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A importância de uma curadoria de cultura institucional nos clubes de futebol

Crédito imagem: Vitor Silva/Botafogo

Não é de hoje que percebemos o desnivelamento técnico e estrutural entre o futebol brasileiro e o europeu. Algumas iniciativas possíveis e promissoras, como a Liga Brasileira de Clubes (Libra) e as Sociedades Anônimas do Futebol (SAF´s), nos mostram possibilidades interessantes para tornar este esporte um produto mais rentável e de melhor qualidade aos olhos do público local e global. Entretanto, o cenário colocado para estas iniciativas se consumarem ainda se encontra nebuloso: para a Libra, é necessário criar um consenso de grupo e, os clubes de maior torcida são resistentes em perder certos benefícios que possuem no atual modelo de cotas televisivas, por exemplo; e, em relação à SAF, grande parte dos clubes interessados em abandonar o modelo associativo estão com suas finanças comprometidas e com estruturas desportivas deficitárias, afastando a possibilidade de negociações vantajosas junto aos investidores.

Quando colocamos uma lupa sobre muitos clubes brasileiros, também é possível perceber uma característica oposta ao que se observa no mercado europeu e que compromete o desenvolvimento institucional: a grande rotatividade de profissionais nos mais diversos setores, tanto os ligados ao esporte em si, quanto à sua administração. Além da falta de continuidade nos projetos, essa característica impacta diretamente na reprodução da cultura interna da instituição.

A cultura organizacional é a representação do modus operandi e da imagem compartilhada por uma instituição e pode ser percebida tanto pelo seu público interno (colaboradores), quanto externo (clientes, fornecedores, imprensa, parceiros e a sociedade como um todo). Por exemplo, quando um colaborador é contratado, ele traz experiências de outros lugares que atuou e pode levar um tempo até que possa compreender, se adaptar e reproduzir a cultura da sua atual instituição. Já, quando ocorre uma demissão em massa em um setor, os novos colaboradores não terão uma referência de conduta clara e possivelmente criarão uma cultura paralela que pode se chocar com a cultura esperada.

Obviamente, qualquer cultura organizacional está sujeita a produzir aspectos positivos e negativos na forma como as pessoas se relacionam e desenvolvem as suas atividades. Por isso, é importante que a cultura seja a todo momento avaliada, para que os gestores possam perceber se ela está alinhada aos pressupostos presentes na missão, visão e valores da instituição.

Quando um novo presidente toma posse de um clube e a filosofia de trabalho é alterada, será necessário avaliar quais colaboradores se encaixam e quais terão dificuldades em atuar no novo cenário. Por outro lado, o clube que mantem a mesma lógica de trabalho perpassando por diferentes gestões, tende a ter uma cultura corporativa mais ajustada e marcante, gerando maior confiança e adaptabilidade dos novos colaboradores.

Para que a cultura corporativa seja um item de diferenciação positiva em um clube de futebol, diversas inciativas precisam ser adotadas, mas destacamos duas: 1) aumento do número de profissionais capacitados para atuar em todas as áreas do futebol, diminuindo a necessidade de substituição de talentos devido à oferta de propostas financeiras mais vantajosas de outros clubes; 2) o desenvolvimento de políticas de retenção e capacitação interna dos colaboradores, os quais tendem a criar maior vínculo e identidade com as cores e a história do clube em que atuam, servindo como guardiães de sua cultura organizacional.

Na verdade, muitos outros fatores e detalhes invisíveis compõem a cultura organizacional, tais como o acervo de valores, crenças, ética e atitudes que caracterizam uma instituição. Assim como a agulha de uma bússola é capaz de revelar uma direção, todas essas características auxiliam a direcionar as práticas de trabalho e a forma como as pessoas se relacionam, tanto interna quanto externamente à empresa.

Os clubes, principalmente àqueles cuja intenção é aderir à modalidade SAF, devem pensar na implantação de uma curadoria de cultura institucional, a fim de valorizar sua história e adaptá-la às prerrogativas impostas pelas mudanças constantes da tecnologia, da informação e das novas demandas do mercado. Do ponto de vista etimológico, curadoria significa o ato, processo ou efeito de curar, cuidar. A função desta curadoria nos clubes é subsidiar todos os seus setores na pesquisa, seleção e compartilhamento de informações que mantenham a espinha dorsal da instituição alinhada às suas tradições e aos seus objetivos. Sem esta estrutura, um investidor ao assumir o comando de um clube pode transformá-lo de tal forma que não será mais possível reconhecer sua tradição e características. Precisamos lembrar que o futebol e seus clubes não são feitos apenas de cifras financeiras, mas também, de traços culturais subjetivos que dão identidade à lugares e a milhares de pessoas.

As grandes empresas geralmente possuem manuais de conduta, os quais contém informações sobre a postura e atitudes esperadas dos seus colaboradores em diferentes situações cotidianas, envolvendo tanto o público interno quanto externo. Trata-se de um ótimo mecanismo de registro, porém, não servirá ao seu propósito se ficar armazenado dentro de gavetas ou se o colaborador contratado não possui o perfil esperado. Nesse sentido, de forma estratégica é possível selecionar e formar multiplicadores capazes de difundir entre os colegas a vivência de uma cultura institucional rica e pujante, capaz de integrar pessoas e equipes e estimular a criatividade e a ousadia responsável por tornar determinado clube único e admirável. Parafraseando o ditado romano antigo atribuído à Júlio César: “um clube de futebol não basta ser organizado, tem que parecer organizado”.

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A zona de conforto no futebol

Crédito imagem: Divulgação/Atlético MG

‘Mais difícil do que chegar ao topo é se manter nele’. Você já deve ter ouvido essa frase, que ao mesmo tempo que está batida se mostra extremamente verdadeira e contemporânea no futebol. 

A mobilização de um grupo de jogadores, de um staff técnico e até da parte diretiva de um clube é algo muito subliminar e que demanda inúmeros fatores para acontecer. Depois de um sucesso, então, se torna ainda mais refinado e de difícil obtenção. É da natureza humana entrar na zona de conforto depois de uma meta conquistada. A mesma meta, sendo no caso do futebol um mesmo campeonato, vencê-lo novamente, por exemplo, pode não motivar a todos. 

A maioria dos jogadores aqui no Brasil não aceitam as mesmas cobranças depois de um título. Os dirigentes acreditam que fazendo a mesma coisa que funcionou irão continuar sendo vencedores. Os próprios técnicos, em muitos casos, apostam no mesmo modelo e nas mesmas estratégias. E fazendo o que sempre foi feito não só é garantia de estagnação como o fracasso se torna uma natural consequência. Se você não está evoluindo, você está piorando!

Por isso defendo no Brasil a troca constante de uma parte do grupo de jogadores a cada temporada. Tanto após derrotas como após vitórias. Nossa cultura não permite ciclos muito longos. A simples troca de ambiente traz ao próprio jogador uma motivação diferente. São poucos aqueles que sustentam uma visão a médio prazo de refinamento do processo para continuar no topo. 

Repare que nos três clubes grandes da cidade de São Paulo em seus mais recentes ciclos vitoriosos isso aconteceu de maneira até natural. O São Paulo campeão mundial em 2005 era diferente do que concluiu o tricampeonato nacional em 2008. O Corinthians campeão brasileiro de 2017 passou por mudanças com relação ao time que conquistou o Mundial de 2012. O próprio Palmeiras atual foi se alterando paulatinamente desde o início dessas conquistas todas em 2015. A cultura vencedora por trás das vitórias é o que sustenta todo o processo. Por isso se faz necessária essa troca constante de personagens. Apego ao passado afasta, ao invés de aproximar, a conquista de novos troféus. 

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Rótulos no futebol: forma de jogar

Crédito Imagem: Kid Junior/SVM

Não há nem certo e nem errado no futebol. O objetivo do jogo é fazer mais gols do que o adversário. E a graça está nas inúmeras maneiras de se atingir isso. Convencionou-se, sobretudo no futebol brasileiro, de que o jogar bem e/ou bonito – coisas extremamente subjetivas e relativas – estão ligados intimamente a ter mais posse de bola do que o adversário. Aqui nem vou entrar na seara de pormenorizar a estatística fria da posse, relativizando em que parte do campo se encontra a maior porcentagem desse controle da bola. Porque o meu objetivo aqui é ponderar, por exemplo, de que é possível defender bem e de maneira elaborada fazendo da defesa a principal arma para cumprir a lógica do jogo e há, sim, muita beleza nisso. Nada de rótulos! Nada de pré-conceitos!

Até os termos proativo e reativo estão sendo usados para simplificar e até reduzir essa própria questão da posse de bola. Ser proativo no jogo de futebol não está necessariamente ligado a ficar mais tempo atacando. Uma equipe pode não ter a posse e mesmo assim ser extremamente proativa dominando o espaço de jogo e induzindo o adversário a atacar nas faixas do campo que lhe for mais conveniente.

Não podemos esquecer, também, a virtude que há em criar vantagens no jogo tirando o que cada jogador oferece de melhor. De nada adianta partir de uma ideia pré-concebida e desprezar a natureza de cada atleta. Até porque mesmo nos times mais endinheirados e também em seleções há algumas limitações e nunca haverá exatamente cem por cento de um grupo de mais de vinte jogadores programados para executar um suposto ideal de jogo do treinador em questão.

O caminho será sempre pensarmos em excelência e eficiência. Excelência em cumprir bem todas as fases do jogo. Eficiência para gastar a energia necessária (nem mais e nem menos) para resolver os problemas do jogo.  Ficarmos rotulando times ou de retranqueiros ou faceiros e coisas do gênero não enriquece a discussão. É mais ou menos como o famigerado “ganhou é bom, perdeu não serve”. A evolução do futebol brasileiro passa por avaliações mais criteriosas. Sem estereótipos. Sem falsas verdades absolutas.

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A força do treino no futebol

Crédito imagem: Leonardo Moreira/Fortaleza

Não quero repetir que contratar técnico estrangeiro não é garantia de sucesso. Se tivermos vinte treinadores de fora no Brasileirão, ainda assim, apenas um será campeão e quatro serão rebaixados. Já critiquei dirigentes que vão no modismo, tentando surfar na onda do sucesso de outros clubes, desprezando totalmente o contexto – não é porque deu certo trazer um técnico estrangeiro no time A que necessariamente o time B será vencedor usando do mesmo expediente.

Porém, observando atentamente declarações de jogadores e desses próprios técnicos, além de vídeos oficiais das atividades internas (o acesso da imprensa segue restrito por conta da pandemia), tem me chamado a atenção a valorização do treinamento por parte desses profissionais. É comum ouvirmos atletas falando que nunca aprenderam tantas coisas novas. Pronto! Aqui temos um diferencial!

A nossa cultura nunca valorizou o treino. Sempre aceitou-se por aqui treinar de qualquer jeito. Pular sessão de treino. Como se fosse algo normal. E não é! Não existe jogo de qualidade sem um treino de qualidade. Não é um estádio lotado que fará o jogador, por exemplo, ser intenso e agressivo nas ações com e sem a bola. Não adianta o treinador ficar a beira do campo berrando, cobrando isso. Tem que ser algo treinado! Tem que estar no inconsciente do atleta. Tem que ser comportamento! E sem uma metodologia muito clara e bem executada durante a semana nenhum princípio de jogo será transferido pro jogo de domingo.

Claro que há treinadores brasileiros que dominam conhecimentos avançadíssimos de treino. Mas falo aqui de uma cultura. Nossa “escola” de treinadores é super recente. Temos pouquíssima literatura nacional a respeito do tema. Afinal, no futebol “antigo” o bom treinador era aquele que não atrapalhava. Os nossos jogadores eram os melhores do mundo, então para que treinar?

O sucesso no futebol é constituído de inúmeras variáveis. O treino é uma delas. Se essa onda de profissionais estrangeiros servir para elevar o nível e a consciência a respeito do treinamento por aqui já terá sido de grande valia. Treinadores vão, mas a cultura fica. E pelo nível do nosso futebol hoje já deu pra perceber que as fórmulas do passado não funcionam no presente e muito menos funcionarão no futuro.

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Heróis e vilões no futebol

Crédito imagem: Valquir Aureliano/Portal Bem Paraná

Semana triste com casos de violência no futebol brasileiro. Absurdos que nem registrarei com pormenores para não dar ainda mais visibilidade aos agressores. O que quero, sim, é jogar luz em alguns elementos nocivos no enxergar o jogo de futebol que estão transformando os necessários apaixonados em alguns bandidos invasores, delinquentes que cometem atentado contra trabalhadores.

Claro que temos que colocar que o futebol está inserido na sociedade, que é um sistema maior. E quanto mais esse sistema for disfuncional mais seus elementos sofrerão. Já falamos que nossa sociedade tem suas violências e impunidades. Porém isso está se somando aos ingredientes impaciência e intolerância dos dias atuais, fazendo com a panela de pressão exploda mais rápido e mais forte! Hoje tudo tem que ser pra ontem. Ou no máximo para agora. Precisamos ter verdades absolutas em fração de segundos. A internet julga e cancela. Mesmo que em muitos casos não tenha solidez e embasamento para esses tais vereditos.  No futebol isso é transferido aos personagens. Técnicos, jogadores e até dirigentes são individualmente valorizados e ridicularizados na mesma proporção em função de alguns poucos resultados. Ignoramos contexto, processo e todo o ecossistema que sustenta, positiva e negativamente, o resultado. Ganhou é gênio. Perdeu não presta. 

Nada justifica a violência. Nada! E futebol não é um mundo à parte. O que é da esfera policial transcende as quatro linhas. Contudo nós do futebol podemos ter uma visão mais ampla, entendendo que dentro de um clube, por exemplo, é mais importante a criação sistêmica de uma cultura ou do sucesso ou do fracasso que permeia todo o processo. O impacto de um jogador e de um treinador é pequeno frente ao que o clube produz como um todo. Vou continuar propagando essas ideias, mesmo tendo muito pessimismo sobre a real assimilação disso da parte de quem pratica um atentado com bomba contra quem está exercendo um ofício…

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As redes sociais e a saúde emocional dos atletas

Crédito imagem: Reprodução/Instagram/José Mourinho

A “era da informação” é um termo utilizado para se referir a todo aparato de tecnologia digital responsável pela mediação das relações humanas e das interações entre máquinas, que são cada vez mais autônomas. O futebol recebeu grande influência dessa evolução tecnológica, tanto na questão técnica e preparação física de atletas quanto na mercadológica, passando a constituir um evento midiático de grande interesse econômico por parte dos seus agentes e patrocinadores.

A partir da década de 1980, um grande fluxo de atletas brasileiros passou a se dirigir à Europa, pois esse mercado era (e continua sendo) atrativo pela possibilidade de altos salários e pela qualidade de vida que oferece aos seus cidadãos. Quando isso acontecia, geralmente o atleta caia no esquecimento do torcedor local, salvo quando demonstrava um rendimento acima da média em seus clubes estrangeiros e acabava convocado para servir à Seleção Brasileira. Atualmente, porém, muitos atletas fazem questão de expor suas vidas privadas nas redes e, mesmo os mais discretos, podem ser expostos por veículos midiáticos especializados em “fofocas em troca de cliques”.

Além de toda a pressão emocional a que estão sujeitos para o alcance do alto rendimento esportivo, atletas também começam desde muito jovens a construir a necessidade de trabalhar a sua imagem pública por meio das redes sociais, buscando alcançar o maior número de seguidores possível. No geral, quanto mais populares, maiores as chances de obter ganhos com investimentos de marketing e patrocínio de marcas, o que pode, inclusive, facilitar a sua contratação pelos clubes. Mas, não é só isso: muitos atletas passaram a depender emocionalmente das redes e da aceitação social que seus seguidores lhes proporcionam. Essa realidade tem produzido nos últimos anos uma verdadeira epidemia de depressão e outros transtornos psíquicos e emocionais em um grande espectro de pessoas que utilizam a internet para a autopromoção, como youtubers, influencers, atores, cantores, atletas, entre outros.

Longe de querer encerrar o assunto e tirar conclusões precipitadas sobre esse cenário, é importante compreendermos que estamos diante de um fato econômico, social e cultural, com importantes desdobramentos na forma como vivemos em sociedade.  A vida moderna passa a ser estruturada em torno de objetivos provisórios, superficiais que são confundidos com os fins. O indivíduo vive pressionado, tenso, esperando algo que nunca parece chegar e, suas finalidades últimas se perdem no horizonte.

O dinheiro e uma noção ilógica de poder se colocam entre o homem e o que ele quer, como se fossem facilitadores, criando a ilusão de que tudo pode ser alcançado através deles. O consumo desenfreado estimula a ansiedade, reproduzindo a ilusão que aquilo que vai lhe dar trégua pode ser obtido facilmente na posse de uma determinada quantia ou posição social. As propagandas são exemplos que parecem ser bem apropriados: elas exploram o universo simbólico dos consumidores sempre de forma hiperbólica, pois talvez do contrário, sem este estímulo adicional, não obtivessem o resultado desejado. Nesse momento de concretização do que o escritor Guy Debord ainda no séc. XX chamou de “sociedade do espetáculo” e em que vários clubes adotam o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF), mais do que nunca, as relações de trabalho com os atletas serão mediadas a partir de índices e métricas de “investimento x lucratividade”. Por isso, os clubes formadores e a sociedade como um todo deverão estar muito atentos à educação emocional dos nossos jovens atletas, para que possam desenvolver uma base sólida capaz de equilibrar o rendimento esportivo e a satisfação perante a vida.

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Rótulos e modismos no futebol brasileiro

Crédito imagem: Divulgação/Al-Duhail

Dezembro de 2016. O Corinthians ainda sentia a ausência do técnico Tite, que alguns meses antes havia saído do clube para assumir a seleção brasileira. Sem treinador, o Corinthians não sabia muito bem que rumo tomar. Tentou alguns nomes, cada um com um perfil, ouviu alguns nãos, e de repente, muito de repente mesmo, sem qualquer tipo de convicção, com a temporada 2017 prestes a começar, pinçou o então auxiliar Fábio Carille. Uma solução barata, acessível e que faria os dirigentes ganharem tempo na busca por um nome de mais peso. 

Mas Carille tinha qualidade. Passou muito tempo aprendendo com Tite e Mano Menezes. A solidez defensiva que marcou a década vitoriosa do clube tinha o dedo de todos e Carille soube transportá-la ao seu trabalho autoral. Pelo tempo de casa, ele conhecia muito bem o clube, o ambiente interno e a torcida. E os resultados positivos passaram a acontecer. De quarta força a campeão Paulista e Brasileiro. 

Vendo o Corinthians vitorioso com essa “fórmula” os outros times passaram a copiá-la. Oras, se deu certo lá pode dar certo aqui, pensaram vários dirigentes pelo país. A moda então passou a ser apostar em técnicos jovens. Vindos da base ou auxiliares permanentes… só que pouca gente entendeu que o contexto vitorioso de Carille no Corinthians era extremamente único. Como todo contexto é: não dá para desprezar as relações internas e externas, a identidade, a história, as finanças, enfim, cada cenário é de uma forma e pede uma intervenção única. 

Como não se tratou de apenas uma temporada, em 2018 o campeão brasileiro foi o Palmeiras com o experiente Luis Felipe Scolari no comando. Adivinha qual foi a tendência? Exato, técnicos medalhões. Com vivência. Que conseguiam dominar o vestiário, coisa que os mais jovens não sabiam… veja que aí o exemplo de Carille em 2017 já não valia…

Nesta linha do tempo, está mais do que claro porque todo mundo quer em 2022 um técnico português… isso mesmo, porque as últimas três Libertadores foram vencidas por Abel Ferreira e Jorge Jesus. 

Enquanto não houver qualificação profissional, convicção, visão de médio e longo prazo e embasamento técnico em quem tem a caneta nas mãos, o futebol brasileiro seguirá refém de rótulos e modismos.

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O palmeirense pode não comemorar. Mas o futebol sulamericano sim!

Crédito imagem: Fabio Menotti/Palmeiras

Sei que é demais pedir para o palmeirense comemorar a atuação contra o Chelsea na final do Mundial de Clubes. E está ok o torcedor ficar triste pelo segundo lugar. Torcedor torce! É passional. Tem que ser assim mesmo! Mas o desempenho do Palmeiras foi gigante. Imponente. Brigou sim de igual para igual com o poderoso campeão da Champions. Excelente alento para todo o futebol sulamericano.

A diferença econômica existe, é um indicador importantíssimo, mas não pode nunca ser um confortável limitador. Maior poderio financeiro e mais recursos para investir claro que trarão melhores jogadores. O elenco do Chelsea vale vinte vezes mais do que o do Palmeiras. Porém, insisto, que mais qualidade individual de um lado não deve significar para o outro pobreza de ideias, fraco jogo coletivo e um espírito derrotista e resignado. E foi possível enxergar nitidamente no Palmeiras de Abel Ferreira um bom plano de jogo, um comprometimento absurdo dos jogadores com e sem a bola e uma crença inquebrantável de que a vitória era possível.

Não podemos comparar cenários por conta de um jogo. Sim, a Premier League é infinitamente melhor do que o Brasileirão. A Champions League dá um banho em absolutamente tudo na Libertadores. Dentro e fora de campo. Mas essa final do Mundial de Clubes mostrou que os times sulamericanos não precisam ser tão diferentes dos europeus. Mesmo com muito menos dinheiro. No futebol globalizado de hoje, arrecadar menos não pode significar conceitos defasados, intensidade rasa e mentalidade de baixa performance. Parabéns Palmeiras! Você mostrou que o futebol da América do Sul sobrevive e compete!

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Sylvinho e a cultura…

Crédito imagem: Rodrigo Coca/Agência Corinthians

A demissão do técnico Sylvinho no Corinthians escancarou problemas crônicos do nosso futebol. Claro que saídas de profissionais são legítimas e acontecem no mundo todo – muito mais no Brasil do que em outros lugares, mas tudo bem. E você, corintiano, pode estar neste momento enumerando erros de escalação, formação e substituições que Sylvinho cometeu nesses oito meses de trabalho… porém um olhar global para essa demissão mostra que estamos na contramão do que pede o sucesso.

Em primeiro lugar, o futebol brasileiro superdimensiona o papel do técnico. Quando ganha ele leva méritos que não são dele. E quando perde é crucificado e apontado como o grande vilão sem também merecer. O jogo é do jogador! Quem executa, quem toma decisão é o atleta! O treinador tem um papel fundamental, entretanto o protagonista é sempre aquele que entra em campo. 

E no caso do Corinthians o elenco é mal formado. Há excesso de jogadores que já passaram da idade de alta performance e também lacunas importantes, como a ausência de um centroavante e de um primeiro volante. Quando a atuação no mercado prioriza desejos de patrocinadores e não aspectos técnicos fica difícil criar um elenco homogêneo…

Reconheço que a comunicação de Sylvinho não foi das mais assertivas. No discurso e na linguagem não verbal faltou se adaptar ao “público-alvo”, que é o corintiano. Ele foi demitido por causa disso. E isso é muito grave! Foi avaliada a embalagem e não o conteúdo! A partir do momento que o personagem Sylvinho caiu em desgraça o campo passou a não importar. Nada que ele fizesse iria agradar a opinião pública. Nenhuma fala de jogador atestando a qualidade do trabalho convenceria o torcedor e por consequência o dirigente. 

A gestão não profissional gera isso. A arquibancada deve ser ouvida, mas não pode ser determinante na condução do processo. Nunca que três jogos de início de temporada podem culminar na saída de um treinador. Agrade o torcedor e jogue a pré-temporada no lixo! Qualidade do jogo nesse contexto incoerente? Esquece…

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Palmeiras e o investimento na base

Crédito imagem: Reprodução/Palmeiras

O sucesso nunca é fundamentado em um único elemento. É a junção de algumas variáveis que compõe um sistema vencedor. No futebol isso é colocado à prova toda hora, pois trata-se de um jogo que é aleatório, imprevisível e caótico. Pode-se fazer tudo certo e mesmo assim o resultado positivo não aparecer. Sobretudo no curto prazo. A tendência natural, porém, é que no médio e longo prazo boas convicções, trabalho duro e foco no processo tragam vitórias convincentes.

O Palmeiras atual é um exemplo disso. Dentro desta reconstrução, o objetivo nunca foi ganhar a Libertadores novamente. Nas categorias de base, a meta não era ganhar a Copa São Paulo. No mercado, o foco não está em contratar os jogadores mais famosos e badalados do mundo. O olhar esteve, sim, sempre em criar uma cultura vencedora. Um sistema de processos e ações que paulatinamente aproximasse o clube do sucesso.

Meta de ser campeão todo time tem. A diferença está no modelo planejado e executado para chegar lá!

Sabe porque o Palmeiras nunca tinha vencido a Copinha? Porque nunca havia sido criada uma metodologia de trabalho na formação e o departamento de base nunca tinha recebido a atenção e os investimentos necessários. Para ir além da conquista de um campeonato, basta ver a quantidade de jogadores que o clube revela hoje e a quantidade que revelou em toda a história…

Ter um plano, acreditar nele, possuir humildade e sabedoria para em tempo real mensurar resultados e ir aparando arestas, mas sem sair da rota, não é para todo mundo. Todos querem ganhar não só no futebol, mas também na vida. Entretanto, poucos conseguem criar com paciência e persistência um meio consistente para atingir os fins. Tenha metas muito claras. Mas trabalhe arduamente para ser integrante ativo de um contexto que o aproxime de fato do sucesso.