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O peso do negócio

Na semana passada abordamos aqui neste espaço a influência que a notícia tem no cotidiano das pessoas, o quanto a mídia consegue influenciar os atos das pessoas a partir do retrato de acontecimentos do dia-a-dia. E não é que, durante a semana, temos um claro exemplo de como, quando o assunto é futebol, o negócio é capaz de atropelar a notícia dentro de uma grande emissora de televisão ou de rádio.

Quarta-feira, dia 25 de junho, LDU e Fluminense se enfrentaram na primeira final da Copa Libertadores. Em toda a programação das emissoras de TV e de rádio, quase só se falou nisso. Os jornais de São Paulo estamparam o tricolor das Laranjeiras em sua capa nos dois dias que antecederam a decisão. As rádios dedicaram parte de sua programação para falar do Flu. As Tvs mostravam imagens do treino, discutiam a tática adequada para jogar na cidade de Quito, etc.

Às 21h50 de quarta-feira, porém, o torcedor em São Paulo teve uma, digamos assim, surpresa ao ligar a TV ou sintonizar o rádio e deparar com Corinthians x Bragantino pela oitava rodada do Campeonato Brasileiro da Série B.

Bairrismo? Imprensa corintiana? Interesse de patrocinadores?

Nenhuma das alternativas anteriores. Pura e simplesmente o negócio falou mais alto que a notícia entre as emissoras que precisam da transmissão ao vivo para ter grandes anunciantes.

No contrato da Globo com seus patrocinadores do futebol, ou das rádios com seus anunciantes, existe um comprometimento para que o índice de audiência nos jogos transmitidos fique numa média pelo menos igual à dos últimos anos. Ou seja, quando o cotista da TV paga, por exemplo, mais de R$ 40 milhões para ser o anunciante do futebol da Globo, ele sabe que tem de haver um número x de televisores ligados para que o dinheiro valha a pena.

E, na cidade de São Paulo, o que é mais lógico? Assistir a um jogo do Fluminense, time que tem a 12ª maior torcida do Brasil ou a uma partida, mesmo que da Série B, do Corinthians, detentor da segunda maior massa de torcedores do país e da número 1 da cidade?

Não à toa, a média de audiência da partida corintiana em São Paulo foi de 26 pontos no Ibope, número que segue a tendência dos últimos anos na emissora. Para piorar, com a Record no encalço pela liderança nesse horário, nada melhor do que manter a audiência em alta.

No dia seguinte aos jogos, jornais paulistas destacaram a vitória da LDU da mesma forma que, em 95, celebraram a conquista do Grêmio na Libertadores, ou em 97 e 98 os títulos continentais de Cruzeiro e Vasco, respectivamente. Na TV e nas rádios, o jornalismonão também não foi abandonado, tendo espaço a cobertura do tricolor carioca e de sua missão para esta quarta, dia 2.

O negócio da TV e da rádio é ter audiência. Para isso, precisam ter consciência de que, às vezes, aquilo que é notícia nem sempre é o melhor negócio. Nos jornais, em que o consumo da informação é parte do cotidiano das pessoas, o que é notícia geralmente está à frente do que é negócio…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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4-3-3, 11-0, 1-4-4-2 ou 1-1-1-1-1-1-1-1-1-1-1?

Comumente as plataformas de jogo são expressas numericamente por três linhas: a de defesa, a de meio-campo e a de ataque (nessa mesma ordem). Já discutimos aqui nesse espaço a utilização ou não do “1″ (que representaria o goleiro) e suas interessantes implicações táticas.

Pois bem, hoje discutiremos a “divisão” da defesa, meio-campo e ataque em três linhas quando se representa numericamente a plataforma de jogo e as implicações disso nas estratégias defensivas das equipes.

Verticalmente, ao analisarmos o campo de jogo notaremos que quanto menor o número de linhas que orientam a lógica de uma equipe, maior o espaço vertical “descoberto” presente no campo. Por outro lado, ao analisarmos a distribuição horizontal, notaremos que o número menor de linhas faz com que elas possam ficar mais longas, o que em “largura” pode promover uma melhor ocupação do espaço de jogo.

Ainda que pouco explorada, a ocupação do espaço através de um número maior de linhas pode proporcionar possibilidades ímpares.

Por exemplo, como distinguir, sob a perspectiva da lógica defensiva (através do entendimento das linhas) um 2-1-4-1-2 de um 3-4-3?


O 2-1-4-1-2, alcança maior profundidade na ocupação do espaço de jogo, respeitando e mantendo os princípios estruturais de defesa “compactação” e “bloco”. No entanto em largura (ocupação horizontal) abrange áreas menores e ocasiona, em tese, maior região descoberta.

Já o 3-4-3 no caso apresentado, ao contrário, abrange horizontalmente uma área maior, mas em profundidade, mantendo-se “bloco” e “compactação”, tem a ocupação limitada.

Isso reflete então, no 2-1-4-1-2, especialmente numa marcação zonal, perspectivas interessantes para equipes que iniciam sua marcação próximas a área de defesa adversária. Cada linha garante pelo menos 10 metros a mais em distribuição espacial vertical “compacta” e em “bloco”. Então em tese cinco linhas possibilitariam uma marcação logo na saída de bola, garantindo um bloco compacto de aproximadamente 45 metros (10 metros de distância entre cada linha mais 5 metros de área de flutuação).

No 3-4-3, o reflexo das três linhas se dá especialmente na possibilidade de uma ocupação compacta vertical de menor tamanho, logo de menor profundidade. Isso significa que para uma marcação em zona, “atacar” a bola, próximo a defesa adversária pode criar áreas desprotegidas em regiões atrás da última linha de defesa da equipe (a linha de zagueiros).

Obviamente quando observamos o princípio estrutural defensivo do “equilíbrio” (que se refere a ocupação horizontal das regiões distantes da bola) defender em três linhas pode garantir mais eficiência do que em cinco. Isso não significa que não é possível manter o equilíbrio horizontal com um número maior de linhas, bem como que não é possível marcar em profundidade ao se jogar com três.

Claro também que ao se optar por mais linhas pode-se potencializar possibilidades que esse tipo de opção pode proporcionar, apostando-se até em um desequilíbrio horizontal proposital para que se efetive alguma estratégia. Da mesma forma, abrir mão de uma boa ação defensiva vertical (em profundidade) também pode fazer parte da estratégia para potencializar determinadas ações e situações defensivas.

Então, preparar uma equipe sob a orientação de mais ou de menos linhas requisitará estratégias que tirem vantagens desta orientação e que minimizem, de certa forma, os riscos que se pode correr por haver um número maior ou menor dessas linhas.

Por fim, o mais importante é que haja entendimento da complexidade, variáveis e nuances que a plataforma de jogo e o número de linhas podem trazer para o cumprimento efetivo de um modelo de jogo.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Caso FC Porto e sua importância para o direito desportivo

Caros amigos da Universidade do Fubebol,

Temos acompanhado o caso da participação do Porto na Liga dos Campeões, e verificado um desenrolar interessante, cujas peculiaridades gostaria de comentar na coluna de hoje.

Como já sabemos, o Porto havia sido condenado pela Federação Portuguesa de Futebol por corrupção e manipulação de resultados. O clube, que recebeu pena pecuniária relativamente branda e redução de pontos no campeonato português que não afetava sua posição de campeão nacional, decidiu por não recorrer da decisão.

Essa decisão acabou não sendo a melhor estratégia, uma vez que a UEFA, através de seu órgão disciplinar, decidiu afastar o clube da próxima edição da Liga dos Campeões, já que um dos critérios de admissibilidade da competição é o não envolvimento em casos dessa natureza.

Pois bem, os advogados o FC Porto, muito habilmente apresentaram defesa no órgão de “segunda instância” da UEFA em duas frentes de argumentação. A primeira delas, alegando que, por conta de recursos apresentados à Federação Portuguesa por outros clubes (igualmente envolvidos), a decisão contra o Porto não era definitiva e, portanto, não poderia ser considerada pela UEFA. Além disso, alegaram o princípio da retroatividade para esclarecer que, à época em que os fatos envolvendo o Porto ocorreran, não havia ainda o dispositivo em questão nos regulamentos da UEFA (art. 1.04,d do Regulamento da Liga dos Campeões).

Desta forma, a UEFA decidiu devolver o caso para a comissão disciplinar de primeira instância, que não vai decidir sobre o caso em tempo de hábil, o que devolve o FC Porto à competição em sua próxima edição.

Com esse desenrolar, pudemos tirar as duas conclusões abaixo, de grande relevância para o meio jurídico/desportivo na Europa. Elas dão indícios da tendência mundial para resolução de casos na esfera relacionados ao esporte na esfera administrativa:

  1. Independência dos órgãos judicias desportivos. Em recente declaração, o Presidente da UEFA não teve receios de dizer que é radicalmente contra a decisão tomada, e que, por ele, o FC Porto permaneceria fora da competição. Veja, isso demonstra que nem o Presidente da associação tem poder para manipular qualquer decisão para atender finalidades políticas ou de convicções próprias.
  2. A decisão tomada levou em consideração a estrita legalidade da aplicação das penalidades aos fatos ocorridos, dentro de uma lógica jurídica de interpretação e aplicação da regulação. A fundamentação jurídica mostrou-se fundamental para a decisão tomada.

Desta forma, concluímos que essa é uma tendência que temos verificado nos tempos atuais. Os órgãos desportivos buscam, ao máximo, o reconhecimento da justiça para tomar suas próprias decisões, com estrita observância dos princípios da especificidade do esporte, subsidiariedade e autonomia dos órgãos desportivos. E é através dessa independência e legalidade das decisões, que esse objetivo vai ficando cada vez mais próximo de ser alcançado na sua plenitude.

Todos nós sabemos que o mercado Europa infesta-se de jogadores de futebol brasileiros. E não é a toa. Nossos jogadores, via de regra, mostram no velho continente que possuem uma qualidade técnica que em média é muito superior aos demais jogadores, eu diria, do mundo (exceção talvez feita aos jogadores argentinos).

De toda forma, o que temos notado é que aqueles jogadores formados fora da Europa terão, a cada dia, maior dificuldade de atuar em clubes europeus.

A UEFA (confederação continental européia) tem grande preocupação com a formação de jogadores europeus (os chamados “home-grown players”). Para se ter uma idéia, durante a temporada 08/09 nas suas principais competições de clubes (Liga dos Campeões e Taça UEFA), adotar-se-á a regra de que, do limite de 25 jogadores que podem ser inscritos, 8 obrigatoriamente devem ser formados na Europa (entenda-se formado na Europa, em linhas gerais, o jogador que tenha sido registrado por um clube europeu durante 3 temporadas no período entre seus 15 e 21 anos).

O número parece pequeno de home-grown players, porém tem sido gradualmente elevado. Na temporada 06/07 era de 4. Na temporada 07/08, foi aumentado para 6.

A FIFA também apoia essa iniciativa. Vimos o Presidente Blatter dizer na cerimônia de entrega de da Copa de 14 ao Brasil: “jogadores brasileiros, fiquem em seu país.”. A grande justificativa é o receio de que se perda a identidade local dos clubes, com o exceço de jogadores que, por terem sido formados fora daquele país, não colaborariam para manter viva a cultura local através do futebol.

Interessante notar que essa regra nada diz respeito com relação a questão da cidadania do jogador. Ou seja, o que importa é que a quota mínima de jogadores tenha sido treinada na Europa, podendo ser de outra nacionalidade. Brasileiros poderia “driblar” essa regra caso tenham sido treinados pelo menos 3 temporadas nas suas formações em clubes europeus.

Para a questão da cidadania, lembramos que existe outra regra que limita o número de estrangeiros dentro das quatro linhas, dependendo da competição.

A questão intessante a se pensar é até que ponto chegará esse limite mínimo de home-grown players que vem crescendo a cada temporada? Poderá um dia haver uma tentativa de não se admitir jogadores formados no exterior? Além disso, questões de ordem legal saltam aos nossos olhos: não seria uma regra que limitaria o direito de trabalhar dos jogadores? E o direito a livre concorrência? Ou essas questões estariam cobertas pela especificidade do esporte?

E não seriam apenas os jogadores os prejudicados. Do outro lado da balança temos os clubes e as ligas européias, que obviamente querem times mais competitivos, e portanto recheados de estrangeiros de qualidade. Essas partes igualmente se oporiam a uma limitação exagerada de jogadores formados no exterior.

Até onde temos notícia, não há julgados nas Cortes européias sobre essa matéria. Mas, certamente, caso o limite mínimo de home-grown players continue a subir, muitos casos deverão surgir.

Vendo a questão pelo lado do mercado brasileiro, essa potencial confusão jurídica pode dar mais uma deixa para que os clubes e federações aproveitem para manter bons jogadores por maior período no Brasil, e assim colaborar para o desenvolvimento do futebol pátrio.

Mais do que isso, todas as partes envolvidas, incluindo os operadores do direito desportivo, terão maior segurança jurídica nas suas atividades.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Jornalista atingido por leitor em sua honra e imagem pode pleitear indenização

É comum entre os jornalistas, principalmente os cronistas que expõe suas opiniões ao público, o envio, por e-mail ou carta, de comentários acerca de suas matérias, vindos dos leitores.

Mas muitas vezes, aqueles que são o objetivo sagrado de todo o jornalista, no caso o próprio leitor, vêem no artigo apenas uma maneira de extravasar ódios e rancores que vão muito além do real interesse pela informação. Não são raras, portanto, as ocasiões em que os comentários tornam-se maldosos e até ofensivos.

A crítica é permitida, o leitor realmente tem muitas prerrogativas a seu favor, como o direito de expressar sua opinião, deixando o jornalista à mercê de suas palavras. Mas justamente por isso há limite para tal. Até o leitor, tratado em geral pela grande imprensa como uma espécie de entidade que contempla todos os direitos, não pode ultrapassar certos parâmetros da ética e do respeito à individualidade de quem informa ou opina nos veículos de comunicação.

A jurisprudência brasileira, inclusive, é escassa neste sentido, dando maior ênfase ao jornalista que ofende do que ao que é ofendido. O profissional não pode ser ofendido na sua honra nem imagem. O leitor deve abordar e se restringir ao teor da matéria e não de forma contundente à pessoa do profissional. O crítico-leitor não deve extravasar o limite da crítica, violando direitos constitucionalmente assegurados e imprescindíveis à democracia, como liberdade, honra, vida, segurança e privacidade.

É incumbência de quem lê controlar instintos primitivos para não confundir desabafo com calúnia, irritação com desrespeito, contrariedade com rancor corrosivo. A ofensa é condenável por qualquer meio transmitida, postal, e-mail, televisivo. Assim como o jornalista deve ser correto e veraz no desempenho de sua atividade, cuidando para apurar os fatos levados ao seu conhecimento, o comentarista de suas matérias também deve seguir o mesmo padrão de conduta.

Portanto, os abusos ocorridos no exercício indevido da manifestação do pensamento são passíveis de exame e apreciação pelo Poder Judiciário com a conseqüente responsabilidade civil e penal de seus autores. Pelo bem da democracia e por uma imprensa, inclusive a esportiva, que transite pelos campos da verdadeira liberdade e não caia, por um ou outro lado, no abismo tirânico da ditadura de idéias e conceitos.

*advogada especialista em Direito Civil e legislação desportiva

(eloa@imfadvocacia.com.br)

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A compreensão do futebol como um jogo esportivo coletivo e os princípios operacionais de Claude Bayer II: métodos de ensino e treinamento

Após discussão anterior relacionada à busca da compreensão do que é composto o jogo de futebol (no artigo intitulado “A compreensão do futebol como um jogo esportivo coletivo e os princípios operacionais de Claude Bayer I“), torna-se necessária, num processo de reflexão pedagógica acerca dessa modalidade esportiva, uma reflexão sobre o que deve ser ensinado/treinado e como pode ocorrer esse processo.

Quanto ao conteúdo do jogo de futebol, tem-se que este é um jogo esportivo coletivo composto tanto por fatores técnicos quanto táticos, sendo que os primeiros somente têm razão de ser pautados no sentido empregado pelos segundos (GARGANTA, 1995).

Inúmeros trabalhos exploram questões técnicas a respeito do ensino do futebol, caindo, muitas vezes, na mesmice e nas receitas prontas de aulas e treinos. Quanto ao conteúdo tático, este se faz mais complexo e menos explorado pela literatura, porém pode-se observar diferentes tendências em sua análise (MARQUES, 2001).

Neste trabalho, toma-se como base de análise do conteúdo tático as noções de Claude Bayer (1994) e os Princípios Operacionais dos Esportes Coletivos. Dentro da lógica sugerida por este autor, os jogadores respeitam certas diretrizes que norteiam suas ações técnicas em situações de defesa e ataque. Nesse panorama, torna-se importante reflexão sobre como ensinar, ou seja, métodos, instrumentos e procedimentos didáticos que permeiam os processos de preparação de jogadores de futebol.

Seguindo a mesma metodologia de análise de Claude Bayer para uma reflexão acerca da atuação do professor/técnico de futebol, toma-se como referência os jogos esportivos coletivos como um todo, ou seja, busca-se tendências e princípios em comum entre as modalidades esportivas coletivas.

A escolha que um profissional do esporte faz é de grande importância para o sucesso do praticante no processo ensino-aprendizagem-treinamento. O método escolhido deverá facilitar o ensino-aprendizagem, bem como preparar o iniciante para o processo de treinamento, sem, contudo, tornar-se maçante ou desmotivá-lo. Deve ainda proporcionar situações-problemas ou oferecer tarefas a executar que estejam adequadas à capacidade do aluno (GRECO, 1998).

Conforme Dietrich et al. (1984), alguns princípios norteiam a metodologia de ensino dos jogos esportivos, ou seja, correntes teóricas que delimitam os critérios e pontos de ação dos métodos de ensino. Segundo este autor, os princípios de maior destaque são o analítico-sintético e o global funcional.

O primeiro é derivado da corrente associacionista, que influencia a teoria behaviorista. O segundo está apoiado na teoria psicológica da Gestalt que, de forma resumida, expressa que seu todo é mais que a soma das partes (GRECO, 1998). Nesse universo, a função dos métodos de ensino se encontra na indicação dos caminhos e procedimentos a serem tomados num processo de ensino-treinamento com base nos critérios e conteúdos dos princípios.

O princípio analítico-sintético caracteriza-se, principalmente, pelo processo de ensino-treinamento em partes, em etapas, com exercícios que apresentam uma divisão dos gestos, das técnicas, da ação motora em seus mínimos componentes. Ensina-se primeiro o componente técnico do jogo através da repetição de exercícios de cada fundamento técnico, os quais são acoplados a séries de exercícios (GRECO, 1998).

Nesse princípio, que se caracteriza pelo ensino pautado na busca pela gestualização do campeão, ou seja, pela realização técnica tida como mais eficiente, tem-se o contato com o jogo dividido em duas etapas principais, primeiro aprende-se os fundamentos técnicos para, num segundo momento, apresentar conceitos táticos. A premissa que baseia esse processo é que exista uma aplicabilidade direta da técnica aprendida nas séries de exercícios e a realização da mesma no contexto de resolução de problemas do jogo.

Esse aprendizado técnico, segundo o American Sport Education Program (2000), consiste na automatização do movimento através da repetição do mesmo de forma fragmentada e repetitiva. Para isso, é importante que o aluno aprenda cada passo do fundamento a ser ensinado.

Segundo Garret (1958) apud Mesquita (1981), existem ainda diversos enfoques do princípio analítico sintético:

– Método Analítico Puro: Cada parte é aprendida separadamente de acordo com um critério. Depois de que todas as partes são repetidas em uma seqüência como um todo, até que esse todo tenha alcançado o “critério” já obtido pelas partes separadamente;

– Método Analítico Progressivo: As partes 1 e 2 são dominadas separadamente e então combinadas para formar um todo. A parte 3 será, então, depois aprendida separadamente e executa-se a combinação 1 e 2 com 3, e assim sucessivamente coma adição progressiva das partes, até que o todo original tenha sido aprendido;

– Método Analítico Repetitivo: Consiste no domínio da parte 1, passando-se então à prática das partes 1 e 2 juntas, depois às partes 1, 2 e 3 juntas e assim por diante, até que todas tenham sido aprendidas.

Como exemplo de aplicação deste princípio tem-se uma aula com séries de exercícios em que os alunos contornam cones, na expectativa de melhorar sua condução de bola e drible, e posteriormente chutam ao gol bolas passadas pelo professor, sem nenhuma marcação, e apenas problemas de execução motora a serem resolvidos para, num momento final, realizar um jogo formal e aplicar os fundamentos aprendidos em aula.

Como vantagens do uso desse princípio tem-se, segundo Santana (2004), a execução técnica mais eficiente, o êxito na execução, ¬o favorecimento à correção, a facilitação à avaliação de questões técnicas, ¬ a inibição de conflitos, ¬a garantia de uma quantidade generosa de gestos. Como desvantagens, o mesmo autor aponta que não atende o desejo de jogar, a aula torna-se pouco diversificada, separa técnica e tática, treina-se a técnica fora do ambiente de jogo, desfavorece a improvisação e criatividade, desfavorece trocas sociais.

Por sua vez, o princípio Global Funcional caracteriza-se pela intenção de adequar toda a complexidade do jogo esportivo (técnica, regras, conceitos táticos, etc.), através da apresentação de uma seqüência de jogos acessíveis à faixa etária e à capacidade técnica do aluno iniciante (DIETRICH et al., 1984).

Este princípio parte da idéia de fracionar o jogo formal em pequenos jogos, simulando situações reais a serem encontradas pelos alunos. Assim, segundo Greco (1998), o mesmo deverá passar por vários jogos preparatórios para se chegar à prática do jogo final, ou seja, tanto o aprendizado técnico quanto o tático ocorrerão através destes jogos fracionados.

Garganta (1995) adota uma metodologia similar ao princípio Global Funcional, a “Forma Centrada nos Jogos Condicionados”. Esse autor afirma que nesse tipo de teoria o aprendizado técnico se dá em função da tática, ou seja, o aluno desenvolve sua técnica própria de jogo de acordo com suas necessidades dentro do mesmo, construindo, assim, uma técnica eficiente em relação aos problemas que lhe são apresentados no jogo.

O princípio Global Funcional pode ser dividido em 4 (quatro) métodos de ensino, segundo Dietrich et al. (1984):

– Método Global: divisão do jogo formal em pequenos jogos, com características semelhantes às do jogo final, porém, trabalhadas de forma simplificada, com espaços e número de jogadores reduzidos, por exemplo;

– Método de Confrontação: jogar o jogo formal, buscando o aprendizado através do mesmo, através do princípio da tentativa e erro;

– Método P
arcial: Treinamento das partes para se chegar ao todo, ou seja, treina-se alguns aspectos menores do jogo, para aplica-los no jogo final;

– Método do conceito recreativo do jogo: Similar ao método global, este visa o aprendizado técnico juntamente com o tático, porém, através de jogos recreativos, ou seja, nem sempre os jogos são provenientes do jogo final, embora contenham características e situações próprias destes.

Nesse princípio, além da premissa de que o jogo se aprende jogando, através de situações-problema oferecidas, tem-se que a técnica do mesmo se dá, em concordância com as idéias de Bayer, vinculadas e pautadas à ação tática do jogo.

Como exemplo tem-se que os alunos podem treinar a condução de bola e o drible num jogo de pega-pega com bolas nos pés, ou num jogo reduzido de 1 contra 1, num campo com limites menores. Nesse processo, tanto a realização motora quanto as razões de sua execução são trabalhadas através de situações-problema a serem resolvidas pelos alunos.

Como vantagens do uso desse princípio tem-se, segundo Santana (2004), que atende o desejo de jogar, as habilidades são aprendidas no contexto do jogo, técnica e tática são desenvolvidas de forma conjunta, favorece experiências do jogo, favorece trocas sociais, requer pouco material. Como desvantagens, tem-se ¬muitas informações ao mesmo tempo, a possibilidade de execução errônea das habilidades, desfavorece a relação com a bola em alguns momentos de jogo.

Dentro desse princípio (global funcional) podem ser citados inúmeros outros métodos, como por exemplo, a Forma centrada nos Jogos Condicionados de Garganta (1995), a proposta de ensino através dos jogos de Freire (1998), entre outros, que, pautados numa visão mais moderna do ensino do futebol, buscam ensinar o jogador a resolver problemas e agir de forma técnica dentro do jogo, desenvolvendo a capacidade de avaliar, raciocinar e resolver as situações que lhe são apresentadas.

Não é pretensão deste artigo afirmar que existem apenas essas duas formas de reflexão sobre métodos de ensino para o futebol, muito menos estabelecer qual é a melhor ou a pior, porém, é necessário admitir que existem jogadores consagrados que aprenderam a jogar vivenciando tanto jogos reduzidos e adaptados, quanto séries de exercícios e fracionamento das ações técnicas. Por essa razão, num primeiro momento, a idéia é apresentar tais possibilidades e pontuá-las de forma a serem utilizadas de acordo com as necessidades, intenções e possibilidades do professor e dos alunos, na busca por melhores processos de ensino-treinamento.

Mora nesse ponto o papel do pedagogo do esporte que, de acordo com suas convicções, conhecimento e objetivos, deve escolher quais os caminhos de seu trabalho, porém de forma consciente e dirigida.

* Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas/SP – UNICAMP e Docente da Faculdade de Ciências e Letras de Bragança Paulista/SP – FESB

REFERÊNCIAS
AMERICAN SPORT EDUCATION PROGRAM. Ensinando basquetebol para jovens. São Paulo: Editora Manole, 2000.
BAYER, Claude. O ensino dos desportos colectivos. Lisboa: Dinalivros, 1994.
DIETRICH, K.; DÜRRWÄCHTER, G; SCHALLER, H-J.Os grandes jogos. Metodologia da prática. Rio de Janeiro:Ao livro técnico, 1984.
FREIRE, João Batista. Pedagogia do futebol. Londrina: Midiograf, 1998.
GARGANTA, Júlio. Para uma teoria dos jogos desportivos colectivos. In: GRAÇA, A. OLIVEIRA, J. (Orgs.) O ensino dos jogos desportivos. Porto: Universidade do Porto, 1995.
GRECO, Pablo Juan. Iniciação Esportiva Universal: metodologia da iniciação esportiva na escola e no clube. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
MARQUES, Renato F. R. Sistematização do ensino dos esportes coletivos para crianças de 9 a 12 anos de idade: o caso do Futsal. Monografia (2001). Faculdade de Educação Física da UNICAMP, 2001.
MESQUITA, Clodoaldo Paulo de. Comparação entre três métodos de ensino (Analítico, Todo-Parte, Global em Forma de Jogo), na aprendizagem de futebol em crianças com idade média de 10 anos. Dissertação de mestrado (1981). Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo, 1981.
SANTANA, Wilton Carlos de. Futsal: apontamentos pedagógicos na iniciação e na especialização. Campinas: Autores Associados, 2004.

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Ausência

Caro leitor,
 
Informamos que a coluna de Oliver Seitz não será publicada nesta quinta-feira e aproveitamos o espaço para pedir desculpas pelo infortúnio.
 
Esperamos que a situação seja normalizada na próxima semana e estamos trabalhando para isso.
 
Obrigado!
 
Equipe Cidade do Futebol
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O peso da notícia

Sempre fui contra a mania, criada pelos ingleses e rapidamente adotada pela Fifa, de sonegar imagens de vandalismo nos jogos de futebol. Desde a década de 90 que os britânicos não mostram pela televisão torcedores invadindo o campo, violência entre torcidas, etc.

 

Onde fica o jornalismo nessa história? Até que ponto é correto, para quem está em casa, não saber que o jogo está paralisado por uma invasão ao gramado? Ou, ainda, que ninguém consiga entender porque os jogadores estão mais preocupados com o que se passa na arquibancada do que com a bola?

 

Afinal, na final do Mundial de Clubes de 2005, o mundo inteiro mostrou as fotos do torcedor corintiano que invadiu o campo de um dos jogos do São Paulo e entregou a Rogério Ceni um bicho de pelúcia do personagem bambi. Menos quem estava em casa, acompanhando ao vivo a partida, conseguiu ver a provocação.

 

Nas últimas semanas, porém, finalmente consegui entender o motivo de tamanha precaução dos ingleses.

 

Desde o início do ano que o Brasil tem acompanhado uma série de notícias sobre pessoas que resolvem andar com seus carros pela contramão de uma estrada ou avenida muito movimentada. Não lembro ao certo o número, mas lembro de ter lido pelo menos umas seis notícias diferentes com o mesmo enredo.

 

Recentemente, foi a vez de o relato da fuga das amigas adolescentes em direção a Buenos Aires ganhar os jornais. Mesmo com o caso resolvido, poucos dias depois mais um adolescente sumiu com a idéia de desbravar algum lugar distante.

 

E como fica o papel do jornalista nessa história? É correto divulgar a notícia? Sem dúvida que é. Mas será que é válido publicar a matéria e, indiretamente, encorajar outros a tomarem o mesmo tipo de atitude?

 

É isso que os ingleses decidiram abolir, em nome do futebol-espetáculo. Mostrar ao mundo um jogo limpo, sem invasões de campo, sem duelos entre torcedores, com o foco apenas na qualidade do espetáculo, na festa da torcida, no grito de gol do craque.

 

Por mais que exista razão jornalística, o peso da notícia deve ser considerado. Afinal, antes de ser jornalista, a pessoa é um ser humano. Deve estar sempre consciente do que é fato jornalístico e do que deve ser também um ato cidadão.


E o futebol com isso? O crescimento da modalidade como negócio passa pela profissionalização da exposição do esporte. E, entre uma bela jogada ou uma pisada de bola da torcida, não há dúvida do que é melhor para o negócio…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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A origem do futebol na Era Moderna

Pode-se dizer que o futebol é o fenômeno sócio-cultural mais expressivo da nossa atualidade e está intensamente presente na vida cotidiana do homem moderno.

Assim como o capitalismo, este esporte expandiu-se tão rapidamente pelo mundo e se tornou uma expressão máxima da cultura corporal do movimento. No entanto, em meio a esse “boom” esportivo surgem alguns questionamentos, principalmente no meio acadêmico, que expressam suas dúvidas quanto aos valores humanos e sociais do esporte (HELAL, 1990; BETTI, 1998; BRACHT, 2003).

A quantidade de tempo e dedicação da maioria das pessoas para o esporte mostra o quanto o esporte é popular em nossa sociedade. Por exemplo, que outro evento além do carnaval, consegue atrair mais brasileiros do que uma final de um campeonato de futebol? Que outro evento consegue atrair mais pessoas do mundo inteiro do que as Olimpíadas ou uma final da Copa do Mundo?

O Esporte Moderno, que hoje conhecemos, é o resultado de um processo contínuo de desenvolvimento. Quando se fala na história do futebol, é comum fazer referências ao “quiaco Del cálcio” na Itália no século XVI, ao Kemari, um jogo japonês com bola, originário na China por volta de 2.600 a.C. É comum também fazer referências aos jogos gregos antigos, entre eles os de Olímpia, como práticas esportivas (BRACHT, 2003).

Segundo Betti (1997) e Bracht (2003) o esporte moderno é resultado de um longo processo de transformação do esporte, das características da cultura corporal do movimento das classes populares inglesas, como os jogos populares, por exemplo, os jogos com bola. Este processo começa em meados do século XVIII e se intensifica no final do século XIX e inicio do século XX. O esporte, da maneira que é visto, conhecido, interpretado hoje é fruto das profundas transformações produzidas pela Revolução Industrial na Europa dos séculos XVIII e XIX.

Os Jogos Olímpicos da Grécia Antiga eram considerados festivais sagrados, onde os atletas competiam para “servir aos Deuses”. Já o esporte moderno nasce sem nenhum vínculo religioso. Ele teve início na Inglaterra, logo após a Revolução Industrial, e surge como um evento sem nenhuma relação com divindade. Portanto, o esporte moderno desenvolve-se a partir do século XVIII e relacionado com o desenvolvimento da sociedade capitalista inglesa (HELAL, 1990; BRACHT, 2003).

Quase todos os esportes de bola e de equipe que hoje conhecemos foram “inventados” pelos ingleses em meados do século XIX. Diz-se “inventados”, pois eles foram os primeiros a estabelecer e oficializar as regras desses esportes. A transformação de um jogo com bola praticado com os pés em esporte ocorreu a partir de 1863 com a criação da Federation International Football Association (Fifa), na Inglaterra, instituição que regulamentou o futebol, criando então suas regras universais. Nessa época, a Igreja colocava severas restrições a qualquer tipo de prática ou evento esportivo, pois se dizia que a participação em um evento esportivo desviaria a atenção de questões espirituais mais importantes. Além disso, o fato do esporte ser praticado aos finais de semana não agradava a Igreja, que considerava o domingo um dia sagrado e dedicado às orações. Nesse sentido, o esporte era visto como uma atividade desvinculada da religião ou de qualquer coisa relacionada ao mesmo (HELAL, 1990; REIS, 2006).

O esporte é uma das instituições sociais mais sólidas do mundo moderno. Para se ter uma idéia, a Federation International Football Association (Fifa) reúne um número maior de nações afiliadas do que a Organização das Nações Unidas (ONU). Em quase todas essas nações, o esporte é uma das metas mais importantes dos programas governamentais (HELAL, 1990).

Antes da adoção de regras universais para os jogos com bola com os pés, as regras eram definidas por tradições locais, deste modo as regras variavam de um local para outro. A universalização do novo esporte depende da criação de regras universais e esta é uma estratégia adotada até hoje para a divulgação de novos esportes (REIS, 2006).

O esporte “popular”, ou seja, jogos praticados pelas classes populares inglesas entraram em declínio por volta de 1800, devido aos processos de industrialização e urbanização que os levou a novos padrões e condições de vida. Os jogos tradicionais (futebol, por exemplo) que eram praticados se desligaram de suas funções iniciais, pois estavam relacionados ao tempo livre, às festividades da colheita ou religiosa. Mas é nas escolas públicas que estes jogos vão sobreviver, pois não eram vistos como uma ameaça à propriedade e a ordem pública. Nessas escolas públicas que aqueles jogos (como o futebol) serão regulamentados e aos poucos assumir as formas do esporte moderno (BRACHT, 2003).

De acordo com Bracht (2003), no século XIX vão surgir, na Inglaterra principalmente, organizações que congregam grupos de clubes, as federações, como a de futebol, que promovem competições em nível regional e nacional. Novos esportes surgem, ou seja, esportivam-se uma série de práticas corporais e logo aproveitou-se a possibilidade de explorar comercialmente os eventos esportivos, surgindo o profissionalismo do futebol que pode ser visto no artigo abaixo http://cidadedofutebol.uol.com.br/Universidade/Web/Site/index_area_administracao.asp?arq=artigo.asp&id_cont=1628.

De acordo com Helal (1990) a prática do futebol era restrita às escolas públicas de elite da Inglaterra, permanecendo assim até o inicio da década de 1880, quando as classes trabalhadoras começaram a ter folgas nas tarde de sábado. Para praticá-lo era necessário dinheiro, ai entrou a questão do profissionalismo e criou-se uma polêmica que perdurou durante muito tempo. A Fifa, que tinha fundado o esporte em 1863 teve de enfrentar esse problema, pois com a diminuição da jornada de trabalho, os operários começaram a se interessar cada vez mais pelo novo esporte. Não tardou muito e em 1890 o futebol já era uma prática profissional e se tornou rapidamente um esporte de massa predominante na Inglaterra urbana e em quase todos os países que mantinham relações comerciais com a Inglaterra.

Este processo de difusão do esporte para o resto do mundo, de acordo com Betti (1997), já foi apontado como uma forma de imperialismo cultural, pois a adoção de um esporte popular, de um povo para outro povo, resulta em uma mistura de fatores culturais próprios de cada sociedade.

Bracht (2003), diz que muitos dos elementos característicos da sociedade vão se incorporando no esporte como, por exemplo: a orientação para o rendimento e a competição, a cientificização do treinamento, a organização burocrática, a especialização dos papéis, a pedagogização e o nacionalismo (este promovido pelo movimento olímpico).

Pode-se dizer que a cultura corporal do movimento esportivou-se. Em conseqüência disso, o conceito de esporte mudou e passou a receber adjetivações como: esporte de alto rendimento ou de rendimento, esporte de lazer, esporte educativo, etc. No Brasil, a Comissão de Reformulação do Esporte Brasileiro, instituída pelo presidente José Sarney, em 1985, sugeriu e está sendo amplamente aceito, inclusive incorporado pela Constituição Federal de 1988, diferenciar o esporte em três maneiras: alto rendimento (clubes esportivos profissionais, por ex.), lazer (diversão no tempo livre) e educar através do esporte (nas instituições de ensino) (BRACHT, 2003).

O futebol é o esporte coletivo de maior sucesso, pois propicia ao público situações tensas, deixando-os na expectativa, pois o desenrolar das ações depende dos jogadores, da característica tática e técnica de cada um e isso torna o jogo imprevisível. Este esporte teve grande aceitação nos diversos países desde sua chegada e conquistou no final do século XX e vem conquistando países que não tem o futebol como prática de lazer c
otidiana, como por exemplo, Coréia, Japão e Estados Unidos (REIS, 2006).

O esporte moderno, principalmente o futebol, tem tido um papel importante nas sociedades modernas como um dos poucos fatores de prazer. O futebol é um elemento importante na construção da identidade nacional de alguns países. O culto ao esporte e aos grandes campeonatos regionais e nacionais ajuda a construir nos povos o sentido de nação. Isso ocorre muito principalmente em campeonatos com grande repercussão mundial como os Jogos Olímpicos, Campeonato do Mundo onde os povos dos países participantes torcem calorosamente pela sua seleção nacional e se alegram imensamente quando ganham ou sofrem quando perdem.

Referências

BETTI, M. Violência em campo: dinheiro, mídia e transgressão ás regras no futebol espetáculo. Ijui, RS: Editora Unijui, 1997.

________. A janela de vidro: esporte, televisão e educação física. Campinas, SP: Editora Papirus, 1998.

BRACHT, V. Sociologia critica do esporte: uma introdução. Ijui, RS: Editora Unijui, 2003.

HELAL, R. O que é sociologia do esporte. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.

REIS, H.H.B. Futebol e violência. Campinas: Editora Autores Associados, 2006.

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4-4-2 x 1-4-4-2 e o jogo de ‘chutões’

No futebol, é comum e normal representar a plataforma de jogo (leia-se esquema tático) através de uma seqüência de três números. Da defesa para o ataque são então representados o 4-4-2, o 3-5-2, o 4-3-3 dentre tantos outros.
 
O goleiro não aparece, sob o típico argumento de que não é preciso representá-lo (porque ele vai ser o “1” que sempre estará ali).
 
Pois bem. Faz muito tempo que a função típica do goleiro em uma partida de futebol é defender a meta com qualquer parte do corpo; evitar o gol. Não tão óbvio quanto parece, esse pensamento (de que a função do goleiro é “defender a bola”) acaba por desencadear avanços e retrocessos táticos importantes na forma de jogar das equipes de futebol.
 
Basta assistir a alguns jogos da Uefa Euro 2008 para notarmos diferentes propostas trazidas pelas equipes para “o jogar” e o quanto parte dessas propostas estão atreladas ao goleiro.
 
Para trazer mais clareza a minha explanação vou reproduzir parte de uma pergunta feita a mim por um correspondente holandês depois de assistir a um jogo do Campeonato Paulista juvenil (sub-17):
 
“Em muitos momentos o jogo ficou feio de assistir. Muitos chutões por parte das duas equipes. Daqui alguns anos esses jogadores estarão em uma equipe profissional. Não é preocupante que os jogadores que estão sendo formados na base não consigam um jogo de toques de bola e precisem usar o tempo todo chutões para se livrar do perigo”?
 
Claro!
 
Que bom ouvir uma pergunta dessas de alguém que se relaciona com a imprensa esportiva (porque aqui no Brasil na grande maioria das vezes o nível dos comentários e perguntas dos “especialistas esportivos” na TV, no jornal, no rádio ou na internet são… bom, deixa “pra lá”).
 
Grandes equipes européias de sucesso estão a utilizar, já há algum tempo, o goleiro como 11º jogador de linha da equipe. E aí seja para controlar o jogo, defender com bola ou tirá-la da pressão em uma jogada qualquer, as alternativas e possibilidades se enriquecem bastante.
 
Com as seleções nacionais da Europa, a mesma coisa. Na Uefa Euro 2008 temos equipes que incorporaram em suas estratégias para o jogar a ação efetiva do goleiro como um jogador que além de ser bom com as mãos para defender é eficiente com os pés para participar da construção do jogo.
 
Como nossos “grandes comentaristas esportivos” devem gostar do jogo de chutões e devem estar enraizados no conceito de que o goleiro está ali para defender o gol e ponto final, acabam por se “desesperar” quando a bola é recuada para o goleiro. Como são formadores de opinião, não é incomum perceber o “frisson” das grandes massas e torcidas quando ocorre o fato e se está a assistir ao jogo ao vivo.
 
É claro que o chutão às vezes pode ser necessário. Se a melhor (mais inteligente, efetiva e eficaz) solução para uma situação do jogo for um chutão, é claro que ele precisa ocorrer. Mas garanto que na maioria das vezes ele não é necessário (principalmente no Brasil, onde o “pressing” é um conceito distante, e a “pressão” em grande parte das vezes é desorganizada e não-coletiva).
 
Porém, muitas vezes a sensibilidade de quem assiste ao jogo não dá conta de perceber essas coisas. E aí, reproduz-se o que sempre se reproduziu, pensa-se o que sempre se pensou.
 
E o que vale para o goleiro, vale para os zagueiros, laterais, volantes ou qualquer outro jogador pressionado em seu campo de defesa.
 
O problema é que talvez no Brasil a dificuldade para construir essa idéia se solidifique no ciclo vicioso criado pela disseminação de uma leitura sobre o jogo que muitas vezes se distancia do próprio jogo. Então, jovens jogadores nas categorias de base, contaminados pelo ciclo e gerenciados por treinadores já “viciados”, não conseguem se desprender do doente processo.
 
Investir em bons trabalhos, com pessoas realmente competentes é possível.
A partida que o correspondente holandês assistiu, felizmente foi atípica, pelo menos para uma das equipes (porque o chutão não é uma solução padrão para ela).
 
Porém, talvez seja uma das poucas remando contra a maré; e remar contra a maré é para os fortes (e esses não são muitos)!
 
Que o processo mude, e rápido, porque pelo menos para nós brasileiros se isso não acontecer, não estará longe o tempo em que ficaremos fora de nossa primeira Copa do Mundo (e longe ficará o tempo que entenderemos porque a França nos venceu em 1988 e 2006).
 
Por fim, que um dia o 4-4-2 e o 1-4-4-2 (ou o 4-3-3 e o 1-4-3-3, ou o 3-5-2 e o 1-3-5-2, etc. e tal) tenham realmente significados práticos diferentes, e que os nossos formadores de opinião da imprensa especializada, em geral, possam ver o jogo mais próximo do que ele realmente é.
 
Au revoir…

Para interagir com o autor: rodrigo@149.28.100.147

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4-4-2 x 1-4-4-2 e o jogo de 'chutões'

No futebol, é comum e normal representar a plataforma de jogo (leia-se esquema tático) através de uma seqüência de três números. Da defesa para o ataque são então representados o 4-4-2, o 3-5-2, o 4-3-3 dentre tantos outros.
 
O goleiro não aparece, sob o típico argumento de que não é preciso representá-lo (porque ele vai ser o “1” que sempre estará ali).
 
Pois bem. Faz muito tempo que a função típica do goleiro em uma partida de futebol é defender a meta com qualquer parte do corpo; evitar o gol. Não tão óbvio quanto parece, esse pensamento (de que a função do goleiro é “defender a bola”) acaba por desencadear avanços e retrocessos táticos importantes na forma de jogar das equipes de futebol.
 
Basta assistir a alguns jogos da Uefa Euro 2008 para notarmos diferentes propostas trazidas pelas equipes para “o jogar” e o quanto parte dessas propostas estão atreladas ao goleiro.
 
Para trazer mais clareza a minha explanação vou reproduzir parte de uma pergunta feita a mim por um correspondente holandês depois de assistir a um jogo do Campeonato Paulista juvenil (sub-17):
 
“Em muitos momentos o jogo ficou feio de assistir. Muitos chutões por parte das duas equipes. Daqui alguns anos esses jogadores estarão em uma equipe profissional. Não é preocupante que os jogadores que estão sendo formados na base não consigam um jogo de toques de bola e precisem usar o tempo todo chutões para se livrar do perigo”?
 
Claro!
 
Que bom ouvir uma pergunta dessas de alguém que se relaciona com a imprensa esportiva (porque aqui no Brasil na grande maioria das vezes o nível dos comentários e perguntas dos “especialistas esportivos” na TV, no jornal, no rádio ou na internet são… bom, deixa “pra lá”).
 
Grandes equipes européias de sucesso estão a utilizar, já há algum tempo, o goleiro como 11º jogador de linha da equipe. E aí seja para controlar o jogo, defender com bola ou tirá-la da pressão em uma jogada qualquer, as alternativas e possibilidades se enriquecem bastante.
 
Com as seleções nacionais da Europa, a mesma coisa. Na Uefa Euro 2008 temos equipes que incorporaram em suas estratégias para o jogar a ação efetiva do goleiro como um jogador que além de ser bom com as mãos para defender é eficiente com os pés para participar da construção do jogo.
 
Como nossos “grandes comentaristas esportivos” devem gostar do jogo de chutões e devem estar enraizados no conceito de que o goleiro está ali para defender o gol e ponto final, acabam por se “desesperar” quando a bola é recuada para o goleiro. Como são formadores de opinião, não é incomum perceber o “frisson” das grandes massas e torcidas quando ocorre o fato e se está a assistir ao jogo ao vivo.
 
É claro que o chutão às vezes pode ser necessário. Se a melhor (mais inteligente, efetiva e eficaz) solução para uma situação do jogo for um chutão, é claro que ele precisa ocorrer. Mas garanto que na maioria das vezes ele não é necessário (principalmente no Brasil, onde o “pressing” é um conceito distante, e a “pressão” em grande parte das vezes é desorganizada e não-coletiva).
 
Porém, muitas vezes a sensibilidade de quem assiste ao jogo não dá conta de perceber essas coisas. E aí, reproduz-se o que sempre se reproduziu, pensa-se o que sempre se pensou.
 
E o que vale para o goleiro, vale para os zagueiros, laterais, volantes ou qualquer outro jogador pressionado em seu campo de defesa.
 
O problema é que talvez no Brasil a dificuldade para construir essa idéia se solidifique no ciclo vicioso criado pela disseminação de uma leitura sobre o jogo que muitas vezes se distancia do próprio jogo. Então, jovens jogadores nas categorias de base, contaminados pelo ciclo e gerenciados por treinadores já “viciados”, não conseguem se desprender do doente processo.
 
Investir em bons trabalhos, com pessoas realmente competentes é possível.
A partida que o correspondente holandês assistiu, felizmente foi atípica, pelo menos para uma das equipes (porque o chutão não é uma solução padrão para ela).
 
Porém, talvez seja uma das poucas remando contra a maré; e remar contra a maré é para os fortes (e esses não são muitos)!
 
Que o processo mude, e rápido, porque pelo menos para nós brasileiros se isso não acontecer, não estará longe o tempo em que ficaremos fora de nossa primeira Copa do Mundo (e longe ficará o tempo que entenderemos porque a França nos venceu em 1988 e 2006).
 
Por fim, que um dia o 4-4-2 e o 1-4-4-2 (ou o 4-3-3 e o 1-4-3-3, ou o 3-5-2 e o 1-3-5-2, etc. e tal) tenham realmente significados práticos diferentes, e que os nossos formadores de opinião da imprensa especializada, em geral, possam ver o jogo mais próximo do que ele realmente é.
 
Au revoir…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br