes não estarem absorvendo mais profissionais do meio acadêmico?".

Além de responder às perguntas, o jovem profissional precisa saber quais suas aspirações: campo, docência/pesquisa ou ambos? O que precisa estar claro é: elas são independentes, mas não dicotômicas. Ou seja, podemos muito bem conciliar os dois objetivos, mas ser bom profissional não implicar em possuir grau de mestre ou doutor (títulos obtidos com muito trabalho, dedicação e competência, processo para poucos, diga-se de passagem).

Para não perder tempo, portanto, se o objetivo for "apenas" trabalho de campo (treinador, preparador físico, auxiliar técnico, etc), deixe a tarefa científica com os "gênios" e se concentre nos cursos específicos da área em questão, sempre atento às publicações e aos conhecimentos gerais, afinal "só sabe de futebol quem sabe mais do que futebol" (Manoel Sérgio).

E se sua opção for pela "vida acadêmica", seja exímio conhecedor das pesquisas, dos trabalhos científicos e se atenha ao desenvolvimento de novos conhecimentos. Reinterando que ambos os objetivos podem ser conciliados, mas o aprimoramento de cada um é independente.

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Jogo em circulação x Jogo direto

Uma das grandes discussões nos dias atuais do futebol e um dos dilemas enfrentados pelos treinadores no futebol de base é referente ao defensivismo motivado pela sensação equivocada da necessidade de resultados, pela insegurança na aplicabilidade de se jogar em passes curtos em circulação de bola e pela falsa sensação de segurança ao estimular os "chutões" em situações de pressão no campo defensivo, dando-lhe a equivocada alcunha de jogo direto.

Deixando de lado um pouco as questões referentes à aprendizagem e cognição (como se fosse possível), a segurança percebida pelo treinador de base, ao coibir qualquer tentativa de saída de bola com circulação (pé em pé), no momento em que o adversário pressiona desde a saída de bola, implica em sensação de insegurança, pela possibilidade de erro do jovem atleta. Este por sua vez passa a entender que a alternativa para não ser "cobrado" ou "julgado culpado" por uma possível falha seja o "chutão" com intuito de "passar a responsabilidade" para outrem, seja adversário ou colega de equipe.

O chutão, neste sentido, não pode ser confundido com o jogo direto. O jogo direto se caracteriza como uma estratégia definida de buscar o campo ofensivo com passes longos direcionados, seja no espaço vazio ou mesmo para o atacante central de costas para os defesas. Sendo assim, jogar em circulação é o jogo em passes curtos ou médios em que se busca encontrar as falhas no sistema defensivo adversário em um jogo predominantemente em amplitude. Vejam bem, não disse obrigatoriamente.

A partir deste contexto, como devemos pensar o processo de formação?

No torneio sub 17 "Future Champions", na edição 2010 em Belo horizonte, duas equipes chamaram a atenção, tanto o poderoso Barcelona, quanto o sul-africano Mamelod Sundowns, mesmo com marcação pressão, não abdicaram do jogo em circulação desde sua meta defensiva, sem mostrando bem confiantes ao saírem das referidas situação-problema. Em momento algum, seus treinadores demonstraram o desespero presente em muitos treinadores de base aqui no Brasil, muito perceptível quando suas equipes são pressionadas e demoram a "passar a responsabilidade".

Referente a isto, podemos e precisamos entender que o "como ganhar" faz toda diferença no processo de formação. Entender o jogo para poder vencê-lo é fundamental, mas os caminhos que tomamos para executá-lo define qual o perfil de atleta que queremos, qual a "qualidade" do jogo que pretendemos para nosso futebol de base e, com certeza, para o futebol profissional.

Ainda podemos mencionar que no processo de formação o erro precisa ser permitido, aceito, tolerado mas não como motivo de acomodação. Errar um passe no campo defensivo não pode ser motivo de gritos ou "xingamentos", mas oportunidade de aprendizado, de entendimento do jogo, seus conceitos, e para aquisição de princípios pertinentes no desenvolvimento do jogar a que pretende o treinador para a equipe. Claro, não podemos nos confundir, o modelo não pode ser maior que o jogo. O modelo é de jogo, pelo jogo e para o jogo. Assim, e reforçando, o entendimento do jogo é a matriz de todo o processo para entendimento do modelo de jogo, mas é no desenvolvimento deste modelo que colocamos nossas intenções de adaptação aos atletas.

Sendo assim, estimular a saída curta, os passes curtos mesmo em situação de pressão, pode ser um valioso incremento na autoconfiança desportiva, nas aquisições cognitivas e com certeza na formação de um atleta de alto nível para o futebol.
 

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Ser treinador de futebol

Treinador, no seja no âmbito futebolístico ou em qualquer modalidade esportiva, se refere à alguém com profundo conhecimento do jogo, suas regras, da metodologia e com boa capacidade de oratória. Pelo menos, essa é a imagem que as pessoas têm dessas pessoas que se enveredam pela difícil trajetória de prosperar no cargo mais visado do futebol.

No entanto, construir uma carreira como esta, em que nos deparamos com culturas, pessoas, lugares e situações diferentes por diversos momentos, bem como relações variadas com torcida, imprensa, atletas, dirigentes, Staffs técnicos e ainda a própria família, exige um esforço especial no sentido, não apenas de aprofundar conhecimentos técnicos, mas principalmente de ampliar possibilidades e conhecimentos. A vastidão passa a ser tão importante quanto a profundidade.

Como defende o professor Manuel Sérgio: "Quem só sabe de futebol, nem de futebol sabe". Neste sentido, cabe ao treinador buscar sua formação também na filosofia, na sociologia, na antropologia e por quê não, na ciência política.

Manuel Sérgio afirma que a filosofia "serve para não aceitar como óbvias e evidentes todas as coisas, todas as ideias, todas atitudes, sem uma atitude crítica problematizadora". Desta forma, pensar criticamente passa a ser um exercício revigorante, considerando que o pensamento pode desconstruir um reducionismo enraizado em quem trabalha com esporte de rendimento.

A sociologia, com isso, contemplaria o estudo da modalidade esportiva de maior abrangência global da história, ou seja, que atravessou países e continentes se tornando esse fenômeno que conhecemos. O futebol, por esta área de conhecimento, precisa ser entendido bem além das quatro linhas, sob todas as condições que o cercam e influenciam as pessoas e seu ambiente de trabalho. O saudoso antropólogo Darcy Ribeiro no programa de TV, Roda Viva, disse que "futebol é o único reino em que o povo sente sua pátria", ou seja, não se pode negligenciar o futebol como fenômeno social, não se pode esquecer que não é uma modalidade "privada".

Com isso, torna-se clara a justificativa do estudo das questões antropológicas relacionadas ao jogo, ou seja, entender questões étnicas e familiares como caminho para entender o ser humano e o mesmo em determinados contextos.

Vítor Frade, reforça a necessidade de vastidão de conhecimento, quando justifica que o futebol é um fenômeno AntropoSocial, pela interferência no indivíduo como alteração, não só funcional, até estrutural, portanto Antropo. Não é exclusivamente social no sentido sincrônico e reforça ao afirmar que é uma incorporação, estar em grupo, em comunidade. Ou seja, a prática transcende aos aspectos técnicos.

E o que a ciência política tem a ver com futebol? Primeiro vamos conceituar ciência política:

"Ciência política consolida a ciência do Estado e a ciência do governo como poder político, buscando a revelação dos fatos pertinentes ao acesso, ao exercício e à limitação do poder no âmbito do estado. Ela pode ser considerada a ciência primordial por enfocar a revelação dos fatos sob concepção total da existência compartilhada de indivíduos e organizações que constituem as coletividades humanas"(Farias Neto, 2011)

Assim, é preciso entender que clubes de futebol são instituições, consolidadas na vida das pessoas que gastam recursos em nome da paixão. Movimenta milhões de pessoas, tendo, com isso, atenção especial do Estado. A dimensão de sua importância é maior do que imaginamos, não nos dar o direito de entendermos esse esporte apenas como um meio de atingirmos os altos patamares salariais, claro, se quisermos realmente deixar um legado e dar a devida importância à carreira que escolhemos. O futebol não pode ser "assim mesmo" como citam alguns tradicionalistas, nem pode se resumir a dinheiro como defendem os gananciosos que frequentemente invertem os valores e os fatos que levaram o futebol ter tamanha expressão mundial.

Finalizo este post afirmando que é preciso maior preocupação com a formação profissional e não resumi-la ao conhecimento técnico, aos cursos de capacitação ou especialização existentes (quem têm sua importância), é preciso ampliar a percepção e reforçar o pensamento crítico. 

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Periodização tática: por que a metodologia ainda não se consolidou no país

Creio que, para abordarmos os caminhos da Periodização Tática no Brasil precisamos compreender como aprendemos a pensar, desde o início da fase escolar, passando pelos cursos de pós-graduação até pelo ambiente do meio futebolístico.

Aprendemos desde cedo a analisar tudo para explicar cada fenômeno, bem como dissecar o ser humano em partes isoladas para colocar os “pedacinhos” num mesmo saco e tentar produzir conhecimento. Paralelamente a isto, o futebol brasileiro, com todo seu conservadorismo e prepotência pentacampeã, se nega a aceitar novos paradigmas e se mantém ao economicamente interessante ou politicamente seguro.

Na ânsia de parecerem modernos, muitos profissionais se defendem ao dizer que é possível trabalhar a Periodização Tática e a Tradicional juntas apenas por usarem bola nos treinos físicos ou em pequenos jogos. É importante ressaltar que existem os dois caminhos para desenvolver performance de equipes de futebol.

O que acontece na prática é: não dá pra andar pelas duas ao mesmo tempo; quem mora em Minas Gerais chega a São Paulo pela Fernão Dias, quem mora no Rio chega lá pela Dutra. Não é possível usar as duas estradas ao mesmo tempo. Por isso é importante entender o Cartesianismo e o teoria sistêmica e/ou Holismo.

Descartes tinha visão analítica do universo, ou seja, ele era composto de partes articuladas, como um relógio. Assim, o método cartesiano consiste em dividir o todo em partes e estudá-las separadamente.

A primeira regra é a evidência: jamais aceitar uma coisa como verdadeira que eu não soubesse ser evidentemente como tal. A segunda, a regra da análise: dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas partes quantas possíveis e quantas necessárias para melhor resolvê-las.

Já a terceira, a regra da síntese: conduzir por ordem meus pensamentos, a começar pelos objetos mais simples e mais fáceis de serem conhecidos, para galgar pouco a pouco, como que por graus, até o conhecimento dos mais complexos.

E finalmente a quarta: fazer em toda parte enumerações tão complexas e revisões tão gerais que “eu tivesse certeza de nada ter omitido”.

No dicionário de filosofia Abbagnano (1995) o reducionismo é apresentado e definido como algo que foi reduzido, transformado, modificado, manipulado, em nome da ciência.

Em modo geral na filosofia, o reducionismo é o nome dado a teorias correlatas que afirmam, grosso modo, que objetos, fenômenos, teorias e significados complexos podem ser sempre reduzidos, a fim de explicá-los, as suas partes constituintes mais simples.

Outros termos também são utilizados para expressar a ideia de especialidade, como o mecanicismo e atomismo. Assim a ênfase nas partes tem sido chamada de mecanicista, reducionista ou atomística. O reducionismo nada mais é do que a redução de algo, ou seja, a transformação, a modificação, a manipulação de algo, a fim de buscar a verdade ou a falsidade.

Ou seja, pela preparação tradicional, baseada pelo fisicismo ou tecnicismo, o treino físico melhora as capacidades físicas exigidas num jogo de futebol, o treino técnico analítico melhora isoladamente os fundamentos técnicos e o treino tático aprimora o sistema de jogo, a tomada de decisão dos jogadores etc. Mesmo quando falam em físico-técnico ou físico-tático, em que sugerem estarem treinando tudo ao mesmo tempo, os adeptos acabam “dissecando” os treinos em variáveis e justificando o jogo como meio de melhorar determinada capacidade.

A palavra sistema denota um conjunto de elementos interdependentes e interagentes ou um grupo de unidades combinadas que formam um todo organizado. Sistema é um conjunto de coisas ou combinações de coisas ou partes, formando um todo complexo ou unitário. (Chiavenato, 2000, p. 545)

O sistema é um conjunto de partes interagentes e interdependentes que, conjuntamente, formam um todo unitário com determinado objetivo e efetuam determinada função (Oliveira, 2002, p. 35). Já o holismo significa que o homem é um ser indivisível, que não pode ser entendido através de uma análise separada de suas diferentes partes.

Com a globalização (integração do mundo; povos e cultura) compartilhamos não somente as oportunidades que ela oferece, mas também os problemas. E para sua compreensão exige a aplicação da teoria sistêmica. Na busca de uma sabedoria sistêmica, que bem podemos interpretar como sendo a procura de uma visão holística.

Esta visão pode ser considerada a forma de perceber a realidade e a abordagem sistêmica, o primeiro nível de operacionalização desta visão. Já o enfoque sistêmico exige dos indivíduos uma nova forma de pensar; de que o conjunto não é mera soma de todas as partes, mas as partes compõem o todo, e é o todo que determina o comportamento das partes. Uma nova visão de mundo, que lhes permitirá perceber com todos os sentidos a unicidade de si mesmo e de tudo que os cerca.

O jogo pela visão sistêmica é o principal motivo do treinamento e não é passível de ser reduzido em partes isoladas descontextualizadas, mas sim sob um específico ponto de vista fractal, ou seja, partes do jogo. Pela PT, saltar mais, correr mais e mais rápido ou mesmo simplesmente executar um passe longo de forma repetitiva no pé do companheiro no outro lado do campo não tem nada a ver com o que se pretende no jogo de futebol.

Pela PT pretendemos o aprimoramento do modelo de jogo, pelo jogo, em sua totalidade, em seus momentos e pela especificidade das tarefas desempenhadas que vão exigir naturalmente de cada variável sem necessariamente ter de se pensar nelas em separado. Pela PT não há jogadores bem ou mal fisicamente, mas sim adaptados ou não com o jogo ou forma de jogar.

Fica evidente a diferença, a necessidade de números, testes, variáveis e quantas informações forem necessárias pelo pensamento cartesiano predominante e pelo conservadorismo do nosso futebol.

São formas diferentes de pensar, não estou falando em certo ou errado, mas sim de concepção, percepção dos fenômenos, do jogo.

E neste momento, o que aparece como aspecto mais importante pra mim, é a maturidade para embates e discussões e compreender o ponto de vista divergente. Aliado a isto, a ética para se comportar no mercado de trabalho, pois desta forma o esporte só tem a crescer.

*Wladimir Braga é preparador físico das categorias de base do Atlético-MG

Para interagir com o autor: wladimirbraga@hotmail.com

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O novo organograma da comissão técnica do futebol

Buscando tornar mais eficiente e específico o staff de trabalho do departamento de futebol, seja profissional ou categorias de base, os clubes terão que passar por uma reflexão profunda a respeito das funções e da representatividade de cada um dentro do processo de formação e preparação das equipes para o alto desempenho esportivo.

O treinador, enquanto chefe da comissão técnica, precisa ter ao seu lado auxiliares que alimentarão seu trabalho com as informações que serão parâmetros para cada tomada de decisão em relação a cada atleta e para sua equipe.

Neste sentido, a partir do momento que for descoberto e estabelecido que a forma não é física e sim desportiva, qual será a função do preparador físico neste processo?

Se refletirmos de maneira minuciosa, um jogador que atinge a marca 2350 metros no yoyo test e outro que obtém apenas 1950 metros no mesmo teste, o que isso nos diz em relação ao desempenho no jogo?

É preciso se perguntar se os testes físicos escalam, aprovam ou dispensam jogador.

Se a respostas que encontrarem forem as mesmas que a minha, ou seja, “não” para as três questões, então podemos começar a rever o que representa o preparador físico para o futebol.

Se pensarmos a respeito do desempenho para o futebol, o conhecimento tático do auxiliar técnico é de mais valia (este esporte é tático) e daremos por encerrada a primeira questão.

Com relação ao trabalho de prevenção de lesões, seja no trabalho de força realizado na sala de musculação, seja nos treinos de estabilização articular, a figura do fisioterapeuta passa a ter melhor adequação a esta função. Segundo aspecto também fechado.

Ainda relacionar o treino de transição do departamento médico para as atividades normais com o grupo principal. Sim, neste caso podemos afirmar que o profissional da preparação física tem sua importância no sentido de tornar o atleta apto a realizar as tarefas intensas exigidas no treino normal, ainda sim, nada que os fisioterapeutas não possam fazer. Essa última me gerou certa dúvida.

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De qualquer forma, se quisermos realmente mudar, de maneira significativa, a metodologia, a concepção de desempenho e o processo de formação, é preciso abolir o reducionismo de nossa prática e desenvolver projetos com uma visão mais sistêmica e específica ao nosso esporte.

Acredito que, hoje, o nome “preparador físico” é só “fachada”: muitos colegas já trabalham com um caráter mais contextualizado. Fica aí a questão do espaço que deveria ser destinado ao departamento de fisioterapia. O tempo dirá! E fiquemos com essas afirmativas para reflexão:

1 – Futebol é um esporte tático, não físico;

2 – Futebol é um esporte tático, não técnico;

3 – A técnica faz parte das ações de cada jogador, mas é precedida de tomada de decisão, ou seja, futebol, ainda sim, é claramente um esporte tático;

4 – Entender o jogo é mais importante do que quantidade de sprints ou distância percorrida. Continuamos a reforçar a característica da modalidade.

Assim, podemos nos atentar para a função do preparador físico e sua importância referente ao desempenho futebolístico, bem como à entrada do fisioterapeuta neste processo.

Finalizo, com uma frase para as pessoas preocupadas com sua reserva de mercado: “O mundo detesta mudanças, contudo isto é coisa que traz progresso”. (Charles Kettering)


*Wladimir Braga é preparador físico das categorias de base do Clube Atlético Mineiro

Para interagir com o autor: wladimirbraga@hotmail.com

Contato: www.twitter.com/wladbraga  e www.wladimir-braga.blogspot.com
 

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Os caminhos que o Barcelona revelou ao futebol brasileiro

Ao nos depararmos com esta avalanche de críticas e comentários a respeito do fantástico Barcelona e da crise proclamada do futebol brasileiro, fico pensando a respeito das várias questões levantadas por atletas, comentáristas, jornalistas, treinadores, torcedores e todas as pessoas que de certa forma se envolvem no ambiente futebolítico, identificam os problemas, mas também não sabem responder quais os caminhos a serem seguidos para que possamos reerguer a auto estima esportiva do “antigo” país do futebol.

Alguns acreditam que o modelo de jogo do Barcelona é um exemplo a ser seguido; outros, assim como eu, visualizam uma reinvenção ou reestruturação da chamada informalmente de “Escola Brasileira de Futebol”; e ainda existem os mais sonhadores que querem resgatar forma de jogar dos anos 60, 70 e 80, época inesquecível de nossa história futebolística.

Independente dos rumos a serem seguidos e já que o Barcelona, sendo o clube do momento e foco das discussões a respeito do melhor futebol do mundo, podemos, sim, afirmar que para quem realmente quer se desenvolver e se firmar no cenário esportivo. Este clube nos revelou alguns caminhos a serem seguidos sem, no entanto, que precisemos copiar nenhum modelo de jogo.

Em primeiro lugar, é de conhecimento de todos a importância do investimento nas categorias base, mas além de cifras elevadas, precisamos de aprimoramento em metodologia, pesquisas, orientação e foco no processo. Além disso, o resultados que mais interessam não estão nos campeonatos ou torneios conquistados, e sim na quantidade de atletas em potencial e no nível de desempenho apresentado por cada atleta na iminência de subir ao grupo principal.

Ainda em relação ao processo de formação, a instituição que pretende otimizar seu setor de base precisa ter bem definidaos quais os conteúdos de treinamento por categoria e como devem ser conduzidos para favorecer ao modelo de jogo pretendido e ao amadurecimento do talento enquadrado no perfil de atleta que o clube procura.

Com relação ao “carro chefe” do futebol, a equipe principal precisa ser conduzida de maneira a sequenciar o projeto de formação, estabelecendo este modelo de jogo e trabalho que norteará todo o futebol do clube e a partir daí extinguir o velho modo de tentativa às escuras que predomina hoje no futebol brasileiro.

Parecem coisas fáceis de se resolver, mas exigem reordenação de organograma, captação de profissionais qualificados para o trabalho, conhecimento científico e finalmente estabilidade e confiança no processo.

O conhecimento de todas as etapas da formação e as intervenções necessárias para cada uma delas só serão válidos se houver paciência e a competência de pessoas capacitadas para sua realização. Do contrário, não passaremos de medíocres.

Não existe outra forma de evoluirmos no futebol se não apostarmos nos atletas do futuro, bem como nos jovens profissionais que estão ávidos por colocar seu conhecimento e potencial em prática. Neste país, sofremos pela pouca valorização do conhecimento e da falta da gestão desse conhecimento que adquirimos ao longo dos anos. Eramos o país do futebol e o que era para melhorar piorou juntamente com o aumento do acesso às informações e à formação profissional, o que é muito contraditório.

Acredito ser possível retomarmos nosso desenvolvimento esportivo e para isto é necessário, também, maior atenção dos orgãos responsáveis por gerir o esporte no país com congressos, fóruns e simpósios para discussões profundas em nível nacional dos rumos a serem seguidos.

“Se alguém tem como objetivo profissional apenas conseguir este ou aquele cargo ou atingir determinado patamar profissional, ganhar seu dinheiro e pronto, é bom ter certeza que isto por si só é muito pouco e que não conquistou nada ainda do que poderia conseguir.”

Para chegarmos onde precisamos, além de organizar todo aquele processo de formação e mudarmos a forma de pensar o futebol, é preciso também percepção de cenário político, social e econômico.

O significado do mérito catalão tem mais do que simplesmente altas cifras e treinamento certo. O Barcelona tem definidos conceitos, filosofia de vida e ideologia que são conscientemente defendidas mesmo que apenas implícitas no dia a dia.

Portanto, sequenciando o início, onde coloquei “O que fazer e como fazer”, concluo com toda firmeza que é preciso fazer mudanças de verdade e incisivas no pensar futebol e mudar como propensos a nos abster de nossas verdades sem medo de nos diminuir, mas com coragem de fazê-lo justamente para crescermos e prosperarmos como o futuro país do futebol.


*Wladimir Braga é preparador físico das categorias de base do Clube Atlético Mineiro

Para interagir com o autor: wladimirbraga@hotmail.com

Contato: www.twitter.com/wladbraga  e www.wladimir-braga.blogspot.com

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Conceito de futebol total

Futebol total, mais do que um termo em evidência, representa uma forma de abordagem que considera os aspectos táticos, técnicos, físicos e psicológicos de maneira não fragmentada, mas sim sistêmica, não como a somatória de fatores, mas o produto de seus componentes e não como uma receita, mas como um desafio constante para cada situação ou para cada contexto.

Alguns podem chamar isto de bom senso, outros menos entendidos chamam de não científico (deve ser por que acham que as pessoas são “programadas” pelos números que representam suas avaliações). Enfim, outros mais questionadores (assim com eu) procuram conceituar o futebol com uma ciência holística.

De acordo com Pierre Weil (2006), “a palavra holística nestes últimos 20 anos tem penetrado progressivamente no âmbito da filosofia, da teologia, da educação, da ecologia, da economia, e demais domínios do conhecimento humano. Ela representa na realidade todo um movimento de mudança de sentido, não somente da ciência mais ainda de todo conhecimento humano”.

Ou seja, o futebol total representa uma mudança de paradigma para uma relação mais do que estreita entre as áreas de conhecimento e as informações recebidas e entre as tomadas de decisão na preparação e formação de uma equipe.

Sejamos diretos: não existe no futebol uma verdade que seja definitiva para todas as situações, seja no âmbito do treinamento, seja na formação de uma equipe. Com isto, hoje, acredito que mesmo a periodização tática que é, dentre as linhas de trabalho, a que mais se insere neste sentido, precisa ser revista e precisamos reconsiderar pontos que comprovadamente nos darão informações importantes do potencial de rendimento dos jogadores, assim como não podemos qualificar atletas apenas por resultados em avaliações e testes físicos.

Precisamos mais do que nunca parar de praticar teoria com a forma de tentativa e erro/acerto, e sim teorizar a prática para buscarmos aquilo de que necessitamos para o nosso trabalho: planejar o futebol e não suas partes.

O ser humano, e principalmente o atleta, não merece ser vítima do padrão, da regra e da linha de produção tecnicista.

É necessário, finalmente, parar de buscar a “receita de bolo” porque ela simplesmente não existe: o que realmente existe é a nossa capacidade de gerir nosso conhecimento.

*Wladimir Braga é preparador físico das categorias de base do Clube Atlético Mineiro

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Goleiros: percepção e antecipação

O posicionamento no gol e as atitudes do goleiro são de grande importância para o seu rendimento e de sua equipe dentro de uma partida. Ele é o único que, durante todo o tempo, se encontra atrás de toda a equipe, observando o posicionamento de seus companheiros e dos adversários, podendo, assim, auxiliar e interferir tanto nos aspectos defensivos quanto ofensivos da sua equipe.

Percepção é basicamente um processo de organização de informações e que depende de ações e experiências passadas. A capacidade perceptiva se desenvolve paralelamente nos processos de aprendizagem e pode ser influenciada pelo nível de rendimento de fatores como atenção seletiva, capacidade sensorial de detecção de informação, memória e processos de processamento de informação no alto nível, como antecipação e predição.

Entende-se por antecipação o processo de resposta motora em função da ação do próprio jogador, do companheiro de equipe ou em função da ação do adversário. Isso implica dizer que, durante todos os momentos do jogo, o jogador deverá observar as ações de seus companheiros e adversários e com base nestas tomar decisões no intuito de executar uma resposta motora adequada que lhe permita se antecipar e deste fato tirar grande vantagem. A antecipação permite diminuir o tempo de resposta, porém, assume o risco de assumir uma resposta errada.

A antecipação, por exemplo, permite que um jogador, mesmo sendo “mais lento” do que o outro do ponto de vista fisiológico, possa atingir mais rapidamente uma área de jogo que lhe seja favorável, porque previu e antecipou a resposta. A capacidade de usar sinais antecipatórios para fazer previsões dos movimentos de jogadores e da bola, normalmente, é mais eficaz em atletas mais experientes.

Goleiros que alcançam alto índice em defesas de pênalti possuem alto capacidade de antecipação, aliado, claro, à velocidade de reação, explosão, elasticidade, dentre outros, já que a bola estará sobre a linha da meta em 0,5s, aproximadamente.

A qualidade das ações do goleiro depende diretamente de sua capacidade de observação. Em um pênalti, por exemplo, quando os sinais relevantes aparecem, o goleiro poderá relacionar as informações com o intuito de antecipar a possível ação do cobrador na penalidade máxima e, assim, encurtar o tempo com um “atalho”.

A capacidade de percepção e antecipação parece revelar-se um indicador fundamental para discriminar jogadores experientes ou inteligentes de jogadores principiantes ou pouco esclarecidos taticamente.


*Adriano Silva Soares é treinador de goleiros da equipe juvenil do Clube Atlético Mineiro, pós-graduado em Treinamento Esportivo (UFMG) e membro do GEAF

Contato: adrianounileste@yahoo.com.br

Leia mais:
Entrevista: Adriano Silva Soares, preparador de goleiros da base do Atlético-MG

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Motivação do treinamento físico para alta performance

Acredita-se que para ter sucesso no esporte um dos primeiros passos a serem dados é a motivação dos atletas. Segundo Singer (1997), motivação é a insistência de caminhar em direção a um objetivo. Mas essa motivação pode ser entendida de varias formas, como por exemplo, uma premiação extra para os atletas após uma vitória ou também um dia a mais de folga na semana. Porém a motivação que estou querendo discutir pode ser um pouco mais complexa, devido ao fato de ela ter que ser conquistada no dia a dia do treinamento, tentando tirar o máximo dos atletas durante o treinamento físico, seja na pré-temporada, durante ou no final dela, independentemente da posição em que a equipe esteja na competição.

Becker Jr (apud SCALON, 2004 : 23) “reforça que é um fator muito importante na busca de qualquer objetivo.” , “…assim sendo, a motivação é um elemento básico para o atleta seguir as orientações do treinador e praticar diariamente as sessões de treinamento”.

Algumas das alternativas utilizadas por preparadores físicos, principalmente nas categorias de base para dar maior motivação no treinamento, é muito simples, porém ainda pouco aceita por treinadores e clubes profissionais: essa alternativa nada mais é do que acrescentar a bola durante os exercícios.

Perez (1995) já dizia que estar motivado é querer obter um bom rendimento e fazer o máximo possível para consegui-lo. Para isso a estruturação das sessões de treinamento deve ser bem organizada de acordo com a tabela da temporada, e caso os objetivos determinados para alguma das competições a serem disputadas não sejam alcançados, são necessárias algumas alternativas para que não se permita que os atletas façam corpo mole ou deixam de dar o máximo durante o treinamento, devido às possibilidades de titulo ou eventual premiação não possam ser mais alcançados.

É possível perceber nos treinamentos que quando o atleta está com a motivação elevada, ele treina com maior entusiasmo, tem maior confiança em si mesmo e eficiência na parte técnica e tática.

E todos esses fatores vão deixar os atletas mais bem preparados física e mentalmente do que seus adversários, aumentando suas chances de ganhar.

Porém a realidade que observamos nos clubes atualmente é outra. Ao invés de os clubes se preocuparem em melhorar a qualidade do treinamento, eles encontram como única solução a motivação financeira; portanto cabe a nós, preparadores e profissionais do futebol, melhorarmos as estratégias do treinamento, para que um dia não se torne dispensável o papel do preparador físico nos clubes.

Bibliografia

BECKER JR., B e SAMULSKI, D. Manual de treinamento psicológico para o esporte. Novo Hamburgo: Feevale, 2002.

PÉREZ, G; CRUZ, J. e ROCA, J. Psicología y deporte. Madrid: Alianza Editorial, 1995.

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Treinos táticos pela ótica do preparador físico

Nos tempos atuais, ainda não é consenso, mais tudo encaminha para que treinadores e preparadores físicos unifiquem cada vez mais a parte física, técnica, tática e emocional durante o treinamento dos atletas.

Segundo Weineck (2000), os treinamentos recebem formas, execuções e intensidades diferenciadas, que serão distribuídas no decorrer da temporada. Para Araújo (2002), o modo como as competições são organizadas e distribuídas ao longo de cada época desportiva constitui fator decisivo para a obtenção e manutenção de um elevado nível de resultados.

Entretanto, devido ao alto número de competições durante o ano e com intervalos de tempo muito curtos, acaba dificultando e provocando novos problemas de organização e estruturação do treinamento, gerando um desgaste dos atletas, acrescentando a importância de aliar a parte física com a tática, para que cada sessão do treinamento seja aproveitada ao máximo.

Durante as sessões de treino são desenvolvidos exercícios, que constroem e aprimoram a forma de jogar, especificando algumas situações de acordo com o que o treinador ou o preparador físico tenha como meta para aquele treinamento. Uma das formas de treinamento que está crescendo cada vez mais nos clubes de futebol é o treinamento integrado – de acordo com (Chirosa Rios e Chirosa Rios, 2002) são exercícios que devem conter componentes técnicos, táticos, estratégias, físicas e até mesmo psicológicas que são encontrados durante uma partida de futebol.

Um exemplo de treinamento tático que pode ser integrado por treinadores e preparadores com o treinamento físico é o de marcação pressão, tanto por zona ou individualmente (menos comum no futebol brasileiro). Nele, pode ser treinado na parte física a resistência, velocidade e agilidade, enquanto na parte tática, o posicionamento de cada jogador em virtude dessa marcação.
Outra maneira bastante discutida de treinamento integrado são os jogos reduzidos. Puygnaire e col. (2003) já diziam que é possível também atingir um objetivo físico determinado durante a realização de um jogo reduzido, através da manipulação de variáveis. Essas variações devem ser controladas pelos preparadores físicos e podem ser, por exemplo, o tempo de duração, o número de jogadores, as regras impostas para induzir a ação e também o posicionamento dos atletas, além de outras a serem definidas pela comissão técnica.

Agora, fato é que para essa integração surtir o efeito esperado durante a temporada, necessita ser planejada e estruturada antes mesmo da pré-temporada, para que as etapas de treinamento não sejam queimadas.
 
Tubino e Moreira (2003) reforçam que, todavia, o planejamento, independentemente da área de trabalho, é fundamental para obter parâmetros para a planificação da próxima temporada e, ainda, inclusive, repensar algumas metas, ou alterar a metodologia de trabalho, objetivando corrigir os pontos falhos do treinamento.

Enfim, cabe a preparadores, fisiologistas e treinadores trabalhar de forma unificada e planejada para o melhor rendimento de todos os aspectos que envolvem o futebol.

*Thiago Bandeira de Mello é preparador físico e integrante do Grupo de Estudos Aplicados ao Futebol – Geaf

Bibliografia

ARAÚJO, M. Do modelo de jogo do treinador ao jogo praticado pela equipe. In: Júlio Garganta, Antonio Soares e Carlos Peños. A investigação em futebol. Estudos ibéricos, FCDEF – Universidade do Porto – Portugal, 2002.

BARBANTI, Valdir J. Formação de esportistas. Barueri: Manole, 2005.
Chirosa Rios, L. J.: Chirosa Rios, I. (2002). El trabajo integrado dentro del entrenamiento de un procedimiento de juego en Balomano. Asociacion de Entrenadores de Balomano. Revista Digital-http://www.aebm.com. Ref. Comunicação Técnica 176.

Puygnaire, A. R.; Sánchez, J. S.; Cabezón, J. M. Y. (2003). El entrenamiento aeróbio del futbolista. Educación Física y Deportes. Revista Digital-http://www.efdeportes.com, n. 58, ano 8.

TUBINO, Manoel J. Gomes; MOREIRA, Sergio B. Metodologia científica do treinamento desportivo. 13. ed. Rio de Janeiro: Editora Shape, 2003.

Weineck EJ. Futebol total – o treinamento físico no futebol. Guarulhos: Phorte; 2000.