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Sobre o modelo de jogo como um organismo vivo

Crédito imagem: Paul Hazlewood/Brighton&Hove Albion

Foi neste mesmo espaço, por algumas vezes, que conversamos sobre o quão importante pode ser olhar para as estruturas táticas de uma equipe (ou sistemas, ou qualquer outro nome) não como fundamentos rígidos e imóveis, mas como organismos abertos, fluidos – cuja existência acontece pelo movimento, e não apesar dele. Se você preferir, considere os sistemas como princípios – referências iniciais a partir das quais ocupamos o espaço, seja de forma individual, grupal ou coletiva. Desse modo, as estruturas não são exatamente um fim.   

As estruturas táticas de uma equipe não são exatamente um fim por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar, porque o papel das estruturas no acabamento de uma equipe (aqui, vamos entender acabamento como sinônimo de desempenho) é razoavelmente limitado, não porque o 4-3-3 ou o 4-4-2 não tenham valor, mas porque o seu valor não está neles mesmos, está na qualidade das relações que se faz dentro deles. Por isso, aliás, as estruturas também não podem ser vistas como fins porque servem, necessariamente, a um senhor anterior a elas – o modelo de jogo. É bem verdade que mesmo o modelo de jogo pode não ser exatamente um fim (porque o próprio modelo, por sua vez, serve a um senhor ainda maior, que é o próprio jogo), mas não deixa de ser importante considerá-lo como uma dimensão superior, a partir da qual vários de nós, se não todos e todas, pensamos nossas formas de jogar. O ponto é que, no caso do modelo de jogo, ainda que isso não seja dito de maneira explícita, parece que existe uma certa tendência para se pensar na contra-mão, quando o comparamos com aquela fluidez das estruturas, de que falávamos no começo: não são poucas as sugestões de que o modelo de jogo seria, na verdade, uma entidade meio etérea – portanto abstrata, reduzida ao campo das ideias – como também que o modelo de jogo seria uma entidade meio que rígida, fechada, inegociável e que, depois de definida, deve apenas ser o que é.

No primeiro caso, do modelo enquanto uma entidade etérea, me permitam fazer uma analogia: faz algum tempo que penso nas semelhanças desse nosso conceito de modelo de jogo, talvez não apenas no futebol mas também nas outras modalidades coletivas de invasão, com o conceito de areté dos gregos. A areté nada mais era do que um certo ideal de excelência, uma espécie de meta de perfeição moral a partir da qual se organizava a paideia, a educação do sujeito. Para citar dois exemplos rápidos, Homero e Hesíodo, poetas clássicos do entorno do século X a.C.: no primeiro caso, o ideal de excelência estava no belo e no bom (ou seja, numa junção de estética e ética); no segundo caso, o ideal era bem diferente, boa reputação e posses moderadas. Mas reparem numa característica, em especial, que é a que me faz lembrar da nossa noção de modelo de jogo: nos dois casos, ainda que nas entrelinhas, nunca se faz referência ao que se é. Pelo contrário, sendo um ideal, é uma referência ao que gostaríamos que fosse – logo, tanto a areté quanto o modelo de jogo seriam meio que bússolas a partir das quais norteamos as nossas ações.

Não deixa de ser uma comparação interessante porque o modelo de jogo também tem uma conotação pedagógica muito forte: seja de um ponto de vista agudo – porque de fato é preciso educar-se (literalmente ou não) para se jogar num certo modelo – ou de um ponto de vista crônico (pensando nos clubes cuja formação acontece a partir do modelo de jogo da equipe principal) o modelo de jogo não modela apenas um certo tipo de performance coletiva, mas modela o tipo de regras de ação que, como diz o próprio termo, rege as decisões de cada jogador dentro daquele sistema (aqui, diga-se, indico a entrevista do ótimo Gonzalo Villar, da Roma, publicada outro dia no El Pais). O ponto é que, assim como sabiam os gregos, a arte do jogo não se resume ao controle nem aos ideais deliberados, mas depende fortemente do que eles chamavam de tykhe – que os romanos chamariam de fortuna, e que nada mais é do que o acaso ao qual todos nós estamos submetidos. Coincidentemente, é um dos fundamentos de todos os bons estudos sobre o jogo, que geralmente aparece sob o nome de imprevisibilidade.

É por isso que proponho, desde o título, que o modelo de jogo seja pensado como um organismo vivo. Se os modelos, as aretés, ou qualquer outro ideal de excelência fossem apenas fechados, rígidos e imóveis, basicamente eles seriam uma negação do ambiente onde se criam – e, se fosse assim, seriam uma negação deles mesmos. Esse é outro motivo porque o modelo de jogo, como dizíamos ali em cima, não existe em si: ele depende não apenas da relação que faz com o ambiente, mas da nossa capacidade de interpretar, de dar sentido às respostas que o ambiente nos dá sobre o modelo que idealizamos. Se estivermos em sintonia com os movimentos do jogo (que acabam sendo, de alguma forma, os movimentos da vida que se vive), não há como não pensarmos no modelo de jogo como um organismo vivo, em constante mutação, sensível ao meio (seja esse ‘meio’ um certo tipo de interações em ou mais setores do campo, uma ou mais lesões ao longo da temporada, um determinado mecanismo de ataque, defesa ou transições que se mostra potencialmente interessante com o tempo, ainda que não o tivéssemos planejado e etc), e que portanto é constantemente adaptável, só pode existir, na sua plenitude, se estiver em aberto. Isso não significa, em hipótese alguma, que o modelo de jogo seja uma coisa anárquica que vai sendo amassada de um dia para o outro. Significa, na verdade, que o modelo sim ser negociável, especialmente nos seus pormenores, nos seus princípios micro, de acordo com as respostas que o ambiente (tykhe) nos dá. E isso, para além da razão, exige sensibilidade.

A mesma sensibilidade com a qual gostaria que vocês pensassem na seguinte provocação: será que o modelo de jogo de fato se resume ao ideal de excelência que procuramos ou será que o modelo, de um ponto de vista do jogo, pode ser menos o ideal que gostaríamos de alcançar e mais o real que nossas equipes já demonstram no treino e jogo? Será que o modelo, ao invés de ser o que gostaríamos que fosse, não é o que as nossas equipes já são, nas virtudes e nos vícios, independentemente das ideias de excelência?

Sobre isso, continuamos em breve.

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Praticando a visão sistêmica e o pensamento complexo no futebol

Crédito imagem – Rafael Vieira/AGIF/CBF

Tivemos a oportunidade de introduzir em textos anteriores – aqui e aqui – o tema da complexidade no futebol, buscando alguns referenciais para uma reflexão crítica que nos permitisse enxergar o futebol em uma perspectiva distinta daquela adotada pelo senso comum.  Nesta visão tradicional, calcada no paradigma cartesiano, linear, mecanicista, existe uma predisposição para que, ao se buscar aprofundar o conhecimento em torno de um determinado objeto ou fenômeno, divide-se o todo em partes, muitas vezes fragmentando-o e impedindo uma compreensão mais geral e contextualizada do todo, aqui entendido por meio de seus sistemas.  

Portanto, desenvolvemos algumas ideias procurando demonstrar que a compreensão da realidade (do futebol, da sociedade, da natureza, do mundo) pode ser ampliada e melhorada se adotarmos o paradigma da complexidade em nossa cosmovisão ou visão de mundo, onde o pensamento sistêmico e o pensamento complexo são referências indispensáveis a serem adotadas.

Dentro desta abordagem, temos que entender a realidade através de princípios que caracterizam o próprio sistema. Destacaremos aqui alguns deles:

  • O sistema possui vários elementos que interagem entre si, de forma dinâmica, penetrante e não-linear.
  • Esses elementos são abertos e atuam ou interatuam entre si, influenciando e sendo influenciados pelo seu entorno e ambiente.
  • Todo sistema vivo e não mecânico funciona de forma recursiva (circular), incerta e imprevisível.
  • Também funciona longe do equilíbrio estático, confrontando-se com forças contrárias o tempo todo.
  • Os sistemas orgânicos – e, por extensão, toda a realidade que envolve o ser humano, a sociedade e a natureza – são sempre permeados pela subjetividade e a intersubjetividade.

Todos sabemos que somos seres biopsicossociais que interagimos permanentemente entre nós mesmos, bem como com a sociedade e a natureza das quais somos parte integrante. Porém, pouco pensamos sobre o como estas interações se dão e o quanto somos capazes de influenciar e sermos influenciados pela nossa cultura e nossa história. Muitas vezes não nos damos conta sobre o fato de que somos ao mesmo tempo produtos e produtores de cultura e história. Ou seja, ao mesmo tempo que somos frutos de todo um contexto cultural e histórico, também nele podemos atuar dialeticamente modificando nosso próprio ambiente cultural e histórico. Todo ser humano vive e é capaz de se desenvolver dentro de todas as suas dimensões (materiais, biológicas, psíquicas, intelectuais, morais, espirituais etc.), procurando dar sentido às suas vidas e podendo, assim, se regenerar ou se degenerar a cada momento da existência. Aqui vale citar a frase do sociólogo e pensador Edgar Morin que afirma “o que não se regenera, se degenera”, como fonte inspiradora do nosso pensar e do nosso agir.   

Dito isso, podemos considerar alguns pressupostos que nos permitirão elaborar as nossas estratégias na direção de colocarmos em prática o nosso pensar sistêmico e complexo no universo do futebol.

PRESSUPOSTOS:

  1. Não se pode entender as partes de um sistema de forma descontextualizada do todo e nem entender o todo desconectado de suas partes constitutivas.
    Exemplo: A condição atlética de um jogador de futebol só faz sentido se analisada e percebida dentro do contexto de sua participação integral em uma partida. Também o jogo não pode ser visto dentro de toda a sua realidade e complexidade, sem considerarmos todos os elementos internos e externos que o constitui.
  2. Todo sistema é formado por um conjunto de elementos interagindo entre si, influenciando-se mutualmente e influenciando o sistema como um todo que, por sua vez, interfere em seus elementos fazendo emergir permanentemente novas situações, instáveis e imprevisíveis. Diante desta dinâmica é mais sensato pensar que os fenômenos, as coisas, as pessoas mais “estão” do que “são”. O movimento da vida é constante, intermitente e muda a cada instante.
    Exemplo: O pressuposto linear e mecanicista – ainda tão comum no futebol – que afirma que “em time que está ganhando não se mexe” não serve para este pressuposto sistêmico, pois como já destacamos, tudo muda a cada instante dentro de um sistema. Ainda dentro desta perspectiva não podemos afirmar que um jogador (ou um time) é bom ou ruim, mas sim que este jogador (ou time) está bem ou mal dentro de determinadas circunstâncias.
  3. A vida humana é permeada incessantemente por relações interpessoais e subjetivas (intersubjetividade) que precisam ser entendidas e acolhidas para que se possamos caminhar juntos, identificando-se os propósitos comuns entre as pessoas.
    Exemplo: A formação, participação e engajamento de uma equipe de futebol que busca a alta performance depende fundamentalmente de como os seus elementos se identificam e se comprometem com os objetivos comuns traçados. Para isso é essencial que as lideranças identifiquem as diferentes visões em torno dos seus propósitos comuns, potencializando-os.
  4. Na perspectiva sistêmica e complexa, todo conhecimento deve ser entendido como algo precário e provisório e que pode nos induzir a erros, ilusões ou até a alucinações. Por isso, o exercício em busca do conhecimento lúcido e amplo deve ser sempre acompanhado de cuidados, balizado por nossos limites ou limitações.
    Exemplo: Um especialista (treinador, preparador atlético, fisiologista, psicólogo, nutricionista etc.) pode ser facilmente induzido ao erro se não tiver uma noção – a mais clara possível – do todo, ou seja, de todos os fatores (além dos inerentes à sua especialidade) que podem interferir no desempenho dos atletas e da equipe de forma geral, incluindo-se aqui os macro e microssistemas que interferem no treino, no jogo e na vida de cada um e de todos.

A expectativa é que estes pressupostos e os exemplos apresentados, possam servir de inspiração ao contínuo exercício e desenvolvimento em busca de uma visão de mundo emergente capaz de abarcar os fenômenos do futebol e da vida, minimizando-se os eventuais erros que cometemos e fazendo-nos refletir com mais sabedoria sobre nossas ações individuais e coletivas.     

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A posse de bola é meio, e não fim no futebol

Crédito imagem – Site oficial Manchester City

O futebol é pautado por tendências e atualizações que vão se renovando e são cíclicas. Tudo muda, tudo evolui, apesar de a lógica e o objetivo do jogo serem os mesmos desde os primórdios. A atual geração tem em Pep Guardiola um treinador que mudou o curso das coisas. O Barcelona dele ditou o rumo de todos os estudos táticos e metodológicos dos últimos dez anos. E as aulas do treinador catalão não param. O Manchester City dele ainda é uma pós-graduação que a cada dia traz coisas novas. Porém, Guardiola apresentou uma maneira de se chegar ao êxito.Não a única. Nunca nenhuma equipe jogará exatamente como outra. Mesmo com as mesmas ideias, mesmos conceitos e mesma metodologia de treinamento. Isso porque quem executa e toma as decisões são os jogadores. E cada jogador tem suas particularidades e a sinergia entre onze atletas nunca será igual a nenhuma outra.

Não descarto ter inspirações. Mas no mundo peculiar do futebol, com tanta complexidade – não só essa de jogadores que citei – como também de ambiente, contexto e relações interpessoais entre departamentos tanto de clubes como de seleções, é contraproducente buscar princípios e subprincípios de jogo para seguir a ferro e fogo, custo o que custar. 

Se convencionou no Brasil que apenas é bonito e refinado jogar com a posse de bola. Há treinadores que buscam estar embalados por esse rótulo apenas para estar ‘na moda’. Mas se a posse for um fim e não um meio voltamos à estaca zero e não cumprimos a lógica do jogo, que já citamos que é imutável desde a criação do futebol. 

Ter uma ideia clara do jogo a ser desenvolvido é fundamental. Mas ela tem que ser flexível e adaptável. Caso contrário continuaremos a ver equipes buscarem o número de mais posse de bola na estatística final do jogo sem que isso as aproxime da vitória. A posse que vale é aquela no último terço, agressiva, que gere situação real de gol. O número final pode ser dez por cento no total, por exemplo. Mas o que dá três pontos na tabela é marcar mais gols que o adversário e não porcentagem maior de posse. Questão de foco, entendimento e até personalidade. 

*As opiniões de nossos parceiros não correspondem, necessariamente, à visão da Universidade do Futebol

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Raio X da gestão do marketing nos clubes de futebol – conclusões e recomendações

Chegamos à última parte da série sobre a gestão do marketing em clubes de futebol, onde foram apresentados os resultados da pesquisa de campo realizada na tese de doutorado intitulada “Gestão do Marketing Esportivo no futebol: proposta de modelo teórico/prático para clubes profissionais brasileiros”, finalizada em maio de 2020 na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.

Em 14 clubes que participaram da edição de 2018 da Série A1 do Campeonato Paulista foram analisados 35 itens sobre a gestão do Marketing por meio de entrevistas em profundidade com os responsáveis pela área. Dos itens analisados foi verificado que:

Foi constatada uma baixa utilização de itens ligados aos processos de execução e controle/avaliação, em muito devido aos limitados recursos e profissionais dedicados a área. A partir da análise dos clubes e da comparação com a literatura e com clubes europeus de referência no marketing os 14 clubes foram classificados em quatro níveis conforme a área de marketing:

Destaque para o fato de que dos cinco clubes classificados com um marketing bom dois disputavam divisões inferiores do Campeonato Brasileiro, de forma que o departamento de marketing era mais avançado que a parte esportiva. Já dos clubes com marketing classificado como fraco um participava de divisões elevadas do Brasileirão e outro possuía uma estrutura limitada apesar da elevada capacidade de investimento financeiro.

De uma forma geral, a pesquisa identificou que a profundidade e a qualidade da gestão do marketing nos clubes analisados não estavam relacionados à participação em competições nacionais superiores e à obtenção de resultados esportivos positivos. Os principais pontos que afetavam a gestão do marketing eram:

Diversos pontos negativos e positivos da gestão do marketing realizada pelos clubes foram identificados e analisados e deram subsídios para a elaboração de um modelo teórico/prático para a gestão do marketing nos clubes de futebol brasileiros adequado a realidade do país e adaptável a diferentes tipos de clubes. Fica evidente a necessidade de investimentos e aperfeiçoamentos para que o marketing seja devidamente gerido pelos clubes, independentemente do porte e da realidade, inclusive esportiva. Só com esses avanços é que o marketing poderá cumprir totalmente o seu papel de gerar receitas e atrair e fidelizar os torcedores/consumidores, garantindo a sustentabilidade dos clubes brasileiros.

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Sobre a ecologia da ação no futebol – e outras ideias

Crédito imagens: Redes Sociais Fiorentina

Na última semana, vocês vão se lembrar, falávamos aqui sobre uma certa transição no nosso pensamento sobre futebol: se houve um tempo em que o jogo era bem mais pertencente aos jogadores, por uma série de razões, hoje parece claro que o jogo pertence, na sua maioria, aos treinadores. Não por acaso, tomou-se como imperativo que o rendimento de uma equipe num campo de futebol é especialmente reflexo da qualidade de um certo sistema de ideias. Sobre isso, meus argumentos são dois: I) embora as ideias sejam importantes, elas ainda são secundárias dentro da cadeia de forças do jogo e II) a crença inquestionável nas ideias, ainda que sem querer, patrocina o sistema doentio de demissão de treinadores no futebol profissional – afinal, numa análise simplista, se uma equipe não tem performance, deve ser pela falta de ideias do treinador. Bom, vamos falar um pouquinho mais disso.

***

Numa entrevista dada à Folha de São Paulo, em 1994, o Edgar Morin – muito citado, nem sempre lido – foi perguntado sobre um conceito importante da sua obra, chamado ecologia da ação. Ele respondeu o seguinte:

“Desde que você começa uma ação, política por exemplo, ela vai escapar progressivamente ao seu controle para entrar num jogo de interação e retroação no meio em que ela se produz. (…) Ninguém pode determinar as consequências futuras da ação. Há um princípio de incerteza fundamental.“ 

Não há uma linha sequer da resposta que fale diretamente sobre futebol – mas para o bom entendedor, um pingo é letra. O escape progressivo ao nosso controle e a consequente entrada num jogo de interações e retroações é precisamente o que se passa no jogo de futebol, e podemos sentir isso num único exercício de uma única sessão de treino. De um ponto de vista do jogo – não apenas do jogo de futebol, mas do jogo (sobre o qual o professor Alcides Scaglia escreve tão bem), que antecede ao jogo de futebol – é imperativo considerarmos que um determinado sistema de ideias, que baseia uma série de comportamentos individuais e coletivos, é uma variável significativa, mas num sistema de inúmeras outras variáveis. Se de fato quisermos lançar mão de um pensamento complexo, em que tudo está tecido junto, num sistema de profundas interações e retroações, entre onze companheiros e onze adversários, sendo cada um dos vinte e dois sujeitos absolutamentes diferentes, então é preciso localizarmos bem as ideias – não porque não sejam importantes, é óbvio que são, pois porque há outras forças, para além das ideias, se afirmando e se negando continuamente no campo de jogo. Embora todos nós, como sujeitos humanos, tenhamos nossas ideias (por isso, aliás, não há quem seja ‘deserto de ideias’) é preciso considerarmos que o jogo, inclusive enquanto antecessor da cultura (Huizinga) também tem um sistema de ideias próprio, absolutamente alheio à razão humana. É bem verdade que sim, o jogo pode ser sensível às nossas respostas, mas isso não significa que a narrativa do jogo está exclusivamente sob nosso controle.     

Como a boa ciência e a boa filosofia dos séculos XIX e XX nos mostraram (Bachelard, Popper, Nietzsche…), o funcionamento das coisas pode não ser exatamente fruto de causalidades – como disse o Morin ali em cima, há um princípio de incerteza fundamental. Não é por acaso que tenta-se impor uma certa ordem humana à profunda incerteza do mundo – inclusive como reconhecimento sutil da nossa mais profunda fragilidade. E para saber disso, vejam bem, não é preciso termos lido ninguém: por que raios quando éramos crianças e jogávamos bola na rua, criávamos tantas jogadas ensaiadas, de tudo quanto é jeito, e nenhuma delas dava certo? Por que, quando mudávamos de casa ou de escola, e jogávamos pela primeira vez com um grupo novo, éramos capazes de jogar tão, mas tão bem futebol, como se conhecêssemos aquelas pessoas de vidas passadas? E por que depois, quando já conhecíamos de fato, quando estamos cheios de conhecimentos, em um time cheio de ideias, que atrai-fixa-liberta, que ocupa espaços entrelinhas ao mesmo tempo em que oferece amplitude máxima com os extremos no segundo terço do campo, que treina as mais impressionantes sequências ofensivas, com tudo quanto é tipo de apoio, mobilidade, ultrapassagem, segundo homem, terceiro homem, quarto homem, superioridades numéricas, posicionais, qualitativas etc etc – porque mesmo assim somos perfeitamente capazes de entrar em campo e não jogar absolutamente nada?  Porque o controle do jogo jogado não é apenas nosso – é do jogo. Quando defendo, como vários outros colegas, que o jogo seja visto como um microcosmo da vida que se vive, quero dizer exatamente isso: da mesma forma como a vida vivida não depende apenas da qualidade das nossas ideias – muito pelo contrário, há um mundo de forças agindo e retroagindo sobre nós, basta olharmos o nosso tamaninho sanitário -, o jogo jogado também não é reflexo exclusivo das ideias. Não por acaso, aliás, considere-se que a qualidade do jogo que se joga, individual e coletivamente, possa sim ter relação muito importante com o sentido que se dá à vida que se vive.

Mas não nos esqueçamos que mesmo o sistema de ideias é dependente de uma certa harmonia do sujeito. Sabendo disso, não me surpreende nem um pouco, embora me sensibilize bastante, a carta do Cesare Prandelli, que se demitiu da Fiorentina na última terça-feira. Embora ele não seja suficientemente claro sobre os problemas que enfrenta, deixa nas entrelinhas se tratar de algo emocional, razoavelmente profundo e eventualmente grave. Enquanto isso, a Fiorentina amargava apenas o décimo quarto lugar na Serie A italiana. De um ponto de vista simplista, não seria difícil atribuir uma suposta falta de ideias ao Prandelli – mas considerando o todo, será mesmo que uma análise dos comportamentos tático-técnicos da equipe, por mais minuciosa que fosse, daria conta da complexidade do problema? Não me parece.

Este é um terreno importante, que tangenciei na semana passada, que é o terreno da humanização do treino e do jogo de futebol. Vejam bem, o futebol não é um mundo à parte do mundo da vida, é parte inseparável da vida que se vive. E especialmente a partir do final do último século, foi se criando com ainda mais força essa noção de que nós, pessoas humanas em movimento, devemos ser sujeitos de performance: vejam, por exemplo, a facilidade com que se reproduz esse discurso da produtividade doentia – com seus rituais mirabolantes – assim como a facilidade com que naturalizamos, de alguma forma, a noção de que somos empresas de nós mesmos, cuja finalidade última é nos garimparmos cada vez mais.

Numa sociedade de performance, tudo aquilo que não é performático não será apenas questionado, mas será excluído – ou, numa linguagem moderna, convidado a se reciclar, como se recicla um resíduo qualquer. É precisamente aqui que se encontra a importância da humanização, não apenas porque as circunstâncias do mundo estão nos fazendo esquecer de como se trata gente como gente (e vocês sabem muito bem as coisas que se passam no futebol) mas também porque grande parte do jogo que joga e da vida que vive, como estávamos dizendo, estão para além do controle humano. Tendo em conta que um dos braços desse sistema é o individualismo, a partir de uma profunda convicção de que as vontades individuais são capazes de controlar as vontades do mundo, não surpreende que, diretamente ou não, façamos leituras tão individuais no futebol: se um dado jogador não rende, talvez seja porque não quer. Se uma dada equipe não rende, num futebol tão demasiadamente marcado pelas ideias (como faziam os cartesianos, diga-se), é porque elas eventualmente estão em falta.

Mas, lembrem-se, talvez não seja exatamente isso.

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A próxima vitória está no novo

Crédito imagem: César Greco/Palmeiras

Um dos clichês que mais ficou arraigado no nosso futebol é “em time que está ganhando não se mexe”. Nada mais simplista e não correspondente com a realidade, em se tratando de algo tão complexo e imprevisível como o jogo de futebol.

O conceito de desconforto é pouco explorado em muitas equipes de alto rendimento. Se em vários aspectos de nossa vida sabemos e até aplicamos de maneira intencional uma saída da ‘zona de conforto’ ainda há barreiras para essa ideia no esporte. Isso porque em casos de vitórias, seja de títulos ou até mesmo de alguns jogos, se cria internamente a ideia do ‘já está bom’. A ideia do ‘basta repetir que os mesmos resultados virão’. Ledo engano…

O ambiente e nossas interações com ele mudam a todo momento. No jogo, em que impera o caos, já que uma simples ação desencadeia uma serie de outras totalmente imprevisíveis, isso é ainda mais evidente. E se tudo é novo e nenhuma jogada é igual, já que há inúmeras relações possíveis entre o jogador, a bola, o adversário, o espaço e o tempo, como cravar que “em time que está ganhando não se mexe”?

Dentro de um viés de complexidade, não falo aqui de escalação. Falo de ideias, criar novas situações com e sem a bola, desenvolver diferentes relações entre os jogadores…até porque tudo o que é repetido se torna fácil de ser anulado pelo oponente.

Essa pode ser a chave para muitos times que não entendem porque as vitórias não estão mais vindo, já que nada mudou. Justamente porque nada mudou, as vitórias do passado não foram transportadas para o presente.

*As opiniões de nossos parceiros não correspondem, necessariamente, à visão da Universidade do Futebol

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Governança Corporativa – a controladoria

Créditos imagem: Kely Pereira – AGIF – CBF

Dando sequência ao tema Governança Corporativa no Futebol, neste 3º artigo iremos dissertar sobre a importância e o papel da área de controladoria nas organizações e os desafios a serem superados pelo respectivo profissional dentro dos clubes esportivos.

Cesar Grafietti defende que não há um modelo de gestão certo ou errado, independentemente do tipo e tamanho da organização. Concordamos com ele, mas indago sobre a atuação de um Controller ou gerente de controladoria em grandes instituições, especialmente naquelas em que o gestor trabalha após o horário comercial, o exercício de seu mandato possui curtíssimo período (três anos), mas o mandatário supracitado anseia por resultados esportivos paralelos ao exercício de seu poder, e, como observamos em algumas entidades de práticas esportivas, o orçamento e o potencial financeiro são ignorados ou inexistentes.

É de conhecimento comum que, de modo reduzido, o gerente de controladoria é responsável pelo planejamento, coordenação, direção e controle de atividades de curto, médio e longo prazo executadas nas áreas de planejamento, controladoria e finanças. Este profissional deve extrair e materializar informações pertinentes e legítimas, elaborando relatórios que auxiliem no processo decisório dos gestores de cada área, até mesmo dos diretores da organização. Os boletins informativos oriundos da gerência de controladoria devem conter elementos das atividades internas da corporação como do mercado no qual a instituição atue.

Gestores autocentrados são opinativos têm palpites excessivos, demitem técnicos, contratam inadequadamente atletas, desconsiderando as diretrizes orçamentárias. Tudo isso dificulta ou até mesmo anula a gerência de controladoria. Obviamente, não são demônios os gestores eleitos, muitos executam trabalhos primorosos, mas tantos outros colocam seu ego e sua vaidade além dos interesses do clube, comprometendo a governança.

O clube deve ser gerido para ser sustentável no longo prazo em um ambiente extremamente competitivo, e toda organização interessada na longevidade deve primar por boas práticas gestão e capacidade de execução dos planejamentos, o que invariavelmente exige como prerrogativa: avaliação, correção e compliance, convergindo aos valores organizacionais.

Imperativamente, sem esses passos a discussão sobre a implantação de uma área de controladoria será frívola. Não obstante, a existência de departamento de controladoria ainda não é pertencente à cultura organizacional (Figura 1 e 2) dos clubes de futebol. Em contraposição às demais organizações (Figura 3).

Figura 1: Organograma do Botafogo Futebol Clube (SP). Fonte: Bressan, Lucente e Louzada. Análise da estrutura organizacional de um clube de futebol do interior paulista: o estudo do Botafogo Futebol Clube, 2014.
Figura 2: Organograma de um Clube Europeu. Fonte: Bezerra, Feitosa e Gomes. Internacionalização de clubes de futebol: paralelo entre clubes europeus e brasileiros, 2017.

Figura 3: Posicionamento da Controladoria no Organograma Organizacional. Fonte: Lunkes, Schnorrenberger, Rosa e Alexandre. Funções da Controladoria: um estudo sobre a percepção dos gestores e do controller em uma empresa de tecnologia, 2015.

Lunkes, Gasparetto e Schnorrenberger apoiados na realidade organizacional alemã defenderam que a controladoria deve contribuir ao planejamento, sistema de informação, controle, gerência de pessoas e organizacional sem permitir a existência de lacunas com as funções primárias.

Concluindo, a controladoria favorece positivamente a administração ampla de qualquer organização, contribuindo à elevação da credibilidade, imagem positiva e alinhamento aos valores e propósito institucionais. Portanto, caracterizada como uma engrenagem necessária à governança.

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Tokenização em campo – Novos horizontes das transações no futebol

Diante de um cenário repleto de instabilidade e mudanças repentinas, o universo do futebol, cerne do entretenimento brasileiro (e mundial), se viu diante de uma crise com impactos significativos para a receita de diversos clubes esportivos em todo o mundo, abrindo as portas para novas oportunidades e modalidades no âmbito das transações financeiras.

Desde 2019, alguns clubes têm estudado novas possibilidades de rentabilizar as transmissões esportivas e, agora, diante da crise do coronavírus que se estende há mais de um ano, o mundo das criptomoedas e das transações de ativos digitais já se tornou realidade. Em janeiro, tivemos a primeira transação em criptomoedas envolvendo um jogador do futebol de elite – David Barral, do DUX Internacional de Madrid.

Em outros clubes europeus, as transações envolvendo ativos digitais ganhou destaque com a criação de um aplicativo chamado Fan Token. Sem promessas de retorno financeiro, o aplicativo comercializa ativos que permitem os torcedores a escolherem uniformes de equipe, músicas do estádio, acesso exclusivo ao banco de reservas e outros benefícios indiretos, que se tornam atrativos pela paixão da torcida. Alguns dos times que aderiram à nova modalidade de transações digitais foram Paris Saint-Germain, Juventus, Roma e Atlético de Madrid.

No Brasil, os ativos digitais já se tornaram uma realidade no Vasco da Gama, que lançou o Vasco Token. A partir dele, os sócios que investirem no ativo adquirem direitos de crédito do clube referentes ao mecanismo de solidariedade, que remunera os clubes pela formação dos atletas de base. Assim, cada vez que um jogador da base é transferido, o clube comprador paga o mecanismo de solidariedade e o valor é distribuído aos detentores dos tokens.

No cenário de crise, a proposta de venda dos tokens, que sustenta um sistema ganha-ganha entre clube e torcedores, serviu para angariar mais de R$ 10 milhões em ativos comercializados. Esse valor, que será destinado pelo Vasco para pagamento de salários, virá como retorno a médio-longo prazo para os torcedores que, sem poder comparecer aos estádios, podem ajudar o clube do coração neste momento complicado.

A ideia, que contou com o apoio de uma das gigantes do mercado de criptomoedas, pode ser aplicada por outros clubes, já que foi bem aceita pelos torcedores como investimento de grande potencial – as transações internacionais geralmente são feitas em euro ou em dólar, e o câmbio para a moeda brasileira garante um ganho significativo para os investidores

Apesar de haver um risco de não haver rentabilidade a partir do mecanismo de solidariedade – se, por exemplo, o atleta tiver seu contrato encerrado ou optar por seguir a carreira toda em um mesmo clube e não haja valores de transação para compensar o investimento, o universo do futebol oferece uma série de possibilidades para Tokenização: ingressos, mercadorias e, inclusive, transmissões esportivas, que já estão sendo rentabilizadas de outras formas.

Essas possibilidades são potencializadas através da tecnologia, que garante um avanço exponencial e maximizadas pelo contexto da pandemia ocasionada pela covid-19. Diante deste cenário, os clubes buscaram diversas formas de se rentabilizar, seja abrindo transmissões de seus treinamentos, viagens, bastidores, buscando alimentar os caixas dos clubes, afetados pela ausência do público nos estádios. Em paralelo a isso, um estudo da Binance Research, apontou um crescimento das criptomoedas de 2.300% em 2021 com valor investido na casa dos US$ 40 bilhões, o que torna este novo horizonte ainda mais atrativo para esse nicho.

O Vasco espera arrecadar de cerca de 50 milhões de reais, através da Exchange. Se virtualmente, blockchain e criptomoedas ainda geram muitas dificuldades de materialização, na vida real, 50 milhões de reais soam como algo bem palpável.

Aguardemos as cenas dos próximos [e exponenciais] capítulos.

Glossário:

CRIPTOMOEDA – é um meio de troca que utiliza da tecnologia de Blockchain e da criptografia para assegurar a validade das transações e a criação de novas unidades da moeda.

BITCOIN – É a mais famosa de todas as criptomoedas. Atualmente, um bitcoin vale cerca de R$ 320 mil reais.

TOKEN – Tokens são ativos digitais que representam uma parcela de um ativo real. Por exemplo, caso uma loja seja Tokenização, quem adquirir um token da loja irá obter lucro sob o lucro da loja.

BLOCKCHAIN – De forma resumida, blockchain é um sistema que registra e permite rastrear o envio e recebimento de informações pela internet, e é esse sistema que, assim como um livro de contabilidade não alterável, permite o controle das transações envolvendo criptomoedas.

MINERAÇÃO DE DADOS – É o ato de realizar cálculos matemáticos. Quando um computador realiza esse cálculo criptográfico ele recebe uma recompensa em bitcoins. Dizemos que ele está minerando e permitindo que surjam mais Bitcoins.

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Futebol e tecnologia: possibilidades e limites

Crédito imagem: CBF/Divulgação

O Catar está criando sistema de refrigeração com energia solar, para amenizar a temperatura nos estádios na próxima Copa do Mundo. Para tomar as decisões do VAR mais rápida e precisa a FIFA pensa em usar inteligência artificial com “árbitros robôs” para marcar impedimentos nos jogos. Árbitros de linha seriam substituídos. Nas mídias sociais, clubes deixam de ser apenas notícia e objeto de reportagem – passam a ser sujeitos produtores de conteúdo. As revoluções tecnológicas e informacionais criam novas redes de interação entre clubes, jogadores, torcedores, jornalistas, patrocinadores, e demais agentes do futebol.  

Nas práticas internas do clube, a coleta, análise e cruzamento de dados mudou o futebol como espetáculo esportivo. Os clubes criaram laboratórios e soluções de software para atender as necessidades de diferentes áreas. Valendo-se das ciências de dados, clubes constroem chaves de indicadores de performance (KPIs), entendendo realidades presentes e tentando prever cenários futuros.

Dentro do campo, softwares quantificam padrões de movimento e exigência física, monitoram a fadiga, ocupação de espaços no campo de jogo (mapa de calor), tomadas de decisões, padrões táticos e outros. Mecanismos de inteligência artificial, como algoritmos, ajudam analistas a avaliar a performance de equipes, identificar e prospectar indicadores de desempenho, e localizar jogadores, com base em perfis de jogo, ao redor do mundo. As novas tecnologias transformaram metodologias, conteúdos e recursos de treinos, e princípios táticos que norteiam ações individuais e coletivas do jogo. Estenderam um sistema informatizado, arbitro de vídeo (VAR) para auxiliar o arbitro dentro de campo, em lances polêmicos. A tecnologia não apenas assessora o jogo – ela muda o jogo.

Nessas condições, os softwares se tornam símbolo de possibilidade e de risco: por um lado, o uso de dados ajuda a profissionalizar práticas, trocando intuições por conhecimentos mais objetivos e verificáveis; por outro lado, a linguagem dos softwares e da tecnologia ameaça reduzir a imaginação e a percepção do jogo, como se fosse objeto de tipo técnico-científico, previsível e manipulável. O futebol mescla técnica e improviso, previsibilidade e surpresa, dados objetivos e emoções pessoais e coletivas. É um esporte complexo, permeado por cultura, psicologia, sociedade, política. A tecnologia deve compreender, e não reduzir, essa riqueza do futebol. 

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Sobre o controle do jogo jogado e o papel da intuição

Crédito imagem: Redes sociais/Marco Van Basten

Há poucos dias, o diário El País publicou uma entrevista bastante agradável com o holandês Marco van Basten, um dos grandes jogadores da sua geração e de todos os tempos, na qual ele comenta, com alguma nostalgia, sobre o futebol da sua época de jogador e particularmente da lesão que o levou à breve retirada dos gramados, ainda jovem. Na mesma entrevista, van Basten faz alguns comentários muito interessantes, embora não exatamente populares, sobre a sua visão do futebol que se pratica hoje em dia – mais especificamente sobre o papel da intuição nos jogadores de elite e sobre a real influência dos treinadores no desenvolvimento de atletas e na organização de equipes competitivas. Vamos conversar um pouco mais sobre isso.

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Aqueles que acompanham há mais tempo a produção do professor Alcides Scaglia, provavelmente já se depararam com uma observação, que já foi pauta de algumas das nossas conversas, na qual ele defende a importância de devolver o jogo ao jogador. Se levarmos em conta que pelo menos as duas últimas décadas trouxeram uma grande mudança na natureza do nosso entendimento sobre o futebol de elite – mudança talvez sintetizada numa transição mais consistente do centro do debate, dos talentos individuais para a organização coletiva -, não surpreende que hoje nos seja normal dar cada vez mais peso ao nosso ofício de treinadores e treinadoras. Deliberadamente ou não, fazemos isso de um modo que os jogadores passem, de fato, a serem vistos como secundários, dependentes das decisões dos treinadores. Sobre isso, van Basten disse uma coisa interessante, que cito em tradução livre:

“Hoje se uma equipe joga bem ou mal, atribuímos ao treinador. E realmente não sei qual é a influência do treinador. Pouco a pouco, temos esquecido do verdadeiro papel que têm os jogadores. O LIverpool é Klopp, o Madrid é Zidane, o City é Guardiola…”

No dia anterior à publicação deste texto, Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, deu uma excelente entrevista ao Seleção Sportv. Num determinado momento, disse algo como ‘vocês atribuem tudo ao treinador’ – fazendo evidentemente uma observação à imprensa, mas não apenas – o que não deixa de ser verdade, nós de fato nos acostumamos a atribuir tudo ao treinador, e não deixa de sê-lo, também, por um efeito colateral daquele deslocamento de que falávamos acima: se, por um lado, é muito importante pensarmos o coletivo, por outro é razoável não tropeçarmos na curvatura da vara, de um modo que a capacidade decisória dos jogadores seja completamente escanteada, enquanto as decisões de treinadores e treinadoras passem a carregar um peso (inclusive emocional) cujas repercussões são altamente prejudiciais. Apenas como exemplo, um discurso que transfere todo o peso da performance ao treinador talvez seja patrocinador oficial da cultura de demissões em massa no Brasil.

Curiosamente, o próprio van Basten faz uma referência parecida, quando diz tacitamente que não sentia prazer trabalhando como treinador porque tinha muitas dificuldades em ter o real controle das situações, da mesma forma como não sabia (e diz ainda não saber) qual a real influência de um treinador no rendimento de uma equipe. Não deixa de ser um momento oportuno para se falar disso, porque embora estejamos cada vez mais animados por uma suposta evolução do pensamento e da prática do futebol, tenho a sensação de que estamos nos deixando levar por um tipo de discurso que não é exatamente moderno. Vejam, por exemplo, como tornou-se comum dizer que uma determinada equipe, que por algum motivo não alcança um nível ótimo de performance, é um ‘deserto de ideias’. Aquela transição do individual para o coletivo, cuja repercussão é um sobrepeso da real influência de um treinador, chegou a um ponto em que passamos a realmente acreditar que a performance, seja ela aguda ou crônica, é um reflexo único e exclusivo da qualidade das ideias que a antecedem – logo, se uma equipe não joga bem, só pode ser pobre de ideias.

Não deixa de ser um contrassenso bastante significativo, especialmente num momento em que dizemos valorizar tanto o pensamento sistêmico – e, justamente por isso, nos dizemos defensores do jogo. Ora, a premissa básica do jogo (e isso está em autores basilares da área, como Johan Huizinga e Roger Caillois) é a imprevisibilidade. O jogo tem regras e tem um espaço previamente definido, o jogo é uma espécie de suspensão temporária da realidade (razão pela qual podemos falar num estado de jogo – inclusive como parte importante de um ambiente de jogo e de um ambiente de aprendizagem) mas, junto disso tudo, o jogo é imprevisível. Não bastasse isso, o jogo de futebol ainda se constitui num ambiente de violentíssima complexidade, não apenas pelo alto número de atores envolvidos (e portanto de interações), mas por ser um jogo coletivo de invasão do campo adversário, por ser jogado com os pés ao invés das mãos, por ter uma regra absolutamente genial, como o impedimento, que pode restringir conscientemente o espaço efetivo de jogo – e são todos fatores que deveriam nos levar ao seguinte ponto: embora um determinado conjunto de ideias seja, de fato, importante na articulação da identidade de uma equipe, a complexidade do jogo é tão demasiadamente grande que não apenas não me parece possível atribuir às ideias a responsabilidade por um certo nível de performance (seria uma inferência reducionista de causa/consequência), como também me parece uma certa armadilha cognitiva sobre o real controle que exercemos sobre o jogo jogado e sobre a vida que se vive. Imaginem vocês, por exemplo, o que significa dizer que um sujeito em situação de miséria extrema está onde está por falta de ideias – ou porque ‘não se esforçou o suficiente’. Não parece muito adequado.

Por isso, não deixa de ser importante considerar a fala do van Basten sobre não se sentir no controle – porque o controle é de fato mais uma sensação do que qualquer outra coisa. Aqueles de nós que trabalham com metodologias baseadas em jogos, sejam eles grandes ou pequenos, conceituais ou contextuais, sabem perfeitamente que o jogo, ainda que planejado, não é um experimento meticulosamente controlável. Pelo contrário, nós até podemos definir uma série de condições iniciais, que chamamos carinhosamente de regras, mas depois de submetidas ao jogo, as nossas expectativas se reduzem à uma espécie de aposta. Falei disso algumas vezes e mantenho: é muito provável que o jogo jogue conosco mais do que jogamos com ele, de um modo que o que nos cabe, como treinadores e treinadoras, não é tentar controlar o jogo, mas sim refinar a capacidade de resposta individual, grupal e coletiva aos problemas que ele nos apresenta. Pelo mesmo raciocínio, acho imperativo termos claro que o processo de treino, por mais cuidadoso e sistematizado que o seja (inclusive considerando os riscos da hipersistematização, como escrevi aqui), não deve ser visto como uma espécie de coleira que domestica o jogo – pensamento que, na minha modesta opinião, vai nos levar para o buraco -, mas como uma espécie de aposta, da mesma forma como fazemos diversas apostas (ora intuitivas, ora metódicas) na vida cotidiana. Nosso controle, sabemos bem, tem limites.

Não surpreende, aliás, que cause espanto quando se fala elogiosamente sobre a intuição, como fez o van Basten na entrevista: nós chegamos num ponto tal em que tudo aquilo que fuja de uma certa noção de racionalidade é imediatamente escanteado. Mas será mesmo que a tomada de decisão de um jogador ou mesmo de nós, treinadores e treinadoras à beira do campo, é fruto de extensas deliberações racionais, do chamado sistema descendente (Daniel Goleman), ou é fruto de um caminho mais curto, profundamente intuitivo, inclusive fruto de séculos e mais séculos de evolução antropológica? Em tempos de crenças muito grandes na razão, talvez seja preciso repensarmos o lugar da intuição: a questão é de que modo vamos interpretá-la nos nossos processos formativos. Superestimar a intuição (por exemplo, se a confundirmos com um dom divino – podemos falar disso num outro momento) já se mostrou um caminho inadequado, mas subestimar o papel da intuição na tomada de decisão, especialmente se considerarmos a importância da experiência no seu refinamento, também não me parece um caminho muito fértil para o futebol de hoje e de amanhã.

Seguimos em breve.