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Queda desigual

Uma pesquisa publicada recentemente Centre for the International Business of Sport da Universidade de Coventry, da Inglaterra, fez um levantamento sobre as razões que levam os clubes de futebol ingleses a decretar falência. Os números impressionam.

Para se ter uma idéia, de 1986 a 2008, 56 clubes ingleses pediram falência. O clímax aconteceu em 2002, temporada em que os 03 clubes que foram rebaixados da Premier League faliram logo em seguida. Isso porque houve o colapso da ITV Digital, que prometia salvar a segundona britânica, e que serviu também como catalisador para a falência de 17 clubes entre 2001 e 2003.

Apesar de eventos externos também servirem como motivador da falência, como foi o caso da ITV Digital, a grande culpa ainda reside com os clubes. O estudo apontou que as principais razões que levam os clubes a pedirem falência são o rebaixamento de divisão, que acarreta em grandes perdas de receita, a inabilidade em reduzir custos, principalmente com salário de jogadores, e, por fim, a má administração do clube em si. 

Apesar de aparentemente saudável, o futebol inglês acumulou perdas somadas de mais de 01 bilhão de libras de 2001 a 2006, em todas as suas divisões, que conta com um total de 92 clubes. A saúde do negócio, portanto, não é tão boa quanto parece.

É claro que quando você olha pros 04 maiores, Manchester United, Chelsea, Liverpool e Arsenal, tudo parece muito bonito e muito bacana. Quando você olha o todo, porém, o buraco é mais embaixo. Bem mais embaixo. E esse é um problema que precisa ser administrado urgentemente.

Os clubes grandes, ganham muito dinheiro. Os pequenos, perdem muito dinheiro. Os clubes grandes não sobrevivem sem os clubes pequenos. Os pequenos não conseguem competir com os grandes. O desequilíbrio financeiro é gigantesco, e o sistema tende a gerar mais e mais perdas. O único jeito é fechar todas as portas de um jeito que todo mundo ganhe mais ou menos a mesma coisa e, dessa forma, você equilibra os ganhos e diminui muito as perdas individuais. Quem faz isso são as Ligas fechadas, notadamente as estadunidenses, como NBA, NFL e MLB. Ninguém entra, ninguém sai e todo mundo ganha a mesma coisa.

Será esse o futuro da Premier League?

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Coluna inicial

Olá amigos da Universidade do Futebol.
É com grande satisfação que começo meus textos aqui neste espaço importante para o desenvolvimento de debates e reflexões acerca do futebol.
Sei também da grande responsabilidade e compromisso que firmo com todos vocês, críticos e sempre exigentes participantes desta comunidade que circula pelos corredores e caminhos da cidade do futebol, trocando experiência e compartilhando informações em busca de um denominador comum, um futebol cada vez mais estudado, sério, profissional e com aprofundamento concreto do conhecimento e da prática.
Por isso me apresso e convido-os a interagir conosco, frente a proposta de discutir tecnologia e futebol, assunto que faz parte do meu dia-a-dia, mas que ficará cada vez mais enriquecido com o amplo entusiasmo de todos vocês para participar com sugestões, debates e críticas.
Só assim podemos claramente debater temas pertinentes a atuação de todos nós, estimulando assuntos importantes sobre a tecnologia à serviço do futebol.
São várias as abordagens que buscaremos levantar para uma rica discussão. Desde a compreensão do termo tecnologia como recurso e processo, passando pelo viés do desempenho esportivo nas suas magnitudes técnicas, táticas e físicas, pelas questões de organização do espetáculo , do conforto do espectador e consumidor de futebol, pela capacitação individual e coletiva dos profissionais, enfim, por uma série de possibilidades e tendências que o futebol apresenta em relação ao uso e incorporação da tecnologia.
Fica aqui minha breve apresentação e no aguardo de desenvolvermos juntos um amplo e rico campo de discussão.
Até a próxima.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Vai dar zebra!

O futebol, nosso velho e bom esporte bretão, trazido para o Brasil por Charles Miller em 1894 e que em pouco tempo se tornou uma paixão nacional, vem, ao longo de todos estes anos, não só contribuindo para a divulgação da imagem do país em todos os cantos do mundo, mas, também, influenciando até na formação da nossa língua pátria. Várias expressões, oriundas do meio futebolístico, acabaram se incorporando ao nosso vocabulário.

Uma delas, que muito bem comprova essa tese é “vai dar zebra!”

Essa expressão, tão comum entre os boleiros, significa, no popular, que o impossível ou o inesperado pode acontecer.

Foi usada pela primeira vez pelo técnico Gentil Cardoso, um dos maiores filósofos do futebol brasileiro, em 1964, num jogo do Vasco da Gama contra o seu time, a Portuguesa, pelo campeonato carioca daquele ano.

O favoritismo era todo do Vasco, mas antes do jogo, entrevistado pelo repórter de campo, Gentil profetizou: vai dar zebra! Estava se inspirando numa outra grande manifestação da nossa cultura, que é o jogo do bicho.

Quando o Barão de Drumonnd criou este jogo, escolheu 25 bichos e entre eles, não estava a zebra.

Assim, dar zebra no jogo do bicho é impossível.

Mas, no jogo de futebol, o que parecia impossível aconteceu: a Portuguesa venceu por 2 x 1. Deu zebra!

O fato foi manchete em vários jornais do dia seguinte. E virou folclore.

No início dos anos 70, com a implantação da loteria esportiva que se tornou uma febre nacional, o termo foi mais popularizado ainda, pois, na televisão, era uma zebrinha quem informava o resultado dos jogos.

Quando acontecia algum resultado inesperado, a simpática zebrinha entrava em cena com sua voz inconfundível:

– Olha eu aí! Zebra!

E a zebra foi definitivamente incorporada ao vocabulário esportivo.

Com o passar do tempo a expressão passou a ser usada popularmente para definir algo que pode não dar certo ou não sair conforme o previsto. Assim, pode “dar zebra” num negócio, viagem, eleição, namoro e, é claro, num jogo de futebol.

Victor Kingma – www.victorkingma.com.br

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www.distintivos.com.br

“É como ter um filho. Dá trabalho, você gasta muito dinheiro, mas sente o maior orgulho dele”
Luiz Fernando Bindi
Essa foi, até hoje, a melhor definição que ouvi de alguém que tem um projeto jornalístico sobre aquilo que faz. E ouvi assim, de surpresa, no ar, durante a apresentação de um “Beting & Beting”, no BandSports, mas que naquele dia era um “Beting & Bindi”. 

 

O primeiro “Beting” que fiz ao lado do Luiz Fernando Bindi, um cara que, naqueles 10 minutos antes de entrar no ar e mais na meia hora de bate-papo ao vivo tinha se mostrado uma pessoa nota 10, jornalista por vocação, amigo já na primeira conversa.

Bindi era formado em geografia. E apaixonado por futebol, como provavelmente metade da população brasileira, ou até mundial. Provavelmente só ele saberia dizer em quais rincões do planeta que o futebol não é tão popular como aqui. 

E dessa paixão surgiu, como ele dizia, o seu “filho”. O site www.distintivos.com.br, que tem 25.219 escudos de times de futebol de todo o mundo. Do Etoile Filante, de Burkina Faso, ao Palmeiras, a paixão de 15 milhões de torcedores, entre eles Bindi.

Palmeirense como um Beting, nascido em berço verde e branco, mas que quando cresce e tem de trabalhar, esquece as cores e apruma o microfone, ou o teclado do computador, para assumir a outra paixão: o jornalismo.

Sim, porque o Bindi é um dos mais bem acabados exemplos de que para ser jornalista você não precisa de diploma, mas de vocação. Até o último dia 22, Bindi trabalhava num escritório, na área da geografia. À noite e nos finais de semana, porém, ele assumia a profissão que abraçou por paixão. 

Bindi conseguia se dividir entre os comentários na rádio, textos na revista Trivela, no site do Milton Neves, participações sempre precisas no “Beting & Beting” e até mesmo textos mais acadêmicos aqui para a Cidade do Futebol.

E a impressão que se tinha é de que ele sempre era ótimo. Por dentro. Coerente. Competente. 

Bindi foi daqueles caras que só o jornalismo permite que nós conheçamos. Aquele sujeito que mostra que a sua “loucura” não é tão louca assim. Que existem outros que pensam que só o futebol vale. Que ele representa início, meio e fim de vida.

Na última vez que nos encontramos, celebramos juntos o título paulista do nosso Palmeiras, ainda no Palestra Itália. Já desprovidos da função jornalística, sabíamos que poderíamos ser torcedores. Contamos da emoção que foi ver Marcos ceder seu lugar a Diego Cavallieri no jogo da conquista. Da redenção de Marcos, se é que ele precisava de algo mais do Palmeiras na vida.

Na última quinta-feira, ainda atordoado pela ausência do amigo, fiz questão de ir ao Palestra para lembrar do Bindi. E saber que, onde ele estivesse, vibraria com os 4 a 2 sobre o Santos. Agora mais do lado da arquibancada do que das tribunas de imprensa. Parece que naquele jogo o Palmeiras acordou para o Brasileirão. Pena que o Bindi não estava lá para ver.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Evolução da periodização no futebol: uma questão epistemológica (Parte 1)

A palavra “periodização” deriva da palavra “período” e nada mais é do que a divisão do tempo em pequenos seguimentos, ou ciclos de treinos, com características e objetivos específicos determinados de acordo com a especificidade de cada desporto. O objetivo desta divisão é facilitar a organização e adequação das cargas de esforço para cada momento do ano competitivo visando o aumento da performance.

Tradicionalmente, a periodização do treino tem assentado numa base predominantemente referenciada aos aspectos de adaptação morfológica, fisiológica ou bioquímica do organismo. Esta perspectiva, embora produtiva quando se pretende resolver questões mais restritas, apenas traduz uma visão parcelar e fragmentada do processo de treinamento em modalidades coletivas complexas como o futebol. Nesse sentido, citamos abaixo as duas primeiras “escolas” de periodização, bastante solidificadas e difundidas na ciência do treinamento.

A primeira delas (também denominada “tradicional”), originária do Leste Europeu e proposta pelo soviético Lev Pavlovic Matveiev em 1950, caracteriza-se pela divisão da época desportiva em períodos, estruturados para atingir “picos de forma” em determinados momentos competitivos. Este modelo de preparação confere primazia à variável física, assente numa preparação geral e não possui qualquer ligação com a forma de jogar. Deste modo, preconiza um processo abstrato centrado nos fatores da carga física, através de métodos analíticos. A segunda “escola” (também denominada “contemporânea”), com origem nos países do Norte da Europa e América do Norte tem como ícone Yuri Verkhoshansky e tentou transcender o caráter universal da primeira tendência, dando grande importância ao desenvolvimento das capacidades físicas exigidas na competição. Desde então, exacerbou-se a avaliação das cargas através dos testes físicos procurando conhecer assim, a forma dos jogadores. Além disso, esta tendência de treino caracteriza-se por desenvolver a variável física, técnica e psicológica em separado.

Na busca de adequar a preparação dos atletas às necessidades requeridas no futebol moderno e a tentativa de integrar as diferentes áreas do conhecimento ligadas à modalidade, novas propostas de periodização surgiram: cargas ondulatórias (Tschiene, 1990) e o modelo de Cargas Seletivas (Gomes, 2002). Essas novas propostas (principalmente a última) podem se adentrar em uma tendência designada “Treino Integrado” – onde os aspectos físicos, técnicos e táticos são desenvolvidos conjuntamente – e procuram promover uma maior semelhança com as exigências da competição conferindo uma grande importância ao jogo e à sua especificidade.

Um “pit stop” reflexivo do conteúdo abordado até aqui nos permite visualizar que a tendência da preparação física no futebol ao longo dos tempos é de se aproximar cada vez mais do jogo em si. Essa aproximação por sua vez, coloca essa área no mesmo patamar de outras não menos importantes (psicologia, nutrição, pedagogia, etc) evidenciando a tão citada interdisciplinaridade. Na prática isso significa que a preparação física não mais será o “norte” no planejamento de uma equipe para uma determinada competição. Isso quer dizer que o preparador físico tonar-se-á “menos importante?” Ou que não será mais necessária a preparação física? Ou agora serão os técnicos e técnicos adjuntos que se responsabilizarão por essa área, acabando com a figura do “especialista” – preparador físico – no futebol? Caro leitor, muito calma nessa hora…

Como já explícito, a estruturação de todo o processo de planejamento e periodização do treino em futebol, passou e ainda passa pelo componente dito “físico”. A periodização física convencional está instituída no futebol e apesar de parecer desajustada ainda prevalece metodologicamente como núcleo central de preparação. Teodorescu (2003) salienta que grande parte das opiniões e teorias da psicologia, da pedagogia bem como da teoria da educação física sobre o jogo, são formuladas a partir de posições biológicas e biogizantes. De fato, no desporto de rendimento está fortemente enraizada a crença de que a excelência no desempenho desportivo pode ser obtida mediante a melhoria na condição física (Tani, 2001). Historicamente, esta crença deve-se à grande influência exercida pela Fisiologia do Exercício, que apresenta uma perspectiva eminentemente energética de movimento.

Surge-nos assim vincado aquilo que podemos designar por um paradigma da dimensão física do treino, que realça a importância da dimensão física no seio do Planejamento e Periodização. Ao referenciarmos a performance a partir de fatores energéticos, biomecânicos e das características fisiológicas dos jogadores, os comportamentos destes serão perspectivados enquanto produto de uma maior ou menor adequação do organismo às exigências energéticas e funcionais do jogo, tendo em conta a unidade entre o estímulo e a resposta, desconsiderando as configurações tácticas que os induzem (Garganta et al, 1996). Isso impede uma tomada de consciência molar dos problemas do jogo, dado que não serão equacionadas as interações que se estabelecem no seio da equipe, entre os jogadores, face à relação de oposição – cooperação.

Assim sendo, apesar da investigação científica ter inferido uma relação causa-efeito de caráter bio-fisiológico na aplicação dos métodos de treino baseados na coerência estrutural daquilo que convencionalmente se denomina componentes da carga (volume, densidade, intensidade e freqüência), isso nada nos elucida sobre a eficácia do comportamento motor utilizado pelos jogadores para a resolução de uma situação competitiva qualquer. Compreender a ação biológico-fisiológica dos exercícios é importante e necessária por parte daqueles que estão aplicando o treino para conhecer o efeito imediato, assim como os efeitos crônico-adaptativos de uma determinada sessão, microciclo ou mesociclo (Tscheine, 1987). No entanto, as modalidades desportivas de caráter aberto, como o futebol, não podem desenvolver os seus métodos de treino partindo simplesmente do manuseamento das denominadas componentes da carga.

Dessa forma, podemos dizer que a “preparação física” no futebol atravessa de forma lenta e gradativa (como é o progresso da ciência) uma mudança paradigmática e epistemológica. Os fatos nos levam a crer que não mais o componente biológico seja o norteador do planejamento de uma equipe, independente do seu nível e/ou faixa etária. A Periodização (divisão) continua, porém muda o seu foco. Talvez a “Periodização Tática” (“processo de preparação centrado na operacionalização de um “jogar” através da criação e desenvolvimento contínuo do Modelo de Jogo” – Vitor Frade, 2006) que é para muitos algo novo, desconhecido, seja a norma dentro do futebol em um futuro próximo. Cabe a nós, profissionais da bola, “corrermos atrás” das mudanças, nos adequarmos e nos reciclarmos. A abordagem sistêmica cada vez mais ganha espaço dentro dessa modalidade. Contudo, profissionais completos, “sistêmicos”, “complexos”, holísticos e que se atualizam constantemente serão necessários para que essa abordagem se efetive verdadeiramente.

Talvez hoje o “componente físico” esteja se redimensionando dentro do futebol e não simplesmente sendo “deixado de lado”. Analogamente, o mesmo ATP (sigla referente à adenosinatrifosfato, nossa “moeda energética” dentro do metabolismo) que era responsável por um jogador correr em média 6 km por partida na década de 60, hoje permite que os atletas corram cerca de 12 km. O jogo é o mesmo, as regras são as mesmas, o ATP é o mesmo. Foram apenas 50 anos de evolução. O que mudou? Para terminar essa parte do texto (já que o assunto não se esgotou nesse documento), terminamos com uma pergunta capciosa e polêmica.

“Será que no futebol ganha quem salta mais? < br />
Quem corre durante mais tempo? Quem é mais rápido?

Ou será que normalmente ganha quem joga melhor futebol?”

BIBLIOGRAFIA

“A Ciência do Desporto a Cultura e o Homem”. Jorge Bento e Antonio Marques. Universidade do Porto. Porto, 1993.

“O Planeamento e a Periodização do Treino em Futebol – Um estudo realizado em clubes da Superliga”. Tese de Mestrado. Pedro Manoel de Oliveira Santos. Universidade Técnica de Lisboa, 2006.

“Do pé como técnica ao pensamento técnico dos pés. Dentro da caixa preta da Periodização Tática. – Um estudo de Caso”. Trabalho Conclusão de Curso. Marisa Silva Gomes. Universidade do Porto, Porto, 2006.

* Renato Buscariolli de Oliveira é bacharel em Treinamento Desportivo, mestrando em Biologia Funcional e Molecular – IB, pós-graduando em Bioquímica, Fisiologia, Treinamento e Nutrição Desportiva e membro do Laboratório de Bioquímica do Exercício – Labex, pela UNICAMP

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O Memorável Fla x Flu da Lagoa

Um dos jogos mais emocionantes e dramáticos da história do futebol brasileiro foi o clássico Flamengo x Fluminense que decidiu o campeonato carioca de 1941.

Eternizado como “O Fla x Flu da lagoa”, o jogo aconteceu no dia 23 de novembro daquele ano. O Fluminense, que precisava apenas do empate para se sagrar campeão, começou melhor e logo fez 2 x 0, com gols assinalados por Pedro Amorim e Russo.

Incentivado pela sua fanática torcida, que lotou o estádio da Gávea naquela tarde, o Flamengo partiu para a reação, e, ainda no primeiro tempo, diminuiu para 2 x 1, através de Pirilo.

Entretanto, as maiores emoções estavam ainda por vir, na etapa final da partida. Após várias chances desperdiçadas pelos dois times, o Flamengo finalmente empatou a partida, aos 39 minutos, em novo gol de Pirilo. E o jogo se tornou dramático.

O Flamengo, como um rolo compressor, partiu todo para o ataque, e os jogadores do Fluminense, então, passaram a usar de um artifício: chutar a bola na lagoa Rodrigo de Freitas, que fica ao lado do campo.

A cada nova bola colocada em jogo, chutavam de volta na lagoa. Renganeshi, defensor tricolor, era quem atirava a bola mais longe. Desesperados, os dirigentes rubro-negros mandaram todos os seus remadores presentes para dentro da água, para apressar o retorno das bolas.

Naquela época, quem controlava o tempo do jogo era o cronometrista. A cada vez que a bola saia de campo, este tinha que parar o relógio, sempre com representantes dos dois clubes ao lado, pressionando.

E os 6 minutos restantes se tornaram uma eternidade. O árbitro da partida, o folclórico Juca da Praia, além de ter que interromper e reiniciar a partida a todo instante, ainda tinha que ser enérgico quanto à disciplina, chegando a expulsar o atacante Carreiro, que fazia de tudo para tumultuar a partida e fazer o tempo passar. Em um lance, chegou a rasgar toda a camisa, para cavar uma penalidade.

Finalmente, após quase quinze minutos de prorrogação e muita agonia de ambas as partes, o cronometrista acenou e Juca da Praia terminou a partida que entraria para a história como o Memorável Fla x Flu da Lagoa. O Fluminense se sagrou campeão e aumentou ainda mais a rivalidade entre estes dois grandes times que sempre protagonizam um dois mais famosos e empolgantes clássicos do futebol brasileiro.

Dados do jogo:
Flamengo 2 x 2 Fluminense
Local – Estádio da Gávea
Data – 23/11/41
Árbitro – Juca da Praia
Público – 15.312 pagantes

Flamengo: Yustrich, Newton e Domingos da Guia.
Biguá, Volante e Jaime.
Sá, Zizinho, Pirilo, Ruben e Vevé.

Fluminense: Batatais, Norival e Renganeshi.
Og Moreira, Spinelli e Afonsinho.
Pedro Amorim, Russo, Romeu, Tim, e Carreiro.

Victor Kingma – www.historiasdofutebol.com.br

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Discutindo os desafios metabólicos: a saga da potência aeróbia continua …

Olá caríssimos leitores e leitoras. Com muito gosto, continuemos nossa prazerosa discussão pautada nos desafios metabólicos. No último artigo, polemizamos um pouco a questão da potência aeróbia (VO2 max) e sua influência no desempenho do futebolista. Por mais que a literatura discuta se esta é uma capacidade física importante nas modalidades acíclicas e intermitentes, como o futebol, defende-se aqui uma posição clara: uma maior potência aeróbia deve sim auxiliar em um melhor desempenho futebolístico!

Por que isso? Bem, como já discutido anteriormente, a potência aeróbia reflete a qualidade de funcionamento dos sistemas respiratório, cardíaco e muscular esquelético, sistemas estes que formam o pré-requisito para a boa performance esportiva.

E como isso se dá? Bem, caros leitores, vamos ao metabolismo. Se a capacidade do organismo em captar, transportar e utilizar Oxigênio estão aumentados, pode-se inferir que a potência da produção energética aeróbia durante os esforços é maior, além de garantir melhor qualidade na recuperação do atleta entre os esforços intermitentes de alta intensidade (como, por exemplo, na ressíntese da fosfocreatina e consumo de lactato), característica peculiar ao futebol.

Além disso, uma maior potência aeróbia viabiliza que seja ainda aumentada a capacidade aeróbia do atleta, assim como a economia de seus movimentos. O que isso quer dizer? De maneira sumária, que o atleta queima com mais eficiência seus estoques de energia (incluindo os ácidos graxos, de forma a poupar o glicogênio e postergar sua depleção muscular) e que a quantidade de energia gasta para a execução dos movimentos específicos do jogo pode ser reduzida, melhorando tanto a qualidade quanto a quantidade de ações motoras no jogo.

Por fim, relacionando ao que foi apresentado acima, maior potência aeróbia está relacionada com maior distância percorrida e maior número de sprints em alta intensidade nos jogos. Parece-nos, no mínimo, interessante caros leitores e leitoras.

Logo, com vossa licença: viva a potência aeróbia!

Um parêntese: indico fortemente a leitura de Stolen e colaboradores (2005), artigo publicado no respeitável jornal Sports Medicine.

Até a próxima. A discussão continuará, com certeza.

Grande abraço

*Fernando Oliveira Catanho da Silva é professor e Bacharel em Educação Física – UNICAMP e
Doutorando do Laboratório de Bioquímica do Exercício (LABEX) – UNICAMP

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Marketing esportivo e investimentos para a Copa de 2014: ampliação do mercado jurídico

Os eventos esportivos realizados no Brasil, como os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2007, bem como outras competições de âmbito mundial, como campeonatos de ginástica olímpica, judô, futsal, e principalmente pela confirmação da escolha do Brasil para realização da Copa do Mundo 2014, fomentam o mercado brasileiro de negócios relacionados ao esporte, eis que as empresas deverão utilizar como ferramenta de marketing o investimento na forma de patrocínios aos mais variados projetos que envolvam a realização de eventos esportivos.

As empresas realizaram investimentos no intuito de associarem suas marcas a um excelente produto, qual seja a paixão do povo brasileiro pelo esporte e mais precisamente pelo futebol, e assim obterem retorno e aumento de faturamento nas operações realizadas em seus cotidianos, atingindo diretamente os departamentos de vendas das empresas patrocinadoras do esporte brasileiro.

O aumento de faturamento das empresas investidoras no esporte somente será alcançado desde que os aportes financeiros sejam atrelados a uma administração profissional que atenda ao binômio, bom produto, e quantidade de exposição na mídia de suas vinculações na imprensa falada e escrita.

Os investimentos deverão ser realizados através de patrocínios de competições, ligas, atletas, clubes, construção de novas arenas, infra-estrutura, parcerias público-privadas e construção de empreendimentos como estacionamentos, shoppings e etc.

Podemos verificar ultimamente que a briga por investimentos esportivos anda muito acirrada, devido à interdependência da mídia com os esportes, sendo imprescindível, no atual cenário nacional, a transmissão televisiva de eventos desportivos, devido ao aumento do interesse e à preferência dos telespectadores por transmissões destes eventos.

A mídia televisiva é atualmente a mais importante ferramenta de marketing esportivo, fato que se deve ao alcance de uma quantidade enorme de telespectadores-consumidores e à certeza de visibilidade das empresas investidoras.

Este tipo de mídia acaba gerando aparições espontâneas, pois a quantidade de transmissões atreladas a reportagens jornalísticas vinculadas aos eventos esportivos amplia a exposição inicial da marca investidora, significando o máximo aproveitamento do investimento, com retorno observado na valorização da marca da empresa investidora.

O maior exemplo disto está presente na disputa entre duas grandes emissoras de televisão brasileiras, que brigam pelo alcance da preferência popular e, conseqüentemente, pela liderança de audiência, quais sejam a TV Globo e a TV Record, que têm disputado palmo a palmo todos os eventos desportivos, desde corridas de atletismo, campeonatos de futebol, jogos olímpicos e outros eventos de grande atração de investidores.

Outro exemplo resta evidenciado na proliferação de programas esportivos, canais exclusivos com programação 24 horas de esportes, canais “pay per view“, e mais recentemente com a criação de programas de televisão relacionados ao dia a dia de clubes de futebol, como a TV Flamengo e a TV Corinthians.

Os investidores se interessam pelo patrocínio de todos estes eventos que são divulgados nas mais variadas formas de mídia, seja adquirindo quotas dos mesmos, seja adquirindo exclusivamente os direitos, e consequentemente negociando tudo o que for atrelado á realização do evento, como a negociação de inserções comerciais durante as respectivas transmissões televisivas, denominação dos eventos transmitidos, exposição de placas de publicidade, exibição de conteúdo via internet e via celular.

Outra ferramenta utilizada no marketing esportivo televisivo é a interatividade com o público alvo, que permite que o telespectador possa participar do evento emitindo opiniões através da internet, telefone, ou mesmo do controle remoto de sua televisão.

As vantagens do patrocínio de eventos esportivos podem ser verificadas na exata medida da exposição das referidas marcas junto aos meios de comunicação, aproximando os patrocinadores de seu público-alvo e gerando aumento da credibilidade de sua imagem perante o mercado consumidor, ferramenta essencial na disputa pela preferência do mercado.

Os valores dos patrocínios atuais relacionados ao esporte alcançam números cada vez mais exorbitantes, não significando em hipóteses alguma a redução do retorno financeiro sobre os investimentos realizados, dada a valorização – quantitativa e qualitativa – desta exposição, muito maior do que a mera compra de espaços publicitários vinculados a outros eventos não relacionados ao esporte.

Um anúncio durante a transmissão de uma partida, ou o patrocínio de camisa de um clube de futebol possuem melhor relação custo-benefício, já que tais patrocínios garantem maior visibilidade do que o pagamento de inserções comerciais fora deste mercado, podendo ser citado como exemplo o caso da empresa Sansung, ex-patrocinadora da camisa do Corinthians.

Pesquisas mercadológicas demonstram que a empresa obteve uma enorme visibilidade em 2007, sem a necessidade de comprar nenhuma quota de patrocínio do campeonato nacional (custo maior), nem inserções comercias perante as emissoras de televisão.

Outra forma de investimento das empresas no esporte é o investimento em ações de marketing de relacionamento, ou seja, os investidores realizam projetos e operações que permitem a utilização de uma linguagem direta com seu público alvo, que almeja tanto a obtenção de novos clientes quanto a manutenção de seus clientes atuais.

Os eventos de relacionamento são dos mais variados e ensejam uma forma diferente de marketing, uma vez que são eventos mais direcionados a um público específico, não sendo muito divulgados na imprensa, mas ainda assim obtendo resultados que satisfazem suas necessidades.

Como exemplo deste tipo de ação de marketing podemos citar a compra de camarotes nos estádios, como o Morumbi, a Arena do Atlético-PR, a Vila Belmiro e outros, incluindo-se os que devem ser construídos para a Copa do Mundo de 2014, senda esta uma das maiores fontes – se não a maior – de renda para a obtenção de retorno dos investimentos na construção destas arenas, assim como os contratos de “naming rigths“.

Neste cenário, amplia-se o mercado jurídico voltado para a assessoria dos investidores, exigindo profissionais capacitados para a pronta satisfação dos interesses envolvidos, não apenas no âmbito consultivo, como também na esfera litigiosa.

Os investimentos visando a Copa do Mundo de 2014 estão apenas começando, porém é de suma importância que os empresários atuantes neste mercado estejam já atentos às oportunidades surgidas, pois quem possuir um bom produto, aliado a uma grande quantidade de exposição na mídia, com certeza possuíra enormes vantagens sobre a concorrência voraz existente no mercado.

E contratos de longa duração exigem a adequada assessoria jurídica capaz de assegurar que estes expressivos investimentos não sejam perdidos, às vésperas do grande evento esportivo da década no país, com a ruptura dos contratos ora celebrados, por conta de brechas jurídicas.

A corrida pelos melhores lugares nas “vitrines” da mídia já começou. Que os operadores do direito possam tirar proveito desta situação.

* Denis España – advogado e membro do Gedaf

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Futebol Profissional: gestão com planejamento

Planejamento estratégico e gerenciamento de projetos são assuntos que deveriam estar sempre presentes nos clubes de futebol. De forma bastante simplificada, é necessário que os gestores definam ao menos em que situação o clube deve estar e quais são os objetivos para o time em determinada data, com metas claras e mensuráveis. Será que todos os dirigentes realmente sabem são os objetivos para o seu clube para os próximos dois anos? Naturalmente alguns pensarão que o objetivo principal é o de ser campeão, ganhar, mas ganhar exatamente o que? Chegar a um faturamento anual de quanto? Ter condições de manter que nível de time para a próxima temporada? Ganhar todos querem mas títulos muitas vezes são apenas consequências de todo um trabalho.

Então se define o que será feito para que os objetivos estabelecidos sejam alcançados, quais serão as atividades necessárias e como serão medidas. Isso tudo faz parte de um plano, de um planejamento estabelecido e conhecido por todos. E este plano deve ser abrangente, a ponto de estabelecer o nível desejado para o time, seja em aspectos físicos, técnicos, comportamentais, financeiros e demais. Definidos os objetivos, as atividades devem ser constantemente monitoradas, controladas, documentadas, e então, baseados nos resultados obtidos, deve-se tomar ações corretivas e principalmente preventivas, de forma a minimizar as chances de ocorrência de riscos, que já deveriam ter sido identificados com antecedência.

Adicionalmente deve-se definir quais são os níveis desejados para cada atleta. Mesmo se olharmos para o mais óbvio, que é a condição física, nem sempre se sabe realmente como está cada atleta do elenco e muito menos em que situação cada um deveria estar. Isso porque ou não se avalia com eficácia, não há integração do setor de fisiologia com o de preparação física, ou mesmo porque não há um sistema estruturado de coleta e monitoramento dos resultados.

Muito importante nisso tudo é um trabalho sério de integração e organização, que deve ser realizado pelos gestores do departamento de futebol, algumas vezes em conjunto com os gestores das demais áreas relacionadas, como RH, finanças e marketing, pois o que se vê é uma situação em que os clubes não têm planos bem definidos, seja para premiação, para motivação dos atletas ou para campanhas de marketing mais efetivas, além de dificilmente conseguirem avaliar adequadamente seus jogadores e então não sabem como estão, onde querem chegar, se estão melhorando ou piorando e só terão estas respostas tardiamente, quando os resultados no fluxo de caixa e principalmente dentro de campo começarem a demonstrar problemas que já deveriam ter sido diagnosticados e resolvidos com muita antecedência.

Muito antes do início de cada temporada, os objetivos já devem ser traçados, bem como os indicadores que devem ser utilizados para o acompanhamento do trabalho da comissão técnica, dos profissionais da área médica, administrativa, dos próprios atletas e de todos os demais envolvidos com o desempenho da equipe.

Uma equipe de futebol bem administrada deve ter um plano que contemple tudo isto, que deixe claro a todos os interessados quais são as datas limites, as restrições, projeções financeiras, o time de profissionais e as ferramentas disponíveis, entre outras coisas. Deve ser feita ainda uma análise dos possíveis riscos, identificando os impactos de cada um deles e já trabalhar visando reduzir a chance de problemas futuros, definindo um plano de respostas.

Tudo isso pode parecer muito difícil para alguns gestores esportivos atuais, porém esta é a realidade e parte da receita de muitos projetos e empresas de sucesso. Há muito mais a se fazer mas é imprescindível que haja ao menos planejamento se houver a intenção de se administrar seriamente um clube de futebol. Ocasionalmente podemos até encontrar alguns gestores dizendo que têm planejamento estratégico em seus clubes, mas os próprios funcionários e demais colaboradores desconhecem, e se o plano, que define o objetivo, não é conhecido, como é que estes colaboradores saberão quais atitudes tomar para levar o clube ao caminho desejado, quando o objetivo não é conhecido? Em resumo, quem tem um plano e não divulga, na verdade não tem plano algum. Vale para qualquer empresa e vale para qualquer clube.

Por fim, quando se fala em algumas das boas práticas de gestão, alguns acabam pronunciando uma frase que ouvi várias vezes, atuando em um dos grandes clubes do país: “Ah, mas no futebol é diferente”. Sim, futebol é diferente, assim como um banco é diferente de uma fábrica de sabonetes. Naturalmente cada atividade tem as suas particularidades, mas são diferenças que não podem impedir um clube de se planejar, de monitorar o trabalho executado, de corrigir rumos organizadamente e de lutar para alcançar metas previamente definidas. A tecnologia, quando bem empregada, pode ser uma grande aliada no planejamento e no monitoramento e controle das atividades em um clube de futebol, porém mais do que tecnologia, pra fazer tudo isso é preciso que haja principalmente vontade.

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Futebol olímpico masculino: pra quê?

Julho de 2008, cerca de 15 dias para a estréia da seleção brasileira masculina de futebol nos jogos Olímpicos de Pequim, China, e o que se percebe é uma enorme distância entre o atual estado de profissionalismo e de espaço reservado na mídia para esta modalidade e a sua irmã, o futebol feminino.

Porém, nesse caso, o profissionalismo exacerbado parece não ser tão positivo ao futebol masculino. Tomemos como exemplo as seleções brasileiras. Enquanto a equipe feminina tem a base da equipe formada a algum tempo, vem de conquistas importantes como a medalha de ouro nos últimos Jogos Panamericanos e o vice-campeonato mundial, e levará a Pequim sua força máxima numa disputa do mesmo nível que a Copa do Mundo, o time masculino se encontrou a 15 dias de sua estréia, com um elenco em formação e tendo alguns jogadores importantes pressionados em relação à participação nos jogos Olímpicos pelas equipes que atuam na Europa.

Percebe-se isso na dificuldade do técnico da seleção brasileira masculina em definir, convocar e receber 18 jogadores para a disputa dos Jogos. Esse processo, que deveria ser natural e honroso ao jogador, e interessante para os clubes, acontece permeado por muita polêmica e dificuldades criadas pelo ambiente extremamente profissional do futebol masculino. Enquanto isso, no universo feminino, no qual já existe o profissionalismo, porém num estágio incomparavelmente inferior ao irmão, a liberação de jogadoras é mais tranqüila e as reais seleções nacionais estarão presentes.

Os Jogos Olímpicos modernos foram criados no final do século XIX, mais precisamente, em 1896, por um Barão, Pierre de Coubertin. Essa informação não é novidade, porém tem algo nela que significa mais do que a simples re-criação de uma competição esportiva. Claro que estão embutidos na idéia central das Olimpíadas, os princípios que regem a Carta Olímpica e que promovem o fair play, o respeito entre os povos, entre outros valores do olimpismo, porém, tal evento foi criado por um barão.

O que isso tem de mais? Tem que, no período do lançamento dos Jogos Olímpicos modernos, o esporte, que foi uma criação da aristocracia inglesa no início do século XIX (ELIAS; DUNNING, 1992), se encontrava num período em que suas práticas, que antes eram exclusivas dessa classe e representavam uma forma de diferenciação social, começaram a ser acessíveis também a grupos emergentes socialmente através do profissionalismo que se instaurava no universo esportivo (MARCHI JR, 2002). Isso ocorreu, pois somente os aristocratas tinham tempo livre e condições sócio-econômicas para a prática de forma amadora.

O que fez Pierre de Coubertin? Além de re-lançar um evento que promovesse o espírito olímpico, também criou uma forma de restringir a participação de outras classes sociais no esporte, através da condição de que todo atleta olímpico deveria ser amador. Ou seja, fez dos Jogos Olímpicos um evento exclusivo a atletas com condições de praticar esporte em seus momentos de tempo livre, os aristocratas (PRONI, 1998). Dessa forma, as Olimpíadas modernas tornaram-se, em seu início, uma forma de diferenciação social.

Porém, isso ocorreu a mais de 100 anos, e o que se percebe no fenômeno esportivo atual é que o amadorismo não ganha medalhas nas Olimpíadas, isso quando leva algum atleta a elas, principalmente em modalidades mais populares em escala mundial.

Nota-se que o esporte moderno, criado na Inglaterra do século XIX, se diferencia em muito do esporte contemporâneo, praticado nos dias atuais, principalmente depois do fim da Guerra Fria, quando o mesmo se tornou foco da lógica de mercado e de formas heterogêneas de práticas (MARQUES, 2007). O que se percebe nos Jogos Olímpicos do final do século XX e início do XXI é uma profissionalização profunda que exerce influência sobre atletas, dirigentes, comissões técnicas, imprensa, público, ou seja, sobre todos os sujeitos que com este evento se relacionam de alguma forma.

A idéia do amadorismo deixou de existir nos Jogos Olímpicos. Marco esse ocorrido na edição de 1992, em Barcelona, Espanha, com a participação do “Dream team”, a equipe de basquetebol masculino do Estados Unidos, formado por 11 jogadores profissionais da NBA e apenas um universitário. Com isso, os Jogos Olímpicos tomam o mesmo status, ou acabam tendo uma importância até maior do que os campeonatos mundiais de inúmeras modalidades esportivas, contando com os melhores atletas em suas disputas. Em muitos casos, ser campeão olímpico é tão ou mais importante do que ser campeão mundial.

Porém, isso não acontece no futebol masculino. O que se percebe nessa modalidade são regras que diminuem a grandeza do torneio olímpico, que já foi tão importante como a Copa do Mundo, visto a criação do apelido “Celeste olímpica” dado à seleção uruguaia bicampeã olímpica, ou à Hungria, campeã com todos os seus craques em campo na década de 1950. Enquanto em outras modalidades estará presente em Pequim a elite do esporte, inclusive no futebol feminino, na versão masculina não será bem isso o que vai acontecer.

Devido a interesses comerciais e às altíssimas cifras envolvidas no futebol de clubes europeus principalmente, o torneio de futebol masculino nos Jogos Olímpicos será novamente prejudicado em relação ao nível técnico e importância frente a outras modalidades.

Tudo começa com a regra, que desrespeita as tendências de profissionalismo por que passa o esporte olímpico, de que as equipes de futebol masculino devem ser formadas por jogadores com menos de 23 anos, havendo apenas 3 vagas para atletas mais velhos. Além disso, não é um torneio com chancela da FIFA, o que, para muitas instituições comerciais/esportivas (lê-se grandes clubes europeus) significa que não faz parte do mundo do futebol, muito menos para seus jogadores (embora seja uma ótima oportunidade de observar jovens talentos).

O profissionalismo se instaurou no futebol de forma consistente e definitiva. As leis desse mercado seguem, em sua maioria, às normas da FIFA, e é nessas diretrizes que os clubes atuam. Com o fim do amadorismo e os altíssimos valores contratuais, o que predomina na escolha de um atleta, ou de uma equipe, quanto à participação ou não do mesmo numa Olimpíada, é a vontade do órgão contratante e pagador, ou seja, os grandes clubes. E isso se apresenta principalmente sobre jogadores com idade maior do que 23 anos.

Com esse quadro, o que se observa é que o torneio olímpico de futebol masculino se apresenta como uma competição entre atletas que não formam as seleções principais de seus países, e com isso, acaba sendo interessante para clubes de fora do grande mercado europeu (pois podem “mostrar” seus jogadores ao mundo e conseguir grandes transferências), e desinteressante para os poderosos clubes da Europa, pois expõem seus atletas a possíveis lesões e ainda faz com que estes percam o importante (do ponto de vista técnico) período de pré-temporada, visto que o período dos Jogos Olímpicos não é associado ao calendário internacional da FIFA. Mas uma coisa é igual para todos, estas regras fazem com que tal torneio não exerça concorrência, em grau de importância e apelo midiático e comercial, à Copa do Mundo de futebol.

Então, uma pergunta se faz pertinente: Qual valor esportivo tem uma competição que, teoricamente disputada em nível mundial, não conta com a elite de atletas da modalidade? E mais, a quem interessa um evento que não se mostra positivo aos donos do comércio de jogadores, visto que, embora a FIFA “obrigue” os clubes a cederem jogadores com menos de 23 anos para os Jogos, tais entidades não se mostram muito satisfeitas e, mesmo contrariando tal decisão do órgão máximo do futebol, ainda dificultam a ida desses atletas a suas seleções.

E para o Brasil? Que valor tem a medalha de ouro do futebol masculino?
A cada ciclo olímpico o período de preparação da seleção masculina diminui, assim como as possibilidades de planejamento da comissão técnica. Não que isso seja a vontade dos dirigentes e órgãos reguladores do futebol em nosso país, mas no universo atual do futebol, uma equipe que se reúne cerca de 15 dias antes da estréia na competição, sem um histórico de preparação, terá condições adequadas de disputa? Tal pergunta será respondida apenas no final do torneio olímpico e, sinceramente, espero que a resposta seja sim. Porém, se isso acontecer, será com muito mérito dos competentíssimos profissionais envolvidos. Ou se não acontecer, ocorrerá sem a culpa exclusiva dos mesmos, que estão expostos a uma enorme pressão (construída historicamente, para a conquista do ouro inédito).

Logo, o futebol olímpico parece ser mais um problema do que uma solução para o universo do futebol masculino contemporâneo, extremamente comercializado. A FIFA tem sua Copa do Mundo imune à concorrência do torneio olímpico enfraquecido, os grandes clubes europeus vêem este evento como um risco aos seus atletas, e desinteressante comercialmente, os atletas ficam expostos sem condições ideais de trabalho e preparação, o retorno financeiro não vai parar na mão dos “donos” do futebol, mas sim, no “bolo” olímpico.

Por esta razão, a algum tempo é possível ouvir especulações sobre o fim do futebol masculino olímpico, mas o que se observa é sua manutenção no programa dos Jogos. E pelo que parece, sem nenhuma inclinação a mudanças ou a um processo de valorização do torneio.

É claro que uma medalha olímpica é importante para qualquer atleta, e estes, sem dúvida, querem estar presentes nesta competição. Porém, em muitos casos, tais sujeitos não são donos de suas vontades no mundo do futebol, e por isso, acabam ficando de fora.

Acredito que o futebol masculino deva estar presente no programa olímpico, mas de forma mais profissional, assim como o atletismo, o basquetebol, entre outras modalidades que contam com a elite de seus atletas nos Jogos. Esse evento ocorre de 4 em 4 anos e, da mesma forma com que se organiza o calendário mundial para uma Copa do Mundo, quem sabe não seria possível adequá-lo aos Jogos Olímpicos. Nos moldes atuais, acredito ser mais interessante a inclusão de outras modalidades importantes que não se encontram nos Jogos, como por exemplo o Futsal, do que a manutenção de um torneio que agrada a poucos e dificulta a carreira de muitos.

Cabe então, para os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, apreciar as exibições que virão, torcer para que sejam grandes espetáculos, o Brasil conquiste o ouro e, claro, analisar o impacto que este importante (sob meu ponto de vista) torneio de futebol masculino exercerá sobre o público, mídia e demais envolvidos no universo do futebol mundial.

BIBLIOGRAFIA

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difusão editorial, 1992a.

MARCHI JR, Wanderlei. Bourdieu e a teoria do campo esportivo. In: PRONI, Marcelo Weischaupt; LUCENA, Ricardo Ferreira (orgs). Esporte: história e sociedade. Campinas: Autores Associados, 2002, p.77-111.

MARQUES, Renato Francisco Rodrigues. Esporte e Qualidade de Vida: reflexão sociológica. (2007). Tese de mestrado. Faculdade de Educação Física da UNICAMP, Campinas, 2007.

PRONI, Marcelo Weischaupt. Esporte-espetáculo e futebol-empresa. (1998). Tese de doutorado. Faculdade de Educação Física da UNICAMP, Campinas, 1998.

* Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas/SP – UNICAMP e Docente da Faculdade de Ciências e Letras de Bragança Paulista/SP – FESB