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Luiz Greco – coordenador do Santos B

Pela trajetória profissional ou pelo local em que trabalha atualmente, Luiz Greco, 55, tinha tudo para ser uma pessoa apegada a tradições. Formado em educação física pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1983, ele acumula 36 anos de ocupações vinculadas ao futebol e hoje coordena o time B do Santos, um dos clubes nacionais com maior lastro de investimento na base, casa que já ajudou a moldar talentos como Diego, Robinho, Paulo Henrique Ganso, Neymar e Pelé.

Greco, contudo, não é um profissional saudosista ou apegado a tradições. Desde que ingressou na área acadêmica, sempre participou de seminários, palestras e cursos em busca de atualização. Além disso, não vê futebol com um direcionamento ao passado. Quando critica o atual nível técnico e a escassez de talentos em âmbito nacional, por exemplo, faz comparações com os modelos aplicados em outras partes do mundo e as necessidades do jogo de hoje.

Em entrevista à Universidade do Futebol, Greco falou um pouco sobre o conhecimento acumulado em tantos anos militando na área e as impressões sobre o Santos, time em que ele trabalha desde março de 2017.

Confira a seguir os principais trechos da conversa:

Universidade do Futebol – Qual é sua opinião sobre a qualidade de jogo no futebol brasileiro atual?

Luiz Greco – Estamos ainda abaixo do ideal. Creio que com o potencial técnico dos nossos atletas a qualidade do jogo pode melhorar sensivelmente. Cada vez mais, sentimos uma nova geração de treinadores atuando nas principais equipes com novas ideias, trabalho de qualidade e uma preparação melhor para encarar as dificuldades da profissão.

Universidade do Futebol – O futebol brasileiro hoje tem menos talento do que antigamente?

Luiz Greco – Ainda vejo talentos no futebol brasileiro, mas não revelamos tanto quanto antes. Vejo o Brasil como um país abençoado do ponto de vista étnico, com a mistura ideal de raças para o desenvolvimento do atleta de futebol, mas precisamos evoluir na parte estrutural de escolas de futebol e clubes e na formação acadêmica de todas as pessoas envolvidas.

Universidade do Futebol – De maneira geral, como você avalia o trabalho realizado em categorias de base no Brasil? Existem pontos que podem ser aprimorados? Se sim, quais?

Luiz Greco – Avalio como positivo o trabalho das categorias de base no Brasil, com melhorias em vários aspectos que são muito importantes para o desenvolvimento de atletas. Temos hoje, principalmente nas regiões sudeste e sul, equipes com trabalhos bem estruturados em suas divisões de base, com boas instalações e profissionais com bom perfil para desempenho de suas funções. Principais pontos a serem melhorados: realização de cursos, seminários e clínicas nas regiões centro-oeste, nordeste e norte; intercâmbio de ideias com profissionais de renome internacional em eventos organizados por CBF e federações; participação de equipes brasileiras em competições internacionais para categorias de formação.

Universidade do Futebol – Quais são suas principais responsabilidades e atribuições no Santos?

Luiz Greco – Estou no Santos desde 27 de março deste ano – ou seja, há aproximadamente cinco meses. Sou responsável pela gestão técnica da equipe B, coordenando a comissão técnica. Cuido também de toda parte burocrática para participação de nossos atletas em competições oficiais, contato inicial na contratação de atletas, planejamento de viagens nas competições e amistosos que participamos, além do contato permanente com o superintendente de futebol do clube sobre performance do elenco em treinos e jogos.

Divulgação: Santos
Divulgação/Santos

Universidade do Futebol – Como é a relação entre categorias de base e departamento profissional no Santos? Como vocês trabalham a transição entre formação e alto rendimento?

Luiz Greco – O Santos tem em seu DNA a valorização de atletas de categorias de formação. Desde Pelé, passando por Robinho, Diego, Paulo Henrique Ganso, Gabigol e Neymar, o clube sempre foi referência nacional. Com essa preocupação em continuar revelando atletas, em 2015 foi criada a categoria sub-23, também chamada de Santos B, para que a transição base-profissional seja otimizada e tenha maior aproveitamento. Assim, essa categoria trabalha alinhada à filosofia de trabalho da equipe principal, no mesmo CT, com reuniões semanais entre comissões técnicas visando a utilização dos jogadores que mais se destacam. Também há atividades conjuntas e a presença de membros da comissão técnica principal em partidas da equipe B.

Universidade do Futebol – Que importância a categoria sub-23 tem para os clubes? Quais são as dificuldades de implantação?

Luiz Greco – O aspecto mais relevante é de preparação, maturação e lapidação dos atletas revelados na base. Sabemos que o amadurecimento total de um jovem depende de uma série de fatores, que não envolve só aspectos técnicos, físicos, táticos, mas principalmente os aspectos mentais, emocionais e sociais. Por isso, um trabalho bem integrado pode otimizar tudo que é realizado até o sub-20. As principais dificuldades de implantação disso estão atribuídas a investimentos em salários e encargos de uma comissão técnica e de atletas. Outro fator é a falta de um calendário nacional específico. A partir do aumento de equipes profissionais criando versões sub-23, a CBF poderia organizar um torneio nacional. No Santos, usamos a Copa Paulista, que vai de julho a novembro, como competição oficial da temporada. Pensando em 2018, estamos iniciando tratativas para participação em amistosos no exterior durante o primeiro semestre.

Universidade do Futebol – Como o clube lida com a expectativa de promoção dos atletas que estão na equipe sub-23?

Luiz Greco – Procuramos trabalhar a expectativa de oportunidade de forma individual e coletiva com os nossos atletas utilizando profissionais de todos os departamentos, como área sociopedagógica e área psicológica do clube. Fazemos também palestras com ex-atletas, procurando passar para eles as experiências vividas no clube e durante suas trajetórias. Com isso, eles conseguem lidar mais com a pressão e com a competitividade acirrada.

Universidade do Futebol – Quais são os principais desafios que os jovens enfrentam nessa transição base-profissional?

Luiz Greco – Os principais desafios estão sempre relacionados à série de privações que um atleta de futebol profissional deve ter em relação a um jovem de qualquer outra atividade profissional. O corpo é o instrumento de trabalho deles, e isso demanda foco e determinação em todas as atividades. Além da boa alimentação, das horas de descanso, é preciso saber se comportar com agentes externos, como torcida, redes sociais, amigos e família, para conseguir se consolidar.

Universidade do Futebol – Como ocorre a integração entre profissionais que fazem parte da comissão técnica?

Luiz Greco – Como o trabalho do sub-23 é integrado ao profissional, todos os profissionais atuam sempre em sintonia com nossa comissão técnica e detectam em conjunto as situações em que a abordagem a determinado atleta é necessária.

Universidade do Futebol – O clube oferece alguma orientação de carreira aos jovens jogadores? Se sim, como acontece esse processo?

Luiz Greco – Principalmente nas categorias sub-11, sub-13, sub-15 e sub-17 há um acompanhamento das atividades escolares através do departamento sociopedagógico e psicológico. Palestras sobre temas como sexo e drogas, atividades acadêmicas, cursos profissionalizantes, etc., procurando conscientizar a todos os jovens sobre seu futuro após a carreira no futebol. Também no sub-20 e no sub-23 oferecemos palestras sobre investimentos financeiros e leis que regem contratos com agentes ou intermediários, visando conscientizá-los da importância de utilizar os recursos da melhor forma, pois a carreira no futebol é muito curta e imprevisível.

Universidade do Futebol – Na sua experiência, quais são os pontos positivos e negativos da influência de agentes externos na reta final do processo de formação?

Luiz Greco – A influência de agentes externos na reta final do processo de formação é tratada com muita importância no clube. Procuramos estar sempre em contato constante com familiares, agentes e representantes dos atletas, já que eles fazem parte do dia a dia e podem contribuir muito para melhores resultados. Com esse feedback contínuo, podemos envolver os outros departamentos para melhor orientação.

Universidade do Futebol – Em sua opinião, deve haver um modelo de jogo em categorias de base que seja similar ao que é proposto no profissional?

Luiz Greco – Creio que nas categorias de base os atletas devem vivenciar vários modelos de jogo para que sua formação seja bem diversificada e ofereça uma consciência tática cada vez maior. A partir das categorias sub-20 e sub-23, com um modelo similar ao do grupo principal, a transição desses atletas certamente pode ser otimizada. Infelizmente, a mudança excessiva de técnicos nas equipes profissionais atrapalha muito na implantação de um modelo a ser seguido por outras categorias.

Universidade do Futebol – Do que você mais gosta no exercício do seu trabalho?

Luiz Greco – Vivo o futebol intensamente há 36 anos. Gosto de tudo que envolve o trabalho: as emoções de uma partida, o acompanhamento do dia a dia dos atletas visando uma melhor performance, a contribuição de toda experiência acumulada…enfim, é ter o privilégio de fazer o que eu gosto, mas com muita dedicação.

Universidade do Futebol – No âmbito da capacitação profissional, você está satisfeito ou planeja próximos passos?

Luiz Greco – O ser humano nunca pode estar satisfeito no âmbito da capacitação profissional. Deve estar em constante processo de atualização de conhecimentos em sua área, como na vida em geral. Quero sempre estar cada vez mais preparado para contribuir da melhor forma possível ao clube a que pertenço.

Universidade do Futebol – Quais são seus sonhos?

Luiz Greco – Meus sonhos são de ser, cada vez mais, uma pessoa feliz com minha família, com meu próximo, consciente de todos os aspectos morais, de integridade, amizade, respeito e fraternidade. Procurar fazer da melhor maneira a minha missão nesta vida.

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O futebol não tem explicação?

Um dos hábitos que tenho quando vou observar e estudar o jogo de futebol é olhar pelo aspecto organizacional do jogo e da equipe. E, quando falo de organização falo de interações ao nível do jogo (equipe A x equipe B) e dentro de cada equipe envolvida (jogadores x treinador). No jogo sabemos que há 2 equipes tentando impor/ressaltar sua forma de jogar sobre a outra. E nessa “batalha” encontramos interações entre jogadores, sistemas, formas de jogar, etc. Uma relação que necessita ser melhor estudada pela sua característica extremamente complexa. Além de ter diversos fatores e variáveis que interferem no desenrolar da/até a partida, cada equipe tem seu propósito e interesse naquele confronto.

Em cada equipe, por sua vez, temos uma interação entre jogador(es) e treinador, uma relação entre aquilo que o(s) atleta(s) produz(em) em campo e as orientações (físicas, técnicas e tática/estratégicas) que são dadas a ele(s) e para a equipe. Cada jogador, por sua vez, tem sua própria leitura e forma de resolver os problemas, e o mesmo é verdade para o treinador (e quando falo de treinador falo de qualquer membro da comissão técnica). Depois disso penso sobre o tipo de treino (exercícios, instruções, conselhos, etc) que ele deve estar oferecendo, e ofertando para a equipe/atletas a fim de alcançar aquele determinado tipo de comportamento em campo. Sei que são diversos parâmetros para se entender, ou tentar, o jogo e a equipe.

Mas quando se mais estuda o futebol, mais ele se torna interessante e misterioso. Alguns chegam a dizer que “o futebol não tem explicação”. Todavia, não podemos esquecer que só porque não encontramos uma explicação, não significa que não há uma. No intuito de tentar justificar minha explanação, vos escrevo.

Penso o futebol como uma mistura homogênea entre arte e ciência. Arte pelo lado dos jogadores (criatividade/improviso) e ciência pelo lado do treinador (o qual deveria interpretar assim, com muito estudo e discernimento entre certo e errado). Contudo, como qualquer profissão, o futebol é feito por caminhos que precisam ser escolhidos, por caminhos obrigatórios. Se torna imprescindível escolher o trajeto a se seguir. Qual linha metodológica? Que tipo de liderança vai ser exercida? Como vai se jogar? Qual a intencionalidade de cada ação?, etc. Apesar disso, e ao mesmo tempo, se torna necessário entender a diferença entre o jogo e o jogar. Cada equipe leva o seu “Jogar” para o confronto e o “Jogo” é a resultante dessa relação (com “J” maiúsculo, pois cada jogo é um “Jogo” específico). Agora, sobre o jogo não se pode ter o domínio completo, mas geralmente se sobrepõe a “melhor” organização, o “melhor” jogar (“melhor” com aspas pois o seu significado pode ser diferente para cada interpretação).

Fala-se muito que o futebol é um jogo imprevisível. Na verdade comenta-se muito sobre algo que não se conhece, aliás, quem mais comenta são aqueles que não estão envolvidos diretamente com o processo de fabricação do jogo e do jogar. No jogo de futebol os encontros são aleatórios. Mas quando conhecemos bem as virtudes e as vulnerabilidades de cada parte envolvida, o resultado desse encontro pode ser um tanto previsível. E de fato, quanto mais bem treinadas as equipes, mais há a probabilidade de exibirem padrões de comportamentos táticos individuais e coletivos. O que não seria o mesmo em dizer que: “equipes bem treinadas são mais previsíveis”. Quanto mais “bem treinada” é uma equipe, melhor é a sua organização coletiva e individual.

Ou seja, maior é seu nível de organização. Não falo de organização no sentido de ordem, de ordenação, de mecanização, robotização, etc. Falo em organização no sentido de todos (jogadores e treinador) estarem livres para fazerem o seu melhor no jogo e no jogar. Todavia, dentro de uma estrutura maior, um bem maior que é a equipe como um todo, a instituição. Enfim, organização de jogo e da equipe é assunto muito complexo, que já escrevi e ainda escreverei muito sobre ele (pois me interessa muito e ainda tenho muitas dúvidas nesse tema).

A equipe “bem treinada”, que referi anteriormente, diz respeito aos treinos serem estruturados com preceitos científicos e metodológicos. Oferecendo, assim, a possibilidade de criar uma organização coletiva no qual o individual se sobressaia, com toda a sua criatividade, dentro de uma proposta coletiva, um bem maior, que é a equipe, o clube, a instituição.

Por isso insisto em falar que o futebol é um jogo complexo, e precisamos tratá-lo assim. Com a devida preocupação e o interesse de cada vez melhor entendê-lo. Só assim haverá evolução e desenvolvimento do nosso jogar. Por isso, acho importante estudar o jogo e o jogar. E a medida que você vai “dominando” as variáveis que envolvem o jogo, você acaba se importando mais em compreender tudo aquilo que envolve o futebol. Um paradoxo onde quando mais se estuda, mais se precisa estudar. Assim, com o passar do tempo, e com a evolução do seu nível de compreensão, tudo acaba sendo preocupação para seu entendimento. E isso acontece muito quando na elaboração do treino e na planificação daquilo que se pretende com a equipe.

Com o passar do tempo, fica mais difícil e demorado elaborar e criar exercícios, bem como na lógica eles serão inseridos. Pois a complexidade do jogo/jogar é diretamente proporcional ao nível que ele é apresentado. Quanto maior o nível técnico/tático do jogo/jogar, maior a complexidade do jogo/jogar.

Se você desconhece uma coisa e quer dominá-la, a tendência que não dê certo é grande. Verdade seja dita, não há nada mais prejudicial que um incompetente com iniciativa (Mario  S. Cortella). E, infelizmente, é o que a maioria dos treinadores querem: dominar e regular problemas dos quais não tem nenhum conhecimento sobre eles. Ao meu ver, é preciso dar mais importância ao treino e sua elaboração. O futebol é um jogo de hábitos que se adquire na ação, na prática, no treino. O treino é tudo. Se quisermos chegar em um nível de competitividade maior e melhor ou, até mesmo, não ficar vulnerável a qualquer desvio ou tropeço de resultado, precisamos dar mais e melhor relevância ao treino e a todo o processo metodológico.

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Pico de forma x Pico do jogar diário

No futebol, algumas barreiras ainda tomam conta, mesmo que algumas pessoas tentam transcender paradigmas estabelecidos. Inovar e ter coragem soa como um “marco utópico” para quem quer construir novos caminhos, mas é possível.

Relativamente à construção metodológica, há considerações interessantes em todos os lados, em todas as escolas. Muitas tendências foram evoluindo, ganhando corpo, originárias de ciências mais clássicas e complementadas com novas ciências. Essa junção pode ser saudável se uma transcendência conceitual for bem entendida.

Assim, deve-se diminuir o julgamento de ideias, e sim ter ideias e convicções processuais. Construir um caminho próprio, depois de considerar o que é sustentável, o que vale a pena e é realizável dentro do ambiente, é um ato contextual, real e atual.

Então, a tese de que a capacidade física de uma equipa depende diretamente da carga de trabalho realizada na pré-temporada, as ideias das cargas, do volume e intensidade, são todas consideradas e discutíveis, juntamente com o chamado pico de forma; mas será que uma equipa pode ou não ser programada para ter o chamado “pico” de forma, em certo ponto da temporada? Será que essa equipe chegará naquela final da competição que é o ponto do pico de forma?

Para a teoria clássica sim, pois é impossível manter a mesma forma em alto-nível durante toda a época desportiva, por isso devem ser planejados em alguns períodos os famosos picos de forma que surgem após momentos de elevada preparação física ou a preferência por alguma capacidade física.

Evidente que a dimensão física é importante, mas definir picos de forma em um período determinado parece uma utopia, pois é difícil prever como a equipe estará para o próximo treino, imagine para um período futuro de três meses ou mais. Gerir essa previsão futura do tempo pode ser um grave problema para uma comissão técnica. O futebol não oferece um cenário seguro e controlado, por isso, o “pico do jogar diário” pode representar algo mais significativo para a evolução e prevenção da equipe.

Uma equipe antes que esperar ou perspectivar seus picos de forma, deve criar ao longo da temporada, semanalmente, diariamente, uma regularidade de jogo em todas as dimensões do processo. O importante é definir, desde o primeiro dia os patamares organizacionais de jogo e uma lógica de treino que estabilize e progrida a forma de jogar. E o mistério para esta interação e unidade tático-técnica-física-pscicológica reside na identificação da qualidade que a intensidade relativa tem em cada dia de treinamento e não no volume de trabalho.

Sem picos de forma, com intensidade relativa permanente, do primeiro ao último dia, sendo uma intensidade relativa a cada dia da semana de treinamento, é uma das novas tendências do treinamento. Acredita-se nessa intensidade do trabalho do primeiro ao último dia do ano.  A forma de jogar da equipe vai gerar desempenhos específicos suscitados pela regularidade criada no dia a dia, que claro, evidente, pode acontecer algumas perturbações, mas que garanta sempre uma regularidade que deixe a equipe mais perto da vitória em todos os jogos.

O pico de forma que visa apenas o desenvolvimento físico, das capacidades físicas, deve ser substituído pelo pico do jogar diário, que também considera e muito a dimensão física, mas aponta para patamares progressivos de desempenhos desenvolvidos pela qualidade do processo. Uma equipe de futebol deve buscar a evolução constante, deve ser muito melhor a cada dia, e todos os dias progressões devem acontecer. Como o calendário no futebol dura de nove a dez meses, o sucesso dependerá dos resultados nos jogos, e que cada jogo seja criado um rendimento superior ou relativo que por vezes tem suas quedas. Isso exige regularidade no desempenho que possibilite vencer o máximo que puder e, portanto viver uma lógica de treino semanal e diária. Então, falar em “picos de forma” pode ser uma precipitação metodológica, especialmente para um esporte coletivo que tem no dia a dia o maior e melhor remédio natural que pode existir.

Abraços a todos e até a próxima quarta!

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Manutenção da posse de bola, um conceito a ser analisado

O jogo de futebol é desenvolvido através de uma ocupação dinâmica espacial onde duas equipes buscam a todo o momento atacar e se defender de forma equilibrada, coesa e coordenada.

Segundo Guardiola (Perarnau, 2017), existem dois tipos de treinadores: um que dá a bola ao adversário e outro que procura ficar com a bola, construindo o jogo.

Ao tentar propor o jogo dentro da organização ofensiva, uma equipe de futebol tem como uma das armas a permanência da posse de bola, mantendo ela sob seu controle para construir as jogadas.

Contudo, ao manter a bola sob seu controle, não necessariamente garante sucesso a equipe pois o jogo de futebol é decido pelo número de gols marcados e não pela quantidade de passe.

Muitos treinadores estão confundindo ficar com a bola, com agredir o adversário com a posse de bola. Passes lentos, desconectados, sem objetivos claros, apenas retarda o jogo e possibilita uma precisa organização defensiva por parte do adversário.

Dentro do modelo de jogo do treinador, os conceitos e ideias devem ser bem claros para os jogadores, para que no dia a dia se desenvolva -dentro da dinâmica de treinamentos-, uma gama de atividades que viabilizam a dinâmica troca de passes com objetivo bem pontuais.

Conceitos como amplitude, profundidade, mobilidade, passe apoiado, entre outros quando estimulados e transferidos para situações de jogo, aumentam a chance de sucesso dentro do jogo coletivo na plataforma de jogo escolhida.

A posse de bola com objetivos.

Para os jogadores, quanto mais claro for o objetivo de se manter a bola, maior será a chance de êxito nas ações ofensivas.

Para chegar ao gol adversário necessita de estratégia e coordenação entre os membros da equipe.

Um time que busca chegar ao gol propondo o jogo através da dinâmica de passe, construindo jogada por jogada, precisa definir qual estratégia que escolherá para conseguir atingir a meta do rival.

Existem diversas formas de se organizar uma equipe ofensivamente para, através de um jogo apoiado, enganar o adversário e de forma dinâmica ocupar os espaços e vencer sua respectiva organização defensiva.

Quanto mais dinâmica for a troca de corredores (central e laterais), mais problemas serão causados para o sistema defensivo do adversário, dificultando a defesa a evitar que a bola chegue ao seu gol.

Para finalizar a jogada, a equipe pode usar conceitos essenciais para vencer a linha defensiva. Dentre os mais utilizados são: as infiltrações, ultrapassagens e mobilidade.

 A busca incessante pela superioridade numérica para as ações ofensivas (seja nos corredores laterais ou centrais) acaba sendo a principal arma para a equipe que propõe o jogo através de uma dinâmica de passes coordenada e sincronizada.

 A compactação ofensiva é essencial para a busca dessa superioridade numérica e por consequência da finalização da jogada. Contudo, também é muito importante para o pressing, após uma perda de bola, dentro da transição defensiva.

Mas sobre isso, abordaremos em outro momento, até…

*É treinador de futebol – Licença A-CBF

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João Saldanha entre livros

No centenário de nascimento de João Saldanha, a Biblioteca e Midiateca do Centro de Referência do Futebol Brasileiro do Museu do Futebol listou no seu acervo a bibliografia básica para quem deseja conhecer melhor o estilo e as múltiplas facetas deste mito do futebol, do jornalismo e da vida brasileira.

Acervo Jornal Última Hora | Arquivo Público do Estado de São Paulo
Acervo Jornal Última Hora | Arquivo Público do Estado de São Paulo

 

“Fui contrabandista de armas aos seis anos de idade, líder estudantil aos 20, dono de cartório aos 33, membro do Partido Comunista Brasileiro a vida toda. Também fui jogador e técnico de futebol, campeão de basquete, jornalista, comentarista de rádio e televisão, analista de escola de samba, co-autor de enciclopédia, ator de cinema, candidato a vice-prefeito. Participei da Grande Marcha com Mao Tsé-tung, desembarquei na Normandia com Montgomery. Casei-me cinco vezes. Briguei muito e nunca levei a pior. Assisti a todas as Copas do Mundo (…) Parece que vivi várias vidas, sempre entre a lenda e a realidade”.

Para quem ousa não conhecer João Saldanha, essa poderia ser uma apresentação. Pelo menos foi assim que João Máximo imaginou o amigo jornalista e colega botafoguense, no céu, apresentando parte de seu currículo para um burocrático São Pedro, isso logo na abertura da biografia João Saldanha: sobre nuvens de fantasia.

No centenário de nascimento de João Saldanha, a Biblioteca e Midiateca do CRFB listou no seu acervo a bibliografia básica para quem deseja conhecer melhor o estilo e as múltiplas facetas deste mito do futebol, do jornalismo e da vida brasileira.

As sugestões de títulos foram divididas em crônicas e biografias. Nas crônicas de Saldanha transborda um texto leve e inteligente, por vezes, sarcástico com os cartolas arrogantes, mas, com frequência, tecendo elogios à coragem do jogador brasileiro e incentivando o amor pelo futebol-arte. Já nas biografias, vê-se a oportunidade de mergulhar nas muitas vidas de alguém que ficou famoso pelas histórias fantásticas, exageradas e inacreditáveis, mas que nunca foram desmentidas.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

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O trabalho da Mulher no futebol do Brasil

O futebol feminino ganhou destaque nesta semana no noticiário esportivo. Infelizmente tratou da demissão da treinadora da seleção feminina, Emily Lima. O fato leva a uma reflexão maior sobre a questão de gêneros, não apenas na modalidade, mas também dentro da gestão do esporte.

Dentro da importância que o esporte tem para o país e do debate sobre o crescimento e desenvolvimento do futebol feminino, é preciso construir estruturas para que isso aconteça de maneira sustentável. A confederação, como entidade de administração do esporte, tem o dever de proteger e difundir a modalidade. Possui, portanto, grande responsabilidade de trabalhar a questão do gênero a fim de fornecer o melhor cenário para que isso, de fato, aconteça.

Dentro deste cenário, está o incentivo para uma maior presença das mulheres nas comissões técnicas das equipes, e também envolvidas com a gestão do futebol. Nesse sentido, as seleções – tanto de base como a principal – são fundamentais para a condução deste trabalho. Quanto mais exemplos vierem de cima, ou seja, da seleção nacional, maior será o incentivo para que mais mulheres se envolvam com o jogo.

Foto: Divulgação
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Há quem diga que uma seleção nacional não pode servir de espaço para ser este exemplo, quer seja porque não há tempo para isso, ou que a demanda por resultados é maior. Ledo engano. A equipe feminina deve estar dentro de um projeto muito maior que é a do crescimento e desenvolvimento sustentável da categoria. A presença de uma treinadora à frente da equipe principal, com o suporte de todo o plantel, torna o acesso ao futebol feminino mais universal. Ademais, em função de todos os preconceitos e estereótipos que rodeiam o futebol no Brasil, proteger o trabalho destes temas dentro do futebol feminino talvez seja a única maneira para se obter este crescimento e desenvolvimento sustentável que tanto se almeja em termos de gênero. Dessa maneira, cumpre-se – em parte – o papel da federação, que é o de proteger e difundir o esporte, dentro de todas as categorias.

Com tudo isso, é preciso deixar bem claro o que se quer com o futebol feminino em nível nacional e dentro das seleções. O trabalho contínuo e de longo prazo levará ao melhor resultado. Em razão do seu alcance atual e mobilização, não pode ser espaço para conflitos de interesses. O interesse, aliás, tem que ser único: o futebol feminino do Brasil.

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As consequências da pressão

O 1˚ desafio no jogo e na equipe de futebol é de organização, é de “tática”. E quando falo de tática, falo de coletivo, falo de equipe. O futebol é um jogo coletivo, uma afirmação que insistimos em “esquecer”. A prática desse esporte é coletiva. Mas, por hora, ficamos tão abismados com as repostas que alguns jogadores dão em campo que logo pensamos que a solução está no individual, na “criatividade do jogador brasileiro”. Que individualmente podemos resolver toda e qualquer adversidade que o jogo oferece. “Com vontade e técnica, nossos problemas estarão resolvidos”. É preciso parar para pensar. É preciso parar para pensar, de forma idêntica, em alguns jargões que se usam e nem sempre se conhecem os seus verdadeiros sentidos/significados e os efeitos que eles trazem, ou podem trazer. Não pretendo aqui ter o atrevimento de “saber qual o significado” ou o resultado desse tipo de pensamento com exatidão. Porém, ambiciono levantar algumas reflexões sobre aquilo que observo acontecer em algumas partidas e/ou equipes.

“A melhor defesa é o ataque” . Sempre escutei essa frase com o sentido de atacar sempre o adversário. Mas e quando não temos a bola? Sempre pensei que seria para pressionar e tentar recuperar, constantemente, em qualquer ponto e a qualquer custo, a bola. Contudo, com alguns anos de prática e observação, fazendo frequentemente reflexões e anotações (principalmente para ter uma comparação e um estudo a longo prazo, anos…), ou seja, pensando muito sobre isso, percebo que a frase mais apropriada seria: “A melhor forma de não defender bem, é atacando”. No sentido de “não saber defender bem”. Quando não se sabe defender bem, se ataca (com ou sem bola). Defender bem no sentido de demonstrar que sabe defender, que domina este momento da partida. Que a equipe está preparada para não ter a bola. Não quero entrar aqui nas formas de defender (zonal, individual, etc.), mas defender bem seria gerenciar o espaço que o adversário pretende/pode usar. No momento que o adversário tem a posse e o controle dela (estando apta a circular a bola no campo ofensivo) a equipe que está defendendo sabe evitar a progressão do adversário/bola no campo (espaço) e saber proteger (o quanto antes) a sua meta.

Como citado anteriormente, o jargão “A melhor defesa é o ataque” me remete ao pressing/pressão alta constante quando não se tem a bola. Só para constar, penso que a diferença entre “pressing” e “pressão” está na forma que eles são feitos, coletiva ou individualmente, respectivamente. O comportamento de sempre tentar recuperar a bola traz, de maneira geral, dois possíveis resultados: conseguir mais vezes ter a posse de bola; estar mais propenso a vulnerabilidade de progressão do adversário. Ao meu ver, quando o jogador sai da posição para pressionar gera um espaço na sua estrutura defensiva, e se isso não for muito bem concatenado com os outros jogadores dessa estrutura, tende a se criar uma situação de vulnerabilidade defensiva para a equipe. Claro que pode-se pressionar com eficácia tanto individual como coletivamente, mas para isso, precisa-se saber muito bem o que se está fazendo e, principalmente, pensar o pressing/pressão como parte de um “todo” maior e mais complexo. Onde todos os momentos do jogo estão ligados de forma única.  Onde não há separação, uma coisa faz parte do outro a tal ponto que separá-las seria o primeiro passo para sua ruína. O jogo é um sistema dinâmico causalidade não linear (Júlio Garganta).

Claro que essa é uma conclusão estritamente própria. Minha para com as minhas convicções. Uma estratégia, excelente diga-se de antemão, para “mascarar” as dificuldades que os problemas que o momento defensivo traz para a equipe e para o treinador, é ter um comportamento agressivo com e sem bola. Assim, teoricamente, teria mais volume de ataque e estaria pressionando mais quando o adversário estivesse com a bola. Reparem que ambos os comportamentos, a ligação com o individual está muito mais “forte” do que com relação ao coletivo. Aliás, pensar individualmente é mais fácil que pensar coletivamente. E ai que se engana quem pensa que o treinador deve ensinar os jogadores a jogarem futebol. O treinador, e aqui falo treinador como qualquer membro da comissão técnica, não somente o técnico, deve ensinar os jogadores a jogarem como equipe, de forma coletiva. Estimular os jogadores, trazendo a tona o potencial de cada um para o bem do coletivo. Conseguindo, ao mesmo tempo, o crescimento individual e coletivo, um alavancando o outro.

O sintoma mais evidente da ignorância, é o atrevimento. E, culturalmente falando, somos um país de atrevidos. Ocasionalmente mesmo não sabendo fazer muito bem, fala-se que sabe pois acha-se que sabe. E “a melhor defesa é o ataque”  passa muito por isso. Atacar no sentido de ser a “melhor” estratégia possível, às vezes, sendo e pensando como se fosse a única. Ao meu ver seria como “colocar a sujeira para debaixo do tapete”. Evidente que o ataque rápido e a transição são situações/problemas inerentes ao jogo e precisamos saber o que fazer nestes casos. Como, também, podem fazer parte de forma essencial, na concepção de jogo do treinador ou na filosofia de jogo do clube. Todavia, não podemos simplesmente negar a existência e os problemas que outros momentos da partida causam para a organização da equipe e do jogo. Caso contrário, a organização da equipe fica frágil e facilmente abalável. Oscilando ao longo do jogo e a cada jogo.

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Alguns paradigmas dos “jogos reduzidos”

Ao longo dos anos os exercícios de treinamento sofreram avanços consideráveis tanto na sua organização quanto na sua operacionalização. Vários pormenores podem ser levantados nessa problemática, mas um dos aspectos que mais tem chamado atenção são os diferentes estilos e perfis de exercícios.

Os jogos reduzidos entram nessa lógica de diferentes perfis. E eles aparentemente apresentam benefícios devido à redução da complexidade de jogo, as alterações estruturais e funcionais, o maior contato com a bola e a maior participação ativa dos jogadores.

Em cima disso, muitos estudos nos últimos anos foram levantados sobre os jogos reduzidos, especialmente quanto aos comportamentos táticos, aspectos posicionais, superioridades numéricas, monitoramento de esforço, variabilidade cardíaca, dimensões físico-energéticas, aspectos fisiológicos, residuais, cargas de treino e outras questões.

Todos relevantes e importantes para a evolução do treinamento. Mas o que tem me intrigado é a interpretação desses fenômenos. Se ela for desorientada, parcelada, localizada, pode criar vícios que por vezes viram paradigmas de análise e prática.

Paradigmas dos Jogos Reduzidos visto atualmente:

Espaços: o nome reduzido já indica uma impressão de apenas ser desenvolvido em pequenos espaços, mas muitos treinadores consideram que os jogos reduzidos podem ser orientados em pequenos, médios e grandes espaços sendo manipulados por diversos perfis de zonas e faixas.

Cópias sem entendimento das características de jogos reduzidos de outros contextos: muitas podem ser as características dos jogos reduzidos variando de acordo com cada realidade. Jogos zonais, com faixas, rondos, jogos de progressão, jogos recreativos e outras possibilidades. Alguns treinadores têm criado modelos. E, tirar algumas ideias de outros contextos é interessante, mas o grande problema é copiar um exercício sem entender o que está sendo trabalho pela comissão técnica naquele momento, apenas olhando.

Excesso das estruturas 2×2, 3×3 e 4×4: além do excesso dessas estruturas arrastarem uma adaptação fisiológica, a falta de progressão e a constante zona de equilíbrio estático que esses jogos criam, faz o jogo perder um pouco sua característica de mutação posicional, progressiva, espacial e numérica. E essa é a instabilidade do jogo, ou seja, a mágica da organização-desorganização.

Exercícios reduzidos apenas para desenvolver a dimensão física: o excesso de jogos reduzidos em pequenos espaços com o intuito apenas de desenvolver a dimensão física, além de fazer os jogadores perderem o conteúdo técnico-tático, pode trazer um excesso de aceleração/desaceleração/travagem e velocidade alta o tempo todo, que de certa forma gera uma adaptação acumulativa, massificando estruturas e uma maior possibilidade de lesão. Também nesse viés, muitas vezes é usado o GPS para monitorar alguns pormenores, mas por vezes apenas controles são realizados não sendo transferidos para a realidade do jogar da equipe. Apenas um falso controle.

Posse de bola: muitos falam que o exercício reduzido serve apenas para trabalhar a posse de bola, e por vezes os jogadores trabalham tanto a posse de bola em pequenos espaços que vão perdendo o sentido das outras interfaces do jogo.

Excesso de conceitos, princípios táticos e regras: ultimamente todos os treinadores estão mais ligados às novas tendências de treinamento. Isso arrasta modernidades. Claro, organizar um exercício por organizar não tem sentido, mas querer transformar um exercício numa parafernália de regras, princípios e conceitos, transforma os jogadores em fantoches e o exercício apenas bonito para quem está vendo.

Estruturas inadequadas de acumulação e espaçamento: a diminuição excessiva dos espaços por vezes provoca uma acumulação dos jogadores deixando-os reféns de aproximação excessiva entre eles. Essa lógica faz os jogadores perderem os espaçamentos verticais-horizontais adequados para o verdadeiro espaço do jogo. Movimentos inconsistentes e inconstantes acontecem se a manipulação incorreta do espaço for frequente.

Levantei apenas esses fatores, mas muitos outros podem brotar para outras discussões. Agora, a correta manipulação de tudo isso, gerada pela complexidade de jogo da equipe, ou seja, cada equipe tem um perfil criado devido as suas circunstâncias, facilitará o uso dos jogos reduzidos em prol do desenvolvimento do jogar da equipe. A representatividade dessa relação (jogar-treinar) e automaticamente a manipulação e interação dos espaços delineando situações numéricas e posicionais variáveis, acontecerá com mais clareza se entendermos que os jogos reduzidos não são apenas pequenos espaços como um ninho de formiga de jogadores correndo em cima da bola ou apenas dados fisiológicos superficiais.

Abraços a todos e até a próxima quarta!

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Ninho de cucos

Júlio Dantas, no seu conhecido e glosado livro O Amor em Portugal no Séc. XVIII e citando Frei Joseph Queiroz, o Bispo do Grão-Pará, designa de “cucos” os maridos infelizes.  Ora, todos sabemos que o cuco é uma ave que se caracteriza pela sua proverbial preguiça doméstica que o leva a pôr os ovos em ninho alheio: por antítese, o marido cuco é o que permite a entrada dos outros no seu ninho, isto é, tanto é cuco quem viola a intimidade de outrem como o é igualmente quem tal permite.

Vem a propósito o título do filme “Um Estranho no Ninho”, realizado por Milos Forman e baseado no romance homónimo de Ken Kesey.

Para esta nossa breve reflexão, tomemos o ninho como metáfora do clube de futebol: é evidente para todos como preguiçosos magnatas se apoderaram e continuam a apoderar da emoção e do sentimento de pertença que tantos e épicos anos demorou a germinar e a consolidar, e tomaram de assalto essa genuinidade fértil dos afectos de vetustas agremiações para nela semearem o joio de um capitalismo perverso e incendiário.
Há dias, em texto que me foi solicitado por ilustre académico brasileiro sobre o estatuto epistemológico do treinador dos escalões da formação, tive oportunidade de denunciar a deriva teratológica que o futebol profissional, com laivos de chocante obscenidade, vem cada vez mais exibindo e de que o triste episódio do recente leilão de Neymar tão interpelantemente reflecte.

A beleza ridente e auspiciosa de um futebol-arte está cada vez mais desfigurada e aquilo que, na génese, fora uma surpresa de encantar, está a dar lugar a medonhas malformações – o bebé gerou um monstro.

E, nesta actividade predatória, desenvolvida por cucos opulentos cujo único mérito conhecido é o de terem deitado a mão ao marfim antes dos demais, tão cuco é aquele que ocupa o clube (ninho) como aqueles que docilmente permitem tão oportunística ocupação: fazem lembrar aqueles maridos que, segundo o mesmo Dantas, vivem à custa dos amantes das próprias mulheres – são os “ribeirinhos”.

Trata-se, porém,  de uma usura narcísica à qual é cada vez mais fácil prever um fim autodestrutivo, como na fábula clássica em que o fascínio pela própria imagem reflectida nas águas dita a morte do próprio Narciso.

A propósito de águas, os tubarões pescam/caçam à vontade nas águas revoltas de um litoral de tibieza, uma caça facilitada por um isco mesmo à maneira – a SAD. Através deste oportuno instrumento jurídico, os homens do dinheiro fácil e torrencial (as torrentes têm, porém, um problema: são rápidas!), ocupam os ninhos de afectos e de paixão e, incendiando esse rastilho de paixões com ingredientes rápidos de sucesso/vitória (grandes vedetas internacionais) lá vão iludindo o povo que, obnubilado pela paixão e pela sede de vitória imediata, nem se apercebe que o seu amado clube há tempo que deixou de ser seu: quem, em seu perfeito juízo, acredita, por exemplo, que o PSG é dos parisienses ou que o Chelsea é dos aposentados de Londres?

Esta é, pela própria natureza tensional do processo, uma situação que necessariamente vai rebentar – é a lei da física. O mercado vai implodir porque os cucos passivos acabarão por rebelar-se contra os ninhos oligárquicos e déspotas que tendem a abafar e anular todos os outros: será, sem dúvida, o estrebuchar no desespero da asfixia.

Os ricos, que o são por agora, serão vítimas do que eu chamarei a lógica viciosa da coceira: de tanta comichão, não conseguem parar de se coçarem, até que só o bisturi lhes acudirá – tarde de mais, porém!

Em maré dolorosa de incêndios, apetece dizer: em Vila de Rei são os pobres bobos, esse tipo de gentalha pateta que, dobrada sobre si mesma, cavalga um prazer de onanista que ateiam o fogo, enquanto que nos ninhos tão laboriosamente construídos são os magnatas das limusines que o ateiam – em ambos os casos, o incêndio exibe a mesma característica: torna-se incontrolável.

Assim como nos tempos de Nero, Roma foi pasto de chamas em fúria, assim também hoje: Paris está a arder!

O edifício instável deste futebol está em vias de colapsar – garanto. Mais tarde ou mais cedo, mas garantidamente.

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O conteúdo de comunicação no futebol e suas infinitas possibilidades

Um dos desafios do marketing no esporte é tornar o torcedor da modalidade (do futebol em si, mas de um clube ou uma seleção) em um habitual consumidor. Nesse sentido, trabalha-se para humanizar a marca esportiva a fim de aproximá-la do público. E isso tem como base comunicar seus inúmeros produtos esportivos (um treino, uma ação beneficente, um ídolo ou o próprio túnel de acesso ao campo, instantes antes de um jogo) de uma maneira que mostra o dia a dia da equipe e quantas pessoas são envolvidas neste processo. O quanto se trabalha em busca da vitória, ao mostrar a rotina de um plantel, com seus dilemas e desafios do trabalho em equipe. Assim como em qualquer outro ambiente profissional. Assim sendo, o torcedor se identifica com sua rotina diária e passa a querer consumir mais.

Ora, o produto final de uma organização esportiva, especificamente do futebol, não é apenas o jogo. Há vários outros que podem ser oferecidos, como os que foram supracitados. Ela é dona deste conteúdo e precisa entregá-lo para o seu público, que quer – em muito – consumi-lo. Bastidores de treinamento, entrevistas rápidas com os jogadores, o dia a dia de um clube são alguns que podem e devem ser comunicados.

Pode parecer um exagero, mas, por analogia o clube é como se fosse a Disney. Possui inúmeras atrações, como os parques (quer seriam as instalações do clube), os personagens (os ídolos do clube), filmes e desenhos animados (jogos épicos e heroicas conquistas). Ademais, chega a possuir franquias pelo mundo todo, como a “EuroDisney”, na França e a que fica no Japão. Alguns colegas chamam isso de “Disneyficação”. No futebol, essas franquias são conhecidas através dos MCOs (“Multi-Clubs Ownerships”), como o “City Group”, detentor do Manchester City, na Inglaterra, mas também do New York City (EUA). Feitas estas analogias, este modelo de negócio parte para o mercado e têm obtido uma grande fatia de fãs e torcedores pelo mundo todo.

SantosFC
Montagem sobre a Santos TV com ídolos do passado e do presente

 

Dessa maneira, e auxiliado pelo avanço das telecomunicações, uma organização esportiva pode se comunicar com milhões de pessoas ao mesmo tempo, pelo mundo todo. Alinhado ao objetivo estratégico e um método operacional, a marca é capaz de se humanizar e relacionar com seu público. E isso se transfere para os produtos das federações estaduais (seus campeonatos, por exemplo) e da confederação nacional. Exemplo recente disso é a “CBF TV”, que possui um conteúdo exclusivo bastante diferente da mídia tradicional. Já em fase de implementação, o investimento em canais “on demand” vai permitir ao público consumir o que ele quer de conteúdo áudio-visual, na hora em que quiser.

Portanto, existem muitas oportunidades pela frente neste tipo de comunicação. O torcedor quer estar mais perto, quer fazer-se presente e sentir-se parte do projeto do clube. Em outras palavras, o torcedor quer pertencer. A organização esportiva, por sua vez, vai ter que garantir tudo isso ao criar plataformas exclusivas de conteúdo, muito bem alinhadas dentro de um processo de comunicação estratégica. Uma vez que o torcedor tem isso, adquirem-se dois elos muito importantes dentro do relacionamento entre marca e o consumidor: a lealdade e a confiança.