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O ataque do River de Marcelo Gallardo – A transição defensiva e uma análise quantitativa

Nas últimas três semanas abordamos as fases de iniciação, criação e finalização das jogadas ofensivas do River Plante de Marcelo Gallado e hoje chegamos ao último texto da série de artigos que destrinchou o ataque millonario. Nas próximas linhas iremos abordar a transição defensiva da equipe argentina e trazer alguns números que vão ajudar a ilustrar suas principais características ofensivas.

A fase de transição defensiva do River é marcada não somente pela pressão pós perda agressiva que dá pouco tempo para o adversário ficar com a bola, mas também pelas interações grupais que permitem criar estruturas de pressão e contenção para recuperar a bola e permitir um novo ataque, chamaremos esse comportamento de atacar marcando. Ponzio, Enzo Pérez e Palacios se destacam bastante nesses momentos pela alta capacidade de pressionar com agressividade, antecipar os passes e recuperar a bola para promover uma nova jogada de ataque.

Pressão pós perda

Imagens: Jonathan Silva/Reprodução

Importante perceber nas três imagens que os jogadores mais próximos do adversário com a bola tem a função de pressionar, enquanto os demais que estão ao redor da jogada buscam eliminar opções de passes interiores.

A participação dos médios nessa fase é muito importante para proteger a região central e intensificar a pressão. Ponzio, Palacios e Enzo Pérez buscam uma posição para realizar coberturas ou dobras de marcação.

Atacar marcando

Nas imagens acima temos um bom exemplo da importância dos médios de Gallardo. O River tem uma tentativa de ataque mas perde a bola na zona de finalização, o adversário é desarmado por Ponzio que consegue recuperar a bola e passar para Mora que finaliza de fora da área.

Imagens: Jonathan Silva/Reprodução

Nesses exemplos temos na figura 42 o momento em que o River Plate já estava sem a bola após realizar um ataque e percebemos como Ponzio e Palacios estão se projetando para conter o ataque adversário pelo centro.

Imagens: Jonathan Silva/Reprodução

Na figura 43, temos mais uma bola recuperada por Ponzio com a ajuda do lateral esquerdo Montiel.

Imagens: Jonathan Silva/Reprodução

As imagens acima reforçam como o atacar marcando organizado do River sobreviveu ao tempo, dessa vez quem tem o papel de garantir a contenção do adversário e recuperação da bola é Enzo Perez. Na figura 41 ele está protegendo a região central após uma tentativa de ataque, na figura 42 o médio já está em controle da bola e atacando o espaço vazio em condução, na figura 43 o médio tem algumas opções de conexão, escolhe Nacho Fernandez que vai ao fundo e passa para trás para Borré fazer o gol. Enzo Pérez acompanha de perto a bela conclusão da jogada iniciada por ele.

Análise quantitativa

Cruzamentos

Vimos anteriormente nas fases de disposição posicional e finalização que um dos espaços que o River busca alcançar para terminar suas jogadas de ataque são as zonas de linha de fundo pelos corredores laterais, são espaços que possuem uma boa localização para cruzamentos com passes no alto ou rasteiro, característicos da equipe argentina.

Na Sulamericana de 2015, o River foi a 3ª equipe que mais realizou cruzamentos para área, ficando atrás somente do campeão Santa Fé em porcentagem de acertos nessas ações.

Nas Libertadores de 2018 e 2019 a equipe foi a que mais cruzou bolas para área, tendo menos acertos apenas em 2019. Esses dados comprovam que os millos possuem mecanismos ofensivos que permitem chegar em zonas que favorecem as características dos seus laterais que sempre foram muito bons nos duelos defensivos, mas também nos apoios a ações ofensivas em último terço, como vimos anteriormente.

Fonte: WyScout

Passes para o terço final

Na Sul-americana de 2015 apesar de ser a 3ª equipe que mais realizou passes para o terço final, nesse quesito o River teve uma porcentagem de acerto maior que o campeão Santa Fé.

Nas Libertadores de 2018 e 2019 os Milos lideraram o ranking, tendo uma porcentagem de acerto menor que seu maior rival Boca Juniors em 2018 e do campeão Flamengo em 2019.

Esses dados mostram primeiramente a verticalidade do River e justificam as ações dos centrais e laterais que realizam muitos passes longos na fase de iniciação. Esses passes também são frequentes quando a equipe argentina está em disposição posicional e os atacantes de Gallardo realizando constantes movimentos de ruptura nas costas dos adversários.

Fonte: WyScout

Remates ao gol

Na Libertadores de 2018, o River ficou atrás somente do Grêmio, equipe eliminada pelos comandados de Gallardo na semifinal.

Em de 2019 tiveram maior número de chutes a gol do torneio, porém com pouca porcentagem de acerto ao alvo em relação ao rival Boca Juniors que foi mais eficiente.

Assim, esses números confirmam a importante propensão do 3º comportamento tático da fase de finalização – finalização de média distância – apresentado na semana passada.

Fonte: WyScout

Sabemos que El Muñeco Gallardo não abre mão da competitividade e da mentalidade vencedora independente das circunstâncias, sendo melhor ou pior em determinados aspectos, tendo os melhores jogadores ou não. O River demonstra em campo que sempre é possível estar próximo da vitória quando se tem uma mentalidade forte e vencedora. O treinador que chegou a 3 finais de libertadores nos últimos 5 anos confirma isso na declaração que se segue.

“Se você está mentalmente forte, é muito difícil que alguém te supere” – Marcelo Gallardo

Assim finalizamos essa análise apresentando um pouco da grandeza dessa equipe que vem sendo protagonista nos últimos anos em competições nacionais e internacionais e que conta com a ajuda de um treinador que consegue colocar sua marca autoral na obra que compõe com seus jogadores. Não é por acaso que Marcelo Gallardo se tornou o treinador mais vitorioso da história do River Plate, somando 10 títulos em 13 finais nos últimos 6 anos.

Gallardo demonstra ter a principal característica dos grandes treinadores do futebol. Não treina sua equipe para vencer, mas sim, para ser invencível!

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Política Antidoping – Repercussões no Futebol

A precoce morte de Diego Maradona, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, chocou o mundo. O jogador argentino faleceu na última quarta-feira, 25/11/2020, de parada cardiorrespiratória.

A morte do jogador nos faz refletir sobre a sua vida pregressa e seu problema com substâncias entorpecentes. Não é segredo para ninguém que durante a maior parte de sua vida, Maradona enfrentou a dependência química e seus reflexos, o que influenciou e prejudicou diretamente na sua carreira como jogador de futebol, inobstante o seu talento nato.

Em 1991, Maradona foi o centro de um dos maiores escândalos da história do esporte. Em uma partida do Napoli, o jogador testou positivo para cocaína, sendo inclusive condenado a prisão.

No entanto, Maradona pagou somente uma multa e retornou para a Argentina, onde foi detido. Após 15 meses de suspensão, o jogador voltou aos campos para temporada 1992/1993, oportunidade em que marcou 08 gols em 29 jogos.

Na Copa do Mundo de 94, Maradona participou de 02 partidas, sendo que na última, foi escalado para o exame antidoping, no qual testou positivo para efedrina. Diante do resultado do exame, Maradona foi suspenso por mais 15 meses, tendo encerrado sua carreira 03 anos depois, envolto em mais uma polêmica envolvendo o exame antidoping.

Como se sabe, Maradona não foi o primeiro e nem será o último jogador a ter problemas com drogas. Ressalta-se que há inúmeros relatos de jogadores que foram/são viciados em substâncias entorpecentes, tendo alguns superado a doença e outros não.

Considerando que muitos jogadores consomem substâncias entorpecentes, seja por problemas pessoais ou pela própria pressão de querer ser o melhor em sua profissão, é de suma importância o programa antidoping criado pela FIFA e CBF.

A FIFA introduziu controles regulares de doping em 1970 para assegurar que os resultados dos jogos nas competições fossem o reflexo justo e exclusivo da força dos atletas.

Em 2009, a FIFA aceitou o Código Mundial Antidoping, implementando algumas disposições que eram aplicáveis no regulamento antidoping.

O conceito de doping, conforme definição da Conferência Internacional de Lauzane seria, “Uso de um método ou meio (substância química ou artifício) que possa ser potencialmente prejudicial à saúde dos atletas, capaz de incrementar seu desempenho, e que resulta na presença de substância listada e proibida pelos órgãos organizadores da competição ou na evidência do uso de um método proibido no corpo do atleta”.

Também é considerado doping o uso de métodos ilícitos de atitudes ou comportamentos de atletas, técnicos, médicos, dirigentes e/ou equipes participantes da competição.

A fim de obstar o uso ilícito de drogas, a CBF introduziu o Controle de Doping nos Campeonatos de Futebol, tendo como objetivo precípuo promover condições de igualdade para as equipes e atletas participantes, da mesma forma assegurar a proteção da integridade física e psicoemocional dos atletas e respeito à ética desportiva.

Além dos mecanismos criados pela CBF, é imprescindível que o próprio atleta tenha a responsabilidade de não ingerir nenhuma substância ilícita, sob pena das sanções administrativas e contratuais, bem como de prejudicar a sua saúde e reputação.

Hoje, no Brasil, caso seja constatado o uso de alguma substância ilícita no exame de doping, o jogador será julgado pela Justiça Desportiva Antidopagem, composta por um Tribunal e uma Procuradoria, podendo sofrer penalidades.

A Agência Mundial Antidoping alterou recentemente seu Código Disciplinar. A partir de 2021, não punirá mais atletas por uso de drogas sociais, como maconha e cocaína. No entanto, será necessária a comprovação pelo jogador que a utilização de tais substâncias não teve como finalidade obter alta performance.

Segundo a Agência Mundial, o intuito da alteração foi a preocupação com a saúde do atleta, sendo certo que a mera sanção esportiva, como por exemplo, a suspensão, não resolveria o seu problema com o vício e o afastaria dos campos e quadras.

Tem-se que a nova regra possui uma visão mais ampla acerca do consumo de drogas pelos jogadores, passando a dar mais atenção à sua saúde e o enfrentamento ao vício, em detrimento das severas penalidades, as quais somente dificultavam o retorno dos atletas às suas atividades. 

O consumo de drogas vai além de uma mera punição, devendo ser tratado como um assunto de saúde pública. De certo, criando políticas para o combate e prevenção ao consumo de substância entorpecentes, haveria o tratamento do problema como um todo e desde a sua origem. 

A verdade é que se um jogador tem problemas com dependência química e passa por severas punições, como as que o Maradona sofreu, este pode se entregar de vez ao vício, se afastando do esporte e de qualquer chance de melhora.

Talvez, caso houvesse tais regras na época do craque Maradona, este poderia ter vencido o seu vício e nos agraciado com o seu futebol arte e não encerrado sua carreira de forma tão polêmica e precoce.

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Maradona, um homem imperfeito

Ensinaram-me quando menino: “Homem não chora”. Eu teria que aprender a não chorar, para ser homem. Hoje chorei, chorei por Maradona. Por Maradona deixei de ser homem. Em compensação, com Maradona aprendi a ser outro tipo de homem: o homem que ri e que chora, o homem que tem inveja e que tem modéstia, o homem que é grande e que é pequeno, o homem que tem medo e que tem coragem, o homem que é político e que é solitário. Tudo isso Maradona me ensinou? Não, tudo isso ele encarnou, entre muitas outras coisas. Não tentou ser Deus, e foi, não tentou ser herói, e foi, não tentou ser bondoso, e foi, não tentou ser genial, e foi. Fez parte daquele grupo de pessoas que nos ensinam a viver, mesmo não tendo a menor intenção de fazer isso. Aquele homem que me ensinaram a ser, que não podia chorar, me fazia infeliz. O homem imperfeito, que só os como Maradona ensinam a ser, me faz feliz.

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Queremos futuros Maradonas?

Maradona foi, entre uma imensidão de coisas que define um ser humano e jamais será possível esgotá-lo em um pequeno texto, uma figura que incomodou, contestou e que não se permitiu controlar.

Passagens como as eternizadas nos versos de Eduardo Galeano em uma de suas obras primas Futebol ao sol e à sombra, nos ajudam a ter uma noção do tamanho da dor de cabeça que o argentino foi para muitos poderosos, dentro e fora do futebol.

No Mundial de 86, Valdano, Maradona e outros jogadores protestaram porque as principais partidas eram disputadas ao meio-dia, debaixo de um sol que fritava tudo que tocava. O meio-dia do México, anoitecer da Europa, era o horário que convinha à televisão europeia”

Maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos. Ele não foi o único jogador desobediente, mas foi sua voz que deu ressonância universal às perguntas mais insuportáveis: Por que o futebol não é regido pelas leis universais do trabalho? Se é normal que qualquer artista conheça os lucros do show que oferece, por que os jogadores não podem conhecer as contas secretas da opulenta multinacional do futebol?

Outro momento que ilustra essa, para alguns, assustadora imprevisibilidade do argentino é do início de sua carreira. Diego recusou uma proposta milionária, com o perdão do trocadilho, do River, e buscou ativamente um acerto com o, na época, enfraquecido Boca. Escolheu com o coração, e não com a fria lógica da maior e melhor oferta, o River naquela altura além de melhor estruturado financeiramente, era uma equipe muito mais forte.

Maradona fora do controle, indomável, imprevisível, sempre foi um risco para quem tem tudo sob seu domínio, um risco que essas pessoas não estão nem um pouco dispostas a correr. Talvez por isso os seus erros tenham tido sempre uma repercussão de proporções estratosféricas e o trabalho para ridicularizá-lo tenha sido tão incessante, é interessante para quem foi contestado por ele vê-lo caído.

Um Maradona entre os principais nomes do esporte hoje, como outros e outras que ensaiam surgir na nova cena do esporte mundial, com a repercussão que sua figura teria em um mundo hiperconectado, seria ainda mais ameaçador, e aí não fica difícil de entender que, para essas pessoas que temem as mudanças, quanto menos “Maradonas” melhor. Aqui já falamos do processo de formação de jogadores e jogadoras autônomas, independentes, ou se preferir, livres.

É desse ponto de partida, da personalidade incontrolável de Diego e o que ela representa é que seguimos para pensar sobre o futuro. O primeiro dos questionamentos que fica para quem ama e trabalha com o futebol e se queremos ou não novos “Maradonas”, como sugere o título. Queremos futuros jogadores e jogadoras obedientes ou questionadores? Queremos mudar ou manter as coisas como estão? Tendo clareza do que se quer, fica mais fácil organizar ações que fazem sentido para que se atinja esse objetivo.

O que podemos fazer no dia a dia, ao ensinar o futebol, para ajudar desenvolver as características que identificamos como essenciais? No caso de Maradona, o que o incentivou questionar as injustiças que ele via a sua volta? Alguém o ensinou? Ou será que ao menos alguém permitiu que esse espírito se desenvolvesse? Será que esse espírito questionador tem relação com o seu desempenho dentro de campo? É possível dissociar o Maradona jogador de tudo o que o tornava humano?

Do dia 25 de novembro de 2020 em diante vamos seguir construindo nosso mundo, com mais ou menos Maradonas, tudo depende de nossas escolhas e ações.

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Sobre as relações humanas como técnicas de vida

Não faz muito tempo, pouco antes do jogo entre Red Bull Leipzig x Atletico de Madrid, pelas quartas-de-final da UEFA Champions League, em que Julian Nagelsmann deu mais uma ótima entrevista, dessas que viralizam facilmente, na qual falou um bocado sobre o jeito de jogar da sua equipe e algumas ideias particulares sobre liderança. Me chamou a atenção um trecho, em particular, que transcrevo livremente abaixo:

Você não pode ir para o campo e ganhar o jogo sozinho. Precisa dos seus jogadores e de ter os soft skills, os social skills, que são os mais importantes quando você é o treinador e tem 26 ou 27 jogadores. Acho que uma mistura entre habilidades táticas e sociais fazem de você um dos melhores treinadores na Europa, ou do mundo. Se for um cérebro tático, mas as suas capacidades sociais forem baixas e não muito bem desenvolvidas, não terá sucesso. Se você não conseguir reconhecer detalhes táticos, então é importante que crie um bom staff técnico, que te ajude e complemente, mas, se as tuas aptidões sociais forem muito elevadas, pode ter muito sucesso. Mas, se só tiver a tática, é muito complicado.

Bom, há pelo menos duas questões importantes aqui. A primeira tem a ver com o início da resposta, quando Nagelsmann se refere ao que ele chama de soft skills. Não é a primeira vez que o vejo falando disso – eu mesmo já escrevi um outro texto comentando uma entrevista de teor semelhante. Basicamente, quando ele fala dessas soft skills, fala de algo como habilidades sociais que, segundo ele próprio, são 70% do sucesso de um treinador.

O número em si não me interessa tanto, mas a primazia das relações, sim. Sendo um jogo praticado por humanos, é claro que o futebol será tanto mais fértil quanto mais estiver atravessado por essa grande dimensão de humanidade, pela capacidade cada vez mais rara de tratar gente como gente, nas coerências e nas contradições do outro – e não apenas gente como coisa. Ao mesmo tempo, ainda mora na fala do próprio Nagelsmann uma referência ao que ele entende por habilidades que, a meu ver, merece alguma atenção.

Nessa vertigem pela aquisição de habilidades, percebo que alguns colegas fazem apostas realmente altas nisso que podemos chamar de conhecimentos, via tentativas mais ou menos sistematizadas de consumo de informações não apenas futebol, como sobre a vida. Afinal, não faltam páginas nas redes sociais, assim como não faltam textos e livros e cursos de gente supostamente ensinando conhecimentos e habilidades para liderança, habilidades para empatia, habilidades para respeito (geralmente mais para ser respeitado pelos outros do que para respeitar), ou mesmo habilidades de comunicação – talvez as mais famosas na ordem do dia. Existe uma ansiedade bastante razoável pela ideia de consumir e adquirir ‘conhecimentos’ – ainda que isso nos leve a consumir mais do que somos capazes de processar – e neste momento histórico, esse tipo de busca está bastante atrelada à chancela de supostos experts, que vendem técnicas e mais técnicas que supostamente formariam outros experts. E uma das consequências práticas disso é as habilidades sociais, que num passado não muito recente nos eram ensinadas pela vida que se vivia, estão se tornando de fato cada vez mais técnicas, são reflexo de esforços técnicos, de modo que o respeito, a empatia, a comunicação e a própria liderança viram apenas a reprodução pasteurizada de uma ou várias técnicas – e não qualidades humanas propriamente ditas.

Não por acaso, não surpreende a quantidade realmente impressionante de líderes cada vez mais técnicos, retratos de técnicas e mais técnicas que, em cada gesto que fazem e em cada passo que dão, estão cada vez mais nos dizendo que são produto de um conjunto de técnicas, máquinas de si mesmos, que às vezes formam uma mistura tão mirabolante, que o resultado acaba sendo um certo tipo de teatro, sujeitos tão dominados pelas técnicas que eles próprios julgavam dominar, que agora tornam-se apenas atores ou atrizes de si mesmos, donos de papeis cuja aparência nem sempre condiz com a realidade. E todos vocês, que conhecem bem um vestiário, sabem que no vestiário as máscaras caem muito rápido. A mentira de fato tem pernas curtas.

Daqui vem outra coisa que me chama a atenção no discurso do Nagelsmann, essa mais sutil: o fato de defender as habilidades sociais e o fato de haver tanta gente querendo adquirir habilidades sociais da mesma forma como se adquire um produto qualquer no supermercado não significa que ele próprio tenha se formado assim. Quando olho para um sujeito como ele, que parece fluente na habilidade de lidar com pessoas, penso que parte muito significativa dessa personalidade não vem de processos formais de aprendizagem, mas sim de uma articulação das próprias experiências de vida – e da intuição. Quando tecnificamos excessivamente os processos de aprendizagem, geralmente deixamos em segundo plano as nossas próprias experiências, os acontecimentos que preenchem a nossa vida, e ignorando as experiências, também ignoramos a capacidade de dar sentido às coisas que nos acontecem. Existem outras formas de aprender, outras formas de posicionar-se no mundo, que estão para além das formalidades ou dos conhecimentos dos experts, que por vezes residem na capacidade de experienciar e/ou de intuir. Embora as técnicas sejam um apoio importante, relacionar-se com os outros não é algo que se aprende pelos livros, mas depende de um outro tipo de saber, depende de um saber da vida, depende de olhar para dentro, depende de uma forma muito particular de estar no mundo – e, portanto, depende da tentativa incansável de tornar-se quem se é.

E aqui chegamos numa característica final, que gostaria de comentar com vocês, que está justamente na capacidade cada vez mais rara de ser quem se é. O sujeito recheado de técnicas pode sentir-se preenchido, mas também pode ficar tão entupido, tão constipado, de um modo que não sabe mais esvaziar-se e relaxar para ser apenas quem é, sem muitas performances, sem as maquiagens da vida social. Por outro lado, o sujeito que se sente bem sendo quem é, com o que há de bom e de ruim nisso, provavelmente terá ainda mais recursos para mediar as relações humanas de que falamos aqui. E portanto, talvez as habilidades sociais não sejam exatamente um conjunto de técnicas ou procedimentos que nós usamos para estar no mundo, mas muito mais um conforto, um aceite, e em grande medida uma busca de nós mesmos, das experiências e mesmo das contradições que nos fazem humanos.

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A cultura engole a estratégia

Os jogadores serão sempre os atores principais nesse espetáculo chamado futebol. Eles tomam decisões em micro segundos. Eles abrem mão de prazeres momentâneos em nome de uma forma física cada vez mais exigente e necessária para a alta performance. Eles, profissionais e assalariados, comemoram quando marcam um gol – você abraça seus colegas de empresa quando faz algo bem feito? Pois é…

Porém, cada vez mais esses atletas são dependentes de outras pessoas. O sucesso de uma equipe dentro de campo é fruto, é produto, de tudo o que acontece em seu entorno. Massagistas, roupeiros, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, enfim, cada célula do clube tem sua parcela de responsabilidade no resultado final. E diante disso será cada vez mais raro um clube “bagunçado” conquistar troféus.

No mundo corporativo usa-se muito o termo  ‘cultura organizacional’. Com tristeza, constato que não dá pra importar em cem por cento essa ideia para o futebol. Isso porque, principalmente aqui no Brasil, os clubes são estritamente políticos. Entretanto, quando há uma cultura, embalada por uma mentalidade, focada em vitória, em sucesso e em soluções, o trabalho dos jogadores dentro das quatro linhas fica facilitado.

E estou citando muito os atletas, mas tudo isso vale também para os treinadores. No caótico futebol brasileiro, o técnico de sucesso muitas vezes não é o que tem mais conhecimentos táticos e metodológicos. E sim aquele que entende mais rapidamente essa ‘cultura’ e sabe tirar o melhor da estrutura já existente. Um entendimento global do contexto e a habilidade em fazer todos caminharem para o mesmo lado pode dar um resultado mais rápido e eficaz do que grandes mudanças táticas.

O torcedor sempre tem seu olhar voltado para as quatro linhas, e é inegável que o mais apaixonante é o que acontece no campo. Mas para cobrar resultados vale uma visão mais global e sistêmica. Insisto que o jogador é a peça mais importante. Mas ele está inserido em uma engrenagem maior. Tem muita gente trabalhando para que um chute seja convertido em gol. Então, quando a bola entra o mérito não é só daquele protagonista. Para o inverso, quando a bola sai, o demérito também não de apemas uma pessoa. Por uma visão mais coletiva…podem jogar só onze. Mas tem muita gente envolvida nesse esporte tão incrível… 

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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O ataque do River de Marcelo Gallardo – a finalização

No terceiro texto da série de artigos sobre o ataque do River Plate de Marcelo Gallardo vamos explorar a fase de finalização das jogadas da equipe, que tem se mantido nos últimos anos como uma das melhores do continente.

Nessa fase a equipe argentina possui comportamentos coletivos que ficaram enraizados de 2014 a 2019, ao longo do texto vamos explorar três desses comportamentos

O ataque pelo centro sempre com 2 opções de apoio de progressão e ruptura ao 1º homem

O ataque pelos lados com variação de qual jogador realiza ruptura para cruzar – atacantes ou laterais

A finalização de média distância quando o 1º homem se identifica como homem livre para chutar

Comecemos pelo primeiro comportamento tático presente nas imagens abaixo.

Nas figuras 26 e 27, Pity Martinez é o 1º homem aquele que tem a opção de conectar com Borré que tem a função de apoio de progressão e também atrai a atenção de um dos centrais rivais e Pratto que está como apoio de ruptura se projeta para o espaço nas costas da linha defensiva do Boca e faz um dos gol que fortaleceu o River no primeiro jogo da final da Libertadores 2018.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Nas figuras 28 e 29, Nacho Fernandez está como 1º homem da jogada e tem duas boas opções de profundidade, Borré que está como apoio de progressão em vantagem posicional sobre Rodrigo Caio e também Suarez como apoio de ruptura e em vantagem cinética sobre Pablo Marí. Na sequência da jogada o atacante está localizado mais próximo da linha de fundo e busca um passe pra trás para conectar com os companheiros que invadem a área.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Já nas duas imagens abaixo (30 e 31) podemos ver como o médio Pisculichi possui opções de conexão com apoios de progressão e também de ruptura, mas percebe que tem tempo e espaço para finalizar.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Já nas imagens seguintes (32 e 33), Juan Quintero é quem se aproveita do posicionamento mais avançado dos atacantes que estão como apoio de progressão e fixação, permitindo que o talentoso médio colombiano tenha tempo e espaço para finalizar e fazer um dos gols mais importantes na conquista da Libertadores da América de 2018.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Na semana que vem vamos para a última parte de nossa série na qual será discutido o momento de transição e o conceito do “atacar marcando”, executado pelo River nos últimos anos, além de uma análise quantitativa do ataque da equipe millonaria.

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O descumprimento das regras desportivas em tempos de pandemia

Em tempos de pandemia, as lives e encontros virtuais tornaram-se cada vez mais comuns. O intuito é facilitar a aproximação das pessoas, em virtude do necessário isolamento social vivido durante a COVID-19, e a tecnologia tornou-se uma grande aliada para diminuir o impacto neste período.

Lado outro, o futebol, esporte mais popular do mundo, vem com um certo atraso em relação aos demais esportes, apesar de fazer uso há algum tempo da tecnologia para melhorar a performance de seus atletas. Cito como exemplo a efetivação do setor de análise de desempenho; o uso de GPS pelos atletas durante os treinamentos e jogos; bem como a otimização do departamento de fisiologia dos clubes, para que possam extrair o melhor de cada atleta.

Porém, o tema ora abordado, e que está dando o que falar nas últimas semanas, é que a tecnologia, que vem inclusive para ajudar a melhorar o desempenho dos atletas, pode estar sendo usada para infringir regras e descumprir os regulamentos, podendo, inclusive, virar caso a ser analisado nos tribunais desportivos.

Casos recentes demonstram que técnicos de futebol suspensos em razão de medidas disciplinares supostamente trocam mensagens e ligações com membros da comissão técnica que ficam no banco de reservas gerindo a atuação dos atletas em campo.

O assunto que dominou o noticiário na última semana foi a presença do treinador do Atlético Mineiro, Jorge Sampaoli, nas tribunas do Estádio Mineirão, durante duelo contra o Flamengo pela 20ª rodada do Campeonato Brasileiro.

A Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça (STJD), após analisar as imagens do jogo, pode oferecer denúncia contra o treinador argentino pela presença deste no estádio do Mineirão. O mesmo não poderia estar presente em virtude de estar suspenso por receber, pela segunda vez no Campeonato Brasileiro, seu terceiro cartão amarelo.

Outro fato relevante que instigou a procuradoria são as inúmeras imagens da transmissão de TV que mostram, tanto o treinador, quanto outro membro da comissão técnica no banco de reservas, utilizando seus respectivos smartphones durante toda a partida.

O procurador-geral do STJD, Ronaldo Botelho Piacente, em entrevista ao Jornal Super FC[1] de Belo Horizonte, afirmou que o Tribunal poderia solicitar a quebra do sigilo telefônico de Sampaoli, para tentar descobrir se os diversos telefonemas que o Treinador Atleticano deu foram no intuito de instruir o time, mesmo estando suspenso, o que configuraria ato ilícito, passível de punição pelo descumprimento da suspensão imposta.

Antes da esfera esportiva do assunto, cumpre informar que a Constituição Federal, afirma categoricamente e de forma expressa em seu artigo 5º, que: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Dessa forma, seguindo o que está exposto no caput do Artigo 5º da Constituição, o mesmo artigo traz em seu inciso X, “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.

Assim, fazendo um breve paralelo da constituição com o exemplo do técnico argentino, podemos afirmar que a suposta quebra de sigilo telefônico do treinador violaria a intimidade, além de confrontar o inciso X do Art. 5º da Constituição Federal. Isto não poderá ocorrer, pois em nosso ordenamento jurídico a quebra de sigilo telefônico apenas ocorrerá para fins de investigação criminal ou instrução processual penal, por decisão judicial, nas hipóteses e na forma em que a lei estabelecer.

Portanto, resta totalmente descabida e sem amparo jurídico, no entender deste colunista, eventual quebra do sigilo telefônico do técnico Jorge Sampaoli. Ademais, caso o treinador estivesse de fato utilizando-se do seu aparelho telefônico para interferir no jogo e enviar instruções ao seus comandados, o tribunal desportivo possui alternativas para cumprir de forma efetiva a punição imposta ao treinador.

E ainda, em razão da Pandemia, cada delegação pode ter apenas 42 pessoas por jogo, contando dirigentes, atletas, staff, dentre outros.

Complementando, a diretriz técnica elaborada pela CBF[1], demonstra categoricamente em seu Capítulo 4 – PRÉ JOGO[2], que o credenciamento das equipes deverá ser solicitado em até três dias úteis, vejamos:


Desta forma, retomando o caso do técnico Jorge Sampaoli, resta evidente a falha no controle de acesso da CBF, bem como no cumprimento da punição ao treinador do clube mineiro. Se há necessidade de credenciamento prévio, a CBF, no momento de habilitação da delegação atleticana, deveria ter analisado a condição do treinador mineiro, e se sua entrada no estádio era permitida como membro da delegação.

Portanto, o presente artigo possui o objetivo de trazer as seguintes reflexões: o STJD não detém competência para requerer a quebra do sigilo telefônico em exemplos como os citados acima, em razão da inviolabilidade da intimidade do treinador, pois, em nosso ordenamento jurídico, a quebra de sigilo telefônico apenas ocorrerá para fins de investigação criminal ou instrução processual penal, por decisão judicial, nas hipóteses e na forma em que a lei [1]estabelecer.

Resta cristalino, ainda, que o futebol vem buscando a utilização da tecnologia para o desenvolvimento do esporte, e que a sua utilização de forma correta trará inúmeros benefícios aos atletas; ao público, que verá um futebol de melhor qualidade.

Por fim, a Confederação Brasileira de Futebol, em que pese ter realizado regulamentação para o retorno das competições sob sua responsabilidade, ainda falha no controle de entrada de acesso dos membros que não poderão estar no estádio, seja pela punição imposta, seja por superar o número de 42 pessoas por delegação dos clubes.

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol


[1] https://www.otempo.com.br/superfc/atletico/galo-x-flamengo-stjd-pode-pedir-quebra-de-sigilo-telefonico-de-sampaoli-1.2411360

[1] https://conteudo.cbf.com.br/cdn/202007/20200724204440_467.pdf

[1] LEI Nº 9.296, DE 24 DE JULHO DE 1996.

[2] Capítulo 4, Pg.23, alínea “d”

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O currículo e a formação dos futebolistas do futuro

Em sua recém publicada tese “O futebol e os futebolistas do futuro: análise do currículo presente na formação de futebolistas de alto rendimento a partir de um estudo de caso”, orientada pelo professor Alcides Scaglia e aprovada na Faculdade de Educação Física da Unicamp, o pesquisador Carlos Thiengo discute o papel do currículo no processo de formação de jogadores e jogadoras em um estudo que investigou a influência da história de um clube e de uma cidade no campo de jogo.

Para isso, Thiengo, que é agora doutor em Educação Física, na área da Pedagogia do Esporte e idealizador da proposta pedagógica “Ginga, futebol com alegria”, foi até Araraquara, visitou museus, caminhou pela cidade, analisou documentos e fez uma espécie de período de residência na Ferroviária, onde conversou com gestores e treinadores, observou os treinos e estudou o currículo de formação de jogadores elaborado pelo clube.

O estudo alcançou o terceiro lugar na edição 19/20 do Prêmio Brasil de Teses e Dissertações sobre Futebol e Direitos do Torcedor, e por conta da premiação também será publicado como livro.

As descobertas contidas na tese, que propõe uma revolução no modo de entender o processo de formação de jogadoras e jogadores e o ensino do futebol, você confere nas linhas a seguir.

Universidade do FutebolQuais foram os objetivos da pesquisa e como é trabalhar com as ciências humanas e o estudo do futebol? 

Carlos Thiengo – Obrigado pela oportunidade de dialogar com vocês e pelo espaço para divulgação do estudo. Mas, antes de responder a primeira questão gostaria de fazer dois agradecimentos. Primeiro, agradecer imensamente a Ferroviária por me ter aberto as portas para realizar o estudo. Além disso, não poderia deixar de mencionar a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) pelo financiamento à pesquisa.

Nas ciências humanas a neutralidade do pesquisador não existe. Quando vamos para o campo de pesquisa, a percepção que temos do participante, do cenário, dos objetos estudados, de maneira geral, até a sua própria definição se confundem com a nossa história de vida. Eu, por exemplo, tentei ser jogador de futebol, assim como grande parte dos garotos brasileiros, e tenho uma forte relação afetiva com a modalidade, especialmente com o processo de formação de jogadores. 

Então, a forma de construir o estudo não tem como estar separada da maneira como me construí como profissional e como pessoa, em um processo que envolveu a minha formação enquanto aspirante a jogador e depois como profissional trabalhando no futebol. Esse foi o caminho percorrido para que se desenvolvesse o tema da tese, que é estudar a formação do jogador e, especialmente, o currículo, buscando entender quais são as iniciativas e os pontos de partida para se formar e se estabelecer o currículo para formação de jogadores de futebol na etapa de especialização esportiva que a gente conhece como categoria de base, que é o momento onde os e as jovens se preparam para atuar no futebol profissional. Aqui no Brasil essa é a etapa na qual os garotos ingressam nos alojamentos dos clubes, o que por características legais do país ocorre aos 14 anos.

Agora, definindo de maneira mais direta, o objetivo da pesquisa foi investigar essa construção, os aspectos que circundam a estruturação, a efetivação e a operacionalização de um currículo em um clube  que possui relevância nesse processo. Essa escolha se deu, voltando ao vínculo meu vínculo como pesquisador com o objeto estudado, pois minha trajetória me mostrou que existe uma secundarização nos processos na formação de jogadores. O que temos, via de regra, é a naturalização do rendimento de um jogador de futebol e quando se naturaliza o rendimento do jogador de futebol se desvaloriza o processo. Por conta dessas questões é que se buscou entender como o currículo, que é a organização do processo pedagógico, é construído e colocado em prática.

A partir desse objetivo e do entendimento do futebol como um fenômeno humano,  emergem os objetivos específicos da pesquisa que são entender como os aspectos culturais interferem na construção do currículo, como a concepção sobre a origem do rendimento esportivo, do talento, interfere nesse currículo e a partir daí fizemos uma pesquisa de caráter qualitativo.

UdoFO que é ser jogador profissional no Brasil?

Carlos Thiengo – É um desafio de proporções gigantescas. Muitas vezes não temos tanta dimensão, do que é esse esporte, em um país como o nosso no qual o futebol é a principal manifestação da cultura corporal, que tem uma tradição vencedora, sendo a nação com o maior sucesso da história. Isso cria um ambiente com uma relação afetiva muito bacana com a modalidade e que desperta um sentimento que une as pessoas, principalmente na iniciação, que é o momento que a criança é apresentada a modalidade. Entretanto, no que tange o futebol como uma profissão, tanto para os jogadores como para os demais profissionais, o cenário é extremamente desafiador em todos os sentidos. A quantidade de pessoas praticando e as características que essa profissão assume nos níveis nacionais e internacionais trazem uma competição elevadíssima para todos os seus atores. O antropólogo Roberto Da Matta diz que o futebol é uma manifestação simbólica, uma dramatização do brasileiro, essa fala dele se faz muito presente quando observamos as condições sociais e de trabalho que geralmente são oferecidos aos profissionais que atuam no futebol aqui no país, e constatamos que, as dificuldades que o brasileiro tem no trabalho esses profissionais “da bola” enfrentam até de uma forma ampliada. Em relação às condições de trabalho, quando saímos das principais competições e das principais equipes, a gente tem um cenário, que é bem documentado pelos órgãos oficiais, reportagens e outros estudos, que nos permite afirmar que ser jogador de futebol no Brasil é uma tarefa extremamente desafiadora. 

Tudo isso traz consequências para a formação dos jogadores muito significativas. Esses jovens passam por esse processo em um momento da vida no qual não estão formados ainda como adultos e com essa exigência que vem se tornando cada vez mais precoce, as implicações para a vida desses jovens são  bastante relevantes, até para aqueles que conseguem jogar no primeiro nível nacional e internacional. Atingir este nível significa ter as melhores experiências profissionais e, no aspecto financeiro, talvez sejam suficientes para proporcionar uma vida confortável após o encerramento da carreira, mas mesmo esses jogadores têm exigências muito significativas para própria reinserção social, pois essa atividade laboral é extremamente exigente e específica. Então, acredito que nesse ponto, é preciso muita cautela para poder um cenário de tamanha complexidade. Ser jogador de futebol no Brasil é uma das atividades mais desafiadoras que temos.

UdoFPartindo agora mais diretamente para sua tese, você investigou a construção e a aplicação do currículo no processo de formação de jogadores. Então, começando pelo principal, o que é currículo?

Carlos Thiengo – O currículo é o processo de ações organizadas de forma pedagógica e administrativas que conduzem a uma formação pretendida. Citando Jonnaert, Ettayebi e Defise, o currículo está para a educação assim como a Constituição está para o país. O currículo é a bússola, o mapa, que vai indicar o caminho que vamos tomar. Dessa forma, ele permite uma visualização mais clara e formalizada de como será conduzida a formação dessas pessoas que estão sob nossa responsabilidade, e da respectiva instituição educacional ou esportiva. Essa é uma definição que já está muito clara na educação formal, na escola, mas ainda um pouco mais incipiente no campo esportivo.

UdoFQual o atual estágio da aplicação do currículo dentro futebol e no processo de formação de jogadores?

Carlos Thiengo – Ela é incipiente no Brasil. Possuir um currículo nas categorias formativas é um anseio hegemônico, mas não uma prática hegemônica. O que se vê atualmente é apenas esse desejo. Essa situação está muito ligada com o terceiro objetivo específico da pesquisa, que é a relação da concepção do talento do jogador com o currículo. Predominantemente, a concepção do jogador é ainda a inatista, onde os processos de seleção e identificação de talentos, predominam em relação aos processos de formação. Aí, se vou selecionar, tendo ainda um número suficiente de jovens para que isso ocorra, como no caso do Brasil e os milhões de jovens que buscam oportunidades no futebol, para que vou investir no processo?  

Dentro de um olhar histórico, essa apropriação do currículo, não necessariamente com o uso formal da expressão currículo, pelo esporte é muito recente, mas as tentativas de sistematizar e organizar os conteúdos com o objetivo de aprimorar a formação esportiva vêm acontecendo em diversos países, tanto em se tratando de instituições esportivas, como na produção acadêmica. Nesse sentido, a obra mais acabada no que se refere a um currículo de formação esportiva é o currículo do Ajax, da Holanda. São documentos em diferentes formatos, inclusive audiovisual, que abordam os conteúdos de maneira aplicada apresentando também os seus processos. A primeira versão desse currículo é de 1995, o que ajuda a dar uma ideia de como a disseminação das discussões e a aplicação do currículo no âmbito esportivo, nos clubes de futebol, são recentes.

O futebol é uma escola para a vida ou ao menos deveria ser encarado dessa forma, especialmente pelo que você perguntou sobre o que é ser jogador de futebol e todas as características dessa carreira, essa volatilidade. O que fazer com jogadores que investiram grande parte de sua infância e juventude e que não atingem o nível do alto rendimento? A própria FIFA indica para a gente em seus documentos – Grassroot, Fútbol Juvenil e o Manual de Dirección Técnica – FIFA Coaching, que é preciso ter uma preocupação educacional, e o futebol vem se apropriando disso. 

Outro ponto interessante é que, assim como nas instituições educacionais, estão presentes no currículo dos clubes as influências culturais das localidades nas quais eles se situam. Essas demandas históricas e sociais de cada contexto são totalmente identificáveis nos currículos, tanto de forma consciente, formalizadas em um documento como a gente identificou na Ferroviária, como inconsciente, quando você não tem um documento, mas aquelas demandas permeiam todo o processo de formação. 

O currículo, de maneira formal e organizada ou não, está presente na concepção das pessoas que estão fazendo educação. Formar humanos futebolistas é um processo educacional.

UdoFComo você verificou na prática, dentro do campo de jogo, a influência da história e do contexto social de Araraquara no processo de formação de jogadores da Ferroviária? Como é possível identificar esses elementos em outras agremiações, como no caso clássico do tão alardeado “DNA do Barcelona”, por exemplo?

Carlos Thiengo – Esse é um tema que tem atraído muito interesse das pessoas, é um momento no qual se procura muito esse tipo de resposta. Essa pergunta é a mais importante em relação a esse trabalho. As pessoas querem saber muito como se constrói o currículo e a gente faz isso no final da tese, mas não com os conteúdos para um clube ou uma cidade em específico. O que apresento nas implicações práticas ao final da tese são indicativos, considerando que diferentes finalidades necessitam de diferentes conteúdos educacionais. Não é possível sugerir o que tem de conteúdo, mas sim os tópicos que poderão trazer os conteúdos. 

Dito isso, a pergunta me permite citar, o que eu acredito ser a parte mais legal do trabalho, que é a criação e o aperfeiçoamento de uma matriz de pesquisa qualitativa ou um desenho metodológico que permite considerar a presença do pesquisador, ajudando a trazer para a consciência aquilo que está no inconsciente.

Por exemplo, na pesquisa bibliográfica, eu precisava entender o que era a Ferroviária, esse clube, e Araraquara, qual a história dessa cidade? Para isso, fomos estudar Araraquara, a sua construção histórica, os seus aspectos sociais e políticos. Depois fui tentar entender a instituição Ferroviária, as pessoas que vieram trabalhar especialmente após a grande migração europeia ao final do século XIX, quais os postos que elas assumiram, as razões de terem migrado para determinadas regiões, e como elas ajudaram a desenvolve-las. Em Araraquara existe uma forte influência, principalmente, italiana, portuguesa e espanhola, esses migrantes chegaram na região para ser agricultores, dado que a região tem um tipo de solo, que é conhecido como “a terra roxa”, excelente para o cultivo. Esses imigrantes começaram trabalhando na produção do café e depois da laranja. Não por coincidência, é em Araraquara que está sediada uma das maiores empresas de citricultura do mundo.

Voltando ao passado e às origens da Ferroviária, de acordo com o livro Araraquara, Futebol e Política, de Luís  Marcelo Inaco Filho, os filhos dos imigrantes europeus que vieram para Araraquara, especialmente os italianos tinham o hábito de praticar o futebol depois do trabalho, o que eles chamavam de “doppolavoro”. Isso contrastava com o acesso dos filhos dos fazendeiros que estudavam em colégios que possibilitavam o acesso à prática do futebol. Outro ponto sobre Araraquara é que ela é uma cidade planejada, criada para ser um dos pontos de distribuição da produção cafeeira do interior do estado para o porto de Santos. Esse grupo de ferroviários é que funda o clube em 1950, 12 de abril de 1950, pessoas que vivem, convivem, constroem e transformam a cidade. 

Para conhecer todo esse contexto se deu a fase fase da pesquisa documental, na qual fui até Araraquara para visitar os museus da cidade, o museu do próprio clube, o museu dos ferroviários, o museu do município. Araraquara é uma cidade culturalmente muito rica, o MAPA, por exemplo, é o museu de arqueologia e paleontologia do município. Também realizei a etapa de observação direta extensiva que foi o questionário para os participantes da pesquisa e a observação participante que era observar os treinos das categorias de base do clube e, além disso, visitar a cidade e conversar com as pessoas. É por meio de todas essas ferramentas que fui percebendo que o que tem no documento, no currículo definido pelo clube, como os valores institucionais, que estão presentes também na forma pela qual aquele povo se constituiu como sociedade. 

Acredito que a tese ajuda a apresentar de forma mais clara como a gente pode investigar a presença de todos esses fatores. Por exemplo, lá no sub-20 da Ferroviária, eles buscam no perfil do egresso, ou seja, o perfil dos jogadores que serão formados pela instituição, um jogador que tem uma alta taxa de sacrifício, isso está registrado no documento do clube. E aí, no museu da cidade no centro da cidade, no segundo andar do museu tem uma imagem do Senhor dos Passos que, coincidentemente ou não, tem um manto grená. Aquele Senhor dos Passos simboliza a paixão de cristo, que é uma história de sacrifício da religião católica, a religião predominante do povo que ajudou a constituir a cidade de Araraquara, que são os espanhóis, portugueses e italianos. E a Ferroviária tem como alguns valores a coragem e esforço, eles não negociam esforço, é a história da cidade e de quem a construiu entrando em campo. Esses imigrantes não tinham como voltar para os seus países de origem, eles vieram para ficar e a única forma deles poderem conseguirem isso era o trabalho pesado que sustentava as suas famílias. Nesse contexto, o clube nada mais é do que, a identidade da cidade. 

Um outro ponto, joguei “essa bola pra cima” na tese, é que se atribui a influência da cor do clube aos vagões da EFA, que eram grenás. Porém, quando fui visitar o museu do ferroviário observei que os utensílios utilizados pelos ferroviários, pelo pessoal que trabalhava na construção das ferrovias e na manutenção dos trilhos, o local que eles tocavam com as mãos, tinham a cor grená. Então eles aos restaurarem as peças originais, os equipamentos que utilizam no trabalho diário, esses utensílios foram pintados de grená em alguns locais. Ao observar isso, o que me ocorreu foi: a pintura se deu pelo fato deles colocarem as mãos e sujarem com a cor do solo, ou eles pintavam daquela cor os instrumentos, naqueles locais específicos porque estes, com o tempo iriam assumir aquela cor. Porque pensei isso? Pois andando pela cidade, comecei a perceber que a cor da camisa da Ferroviária é também a cor do solo da cidade. A Ferroviária veio de uma transformação muito significativa quando em 2003 ela alterou o seu estatuto, passou a ser gerida de forma empresarial, ela mudou até o seu modelo de gestão, mas não negocia o grená. O grená é inegociável pois, na minha visão, o grená para eles é o que significa aquele solo, é o que significa a razão daquela cidade existir, é o símbolo da razão da existência daquela gente, é um símbolo como o Jorge Castelo afirma, é um sub-sistema cultural, que manifesta o que para eles existe de mais importante.

Então quando olhamos para isso pensamos o que em determinado clube pode ter que é inegociável para aquela instituição. Pegando o exemplo aí do tão falado DNA do Barcelona, o que significa o jogo de posição catalão? Que se configura diferente do jogo de posição dos holandeses, levado pela influência holandesa para Espanha. A posse de bola para o catalão tem um significado simbólico. No livro  Sendas de Campeones, o jornalista Martí Perarnau [autor também da série sobre o técnico Pep Guardiola], discorre sobre isso.  Sendo assim, podemos  dizer que o significado simbólico que é ter a bola para o catalão, está para o Barcelona como o significado simbólico do grena tem para a Ferroviária. 

O desafio da tese é explicar qual é esse significado simbólico e como ele se manifesta no currículo. O currículo é influenciado por questões geográficas, religiosas, etc, e aí ele se manifesta.  Por exemplo, o jogador na Ferroviária não pode negar o esforço, e o currículo também traz que o jogador deve ter as suas qualidades técnicas, o que faz parte da cultura brasileira, de modo mais amplo. As coisas vão se misturando numa grande trilha de complexidade, e isso só foi possível de perceber pois a lente da pesquisa qualitativa, por meio de diversas técnicas, permitiu olhar os fenômenos por ângulos que talvez não sejam os mais comuns.

UdoFE essa identidade se transforma?

Carlos Thiengo – Não tenha dúvidas, como diz o Bauman, quando a gente fala de identidade, desse ethos institucional, a alma, o espírito… o intangível sempre presente! No mundo contemporâneo no qual nós vivemos, das relações que a gente estabelece, falamos de um objeto em constante mutação. A gente tem que conseguir identificar: a identidade é aquilo que é mais profundo. Não é que é natural, mas isso vai sendo construído e reconstruído. Tem espaço, muito espaço para essa reconstrução, vão existindo outras influências, crises. A identidade não é algo estático. O que vejo é que em alguns lugares assumiram essa identidade 

A gente demora um tempo de nossa vida para descobrirmos que nós somos de verdade, aceitarmos como nós somos, isso também acontece com uma instituição. Ela demora tempo para entender quem é. Às vezes as instituições, por várias influências, vão mudando, igual as pessoas. A cultura é uma constante produção e produto humano e a identidade não seria diferente. Características identitárias que são mais profundas se manifestam no jogar, mas nem tudo o que se manifesta no jogar de equipe é fruto exclusivamente desta identidade.

UdoFJogador de qualidade técnica? Quem não quer esse jogador? Quem vai querer uma identidade que englobe jogadores ruins?

Carlos Thiengo – Nós brasileiros ligamos a questão da técnica, geralmente a relação que os jogadores estabelecem com a bola e a um tipo de jogo específico, que foi construído culturalmente por nós. Nos esportes individuais, a técnica tem como principal característica a eficiência mecânica, gastar menos energia para cumprir uma tarefa. Por exemplo, nos últimos anos a gente viu o Usaín Bolt ter uma vantagem mecânica em relação aos outros concorrentes, ao conseguir se deslocar uma mesma  distância com um número de passos menor, marcando uma reconstrução paradigmática naquele esporte. Já no futebol, e em outros esportes coletivos, a técnica corporal assume o papel eficácia, da eficácia simbólica, como nos ajuda a compreender Marcel Mauss. Para este autor a técnica é o uso do corpo, e a forma pela qual uso meu corpo é uma construção cultural, logo, o que é bom para mim, não necessariamente é bom para o outro. E aí a gente acaba fazendo juízo de valor sobre o que é melhor e o que é pior em relação à uma determinada técnica, àqueles movimentos que mais nos encantam e nos seduzem. 

Então, o  jogador que utilize seu corpo de forma que se aproxime ao que é considerado melhor, mas ser um bom jogador e agradar não necessariamente é igual em todos os lugares, podendo um jogador contemplar a utilização mais preponderante nas suas ações dos aspectos físicos, por exemplo, e aquilo vai ter  outro significado para aquele povo e agradar também,

O futebol é um espaço de manifestação afetiva e às vezes nessa busca da mercantilização do rendimento, a gente quer uma técnica que seja universal. Isso não existe, porque essas “técnicas” são construções. Todo mundo quer o melhor jogador, que executa aquilo que emociona, igual música, você quer uma música que te emociona, que te dá prazer, podemos usar o exemplo da gastronomia também, a comida não gera apenas uma saciedade biológica, mas traz todo um entorno de satisfação com fatores que vem à reboque, e assim funciona com o futebol e o nosso gosto técnico. 

Essas sensações que eu descrevi muitos procuram, mas o caminho para atingi-las não são iguais para diferentes pessoas, grupos, países, etc. No Brasil, arroz com feijão é um prato típico, mas o tempero, suas sutilezas, variam… o que confere sabores distintos

UdoFEntão nem todo mundo quer o Messi [inserir aqui outro jogador ou jogadora de sua preferência]?

Carlos Thiengo – Sem dúvidas que todos querem o Messi ou um jogador com a capacidade similar a que ele apresenta. Mas, ele atua apenas em uma equipe. Desta forma penso que apesar de todos o quererem, a maior parte dos apreciadores do futebol conseguem ser felizes sem ter ele na equipe de sua preferência! Existe o futebol genial que ele pratica e existe o futebol genial que outros praticam, e aí está o segredo do Brasil, a grande sacada da nossa identidade, que é essa pluralidade. A gente teve jogadores igual o Messi, e jogadores com as mais diversas características que também foram encantadores. Nós, temos essa capacidade, com a nossa enorme dimensão territorial e diversidade cultural, essa pluralidade, nós temos jogadores e jogadoras, com privilégio de sermos o único país do mundo a possuir o e a melhor do mundo da história da modalidade, das mais diversas características, os elegantes, os velozes, os lentos, os fortes. Essa é uma característica identitária muito presente no Brasil. Então, a questão é que nem todo mundo, apesar de querer, precisa dele, um perfil único de jogador para fazer um futebol genial, outros fizeram de outra forma e também foram encantadores.

UdoFVoltando para a sua tese, quais foram os resultados do estudo? 

Carlos Thiengo – Em relação aos três objetivos específicos que foram propostos, de certa forma conseguimos trazer de forma bem sólida a influência desse arcabouço histórico-cultural na construção do currículo da Ferroviária.

O segundo ponto é que a gente mostra ali na tese como os aspectos estruturais interferem na operacionalização do currículo desejado ou planejado. Quando a gente ouve os profissionais, algumas dimensões do rendimento, como a técnica, a física, entre outras são apontadas como as mais importantes, prioritárias, mas quando a gente vai ver no treino, outras dimensões aparecem de forma mais destacada.

Por fim, a gente observou que a Ferroviária, especificamente, identificou a necessidade de introduzir os processos nas suas categorias e essa escolha começa a aparecer de forma mais destacada do que a seleção de jogadores. Essa mudança abarca uma das discussões centrais da tese que é sobre a concepção do talento, com a estruturação do seu currículo de formação, a Ferroviária é um exemplo de instituição que vem trazendo uma mudança paradigmática, direcionando seu olhar um pouco mais para o processo de formação e menos para a seleção, como ainda é a prática e entendimento predominante.

UdoF Você enxerga que a Ferroviária, como instituição esportiva, vem, com esse movimento, superando a concepção do dom, de que a criança nasce “pronta para jogar”?

Carlos Thiengo – Sim. A tentativa é institucional, o que marca um avanço, como aponto na tese, é um esforço institucional. Romper paradigmas não é um fenômeno que ocorre de maneira abrupta, as concepções vão coexistindo, a ciência, por exemplo como paradigma coexiste com correntes filosóficas, religiosas, entre outras…Em alguns momentos certas ideias predominam sobre as outras, mas elas coexistem. 

Apesar dos desafios que estão presentes, sou extremamente otimista com o desenvolvimento e as perspectivas futuras quanto a formação de futebolistas no pais. E, novamente reitero os meus agradecimentos às instituições que possibilitaram a realização do estudo e contribuem com o desenvolvimento do futebol, bem como a você Arthur pelo espaço concedido. Muito obrigado.


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Novos campeonatos para atrair o torcedor

O projeto de criação de uma liga europeia, que nas últimas semanas tomou os noticiários esportivos não é uma ideia nova. Desta vez, as possíveis mudanças na Premier League, tiveram como destaque o movimento de Liverpool e Manchester United. Pelo lados dos grandes clubes europeus, o surgimento de novas competições ou alterações nos campeonatos atuais tem como justificativas, a expansão de suas marcas pelo mundo e disputas de poder que vão além das instituições. Mas não é só isso. Estas mudanças em estruturas atuais podem ser fundamentais para continuar atraindo a atenção dos torcedores no futuro do esporte. Este texto surge para tratar desta necessidade, observando as iniciativas pelo mundo e como o Brasil se encaixa nisso tudo.

Há algum tempo o futebol faz parte da indústria do entretenimento, como já abordamos aqui. É sob essa perspectiva que vamos analisar a maneira como o esporte é entendido. Dentro do mercado do entretenimento, o jogo ganhou fortes concorrentes, principalmente pela atenção de um público mais novo, como as plataformas de streaming Netflix e Amazon Prime, além dos eSports. Surgiram fenômenos como a segunda e terceira tela, cada vez mais consolidados no mercado, quando o espectador divide a atenção entre a televisão e seu telefone, notebook e outros dispositivos. A partir disso, clubes e federações começaram a perceber que precisam modificar seus produtos. Jogos com pouco relevância e emoção tendem a distanciar o público do futebol.

Uma das soluções analisadas por quem comanda o esporte é a mudança de estruturas atuais, mais especificamente no que se refere ao formato dos torneios. A UEFA Nations League foi a primeira iniciativa a ser feita nesta direção. O torneio da federação europeia foi criado para substituir os amistosos que ocorriam nas datas FIFA. As poucas partidas na fase inicial, bem como os playoffs decisivos que deram o título para Portugal na primeira edição, conseguiram melhorar o nível de competição em relação aos sonolentos amistosos. A FIFA deve seguir pelo mesmo caminho em relação ao Mundial de Clubes. O formato com apenas os campeões de cada continente não possuía emoção alguma, graças a distância técnica crescente entre os clubes europeus e o restante do mundo. A fala de Gianni Infantino, presidente da entidade, mostra porque a nova estrutura deve atrair facilmente a atenção dos fãs: “O novo torneio será uma competição que toda pessoa … qualquer um que ama futebol, está ansioso por ver. É a primeira Copa do Mundo real e verdadeira onde os melhores clubes competirão. Ela contará com 24 equipes e será realizada entre junho e julho de 2021”.

Dois dos maiores clubes da Premier League em faturamento, Manchester United e Liverpool, também perceberam que os formatos atuais trazem desvantagens na disputa pela atenção dos fãs. A partir disso, a dupla vem trabalhando a cerca de três anos em um projeto chamado de Project Big Picture. A iniciativa daria maior poder de decisão para as grandes equipes da Premier League, permitindo que mudanças que os favorecessem fossem postas em prática. No plano inicial, divulgado no início de outubro, a única novidade em relação aos torneios seria a alteração no número de equipes que disputam a primeira divisão da Inglaterra, passando de 20 para 18. Seriam menos jogos contra equipes de menor alcance nacional e internacional, abrindo possibilidade para novas competições entre os principais clubes do planeta.

A iniciativa mais relevante neste sentido irá envolver instituições de todo o continente europeu. Trata-se da Superliga Europeia, competição que reuniria as melhores equipes de Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália. Contando com 16 ou 18 participantes, haveria uma fase inicial com todos jogando contra todos em ida e volta, além de um playoff em sede única para decidir o título. A primeira edição do torneio tem previsão para 2022, e conta com o banco JP Morgan como um possível investidor, com a quantia inicial de investimentos de US$6 bilhões. A especulação sobre esta liga dividiu opiniões das grandes confederações. Enquanto a FIFA parece apoiar tal iniciativa, a UEFA acredita que um torneio neste modelo serviria apenas para aumentar a desigualdade na distribuição de renda do futebol mundial.

Um aspecto em comum entre as novas estruturas é a utilização do formato de mata-mata em momentos decisivos do torneio. As decisões têm maior facilidade para atrair a atenção das pessoas, já que aquela pode ser a última partida do seu time ou jogador preferido. Pode ser também o dia em que o craque terá uma atuação que ficará guardada na memória dos fãs por anos. É um formato que favorece a criação de experiências memoráveis, uma necessidade dos torcedores da nova geração e algo difícil de existir em um campeonato que seu time jogará 38 jogos. Um exemplo recente disso foi o sucesso que a UEFA teve no mini torneio organizado em Lisboa para terminar a Champions League de 2019/20 após a paralisação pelo novo coronavírus. O brasileiro Neymar também soube rentabilizar a torneio, transformando sua chegada no estádio em um momento aguardado por todos nas redes sociais.

Tratando sobre aspectos de mídia, a Rede Globo já notou que partidas eliminatórias garantem uma audiência melhor. Considerando números de 2019, até mesmo os estaduais conseguiram gerar uma boa audiência em jogos eliminatórios, tendência que não foi vista em partidas que valem três pontos na classificação. Além disso, os patrocinadores ganham mais visibilidade e poder de atuação se o evento atrair a atenção dos torcedores com maior facilidade. Se os fãs pararem de assistir aos jogos por falta de emoção, as marcas começarão a retirar seu dinheiro e haverá um grande problema por aqui.

Todas estas considerações deveriam servir de recado para o futebol brasileiro em relação aos campeonatos estaduais e suas fases iniciais intermináveis. Seguimos ano após ano com três meses de calendário ocupados por torneios de pouca relevância. Quem vai se interessar por um Flamengo x Bangu, em fevereiro, pela fase de grupos do primeiro turno do campeonato carioca?

Cabe ressaltar que essas mudanças precisam abranger não apenas os grandes clubes da indústria do futebol. Os clubes considerados menores também devem entender as modificações da indústria e pesquisar alternativas para atrair seu torcedor daqui para frente. Criar rivalidades locais e buscar cada vez mais uma integração com sua comunidade podem ser algumas das soluções. O mundo do futebol está se transformando e aqueles que não souberem trabalhar em cima disso ficarão para trás.