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A volta do público aos estádios no Brasil

Crédito imagem – Site oficial/Maracanã

Estamos prestes a dar início à principal competição de futebol do Brasil, o Campeonato Brasileiro. A pandemia segue, e não teremos torcedores nos estádios brasileiros para o início do torneio. Algo que também aconteceu no ano passado, durante todo o Brasileirão de 2020, a elite do futebol brasileiro ficou sem a presença física de seu maior ativo, “a torcida”. 

Vale lembrar como era o público da Série A do Brasileirão no período que antecedeu a pandemia.

Para não sermos exaustivos, vamos apenas elencar a média percentual de ocupação dos Estádios nos últimos 5 anos, a começar por 2015 até 2019, sem estudarmos os números de forma mais detalhada.

-2015: 40%;

-2016: 41%

-2017: 41%

-2018: 43%

-2019: 47%

Fonte: Globoesporte.com

Nota-se que a presença da torcida nos estádios vinha em ascensão até a paralisação do futebol e posterior retomada sem público, ao menos neste campeonato em questão.

Não é possível afirmar categoricamente, mas é provável que esse crescimento tenha se dado em virtude da construção e reforma das arenas projetadas para sediar a Copa do Mundo de 2014. 

Segundo pesquisa feita pelo globoesporte.com, a reabertura de estádios com maior capacidade fez a média de público aumentar em 25%. E a soma disso com os ingressos mais caros fez disparar a média de renda, deixando-a 78% maior de 2012 para 2013.

Evidente que a implantação de arenas e aumento da capacidade dos estádios que sediam os jogos do Brasileirão, contribuíram para o aumento do público e da receita proveniente dos jogos, mas não se pode considerar o único componente para tal fim. Mesmo nos estádios mais tradicionais, o torcedor passou a ser encarado como consumidor e ainda que de forma muito incipiente, os gestores das arenas brasileiras passaram a olhar com mais atenção para seu público primando por conforto, comodidade e segurança dos espectadores, dentro das limitações que algumas estruturas mais simples impõem.

Salientamos que este processo ainda é extremamente embrionário e há muito o que evoluir no quesito experiência para os torcedores nos estádios.

Considerando o contexto acima, como imaginamos ser a volta gradativa do público nos estádios?

É praticamente nula a possibilidade desse retorno de público se dar com a capacidade total das arenas, provavelmente ocorra de forma gradativa como nos demais países que já tiveram tal liberação por parte dos órgãos competentes. 

Há uma peculiaridade no Brasil que envolve sua enorme área geográfica e diversidade cultural, o que faz com que o controle da propagação do vírus (ou a falta dele) não seja homogênea, dificultando que se estabeleça uma padronização para tal retorno de público, mitigando assim, a igualdade competitiva, já que pode ser que aconteça do público ser parcialmente liberado em algumas cidades e outras não. 

Além das especificidades já mencionadas, os Estádios possuem grande variação de capacidade, por exemplo, o Estádio do Morumbi que sedia os jogos do São Paulo FC tem capacidade para 66.671 pessoas, já a Vila Belmiro, casa do Santos FC comporta aproximadamente 16.000 pessoas.

Supondo que a liberação de público seja de 30%, o Morumbi poderá reunir até 20.000 torcedores, enquanto a Vila Belmiro 4.800. Como os protocolos para a reabertura preveem distanciamento social, haverá necessidade de intercalar os assentos. Ainda que tal medida não seja respeitada por todos os torcedores é obrigação dos gestores das arenas propiciar essa intercalação entre os lugares disponíveis, logo, haverá necessidade da abertura de mais setores, implantação de profissionais para aferição de temperatura, elevação no número de fiscais e orientadores para verificação do uso de máscaras, entre outras medidas que podem aumentar o custo fixo do jogo mesmo se considerarmos o período pré pandêmico, onde não havia restrições de ocupação.

A diferença na capacidade de ambos é abissal, mas o custo da operação não varia na mesma proporção. É sabido que a receita com bilheteria está desfalcando inúmeros públicos, em especial os que contam com grandes torcidas.

Afora o acima exposto, é importante lembrar que nem todos os estádios tiveram saúde financeira para operacionalizar a manutenção preventiva no sistema hidráulico, elétrico e a limpeza de todos os seus setores, tornando essa questão, também motivo de afligimento, pois se a divulgação da liberação parcial de público não for feita com uma antecedência no mínimo razoável por parte das Federações, os primeiros eventos podem ser caóticos para os torcedores que se propuserem a voltar a acompanhar fisicamente o futebol.

Deixamos, então, a reflexão se financeiramente este retorno parcial será melhor ou não para os cofres dos grandes clubes e para o bolso do torcedor que presumivelmente pagará um valor maior nos ingressos? 

Dicotomicamente, quais os prejuízos intangíveis esse afastamento dos estádios pode gerar? Será que não estamos fazendo o torcedor/consumidor entender que ele pode ficar sem acompanhar seu time presencialmente ou ao menos reduzir a assiduidade?  São questionamentos muito difíceis de serem respondidos antes das liberações em sua totalidade, mas é notório que as arenas precisam olhar com mais atenção para seu público nessa retomada e promover verdadeiros espetáculos, avançando intensamente as preocupações que acima mencionamos como incipientes com seus frequentadores.

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A Gestão Técnica e a visão sistêmica – resolvendo os problemas do campo

A visão sistêmica é uma maneira de enxergar e abordar o mundo que compreende que os mais variados acontecimentos ocorrem não apenas por uma razão, mas por uma série de diferentes motivos e outros acontecimentos que ser interconectam de uma forma caótica, impossível de prever ou de controlar. Isso quer dizer que não devamos buscar a excelência no futebol por meio do aprimoramento e da qualificação profissional? Claro que não, muito pelo contrário!

O que é preciso entender é que muitas vezes, o que ocorre dentro de campo não pode ser explicado por esse ou aquele fator e que para ter esse entendimento e conseguir resolver os problemas que o futebol nos apresenta, que são sempre únicos e inéditos, afinal, uma mesma partida jamais é disputada duas vezes é preciso saber aplicar a visão sistêmica a todo instante. 

A maioria de nós tem como base de conhecimento o pensamento linear, cartesiano que enxerga o mundo com causas e consequências diretas, por meio da junção da visão de especialistas de diversas áreas, mas sem interconexão entre si. É por essa razão que, cada vez menos essa forma de entender os fenômenos que nos rodeiam se mostra cada vez mais insuficiente para nos ajudar a resolver os problemas quando atuamos no futebol!

Não ficou claro ainda? Não tem problema, vamos trazer aqui alguns exemplos de como a visão sistêmica pode ajudar a identificar e a solucionar problemas dentro de campo.

Para isso vamos apresentar quatro pressupostos do pensamento sistêmico e suas respectivas aplicações no futebol.

Pressuposto 1

Não se pode entender as partes de um sistema de forma descontextualizada do todo e nem entender o todo desconectado de suas partes constitutivas.

Aplicação – A condição atlética de um jogador de futebol só faz sentido se analisada e percebida dentro do contexto de sua participação integral em uma partida. Também o jogo não pode ser visto dentro de toda a sua realidade e complexidade, sem considerarmos todos os elementos internos e externos que o constitui.

Pressuposto 2

Aplicação – Todo sistema é formado por um conjunto de elementos interagindo entre si, influenciando-se mutualmente e influenciando o sistema como um todo que, por sua vez, interfere em seus elementos fazendo emergir permanentemente novas situações, instáveis e imprevisíveis. Diante desta dinâmica é mais sensato pensar que os fenômenos, as coisas, as pessoas mais “estão” do que “são”. O movimento da vida é constante, intermitente e muda a cada instante.

Exemplo: O pressuposto linear e mecanicista – ainda tão comum no futebol – que afirma que “em time que está ganhando não se mexe” não serve para este pressuposto sistêmico, pois tudo muda a cada instante dentro de um sistema. Ainda dentro desta perspectiva não podemos afirmar que um jogador (ou um time) é bom ou ruim, mas sim que este jogador (ou time) está bem ou mal dentro de determinadas circunstâncias.

Pressuposto 3

A vida humana é permeada incessantemente por relações interpessoais e subjetivas (intersubjetividade) que precisam ser entendidas e acolhidas para que se possamos caminhar juntos, identificando-se os propósitos comuns entre as pessoas.

Aplicação – A formação, participação e engajamento de uma equipe de futebol que busca a alta performance depende fundamentalmente de como os seus elementos se identificam e se comprometem com os objetivos comuns traçados. Para isso é essencial que as lideranças identifiquem as diferentes visões em torno dos seus propósitos comuns, potencializando-os.

Pressuposto 4

Na perspectiva sistêmica e complexa, todo conhecimento deve ser entendido como algo precário e provisório e que pode nos induzir a erros, ilusões ou até a alucinações. Por isso, o exercício em busca do conhecimento lúcido e amplo deve ser sempre acompanhado de cuidados, balizado por nossos limites ou limitações.

Aplicação – Um especialista (treinador, preparador atlético, fisiologista, psicólogo, nutricionista etc.) pode ser facilmente induzido ao erro se não tiver uma noção – a mais clara possível – do todo, ou seja, de todos os fatores (além dos inerentes à sua especialidade) que podem interferir no desempenho dos atletas e da equipe de forma geral, incluindo-se aqui os macro e microssistemas que interferem no treino, no jogo e na vida de cada um e de todos.

Na mais nova e atualizada edição, a décima sétima, do curso Gestão Técnica no futebol, esses e outros pressupostos da visão sistêmica aplicada ao futebol são discutidos com maior profundidade.

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Diferencial do Futebol Brasileiro – Do jogo para a vida

Crédito imagem – Lucas Figueiredo/CBF

Chegamos ao último texto da série Diferencial do Futebol Brasileiro. Ao longo dos últimos 3 textos busquei argumentar sobre como entendo que a etapa de iniciação esportiva, particularmente, a forma como as crianças brasileiras tradicionalmente aprendem a “jogar bola”, é um diferencial destacadamente positivo para a formação de talentos no nosso futebol.

Vale ressaltar, caso você não tenha lido os textos anteriores, que trata-se de uma maneira livre e espontânea, em que as crianças criam e conduzem as próprias brincadeiras de bola nos mais diferentes espaços informais de prática: rua, praia, campinhos, quintal de casa, pátio da escola, quadra do bairro etc.

Esta forma de aprender futebol, combinada por diferentes características brasileiras, já discutidas nos textos anteriores, fizeram com que grande parte da população brasileira nascida no Século XX, tivesse essa experiência em sua vida. Dentre essa parcela da população, algumas pessoas se tornaram jogadores e jogadoras profissionais, chegando até ao mais alto nível de excelência. Refletimos também, que esse cenário ainda existe e segue contribuindo bastante para a formação de talentos no futebol brasileiro, embora a aprendizagem do futebol hoje esteja muito mais formal do que antigamente, desde a primeira infância. Isso é consequência de algumas ameaças, também já abordadas nos textos anteriores, entre outras que ainda podemos abordar futuramente, como a especialização precoce e a pressão do marketing nesse setor socioeconômico.  

No entanto, neste texto, gostaria de destacar a importância desse ambiente informal de prática para além da formação dos talentos esportivos. Para a maioria de nós, cidadãos que tivemos essa experiência e não nos tornamos jogadores profissionais, embora fosse o sonho de grande parte, não podemos dizer que esse período foi em vão. Eu, por exemplo, o vivi intensamente e me lembro com muito carinho da minha infância e adolescência, quando podia passar as tardes jogando bola com meus amigos. E você, possui boas lembranças desse período da vida cheio de brincadeiras livres? Para além das boas recordações, mais coisas daquela época ficaram em mim. Nesse sentido, a Pedagogia é uma grande aliada para investigar a importância desse período para o desenvolvimento integral da criança e do adolescente. Vamos utilizar a Pedagogia para compreender esse ambiente de brincadeiras informais tão típico da nossa história, para além da aprendizagem do jogo de bola em si? Já pensou no que podemos extrair do jogo para a vida?

Vamos lembrar o que precisávamos fazer para conseguir satisfazer nosso desejo de jogar bola! Primeiro item essencial: precisávamos da bola. Nem sempre tínhamos uma à disposição. Então a inventávamos, com o que fosse possível chutar no espaço que tínhamos. No pátio do colégio era comum não nos darem a bola para jogarmos, então, tampinhas de garrafa pet, latinhas, garrafas, bolinhas de papel e pedras, viravam a bola do nosso jogo. Aqui já temos o primeiro aspecto pedagógico importante a ser observado: a criatividade. Na falta dos recursos ideais para resolver a necessidade de ter uma bola para jogar. A solução dada pela criança – criativa que é – é inventar o seu brinquedo com os recursos disponíveis. Isso ocorria também na falta de traves para fazermos o gol. Bancos, cadeiras, dois chinelos, duas pedras, enfim, quaisquer objetos ou alvos que pudessem simular um gol, nós não pensávamos duas vezes para resolvermos o nosso problema. Portanto, daqui podemos perceber que para a criança criar a sua brincadeira, ela precisará estimular a sua imaginação, criatividade e atitude para que seu desejo de jogar seja satisfeito. Todas essas faculdades mentais, partindo do seu desejo de brincar, são estimuladas e fortalecidas para a criança como um todo. Caso seja desafiada a utilizá-las em outras tarefas, ela poderá aproveitar essa experiência prévia em algum grau.

Vamos seguir nosso raciocínio sobre o que mais a criança precisa para satisfazer o seu desejo lúdico de jogar bola. Um elemento importante é o desenvolvimento de habilidades motoras. Para brincar, ela precisará se relacionar com a bola e transformar as suas intenções em coordenações motoras para executar a habilidade pretendida (condução, passe, chute, controle etc.). Por meio do constante desafio que o movimento imprevisível da bola causa para o sistema coordenativo da criança, ela precisará desenvolver uma série de movimentos novos para conseguir cumprir a sua intenção relacionada à bola. Vamos utilizar o exemplo das embaixadinhas. Brincar de embaixadinha a tornará mais hábil em embaixadinhas, mas também poderá ser útil em habilidades que necessitem de movimentos parecidos, como equilibrar-se em um apoio ou movimentar precisamente os membros inferiores e, particularmente, os pés. Poderíamos citar outro tipo de capacidade também, como uma maior organização espaço-temporal para coordenar o espaço-tempo do movimento da bola com o espaço-tempo do movimento das pernas. A cada movimento da bola na embaixadinha todas essas capacidades são estimuladas e desenvolvidas, podendo ser usadas em desafios maiores do mesmo tipo de habilidade ou em outros da vida da criança, que exijam tais coordenações.   

Mais um item importante para a criança satisfazer seu desejo lúdico de jogar bola é ter com quem brincar. Em espaços públicos, como a rua, parques, praças, praias etc., uma criança pode até começar a jogar sozinha, mas assim que outras crianças compartilham do mesmo espaço, é comum haver o interesse de brincarem juntas. Porém essa brincadeira em conjunto não ocorre de forma natural. É uma convivência construída com a prática de conviver. Existirão conflitos ali que deverão ser resolvidos para que a brincadeira prossiga. Por exemplo, uma criança está brincando em um campinho com um gol. Ela chuta ao gol e depois busca para chutar novamente. Até que chega uma outra criança que quer brincar com ela. Para se enturmar, essa se prontifica a ficar no gol em alguns chutes, mas logo cansa e propõe:

– Que tal se a gente fizer uma disputa? Você chuta 3 e eu chuto 3 para ver quem faz mais gol. Topa? – diz a criança que chegou depois.

– Mas eu não gosto de ir no gol. – diz a dona da bola.

– Então vou brincar de outra coisa. – diz a criança que iniciou o diálogo.

Esta última vai para o outro gol e começa a se pendurar na outra trave, chutar pedras, entre outros jogos solitários. Já a criança dona da bola volta à sua brincadeira de chutar ao gol e buscar, mas logo percebe que estava mais legal brincar com uma companhia. Diante desse conflito, ela grita:

– Ei! Vamos jogar como falou! Mas eu começo chutando! – diz a criança dona da bola.

A criança que brincava sozinha no outro lado da quadra aceita e começa o jogo proposto. Até aqui já podemos perceber o primeiro conflito de interesses, em que ambos perceberam que precisariam ceder para construir algo coletivo mais interessante que aquilo que estavam construindo individualmente. Neste ponto, a criança começa a praticar um grande valor da socialização, que para se construir coletivamente, temos que colocar as nossas vontades em alguns momentos, mas em outros teremos que ceder. O jogo continuou. A criança dona da bola chutou e a outra defendeu, rebatendo. A primeira aproveitou o rebote e logo chutou, comemorando o gol. E iniciou um novo diálogo, a partir daí:

– Não valeu! Não vale rebote! – disse a criança que estava no gol.

– Valeu sim! – disse a criança que chutou, comemorando mais ainda.

Aqui temos mais um conflito. Não haviam previsto essa situação e por isso não combinaram nenhuma regra que resolvesse a questão. Teriam que criar uma regra e um acordo a partir daquele momento de conflito para que o jogo continuasse. Nessa cena descrita podemos perceber mais uma ótima oportunidade em que o jogo pode ensinar algo precioso para a vida. A resolução de conflitos, a criação de regras, a habilidade de ouvir, falar e estabelecer acordos são fundamentais para qualquer sociedade civilizada. As crianças que criam e conduzem as suas próprias brincadeiras são incentivadas a desenvolverem essas habilidades para poderem seguir jogando e se divertindo. Esta é a motivação principal delas. Essa experiência não as fará ter a consciência plena de que estão praticando valores de socialização ou algo do tipo. Mas as dará a oportunidade de vivenciar situações em que esses valores são importantes. Neste ponto, uma pedagogia que busca compreender esse ambiente de aprendizagem, pode se valer dessas situações, para justamente oportunizar essa conscientização. Se cumprida essa etapa, esses conhecimentos poderão ser ainda mais importantes para a vida da criança como um todo.

Eu gostaria de encerrar esta série, destacando este aspecto da iniciação esportiva brasileira, que foi amplamente desenvolvida em ambientes informais de aprendizagem. As experiências vividas a partir dela nos absorviam de maneira integral, e provocavam um desenvolvimento da mesma forma. Não nos viam como futuros jogadores, não nos viam no futuro. O momento que importava era aquele. A vida acontecia plenamente ali. Talvez, por isso guardamos tantas boas recordações desse tempo de infância e adolescência, em que podíamos brincar na rua, ou onde quer que fosse, com as pessoas que queríamos estar, o maior tempo que tivéssemos disponível. A iniciação esportiva formal deve aprender com esses ambientes lúdicos informais, com as crianças como elas são, com a nossa história. Este é o convite!

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Panorama do futebol brasileiro a partir de agora

Crédito imagem – Lucas Uebel/Grêmio

Chega ao fim uma primeira parte do calendário do futebol brasileiro. O término não só dos estaduais, como também da fase de grupos da Libertadores e da Sulamericana, nos dá um claro panorama do que teremos nos meses mais importantes da temporada, com o início do Brasileirão e das fases mais agudas da Copa do Brasil e das competições internacionais.

E mais do que resultados vale sempre analisarmos desempenho e contexto. As trocas constantes de comissão técnica são inerentes à nossa cultura. E se não vale ficarmos sempre batendo na já surrada tecla do ‘pouco tempo de trabalho’ vamos fugir também do ‘Estadual é obrigação’, mas ‘perde para você ver…’.

O conjunto mais forte do Brasil hoje é o do Palmeiras. Vou além: o mais forte da América do Sul. E usei o termo conjunto propositalmente. Não é o melhor time que vence. Não basta ter os melhores jogadores. É preciso o melhor conjunto dentro e fora de campo. A diretoria menos suscetível a jogar tudo pro alto em um período de instabilidade. O clube mais sólido nos seus mais variados departamentos para entregar a melhor condição para quem entra em campo. E nisso o Palmeiras está à frente do Flamengo, por exemplo, que para mim é a segunda força. Ou a pressão que o técnico Rogério Ceni sofre após cada mínimo revés não revela um cenário de instabilidade?! E por mais que jogador por jogador o Flamengo seja o mais forte. Entretanto insisto: não basta ter os melhores jogadores para vencer.

Em um segundo escalão projeto três trabalhos muito promissores: o de Tiago Nunes no Grêmio, o de Cuca no Atlético-MG e o de Hernan Crespo no São Paulo. Tiago tem uma incrível chance de apagar a impressão ruim deixada no Corinthians e fazer do atual Grêmio ainda melhor do que o Athlético-PR de 2019. O reforço pontual de Douglas Costa pode potencializar outros jogadores do elenco gremista. No Galo, Cuca não é um gênio tático, mas consegue mobilizar as forças internas rumo a objetivos. E por mais que as ideias coletivas sejam diferentes, há uma boa herança deixada por Jorge Sampaoli. O mesmo se aplica ao que Crespo recebeu de Fernando Diniz no São Paulo: se o técnico argentino conseguir imprimir um caráter vencedor a esse elenco, a sorte são-paulina pode mudar.

Corroborando que vou além do resultado nessas projeções, escrevo esse texto no início da noite de sábado, 22 de maio; sei que o Atlético foi campeão mineiro, mas não sei ainda os resultados dos campeonatos Carioca, Paulista e Gaúcho. E por mais que eu tenha muito claro que se trata de uma modalidade esportiva, em que o resultado sustenta tudo, não mudaria uma só vírgula em função do que aconteça nessas finais.

Os textos de nossos conteudistas parceiros não refletem, necessariamente, as opiniões da Universidade do Futebol

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A medida do sucesso

Crédito imagem – site Federação Paulista de Futebol

O São Paulo ganhou outro título ontem, um que talvez tenha sido até determinante para que o clube levantasse a taça do campeonato paulista e que, com certa recorrência vem sendo conquistado, mas que dificilmente conseguimos perceber, ou mesmo medir com clareza, que é o da formação humana.

Ainda é preciso discutir, e muito o modelo de captação, ou garimpo de gente que baseia a pirâmide de formação de jogadores e jogadoras no Brasil e no mundo, mas dentro do atual cenário, o São Paulo Futebol Clube é uma das instituições que mais se destaca no Brasil no quesito citado. Com profissionais qualificados, Gabriel Puópolo um parceiro de longa data da Universidade do Futebol é psicólogo da base do clube já há muitos anos, por exemplo e a priorização do desenvolvimento integral dos seus jogadores como seres humanos e isso pôde ser observado mais uma vez na decisão de ontem.

Ainda no primeiro tempo, com a tensão de um jogo que significava demais para o São Paulo pela longa espera por títulos, pelo clássico e pelo jogo, no momento, estar tendendo mais para o Palmeiras um lance pode ter sido decisivo, senão ao menos simbólico para a conquista tricolor. A bola vai saindo pela lateral com posse para o São Paulo, Liziero, cria da base são-paulina, abre os braços para proteger sua saída e acaba atingindo o rosto de Rony com as mãos. No mesmo instante, o técnico Abel Ferreira confronta o meia tricolor de maneira bastante agressiva o que, geralmente acarretaria uma reação contrária da mesma intensidade ou maior.

Ao contrário do que se esperaria, Liziero mostrou maturidade para se desculpar pelo incidente e contemporizar com o português. Diferente fosse, o jogador do São Paulo poderia ter se desconcentrado, entrado em uma confusão e até ter sido expulso prematuramente, já que pelo lance, que aos meus olhos pareceu até sem intenção, ele já havia sido advertido com o cartão amarelo.

O quanto esse autocontrole de Liziero tem relação com a sua formação em Cotia é difícil mensurar, as variáveis são infinitas, a maneira como cada um se desenvolve em um mesmo meio sempre será diferente. Da mesma forma, como tal formação ajuda o clube dentro e fora de campo, com jogadores mais equilibrados e abrindo portas para que eles brilhem no próprio São Paulo e em outros clubes, será coincidência que o Ajax busca tantos são-paulinos? – não é tão simples de medir. Talvez, lances como esses sejam um dos caminhos para nos ajudar a entender como a formação humana, o desenvolvimento da autonomia e maturidade impactam diretamente no resultado dentro de campo. Não que essa seja a única medida do sucesso!

Como defende Gabriel Puópolo, “se eu quero que um jogador renda por bastante tempo, de maneira mais sustentada, preciso estar atento ao desenvolvimento dele como pessoa”.

FutTalks – Entrevista com Gabriel Puopolo

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Final da Champions – A preparação na semana da decisão

Crédito imagem – Chelseafc.com

Quando ouvirem o hino da Champions no sábado, Manchester City e Chelsea estarão finalizando uma longa temporada, onde ambos disputaram quatro competições em um quadro de calendário congestionado com jogos de alta exigência física, tática e mental. Se os Citizens jogaram 61 partidas oficiais, os Blues não estiveram muito distantes do mesmo número com 59 partidas, algo que não parece justificar uma diferença a nível de desgaste acumulado na temporada.

Se o Chelsea é um finalista improvável pelo seu percurso no início da temporada, do outro lado o Manchester City assume a posição de novato em uma final de Champions para finalmente comemorar uma ambicionada conquista desde o início do projeto do Grupo City. Para todos nós treinadores e profissionais do futebol, a semana de preparação para esse cenário parece ser a mais gratificante de todas, uma vez que estamos falando de uma final de Champions League (motivante por si só), o finalizar de um processo de treinamento de 10 meses e o alívio de uma semana “cheia” para descansar ativamente e ajustar os últimos detalhes táticos e estratégicos para a partida.

Polimento e Últimos Ajustes
As alterações logísticas da partida, a final será novamente em Portugal, não influenciarão negativamente a planificação da última semana de treinamentos, podendo dizer inclusive que beneficiarão ambas as equipes com uma viagem mais curta e uma aclimatação muito semelhante para o mesmo período a mesma época do ano na Inglaterra. O City chega a cidade do Porto com a vontade de conquistar o seu “triplete” e o Chelsea carrega na bagagem uma recente final de FA Cup e dois jogos ainda importantes para a sua classificação no campeonato inglês. Nesse ponto talvez, podemos encontrar “citizens e blues” em níveis de concentração e prontidão diferentes, mas uma vez mais, pela qualidade de ambas as equipes e por seu percurso na temporada, ambas deverão chegar a final em um improvável pico de performance.

Na teoria do treinamento desportivo, os modelos de planificação mais tradicionais pressupõem um modelo de ATR, onde o ano de treinamento se divide basicamente em três partes: acumulação, transformação e recuperação. Obviamente que temos que adequar a discussão dos modelos tradicionais para os modelos mais contemporâneos que estão mais intimamente relacionadas as modalidades coletivas e as suas demandas competitivas semanais para a melhor performance. De que maneira as grandes equipes do futebol europeu e as equipes do nosso futebol periodizam o treinamento para que o estado de “fitness” sempre supere o estado de “fadiga” nos momentos competitivos?

De fato, os mesociclos (conjunto de 3-4 microciclos) e os microciclos sempre assumirão a maior importância na planificação, em estruturas que podem significar 2 ou 3 picos de carga ao longo de semanas completas de treinamento de acordo com fases onde se pressupõe uma maior necessidade de treino, ou 1 pico de carga em caso de microciclos ou mesociclos em que a manifestação competitiva se mostra mais presente através de calendários congestionados. Como isso influenciará tanto City quanto Chelsea?

Levando em consideração o cenário da temporada e com ambas as equipes contando com três semanas completas com jogos apenas ao final de semana, é possível esperar que os treinadores irão optar por uma abordagem mais conservadora, com apenas um pico de carga semanal e treinos pautados na qualidade de execução dos exercícios, tanto do ponto de vista técnico e tático quanto do ponto de vista físico (aqui podemos considerar treinamentos com características predominantemente anaeróbias). Podemos supor que em uma semana decisiva, as equipes técnicas que melhor administrarem as suas cargas de treino de forma a evitar a complacência e realizar a manutenção dos atuais níveis de performance, terão mais sucesso em alcançar o dia decisivo com indicadores de performance positivos, e tendo seus jogadores mais “frescos” para a final.

Podemos pensar que em uma última semana de uma temporada de 10 meses, prestes a competir em uma final europeia os treinadores irão realizar uma semana de “tapering”? Aqueles familiarizados ao conceito de tapering, poderão questionar se é possível realizá-lo em esportes de equipe, sendo inclusive questionável do ponto de vista da literatura científica e sua aplicação prática. Pois bem, se consideramos uma equipe como um conjunto de indivíduos, é possível sim aplicar estratégias de tapering individualizado com base nas suas métricas de treinamento e de desempenho ao longo da temporada. Os resultados justificam-se? Se pensarmos que a literatura demonstra melhoras de 0,5% a 6% na performance, e que podemos melhorar os índices de desempenho dos atletas nessa grandeza, podemos afirmar que uma redução planeada da carga de treino na semana prévia a final se justifica, sempre optando por reduzir o volume de treinamento e realizando a manutenção da intensidade do mesmo.

Outros aspectos de potencialização para a final

Para além da redução das cargas de treinamento a nível do volume, uma já habitual rotina nutricional individualizada (tanto na gestão do consumo dos macro e micronutrientes, como na personalização da hidratação) deverá ser adequada a esse ajuste nas rotinas de treinamento, potencializando a recuperação ativa dos atletas e permitindo que se mantenha a prontidão para a competição.

Muito importante para a planificação da semana, é um ajuste das rotinas de monitoramento da qualidade do sono dos atletas, onde é possível identificar necessidades de melhora e assim adequá-los para as necessidades impostas pela semana (viagem para um ambiente novo, ansiedade pré-competitiva). Também fazem parte dessa última semana de treinamento da temporada, um “passar de olhos” pelas habilidades psicológicas dos atletas, com um momento de avaliação, relaxamento e estabelecimento de um planejamento individualizado para a derradeira final, estimulando a autoeficácia e o foco.

De maneira geral, é inquestionável que ambas as equipes estarão no Estádio do Dragão em um momento de ápice competitivo, em que o esforço (já inegociável) não encontrará limites para a conquista do mais ambicionado troféu de clubes. Com dois treinadores experientes e altamente qualificados de cada lado e dois clubes que dispõem  das melhores estruturas e staff do mundo, podemos esperar um elevado nível de competição como já pressupõe o hino que nos convida a acompanhar a Liga dos Campeões ano após ano.

Confira abaixo um exemplo de organização semanal

Exemplo de estruturação da semana de treinos para a final. Adaptado de Owen et al (2017).

Referências

Owen AL, Lago-Peñas C, Gómez M-Á, Mendes B, Dellal A. Analysis of a training mesocycle and positional quantification in elite European soccer players. International Journal of Sports Science & Coaching. 2017;12(5):665-676. doi:10.1177/1747954117727851

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Estaduais no Brasil -Possíveis desdobramentos e benefícios

Crédito imagem – César Greco/Palmeiras

Após a exposição da ideia através da qual se pretende redesenhar algo tradicional no ambiente do futebol brasileiro como os campeonatos estaduais, é natural que surjam questionamentos sobre as consequências advindas da inovação proposta.

Apresentarei nesse último texto, os reflexos imaginados para cada um dos envolvidos no mercado do futebol: Federações; Confederação; clubes maiores; equipes menores; mercado de trabalho; setor de serviços; imprensa; investidores; patrocinadores; fornecedores; redes de televisão; governos municipal, estadual e federal; economia nacional; e, por último, a população em geral.

. Federações: Localizadas em cada um dos estados do país, comandam e organizam a prática do futebol nesses espaços. Imaginando a nova conformação dos campeonatos estaduais, essa redundaria em ganhos consistentes. Afinal, maiores seriam as receitas advindas de registros de clubes e de jogadores; além dos ganhos com as taxas incidentes na organização e realização dos jogos.

. Confederação Brasileira de Futebol: Sediada no Rio de Janeiro e responsável pelo desenvolvimento do esporte no país, a CBF também receberia um considerável aumento de receitas pelo maior número de registros; tanto de clubes quanto de atletas. Sendo que o número de atletas profissionalizados aumentaria exponencialmente. Soma-se a isso, as receitas advindas das taxas incidentes sobre os diferentes eventos esportivos a serem realizados por essa instituição. Por último, a CBF teria maiores receitas para investimentos na organização e premiação dos campeonatos nacionais, além do planejamento das agendas das seleções nacionais.

. Clubes maiores: Além de uma disputa mais enxuta pela menor quantidade de datas, essas equipes que possuem calendários nacionais extensos teriam a possibilidade de adquirir os jogadores que se destacassem nesse campeonato interno de maior abrangência a um custo muito menor do que se fosse necessário garimpar tais valores em outras localidades fora desse estado de origem.

. Clubes menores: Haveria a conquista do sonhado calendário anual e a manutenção do elenco de atletas de forma contínua. Atrelado a isso, ter-se-ia a possibilidade de exposição de seus jogadores em nível estadual, o que facilitaria a realização de negócios entre os clubes participantes. Com isso, podendo acarretar uma elevação nas receitas e resultando na possibilidade de novos investimentos.

. Mercado de Trabalho: Ocorreria a abertura de maiores oportunidades de emprego não apenas para atletas profissionais, mas também para educadores físicos, fisioterapeutas, contadores, administradores, advogados, dentistas, nutricionistas, dentre outras profissões que habitualmente gravitam dentro desse mercado onde se insere o futebol. Seria incrementada a busca por essas ocupações em âmbito local, o que aumentaria a população ativa e reduziria índices de ociosidade desses profissionais graduados que hoje, muitas vezes, estão subaproveitados.

. Setor de serviços: Pelo maior número de partidas durante um tempo mais extenso no decorrer do ano, esse setor da economia seria estimulado a novos investimentos pela necessidade do deslocamento contínuo de torcedores adversários e suas demandas por hospedagem e alimentação. Novos trabalhadores seriam requeridos e novas receitas seriam geradas.

. Imprensa: Estes profissionais seriam requisitados pelo segmento de esportes que se constituiriam em áreas especializadas em cada uma das cidades envolvidas nas disputas. Isso aumentaria a audiência dos canais locais de comunicação, gerando a necessidade da contratação de novos jornalistas e a construção de uma relação mais produtiva com as empresas interessadas em atrelar suas marcas aos clubes de suas cidades.

. Investidores: Realizando um planejamento bem delineado, naturalmente ocorreria o interesse de organizações em investir nesse rentável ambiente do futebol. Para isso, bastaria que existissem regulamentações claras quanto a entrada e saída desses recursos. O interesse em investir no esporte é perene, o que faz com que muitas vezes isso não se concretize, é a falta de regras transparentes das responsabilidades de cada um dos atores envolvidos: clubes e interessados em investir.

. Patrocinadores: Com realização de jogos nas proximidades, certamente, os empresários residentes na cidade desejariam investir (e lucrar) com o apoio aos clubes locais. Assim, quanto mais benéfica a construção de uma parceria, maior seria o interesse em patrocinar uma equipe de futebol.

. Fornecedores: Para estas empresas, o redesenho dos estaduais redundaria em lucros crescentes pela exigência de maiores insumos para a realização de jogos. Organizações que produzam artigos a serem utilizados ou consumidos na prática desse esporte teriam uma grande rentabilidade. Outras, também interessadas nesses ganhos, surgiriam.

. Redes de televisão: É sabido que, no formato atual, os índices de audiência que retratam o interesse do público têm apresentado seguidamente um viés de queda. Com a adoção da sugestão apresentada, a audiência deveria ser ampliada dentro do espaço estadual. Novas adesões aos pay-per-view por parte dos torcedores de clubes menores seriam criadas, algo ainda inexistente. Assim, como o interesse pelas fases decisivas, mais curtas e intensamente disputadas.

. Governos municipal, estadual e federal: O conjunto de instituições da Administração Pública espalhadas pelos diferentes níveis de governos poderiam ter uma maior arrecadação de impostos advinda do aumento no número de partidas; da expansão do setor de serviços; de maiores contratações de profissionais; da ampliação na comercialização de produtos; do incremento no gasto dos clubes com investimentos.

. Economia nacional: Essa seria favorecida pela melhoria nos indicadores de empregos formais e informais com o aumento da população ativa e contribuinte à Previdência nacional; pela diminuição da ociosidade de jovens e adultos; expansão da atividade industrial para o fornecimento de insumos para a prática do esporte; incremento no faturamento de empresas inseridas no mercado do futebol; ampliação dos rendimentos dos profissionais envolvidos; busca por capacitação de profissionais interessados em trabalhar nesse segmento esportivo; investimento em infraestrutura por parte de estados e municípios para cumprirem requisitos mínimos exigidos aos clubes; movimentação do setor de serviços, principalmente hospedagem e alimentação; possibilidade de interrupção ou mesmo reversão parcial do êxodo rural; aumento esperado no percentual de estudantes.

. População em geral: Abertura de novas oportunidades profissionais no interior do país, além do agronegócio; possibilidade de migração para cidades menores com os benefícios similares aos centros urbanos; diminuição do desemprego; redução dos indicadores de violência pela queda na ociosidade de jovens e adultos; possibilidade de reversão da evasão escolar; ampliação da prática do futebol em âmbito local; melhoria dos indicadores de saúde dos praticantes desse esporte.

Imaginar que apenas a exposição dessa ideia possa fazer com que o futebol brasileiro se transforme é uma ilusão da qual não compartilho. A intenção é a de oferecer uma visão mais ampliada desse esporte na configuração estrutural do nosso país. Onde uma observação atenta sob esse aspecto macroeconômico possa proporcionar uma noção do quanto se perde em receitas para o país, simplesmente pela falta de ousadia em se inovar – de uma forma mais planejada e estratégica – em uma atividade econômica para a qual, culturalmente, somos capacitados desde a infância.

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Diferencial do Futebol Brasileiro – O ambiente de aprendizagem

Crédito imagem – Lucas Figueiredo/CBF

Nas últimas semanas, venho escrevendo sobre o que pode ser considerado o grande diferencial do futebol brasileiro, talvez o maior dentre os positivos, comparativamente aos demais países. Esse diferencial refere-se ao período de iniciação esportiva, quando a cultura brasileira favorece a aprendizagem do futebol de uma maneira bastante especial, pelo menos no passado e, ainda em alguns lugares, no presente.

A população infanto-juvenil brasileira, sobretudo os meninos, mas não só, historicamente utilizava grande parte do seu tempo livre para jogar bola. Das mais diferentes maneiras e nos mais diversos espaços disponíveis, o futebol ou algo parecido com ele era a brincadeira predileta da infância de milhões de pessoas. O pensamento, segundo o qual, da quantidade se extrai qualidade pode ser utilizado, mas, na minha opinião, não basta. Para chegarmos ao nível de excelência que chegamos em relação ao futebol mundial, além de uma quantidade enorme de crianças e adolescentes brincando de futebol – e, consequentemente, aprendendo a modalidade – também existiam outros elementos que fizeram de nós, segundo alguns, o “país do futebol”.

Não é correto afirmar que apenas os brasileiros brincavam e brincam de futebol na infância. Em diversas observações, obras biográficas, entrevistas e pesquisas sobre a infância de atletas e ex-atletas ao redor do mundo, é possível encontrar evidências de brincadeiras similares ao futebol praticadas na rua, ou espaços equivalentes. Isso é uma prática quase que global. 

Porém, por que os jogadores e jogadoras brasileiras, de maneira geral, possuem um jeito diferente de jogar futebol e de se relacionarem com a bola? Será que esse período da infância tem relação com isso? O que a pedagogia pode nos explicar?

Bastante! Um exemplo de como a pedagogia pode nos ajudar é por meio da compreensão do conceito de ambiente de aprendizagem. A partir dele podemos destacar alguns pontos que nos diferenciam e nos favorecem para a aprendizagem, particularmente, no nosso caso aqui, do futebol. 

Sabemos que as técnicas corporais advêm da cultura lúdica, isto é, do conhecimento que determinada população possui de seus jogos tradicionais(*). No Brasil, temos o privilégio de termos influências culturais diversas que nos apresentam um repertório de expressão corporal rico, a partir de jogos e danças, especialmente indígenas, africanas e europeias. Essa riqueza cultural faz as crianças brasileiras se movimentarem de diferentes formas, criando diferentes técnicas corporais. Dentre elas estão as técnicas corporais relacionadas ao futebol: correr, gingar, equilibrar-se, saltar, relação com a bola etc.

Outro ponto que nos favorece é o nosso clima, que permite a prática de todas essas brincadeiras ao ar livre o ano todo. Se lembrarmos de Malcolm Gladwell e sua regra das 10.000 horas de prática deliberada para a excelência em determinada atividade, e percebermos como essas práticas lúdicas são capazes de criar conhecimentos e técnicas transferíveis para o futebol formal, percebemos que, enquanto país, temos um ambiente favorável para essa aprendizagem nesse quesito.

Para além de toda essa riqueza cultural de movimentos e a possibilidade de praticá-los o ano todo, temos algumas brincadeiras específicas, particularmente de bola com os pés, que estão bastante presentes na nossa cultura e nos fazem “treinar” gestos assemelhados aos praticados no jogo de futebol formal.

Essas brincadeiras giram em torno da mais tradicional delas, que é a pelada (também conhecida no Brasil afora como rachão, baba, contra, timinho etc.), proporcionando uma quantidade e qualidade de estímulos excepcionais para o desenvolvimento de conhecimentos específicos do futebol, mas não só. Entre as manifestações mais conhecidas dessa brincadeira está o jogo de futebol tradicional (11×11), além dele, em formatos reduzidos (3×3, 5×5, 8×8, golzinho etc.). Orbitando a pelada, encontramos jogos como o bobinho; a rebatida (ou repetida); o controle; 3 dentro, 3 fora; artilheiro; cruzamentos; driblinho; além dos jogos individuais com a bola nos pés.

Reúna todos esses elementos do ambiente de aprendizagem informal chamado Brasil, à prática de milhões de crianças e adolescentes – brincando de futebol – alguns deles por milhares de horas, e teremos uma combinação maravilhosa para o desenvolvimento de grandes talentos. Imagine cenários de “ruas” brasileiras de meados do Século XX, com a população urbana crescente, com a base da pirâmide etária populacional cheia de crianças e adolescentes indo brincar ao ar livre e encontrando no futebol uma forma de satisfazer suas vontades lúdicas. Dezenas dessas crianças, cada uma mais habilidosa que a outra, se encontrando e jogando futebol a tarde toda, até o anoitecer, quando tinham que voltar para a casa. Será que essa experiência não equivale ou mesmo supera os melhores treinos e aulas de futebol em escolas e clubes?

Esse ambiente de aprendizagem brasileiro está em risco. Se em algum dia perdermos essa característica cultural brasileira de sermos apaixonados pelo futebol e pelas brincadeiras ao ar livre, provavelmente nada restará que nos favoreça para a aprendizagem do futebol ou de qualquer outro esporte dessa natureza. Por exemplo, com o crescimento da cultura dos jogos virtuais, as crianças poderão perder grande parte da vontade e tempo de brincar de futebol e daqueles jogos que se assemelham a ele. Que técnicas corporais elas formarão nesse cenário?

Outra ameaça é a projeção de um menor número de crianças e adolescentes em termos proporcionais à população, segundo o IBGE(**). Uma menor quantidade geral de crianças, pode ser transferida para uma menor quantidade fractal, isto é, por grupo infantil, o que prejudica um dos fatores mais ricos para a aprendizagem de um jogo, que é a diversidade de obstáculos e desafios que os demais jogadores colocam para serem superados. Outro fator preocupante é a falta de segurança crescente que tende a impedir cada vez mais as crianças de brincarem em espaços públicos, ao ar livre. 

Acredito que ainda não estamos totalmente tomados por essas ameaças. O Brasil, como ambiente de aprendizagem aplicada ao futebol, ainda pulsa. Podemos perceber atualmente muitas crianças e adolescentes apaixonados pelo jogo de futebol, fazendo dele a sua brincadeira predileta. Especialmente nas periferias dos grandes centros urbanos, nas cidades de interior ou no litoral, o futebol brasileiro raiz ainda sobrevive na cultura lúdica infantil. Do ponto de vista pedagógico não é supérfluo estudar este tema. Acredito que ele tenha sido um grande diferencial para que alguns jogadores brasileiros fossem admirados como gênios e artistas da bola e algumas de nossas equipes pudessem jogar um futebol arte e vencedor por décadas.

Portanto, continuo com a provocação de que estudar a forma como os brasileiros tradicionalmente aprenderam a jogar bola pode salvar o futuro do nosso futebol, mas não só! Pode salvar também a educação deste país! No próximo texto falaremos sobre como uma Pedagogia inspirada nesse ambiente de aprendizagem informal, que o Brasil criou aos montes, pode ensinar muito mais que futebol. Sabemos que ela não é só capaz de produzir grandes craques, pois, por mais admiráveis que sejam, eles não são suficientes para um país; ela pode e deve fazer muito pela educação integral das crianças, adolescentes e jovens brasileiros. E é disso que falaremos no texto da semana que vem.

Até lá!

(*) Veja mais em: Dos jogos tradicionais às técnicas corporais: um estudo a partir das relações entre jogo e cultura lúdica (SCAGLIA, FABIANI e GODOY, 2020). Clique para acessar.

(**) Veja mais em: Site do IBGE – Projeção populacional: diminuição da base da pirâmide etária. Clique para acessar.

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Estaduais no Brasil – Uma ideia apresentada

Crédito imagem – César Greco/Palmeiras

Ainda que seja conhecida a dificuldade de se implementar mudanças em alguns segmentos do nosso país, existe uma necessidade de se enxergar o nosso futebol sob um aspecto mais planejado. Assim, buscarei apresentar o esporte preferido dos brasileiros dentro de uma visão macroeconômica.

O que seria inovador em um redesenho dos nossos campeonatos estaduais? E como transformá-los em algo rentável que gere receitas e crie empregos? Para isso, convido-o a repensar – por alguns instantes – a visão atual do futebol existente no país e ampliar o entendimento sobre como, dentro de em um formato estrategicamente construído, poderia impactar decisivamente na economia a ponto de se transformar em um novo setor.

Analisemos o cenário futebolístico de um município qualquer do interior onde exista, ao menos, um clube que dispute um determinado campeonato estadual. A atividade econômica gerada nesse espaço estende-se por meros cinco meses, sendo que apenas nas últimas oito ou dez semanas – dependendo do desempenho do time na competição – existirão a ocorrência de jogos na cidade. Tal situação se repete nas mais diferentes localidades do país. No restante do ano, os amantes desse esporte localizados em cidades interioranas – excetuando, claro, aqueles que se mantém ativos nas competições nacionais – terão de se contentar em assistir jogos pela TV com a economia local deixando de ser favorecida por esse esporte, pois não há geração de empregos ou produção de receitas de forma continuada.

Em um novo cenário a ser redesenhado para o futebol nacional, haveria uma maior rentabilidade para o interior: através de um maior número de jogos em cidades de diferentes portes; do resgate de históricas rivalidades regionais, hoje latentes; e, pela movimentação econômica advinda do trânsito de milhares de torcedores que precisariam de hotéis, de alimentação e de ingressos para estarem presentes nas partidas distantes de seus municípios. Algo que estimularia os setores locais de serviços, de comércio e que hoje encontram-se completamente desprezados na maior parte do ano com relação à essa atividade específica.

O resgate de muitos desses clubes de futebol em cidades interioranas brasileiras poderia ser inspirado com o que ocorre na NBA, pois nesse esporte, os torcedores norte-americanos cultivam uma rivalidade que respinga nas cidades. As do interior desafiam as maiores em jogos que mobilizam um grande contingente de pessoas durante a temporada e isso movimenta positivamente a economia interna. Para citar apenas um exemplo: No Texas, é grande a disputa entre os times de Houston (Rockets), de San Antonio (Spurs) e de Dallas (Mavericks).

Desconsiderar o papel econômico do segmento esportivo na cadeia produtiva dos diferentes países é uma perspectiva reduzida da realidade em que vivemos e que poderia ser melhorada.

Assim, sabendo que os estados brasileiros são divididos em mesorregiões[1], tomemos por base, uma dessas em qualquer um deles. Nesse recorte territorial, existem várias cidades que possuem times de futebol profissional. Ou seja, já está inserido um potencial esportivo – pouco explorado – de geração de receitas advindas dessa rubrica nesses municípios. Imaginando uma ampliação do campeonato estadual em um formato diferente, outras fontes de renda e de oportunidades poderiam surgir.

Supondo agora, a construção de uma disputa em determinada região de um estado qualquer, essa nova competição poderia se iniciar em maio, após a fase final do campeonato estadual do ano corrente. Inicialmente, com os times existentes dentro das diferentes cidades desse espaço onde todos jogariam contra todos. Ao final do certame, provavelmente no mês de agosto, teríamos a classificação final dessa região e os dois primeiros colocados seguiriam para a continuação da competição.

Sabendo que esse mesmo estado possua outras nove regiões, além dessa citada. Isso permitiria uma nova fase da competição composta por vinte clubes (os campeões e vices de cada uma dessas dez regiões) que deveria ser realizada nos meses subsequentes, por exemplo, de setembro a dezembro.

Após o fim das férias anuais do futebol, a partir da metade do mês de fevereiro do ano subsequente, os cinco melhores colocados disputariam – com os principais clubes (2 a 4, dependendo do estado) – o título de campeão estadual. Com a utilização de até dez datas: seis a oito para o enfrentamento inicial dos clubes participantes (variando conforme o estado); uma para as semifinais e mais uma para a final.

Atendendo assim aos anseios desses clubes maiores que sempre desejaram uma competição regional mais enxuta para poderem ter maior tempo para uma pré-temporada adequada e, principalmente, para focarem nos campeonatos mais rentáveis que ocorrem no decorrer do ano: os nacionais e os internacionais. Todavia, satisfazendo também aos menores que, anualmente, pleiteiam um campeonato mais extenso e com um maior período de atividade.

Como todos os estados têm suas divisões por mesorregiões de planejamento, essa nova perspectiva poderia ser facilmente replicada em outras unidades do país. Claro que seria algo de menor amplitude em Alagoas, Espírito Santo ou Santa Catarina pela menor dimensão territorial, porém, necessariamente mais abrangente em São Paulo, Bahia ou Rio Grande do Sul pelo mesmo motivo. Tudo se acertaria com pequenos ajustes e vontade de inovar para o resgate do verdadeiro futebol brasileiro; aquele que ainda pulsa em cada município do nosso país.

Certamente, essa configuração mais ampliada do futebol brasileiro traria desdobramentos para os diversos envolvidos. Algo a ser discutido no nosso próximo texto.

Estaduais no Brasil -Possíveis desdobramentos e benefícios

[1] Mesorregião é uma subdivisão dos estados brasileiros que congrega diversos municípios de uma área geográfica com similaridades econômicas e sociais, que por sua vez, são subdivididas em microrregiões

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Precisamos falar sobre o interacionismo III – A Pedagogia do Jogo

‘O correr da vida embrulha tudo,

a vida é assim: esquenta e esfria,

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta’

O que ela quer da gente é coragem. Nossas últimas conversas buscaram evidenciar que mesmo a pedagogia aplicada ao esporte não está imune à ‘teoria da curvatura da vara’: ela, que antes pendia às abordagens do paradigma tradicional, de conotações inatistas e empiristas, parece ter sido encurvada a 180º e chegou tão ao outro lado, a ponto de flertar com a revirada a curva e retornar à origem. Por isso, a teoria do conhecimento interacionista se não bem cuidada, refletida e interpretada na prática, materializa outra coisa que não seus pressupostos e, então, o que vigoram são mutações didáticas e metodológicas, como o neotecnicismo e o neoescolanovismo. Embora saibamos que os opostos costumam se atrair, os extremos não são, exatamente, atraentes – no futebol, na pedagogia, na vida. Existem termos (que nem precisam ser meios) que soam mais interessantes.

Estudos mais recentes voltados à subárea da Pedagogia do Esporte consideram que abordagens pautadas no jogo constituem um grupo denominado ‘Game-Based Approaches’, as GBAs. Este grupo reúne modelos de ensino de esportes que abarcam preceitos teóricos do interacionismo pregando superação das dinâmicas previsíveis e analíticas do ensino-aprendizagem tradicional, cada qual com suas especificidades: existe um que se escora nas bases do Ensino dos Jogos Desportivos, elaborada pelo Prof. Júlio Garganta em Portugal; outro, denominado TGfU, ou Teaching Games for Understanding, de origem britânica; há também a Iniciação Esportiva Universal, estruturada pelo Prof. Pablo Juan Greco, da Universidade Federal de Minas Gerais; o CLA, ou Constraints Led-Approaches, braço da pedagogia não-linear; e a Pedagogia do Jogo, tema do papo de hoje.

Nem todo o jogo, na aprendizagem esportiva, caracteriza a Pedagogia do Jogo. Mas a Pedagogia do Jogo preza, em primeiro lugar e, com o perdão da redundância, pelo jogo ‘jogado’, devidamente contextualizado, dotado de um processo organizacional sistêmico, que propicie ambientes de jogo e de aprendizagem pela interação mútua entre o(a) jogador(a), ambiente e as tarefas da atividade. Que requer, por sua vez, empenho – e não desempenho. O jogo é assim, esquenta, esfria, afrouxa, sossega, embrulha, desinquieta, porque o que ele quer da gente é coragem, afinal. Se a licença poética afoita faz Guimarães Rosa se revirar no túmulo, serve (ou tenta), ao menos, para afastar a ideia de que a Pedagogia do Jogo deve ser ‘lúdica’ ou ‘legal’ e abraçar, a todo o custo, a positividade pedagógica, que enxerga qualquer tipo de incômodo como ameaça ao ensino ou o neotecnicismo resultadista e precoce. 

Os ambientes de jogo e de aprendizagem, conduzidos didaticamente pelo(a) treinador(a), devem fomentar tomadas de decisão e autonomia a quem joga pela lógica da imanência: é ela quem, por meio do princípio metafísico da transcendência, que configura a natureza autotélica do jogo. O jogo, pela Pedagogia do Jogo, não tem um fim em si mesmo: vislumbra, antes de mais nada, explorar o que está por vir, imprevisível que é. Ao jogar, (nos) descobrimos.

Ok, muito bonito. Mas como construir esses ambientes ‘na prática’? Identificar as ‘fontes’ de onde a Pedagogia do Jogo ‘bebe’ nos parece um caminho. O Prof. Roberto Rodrigues Paes, uma das grandes autoridades dos estudos sobre Pedagogia do Esporte em âmbito nacional costuma dizer que, além de intervém no ensino, vivência, aprendizagem e treinamento das práticas esportivas em suas várias manifestações e sentidos, o(a) pedagoga(a) esportivo(a) tem a incumbência de interpretar as teorias do conhecimento que sustentam as práticas pedagógicas, de forma minimamente coerente.  O que significa que a aplicação da Pedagogia do Jogo – como de qualquer outro modelo de ensino – pressupõe compreender que epistemologias, teorias, autores e autoras a sustentam e quais as nuances de sua origem.

A Pedagogia do Jogo, pois bem, nasceu no meio da rua e nela muitas das respostas à sua aplicabilidade são encontradas. Lá se vão quase quatro décadas desde a hipótese aventada pelo Prof. João Batista Freire nos corredores da, então recém-construída Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas: a rua como riquíssimo ambiente de aprendizagem esportiva. Dos jogos e brincadeiras tradicionais, pertencentes à cultura lúdica infantil, desprovida de regras, havia algo ainda não identificado pelo pragmatismo da intervenção adulta: uma pedagogia. A pedagogia da rua.

Atenção, contudo: a rua, propositalmente em itálico, não é, simplesmente, aquela da minha ou da sua casa, a via pública de circulação, rodeada de casas, prédios e estabelecimentos comerciais. Pode até ser, mas não necessariamente. A rua, na verdade, é o terreno baldio. E a garagem. E o quintal. E a terra batida. E o mato abandonado. E o asfalto remendado. E o campinho de areia. Até a quadra da escola ou de condomínio fechado pode ser rua. Porque ela, no fim das contas, não é lócus e, sim, metáfora. A rua é o ambiente informal, construído pelos(as) próprios(as) jogadores(as), que contempla desequilíbrio, imprevisibilidade e desafio inerentes à natureza do jogo. Desconfio que o Hudson Martins tenha falado algo parecido por aqui, dia desses.

A pedagogia da rua, portanto, está no Henrique, quando ele rebate a bola na parede para agarrá-la, na sequência, como o goleiro do seu time. Ou quando ele propõe à sua irmã, Maria Júlia, uma competição de embaixadinhas. Da informalidade, significativas oportunidades de aprendizagem emergiram e contribuíram um bocado para formação e constituição de saberes dos atletas de futebol, de Pelé a Neymar, de Sissi à Marta.

O anseio em controlar o incontrolável e racionalizar e simplificar o complexo faz com que, mesmo os(as) bem-intencionados(as) deturpem o sentido da rua e das

pedagogias de conotação interacionista. O ambiente informal da rua não é reproduzido, pura e simplesmente, nas categorias de base de um clube voltado ao alto rendimento esportivo – nem tanto pela qualidade do terreno, o gramado aparado, por vezes sintético, bem menos problemático, bastante pela vigilância simbólica do(a) treinador(a) que violenta a espontaneidade. Há também quem associe a rua, de forma pejorativa, ao anarquismo pedagógico. Conceitualmente, nem seria tão errado fazê-lo, visto que o jogo, em essência, é anárquico, caótico e sistêmico, como alude a pedagogia não-linear.

A rua é, sim, libertária: porque articula, entre os pares, possibilidades tático-técnicas ilimitadas e experiências que inflamam, também, a formação moral. Delas, a Pedagogia do Jogo fundamenta seus vínculos com a pedagogia freiriana, não a do supracitado João Batista e, sim, a de Paulo, patrono da educação brasileira, pelo conceito dos ‘temas geradores’, oriundos do método voltado ao processo de alfabetização.

Aí, entra o(a) treinador(a): a partir dos jogos tradicionais de bola com os pés, levantar competências e habilidades demonstradas neste universo conhecido e cheio de significados para, em seguida, imprimir a compreensão dos princípios operacionais ofensivos e defensivos e as invariantes que regem um jogo esportivo coletivo, como o futebol. Mais: estar comprometido(a) com a democratização do ensino e com a práxis (prática pedagógica intencional, provida de diálogo, afeto e sentido teórico) para que os indivíduos não apenas joguem futebol, mas pensem, ajam, sintam melhor, entendendo a realidade social, econômica e histórica da qual os(as) jogadores(as) fazem parte. Que contribua para que encontrem, em suma, seu lugar no mundo.

Por fim, qualquer conotação idílica e romântica atribuída à Pedagogia do Jogo, é descabida: o que foi, por muito tempo, hipótese, está hoje em ‘outro patamar’, chancelada que foi pela ciência. A mais recente das investigações científicas, inclusive, ratifica as possibilidades e potencialidades técnico-táticas advindas do bobinho, da rebatida e do artilheiro, jogos e brincadeira tradicionais da cultura lúdica. Uma pedagogia esportiva, portanto, regido pela teoria epistemológica interacionista, centrada no aluno, pautada no jogo e inspirado na pedagogia da rua é factível. 

O que ele quer da gente é coragem.