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Banco de jogos – jogo 6

No jogo de futebol, algumas movimentações estão mais associadas à conservação da posse de bola do que a progressão ao alvo. Como o objetivo do jogo é fazer mais gols que o adversário, ações táticas mais agressivas, associadas à criação de superioridade numérica e aproximação da meta do oponente, são necessárias. Entre elas: a ultrapassagem, caracterizada pela progressão à frente da linha da bola, e a penetração, conceituada como a ocupação do espaço nas costas dos defensores.

Tais movimentações, capazes de gerar rupturas nas linhas de defesa, precisam ser treinadas se forem comportamentos esperados pelo treinador em seu Modelo de Jogo. Na sequência, um exemplo de treino que pode potencializar a ocorrência dessas ações.

Jogo Conceitual em Ambiente Específico de Ultrapassagem e Penetração

– Dimensões do campo oficial. ~ 100m x 70m;

– Campo dividido em 3 faixas horizontais (30, 40 e 30m);

– Demarcação de 2 linhas (tracejadas em azul), distantes 10 metros da linha do meio campo;

– Tempo de atividade, incluindo esforço e pausa, a critério da Comissão Técnica, em função dos objetivos desejados.

 


 

Plataforma de Jogo Equipe A (preta): 1-4-4-2 (duas linhas)
Plataforma de Jogo Equipe B (azul): 1-4-3-3



Regras do Jogo

1.Até a linha tracejada no campo defensivo são permitidos, no máximo, 2 toques na bola e passe somente pra frente;

2.Entre a linha tracejada defensiva e a linha 2 são permitidos, no máximo, 2 toques na bola;

3.Receber a bola de costas no campo de ataque e perder a posse de bola = 1 ponto para o adversário;

4.Receber um passe à frente da linha da bola a partir da linha 2, quando, no momento do passe o jogador que recebeu estava atrás da linha da bola = 1 ponto;

5.Receber um passe nas costas da linha de defesa adversária no campo de ataque = 1 ponto;

6.Receber a bola em situação de impedimento = 1 ponto para adversário;

7.Gol = 5 pontos;

8.Gol a partir de penetração ou ultrapassagem = 10 pontos

Assista aos vídeos com os exemplos de algumas regras:

Regra 4
 


 

O jogador número 2 da equipe preta recebe um passe do jogador número 11 e, antes do passe, encontrava-se atrás da linha da bola. Esta ação vale 1 ponto para a equipe preta.

Regras 3 e 5
 


 

O jogador número 11 da equipe preta recebe a bola de costas e o jogador número 4 da equipe azul recupera a posse de bola. Em seguida, após troca de passes, o jogador número 8 da equipe azul faz um passe nas costas do jogador número 6 da equipe preta e o jogador número 10 recebe a bola. Estas ações valem 2 ponto para a equipe azul.

Regra 8
 


 

Após a equipe preta ter pontuado (Regra 4), o jogador número 2 cruza para o jogador número 10, que faz o gol. Esta ação vale 10 pontos para a equipe preta.

Aguardo dúvidas, críticas e sugestões. Abraços e bons treinos!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

Leia mais:
Banco de jogos – jogo 1
Banco de jogos – jogo 2
Banco de jogos – jogo 3
Banco de jogos – jogo 4
Banco de jogos – jogo 5

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Debates em Quito acerca da segurança nos estádios de futebol

O seminário tem por objetivo fomentar debates sobre a segurança em eventos esportivos e contará com a participação de jornalistas, empresários, diretores de clubes, torcedores e outros, para que, a experiência em cada uma das áreas do esporte, possa enriquecer o debate.

Nesta última quinta-feira foram proferidas palestras com participação dos convidados e, hoje [sexta], serão realizadas visitas a locais onde ocorrem os espetáculos esportivos em Quito, para conhecer in loco as necessidades para melhoria das condições.

Para o evento, além de mim, proferiu palestra a inglesa Ctharine Ann Long, diretora de serviços para os torcedores da Premier League (Head of Supporter Services at teh Premier League).

O mote para o evento foi a edição de uma Ordenanza (espécie de lei municipal) pelo Município de Quito fixando regramentos para a infraestrutura, acesso e segurança dos torcedores nos estádios da cidade.

Na primeira experiência da nova norma, durante a partida entre Equador e Bolívia, válida pelas Eliminatórias para o Mundial de 2014, não houve ocorrência de fatos violentos.

Por outro lado, a Associação Equatoriana de Futebol manifestou insatisfação em virtude da diminuição da capacidade do estádio.

Assim, durante o evento, na primeira palestra, apontei a importância da infraestrutura adequada nos estádios de futebol com fundamento nas recomendações da Fifa e da Uefa.

Depois, na segunda exposição, apontei as causas da violência, os principais pontos da legislação sul-americana, as experiências positivas de países europeus e, ao final, sugeri soluções para a violência nos estádios de futebol.

Nesta sexta, após a visita aos estádios de futebol da cidade, será redigida uma conclusão cujo conteúdo será objeto da coluna da próxima semana.

Diante de uma análise preliminar, constata-se a relevância acerca do debate do tema, eis que uma avaliação da legislação sul-americana demonstra que há muito o que evoluir, o que se pretende com este seminário promovido pelo município de Quito, que desde já parabenizo pela iniciativa.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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O Brasil na Copa: retrospectiva histórica – parte 1

Não é novidade para os amantes e estudiosos do futebol que a Copa do Mundo é um evento único que dura aproximadamente apenas 30 dias, mas rende críticas, elogios e polêmicas por toda a vida. Polêmicas estas que abrangem principalmente o aspecto tático, principalmente no Brasil, nação que vive a monocultura esportiva do futebol e conta com mais de 170 milhões de pessoas que assumem como papel secundário na vida profissional ser técnico, ou ao menos um estagiário na área.

O objetivo do presente artigo é fazer uma breve revisão e relembrar o histórico da seleção canarinho ao longo das 18 copas do mundo pelas quais passamos, fornecendo, deste modo, um embasamento teórico e histórico mais completo para os profissionais de Educação Física, técnicos de futebol, leitores da Universidade do Futebol ou como já dito, os 170 milhões de estagiários na área.

Tudo começa em 1930 quando o ex-zagueiro Píndaro de Carvalho Rodrigues, médico de formação, foi convidado pela então Confederação Brasileira de Desportos para dirigir a seleção brasileira na Copa do Mundo, que seria realizada no Uruguai. Convite feito e aceito, o técnico da seleção deparou com a sua primeira dificuldade quando soube do desentendimento entre a CBD e a Associação Paulista de Esportes Athléticos, desentendimento este que o proibira de convocar grandes craques do futebol paulista como Arthur Friedenreich, Heitor Domingues e Luís Matoso, mais conhecido como Feitiço. Com isto, a seleção brasileira passou a ser uma seleção exclusivamente carioca.

Na estreia o Brasil enfrentou logo de cara a Iugoslávia, que entrou no jogo com força total no mais puro e singular significado da palavra, sendo que em meia hora os gringos já levavam o jogo por 2 a 0, que instantes depois passaria a ser 2 a 1, com gol marcado por João Coelho Neto, ou Preguinho para os mais íntimos. No jogo seguinte o Brasil goleou a Bolívia por 4 a 0, porém a vitória foi inútil, cabendo à seleção a amarga volta ao lar sem a taça na mala.

Quatro anos depois a sede seria a Itália, sendo que desta vez Luis Vinhaes era o treinador, de caráter essencialmente disciplinador. Assim como em 1930, Vinhaes não teria a seu dispor todos os craques brasileiros, já que o Brasil havia adotado o profissionalismo no futebol, a exemplo de outros países, o que levou à criação da Federação Brasileira de Futebol, de oposição política à CBD, que permanecera sob regime amador, porém como representante oficial do Brasil junto à Federação Internacional de Futebol Association. Com isto, o “sargentão” não poderia utilizar nenhum atleta registrado na FBF, apenas jogadores registrados na CBD, que contava apenas com a filiação do Botafogo do Rio de Janeiro dentre os grandes clubes do futebol brasileiro.

Na tentativa patriótica de ajudar a nação a conquistar seu primeiro título mundial, Carlos Martins da Rocha, dirigente alvinegro, passou a contratar grandes jogadores que estavam filiados à FBF, dentre eles Leônidas da Silva e Waldemar de Brito para que, desta forma, os mesmos tivessem inscrição na CBD, e consequentemente na Fifa e assim então pudessem ser convocados. Não bastasse a dificuldade na convocação ser igual à 1930, o início da trajetória também foi, e em meia hora do seu primeiro jogo a Espanha vencia por 2 a 0. Depois de centralizar o jogo em Leônidas da Silva, o Brasil marcou seu primeiro e único gol do jogo, inútil, já que os espanhóis marcaram mais um e o jogo terminou em 3 a 1 para os gringos.

Assim como em 1930, o Brasil foi eliminado e desta vez com a ajuda do árbitro alemão Alfred Birlem, que anulou um gol legítimo do Luisinho e ignorou uma penalidade máxima do zagueiro Quincoces, que confundiu sua posição com a do goleiro e meteu a mão da bola após chute de Patesko. Se o prezado leitor compreendeu as dificuldades do técnico e resolveu perdoá-lo, a CBD não teve a mesma compreensão e solicitou que o técnico Vinhaes se dirigisse ao Departamento de Recursos Humanos para assinar a papelada da rescisão contratual.

Passados oito anos desde a primeira Copa do Mundo, era a hora de o povo brasileiro soltar o grito de campeão em terras francesas, e o escolhido para liderar a conquista foi Ademar Pimenta, o primeiro que não pôde se queixar da convocação nem do apoio recebido pela CBD. Tudo correu bem na primeira fase, sendo que o primeiro drama vivido pela seleção foi na semifinal contra a Itália, em Marselha, já que o médico e chefe da delegação desaconselhou Pimenta a utilizar Leônidas da Silva, o Diamante Negro, que alegava uma distensão muscular na coxa esquerda. Ouvindo o conselho médico, o treinador brasileiro escalou Niginho para a vaga de Leônidas, mas a documentação do substituto estava irregular junto à Fifa, já que o mesmo jogara com dupla cidadania na Lazio, de Roma, e com receio de servir o Exército do líder do Partido Nacional Fascista, Benito Mussolini, retornou ao Brasil, irritando os dirigentes italianos que o denunciaram à Fifa, que proibiu então seu aproveitamento. A história termina com derrota de 2 a 1 para a Itália e a vitória de 4 a 2 sobre a Suécia, que garantiu o terceiro lugar à seleção canarinho.

Apesar da derrota da seleção, Leônidas deixou seu marco, sendo artilheiro do torneio com oito gols, resta apenas a dúvida se o técnico preferiu poupar o Diamante Negro para a grande final ou se Leônidas fora pressionada pelos amigos de Benito Mussolini a não participar do jogo.

Se nas edições passadas do evento mundial o Brasil foi o visitante, em 1950 a nação teve a oportunidade de sediar dezesseis seleções nacionais (sete européias, sete americanas e duas asiáticas). Ninguém melhor para dirigir a seleção do que Flávio Costa, um dos melhores técnicos da história do futebol brasileiro e mundial, autor da célebre afirmação:

“Somos um país em que cada pessoa se crê uma autoridade em futebol. A primeira condição para ser treinador, por aqui, é pensar com a própria cabeça e não com a cabeça das milhões de autoridades que estão espalhadas por ai”
.

Foi Flávio Costa o estudioso do sistema “WM”, elaborado por Herbert Chapman e nos apresentado por Dori Krueschner, que implantou o sistema no Flamengo em 1937. Tão era sabido do “WM” que o técnico da seleção nacional chegou a implantá-lo de uma forma adaptada “diagonal” na estréia contra o México, quando o Brasil venceu por 2 a 0.

A exemplo de Luiz Felipe Scolari nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2002, em Porto Alegre, que resolveu colocar apenas jogadores da casa para jogar, obtendo assim apoio integral da torcida, Flávio Costa no segundo jogo da seleção substituiu para o início do jogo Ely, Danilo e Bigode a fim de aproveitar Bauer, Ruy e Noronha, trio do glorioso São Paulo Futebol Clube. O jogo terminou empatado por 2 a 2, o que gerou uma série de críticas que levaram o treinador brasileiro a substituir o sistema “WM” em diagonal pelo “WM” clássico, vencendo a Iugoslávia por 2 a 0, a Suécia por 6 a 1, e a Espanha por 7 a 1, deixando a falsa impressão de que a seleção brasileira já estava com o inédito título conquistado.

Apesar das vitórias e goleadas terem soltado o grito de mais de 100 milhões de brasileiros, as mesmas mostraram erroneamente ao coach brasileiro que não havia necessidade de reforçar a marcação, o que poderia ser feito recuando um dos centro-médios para auxiliar na cobertura junto ao solitário zagueiro de área, recurso este que havia sido utilizado pelo uruguaio Ondino Vieira no Botafogo de 1947, ou mesmo utilizando a chamada marcação por zona, em que ao invés de marcar homem a homem, os jogadores deveriam marcar em suas respectivas zonas em que o campo era hipoteticamente dividido, prática consagrada por Zezé Moreira no Botafogo de 1948. Alterações não realizadas, defesa aberta e o Brasil perde o jogo por 2 a 1, com o infeliz g
ol (apenas para os brasileira e simpatizantes da “amarelinha”) sendo marcado pelo uruguaio Ghiggia.

Depois de amargar por quatro anos o gosto da derrota em casa, chega a Copa do Mundo da Suíça, em 1954. O sistema de disputa daquele mundial preconizava que cada time de uma chave de quatro seleções jogassem duas vezes dentro de seu respectivo grupo. Contavam-se os pontos ganhos e os dois primeiros garantiam vaga para a próxima fase. Os resultados foram: Brasil 5 x 0 México, Iugoslávia 1 x 0 França, França 3 x 2 México e Brasil 1 x 1 Iugoslávia, se classificando, portanto, Brasil e Iugoslávia.

O ex-técnico do Botafogo, grande defensor da marcação por zona e então treinador da seleção, Zezé Moreira, cortou Zizinho da escalação principal que viajaria para a Europa, com a alegação de que o mesmo já havia atingido uma idade avançada, o que prejudicara o seu desempenho, alegação esta que tinha o objetivo único de camuflar o corte feito pela CBD ao atleta, já que o mesmo havia exigido “bichos” mais altos durante o Campeonato Sul-Americano realizado em 1953, em Lima.

A seleção húngara, que permaneceu invicta entre 14/05/1950 e 04/07/1954, encabeçada e liderada pelo técnico Gusztáv Sebes e pelo craque Ferenc Puskás, atuando no sistema “WM” à la 4-2-4, foi a seleção emblemática daquele ano que eliminou a seleção canarinho por 4 a 2, perdendo somente a final contra a Alemanha Ocidental por 3 a 2.

Em 1958 foi a vez do cordial e companheiro Vicente Feola tentar alcançar o sonho dos torcedores brasileiros e conquistar o título mundial do Futebol. O treinador, que insistira na convocação de Edson Arantes do Nascimento, que havia se contundido em um amistoso contra o Sport Club Corinthians Paulista cerca de vinte dias antes da estréia do Brasil contra a Áustria, empregou na seleção o sistema 4-3-3 com Mário Jorge Lobo Zagallo exercendo a função de terceiro homem de meio de campo.

Pode-se dizer que a Copa de 58 foi um marco para a história do futebol brasileiro. O empresário paulista Paulo Machado de Carvalho, proprietário da TV Record, entregou ao então presidente da Confederação Brasileira de Desportos, o recém-chegado Sr. João Havelange, um projeto liderado por ele e elaborado pelos jornalistas paulistas Ary Silva (Rádio Bandeirantes), Flávio Iazetti (criador da Escola de Árbitros da Federação Paulista de Futebol) e Paulo Planet Buarque (TV Record). O referido documento que preconizava o fim do “absolutismo” do treinador, onde todas as funções ficavam centralizadas somente no treinador, e sugeriram a criação de uma verdadeira comissão técnica interdisciplinar, não apenas um ground committee, onde a comissão era composta por políticos que defendiam interesses próprios.

Atendendo ao pedido de Carvalho, a CBD contratou o supervisor Carlos Nascimento, o médico Hilton Gosling, o preparador físico Paulo Amaral e o psicólogo João Carvalhaes. Juntos, Feola e sua comissão decidiram logo de início que todos os jogadores convocados deveriam atuar no nosso país, sendo que, deste modo, os atacantes Julinho (Fiorentina) e Evaristo de Macedo (Barcelona) ficaram fora, já que não atuavam mais em suas equipes de origem, Portuguesa de Desportos e Flamengo, respectivamente. O corte fez com que o treinador convocasse nada mais nada menos do que Pelé e Garrincha.

O jogo contra a extinta URSS decidiria a vaga para as quartas de final, sendo que a seleção canarinho foi escalada com Zito, Garrincha e Pelé, que entraram no lugar de Dino Sani, Joel e Mazzola, recomendações estas dadas pelo capitão Bellini (capitão) e seu companheiro Nilton Santos. O Brasil venceu o jogo por 2 a 0 e se classificou para as quartas-de-final, quando bateu o País de Gales por 1 a 0, a França e a Suécia por 5 a 2 nas semifinais e finais, respectivamente. Ninguém ganha ou perde uma Copa do Mundo isoladamente, nem dentro nem fora de campo, mas fato é que Vicente Feola, Pelé, Garrincha, Zito e Paulo Machado de Carvalho foram figuras fundamentais para que o brasileiro desentalasse o grito que estava guardado desde 1950.

Continuaremos no segundo artigo abordando as Copas de 1962, 1966, 1970, 1974, 1978 e 1982.

PS – Agradeço ao sábio e profundo conhecedor do futebol nacional e mundial, Roberto Assaf, enciclopédia viva do esporte número 1 do país, pelos ensinamentos a mim atribuídos.

Referências Bibliográficas:

ASSAF, R. Banho de Bola: os técnicos, as táticas e as estratégias que fizeram história no Futebol. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.
 

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A ascensão da insignificância

O livro A Ascensão da Insignificância, de Cornelius Castoriadis, traduzido para português pela Editorial Bizâncio, parece-me de grande atualidade. “Qual o exemplo que as sociedades do capitalismo liberal fornecem ao resto do mundo? O único valor que existe nelas é o dinheiro, a notoriedade mediática ou o poder, no sentido mais vulgar e irrisório do termo” (p. 70). Por outro lado, o trabalho da esmagadora maioria dos jornalistas, dos comentaristas, dos intelectuais são mais “justificadores da ordem estabelecida” (p. 97) do que um contra-poder ao poder do neoliberalismo vigente.
O defeito não é de hoje, de fato. Heidegger e Sartre chegaram ao ponto de manifestar entusiasmo incontido: Heidegger pela ditadura de Hitler e Sartre pelas ditaduras de Castro e Mao. Cornelius Castoriadis é da opinião que “temos de nos desembaraçar, ao mesmo tempo, da sobre e da subvalorização do intelectual. Existiram pensadores e escritores, que tiveram grande influência, na História, mas nem todos no melhor sentido” (p. 98).
Hoje, segundo o mesmo autor, o intelectual faz parte do sistema que o contrata, que o remunera, que o condiciona (p. 99). E, por isso, ”há traição da parte dos próprios críticos, quanto ao seu papel de críticos; há traição, por parte dos autores, quanto à sua responsabilidade e rigor; e há a vasta cumplicidade do público, que está longe de ser inocente, neste assunto, na medida em que aceita este joguinho e que se adequa àquilo que lhe é fornecido” (pp. 99/100). A sociedade não degenerou biologicamente, a tecnociência progride diariamente e, diariamente também, a medicina rasga novos horizontes – a sociedade degenerou, sim, etica e culturalmente, quando é de bom tom entoar ladaínhas ao conformismo diante do consumo, do deus-dinheiro, de um capitalismo demencial, da crise de sentido e significação.
Não, não recebo o termo “atual”, com grande carga afetiva, dando-lhe um significado de mau, de falso, de execrável. Digamos antes que nunca, como hoje, uma crise económica e social e política se tornou tão visível (até nas próprias religiões). Não é por acaso que vivemos a Sociedade do Conhecimento da Era da Informação! Nos meus tempos de rapaz (bem me lembro), havia um sentimento de firme estabilidade e de radical confiança em determinados valores – e valores que eram uma continuidade do mundo clássico e do cristianismo.
Vivíamos então, em Portugal, um regime político de ditadura e um clima social de catolicentrismo? Não o nego, mas quando se apontavam “os amanhãs que cantam”, no capitalismo ou no marxismo, uma grande esperança iluminava as palavras, porque se descortinavam Absolutos em que se acreditava: Deus (Senhor e Pai), a Razão, a Liberdade, a Democracia, a Luta de Classes. E o mundo, se era um mistério, não era um absurdo.
Só que uma igreja sem cristianismo e um cristianismo sem igreja; o desmoronamento paulatino de muitas das ideologias de esquerda; o descrédito dos caudilhos que se dizem marxistas; o triunfo da sociedade de consumo; o espírito quantitativista, sem uma réstea de solidariedade, do neoliberalismo que nos sufoca – tudo isto gerou um mundo onde os valores vitais de solidariedade e democracia desaparecem, diante dos valores numéricos, unicamente numéricos, do capital. Por isso, no nosso tempo, o ser humano é parte, não é pessoa. E, porque parte de um todo, ao serviço do lucro, a facilidade com que é explorado, manipulado e… sem consciência da sua eminente dignidade, dado que “a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”.
A ascensão da insignificância, ou seja, da corrupção, do compadrio, do mediático, do conformismo, do absentismo e de um tipo de homem que se contenta com a pseudo-felicidade do ter que não sabe ser gerou um futebol que reproduz e multiplica uma sociedade economicamente desigual e de um saber onde a dimensão antropológica não conta. Cornelius Castoriadis escreve: “Deveríamos querer uma sociedade, na qual os valores económicos deixassem de ser centrais ou exclusivos, em que a economia voltasse a ser posta no seu devido lugar, enquanto simples meio e não enquanto finalidade última da existência humana” (p. 110).
Se não laboro em erro grave, tudo o que venho de escrever deveria ser escutado e posto em prática pelos dirigentes da Fifa e da Uefa e dos maiores clubes de futebol para que um dia acontecesse o anseado desenvolvimento desportivo.
É que o desenvolvimento supõe tudo para todos e não só para o Real Madrid, ou o Manchester United, ou o Manchester City, ou o Bayern de Munique, ou o Barcelona, ou o Chelsea. Mas não é próprio do neoliberalismo mundializado que nos governa dar tudo a meia dúzia de endinheirados, conluiados com o poder, e umas migalhas aos outros? Até no futebol se pode vislumbrar a sociedade em que vivemos.
Não é possível pensar o desporto sem um quadro de valores. Ser pessoa e agir como tal implica a referência a valores, incluindo os valores morais. Mas não é amoral o mundo empresarial que preside ao futebol? Verdadeiramente, o que tem a ver a moral com as vitórias e as derrotas nas competições desportivas?
Repito o que venho dizendo há muitos anos: o desporto de alta competição reproduz e multiplica as taras da sociedade capitalista. Esquecer isto é não compreender o futebol que entusiasma e apaixona o mundo de hoje.

*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.
Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal.
Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br
 

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A Volkswagen e o patrocínio ao Neymar

Desde março deste ano, período em que foi assinado o contrato de patrocínio da Volkswagen ao atleta Neymar, a montadora alemã tem realizado ações de ativação estruturadas, com adequação à mensagem, e que apresentam continuidade, em um acordo de patrocínio que vai até 2016 (longo prazo).

A estratégia de associar a marca da empresa ao melhor atleta do futebol brasileiro e com maior evidência no país, principalmente em um período pré-Copa do Mundo no país do futebol, e promovendo ações relevantes para os consumidores, credencia a Volkswagen como um dos maiores patrocinadores esportivos do país.

Atualmente, o jogador participa de diversas campanhas publicitárias da marca, e usa modelos da Volkswagen no seu dia a dia. O modelo escolhido para o jogador promover foi o novo Gol, associando diretamente o produto da empresa com as características da modalidade patrocinada, bem como com a tarefa principal do jogador patrocinado em campo, mostrando a importância e a emoção do “Gol”.

Em uma das campanhas, o cenário escolhido para finalizar o comercial foi o Maracanã, estádio que está em obras para a Copa 2014. Neymar mostra que o primeiro gol do novo Maracanã é o da Volkswagen.

Além disso, a montadora é também patrocinadora da CBF e da seleção brasileira desde 2009. Esse conjunto de investimentos nas principais propriedades da plataforma futebol no Brasil faz com que a Volkswagen esteja presente na mente do consumidor com grande valor agregado.

Além da televisão, as campanhas estão sendo veiculadas em anúncios de revistas, nos aplicativos para Iphone e ações na internet, desta forma, integrando todas as mídias.

*Victor Lima é graduado em Ciência do Esporte pela UEL, e MBA em Gestão e Marketing Esportivo pela Trevisan Escola Superior de Negócios. Atualmente, é Co-Líder do Núcleo Futebol na BSB – Brunoro Sport Business.

Ele substituiu Geraldo Campestrini nas últimas três semanas na Universidade do Futebol, em virtude das férias do colunista.
 

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Bolas, laranja e gente

A proposta do presente espaço é fazer uma abordagem crítica e didática sobre o trabalho da mídia no futebol. Sem melindres ou adulações, a ideia é usar exemplos concretos para discutir conceitos de jornalismo esportivo e propor discussões que possam enriquecer o debate.

A história desta primeira coluna começa no dia 11 de setembro de 2012. O ex-jogador Paulo Cézar Caju, campeão do mundo com a seleção brasileira em 1970, publicou em seu blog no site do jornal O Estado de S. Paulo uma coluna intitulada “O fundo do poço se aproxima” (http://tinyurl.com/9xn585j).

No texto, Caju avalia o atual momento do futebol brasileiro a partir de diferentes aspectos. O colunista critica jogadores, árbitros, treinadores, dirigentes e até jornalistas.

“Por fim, ainda temos de aturar os analistas de computador, comentaristas que nunca chutaram uma laranja e ‘resolvem’ todos os problemas com uma arrogância irritante”, escreveu.

Criticar jornalistas é sempre uma seara intrincada. Poucas profissões lidam tanto com o ego. É extremamente difícil tomar partido em um grupo que vive de “publicar antes”, “apurar melhor”, “escrever com mais fluidez” ou coisas do tipo.

Jornalismo é competitivo por natureza, seja entre diferentes veículos ou mesmo no ambiente das redações, e incita posturas que muitas vezes resvalam até na arrogância.

Por isso, era de se esperar que Caju não ficasse incólume. A resposta mais célebre foi publicada no dia seguinte, no blog que o jornalista Leonardo Bertozzi mantém no site da ESPN (http://tinyurl.com/9etsdmz).

O post chamado “Sobre bolas e laranjas” tem um perfil muito mais emotivo do que a coluna de Caju. Bertozzi relata experiências pessoais como goleiro em campeonatos de escola e em jogos no condomínio. Também diz que brinca de chutar laranjas com a filha Laura, e usa tudo isso para falar sobre a relação que tem com o futebol.

A segunda coluna, até pelo tal perfil emocional e menos ranzinza, suscita empatia maior do que o texto inicial de Caju. Contudo, as duas publicações servem como mote para uma discussão um pouco mais abrangente: os requisitos inexoráveis para a formação de um jornalista esportivo.

O uso de ex-jogadores na crítica esportiva não é exclusividade do Brasil e nem do futebol. Aliás, não se trata sequer de uma prática recorrente apenas no esporte. No entretenimento, por exemplo, críticos são assiduamente rotulados como “cineastas frustrados”, “músicos frustrados” ou simplesmente “frustrados”.

Um dos grandes exemplos disso é a revista francesa “Cahiers du cinéma”, fundada na década de 1950. A publicação foi fundada por André Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca, e posteriormente reuniu alguns dos principais nomes do cinema francês (François Truffaut, Claude Chabrol, Jean-Luc Godard e Eric Rohmer, só para citar alguns).

A revista chamou atenção por assumir posturas contundentes e por publicar críticas verborrágicas de gente que desejava mudar a cara do cinema. As análises pessimistas sobre a área eram oriundas de profissionais que estavam dispostos a provocar mudanças ou que militavam em busca de um modelo diferente.

O problema é quando a crítica é vazia, e isso leva a um primeiro ponto sobre a formação da crítica no esporte. Ataques à qualidade do jogo ou à qualidade do espetáculo são comuns – e muitas vezes pertinentes, diga-se –, mas não fazem sentido se forem simplesmente para tomar partido.

O também ex-jogador Tostão mantém uma coluna no jornal Folha de S.Paulo e lamenta frequentemente o atual nível técnico do futebol no Brasil. Mas usa isso como mote para falar sobre a formação de atletas e o trabalho de base que (não) é feito no país, e isso dá sentido à análise inicial.

Um jornalista precisa saber escrever. Parece redundante dizer isso, mas a proficiência no uso do idioma escrito é cada vez menos disseminada.

Um jornalista precisa saber fazer análises contextualizadas, que tentem perquirir determinado assunto e não reflitam apenas os gostos pessoais. Mesmo em espaços opinativos, um jornalista deve expor argumentos e embasar teorias. A opinião rasa não é relevante.

Isso nos leva a outro ponto: analisar demanda visão sistêmica. E visão sistêmica demanda entendimento. Isso não tem nada a ver com a vivência esportiva de quem produz o comentário.

Vivemos em um país de ranço tecnicista, que ainda ensina esporte com uma perspectiva militarizada e não fomenta o entendimento sobre o jogo. Independentemente da modalidade, o atleta baseia a eficiência em um misto de empirismo e instinto. É o famoso “fazer o certo sem saber por que fez”.

O atleta que não compreende o jogo pode até analisá-lo. Basta citar experiências e relacionar acontecimentos recentes com situações que ocorreram durante a carreira dele. Contudo, alguém que não sabe os meandros da modalidade não consegue colocar isso em perspectiva.

Isso mostra que a formação de analistas esportivos está intrinsecamente ligada à formação esportiva como um todo, e aqui eu não falo do alto nível competitivo. A visão sobre o jogo pode ser desenvolvida na escola ou no condomínio citados no texto de Leonardo Bertozzi.

Compreender o jogo, todavia, não é apenas saber como as peças se deslocam ou como os lances acontecem. O entendimento passa por algo básico, mas raro: notar que o esporte é feito de pessoas.

Pessoas são complexas, cheias de camadas e multidimensionais. Portanto, nenhuma análise é completa se não unir o viés técnico do esporte a um contexto pessoal.

Tostão escreveu certa vez que o comentarista ideal reuniria características diferentes de vários profissionais que estão na mídia esportiva brasileira atualmente.

Na minha opinião, o comentarista ideal teria de pinçar deles a visão técnica, o domínio do idioma e o entendimento do jogo. No entanto, só seria ideal se pudesse desenvolver também um conhecimento profundo sobre gente.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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Reputação

Ao assistir ao muito bom filme norueguês “Headhunters”, o protagonista chama a atenção para algo que realmente importa na vida e nos negócios: a reputação.

Ao assistir também ao programa Sportv Repórter sobre a organização e estruturação do futebol na China, o tema foi novamente abordado.

Naquele país, muito está se investindo na contratação de jogadores, técnicos, preparadores físicos de outros mercados para construir a credibilidade da Liga Chinesa – abalada por escândalos de corrupção na arbitragem, manipulação de resultados e falta de histórico na formação de talentos e desenvolvimento interno do mercado.

Além disso, havia visto o mesmo programa na TV por assinatura, mas que tratava da longevidade e do sucesso que jogadores como Seedorf, Zé Roberto, Índio, Forlán, D’Alessandro, Paulo Baier, Elano, têm feito no Brasil e como se explica este fenômeno.

Nesse ponto, em especial, comparei com minhas observações atentas, nas andanças pelo interior do estado do Paraná, dos Jogos Escolares Bom de Bola. O arquétipo dos jovens de 12 a 17 anos sobre o que vem a ser um jogador de futebol bem-sucedido e modelo a ser seguido está mais para Neymar do que para Zé Roberto.

A reputação é construída por nós em todos os momentos. Nossas ações e omissões forjam o conjunto de características que, aos olhos da sociedade, definem como somos considerados ao se travarem as relações pessoais e profissionais.

Analisar a reputação das pessoas é um meio eficiente de controle social natural, espontâneo e universal porque, em mercados, instituições, corporações, grupos de pessoas, esta avaliação dinâmica favorece a evolução das relações sociais segundo parâmetros definidos pelos seus próprios atores.

Enquanto os jovens não souberem a diferença entre fama (efêmera) e sucesso (perene e que baliza a reputação), a formação e retenção de talentos em nosso futebol serão deturpadas.

No exemplo do futebol chinês, o volume de investimentos realizados também visa acelerar a construção da reputação positiva do mercado e, com isso, estabelecer um ciclo virtuoso e atrativo como destino de negócios.

O futebol brasileiro necessita, também, fortalecer a reputação para além-campo. Mesmo porque isso já vem sofrendo há alguns anos na já exaustivamente mencionada crise técnica por que passamos.

A configuração em verdadeira liga de futebol seria um grande passo para alçar a gestão dos clubes e das competições a um patamar autossustentável e autorregulado.

O endividado futebol nacional – que, se não tomar cuidado, vai ficar ainda mais – deveria fazer uso da credibilidade conquistada dentro de campo para se estruturar profissionalmente fora dele.

“Crédito é mais importante do que dinheiro”, indica o ditado, que se aplica de verdade nas relações pessoais, profissionais e sociais.

Quem tem crédito costuma gozar de ótima reputação. Que, ao fim e ao cabo, é o que importa na vida.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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A análise do modelo de jogo

A competição é o meio ideal para o acompanhamento da evolução do modelo de jogo de uma equipe. Nela é possível analisar o desempenho individual e coletivo em cada um dos momentos do jogo.

Quanto melhores forem as ferramentas de análise, mais precisas serão as informações que o treinador terá em mãos para a elaboração de seu planejamento semanal.

Melhores ferramentas de análise não significam, necessariamente, as com grande poderio tecnológico. Como já foi abordado em outra coluna, é possível estabelecer uma leitura ampliada de uma equipe dispondo somente de um papel e uma caneta. Basta um significativo aprendizado tático do jogo de futebol.

Posto isso, como você analisa sua equipe?

Somente quantifica passes, desarmes, lançamentos e finalizações? Suas ferramentas de análise estão proporcionando informações precisas do seu modelo de jogo?

Já se preocupou em quantificar elementos qualitativos do seu jogar? Na tese do treinador Rodrigo Leitão (2009), podem ser observados alguns comportamentos de jogo que foram analisados ao longo de 18 partidas oficiais de uma equipe sub-17 e que servem como exemplos para uma proposta de análise qualitativa do modelo de jogo.

Os comportamentos analisados pelo treinador foram o de tempo para a recuperação da bola, tempo para a recomposição da equipe ao meio campo, número de chutões da própria equipe, número de chutões do adversário, êxitos na primeira bola, êxitos na segunda bola e zonas de maior incidência de desarmes e de interceptações.

De acordo com o modelo de jogo idealizado, o objetivo era que cada um dos itens apresentasse uma resposta específica ao término das 18 partidas.

Eram elas: redução do tempo de recuperação da posse de bola para valores próximos de cinco segundos; redução do tempo de recomposição à linha 3; diminuição para valores próximos do zero do número de chutões da sua equipe e aumento do número de chutões do adversário; aumento do percentual de êxito nas “primeiras” e “segundas” bolas, visto que ocorreriam com maior frequência em virtude do aumento de chutões dos oponentes e maior incidência de desarmes nas faixas laterais ofensivas e de interceptações no campo de defesa.

Cometerá um equívoco quem, a partir de agora, reproduzir estes elementos qualitativos na análise de suas equipes. Afinal, tais comportamentos fazem sentido às ideias de jogo de Rodrigo Leitão (sintetizadas em sua tese), para a equipe em questão e que podem não ter nenhuma similaridade com as suas (ideias e equipe).

Acertará quem, a partir deste estudo, refletir sobre como adaptá-lo a sua realidade. Com os exemplos citados, fica evidente que elementos não faltam para compor uma boa análise.

Antes de tal avaliação, no entanto, espera-se a definição de um modelo condizente com os princípios de jogo do futebol moderno.

Infelizmente, estes modelos quase não são vistos na atualidade futebolística brasileira. O que vemos, por enquanto, é uma imprensa que enche os espectadores de números que dizem muito pouco sobre uma equipe, comentaristas que analisam fragmentos do jogo e treinadores que se alternam na dança das cadeiras do futebol brasileiro. Pagamos o caro preço dos modelos ultrapassados.

Precisam emergir profissionais que busquem a evolução e lutem pela construção de um jogo que atenda às demandas do futebol competitivo.

Assim, ao invés de observarmos aquele “scout analfabeto” (como já bem afirmou Leitão), poderemos nos deparar com elementos como: o tempo gasto para repor a bola em jogo, o número de invasões à zona de risco, os setores de maior incidência de perda da bola ou o tempo para ultrapassar o meio campo com a equipe em posse.

Como você analisa sua equipe?

Aguardo sua resposta!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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A Associação Portuguesa de Adeptos e os direitos do torcedor como interesse global

Desde o lançamento do livro “Direito do torcedor: A evolução dos direitos do consumidor do esporte” tenho escrito artigos, proferido algumas palestras e participado de programas de televisão e de rádio.

Após cada artigo ou evento, invariavelmente, recebo alguns e-mails de várias partes do Brasil e até do exterior. Tivemos pedidos do livro para países como Portugal, Espanha, Argentina e Inglaterra.

Diante disso, percebe-se, que a necessidade de se assegurar os direitos dos torcedores é um anseio mundial.

Neste esteio, antes, ainda, de lançar o livro, contatei o sr. Costa Pereira, presidente da Associação Portuguesa de Adeptos (http://www.apadeptos.org/), órgão que tem por objetivo proteger os direitos dos torcedores portugueses.

A APA tem atuado de maneira extremamente incisiva e efetiva no estabelecimento de direitos aos torcedores portugueses.

A fim de atender aos interesses dos consumidores de eventos esportivos de Portugal, a associação pretende, nos termos da Constituição portuguesa, enviar à Assembleia Portuguesa uma petição solicitando a criação da Lei de Proteção ao Torcedor.

Algo semelhante com a “Iniciativa Popular” prevista na Constituição brasileira, sem, no entanto, a necessidade do recolhimento de cerca de dois milhões de assinaturas.

O fundamento para a referida petição está no artigo 52 da Constituição portuguesa:

Artigo 52.º (Direito de petição e direito de ação popular)

1. Todos os cidadãos têm o direito de apresentar, individual ou coletivamente, aos órgãos de soberania, aos órgãos de governo próprio das regiões autônomas ou a quaisquer autoridades petições, representações, reclamações ou queixas para defesa dos seus direitos, da Constituição, das leis ou do interesse geral e, bem assim, o direito de serem informados, em prazo razoável, sobre o resultado da respectiva apreciação.

2. A lei fixa as condições em que as petições apresentadas coletivamente à Assembleia da República e às Assembleias Legislativas das regiões autônomas são apreciadas em reunião plenária.

3. É conferido a todos, pessoalmente ou através de associações de defesa dos interesses em causa, o direito de ação popular nos casos e termos previstos na lei, incluindo o direito de requerer para o lesado ou lesados a correspondente indenização, nomeadamente para:

a) Promover a prevenção, a cessação ou a perseguição judicial das infrações contra a saúde pública, os direitos dos consumidores, a qualidade de vida e a preservação do ambiente e do património cultural;

b) Assegurar a defesa dos bens do Estado, das regiões autônomas e das autarquias locais.

Dessa forma, constata-se que o Estatuto do Torcedor é uma lei moderna e que pode servir de base para outras legislações.

Ou seja, cabe ao cidadão brasileiro lançar mão da ferramenta legal que possui para assegurar seus direitos, eis que possui uma das melhores legislações do mundo. Basta aplicá-la.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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A participação de terceiros nos direitos econômicos dos jogadores de futebol: questões jurídicas

Sempre nos períodos que antecedem a abertura das janelas de transferências, um tema que vem a mídia é a quem pertence o percentual dos direitos econômicos do atleta que está para ser negociado.

O que se propõe a demonstrar neste artigo são alguns apontamentos e comentários jurídicos que normalmente se enfrentam em contratos e negociações.

O primeiro ponto a se destacar é a questão da confiança e credibilidade fundamental entre o investidor que irá aportar o valor e o clube. É muito comum que na hora em que se faça o investimento seja estendido um tapete vermelho e no momento que se esteja diante de uma transferência o investidor seja visto como um inimigo.

Para que o clube esteja pronto para receber investimentos, ele deve estar ciente de que não obstante em qual gestão foi assinado aquele documento o investidor é um parceiro que deve ter um tratamento condizente com a sua condição, sendo natural a sua preocupação com o futuro do jogador.

Muito embora os investimentos sejam benvindos, a nova Lei Pelé inovou ao proteger os clubes no artigo 27-B que são nulas de pleno direito as cláusulas de contratos firmados entre os clubes e terceiros, ou entre estes e atletas, que possam intervir ou influenciar nas transferências de atletas ou, ainda, que interfiram no desempenho do atleta ou da entidade de prática desportiva.

Tal dispositivo espelha o artigo 18 bis do Fifa RSTP, acompanhando a preocupação da entidade máxima do futebol, que está focada na estabilidade das competições e na criação de mecanismos que assegurem a independência aos clubes, face a tais investidores, que não devem interferir na relação trabalhista mantida entre clubes e jogadores.

Ainda assim os referidos dispositivos tem a sua limitação no artigo 422 do Código Civil, principalmente no que se refere ao princípio da boa-fé objetiva, mais precisamente quanto aos postulados do dever de informar e cooperar, pilares do Código Civil de 2002.

Não pode um clube, que assina um contrato de parceria, baseado no artigo 27-B da Lei Pelé, por exemplo, se portar de maneira contrária ao investidor, suprimindo-lhe informações ou sendo negligente de maneira contumaz com o bem contratado, até que ele se deprecie por completo.

Estas situações são mais corriqueiras do que se imagina, podendo, por exemplo, a atual diretoria de um clube mal gerido querer prejudicar o investidor pelo simples fato dele ter assinado nas gestões passadas com inimigos políticos, ou por que simplesmente não respeite os compromissos assinados.

Uma linha minoritária de operadores do direito desportivo cogita que o inciso II do artigo 27 da Nova Lei Pelé jogou para ilegalidade os contratos de investimentos em direitos econômicos, porém não é esse o entendimento dos clubes e da maioria dos investidores.

Por outro lado esta alteração legislativa auxiliou a ganhar força a tese de que o futuro dos investimentos no futebol estão ligados a fundos de investimentos como o “soccer Br1” controlado pelo banco BMG com autorização da CVM ou clubes de investimentos criados tanto por investidores como por clubes.

É fundamental que o investidor, assim como o clube, tenha ciência de que o assessoramento jurídico tanto no âmbito preventivo, nas negociações, na construção do contrato, assim como durante eventual transferência é fundamental para o sucesso do negócio.

Aliás, sobre os fundos vale a mesma máxima do assessoramento qualificado. Quem afirma isso é Juan Figer, um dos maiores negociadores do futebol mundial, na edição de novembro de 2011 da revista Época Negócios: “fundos como o do BMG só conseguem sucesso se seus operadores tiverem grande conhecimento jurídico-desportivo, técnico e financeiro”.

Pelo exposto acima, conclui-se portanto que apesar da importância que o investidor representa para o futebol, a maioria dos clubes não está preparada para dar uma resposta para que esta parceria seja duradoura, sendo fundamental o assessoramento jurídico especializado para que o investimento em futebol se torne lucro e não um pesadelo.

*Pedro Zanette Alfonsin é advogado, pós graduado em direito desportivo, militante na matéria e coordenador do GEDD (Grupo de Estudos de Direito Desportivo).

Contato: pedro@alfonsin.com.br