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A vertente física do jogo de futebol no treinamento com Jogos – parte II

Há algumas semanas foi publicada uma coluna com o objetivo de auxiliar na elaboração de um microciclo de treino, mais especificamente na vertente física do jogo, a partir de um olhar sistêmico para a modalidade.

Para dar sequência a discussão serão apresentados alguns exemplos de quais comportamentos de jogo podem ser treinados nos diferentes tamanhos de campo e tempo de estímulo. Nesta semana, as considerações serão relativas aos Jogos de até 30” de duração (por série).

Para relembrá-los, seguem, abaixo, os dois gráficos, em que o primeiro aponta as exigências físicas predominantes nas atividades em função do tamanho do campo e do tempo de estímulo por série e o segundo mostra o metabolismo predominante, também em função do tamanho do campo e do tempo de estímulo por série:

 

Dentre as sugestões para as atividades de até ½ do campo e até 30” de duração estão: finalização, reposição do goleiro com as mãos, assistência, cruzamento, penetração, ultrapassagem, drible, mobilidade com e sem trocas de posição, 1×1, desarme, pressão, recuperação imediata da posse e retirada do setor de recuperação. Para garantir a intensidade do exercício, em que para jogar bem (vencer) serão necessárias altas velocidades de decisão e execução, algumas regras são importantes. São elas: limitação ou restrição de passes para trás, pontuação para passes diagonais e pra frente, maior pontuação para gols de contra-ataque, maior pontuação para gols de fora da área, pontuação para recuperação da posse de bola e tempo para finalizar. Saber quais e quando utilizá-las é função da comissão.

Para estas atividades, trabalhar com pequenos e médios grupos com, no máximo, 6 x 6 jogadores. De acordo com a necessidade da equipe, objetivos diferentes podem ser propostos. Exemplificando: uma equipe (de atacantes) pode ter como maior objetivo pontuar marcando gol e a outra equipe (de defensores) sair rápido do campo de defesa, retirando a bola do setor de recuperação e pontuando com passes entre gols caixote ou ultrapassagens com a bola dominada em setores delimitados.

Em relação ao mesmo tempo de estímulo e dimensões oficiais, ou então ¾ do campo, as sugestões de atividades pouco diferem das expostas acima, porém, existem algumas ressalvas: trabalhar preferencialmente com médios grupos, saber que aumentará a incidência de passes longos e diminuirá a incidência de finalização.

Com o campo maior, há a possibilidade de reposição do goleiro com os pés e também a de reunir os 22 jogadores para um jogo de bolas paradas ou jogadas ensaiadas, distribuindo os pontos para o jogo de acordo com os objetivos desejados (ataque a bola, gol de cabeça, gol direto, saída do goleiro, etc.).

É importante lembrar que mesmo com poucos jogadores a plataforma de jogo (referência estrutural que orienta a equipe para o cumprimento da lógica do jogo) não pode ser negligenciada. Por mais que seja um jogo em dimensões reduzidas e por um curto espaço de tempo, esta referência também deve nortear as ações individuais e coletivas da equipe para dar maior ordem a grande desordem que caracterizam estas atividades.

E para garantir a qualidade/intensidade das ações com o acúmulo de séries é importante respeitar o tempo de pausa que, para estas atividades, geralmente são aplicados pelo menos duas vezes o tempo do esforço. E é durante a pausa o momento ideal para os ajustes/intervenções para a qualidade do treino e que preferencialmente devem ser feitos por um profissional da comissão que não esteja conduzindo o Jogo (pois este estará com outro(s) grupo(s) em estímulo enquanto o primeiro se recupera).

Para concluir, pensando na manutenção do “estado de Jogo” durante toda a atividade, o acúmulo de pontos permite a competitividade e o treinar complexo das quatro vertentes do jogo como afirma o treinador Rodrigo Leitão, “a todo o tempo o tempo todo”.

Em outra oportunidade, a continuação do tema com as considerações para as atividades de até 5 minutos de duração.

Enquanto isso, aguardo sugestões, críticas e opiniões.
 

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Punição disciplinar aos clubes por violência de torcedores

Na última rodada do campeonato brasileiro de futebol, novamente, foram transmitidas ao vivo cenas lamentáveis nas arquibancadas do Mané Garrincha envolvendo as torcidas de Vasco e Corinthians.

Em razão destes incidentes a Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) denunciará as duas equipes, com fulcro no artigo 213 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de deixar de tomar providências capazes e prevenir ou reprimir desordens ou invasão do campo.

As penas previstas são a perda do mando de campo de uma a dez partidas, disputa dos jogos com portões fechados e multa variável de R$100 a R$100 mil reais.

Segundo o procurador-geral do STJD, Paulo Schmitt, a denúncia trará pedido para que, caso a pena seja perda do mando de campo, ela seja cumprida sem a presença da torcida do clube infrator para evitar que a punição seja cumprida em Brasília com seus torcedores.

A confusão entre os torcedores se deu no intervalo da partida entre Vasco e Corinthians quando membros das torcidas organizadas do Corinthians se aproveitaram da ausência de divisórias de separação e invadiram o setor destinado aos vascaínos. Ademais, o contingente policial era pequeno e teve muita dificuldade em conter o tumulto.

A briga terminou com alguns feridos, incluindo três policiais, e chamou a atenção o fato de terem sido identificados um vereador da cidade de Francisco Morato e um dos torcedores detidos em Oruru, pela morte do menino Kevin Espada.

Segundo o Estatuto do Torcedor, os organizadores (clube mandante se entidade organizadora) dos eventos esportivos devem, junto com o Poder Público, criar um plano de ação para garantir a segurança durante as partidas. No caso em comento caberia ao Vasco da Gama, mandante, estabelecer medidas para garantir a segurança no evento.

Diante da história rivalidade entre as torcidas (inclusive com casos de morte) o plano de ação deveria prever divisão entre elas e maior contingente policial. Destarte, durante o tumulto o que se viu foi uma imensa dificuldade dos policiais em conter a violência.

Diante disso, percebe-se que o Corinthians não dispunha de meios legais e efetivos para tomar providências capazes de impedir ou reprimir as desordens.

Se havia membros de torcidas organizadas sabidamente violentos no tumulto, isso decorre da inoperância do Estado em puni-los e, se houve negligência ou falta de planejamento para evitar e lidar com eventuais tumultos, isso se deve à falta de um plano de ação efetivo cujo a responsabilidade legal é do mandante, da CBF e do Poder Público.

De fato, os clubes devem participar da luta contra a violência sendo, inclusive punidos, mas não há que se demonizar as torcidas organizadas, punir os clubes e deixar de apontar os erros e a culpa do Poder Público e da Confederação Brasileira de Futebol.

Que sejam aplicadas punições exemplares a todos os envolvidos a fim de desestimular a falta de zelo na elaboração dos planos de ação e as práticas violentas de alguns torcedores.

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Como o autoconhecimento pode contribuir para uma nova carreira

Toda mudança, em geral, pode causar desconforto e elevar o nível de stress dos atletas profissionais. Mas como conseguir praticar o futebol profissional quando o atleta percebe que o final da carreira atual está próximo do fim?

As fases de uma carreira esportiva vão desde sua iniciação, passando pela fase de desenvolvimento, pela excelência e por fim chegando na fase de aposentadoria da carreira como atleta profissional.

Nesta última fase, o atleta passa a diminuir seu envolvimento com treinamentos intensos e competições oficiais. A transição desta etapa, aposentadoria, para outra atividade profissional talvez seja a transição mais conflituosa, devido ao envolvimento com ajustes sociais, físicos, pessoais, ocupacionais e financeiros. É uma fase que deve ser tomada como a principal meta do planejamento de carreira esportiva para um atleta de alto nível, mas parece que no Brasil ainda não estamos sensíveis para este planejamento.

É justamente neste campo que um Coach pode contribuir imensamente com os atletas profissionais e uma das suas grandes missões, em minha opinião.

Trata-se de contribuir com o autoconhecimento do atleta no início de seu planejamento de carreira, pois ao se conhecer o atleta terá uma visão muito mais clara e genuína acerca de sua nova atividade profissional. Costumo dizer em palestras e treinamentos que o autoconhecimento é uma oportunidade de nos olharmos no espelho da vida e podermos clarificar nossa consciência quanto ao nosso real perfil comportamental.

Existem diversas ferramentas para promover o autoconhecimento, das quais enquanto Coach destaco duas:

1.DISC
 

  • Uma ferramenta que permite que as pessoas compreendam rapidamente suas preferências de comportamento no trabalho, através de quatro tendências básicas: Dominância, Influência, Estabilidade e Conformidade. Esta ferramenta tem sido utilizada há 30 anos por mais de 45 milhões de pessoas no mundo, assim como foi traduzida e validada em mais de 25 idiomas.

    Aponto como uma grande vantagem do DISC a capacidade de interpretar a relação entre os quatro fatores (Dominância, Influência, Estabilidade e Conformidade) para traçar um perfil comportamental.

    O DISC é ideal para prever a forma como um indivíduo age e interage com os outros. Detecta suas motivações, forças e pontos que precisam ser desenvolvidos, bem como sua reação a um conjunto específico de circunstâncias.
     

2.ENEAGRAMA
 

  • Definido como um sistema preciso e profundo que descreve nove padrões de comportamento e seus diferentes níveis de consciência, ajudando, assim, as pessoas a evoluírem pessoal e profissionalmente.

    O Eneagrama já conta com validação científica e acadêmica, incluindo diversas teses de mestrado e doutorado nos EUA e na Europa. No mundo dos negócios, o Eneagrama vem sendo descoberto por alguns cursos de MBA de instituições, como Stanford e Loyola, nos EUA, e FGV e USP, no Brasil.

    Além disso, importantes organizações multinacionais também já utilizam o modelo do Eneagrama com suas equipes. Alguns exemplos são: 3M, IBM, Motorola, Boeing, Disney, Sony, Du Pont, Procter &Gamble etc. No Brasil, podemos citar ainda: Embraer, VIVO, Subsea7, COSAN, Souza Cruz, Oi, Skanska, Oracle, Perdigão, entre outras.

Bem, como disse antes, acredito plenamente no autoconhecimento como grande alavanca para um bom planejamento e uma adequada transição de carreira para os atletas profissionais no Brasil. Chegou a hora de utilizarmos o autoconhecimento com nossos atletas profissionais.

Porém, também deixo uma alerta em forma de reflexão: até quando o Brasil irá ignorar o planejamento da carreira esportiva?

Concentrar-se apenas na formação de novos atletas pode ser um contrassenso caso não tenhamos projetos adequados para o planejamento da carreira e o inevitável momento de transição para uma nova carreira profissional! Vale conhecer o trabalho realizado pela Sociedade Brasileira de Coaching Esportivo, que é pioneira no Brasil neste tipo de serviço.

Até a próxima!

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Mais uma vez a violência…

Novamente, a violência das torcidas organizadas volta às manchetes e às análises de alguns especialistas do meio esportivo. Evidenciada, sobretudo, pela confusão causada por torcedores de Vasco e Corinthians no último final de semana em Brasília.

E o problema não são as leis. São, como muitas no Brasil, a aplicação delas. O Estatuto do Torcedor está aí para provar isso. E se o Estado é inoperante ou ineficiente para efetivar um controle sobre atos desta natureza, será que as entidades do futebol também devem se omitir de qualquer ação mais proativa, como o fazem hoje e historicamente?

Por outro lado, o Prof. Dr. Gustavo Pires (no livro “Agôn, Gestão do Desporto, o Jogo de Zeus”, 2007, p. 11) debate a questão da violência como uma manifestação venal da construção histórica-sociológica do homem e, portanto, ligada ao desporto. A guerra, na verdade, era controlada pela prática esportiva e assim surgiu os “Jogos e tornaram a paz gloriosa, através do prazer lúdico da violência controlada”. Em uma das passagens do livro, Pires comenta:

“Aqueles que através de um discurso pseudomoralista pretendem castrar o desporto em geral e o futebol em particular das suas origens antropológicas que têm a ver com a necessidade de extravasão [sic] da violência (geralmente virtual) que cada homem contém dentro de si, transformando o jogo numa mera recreação, em que o objetivo se resumo a curtir o deleite da destreza do gesto acrobático e da estética geométrica da progressão no terreno, que também se encontram em muitas outras atividades humanas, podem estar a fazer com que o futebol se desligue dos laços que ainda o prendem às suas verdadeiras raízes que se encontram nas origens da humanidade, fazendo com que deixe de ter a atração mágica que, semana após semana, época após época, conduz aos estádios quer direta, quer indiretamente através da televisão, dezenas de milhões de espectadores por todo o mundo, independentemente do seu estatuto social, credo, gênero ou idade”.

É bem verdade que a “violência” a qual Pires refere está relacionada à prática do esporte. Mas serve para entendermos que ela dificilmente será totalmente controlada e anulada em se tratando de esporte.

O que assusta, especialmente no caso citado no 1º parágrafo, é a inércia e a falta de um posicionamento mais firme e decisão das organizações do próprio esporte. Enquanto não entendermos que a questão da violência das torcidas deve fazer parte sim de uma pauta das entidades de administração e de prática do esporte, no sentido de perceber que um controle mínimo (ou mesmo um posicionamento mais efetivo que iniba algumas dessas práticas) contribuirá para a entrega de um espetáculo mais palatável para o consumo, não consigo enxergar uma solução consistente no curto-médio prazo.

E esta questão está longe da visão minimalista de aumentar ou reduzir o preço de ingressos. Precisamos, enfim, entregar mais e melhor para que haja efetivamente um retorno positivo dos próprios torcedores no viés do consumo ou mesmo na ampliação dos investimentos de patrocinadores privados por conta do espetáculo ímpar proporcionado nas arenas. Eis a agenda positiva que precisa ser levada a cabo nas pautas (e atitudes) dos organismos do futebol…

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Gestão no futebol brasileiro: a estratégia empresarial (Parte 1)

No mundo atual, as organizações devem ter uma estratégia para poderem prosperar. O documento que explicita a estratégia é denominado Planejamento Estratégico.

Importante salientar que apenas existir um bom Planejamento Estratégico não garante o sucesso da estratégia organizacional. O ditado já diz que "papel aceita tudo". Portanto, é preciso ir além do planejamento, é preciso haver gestão, a Gestão Estratégica.

Gestão Estratégica é algo em que as ferramentas de gestão estão a serviço de uma estratégica concebida. Três ideias são importante, nesse sentido: futuro, ambiência e diferenciais.

Se se busca uma estratégia coerente para uma organização, buscar construir um futuro, com a presença de uma visão de longo prazo, é fundamental. Passado gera ensinamentos. Presente deve contemplar ações para se chegar onde se almeja. Mas, o futuro a que se quer chegar é o que deve orientar as ações executivas.

Outro conceito importante é o de ambiência, ou seja, a inadiável tarefa de se olhar para o ambiente externo com inteligência. Óbvio está que o ambiente interno das organizações é importante. Sucede que o ambiente externo, a ambiência, delas é mais importante ainda. Se as organizações não atendem às demandas externas, simplesmente não prosperam.

Construir diferenciais é algo premente. Nesse sentido, a ideia de estratégia se coaduna com os conceitos de empreendedorismo e inovação. Organizações têm concorrentes e, para levar vantagens sobre eles, não se deve fazer o mesmo que eles só que melhor, mas sim fazer algo diferente do que eles fazem.

Bom, e o que o futebol tem que ver com isso?

Simplesmente, as organizações contidas no futebol tem pífia atuação estratégica. Algumas, simplesmente não têm uma estratégia bem delineada. Outras, até a têm, mas abandonam seus fundamentos no primeiro obstáculo que aparece. Alguns exemplos disso são:

• Você sabe o que o clube que você torce aspira ser daqui a cinco, dez ou 15 anos? Que futuro se quer construir?

• Os clubes levam em consideração o perfil mercadológico de sua torcida ao, por exemplo, construírem seus estádios? Cadê o cuidado com a ambiência?

• Os clubes pensam diferenciais que posam ter em relação a outros clubes? Ou será que esses diferenciais são construídos na base do empirismo, e não alinhados com uma estratégia?

Parece que tudo é feito com uma visão imediatista, se quer "apagar incêndio". Isso é a própria negação da estratégia, que, nas palavras de um grande especialista, o renomado professor Paulo Robero Motta, constitui-se do fato que “o bem se faz melhor se antecipado e o mal é menos mal do que previsto”.


* Luis Filipe Chateaubriand é professor universitário na área de Gestão

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Legado: quando o futuro encontra o passado

Não só por razões profissionais do momento, com também pela identificação com o tema da responsabilidade social no futebol, volto a abordá-lo, após brevíssimo “período sabático” que me manteve afastado da Universidade do Futebol.

Destreinado, aos poucos pego o “ritmo de jogo” nesse contato com você, leitor.

E, como aprendi desde sempre, ritmo de jogo se adquire jogando. Ou, ao que me toca, escrevendo.

Talvez por estar, deliciosamente, mergulhado na leitura do livro “Cuentos de Fútbol”, que reúne textos de ilustres autores latinoamericanos sobre futebol e cujo organizador é Jorge Valdano – o filósofo dos gramados – salta-me a inspiração para tentar “contar uma história”.

Pois bem.

Onde você acha que Pelé disputou seu milésimo jogo?

O milésimo gol, sim, é fácil. Até as histórias de tentativas, venturas e desventuras para que o Rei, finalmente, o marcasse e acabasse com a expectativa, conhecemos.

Todos queriam estar presentes nesse momento histórico. Algo como todos os que, vivos à época, afirmarem que estavam no Maracanã na final de 1950…

1971. 26 de Janeiro. Suriname. País vizinho ao Brasil ao norte. Faz calor – mesmo porque, lá, as duas estações são “calor” e “muito calor”.

Pelé chega com o Santos para disputar um amistoso contra o Transvaal, equipe da capital do país, Paramaribo.

Um único jornalista, da revista Placar, foi incumbido de acompanhar esse pouco conhecido episódio do futebol brasileiro. A missão: entregar a Pelé uma “Bola de Prata”, prêmio recém-instituído pela revista, como homenagem ao grande ídolo pelo seu 1000º jogo.

O estádio, de dimensões acanhadas para hospedar o Rei (13 mil lugares), possuía a grandeza da solidariedade humana: o lucro da partida serviria para ajudar na construção de um viaduto que pretendia servir para a redução do número de acidentes e mortes no trânsito local.

Em meio ao Primeiro-Ministro local, representante do Reino da Holanda e de estupefatos jogadores do Transvaal, Pelé recebe as homenagens e, com o jogo correndo, Pelé, no seu milésimo jogo, faz seu gol número 1070, de pênalti.

2013. 26 de agosto. Curitiba. Frio típico da cidade, daqueles em que se faz piada que “aqui, até o verão tira férias em outro lugar”.

O maior hospital pediátrico do Brasil recebe a visita de três ídolos do Botafogo, dentre eles, um craque que, um dia, foi criança no Suriname.

Clarence Seedorf. Na visita ao Complexo Pequeno Príncipe, conversa a respeito do Programa Gols pela Vida, que tem como padrinho Pelé, e que se presta a promover o legado social do grande ídolo do futebol brasileiro, na aproximação da família do futebol junto à causa da saúde infantil por meio de um grande conjunto de iniciativas.

Seedorf também fala, com orgulho, de sua entidade “Champions for Children” e do trabalho desenvolvido junto às crianças do Suriname, tendo o futebol como vetor de educação, saúde e protagonismo juvenil.

Disse a mim que seu maior sonho e, também, desafio, é fazer com que a instituição permanece viva por muitos anos, sem dele depender, porque isso é o seu LEGADO para o futuro.

Pelé, antes mesmo de Seedorf nascer, havia feito seu milésimo gol e dedicado às crianças do Brasil, afirmando que se lhes devia dar atenção e carinho, pois sempre seriam o futuro de um grande país.

Antes mesmo de Seedorf nascer, no Suriname, Pelé também havia feito seu milésimo jogo. Quis o destino que fosse lá mesmo.

Seedorf cresceu e se tornou jogador de futebol. Mais do que ídolo, virou exemplo, daqueles que são condecorados pela Fundação Nelson Mandela com o título de “Legacy Champion”, por promover a integração e igualdade étnicas.

O futuro, hoje, visitou o passado, no encontro do sonho de dois craques da bola em torno da responsabilidade social por meio do futebol.

Um grande gol pela vida, que encontrará eco até mesmo quando não estivermos mais aqui.
 

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Conversa

Questionado no último domingo sobre a estreia do zagueiro Antonio Carlos, que havia sido contratado do Botafogo, o técnico Paulo Autuori enfatizou a liderança do defensor.

"Isso é algo que eu venho cobrando de todo o time. Precisamos nos comunicar mais e melhor", disse o comandante do São Paulo após a vitória por 2 a 1 sobre o Fluminense.

Como na vida, a comunicação muitas vezes é subvalorizada no futebol. Não há relação que se sustente sem atenção a isso.

Ao contrário de modalidades em que as movimentações são marcadas e treinadas com base em repetição, o futebol está alicerçado em improvisos. Por isso, qualquer lance tem potencial para mudar o panorama de um jogo. Muitas vezes, falha de atenção ou erros individuais são imperceptíveis para quem apenas vê uma partida.

Em campo, portanto, os jogadores são submetidos constantemente às duas situações: há erros, falhas ou apenas adversários mais perspicazes, e eles precisam perceber isso a tempo, planejar uma estratégia contrária e comunicar isso ao time.

Exemplifico: um jogador pega a bola na direita, faz uma trajetória em diagonal e dribla três adversários. Os defensores que ainda estiverem postados precisam pensar rapidamente em meios de compensar os espaços abertos e evitar que a bola chegue ao gol.

A lista de decisões possíveis passa por "fazer a falta", "tentar o desarme individual", "tentar o desarme com dois jogadores" ou "posicionar o corpo para impedir que ele seja obrigado a mudar de direção", por exemplo. Há muitas outras hipóteses, e a decisão é sempre de quem está em campo.

Quando eu digo que o campo dá total autonomia, muita gente já questionou e citou os treinos. Por mais que a defesa seja preparada para lidar com ataques que tenham mais adversários ou lances individuais, por mais que os movimentos sejam ensaiados, o futebol sempre tem peculiaridades. É praticamente impossível que um lance no jogo seja a repetição exata de uma simulação feita durante a semana.

O que acontece no jogo pode remeter a exemplos dos treinos, e isso pode automatizar as decisões dos atletas. Para amenizar a margem de erro, contudo, o melhor é que esses atletas consigam entender o que está acontecendo e planejar soluções. Essa capacidade de resolver problemas em um espaço curtíssimo de tempo é o maior diferencial de qualquer esporte coletivo.

Tomada a decisão sobre o que fazer para interromper a jogada do adversário, cabe ao jogador comunicar isso. Não há estratégia eficiente se for totalmente individual, descolada das ações do restante do time. Se todos tiverem iniciativa ou se ninguém tiver, as chances de o lance prosseguir são igualmente grandes.

É importante que as decisões, por mais individuais que sejam, tenham reflexo no contexto. Um zagueiro pode optar por fazer a falta para interromper o lance individual do rival, mas os companheiros dele devem se posicionar para evitar a sequência do lance. E se o atleta que sofreu a infração conseguir tocar a bola, por exemplo? E se esse toque for direcionado ao espaço deixado pelo defensor que foi fazer a falta?

Não existe decisão, por mais técnica que seja, que possa ser dissociada da comunicação. E quando eu digo comunicação, não precisa ser necessariamente um estímulo verbal. Atletas podem se falar por gestos, olhares ou até pela movimentação. O corpo também fala.

Dissociar processos é um dos erros mais comuns no esporte. É como o jogador que tem excelente índice de aproveitamento de finalizações nos treinos, mas não repete isso nos jogos. Ele pode ter a mecânica certa, o movimento correto, mas precisa saber colocar isso em prática com ações dos rivais, pressão da torcida, cansaço e outros fatores.

Volto a Paulo Autuori. Depois da vitória sobre o Fluminense – o São Paulo não triunfava desde a segunda rodada do Campeonato Brasileiro – o técnico enalteceu o ambiente que tem sido criado no time do Morumbi. "Eu acredito na harmonia", afirmou o técnico.

Conheci um jogador que pedia para levar tapas na cara antes de entrar em campo, só para aumentar a motivação. O nadador Cesar Cielo faz alto parecido ao desferir fortes tapas contra o próprio peito nos momentos que precedem as provas. Comunicação é passar mensagens. Nem sempre com harmonia.

O contraexemplo de Autuori é o técnico Dunga, que tem feito boa campanha com o Internacional no Campeonato Brasileiro. Ele pode até criar um ambiente de harmonia, mas não se comunica assim.

Dunga é raiva, é explosão, é pressão. É radicalmente o inverso de profissionais como Autuori ou Oswaldo de Oliveira, que comanda o Botafogo. E existe um estilo melhor entre os dois caminhos?

Não, não existe.

Sempre que foi questionado sobre o excesso de palavrões à beira do campo, o técnico Vanderlei Luxemburgo respondeu coisas como "ali, no calor do jogo, é impossível pedir por favor". Se você vociferar um pedido a alguém na rua, dificilmente será atendido.

Comunicação é conhecimento. É conhecer o ambiente, por exemplo, e saber que a linguagem usada durante um jogo de futebol não é pertinente em outros ambientes. Mas também é conhecer o receptor da mensagem e saber como ele lida com cada tom.

Há jogadores que se assustam com gritaria e que não rendem bem com esse tipo de cobrança. Outros, como o que eu relatei, preferem tomar tapas na cara só para atingir o grau certo de adrenalina.

A comunicação eficiente em campo segue o mesmo roteiro do que acontece fora das quatro linhas. É fundamental conhecer o assunto, o ambiente e o destinatário. A grande diferença entre as duas situações é a velocidade. Em campo, além de conhecer tudo isso e lidar com a pressão, jogadores, treinadores e outros profissionais precisam tomar decisões muito mais urgentes.

Urgência só não pode ser confundida com "de qualquer jeito". A boa comunicação é a que tem estratégias prontas para lidar com esse prazo curtíssimo. É a que entende que não se pode tratar indivíduo algum com base em generalizações.

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Do Palestra Itália a hoje: a história da Sociedade Esportiva Palmeiras

Maravilhados com as apresentações das equipes italianas do Torino e do Pro Vercelli no Brasil, quatro amigos – Cervo, Simone, Marzo e Ragonetti – decidem que os italianos radicados em São Paulo mereciam ter um time de futebol.
No dia 26 de agosto de 1914, os amigos conseguem atrair 46 pessoas para a rua Marechal Deodoro, número 2 e fundam a Societá Sportiva Palestra Itália. O primeiro jogo da equipe aconteceu no dia 24 de janeiro do ano seguinte, ocasião em que venceram por 2 a 0 o Savóia, um outro clube criado por italianos na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo.
Em 1916 o Palestra Itália consegue a difícil inscrição para disputar o Campeonato Paulista. Inexperientes, o alviverde termina em penúltimo lugar na classificação. Para o campeonato de 17 a diretoria resolve reforçar o time e o Palestra consegue o vice-campeonato. O maior feito foi ter vencido por 3 a 0 aquele que seria o seu maior rival ao longo de sua história, o Corinthians.
O tão almejado título não demorou para chegar. Em 1920, apesar de passar por maus bocados com as arbitragens, o Palestra foi o legítimo campeão paulista, com 12 vitórias, dois empates e duas derrotas. Nesse mesmo ano o clube adquire o terreno da Companhia Antarctica Paulista, onde mais tarde construiria o seu estádio, que foi inaugurado em 1933.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, empresas e clubes não poderiam manter nomes que estivessem associados à Alemanha ou à Itália, países que eram inimigos dos aliados, bloco onde estava incluindo o Brasil. Por isso, perto de decidir (e conquistar) o campeonato paulista de 1942, o Palestra passou a se chamar Sociedade Esportiva Palmeiras.
Título internacional
Em 1951 o Palmeiras sagrou-se campeão da 1ª Copa Rio, um torneio internacional criado por Mário Filho, proprietário do Jornal dos Sports. No jogo final, o alviverde derrotou o Juventus de Turim no Maracanã, em jogo que contou com a presença de cerca de 100 mil pessoas. Este título a diretoria do clube chegou a reivindicar junto à Fifa para que fosse considerado como o primeiro torneio mundial interclubes.
A torcida mal podia imaginar que a contratação de um jovem meia carioca, junto ao time do Bangu seria, provavelmente, a mais importante de sua história. Naquela época, os pequenos clubes eram bem mais fortes do que hoje, tanto é, que em 1960 o Bangu foi campeão do Torneio de Nova York.
No ano seguinte, Ademir chegava ao Palmeiras, acompanhado de seu pai, o ex-zagueiro Domingos da Guia. O “Divino”, como passou a ser chamado anos depois, foi um dos responsáveis em fazer do Palmeiras uma das poucas equipes do futebol brasileiro a fazer frente para o Santos de Pelé, Coutinho & Cia. E assim foi na conquista do campeonato paulista de 1963. Além deste título, Ademir também foi campeão estadual em 66, 72, 74 e 76.

Academia
Por causa do belo futebol que apresentava nos anos 1960, o Palmeiras também era chamado de “Academia”, fato que se repetiu nos anos 1970. Uma das formações da primeira versão até representou o Brasil num jogo em que venceu o Uruguai por 3 a 0 no dia 7 de setembro de 1965. Sob comando do técnico argentino Filpo Nuñez, a seleção brasileira jogou com: Valdir (Picasso); Djalma Santos, Djalma Dias, Valdemar (Procópio) e Ferrari; Dudu (Zequinha) e Ademir da Guia; Julinho (Germano), Servílio, Tupãzinho (Ademar Pantera) e Rinaldo (Dario).
A Academia dos anos 1970 pode ser considerada como a equipe que venceu o campeonato estadual de 72 e que também conquistou o bicampeonato brasileiro, em 1972/73. O Palmeiras vencedor do campeonato paulista de 72 apresentava o seguinte time-base: Leão; Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu (Madurga) e Ademir da Guia; Edu (Fedato), Leivinha, César e Nei. Técnico: Osvaldo Brandão.
Os anos 1990 romperam um jejum de títulos do Palmeiras, com a chegada da Parmalat, que implantou um inovador e eficiente sistema de co-gestão.
Com a equipe reforçada, o Palmeiras voltou a vencer e, inclusive, conquistou a Copa Libertadores da América. Depois da saída do seu parceiro, o clube alviverde não viveu bons momentos, chegando a disputar a Série B do Campeonato Brasileiro (2003), mas retornou logo em seguida, em 2004.
Sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, que já fizera sucesso comandando a equipe no bicampeonato nacional da década anterior, o Palmeiras findou um jejum de troféus e faturou o Estadual de 2008.
Na temporada passada, sob o comando de Luiz Felipe Scolari, o Palmeiras apostava em um desempenho que rememorasse os grandes momentos da década de 1990, justamente sob o comando do gaúcho. Mas a falta de resultados no Campeonato Brasileiro acabou resultando na demissão precoce do treinador – e a equipe alviverde seria rebaixada à segunda divisão nacional pela segunda vez na história.
É verdade que o primeiro semestre ficou marcado de maneira positiva: título da Copa do Brasil, após uma campanha em que o Palmeiras superou Atlético-PR e Grêmio, antes de bater o Coritiba na decisão. Um último momento de alegria do torcedor palestrino em 2012, que agora busca se reerguer e curtir o centenário na elite. O seu lugar.
 
Títulos
Campeonato Paulista: 1920, 26/27, 32/33/34, 36, 40, 42, 44, 47, 50, 59, 63, 66, 72, 74, 76, 93/94, 96 e 2008.
Torneio Rio-São Paulo: 1933, 51, 65, 93, 2000.
Taça Brasil: 1960 e 67.
Torneio Roberto Gomes Pedrosa: 1967 e 69.
Campeonato Brasileiro (série A): 1972/73, 93/94.
Campeonato Brasileiro (série B): 2003.
Copa do Brasil: 1998 e 2012.
Copa dos Campeões: 2000.
Copa Rio: 1951
Copa Mercosul: 1998.
Copa Libertadores da América: 1999.

Bibliografia

MIGUERES, Marcelo & UNZELTE, Celso. Grandes Clubes Brasileiros. Ed. Viana & Mosley, 2004.
STORTI, Valmir & FONTENELLE, André. A História do Campeonato Paulista. PubliFolha, 1997.
SOUZA, Kleber Mazziero. Divino: a vida e a arte de Ademir da Guia. Ed. Gryphus, 2001.
GOUSSINSKY, Eugenio & ASSUMPÇÃO, João Carlos. Deuses da Bola – histórias daseleção brasileira de futebol. Ed. DBA, 1998.
Leia mais:
O dia em que a Academia foi a seleção

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O fator gramado: o vantajoso “não jogar futebol” vs o jogar futebol

São inúmeros os estudos e as observações estatísticas que vêm nos últimos 15 anos – mais formalmente – analisando a suposta vantagem de equipes como mandantes, jogando dentro dos seus “domínios”.

Há também pesquisas que evidenciam, por exemplo, a influência do mando de jogo nas decisões da arbitragem (especialmente na incidência de cartões amarelos e vermelhos) em determinadas competições.

Seja qual for o tipo de análise e abordagem realizada nessas pesquisas, muitos são os motivos e os apontamentos que tentam justificar as significativas diferenças observadas tendo o mando de jogo como variável independente nos estudos.

E ainda que haja evidências certeiras que mereçam nossa atenção dentro da ideia geral e concreta, de que mais do que o mando de jogo, o ambiente e a atmosfera presente nele (no próprio ambiente), são, sistemicamente falando, potencialmente determinantes para o resultado final da partida e até de um campeonato, gostaria de evidenciar neste texto algo que deveria sim, ser valorizado como variável para análise: o fator campo literalmente falando!

E do que se trata o fator campo, literalmente falando? Trata-se especialmente das condições do terreno de jogo (da grama, dos buracos, da areia, etc.) e de suas dimensões.

Claro que uma vitória ou uma derrota podem sim ser analisadas e explicadas por uma série de fatores interligados que compõe no contexto geral o resultado final de uma jogo.

Mas, como desvalorizar (como se faz inúmeras vezes) e negligenciar, por exemplo, a qualidade do terreno de jogo para analisar o desempenho de uma equipe?

No tênis, muitos grandes jogadores em um tipo de piso não são necessariamente os melhores em outro tipo – e se quiserem ser, precisarão treinar muito para que se acostumem com as nuances que um ou outro piso propiciarão à dinâmica do jogo.

Um campo de futebol com grama alta tornará o jogo mais pesado e lento. Um campo úmido, com grama fina e baixa propiciará um jogo muito veloz. Um campo de terreno duro, com muitas falhas na grama, areia e buracos, deixará a bola muito “viva”, e o jogo jogado será outro.

Quando comparamos, muitas vezes o ritmo de jogo jogado no futebol europeu com o futebol brasileiro, há de se levar muito em conta o fator campo (ou melhor, vou chamar de fator gramado). Quando comparamos, muitas vezes a qualidade técnica do jogo europeu com a do futebol brasileiro, precisamos entender o “peso” do fator gramado.

Claro, o fator gramado não é a explicação para tudo – longe disso! Mas, chamo a atenção para o fato de que ele é sim, muitíssimo importante para analisarmos ocorrências do jogo.

Muitas vezes, porém, é mais simples fugir da questão que envolve a qualidade do gramado e partir para uma análise especulativa e imaginativa – por vezes infundada – que tenta explicar êxitos e fracassos (afinal como normalmente se diz: “se o campo estava ruim, estava ruim para as duas equipes”).

E é nessa afirmação que mora um dos grandes equívocos para iniciar a análise de um jogo. O campo está ruim para as duas equipes? Depende do jogo que cada equipe se propõe a jogar.

Uma equipe acostumada a chutões, bolas longas e cruzamentos distantes até a área, pode realmente não ter grandes problemas em um campo todo esburacado, que não favoreça a troca de passes.

Mas, para uma equipe que se propõe a controlar o jogo com bola, trocar passes rápidos e elevar o ritmo do seu jogar, um campo como o descrito no parágrafo anterior não vai ser nada bom.

Então, há de se considerar que um campo bom ou ruim, não é necessariamente bom ou ruim para todas as equipes que jogam nele.

Nas categorias de base do FC Barcelona, por exemplo, mesmo nos treinos em grama artificial, o campo é levemente molhado para a bola deslizar com mais facilidade e exigir dos jogadores mais velocidade e habilidade – não por acaso a sua equipe profissional tem como hábito, em seu campo, de utilizar o mesmo procedimento durante as partidas.

Então, se queremos jogos de melhor qualidade, ritmo e intensidade devemos sim começar por uma atenção especial ao campo de jogo. E não adianta dizermos que os jogadores devem estar habituados a jogar em qualquer tipo de qualidade de gramado. Se queremos excelência no futebol não podemos negligenciar o fato!

O campo ruim, cheio de falhas e desníveis, nivela o jogo a favor das equipes de menor qualidade. O campo com gramado alto (ou muito alto), nivela o jogo à favor da equipe menos veloz e de menor ritmo.

Por que mesmo quando se está evidente a má qualidade do gramado, ao invés de nos atentarmos a isso e cobrarmos melhores condições para deixar o jogo melhor, acabamos por nos deparar muitas vezes com explicações que tentam justificar o mau desempenho de jogadores e equipes a partir de um viés por vezes distante da realidade dos fatos (coisas do tipo: faltou concentração; faltou respeito ao adversário; faltou comprometimento com a equipe)?

Claro, o bom ou mau desempenho, o bom ou o mau resultado têm explicações multifatoriais! Não estou propondo aqui que desconsideremos todas elas!

Mas, de novo, uma equipe que se prepara para jogar futebol em alto nível técnico-tático-físico vai sofrer consequências negativas de um gramado ruim; e claro ela poderá ou não se adaptar rapidamente as condições dele.

Porém, isso não desabona a grande verdade, que é a de que equipes acabam por adotar o campo de jogo como sua armadilha principal para vencer seus adversários!

Isso quer dizer então, que a invés de dirigentes, treinadores, comissões técnicas e jogadores buscarem diariamente evoluir o jogo de suas equipes para efetivamente confrontar modelos e estilos, o que vemos é um “descomprometimento” com a evolução do jogar, à favor de um pacto com um “não jogar futebol que seja vantajoso”.

Temos o dever de dar atenção a isso!!! Se queremos que nosso futebol melhore mais rapidamente, não podemos negligenciar o fator gramado!

Seja no Campeonato Brasileiro de futebol, nos Estaduais e Copa do Brasil nos quais isso é gritantemente evidente, ou ainda nas categorias de base: não podemos permitir que cada vez mais, continue ganhando espaço o desenvolvimento do “não jogar futebol que seja vantajoso”, em detrimento do realmente jogar futebol!

Por hoje é isso!!!

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O fator gramado: o vantajoso "não jogar futebol" vs o jogar futebol

São inúmeros os estudos e as observações estatísticas que vêm nos últimos 15 anos – mais formalmente – analisando a suposta vantagem de equipes como mandantes, jogando dentro dos seus "domínios".

Há também pesquisas que evidenciam, por exemplo, a influência do mando de jogo nas decisões da arbitragem (especialmente na incidência de cartões amarelos e vermelhos) em determinadas competições.

Seja qual for o tipo de análise e abordagem realizada nessas pesquisas, muitos são os motivos e os apontamentos que tentam justificar as significativas diferenças observadas tendo o mando de jogo como variável independente nos estudos.

E ainda que haja evidências certeiras que mereçam nossa atenção dentro da ideia geral e concreta, de que mais do que o mando de jogo, o ambiente e a atmosfera presente nele (no próprio ambiente), são, sistemicamente falando, potencialmente determinantes para o resultado final da partida e até de um campeonato, gostaria de evidenciar neste texto algo que deveria sim, ser valorizado como variável para análise: o fator campo literalmente falando!

E do que se trata o fator campo, literalmente falando? Trata-se especialmente das condições do terreno de jogo (da grama, dos buracos, da areia, etc.) e de suas dimensões.

Claro que uma vitória ou uma derrota podem sim ser analisadas e explicadas por uma série de fatores interligados que compõe no contexto geral o resultado final de uma jogo.

Mas, como desvalorizar (como se faz inúmeras vezes) e negligenciar, por exemplo, a qualidade do terreno de jogo para analisar o desempenho de uma equipe?

No tênis, muitos grandes jogadores em um tipo de piso não são necessariamente os melhores em outro tipo – e se quiserem ser, precisarão treinar muito para que se acostumem com as nuances que um ou outro piso propiciarão à dinâmica do jogo.

Um campo de futebol com grama alta tornará o jogo mais pesado e lento. Um campo úmido, com grama fina e baixa propiciará um jogo muito veloz. Um campo de terreno duro, com muitas falhas na grama, areia e buracos, deixará a bola muito "viva", e o jogo jogado será outro.

Quando comparamos, muitas vezes o ritmo de jogo jogado no futebol europeu com o futebol brasileiro, há de se levar muito em conta o fator campo (ou melhor, vou chamar de fator gramado). Quando comparamos, muitas vezes a qualidade técnica do jogo europeu com a do futebol brasileiro, precisamos entender o "peso" do fator gramado.

Claro, o fator gramado não é a explicação para tudo – longe disso! Mas, chamo a atenção para o fato de que ele é sim, muitíssimo importante para analisarmos ocorrências do jogo.

Muitas vezes, porém, é mais simples fugir da questão que envolve a qualidade do gramado e partir para uma análise especulativa e imaginativa – por vezes infundada – que tenta explicar êxitos e fracassos (afinal como normalmente se diz: “se o campo estava ruim, estava ruim para as duas equipes”).

E é nessa afirmação que mora um dos grandes equívocos para iniciar a análise de um jogo. O campo está ruim para as duas equipes? Depende do jogo que cada equipe se propõe a jogar.

Uma equipe acostumada a chutões, bolas longas e cruzamentos distantes até a área, pode realmente não ter grandes problemas em um campo todo esburacado, que não favoreça a troca de passes.

Mas, para uma equipe que se propõe a controlar o jogo com bola, trocar passes rápidos e elevar o ritmo do seu jogar, um campo como o descrito no parágrafo anterior não vai ser nada bom.

Então, há de se considerar que um campo bom ou ruim, não é necessariamente bom ou ruim para todas as equipes que jogam nele.

Nas categorias de base do FC Barcelona, por exemplo, mesmo nos treinos em grama artificial, o campo é levemente molhado para a bola deslizar com mais facilidade e exigir dos jogadores mais velocidade e habilidade – não por acaso a sua equipe profissional tem como hábito, em seu campo, de utilizar o mesmo procedimento durante as partidas.

Então, se queremos jogos de melhor qualidade, ritmo e intensidade devemos sim começar por uma atenção especial ao campo de jogo. E não adianta dizermos que os jogadores devem estar habituados a jogar em qualquer tipo de qualidade de gramado. Se queremos excelência no futebol não podemos negligenciar o fato!

O campo ruim, cheio de falhas e desníveis, nivela o jogo a favor das equipes de menor qualidade. O campo com gramado alto (ou muito alto), nivela o jogo à favor da equipe menos veloz e de menor ritmo.

Por que mesmo quando se está evidente a má qualidade do gramado, ao invés de nos atentarmos a isso e cobrarmos melhores condições para deixar o jogo melhor, acabamos por nos deparar muitas vezes com explicações que tentam justificar o mau desempenho de jogadores e equipes a partir de um viés por vezes distante da realidade dos fatos (coisas do tipo: faltou concentração; faltou respeito ao adversário; faltou comprometimento com a equipe)?

Claro, o bom ou mau desempenho, o bom ou o mau resultado têm explicações multifatoriais! Não estou propondo aqui que desconsideremos todas elas!

Mas, de novo, uma equipe que se prepara para jogar futebol em alto nível técnico-tático-físico vai sofrer consequências negativas de um gramado ruim; e claro ela poderá ou não se adaptar rapidamente as condições dele.

Porém, isso não desabona a grande verdade, que é a de que equipes acabam por adotar o campo de jogo como sua armadilha principal para vencer seus adversários!

Isso quer dizer então, que a invés de dirigentes, treinadores, comissões técnicas e jogadores buscarem diariamente evoluir o jogo de suas equipes para efetivamente confrontar modelos e estilos, o que vemos é um "descomprometimento" com a evolução do jogar, à favor de um pacto com um "não jogar futebol que seja vantajoso".

Temos o dever de dar atenção a isso!!! Se queremos que nosso futebol melhore mais rapidamente, não podemos negligenciar o fator gramado!

Seja no Campeonato Brasileiro de futebol, nos Estaduais e Copa do Brasil nos quais isso é gritantemente evidente, ou ainda nas categorias de base: não podemos permitir que cada vez mais, continue ganhando espaço o desenvolvimento do "não jogar futebol que seja vantajoso", em detrimento do realmente jogar futebol!

Por hoje é isso!!!