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A comunicação na crise

Não há processo de gestão que possa ser desprendido de comunicação. Contudo, em poucos momentos a importância desse trabalho é tão perceptível quanto na crise. De ações internas a contato com consumidores, concorrentes e potenciais interessados, uma boa estratégia pode ser responsável por grande parte do caminho de um trabalho de controle. Em contrapartida, também pode ser gasolina em uma fogueira acesa.

O futebol brasileiro tem exemplos recentes disso. É o que acontece no São Paulo, time que lidera seu grupo no Campeonato Paulista e ainda está na briga por vaga na próxima fase da Copa Libertadores. A equipe joga mal, o técnico Muricy Ramalho não encontra um padrão tático, jogadores fundamentais têm rendido abaixo do esperado, a diretoria está dividida, os ingressos foram majorados e a presença de público nas arquibancadas diminuiu consideravelmente. São muitos os fatores responsáveis por um ambiente que está longe de ser tranquilo. Nenhuma delas, porém, é mais importante do que os erros em estratégias de comunicação.

Do time para dentro, por exemplo: Muricy Ramalho dá sinais de esgotamento; em coletivas, já chegou a dizer que tem pedido coisas e não tem sido atendido pelos atletas. As declarações do treinador mostram alguns pontos:

– Ele não sente total respaldo do grupo de jogadores;

– Ele não tem vergonha ou não vê problema ao expor isso e atribuir grande parte da culpa aos atletas.

A crise também é de relacionamento. Muricy nunca foi um treinador conhecido pela amizade com jogadores ou por montar grupos extremamente fechados. Ao contrário, é alguém que cobra e discute em tom muito profissional. Não existe um problema nessas características, mas elas cobram um preço em momentos ruins: por não ser próximo dos atletas, o técnico tem poucos que “correm por ele”.

Por fim, existe um problema de gestão. A cúpula do São Paulo está rachada e tem tomado decisões extremamente questionáveis. O futebol ainda segue blindado, mas lida com problemas decorrentes do desarranjo político, como atrasos em pagamentos e a criação de um ambiente instável. Mesmo que as notícias ruins não respinguem no CT, é natural que os jogadores pensem que essa proteção é questão de tempo.

Do clube para fora, a crise tem sido igualmente mal contornada. Até quando manteve Muricy Ramalho, que chegou a entregar o cargo, a diretoria errou no processo de comunicação. Não houve nada que mostrasse ao torcedor de forma contundente o quanto essa decisão era benéfica para a equipe.

Diretoria e torcida têm como principal foco de divergência o preço dos ingressos, mas outros pontos são nevrálgicos para entender um afastamento. Declarações de dirigentes no início do ano, por exemplo, enalteceram o time montado para 2015. Eles estabeleceram um parâmetro, e agora têm sido cobrados por isso.

A comunicação do São Paulo foi desastrosa em processos como a inflação dos ingressos e até as relações institucionais. Ações do presidente Carlos Miguel Aidar transformaram uma pequena rusga com o Palmeiras em combustível para a equipe alviverde em clássico recente.

O São Paulo não vive bom momento, mas já reagiu em fases assim. O próprio Muricy Ramalho conduziu mudanças de ambiente para chegar ao título brasileiro de 2006 ou para evitar o rebaixamento em 2013. O diapasão atual podia ser bem diferente se a comunicação fosse voltada a isso.

Essa também é a sensação que passam Fluminense e Grêmio. São dois times que estão em reformulação e que vivem oscilações naturais de um processo tão complicado – principalmente porque ambos decidiram apostar fortemente em atletas menos experientes. As torcidas podiam comprar essa ideia e jogar junto. Em vez disso, por não terem sido devidamente trabalhadas, criou-se um distanciamento que virou cobrança.

O Grêmio tem como principal motivador disso o técnico Luiz Felipe Scolari. A despeito de ser ídolo do clube, ele tem contribuído de forma inexplicável para tornar o ambiente mais conturbado. Da cobrança por reforços à auto-expulsão em um jogo, o treinador não conseguiu aproveitar seu carisma para fazer a torcida acompanhar o time.

No Fluminense, Cristovão Borges tentou contemporizar. Quase todas as entrevistas dele em 2015 abordaram a profunda reformulação feita pela equipe, que perdeu seu principal mecenas após o término de um contrato longevo com a Unimed. A estratégia dele pode ter funcionado com parte dos adeptos, mas não com a diretoria, que preferiu trocá-lo.

Nas últimas temporadas, criar crises tem sido a principal razão de ser dos torneios regionais do Brasil. Esvaziados, confusos e mal trabalhados, os campeonatos servem apenas para mostrar quem não está trabalhando direito.

Entretanto, esse trabalho mal feito pode ser potencializado se for acompanhado por processos deficientes de comunicação. O futebol brasileiro está cheio de exemplos. 

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O futebol, o conhecimento sobre o jogo, o Brasil, a Europa: porque estamos à frente (ou não estamos?)

Estamos todos acompanhando o excelente desempenho da equipe do Corinthians nesse início de 2015. Tenho grandes amigos trabalhando lá, e sei bem o quanto eles têm buscado continuamente, ao longo dos últimos anos, a excelência em suas áreas de atuação.

E é bom que se diga aqui, antes de avançar, que não tenho a pretensão nesse texto, de dizer em qualquer momento que o trabalho “A” (ou do lugar “A”), é melhor que o trabalho “B” (ou do lugar “B” – e vice-versa).

Conheço ótimos profissionais espalhados em diversos clubes do Brasil, na Bahia, em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, fazendo trabalhos de excelência dentro de suas realidades.

Fico sempre na torcida por todos eles (menos quando os enfrento diretamente – desculpem amigos, sei que me entendem!), porque são trabalhos competentes que podem transformar e qualificar o nosso futebol.

O que quero salientar aqui, é que nesse início de ano, depois de ótimos jogos na Copa Libertadores da América e Campeonato Paulista, e após o comentado ano sabático, muita atenção tem sido dada, à experiência de Tite na sua ida para à Europa na busca do “conhecer mais” sobre futebol.

Matérias, colunas, entrevistas, programas de TV. Todos tentando entender (e enaltecer as vezes) o valor da busca do conhecimento no continente europeu para a aquisição das novas competências para nossos treinadores.

Pois bem, é aí que uma questão surge com certa urgência: “Por que será que estamos todos, valorizando a travessia pelo Atlântico, dando a ela a chancela de melhor ou única possibilidade para que nós entendamos mais sobre o jogo de futebol – como a grande possibilidade de atualização?”

Surpreendam-se, mas já faz muito tempo que no Brasil, sob certos aspectos do entendimento do jogo, estamos à frente, tanto em reflexões, quanto em produção de conhecimento, dos nossos pares europeus.

Se tivermos um pouco de paciência e tempo, encontraremos em algumas Universidades, em alguns Grupos de Pesquisa, em algumas pessoas ligadas ao futebol, em algumas iniciativas e em alguns fóruns específicos, uma riqueza de informações e conhecimento sobre o jogo que estão, faz muito tempo, disponíveis – aqui no Brasil.

Todos, muito “antenados” naquilo que o mundo vem fazendo no futebol – e com representantes na prática do dia-a-dia, transformando seus ambientes.

É claro que as coisas são lentas, e que o volume e profundidade daquilo que se produz e se estuda, sofre um atraso muito grande para chegar ao dia-a-dia de treinadores e clubes brasileiros – por um sem número de motivos, que passam tanto pela dificuldade de democratização do conhecimento, quanto pela nossa cultura de formação (apática, passiva, espectadora).

Formalmente e institucionalmente, por exemplo, a Universidade do Futebol (idealizada por João Paulo Medina e Eduardo Conde Tega), seja talvez a maior expoente da concentração, desenvolvimento e disseminação do conhecimento de excelência na perspectiva que estou abordando nesse texto (especialmente porque interage com quase todos os outros núcleos que mencionarei na sequência).

Temos núcleos muito avançados de discussões e de produção do conhecimento (e quebras de paradigma) espalhados pelo Brasil (como por exemplo: em Viçosa (coordenados pelo professor Israel Teoldo Costa), na UNICAMP (em Campinas com o professor Antonio Carlos de Moraes, com esse que vos escreve, com Leandro Zago e Bruno Baquete do CieFUT; em Limeira, lideradas pelo professor Alcides Scaglia), na antiga UGF e na Estácio (alimentadas pelo professor Roberto Banzé – que visionário, em 2003, propôs a primeira disciplina de Análise de Desempenho no jogo de futebol, com análises quantitativas e qualitativas – quando quase ninguém falava sobre o tema)).

O que poucas pessoas sabem, mas também merece destaque, é que a própria CBF também oferece cursos (excelentes), que fazem parte do seu programa de qualificação de treinadores, e que além de seguir diretrizes da FIFA para a implantação de um sistema de certificação comum em todas as Confederações do mundo (como também acontece com a UEFA, por exemplo), tem contribuído para o avanço da disseminação do conhecimento no ambiente futebolístico brasileiro.

E o mais importante disso tudo é que, fora do Brasil, treinadores e outros profissionais da área técnica têm muito interesse no conhecimento produzido aqui!

Eu sei que impressiona mais, descrever a vitória de um grande treinador e de uma grande equipe associando-a a aquisição do conhecimento adquirido fora do Brasil com treinadores europeus.

Eu sei que chama mais a atenção, expor o funcionamento tático coletivo de uma linha de defesa – apontando suas referências verticais, e ou horizontais, zonais e/ou setoriais, associando-a ao conteúdo de treino/jogo de uma equipe europeia.

Eu sei, e não acho que isso seria um problema, se nossa realidade fosse outra.

Mas olhemos para dentro!!!

Claro que corro risco, escrevendo isso, de ser mal interpretado.

Porém posso e devo expor meus argumentos – pautados em uma reflexão objetiva e pontual sobre o meu ponto de vista –, sem receios, porque dentre tantos motivos, e especialmente confiando em minha credibilidade:

1) Venho estudando e produzindo conhecimento sobre futebol desde que tive meu primeiro contato com a Universidade,

2) Estou na prática do dia-a-dia do futebol expondo e agregando novos saberes a esse conhecimento,

3) Ao longo dos últimos 18 anos, estive em contato direto com comissões técnicas e treinadores espanhóis, italianos, ingleses, franceses, holandeses (Real Madrid, FC Barcelona, Inter de Milão, Juventus de Turim, Manchester United, Olympique de Marselha, PSV e Apeldoorn),

4) Por fim, porque participei e palestrei em Fóruns e Congressos que tiveram participações de profissionais de muitas dessas equipes, e de Universidades de muitos desses países.

Esses motivos me dão segurança em dizer que temos conhecimento para exportar (e estamos exportando em alguns fóruns)!

Não estou aqui defendendo que não tenhamos que avançar as fronteiras e entender o que está acontecendo em outros países. Por favor, isso já está superado com toda argumentação anterior.

Não estou aqui criticando, de forma alguma, a possibilidade de intercâmbios de conhecimento, ou viagens de reciclagem em momentos sabáticos!

Sim, estou defendendo a ideia de que temos informações sobre o jogo, sobre meios e métodos de treinamento de alto nível, sobre detecção e desenvolvimento de talentos, aqui no nosso Brasil!

Estou defendendo a ideia de que temos excelentes profissionais em várias áreas dentro do futebol, com conhecimento transformador, avançado.

Estou defendendo a ideia de que não somos piores do que nossos concorrentes europeus… basta olharmos para os l
ugares certos – e veremos que em muitos aspectos podemos ser melhores, e em outros já somos sim (basta que o conhecimento esteja na prática)!

E não se trata aqui de alguém dizer a esse que vos escreve (parafraseando Vitor Frade) que “ninguém sente necessidade daquilo que desconhece”. Posso garantir e atestar meu vínculo com a realidade, com a sede do aprender e com o conhecimento desse tempo de inovação.

Treinar com intensidade? Resistência de concentração? Qualidade da intensidade? Intencionalidade de treino? Teorias Sistêmicas? Auto-organização? Densidade cognitiva? Carga complexa de jogo? Jogo é treino e treino é jogo?

Alguma outra interrogação? Se olharmos para dentro, encontraremos respostas há tempos…

De qualquer forma, saudações ao oceano Atlântico!!! 

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Impacto da MP das dívidas nas finanças dos clubes brasileiros

Regras para o financiamento

A Medida Provisória (MP) 671, PROFUT, que concede um novo parcelamento das dívidas fiscais dos clubes é bastante clara nas regras para a concessão do refinanciamento. A análise tem como objetivo mostrar o real impacto financeiro da nova Lei na vida dos clubes brasileiros.

Para realizar o estudo foram considerados os dados dos balanços de 2013, os únicos disponíveis para todos os clubes. Mas para o refinanciamento os órgãos federais utilizarão as informações mais atuais.

De acordo com os balanços de 2013, todos os clubes brasileiros apresentaram uma dívida total em 2013 de mais de R$ 5,9 bilhões, sendo que cerca de 40% passíveis de parcelamento com órgãos federais, um valor de aproximadamente R$ 2,4 bilhões.

Os valores a serem parcelados pelo que já foi publicado superam R$ 4 bilhões. Portanto, o rombo é muito maior do que todos imaginavam. Segundo o texto da MP haverá descontos em multas, juros e encargos legais.

Para ler o conteúdo na íntegra, clique aqui.

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Crimes no Estatuto do Torcedor: penas brandas?

O primeiro clássico entre Atlético e Cruzeiro em 2015 ficou marcado por um ato de violência: fotógrafo foi atingido por uma bomba e se feriu levemente.

Criado em 2003, o Estatuto do Torcedor teve, como objetivo principal, assegurar uma série de direitos ao torcedor e melhorar a qualidade dos eventos esportivos.

Diante da crescente violência nos estádios de futebol, em 2010, o Estatuto do Torcedor sofreu algumas alterações e foram incluídos tipos penais.

Dessa forma, desde 2010, tornou-se crime: promover tumulto, praticar ou incitar a violência, ou invadir local restrito aos competidores em eventos esportivos; promover tumulto, praticar ou incitar a violência num raio de 5.000 (cinco mil) metros ao redor do local de realização do evento esportivo, ou durante o trajeto de ida e volta do local da realização do evento; portar, deter ou transportar, no interior do estádio, em suas imediações ou no seu trajeto, em dia de realização de evento esportivo, quaisquer instrumentos que possam servir para a prática de violência.

A pena para estes delitos varia entre 1 e 2 anos, mas, não exclui a punição pelo cometimento de crimes mais graves.

Segundo a legislação brasileira, crimes cujo as penas não superem dois anos são considerados de menor potencial ofensivo e, em caso de primariedade e outros requisitos, pode ser realizada transação penal para que o réu realize medidas socioeducativas como alternativa à eventual pena restritiva de liberdade.

No caso ocorrido no clássico mineiro, o torcedor está impedido de comparecer aos jogos do cruzeiro durante quatro meses.

O Ministério Público, que tem o direito de iniciar as ações penais, entendeu que não houve crime mais grave e o torcedor acabou punido com base nos crimes do Estatuto do Torcedor, que são mais brandos.

Caso o Ministério Público tivesse apresentado pedido de condenação por crimes mais graves, como lesão corporal ou tentativa de homicídio, o processo teria se desenrolado de forma diferente.

Vale dizer que, muitas vezes, a punição rápida, ainda que aparentemente mais branda, tem um caráter mais pedagógico que uma pena mais gravosa aplicada muito tempo depois.

Estudos apontam que a agilidade na aplicação da pena e a efetividade de seu cumprimento certamente servirão de exemplo para que outros torcedores se abstenham de cometer atos de violência nos estádios de futebol. 

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Formação de atletas e o caso Rafinha

O vazamento do áudio do lateral Rafinha, do Bayern de Munique, que fez duras críticas ao comportamento dos brasileiros do Shakhtar Donetsk após a vitória do clube alemão por 7 a 0 sobre os ucranianos há duas semanas é um claro indicador para reforço da reflexão sobre a forma com a qual os clubes no Brasil foram e promovem seus talentos. Mais sobre a repercussão do áudio estão em: http://goo.gl/iNlbrhhttp://goo.gl/vnRh9S.

Que o áudio é verdadeiro e foi assumido pelo autor, está claro e notório. Se era uma brincadeira, não cabe a análise para este contexto. O que é ponto passivo é que o caso merece uma reflexão bem mais profunda e guarda relação direta com a maneira com que o Brasil forma seus atletas.

O que mais preocupa é que, ano após ano, continuamos a formar “apenas” jogadores de futebol e não profissionais da modalidade. O comprometimento dos atletas brasileiros quando vão para a Europa destoa daquele observado, inclusive, em outros jogadores sul-americanos.

O comentário acima não se baseia em qualquer estudo científico, mas sim no depoimento frequente de treinadores e dirigentes que comumente relatam o antiprofissionalismo de muitos brasileiros, impactando negativamente, em um efeito cascata, sua performance e adaptação.

Para o caso do áudio do lateral Rafinha, a recíproca é verdadeira para os dois lados: serve tanto para o “denunciante”, em que podemos abordar as relações de gestão da sua carreira, quanto para os “denunciados”, que, pelo relato, apresentam comportamento destoante daquilo que se considera respeitoso em um ambiente profissional.

E como eu disse, isso tem tudo a ver com a formação dos atletas. TUDO! A preocupação latente no ambiente dos clubes brasileiros não passa pela formação do cidadão, embora o discurso pareça querer construir ou fazer com que as pessoas acreditem que exista.

Estudo a formação de atletas desde os tempos de faculdade e percebo que pouca coisa mudou. O resultado tangível é a desvalorização do atleta brasileiro em mercados mais importantes do futebol mundial. Nas entrelinhas, fica a diminuta afinidade da grande maioria destes mesmos atletas em processos de adaptação e respeito efetivo por seus pares no ambiente profissional.

Por isso, ao analisarmos a formação de atletas do futebol, o “Caso Rafinha” se soma a tantos outros. Também não podemos reduzir a explicação sobre a qualidade da formação de atletas aos últimos fracassos da Seleção Principal ou das Seleções de Base. A percepção deve ser bem mais holística, procurando distinguir claramente o impacto sobre tomadas de decisão em gestão que repercutem em cadeia no comportamento dos atletas e afetam sua performance. 

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A supervalorização do sistema de jogo

De acordo com José Mourinho, “o jogador tem de saber que sob o terreno de jogo tem um desenho estabelecido para poder antecipar as suas decisões.” Na minha opinião esta é a principal função do sistema de jogo e pondero que são decisões táticas, com ou sem a bola.

Muito embora a conceituação de sistema de jogo pode ser mais aprofundada, levando-se em conta todas as interações que o jogo possibilita, para efeitos do texto presente, uso o conceito reducionista de sistema como o desenho da equipe no campo de jogo.

Ultimamente venho acompanhando um crescente apelo ao sistema de jogo da moda, o 1-4-1-4-1. Desde a conquista da Copa do Mundo pela Alemanha, passando pela conquista da Champions League e do Mundial de Clubes pelo Real Madrid, este sistema parece que veio como resposta a todos os problemas no campo de jogo.

Uma diferença sutil deixa o 1-4-2-3-1, até então o centro das atenções, a um passo do 1-4-1-4-1. Troca-se um volante por um meia ou adianta-se o volante para compor a segunda linha de quatro. No segundo caso, fica constituído o novo sistema quando a equipe perde a bola o que confere uma vantagem por colocar mais um jogador dentro do campo adversário para pressionar a saída de bola. Com a bola, a equipe volta ao 1-4-2-3-1, pois o mesmo volante, antes adiantado, agora volta naturalmente para iniciar o jogo, uma vez que pela “rotina do lugar” ou pela característica do jogador (não saber jogar de costas!), é ali que ele se sente “mais confortável”.

Será que se a Argentina tivesse ganho a Copa do Mundo, estaríamos espelhando o seu sistema de jogo da final? Lembremos que a própria Argentina começou a Copa 2014, jogando com três zagueiros, modificando ao longo da competição. Na final, começou jogando num 1-4-2-3-1 com Lavezzi de um lado e Perez do outro na segunda linha de quatro, tendo Messi logo atrás do Higuain. Em alguns momentos, pela não recomposição do Messi, ficava caracterizado como um 1-4-4-2, com duas linhas de quatro. Já ao longo do segundo tempo de jogo, o técnico argentino Alejandro Sabella, trocou Lavezzi por kun Aguero e depois, Perez por Fernando Gago. Estas modificações deixaram a Argentina configurada num 1-4-4-2, com um losango de meio-campo com Biglia, Mascherano e Gago, e tendo Messi atrás de Aguero e Higuain. Caso Rodrigo Palacio, que substituiu Higuain, tivesse convertido uma oportunidade clara de gol, talvez tivéssemos exaltando este sistema de jogo, com a Argentina campeã!

Durante a Copa do Mundo no Brasil, várias equipes apresentaram um futebol de alta qualidade, jogando com três zagueiros (Chile, México, Costa Rica e Holanda), sistema de jogo que para muitos já está superado.

A Holanda jogou num 1-3-5-2 contra o México, tendo Sjneider atrás de Van Persie e Robben, e no jogo seguinte, contra a Costa Rica, o técnico Van Gaal, resolveu trazer o Sjneider para jogar como um segundo volante ao lado do Wijnaldum, compondo o ataque com Robben, Van Persie e Depay, apostando num 1-3-4-3. Voltaram depois ao 1-3-5-2 contra o Brasil quando nos ganharam por 3 a 0 na disputa pelo terceiro lugar.

Em nível de clube, o próprio Real Madrid, campeão da Champions League 2013-14, jogou várias partidas num 1-4-4-2 com duas linhas de quatro, tendo Bale de um lado e Jaime Rodriguez do outro, com Benzema e Cristiano Ronaldo enfiados entre os zagueiros adversários.

Outros exemplos interessantes de belas campanhas com diferentes sistemas são o Liverpool de Brendan Rogers, que só cresceu de rendimento com três zagueiros (Can, Skrtel e Sakho) e a Juventus de Allegri que faz grande campanha no Campeonato Italiano, algumas vezes jogando num 1-5-3-2 com Pereira (Pirlo – lesionado!), Marchiso e Vidal no meio, deixando Tevez e Moratta à frente.

O Tottenham de Maurício Pochetino vem empolgando na Premier League, alternando um 1-4-2-3-1 com um 1-4-4-2, dependendo do posicionamento do Eriksen, atrás ou junto ao Henri Kane, ou mesmo aberto na linha de três, tendo o Lamela jogando por dentro.

Mais recentemente tivemos uma das melhores partidas da Champions League 2014-15 quando se enfrentaram Real Madrid e Schalke 04. O treinador da equipe alemã, Roberto Di Matteo, surpreendeu a todos ao optar por uma formação com três zagueiros (Howedes, Matip e Nastasic), estabelecendo um 1-3-5-2 com um volante e dois meias (Meyer e Hoger) e impondo uma derrota contundente ao Real Madrid, dentro do Santiago Bernabéu.

Todo este histórico vem para fundamentar a minha opinião – no Brasil, supervalorizamos os sistemas de jogo em detrimento a outros fatores mais importantes. O sistema de jogo não é a essência das grandes equipes atuais: Bayern de Munique, Real Madrid, PSG, Juventus, Chelsea, entre outros.

A essência do rendimento destas equipes reside no fato delas executarem muito bem os princípios de jogo, ofensivos e defensivos. Nestas equipes, as táticas individuais e coletivas estão em acordo com aquilo que se espera de alto rendimento no futebol profissional. O sistema de jogo está à disposição da característica e da qualidade do jogador, não ao contrário!

Mobilidade, amplitude, profundidade, infiltração e improviso – princípios ofensivos; equilíbrio, compactação, concentração, cobertura e controle – princípios defensivos; são os pilares que sustentam o desempenho das principais equipes do futebol mundial, clubes ou seleções.

Do ponto de vista tático, para mim esta foi a grande lição que a Copa do Mundo 2014 nos trouxe.
 

 

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A transparência e o futebol brasileiro

A presidente Dilma Rousseff assinou na última quinta-feira (19) uma medida provisória que flexibiliza a negociação de dívidas dos clubes brasileiros com a União, mas estabelece como contrapartidas uma série de mudanças no processo de gestão de entidades ligadas à modalidade (confederação, federações e times). Podia ter sido um marco para o esporte nacional. Entretanto, foi apenas uma demonstração do quanto o buraco é profundo.

A MP ainda será encaminhada ao Congresso Nacional para virar lei, mas prevê refinanciamento das dívidas dos clubes brasileiros – atualmente, a soma dos débitos fiscais gira em torno de R$ 4 bilhões. Essas agremiações teriam 20 anos para pagar, com parcelas reajustadas pela Selic. Para terem acesso a essa linha de crédito, contudo, as equipes teriam de se comprometer a apresentar auditorias regulares, pagar em dia as obrigações contratuais, trabalhistas e previdenciárias, limitar gastos a 70% da receita bruta do futebol, aumentar investimentos na base e no futebol feminino, vetar antecipação de receitas de mandatos futuros, adotar um programa de redução de déficit e respeitar medidas de transparência previstas na Lei Pelé.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e as federações já se posicionaram contra o modelo – sobretudo porque a MP restringe o tempo de permanência de dirigentes em seus cargos. Mas essas críticas foram feitas em microfones, bem longe de um debate produtivo.

A Fifa também manifestou preocupação com a MP. A entidade internacional é sempre avessa ao que ela considera intervenção estatal na gestão do futebol. Por causa disso, a Nigéria chegou a ser suspensa até que seus governantes retrocedessem e cancelassem medidas que haviam tomado para mudar a gestão do esporte no país. Assim como a CBF e as federações, porém, a Fifa fez isso nos microfones. Não houve colaboração para o debate, mas crítica ao que foi feito.

O pacote de contrapartidas estabelecidas pela MP é fruto de uma aproximação entre governo federal e o Bom Senso FC, grupo formado por atletas para discutir o futuro do futebol brasileiro. Foram medidas pensadas em fóruns abrangentes, e entidades como CBF e Fifa foram incitadas a participar do debate.

Em vez disso, porém, Fifa, CBF e federações preferiram a articulação política. Não houve uma discussão que mostrasse por que essas medidas são ruins para o futuro do futebol brasileiro, mas um trabalho para que elas não sejam ratificadas pelo Congresso.

Todo esse contexto é importante para entender o peso de uma reportagem feita no último fim de semana pelo jornal alemão “Bild”. O diário publicou uma denúncia sobre a empresa de engenharia e serviços Bilfinger, que teria desembolsado 20 milhões de euros (R$ 70 milhões) em propinas para obter contratos da Copa do Mundo de 2014.

Em comunicado publicado após a reportagem, a Bilfinger disse que as primeiras investigações apontam que realmente houve pagamento de propina. A empresa, entretanto, ainda considera impossível apontar responsáveis pelo esquema.

E qual é a relação entre as duas histórias? São dois exemplos de como o futebol precisa urgentemente de transparência na gestão. Isso vale para a Fifa, para a Copa do Mundo e para o cotidiano dos clubes nacionais. E a comunicação tem papel determinante em todo esse processo.

Se quiser realmente evoluir, o futebol brasileiro precisa adotar práticas que assegurem uma gestão mais transparente. Isso é fundamental para construir credibilidade, e credibilidade é um item fundamental na venda de qualquer produto.

Você não compra um artefato de uma marca desconhecida ou pouco confiável. Se não houver uma diferença gritante em outros influenciadores (preço ou localização, por exemplo), você sempre vai preferir o produto que dá mais segurança. É uma lógica universal de mercado, e o futebol ainda não entendeu que está submetido a isso.

Não, não existe outro futebol para as pessoas consumirem se elas estiverem infelizes com o atual. O problema é que a concorrência, nesse caso, é bem mais abrangente: um consumidor que começa a se distanciar do futebol passa a não ver problema em trocar o esporte pelo cinema, pela TV ou por qualquer outra forma de entretenimento.

Tente medir o que teve mais repercussão no último domingo: os jogos de campeonatos estaduais ou o clássico entre Barcelona e Real Madrid? O confronto espanhol é tratado como um evento, e sempre que acontece é cercado de enorme movimentação midiática. Existe um trabalho de comunicação para que aquele produto seja valorizado.

Não, Barcelona e Real Madrid também não são exemplos de gestão transparente. O clube catalão, aliás, ainda está sendo investigado na Justiça por causa da transferência do atacante Neymar. O ponto é que existe no caso do clássico uma comunicação intensiva, voltada a minimizar isso.

E o futebol brasileiro, o que faz? Que medidas a CBF e as federações têm tomado para que suas imagens não sejam afetadas pelo combate à MP? Não existe.

A falta de transparência é endêmica no futebol mundial. O que faz o exemplo brasileiro ser pior é o descaso: os dirigentes passam uma impressão de que não estão minimamente preocupados com arranhões na imagem.

O episódio mais claro nesse sentido é a célebre entrevista de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, à revista “Piauí”. O mandatário criticou a imprensa e a sociedade brasileira, admitiu conchavo com a TV Globo e prometeu fazer “maldades” com quem o desafiasse.

O futebol brasileiro precisa urgentemente de um choque de gestão, e a MP assinada por Dilma podia ser um marco nessa rota. Mas o futebol brasileiro precisa, antes de qualquer coisa, se preocupar com a própria imagem. 

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Banco de Jogos – Jogo 11

Equipes que defendem bem tem grande capacidade de fechar espaços em seu interior, não permitindo o jogo entre linhas do adversário. Para que isso ocorra, uma série de comportamentos coletivos precisam ser aplicados permanentemente.

Diminuir a área de ação do adversário, pressionando-o em espaço e tempo, ter ajudas constantes através das coberturas curtas e longas e reduzir as distâncias das linhas e entre as linhas de defesa são ações fundamentais para o sucesso defensivo.

Na coluna desta semana, será proposto um jogo conceitual em que a aplicação destes comportamentos aliados a uma correta retirada do setor de recuperação será indispensável para ganhar o jogo.

Para ler a coluna na íntegra, basta clicar aqui

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Futebol: As vitórias não são dádivas do acaso… Se fossem, teríamos de aceitar que o acaso gosta mais de alguns treinadores do que de outros

Faz alguns anos (8 anos eu acho), escrevi um texto publicado aqui na Universidade do Futebol, dissertando sobre a dificuldade de algumas equipes, especialmente brasileiras, de aproveitarem situações de vantagem numérica por ocasião da expulsão de um ou mais jogadores adversários em uma partida de futebol.

Enfatizei, naquele momento, as mudanças intuitivas favoráveis na organização coletiva das equipes quando elas tinham jogadores expulsos (ou seja, desvantagem numérica) – e como essas mudanças dificultavam o trabalho dos seus adversários.

No final do texto, propus algumas referências de ação e de ocupação do espaço (soluções práticas) que poderiam auxiliar equipes com vantagem no número de jogadores, para que essa vantagem pudesse efetivamente se reverter em resultado concreto (gols e vitórias propriamente ditas) – havendo tempo para isso nos jogos, é claro.

Particularmente, como treinador, em 100% das experiências com esse tipo de situação, as referências propostas, aplicadas na prática, sempre se mostraram excelentes soluções.

Pois bem.

Nunca duvidei que as exigências impostas pelo nível de organização dos adversários em desvantagem numérica fosse uma variável muito importante e de grande peso no desenrolar de um confronto – ao se tentar colocar em prática propostas para tirar proveito da desvantagem deles (dos adversários).

E é claro, da mesma forma sempre soube, que a inteligência coletiva de jogo da equipe em vantagem numérica era variável determinante para que mudanças organizacionais levassem aos melhores efeitos.

Recentemente tivemos um jogo muito interessante, na UEFA Champions League, no que diz respeito a essas coisas (tirar proveito da vantagem numérica, gerir a desvantagem numérica, propor mudanças organizacionais, aplicar mudanças organizacionais, nível de inteligência coletiva de jogo, etc.).

Interessante por dois motivos em particular:

1) o jogo em questão envolveu uma classificação para as quartas de final da competição (UEFA Champions League);

2) porque o time que ficou em vantagem numérica logo aos 32’ do 1º tempo na partida foi o Chelsea, do experiente, premiado e vencedor treinador português José Mourinho.

Falo do jogo Chelsea 2 x 2 Paris Saint-Germain (PSG), na Inglaterra (partida de volta das oitavas de final da UEFA Champions League 2014/15, após empate por 1 a 1 na França).

É aceitável partirmos do pressuposto que nesse jogo os jogadores em campo representavam parte daquilo que há de melhor em termos de prática futebolística, porque estão familiarizados com confrontos de altíssimo nível, porque estão habituados a decidir-agir em altíssima velocidade e sob muita pressão espaço-tempo, e porque coletivamente são capazes de interagir num nível de excelência invejável com a organização de jogo, estando aptos a responder com eficiência às nuances estratégicas mais elaboradas.

E isso tudo quer dizer, em outras palavras, que sob o ponto de vista de um confronto em que uma das equipes fica em desvantagem numérica ainda no 1º tempo do jogo, é de se esperar que ambas nesse caso, tanto a que está em vantagem e quanto a que está em desvantagem, sejam capazes de propor os melhores problemas organizacionais ao seu adversário, e da mesma maneira, as melhores soluções – e aqui cabe lembrar algo muito importante: o Chelsea, além de ficar com um jogador a mais na partida, tinha a vantagem do placar, já que o zero a zero lhe era favorável.

Então, apesar de todas as colocações anteriores nesse texto serem “ocorrências e fatos de fácil observação”, é concreta e honestamente provável – por toda atmosfera conceitual criada nesse artigo – a hipótese de que a missão do PSG, time francês, era um tanto quanto mais complicada do que a da equipe do treinador José Mourinho.

Mas o que sabemos sobre o jogo, nos mostra um incontestável argumento contrário: o PSG conseguiu fazer dois gols (um no tempo normal e outro na prorrogação), depois de ficar duas vezes atrás no placar, e obteve a classificação!

A equipe em desvantagem (numérica, regulamentar e ambiental) conseguiu levar vantagem… (e claro, cabe aqui um debate sobre o fato dos gols, todos eles no jogo, serem oriundos de bola parada – mas deixemos isso para outro texto).

No altíssimo nível competitivo, ter um jogador a mais deveria ser uma grande frente sobre o adversário – e estatisticamente, nos campeonatos europeus para as grandes equipes, normalmente é.

Mas há, como foi esse jogo, exceções…

O próprio Mourinho, quando treinava o time italiano da Inter de Milão, em uma Champions League conseguiu parar o fortíssimo FC Barcelona de Guardiola e perder de apenas 1 a zero (placar pelo qual sua equipe poderia perder) após ter um jogador expulso no 2º jogo do confronto, na Espanha (eliminando assim o FC Barcelona, e sendo na sequência campeão da competição).

O futebol é um esporte em que a defesa sobressai ao ataque. É fato!

Então de certa forma, é de se esperar que mesmo a vantagem no número de jogadores seja algo que não desequilibre tanto assim a “balança do jogo” …

É de se “esperar”, não de se “aceitar” …

Por isso, se não entendermos quais os ajustes (finos e/ou grossos) podem ser feitos, e mais do que isso, que tipo de mudança será geradora de certo tipo de resposta dentro do jogo, estaremos entregues à espera (ou à desculpa de que, se aconteceu com o Chelsea, do José Mourinho, é normal… – Mas não deveria ser!).

Ser sujeito da ação e senhor do jogo é expressão da capacidade de interagir com o jogo e com sua lógica inexorável, interferindo nele!

Claro, não há respostas e soluções prontas… O jogo de futebol é um jogo de estratégias simultâneas…

Mas mesmo que não sejamos capazes de alterar totalmente uma tendência organizacional durante uma partida, é necessário, no mínimo, que mostremos capacidade e conhecimento para mudá-la (visivelmente).

As vitórias não são dádivas do acaso… Se fossem, teríamos que aceitar que o acaso gosta mais de alguns treinadores do que de outros… 

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MP do futebol: solução?

A presidente Dilma Rousseff editou nesta quinta-feira a Medida Provisória que poderá trazer significativas mudanças para as finanças dos clubes brasileiros. Ao mesmo tempo que a norma viabiliza o parcelamento de dívidas fiscais, a MP traz uma série de exigências como contrapartida.

A edição de Medidas Provisórias é prevista constitucionalmente como ato exclusivo do Presidente da República, em caso de relevância e urgência, para criar um texto sem a participação do Poder Legislativo, com força imediata de lei, mas que deverá ser aprovada pelo Congresso Nacional.

Imprescindível ressaltar que a Medida Provisória, por mais que tenha eficácia imediata, não é uma lei e dependerá de aprovação posterior do Poder Legislativo, sob pena de perder a eficácia.

A “MP do Futebol” permite o parcelamento das dívidas com o Governo, cuja inadimplência, ocasionará penalidades, como a perda de pontos.

Os clubes que adotarem o regime de parcelamento não poderão gastar mais do que 70% das receitas com o futebol o que, de certo, influenciará nas contratações de atletas. Ademais, terão que comprovar, mensalmente, o pagamento dos salários e direito de imagem, bem como estarão proibidos de adiantar receitas de outro mandato.

É natural que ao conceder benefícios, o Governo exija contrapartidas, como já se dá em outros programas. Entretanto, algumas contrapartidas podem extrapolar o interesse público e afetar o desportivo.

Considerando a atual situação financeira dos clubes brasileiros, o atraso do financiamento tem uma possibilidade plausível para não se dizer provável. Diante disso, clubes insatisfeitos podem se unir e criar uma Liga paralela, o que acabaria por enfraquecer o campeonato brasileiro e tornar a intenção do Governo inócua.

Não há dúvidas de que exista a necessidade de se implantar o “fair play” financeiro e de que o parcelamento das dívidas fiscais seja essencial.

Por outro lado, a legislação tida como a solução para o endividamento dos clubes brasileiros pode acabar tendo um efeito reverso.

A Espanha, por exemplo, por meio da Lei 10/1990 criou a Lei do Desporto que obrigou os clubes profissionais a se tornarem Sociedades Anônimas Desportivas (exceto Real Madris, Barcelona, Athletic de Bilbao e Osasuna) e estabeleceu regras para gestão financeira.

Vinte e cinco anos depois, alguns clubes foram extintos e os demais permanecem endividados. Por esta razão, a Liga Espanhola “apertou os cintos” e, juntamento com o Conselho Nacional de Desportos, na temporada 2014/2015, estabeleceu tetos salariais e limites de gastos, o que tem gerado situações não previstas como a não inscrição de atletas (e seu desemprego) a fim de que os clubes não extrapolem os limites impostos.

Portanto, sem dúvidas, a “MP do Futebol” é um passo importante, mas, de longe, não será a solução para a crescente dívida dos clubes brasileiros. Outrossim, estudos cuidadosos devem ser realizados para que a norma não tenha efeitos indesejáveis.