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A parte pelo todo

Sinédoque é uma figura de linguagem usada quando se toma a parte pelo todo. Essa é uma das bases do filme “Sinédoque: Nova York”, de Charlie Kaufman, lançado em 2008. Focada em um diretor de teatro que prepara uma nova peça, a obra aprofunda a simbologia utilizada anteriormente pelo cineasta para discutir a relação entre homem e meio e o quanto um influencia o outro.

A reta final do Campeonato Brasileiro de 2016 também é uma questão de sinédoque. Para o bem ou para o mal, as principais disputas do certame nacional serão influenciadas por uma ordem sistêmica e terão relação com fatores que nem sempre aparecem dentro das quatro linhas.

O Palmeiras, por exemplo: líder do Campeonato Brasileiro, dono de um elenco equilibrado e de uma campanha sem altos e baixos, o time paulista chegou ao trecho final da tabela como o time a ser batido. Não apenas pela pontuação acumulada, mas pelo ambiente que se criou. O grande desafio agora é a manutenção disso, a despeito da expectativa por um título que a equipe não conquista desde 1994.

Também pesam sobre o Palmeiras alguns fantasmas – o título perdido em 2009 ou a insegurança do técnico Cuca, por exemplo. O time até pode funcionar em campo, mas precisa lidar com toda essa bagagem para que o ambiente vencedor não seja debelado na reta final do Brasileiro.

Um bom exemplo nesse sentido é o Corinthians de 2015. O time alvinegro conviveu com salários atrasados e intensa crise política durante a maior parte do Campeonato Brasileiro. No fim do primeiro semestre, perdeu também algumas de suas referências técnicas e emocionais (Emerson, Fabio Santos e Paolo Guerrero, principalmente). No entanto, o técnico Tite conseguiu blindar o grupo e impedir que essas pequenas crises comprometessem o todo.

Tite também tem feito esse papel na atual seleção brasileira. A equipe nacional vivia uma crise de credibilidade causada por sucessivos escândalos na CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e convivia com críticas ferrenhas ao estilo do técnico Dunga, que comandou o grupo até meados deste ano.

Quando trocou a comissão técnica, a cúpula da CBF imaginou substituir Dunga por alguém que tivesse maior aprovação (ou menor rejeição) em âmbito nacional. Tite fez mais do que isso: construiu em torno do time uma redoma e moldou em poucos jogos um bom ambiente que havia sido descartado. Ainda que seja uma parte de uma engrenagem que nem sempre roda de forma correta, o treinador soube livrar seu trabalho da influência externa.

São muitos os exemplos similares no esporte. Times foram campeões a despeito de problemas de relacionamento entre seus atletas ou apesar de crises institucionais em suas diretorias. Em todos os casos, uma chave para que isso aconteça é um bom plano de comunicação.

O Campeonato Brasileiro disputado em sistema de pontos corridos aumenta a margem para esse tipo de interferência externa. São muitos meses de competição, com elementos como janela de transferências, crises financeiras, instabilidade política e similares.

O Flamengo poderia ter sentido mais a ausência do técnico Muricy Ramalho, que iniciou a campanha com o time e se afastou por problemas de saúde. O Atlético-MG poderia ser mais influenciado pelo mau momento do técnico Marcelo Oliveira, em baixa com a torcida. O Santos poderia sofrer mais com desfalques como a negociação de Gabigol ou a lesão de Gustavo Henrique. No fim, ainda que todos tenham sofrido percalços, esses times souberam manejar problemas internos e tiveram tempo para lidar com isso sem cair na tabela.

A questão é que esse enorme volume de fatores externos acaba prejudicando a competição como um todo. Palmeiras, Flamengo, Atlético-MG, Santos e outros candidatos ao título durante o ano tiveram de superar suas próprias limitações. No fim, é um título de quem sofre por menos tempo.

Se tivesse um interesse no todo, a CBF trabalharia para diminuir a incidência de fatores externos em sua principal competição. Se houvesse um interesse coletivo, os clubes brigariam por isso.

Contudo, o que existe é apenas uma leva de times em busca de projetos. Clubes que procuram alguém com uma varinha mágica ou com um escudo intransponível. Equipes que tentam achar um técnico, um ídolo ou até um dirigente para fazer essa interface com as cobranças.

O futebol brasileiro não sabe lidar com a relação entre parte e todo. Faltam projetos institucionais e faltam visões de comunicação para isso. Com esse cenário, o principal título nacional será uma prova de resiliência. Faltam cinco rodadas para isso.

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Resgatando melhores desempenhos

Em momentos decisivos do Campeonato Brasileiro, todas as atenções estão voltadas para o resultado coletivo das equipes na busca por melhores colocações na tabela de classificação.

Mas como fazer atletas, que são indivíduos, desempenharem da melhor forma dentro de campo e situações em que seu time vai de mal a pior nas colocações da tabela de classificação ou se a equipe tem chances remotas de obter resultados positivos na temporada?

Penso que uma das formas de estímulo e engajamento do atleta em situações mais difíceis em busca de performance é o comprometimento! Isso mesmo, comprometimento.

Na prática, a intenção é contribuir para que o atleta possa descobrir ou definir um objetivo que lhe traga motivação para elevar sua performance, algo que lhe desafie e promova significado para seu momento de carreira. E o comprometimento é uma peça-chave para orientar a busca deste atleta rumo à excelência.

Por exemplo, quando um atleta define uma ou mais metas pessoais de desempenho para melhorar seus resultados atuais, sejam elas para buscar uma transferência ou uma renovação contratual, o simples fato dele se impor esta meta e traçar um plano de ações que lhe permitirão chegar até ela, fará com que ele tenha mais positividade, empenho e confiança em suas capacidades.

Nesta reflexão, muitos podem se questionar sobre o ponto de vista individualista desta abordagem, mas na prática isso pode ser justamente o contrário. Imagine comigo, dentro da coletividade do futebol, ninguém consegue elevada performance sozinho e, o simples fato de um atleta estipular uma meta pessoal que dependa do coletivo, muito pode se realizar através desta iniciativa. O atleta fica mais participativo, engajado e naturalmente acaba por permear essa confiança e entusiasmo por todo elenco.  Neste gancho, pode-se estimular outros atletas a definirem metas individuais que atendam seus desejos de carreira. Porém, cabe lembrar a importância da manutenção da compreensão elevada por parte dos atletas, que os resultados das metas individuais só se materializarão, como resultado do pensamento coletivo.

Para reforçar a importância do comprometimento, pode-se explorar as seguintes reflexões que podem colaborar para estimular o comprometimento junto aos atletas:

  • Seus objetivos são claros para você, desafiadores e têm por meta alcançar o seu melhor nível?
  • Você está fazendo algo, todos os dias, que o leve um passo mais próximo de suas metas?
  • O que fez hoje para chegar um passo mais perto do seu objetivo ou grande meta?
  • Tem comemorado pequenas vitórias cotidianas ou ainda se perde observando a distância que falta percorrer para atingir seu objetivo principal de longo prazo?
  • Seu comprometimento com a qualidade da concentração em treinos, aprendizados, práticas e atuações está forte o suficiente para levá-lo na direção dos seus sonhos? O seu comprometimento poderia ser melhor?

E aí amigo leitor, também acredita que até nos momentos difíceis é possível promover alto desempenho dos atletas de futebol?

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Administrando erros…

Quantas vezes você assistiu a um jogo onde os jogadores só trocavam passes para o lado sem objetividade? Ou a única forma de progressão dos zagueiros era o famoso “chutão” em direção ao campo adversário? Ou então, atacantes que quase nunca arriscam um drible, uma jogada individual? Qual o seu sentimento quando vê equipes/jogadores muito conservadores?

Acredito que todos (pelo menos eu!) apreciem ver equipes/jogadores que buscam fazer o diferente, que prezam por um jogo onde prevaleça a criatividade, a ousadia, que se arriscam. Imaginem: o que seria do mundo hoje se grandes navegadores não tivessem se aventurado no mar? Ou se Alberto Santos Dumont não tivesse desafiado as leis da física pela sua ânsia de voar?

Se é notório que grandes invenções e descobertas da humanidade partiram da ousadia de alguns homens e que a grande maioria dos amantes do futebol apreciam jogadas que primam pela criatividade, coragem, ousadia de seus executores, por que, então, tais atitudes, não são a via de regra do jogo? E sabe o que estes inventores, exploradores e “artistas da bola” tem em comum? O erro! Todos erraram bastante até conseguir alcançar o que almejavam. Não são poucos os relatos de pessoas notáveis que atrelavam suas conquistas aos erros cometidos anteriormente. Michael Jordan disse: “Eu errei mais de 9.000 arremessos na minha carreira. Perdi quase 300 jogos. Em 26 oportunidades, confiaram em mim para fazer o arremesso da vitória e eu errei. Eu falhei muitas e muitas vezes na minha vida. E é por isso que tenho sucesso”. (Nike Culture: The Sign of the Swoosh – 1998).

Sendo assim, por que, em nossos treinos, somos tão incompreensivos e intolerantes com o erro de nossos atletas? E notem, é claro que não devemos ser condescendentes, isso é bem diferente, a busca pela perfeição deve ser diária, mas entender que existem muitos percalços neste caminho, é primordial.

Administrar os erros, entendê-los e transformá-los em acertos, é também tarefa do treinador. Psicólogos atestam que cobranças em excesso, desproporcionais e, principalmente, que não geram reflexão sobre o erro, contribuem para a formação de atletas que dificilmente irão se arriscar, tentar algo novo, que serão diferentes! Termo tão usado para designar aqueles atletas que saem do trivial e que tantos treinadores afirmam desejar ter em suas equipes.

É claro que nem todo erro é bom, que nem todo erro é necessário e é possível criar ambientes de aprendizagem onde este erro seja controlado e direcionado a uma reflexão. Por exemplo, vejamos a seguinte atividade:

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Uma atividade simples, porém, um erro pode gerar grandes prejuízos:

  • O adversário estará sempre próximo a baliza que você está defendendo.
  • Perder a bola ou errar um passe quase sempre irá gerar uma situação de inferioridade numérica.
  • Qualquer perda de bola pode acarretar em um gol adverso.
  • Além da “dura” vinda do treinador e dos companheiros em função do erro.

Porém, ao mesmo tempo, um drible ou passe vertical, pode criar uma situação extremamente favorável de superioridade numérica e desencadear num gol pró. A condução de uma atividade como essa, carregada de cobranças por erros, ou de abordagens do tipo “não se arrisca perto do gol”, “só bola de segurança”, “aí não se brinca” etc, resultam em atletas que terão, na maioria das vezes, como primeira opção o “passe para o lado, de segurança”, que não irão se arriscar para buscar o gol adversário. Agora, se forem realizadas abordagens que encorajem os atletas a buscar superar esse risco, buscar soluções para chegar ao gol adversário, que sejam responsáveis com seus atos, aliadas à manipulação de algumas regras, podem induzir nossos atletas a tomar atitudes audazes, criativas, diferentes!

Imagine a mesma atividade, com o acréscimo das seguintes regras:

  • A cada drible vertical (sentido do gol adversário) a equipe soma 1 ponto.
  • Gols = 2 pontos. Se anotados com a perna não dominante somam mais 2 pontos.

Isso aliado aos estímulos do treinador, iria encorajar a todos a se arriscarem mais, para em determinadas situações, optarem pelo drible, tentar uma finalização com sua perna não dominante, serem mais criativos, ousados, diferentes! Isso não irá eximir da responsabilidade e cobranças em caso de erro destas tentativas, porém, o encorajamento para tais atitudes seria muito maior e viria de companheiros e treinador, já que todos estão cientes dos riscos, porém o ambiente que se cria, é de que os benefícios são igualmente grandes e vantajosos.

O Prof. Dr. e livre docente em psicologia pela USP, Lino Macedo, afirma que “o erro significa que eu poderia ter feito melhor, que não antecipei uma surpresa. O erro é criativo também, a gente aprende com ele, por isso, o professor deve guiar o aluno para jogar no nível correto de sua experiência”. Ofertando a possibilidade de adquirir mais experiência no âmbito do erro e acerto, e das vantagens em se arriscar nos momentos propícios, formaremos jogadores mais capazes, conscientes e corajosos para lidar com os riscos do jogo.

Em um dos trechos do livro “Os números do jogo: Por que tudo o que você sabe sobre futebol está errado”, os autores David Sally e Chris Anderson, nos dizem que:

Os gols são raros no mundo inteiro. São raros nas partidas. Basta pensar que, em média, um time do campeonato inglês marca um ou nenhum gol em 63% de seus jogos, e em 30% deles não marca nenhum. Os gols são raros para os jogadores. Em três temporadas da Premier League entre 2008 e 2011, 861 jogadores entraram em campo – ao todo, foram 30.937 participações individuais. A vasta maioria dessas participações – 28.326, ou 91,6% – terminaram sem que o jogadores tivesse feito um gol; 45% dos jogadores não marcaram um gol sequer nessas três temporadas; e 17.322 participações individuais – 56% – terminaram sem que o jogadores finalizassem uma vez sequer ao gol; em um pouco mais de 80% das vezes, o jogadore finalizou uma ou nenhuma vez.”

A média histórica de gols do Campeonato Brasileiro Unificado (dados futpedia.globo.com) desde a 1º Taça Brasil em 1959 até o Campeonato Brasileiro em andamento de 2016, é de 2,49 gols por jogo. Dada a notória capacidade de produzir excepcionais atacantes que nosso futebol possui, não é uma média tão alta, e sabendo que alcançar a vitória é cumprir a lógica do jogo (marcar mais gols que o adversário), por que não nos arriscar mais nisso?

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Gislaine Nunes, advogada

Conhecida por ser a responsável pela liberação de uma centena de atletas no fim da década de 90 e início dos anos 2000, período posterior à aprovação da lei Pelé que provocou uma grande transformação na relação entre clubes, jogadores e representantes, a advogada Gislaine Nunes pretende novamente modificar as estruturas do futebol.

Formada na Instituição Toledo de Ensino, em Bauru, e sócia Benemérita do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, tirou do papel a Liga de Futebol Paulista [LFP], competição que vem sendo disputada ao longo de 2016 e que proporcionou a alguns clubes a possibilidade de jogar regularmente. Gislaine pretende dar o pontapé inicial para um processo de diminuição da participação e importância das federações, CBF e CONMENBOL, na organização de competições de clubes.

A Universidade do Futebol conversou com a advogada sobre os desafios que a Liga enfrenta, lei Pelé, direito dos jogadores e outros assuntos que você confere nesta entrevista.

Universidade do Futebol – Quais foram os principais direitos dos jogadores de futebol profissional que puderam ser garantidos de maneira mais eficaz através da Lei Pelé? 

Gislaine – Tudo, né? Os jogadores de futebol eram escravos quase no sentido literal – só não dormiam em senzalas, de resto era tudo igual. Existia a fixação do passe após o término do contrato, que gerava um prejuízo muito grande para os atletas e suas famílias. Do início da década de 90 até 1998, quando a lei foi aprovada, sabíamos até de casos de suicídio de atletas, que eram completamente abafados pelos clubes, assim como jogadores que acabavam se entregando às bebidas, famílias sendo desestruturadas.

A lei Pelé veio para trazer o equilíbrio na relação entre clube e atleta. Porém, infelizmente, ela foi bastante mutilada pelo lobby que os clubes fizeram. De qualquer maneira, os principais direitos são a rescisão após três meses de atraso de salários e o direito de imagem, que era um pouco mais amplo, e mesmo assim os clubes, por serem tão arcaicos, provincianos e se acharem os donos do mundo, ainda continuam fazendo besteiras nesse sentido. O caso do Ronaldinho no Flamengo é um exemplo: conseguimos tirá-lo de lá já com a última alteração da lei, que prevê o direito de imagem tendo caráter cível, desde que não remeta ao contrato de trabalho. Esses clubes não tem capacidade para fazer diferente – há uma coação para que o atleta assine um direito de imagem que na verdade caracteriza a remuneração. Além disso, a lei Pelé prevê todos os direitos de um trabalhador comum, como fundo de garantia, décimo terceiro salário, férias, registro em carteira e finalmente o fim do passe.

Os clubes viram que o remédio foi amargo, mas positivo, aprenderam a respeitar um pouco mais os atletas, ficaram um pouco mais receosos de cair no atraso salarial. Hoje os atletas são menos alienados. Apesar de ainda serem desunidos, cada um sabe de seus direitos.

Ronaldinho, ao lado de Dadá Maravilha, em sua despedida do Atlético Mineiro.
Ronaldinho, ao lado de Dadá Maravilha, em sua despedida do Atlético Mineiro.

Universidade do Futebol – O início da década passada marcou uma quebra de paradigmas nas relações trabalhistas entre jogadores e seus empregadores. Dentro desse período, muitos clubes falharam em se adaptar à nova realidade. Quais eram nessa época os principais “erros”, tantos morais, na sua avaliação, quanto legais, cometidos pelos clubes nessa fase de transição? 

Gislaine – Os clubes eram muito mais arcaicos e provincianos do que ainda são. Nesse período se colocava os jogadores encostados, sem rescisão ou punições previstas na CLT, apenas treinando separado, ou afastados em casa, sem participar dos jogos. Eles não pagavam férias, atrasavam salários e forçavam as transferências para onde convinha.

Em 1998 houve a aprovação e publicação, mas existia o vacatio legis, a vacância da lei, que na prática significou que os clubes tiveram dois anos para se adaptar ao fim definitivo do passe. Só que eu comecei a protocolar pedidos de liminares na Justiça do Trabalho, que eram intermináveis, assim que a lei saiu, em março [de 98]. Por ter trabalhado dentro do projeto, fui uma das únicas advogadas, quando a lei Pelé saiu, a já estar praticamente pronta dentro do sindicato, com muitos processos de atletas. A gente chegava a liberar 10 atletas por semana.

Eram muitos os jogadores que vinham nos procurar, justamente alegando isso, que não recebiam, que eram obrigados a jogar daquela forma, que quando se machucavam eram dispensados, tratados como se coisa fossem. Dentro ainda desse período, quando os clubes viram que a lei realmente iria entrar em vigor, ser colocada em prática, eles ainda teimavam em não pagar férias, décimo terceiro, não tratar o jogador quando se machucava, mandando embora e pronto, simplesmente encostando os atletas por atos de indisciplina. Quando começamos a libertar os atletas e fazer valer a lei, os clubes ficaram mais receosos, mas isso demorou uns quatro anos a partir da aprovação – eles continuavam achando que eram os coronéis, que os jogadores eram seus escravos.

O Pelé foi criado e cresceu na Vila Curuçá, em Bauru, junto com o meu pai. Nós fizemos um contato para a produção de um programa que tínhamos, por volta de 2006, 2007. Quem veio me procurar foi ele –  talvez tenha visto em alguma entrevista que eu também era de Bauru. Conversava muito com sua assessora, até que um dia ele me mandou um e-mail dizendo que estava muito feliz por saber que eu era filha de quem era, que meu pai foi um amigo dele de infância. Quando fui visitá-lo para a gravação ele me disse uma coisa muito bacana que não vou esquecer nunca mais. Após a aprovação e publicação da lei, ele havia ouvido de muitos dirigentes de clubes que essa seria só mais uma lei Zico, que não iria valer de nada, ninguém iria mudar nada. Disse então que cada vez que eu libertava um atleta tinha uma torcida muito grande dele e quando cheguei dentro do seu escritório me falou “aqui você tem um fã-clube. Você fez valer aquilo que eu tanto buscava para os atletas. Você é a rainha da minha lei”. Foi algo que me deixou muito lisonjeada.

Os clubes apostavam que a lei não iria se fazer valer. Não esperavam que apareceria uma esposa de jogador de futebol que passava muita necessidade e por isso buscou para seu marido a liberdade antes da lei e que, quando ela foi aprovada, fez valer todos os direitos que cabiam a ele  e aos outros atletas. Sempre digo que a lei Pelé foi meu bilhete premiado. Sem sombra de dúvidas, fui a advogada mais beneficiada com a lei.

Universidade do Futebol – Houve evolução nesse cenário? Os clubes estão atualmente mais preparados, organizados? Como se deu esse avanço?

Gislaine – Estão porque têm medo. Eu aposto com você que quando a Portuguesa sair desse buraco – espero sinceramente que ela não venha a ser leiloada, não quero ser culpada disso, mas pelo jeito vai ser inevitável -,  te garanto que ela nunca vai ter os desmandos que teve. Vai aprender muito, assim como outros aprenderam. Hoje eu já não tiro mais atleta do São Paulo, do Vasco ou do Flamengo em uma leva grande. Eles estão encontrando a lei naquilo que  podem fazer. Ainda dão algumas escorregadinhas, mas muito menos.

Universidade do Futebol – Em entrevista à Universidade do Futebol, em 2007, você destacou a relação humana que conseguia construir com seus clientes. Qual importância disso para o sucesso no relacionamento advogado-cliente?

Gislaine – Acho que a maioria dos advogados não faz isso em outras áreas, mas eu com os jogadores de futebol, até por ser casada com um ex-atleta, me acostumei muito a lidar com eles. Quando comecei a representar os jogadores, grandes nomes do futebol, os libertei para que fossem fazer suas fortunas e suas carreiras fora do Brasil e via a dificuldade que eles tinham. Os clubes ameaçavam de morte, coagiam dizendo que iam à FIFA, que não iriam deixar jogar, ligavam fazendo oferta de dinheiro para mim, para que eu desistisse do processo, mentisse para os jogadores.

Acabávamos nos tornando amigos, principalmente das famílias, antes e durante o processo, porque o atleta era muito inseguro. Eles estavam presos ali, e aí surge uma advogada que teve a coragem de enfrentar um Eurico Miranda, o Clube dos Treze, que formou um cartel com o intuito de não contratar jogadores que haviam sido meus clientes. Isso causou um desespero muito grande neles. Eu dizia que era mentira. Se houvesse o interesse eles seriam sim contratados, era como soltar um passarinho da gaiola. Então, essa relação minha com os jogadores se fez necessária, até porque eu tenho esse estilo de mãezona de falar “olha meu filho, vem aqui vamos fazer assim”, de dar bronca quando precisa. Eles se sentem seguros ao meu lado.

A maioria dos atletas hoje paga para que a Gislaine faça a audiência e não meus advogados do escritório, pela segurança que eu transmito, pela característica maternal. Tenho um lado muito humano. Não posso citar nomes, mas uma pessoa importante do nosso futebol aqui de São Paulo muitas vezes ligava para desabafar, perguntar o que eu achava, como devia ser. Eu dava umas broncas. Sempre procuro ter o lado mais humano com eles acho que é muito importante.

Universidade do Futebol- Quais são os serviços prestados por você e seu escritório atualmente?

Gislaine – Nós advogamos para os jogadores de futebol e para outros perfis de clientes. Temos, por exemplo, a expertise de trabalhar com casos de prisão por pensão alimentícia adquirida no atendimento a jogadores. Somos procurados por isso, mas também em várias outras áreas. Além disso, prestamos uma assessoria a atletas que têm problemas com seus agentes nessa relação promíscua estabelecida entre eles. Eu, particularmente, não gosto dessa figura do agente que fica ali todo mês pegando o salário do jogador; gosto do empresário que vai lá, faz a negociação, pega o que é dele e vai embora, esse sim. Acho que o jogador tem que cuidar da própria conta, do dinheiro dele, da vida dele, procuramos fazer isso. Ter um bom advogado acho que é o que basta. Não precisa ter um sanguessuga pendurado ali, todo o mês pegando dez por cento do bruto. Temos no escritório a expertise de fazer tudo isso, na parte pessoal, de cuidar da vida familiar.

Universidade do Futebol – A Liga é um projeto separado?

Gislaine – A Liga é um projeto paralelo. Infelizmente, a Liga não tem como pagar advogados, então meus advogados fazem tudo lá – nós só temos estagiários por enquanto. Os clubes não vieram me procurar por causa do meu escritório; eles vieram atrás de proteção. “A doutora Gislaine é um remédio amargo, é brava, então não vai deixar que ninguém mexa conosco”. Mas sou severa com eles também – fico em cima em relação a pagamento, registro em carteira. Apesar de a Liga ainda não ter sido reconhecida pela CBF, eu não estou nem aí para eles. Sigo a lei Pelé. A competição está totalmente amparada pela lei e temos todos os contratos de atletas registrados no nosso BID .

Universidade do Futebol – Como surgiu a ideia da criação dessa competição?

Gislaine – Alguns clubes do interior vieram me procurar há sete anos, perguntando sobre a possibilidade da criação de uma competição paralela. Disse que a lei Pelé permite que exista uma liga, mas achava que nem as federações, nem a CBF iriam aceitar. Era uma briga grande, e eu não tinha tempo para fazer isso naquele momento – não estava disposta a entrar nisso. Foram embora, acabou a conversa. No ano passado eles vieram me procurar em um número maior, o que me fez ir à federação [Federação Paulista de Futebol – FPF] sondar a possibilidade. Fui lá e conversei com o Reinaldo [Reinaldo Carneiro, Presidente da FPF], que ficou muito bravo: “Liga? Isso é fazer bagunça dentro do futebol. Esses clubes não tem condição, se tivessem condição estariam aqui”. Falou, falou e pensei: bom, agora já vi por que vou montar a Liga. vou aceitar esse desafio. Se os clubes quiserem vou ajudá-los a montar esse campeonato.

Fui ajudando a se organizarem, criar estatuto. Antes de ter a primeira assembleia, procurei a secretaria de esportes do estado, tive o apoio deles e comecei a fazer, junto com meu escritório, toda a parte legal da Liga. Na primeira assembleia fui eleita presidente da Liga, o que não era minha intenção, mas agora vejo que foi importante porque nós tivemos, e estamos tendo ainda, bastantes críticas. A FPF nos notificou dizendo que nós copiamos o nome do campeonato, o logo da federação, enfim, nós incomodamos, essa é a realidade.  Se não tivesse meu nome ali acho que a Liga não existiria, até por que ela funciona nas minhas dependências, com quase tudo que é meu, conta com a ajuda dos meus profissionais, acho que ela precisava dessa estrutura inicial. Espero que agora e no ano que vem, já no fim desse ano, ela caminhe sozinha, independente da estrutura da presidente.

Semana que vem [Conversa realizada no dia 25/09] estamos entrando com uma ação. Vamos pedir junto ao poder judiciário o reconhecimento forçado da CBF, pois ela tem que nos reconhecer, isso é lei. Como administradora nacional do desporto ela tem que nos reconhecer. Essa ação já está quase pronta, vamos entrar com ela e sei que seremos vitoriosos.

Universidade do Futebol – Por que é importante para a Liga que a CBF reconheça a competição?

Gislaine – Para os clubes terem segurança, porque querendo ou não eles sempre questionam isso, e porque a própria lei fala. Para que um clube tenha direito à indenização correspondente à sua formação ele tem requisitos a cumprir que a lei Pelé estabelece. Existe esse contrato de bolsa aprendizagem. A lei Pelé, que é uma lei especial, revoga uma lei ordinária. Então a lei Pelé é suprema – acima dela só temos a constituição federal, onde ela silenciar consulta-se a CLT e o código de processo civil. Na lei Pelé diz que para os clubes terem como válido este contrato de bolsa aprendizagem eles têm que ser reconhecidos e registrados na entidade de administração nacional do desporte, que é a CBF. Então, como eu vou dar garantia para meus clubes, para meus formadores de atletas com seus futuros direitos econômicos, se a CBF, como determina a lei, não reconhece a Liga?

E quando um atleta vier transferido do XV de Jaú [FPF] para o Corinthians de Prudente [Liga], como fazemos se a CBF não aceita meu BID? O jogador não vai poder jogar? Vai ter seu direito ao trabalho tolhido pela CBF? Ela quer estar acima da constituição federal? Por esse motivo, pela legislação remeter à CBF em alguns casos, eu preciso que ela reconheça a Liga. Inclusive, já ajudei na criação de ligas no Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro e Paraná. Vamos fazer em Belém. A gente manda estatuto, ata, modelo de assembleia, auxiliamos com toda a expertise adquirida varando madrugada para criar BID, que foi o mais difícil de tudo, orientamos como registra o nome… Enfim, as ligas estão se proliferando pelo Brasil.

Universidade do Futebol – Por que um clube paulista escolheria disputar a Liga e não a série B [Quarta divisão Paulista] ?

Gislaine – Primeiramente porque precisa pagar uma grande quantia de dinheiro para se filiar, se já estiver filiado ele não tem condições de pagar a arbitragem, não recebe nada. Só agora o senhor Reinaldo Carneiro criou uma competição e está chamando os clubes – inclusive os que disputam a Liga – para irem jogar com o pagamento da arbitragem. Na Liga demos bola, arbitragem, que nos custou mais de 800 mil reais. Aliás, estamos devendo para árbitros, pois até o momento tenho colocado do meu bolso, mas parei com isso porque a Liga tem que se manter. Estamos atrás de patrocinadores para poder bancar essa arbitragem, pagar os atrasados e finalizar a competição. Está sendo complicada a vida da Liga, mas os clubes preferem, até pela relação mais humana talvez que nós tenhamos. Veja, esses clubes que estão conosco foram colocados à margem pela federação, foram excluídos. Na Liga os tratamos de maneira respeitosa, decente, reconhecendo que são clubes, entidades e agremiações de prática desportiva que não têm dinheiro, que precisam se reestabelecer e só farão isso a partir do momento em que eles entrarem em campo, tiverem um campeonato, que é o caso da Liga. Esses clubes, Bebedouro, Jalesense, Corinthians de Prudente ficaram jogados de lado pela federação e viram na Liga uma oportunidade. O que eles nos dizem é que não querem saber de federação. A partir de segunda feira [A entrevista foi realizada no dia 25/09, domingo] estreia a TV Liga. Os jogos serão televisionados online.

Universidade do Futebol – Como ela vai se manter se, por ora, é deficitária?

Gislaine – A Liga vai se manter. A maior preocupação era ela passar de cinco jogos. Passou, agora vai. Quando esse campeonato terminar, em dezembro, teremos mais clubes filiados que não participaram neste ano. Então, são mais times que já estão vindo para nós, a Liga vai se manter. Sei que nós vamos conseguir mais patrocinadores. Estamos fechando essa semana [A entrevista foi realizada no dia 25/09, domingo] já com dois deles – um que já é bem conhecido no meio televisivo. Teremos mais patrocinadores, vai surgir o interesse por ela, tenho fé nisso. Se eu não acreditar não adianta nada, entendeu? Sei que nós vamos nos manter. A Liga por si só vai ser viável porque ela não é o meu negócio, é o negócio dos clubes e vai se manter, tenho clareza disso.

Universidade do Futebol – Com patrocinadores? 

Gislaine – Isso. Até porque a gente ainda não tem a televisão. Nós tivemos uma procura da televisão, mas que não foi concretizada. Não sei se houve aí um boicote – o que me disseram é que houve uma retaliação por parte de algumas pessoas ligadas ao futebol. Então, nós não temos uma televisão hoje, mas segunda feira agora [A entrevista foi realizada no dia 25/09, domingo] já começamos a ter as nossas aparições na web. Vou procurar trazer atletas de nome para dar uma entrevista, falar a respeito da Liga. Inclusive, a TV está sendo montada em uma das minhas propriedades também.  Vai ser saudável para a Liga, pois as pessoas vão ter mais contato, saber do que se trata. Teremos uma maior divulgação.

Universidade do Futebol – A Liga se apresenta como um modelo alternativo ao atual, com as federações praticamente monopolizando a organização do futebol, é possível afirmar que o seu surgimento representa uma nova quebra de paradigmas como aconteceu no início dos anos 2000?

Gislaine – Com certeza. A Liga foi fundada dentro da secretaria de esportes. O governo do estado cedeu um auditório para nós, fizemos nossa assembleia de fundação lá. Havia mais de cem pessoas. Quando cheguei ao escritório, após a cerimônia, minha secretária avisou que eu havia recebido uma ligação do Ministério dos Esportes. Retornei, quem tinha entrado em contato era o Rogério Haman, que na ocasião era o secretário nacional do futebol. Ele disse que ligava em nome do ministro para parabenizar pela iniciativa, pela criação da Liga, porque isso fatalmente no Brasil iria acontecer, com todos os Estados, assim como temos na Europa e Estados Unidos. “Acredito que a CBF ficará apenas com o selecionado brasileiro”, ele disse, e se colocou à disposição na ocasião mencionando “você tem o meu telefone pessoal para que os clubes inclusive entrem no Profut”.

Como um clube da Liga vai entrar no Profut se ele não está reconhecido pela CBF? Veja, mais um motivo pelo qual tenho que ter o reconhecimento dela. Aliás, é o contrário: ela tem que reconhecer se estou apoiada pela lei. Para entrar no Profut o que você precisa? Ser uma entidade de prática desportiva. Você só é uma entidade de prática desportiva se tem o futebol profissional e se tem a sua regulamentação dentro do que a lei Pelé determina, o que procurei fazer para a Liga. Os nossos contratos são todos como determina a lei Pelé: contrato de trabalho com rescisão, com cláusula, multa, atestado médico assinado, tudo direitinho. Os atletas têm a sua carteira de identificação, as carteiras profissionais dos atletas todas registradas – pelo menos é o que os clubes nos passam. Pedi para que o jurídico fique a par. Nosso tribunal de justiça segue as regras do código disciplinar brasileiro. Temos o nosso TJD montado, que inclusive funciona em uma propriedade nossa também. Estamos completamente embasados e seguindo todos os requisitos que a lei determina.

Universidade do Futebol – A legislação desportiva brasileira atual atende a todas as necessidades de desenvolvimento do futebol brasileiro? Faltam novas leis? Falta mais fiscalização? Ou os dois?

Gislaine – A lei Pelé era boa quando saiu. Hoje ela foi tão mutilada que precisa de mais ajustes. Tentaram regulamentar o direito de imagem, como se ele tivesse caráter cível se não remetido ao contrato de trabalho, o que é uma tremenda balela. Como você vai fazer um contrato de imagem com todos os jogadores? Contrato de imagem é personalíssimo. Não cabe para todos os atletas, tem que ser para alguns – aqueles que realmente têm a imagem utilizada pelos clubes. A atividade do agente é muito mal regulamentada dentro da lei Pelé, citando que o contrato dura por um ano, que ele não pode interferir. Então acho que a lei carece de vários ajustes, mas o lobby dos clubes é sempre muito forte e aí, quando a categoria vai se manifestar é uma minoria que não tem força.  Todas as vezes que a lei sofreu alteração foi a pedido dos clubes e com um lobby muito incisivo deles. A lei precisa ter a voz dos dois lados, mas no Brasil acho que isso vai ser muito difícil. Até por isso, acho que as ligas vêm muito a calhar nesse momento, onde o futebol sofreu com muitos escândalos. Tudo o que é novo assusta, mas tenho certeza que os clubes se sentirão mais seguros e confortáveis tendo mais voz ativa dentro da Liga. Inclusive vou dizer: depois que nós entrarmos com essa ação, as federações e a CBF vão buscar uma alteração na lei para que as ligas não existam no Brasil, mas aí já vai ser tarde.

Universidade do Futebol – O arcabouço jurídico que sustenta clubes de Futebol – muitos deles criados na primeira metade do século XX, como entidades sem fins lucrativos – pode ser mudado nos próximos anos? Veremos os clubes se transformando em empresa?

Gislaine – Só se houver obrigatoriedade. Na Liga, a maioria dos clubes são empresa. Para eu desconsiderar a personalidade jurídica de um clube, para entrar um dinheiro da conta do presidente, é uma luta. Fora esse leilão da Portuguesa, do estádio que eu penhorei, que o nosso escritório fez esse belíssimo trabalho de conseguir garantir o direito dos atletas através disso, o clube nos deve muito. Fora isso, nós desconsideramos a figura do presidente, do Ilídio Lico. Quando ele era presidente da Portuguesa, entramos na conta dele, penhoramos seu imóvel e a conta da empresa – o que não precisaria acontecer se fossem empresas e respondessem por suas atitudes como na Europa. Acredito que se houvesse uma obrigatoriedade dizendo “a partir de hoje os clubes devem se transformar em empresas, respondendo por seus atos criminalmente, civilmente, etc”, muitos presidentes que dizem que estão nos clubes por amor e que não recebem nada, o que é uma tremenda de uma mentirada, não estariam onde estão. A maioria deles fica para poder receber, sim. Ganhar em cima do clube, largar a sujeira deles lá e depois irem embora deixando o problema para o outro. Vão matando os clubes. Isso aí, sim, é a verdade, e não o dirigente que fala que largou empresa, largou a vida toda porque ama o clube, Isso é conversa, isso é mentira. Se a lei mudasse não ia existir isso.

O tradicional clube paulistano sofre com seguidas quedas de divisão e luta para continuar na ativa.
O tradicional clube paulistano sofre com seguidas quedas de divisão e luta para continuar na ativa.

Universidade do Futebol – É possível imaginar grandes clubes do futebol migrando para a disputa da Liga no futuro e uma liga nacional?

Gislaine – Já está registrada a liga nacional em nosso nome. A federação foi lá e tentou registrar, mas nós criamos a oposição do registro via marcas e patentes, pois a minha intenção, criando todas essas outras ligas, é que nós tenhamos nossa liga nacional, que tenhamos um presidente a altura dela e também para a Liga daqui. Meu período na Liga não é longo, não quero ficar como presidente. Não tenho estrutura para isso – nem emocional, nem idade. Já estou velha, cansei, preciso cuidar da minha família, da minha vida pessoal e a liga consome bastante tempo. Estou na Liga todos os dias, pois é no mesmo prédio onde fica meu escritório. Então sempre que posso fico lá para poder ajudar e orientar.

Como nossa competição é sub-23 alguns clubes grandes não utilizam esses atletas, nós fomos procurados por dois deles que de repente sumiram. Imagino o que deve ter acontecido, mas acredito sim que vai haver. A partir do momento que a Liga crescer, tenho planos internacionais para que a Liga tenha seu campeonato com nossos irmãos em outros países. Já estou em contato com pessoas da Argentina, Colômbia. Acredito que não vai ter espaço para dois – ou fica a Liga ou a federação. Não posso deixar de acreditar, estou lutando para isso. O legado que vou deixar para o próximo presidente é esse, assim como fiz com a lei Pelé.

Fico impressionada como eu não tinha medo na época. Hoje ando com segurança, carro blindado. Antigamente, até por não ter condição financeira para isso, não andava com nada, não tinha medo, a necessidade falava mais alto. Não imaginava o que é um dirigente e o que ele é capaz de fazer.

Tudo isso que eu fiz, modéstia à parte, dentro do futebol com a lei Pelé no Brasil, permite hoje que tenhamos vários profissionais, estudantes, advogados escrevendo seus livros, fazendo seus seminários, como o juiz que trabalhou no caso do Ronaldinho e falou para mim que enquanto eu estava libertando o Juninho Pernambucano “era um estudante que admirava seu trabalho”. Tudo isso se deve a esse desbravamento lá atrás . Se eu tivesse me acovardado, não teria libertado os atletas. Fui a primeira advogada a trabalhar com a lei Pelé, então eu quero fazer isso com a Liga. Fui a pioneira com a criação da Liga no Brasil. Quando criei a Liga, fui até a CBF, deixei lá o estatuto, a ata. Fui muito bem recebida lá e eles  nos elogiaram, disseram que ela estava muito bem constituída. Falaram que a Primeira Liga não foi lá se apresentar, não foi lá dizer “vocês podem me reconhecer?”, e a despeito disso a CBF diz para a FIFA que eu me criei à revelia deles. Mentira. Tenho meu protocolo dizendo que estive lá com o nosso pedido de reconhecimento, isso estou mostrando e juntando no processo. Concluo reiterando que em minha opinião não haverá espaço para dois.

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Futebol é “coisa de menina”: possibilidades para a educação física escolar

Nos nossos textos anteriores apresentamos algumas das dificuldades vivenciadas pelas mulheres em relação ao futebol tanto no esporte de alto rendimento quanto nas possibilidades relacionadas às práticas de lazer. Nessas discussões, consideramos os elementos culturais presentes em nossa sociedade e a historicidade destas práticas para compor o panorama do futebol feminino atual.

Baseadas na importância desses aspectos para a ampliação da participação das mulheres na modalidade, em nossa última coluna iremos envolver os espaços escolares como uma possibilidade de garantir estas transformações sociais.

Ao pensarmos no contexto escolar, podemos considerar ingenuamente que a prática do futebol é feita prioritariamente pelos meninos por uma questão de preferência – os meninos escolhem o futebol e as meninas outras atividades, como a corda ou o vôlei. Entretanto, uma análise um pouco mais profunda nos permite entender que não se trata de um gosto pessoal, mas sim de um quadro que tem contribuição cultural e histórica, e que a escola insiste em perpetuar, ao invés de tentar modificá-lo.

A educação física na escola deveria ter como função apresentar e discutir práticas corporais como a dança, a ginástica, a luta, o jogo e o esporte, levando em conta diversos aspectos associados à estas práticas. Assim, o futebol não deve ser apenas “jogado” na escola, sem uma mediação pedagógica, mas, sim, estudado em seu contexto social e a partir das diferenças de gênero estabelecidas entre seus praticantes.

O papel dos professores de educação física e dos demais educadores presentes no espaço escolar não deve ser só a promoção do futebol para as meninas, sugerindo uma falsa igualdade. A questão é que enquanto os meninos têm diversas oportunidades de praticar este esporte tanto na escola quanto em seus momentos de lazer, as meninas precisam de estímulos para que o futebol ganhe novos contornos e significados, dentro e fora do espaço escolar. Assim, é preciso dar um trato pedagógico às manifestações culturais relacionadas ao futebol, construindo novos saberes.

Este trato pedagógico é capaz de alterar essa relação “naturalizada” das meninas com o futebol, como evidenciado em uma pesquisa realizada em um colégio que oferecia aulas extracurriculares de futsal aos meninos e as meninas. Esta oferta originou um novo gosto em relação ao esporte, que foi considerado por mais de 70% delas como o esporte preferido de praticar, tanto na escola quanto em espaços destinados ao lazer.

Além disso, outros tempos escolares, como a entrada e o recreio, também poderiam ser aproveitados para diminuir as diferenças de gênero. Vemos que nesses espaços as atividades esportivas “espontâneas” são dominadas pelos meninos. Embora o professor de educação física possa “controlar” o uso da quadra em suas aulas, deixar que essas atividades aconteçam “naturalmente” serve apenas para perpetuar esse descompasso.

Concluímos nossa série de futebol feminino no Outubro Rosa da Universidade do Futebol apresentando o grande potencial da escola em transformar o panorama existente em relação ao futebol feminino no Brasil. É lá que nascem as possibilidades das meninas construírem novas relações de pertencimento e novos conhecimentos com relação à modalidade, seja na torcida, na análise, nas práticas de lazer ou profissionalmente.

Há uma tênue relação entre todos os aspectos que foram tratados nas colunas, seja no âmbito da seleção nacional, no âmbito das equipes de futebol feminino que insistem em se fazer existir no país, no bojo dos times que surgem a todo o momento nas praças e campinhos, seja nas escolas.

Em todos estes locais, basta um simples incentivo para que poucas interessadas se tornem uma grande equipe; basta um simples direcionamento para que pequenas ideias se tornem grandes projetos; basta um simples apoio para que pequenas crianças se tornem grandes atletas. O desejo das colunistas é que este nosso singelo incentivo às discussões sobre o futebol feminino, iniciadas no especial “Outubro Rosa”, sejam, quem sabe, um pequeno passo para grandes transformações no cenário do futebol feminino nacional.

** Esta coluna é dedicada às nossas alunas, que transformam escolas em espaços cotidianos de resistência.

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Futebol é "coisa de menina": possibilidades para a educação física escolar

Nos nossos textos anteriores apresentamos algumas das dificuldades vivenciadas pelas mulheres em relação ao futebol tanto no esporte de alto rendimento quanto nas possibilidades relacionadas às práticas de lazer. Nessas discussões, consideramos os elementos culturais presentes em nossa sociedade e a historicidade destas práticas para compor o panorama do futebol feminino atual.

Baseadas na importância desses aspectos para a ampliação da participação das mulheres na modalidade, em nossa última coluna iremos envolver os espaços escolares como uma possibilidade de garantir estas transformações sociais.

Ao pensarmos no contexto escolar, podemos considerar ingenuamente que a prática do futebol é feita prioritariamente pelos meninos por uma questão de preferência – os meninos escolhem o futebol e as meninas outras atividades, como a corda ou o vôlei. Entretanto, uma análise um pouco mais profunda nos permite entender que não se trata de um gosto pessoal, mas sim de um quadro que tem contribuição cultural e histórica, e que a escola insiste em perpetuar, ao invés de tentar modificá-lo.

A educação física na escola deveria ter como função apresentar e discutir práticas corporais como a dança, a ginástica, a luta, o jogo e o esporte, levando em conta diversos aspectos associados à estas práticas. Assim, o futebol não deve ser apenas “jogado” na escola, sem uma mediação pedagógica, mas, sim, estudado em seu contexto social e a partir das diferenças de gênero estabelecidas entre seus praticantes.

O papel dos professores de educação física e dos demais educadores presentes no espaço escolar não deve ser só a promoção do futebol para as meninas, sugerindo uma falsa igualdade. A questão é que enquanto os meninos têm diversas oportunidades de praticar este esporte tanto na escola quanto em seus momentos de lazer, as meninas precisam de estímulos para que o futebol ganhe novos contornos e significados, dentro e fora do espaço escolar. Assim, é preciso dar um trato pedagógico às manifestações culturais relacionadas ao futebol, construindo novos saberes.

Este trato pedagógico é capaz de alterar essa relação “naturalizada” das meninas com o futebol, como evidenciado em uma pesquisa realizada em um colégio que oferecia aulas extracurriculares de futsal aos meninos e as meninas. Esta oferta originou um novo gosto em relação ao esporte, que foi considerado por mais de 70% delas como o esporte preferido de praticar, tanto na escola quanto em espaços destinados ao lazer.

Além disso, outros tempos escolares, como a entrada e o recreio, também poderiam ser aproveitados para diminuir as diferenças de gênero. Vemos que nesses espaços as atividades esportivas “espontâneas” são dominadas pelos meninos. Embora o professor de educação física possa “controlar” o uso da quadra em suas aulas, deixar que essas atividades aconteçam “naturalmente” serve apenas para perpetuar esse descompasso.

Concluímos nossa série de futebol feminino no Outubro Rosa da Universidade do Futebol apresentando o grande potencial da escola em transformar o panorama existente em relação ao futebol feminino no Brasil. É lá que nascem as possibilidades das meninas construírem novas relações de pertencimento e novos conhecimentos com relação à modalidade, seja na torcida, na análise, nas práticas de lazer ou profissionalmente.

Há uma tênue relação entre todos os aspectos que foram tratados nas colunas, seja no âmbito da seleção nacional, no âmbito das equipes de futebol feminino que insistem em se fazer existir no país, no bojo dos times que surgem a todo o momento nas praças e campinhos, seja nas escolas.

Em todos estes locais, basta um simples incentivo para que poucas interessadas se tornem uma grande equipe; basta um simples direcionamento para que pequenas ideias se tornem grandes projetos; basta um simples apoio para que pequenas crianças se tornem grandes atletas. O desejo das colunistas é que este nosso singelo incentivo às discussões sobre o futebol feminino, iniciadas no especial “Outubro Rosa”, sejam, quem sabe, um pequeno passo para grandes transformações no cenário do futebol feminino nacional.

** Esta coluna é dedicada às nossas alunas, que transformam escolas em espaços cotidianos de resistência.

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Chega ao fim a Primeira Edição do Football Tour Experience

22.10.16 Delegate Anfield Tour 01

Foi um grande sucesso o Football Tour Experience, primeira visita oficial de uma delegação brasileira ao futebol da Inglaterra, encerrado no último domingo. O programa, organizado pela Universidade do Futebol, teve como missão conhecer os processos de governança, marketing, desenvolvimento de talentos e responsabilidade social de clubes ingleses.

Uma parceria com a English Premier League, o Tour levou um grupo de 26 profissionais a conhecer os escritórios da EPL e também clubes grandes e médios, seus centros de treinamento, categorias de base, estádios e fundações.

A Premier League e a Universidade do Futebol organizaram um programa eclético de palestras, workshops e encontros com profissionais dos clubes e da EPL.Foi uma oportunidade inédita para aprender como essa liga se tornou, não só a mais rica do planeta, mas uma referência global na indústria do futebol, levando a transmissão dos seus jogos e seus negócios para todos os continentes, criando um espiral de melhoria do nível do espetáculo e crescimento do negócio.

Um dos pontos altos da visita foi o contato com programas de responsabilidade social dos clubes. Com eles, as entidades não apenas devolvem para a comunidade um pouco do que arrecadam, como aumentam o engajamento, gerando mais receitas e mais ações sociais, num círculo vicioso.

Os Centros de desenvolvimento de talentos, as “Academies”, também foram destaques da viagem. A infraestrutura e planejamento dos centros de formação de atleta, demonstram o porque a Inglaterra desenvolve uma grande quantidade de talentos (até o sub 17 é uma potencia mundial) que até acabam ficando sem espaço devido as poucas vagas do futebol de elite.

O presidente do Bahia, Marcelo Sant’Anna, resumiu numa frase a importância do Tour:  “A busca pelo bem coletivo, a excelência e o esforço contínuo são princípios para a transformação do futebol brasileiro, respeitando traços culturais e mudando outros”.

Sem dúvida uma experiência imensurável que irá inspirar a todos na busca de uma evolução do futebol brasileiro. A Universidade do Futebol pretende que esta seja, apenas, a primeira iniciativa voltada a fortalecer o intercâmbio profissional entre o futebol brasileiro e o futebol internacional. A partir de 2017, esperamos ampliar relações internacionais com sua rede de parceiros pelo mundo e, com isso, ex-alunos e profissionais terão a oportunidade de conhecer e interagir com as principais instituições do futebol mundial em futuras delegações.

22.10.16 Delegate Anfield Tour 07

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Se o futebol é ciência?

Quando falamos de futebol, invariavelmente estamos, mesmo inconsciente, entrando em áreas estritamente técnicas. Considero, as dimensões predominantes no futebol (técnica, tática, físico e psicológica) áreas da Ciência. Áreas que requerem, ao meu ver, algum tipo de estudo (mesmo que seja raso). Se o futebol é ciência? Não sei, penso que até pode não ser. Como diria Garganta: “O futebol é demasiado arte para ser Ciência e demasiado Ciência para ser só arte”. Essa ambiguidade de valores forma o sentido fantástico do futebol. O aleatório. Aquilo que até podemos prever, porém, não podemos dizer quando irá acontecer. Por isso, digo que o futebol não é imprevisível e sim aleatório. E, necessitamos pensar assim, a fim de construir algo. Lembrando que a forma de jogar é construída, arquitetado em ideias para o individual e coletivo.

O jogo coletivo é considerado por diversos autores, de preponderância tática que consubstanciam a necessidade de resolução das situações de jogo, isto é, problemas táticos continuamente de variáveis que derivam do grande número de adversários e companheiros com objetivos opostos através do fator técnico coordenativo.

Isto significa que a resolução de qualquer situação de jogo consubstancia-se numa dupla dependência:

– da capacidade técnico-coordenativa do jogador: “se uma situação de jogo determinar uma mudança do ângulo de ataque que o jogador não pode realizar, é necessário que este escolha uma outra solução que não será na lógica das opções táticas mais eficazes, mas que exprimirá as possibilidades de resposta desse jogador nesse momento” (Grehaigne, 1992);

– da opção tático-estratégica tomada pelo jogador: “na qual procura surpreender os adversários executando uma resposta imprevisível dentro das opções lógicas da situação por forma que resulte na ruptura da organização da equipa adversaria” (Grehaigne, 1992).

A tática não significa somente uma organização em função do espaço de jogo e das funções específicas dos jogadores, esta pressupõe, em última análise, a existência de uma concepção única para o desenvolvimento do jogo ou, por outras palavras, o tema geral sobre o qual os jogadores concordam e que lhes permite estabelecer uma “linguagem comum”. Neste sentido, a tática impõe diferentes atitudes e comportamentos estruturados num conjunto de combinações, cujos mecanismos assumem um caráter de uma disposição universalmente válida, edificada sobre as particularidades do envolvimento (meio). Logo, “a inteligência do jogo deverá permitir um pensamento lógico, flexível, original e crítico garantindo a execução ótima das habilidades táticas e permitindo modificações autônomas da ação segundo as circunstâncias” (Garganta).

Na construção do hábito tático, o desenvolvimento das possibilidades de escolha do jogador depende do conhecimento que ele tem do jogo. A forma de atuação de um jogador está fortemente condicionada pelos seus ”modelos de jogo”, ou seja, pelo modo como ele concebe e percebe o jogo. São esses modelos que orientam as respectivas decisões, condicionando a organização da percepção, a compreensão das informações e a resposta motora.

O jogador não se move, nem age isolado, mas antes atua em contexto, em coletivo, em equipe. Estas ações coletivas representam a soma de todas as ações individuais que a compõem.

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A cultura da pressão

Pode ser um gol irregular, uma expulsão injusta, um cartão exagerado ou até uma falta discutível no meio do campo: no Brasil, não há decisão da arbitragem que não preceda um bolinho de jogadores exaltados, gritos de diferentes naturezas e reclamações efusivas de um (ou dos dois) treinadores. Sim, o nível dos juízes no futebol brasileiro é baixo e carece de uma discussão mais ampla. Contudo, também precisa ser repensada a cultura de pressão que se naturalizou em âmbito nacional. Admitir isso como um aspecto indissociável do jogo é realmente o melhor caminho?

Há uma série de fatores a serem abordados em uma discussão sobre o nível dos árbitros e auxiliares no futebol brasileiro. Há uma série de medidas a serem tomadas para reduzir a margem de erro e aumentar a fluência dos jogos. O uso da tecnologia é uma saída, por exemplo; uma preparação mais eficaz para os profissionais do segmento é outra.

A questão aqui, entretanto, não é apenas o nível da arbitragem ou a quantidade de erros no Campeonato Brasileiro. É necessário discutir a cultura da pressão: o tipo de abordagem que temos com árbitros e auxiliares é mais do que uma simples manifestação de discordância. Existe um processo de formação de vilões que é ótimo para construir narrativas com menos conteúdo – culpar o árbitro é fácil para quem precisa explicar um resultado e não sabe como. Há também uma estratégia de criação de ambientes hostis – aposta alicerçada na lógica de que esses fatores podem influenciar sobremaneira as decisões.

Quando o Fluminense anotou um gol em flagrante impedimento num clássico contra o Flamengo, por exemplo, jogadores das duas equipes cercaram árbitro e auxiliar. Pressionaram e vociferaram, contribuindo para uma dúvida que já havia se instalado entre juiz e assistente. Foram 13 minutos até que o lance fosse impugnado, com suspeita de que houve influência externa – o que é proibido por lei.

No dia seguinte, presidentes dos dois times cariocas concederam entrevistas coletivas para falar sobre o lance. E o presidente do Palmeiras, que disputa com o Flamengo o título nacional, também convocou a imprensa para condenar o que identificou como ajuda externa. Os três (vexatórios) discursos dos dirigentes foram cheios de frases de efeito, repletos de juízos de valor e pululados por denúncias vazias.

A estratégia do Palmeiras prosseguiu na partida posterior, contra o Figueirense. Desde o apito inicial, todas as decisões de árbitro e auxiliares motivaram ostensiva pressão dos jogadores da equipe alviverde, que venceu com um gol marcado em pênalti inexistente.

Substitua essa sequência de fatos por qualquer outra história no futebol brasileiro ou tente pensar no inverso: quantos dirigentes são cobrados internamente em seus clubes por não serem incisivos em reclamações ou por não exercerem pressão adequada sobre árbitros?

Agora tente comparar com o que acontece no exterior. No último fim de semana, o Barcelona foi extremamente favorecido em vitória sobre o Valencia. Depois da partida, jogadores e comissão técnica da equipe derrotada até falaram sobre isso, mas adotaram um tom totalmente diferente e não permitiram que isso afetasse o diagnóstico que fizeram sobre o duelo. É um exemplo pontual, mas é um exemplo que diz muito sobre a diferença de cultura.

O que essa comparação diz é que o futebol brasileiro admitiu passivamente a existência de um processo de “vilanização” de árbitros e auxiliares. É fácil escolher uma muleta assim, sem qualquer necessidade de explicação mais densa. O difícil é entender como a tolerância zero com o trabalho de uma categoria e a reação violenta aos erros dizem muito sobre nosso comportamento como sociedade.

Difícil entender que culpamos os árbitros como culpamos políticos, sem tentar entender processos ou individualizar condutas. E nos dois casos, essa lógica só serve para manter o status quo e diminuir espaço para discussões que tenham potencial real para alterar as coisas.

Precisamos olhar para o nível da arbitragem como um problema grande, abordado de forma sistêmica e desprovida de pré-conceitos. Precisamos pensar em medidas que podem contribuir para que o jogo evolua como um produto.

Entretanto, também precisamos pensar no que queremos para a comunicação do futebol brasileiro. Em ligas mais organizadas pelo planeta (não apenas no futebol) há uma combinação de fóruns adequados para reclamação e conscientização da comunidade. Existe um trabalho institucional para evitar que o nível técnico ou o que acontece dentro das quatro linhas sejam menos relevantes do que erros pontuais.

A ordem no Brasil é inversa, com enorme contribuição da mídia (o espaço dado a erros e lances discutíveis sobre arbitragem é simplesmente absurdo). Já passou da hora de os dirigentes nacionais entenderem que vendem o jogo e que precisam falar sobre o jogo. Mas será que isso interessa a alguém?

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Universidade do Futebol e TetraBrazil Soccer Academy fecham parceria para intercâmbio de treinadores nos Estados Unidos

A parceria entre a Universidade do Futebol e a TetraBrazil Soccer Academy, para esse final de ano, visa oferecer aos alunos e seguidores da Universidade do Futebol a oportunidade prática de trabalhar com futebol nos Estados Unidos, além de oferecer aos treinadores da TetraBrazil, acesso especial aos nossos cursos.

Para o ano de 2017, o curso de preparação de treinadores da TetraBrazil, passará por implementações e equiparações metodológicas com a Universidade do Futebol, atendendo as exigências do mercado para o ensino e aprendizagem do futebol por crianças e adolescentes nos EUA, buscando sempre o jeito brasileiro de jogar futebol (pedagogia de rua).

O “TetraPrep” é um curso que visa a formação de treinadores de futebol para o mercado americano com a oportunidade de crescer profissionalmente. Nos últimos quatro anos, 70% dos participantes foram aprovados.

Para a realização do “TetraPrep” é necessário um investimento inicial de R$1000,00 que inclui 70 horas de preparação (22horas online + 48 horas de imersão em Jan/2017); Acomodação no CEFAT durante os 6 dias de treinamento em Niterói; Material didático impresso e online e Certificado de Conclusão de curso.

Uma vez aprovado, o candidato ingressará no programa de trabalho TetraBrazil em 2017 com os seguintes benefícios: salário semanal, todas as despesas pagas (hospedagem, alimentação e carro) e taxas de Visto J1 nos Estados Unidos.

Sobre a Universidade do Futebol

Criada em 2003, a Universidade do Futebol é uma instituição que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol, enquanto atividade econômica e importante manifestação de nosso patrimônio cultural, nas dimensões socioeducativas e no alto rendimento, e que conquistou nos últimos anos o reconhecimento e credibilidade da comunidade do futebol.

Uma das propostas básicas é provocas reflexões e mudanças de paradigmas que superem a visão conservadora ainda presente no futebol acompanhado a evolução dos processos de aprendizagem e desenvolvimento tecnológico, além de oportunidade a aquisição de diferenciais competitivos e educacionais.

Sobre a TetraBrazil 

Fundada em 1999 nos Estados Unidos, a TetraBrazil Soccer Academy é a empresa líder no setor de Treinamento de Futebol Brasileiro. Em 2009, tornou-se parte da Challenger Sports, empresa líder mundial em clinicas/camps de Futebol. Em 2014, atingiu a marca de 10 mil alunos matriculados nos EUA.

A TetraBrazil está presente em 5 países, 3 continentes, e faz parte de um grupo que treina mais de 150 mil jogadores em todo o mundo. Ao longo dos últimos 15 anos consolidou-se como a maior escola de futebol brasileiro no mundo

Para saber mais, acesse: http://bit.ly/2dDCOCr

Para matricular-se no TetraPrep, acesse: http://www.tetrabrazil.com.br/tetraprep