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Enfim, a negociação de Neymar

O início de uma nova era! Esta foi a expressão utilizada pelo zagueiro e capitão da equipe do Santos, Edu Dracena, durante uma entrevista, para se referir à confirmação da negociação de Neymar, até então seu companheiro de clube, ao Barcelona-ESP.

Apesar de todos os esforços do clube santista para mantê-lo pelo menos até ao final da Copa de 2014, o fato é que a pressão externa realizada sobre o craque adiantou a esperada (e inevitável) transferência para a Europa.

Tal transferência é a oportunidade de ratificação das expectativas criadas em torno do atacante. Torcedores, imprensa, treinadores e especialistas esperam uma evolução do jogador que deverá solucionar problemas distintos dos que enfrentava no futebol brasileiro.

Com maior ou menor aprofundamento, muitos afirmam que a marcação na Europa é diferente da praticada no Brasil. Se por aqui, ele estava acostumado a enfrentar marcações e pressões individuais, no Velho Continente encontrará linhas do adversário mais próximas, marcações zonais com ou sem pressing, coberturas e direcionamentos para setores de menor risco. Mecanismos defensivos comuns no futebol europeu que exigirão maior inteligência de jogo individual e coletiva de Neymar.

E não é só no momento ofensivo do jogo (para desorganizar o momento defensivo do adversário) que a evolução será necessária. A participação efetiva em todos os momentos do jogo, exigida de todos os jogadores, comum ao Barcelona e a todas as equipes taticamente evoluídas, seguramente lhe será exigida.

Nas transições defensivas, o Barcelona rapidamente apressa o adversário em espaço e tempo, enquanto no Brasil, o Neymar comumente perde segundos preciosos reclamando com a arbitragem. Quando reage mais rapidamente, faz uma ou duas pressões no adversário portador da bola sem um maior compromisso coletivo.

Defensivamente, para cumprir o modelo de jogo da equipe catalã, o jovem atacante deverá jogar orientado para a recuperação da posse de bola o mais rápido possível.

Para isso, comportamentos de jogo habituais como estar à frente da linha da bola e andar enquanto compõe o balanço ofensivo deverão ser substituídos.

Já nas transições ofensivas, a evolução passa, principalmente, por jogar com menos toques na bola no setor tiki-taka da equipe espanhola e também saber ocupar espaço distante da bola, cumprindo a função determinada pelo modelo e pelas circunstâncias do jogo.

Tal evolução é necessária para evitar o excesso de jogadas individuais nas faixas intermediárias do campo de jogo e a demasiada centralização à bola.

A capacidade do jogador é indiscutível e sua adaptação ao futebol europeu seria mais rápida se ele saísse do país com mais competências, que lhe serão exigidas, já adquiridas. No entanto, no Brasil, tanto na formação, como no profissional, ainda estamos distantes de termos o futebol evoluído como realidade.

E como disse Edu Dracena, inicia-se uma nova era! Não para o Neymar, um grande talento que vai para uma das maiores equipes do futebol mundial, mas para o Santos, que segundo o zagueiro, estava acostumado a dar a bola ao atacante e esperar para ver o que acontecia.

Sem o Neymar, vamos precisar mais de Muricy, que trouxe os reforços que queria para a temporada 2013 e ainda assim continuou praticando o que muitos chamaram de "Neymardependência".

O treinador santista, pelas suas conquistas, pelo peso que possui no futebol nacional e pelo seu cargo é um dos responsáveis por acelerar (ou desacelarar) o processo de evolução do nosso futebol.

De acordo com a declaração de Edu Dracena e os próximos jogos da equipe santista, agora sem o craque, vamos torcer para que a nova era não comece nos decepcionando.

Obs: Muricy Ramalho foi demitido no início da sexta-feira e optei por não alterar o conteúdo da coluna. Que os votos feitos ao Muricy sejam estendidos ao novo treinador da equipe santista.

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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Neymar e o dilema do Santos

Na semana que passou, a transferência de Neymar para o Barcelona dominou os noticiários esportivos. Imprensa e torcedores promoveram acalorados debates. Diante de tudo que foi dito torna-se imprenscindível algumas ponderações.

Necessario destacar que o Neymar não foi vendido, eis que o "passe" foi extinto. Na verdade, o atleta teve o seu contrato especial de trabalho rescindido.

Assim, não houve pagamento pelo atleta, mas, sim da cláusula indenizatória pela rescisão antecipada do contrato de trabalho.

Ao Santos e aos investidores, foi importante considerar a transferência neste momento, pois, a legislação da Fifa traz norma na qual a partir dos últimos 6 (seis) meses de vigência do vínculo contratual, o atleta se encontra disponível para discutir um pré-contrato com qualquer outro clube que tenha interesse em adquirir os seus direitos desportivos, sem que este clube interessado necessite recompensar, obrigatoriamente, o empregador, no qual está o jogador com o contrato de trabalho desportivo a expirar, vejamos o artigo 18, parágrafo 3º, do Regulamento do Status e da Transferência de Jogadores da Fifa, de 18 de dezembro de 2004:

– Artigo 18 Disposições especiais relativas a contratos entre atletas profissionais e clubes (…)

3. Um clube que pretende estabelecer um contrato com um atleta profissional deve informar ao clube atual do jogador, por escrito, antes de abrir negociações com ele. Um atleta profissional só poderia ficar livre para estabelecer um contrato com outro clube, se o contrato com o seu clube atual tivesse terminado ou estivesse por terminar dentro de seis meses. Qualquer violação a esta disposição deve estar sujeita a sanções apropriadas.[1]

Depreende-se facilmente do que está previsto na referida norma da Fifa que se o contrato laboral desportivo ainda estiver com período superior a 6 (seis) meses para ser executado, clube algum poderá abordar um atleta para contratá-lo sem antes consultar o seu empregador, sob pena de responder pelas sanções previstas civil e/ou criminalmente, em virtude do cometimento de aliciamento desportivo.

Tal consulta será devidamente formalizada por escrito.
Contrariamente, ocorrerá se estiver nos últimos 6 (seis) meses para terminar o contrato, caso em que o clube adquirente poderá abordar o atleta de forma direta.

Sendo assim, firmado o pré-contrato e após o cumprimento dos últimos 6 (seis) meses, o jogador encontra-se livre para se transferir para o seu novo clube, sem que compensação alguma seja devida ao clube anterior.

Todavia, caso o clube adquirente, futuro destino do atleta, queira contar com os seus serviços antes do término dos 6 (seis) meses finais, deve pagar a multa indenizatória estabelecida para estes casos, em face de o contrato firmado com o clube cedente ainda estar em vigor.

Sendo assim, considerando que o contrato do Neymar terminaria no meio de 2014, ou o Santos aceitava o pagamento da rescisão ou correria o risco de, no final do ano (seis meses antes), o atleta sair do clube sem nenhum tipo de compensação.

Portanto, diante das normativas Fifa para transferências de atletas, o Santos atuou da maneira mais recomendável a fim de se evitar prejuízos financeiros ao clube e aos seus investidores.

 

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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Tomada de decisões (fora das quatro linhas) na carreira esportiva

Na semana em que um dos assuntos mais comentados no mundo esportivo está sendo a transferência do Neymar para o Barcelona, um tema importante na carreira esportiva merece ser debatido: as decisões do atleta fora do campo.

Dentro de campo, o atleta toma diversas decisões durante uma partida, que são acontecimentos de forma antecipativa (teoria da ação) com a participação de processos cognitivos, de representações mentais, do conhecimento, da memória.

Mas, na coluna desta semana quero abordar justamente o processo de decisão que acontece fora das quatro linhas, ou seja, durante a carreira do atleta. Atualmente, os atletas são estimulados pelo ambiente a olhar mais para fora do que para dentro deles mesmos, o que dificulta o processo de autoconhecimento.

É necessário parar e refletir de tempos em tempos e esta melhor hora de parar e olhar é sempre o agora, seja o momento que for. Medos, dúvidas e inseguranças colocam pressão e os atletas precisam para continuar a jornada da sua carreira.

É importante para os atletas conhecer as fases de uma carreira e os impactos de uma decisão infundada. Me parece que em alguns momentos os atletas tomam decisões talvez equivocadas, não atendendo suas reais expectativas pessoais e profissionais, muitas vezes gerando consequências que causam desânimo e reduzem sensivelmente o desempenho do atleta.

Desta forma, realizar um movimento preventivo na vida profissional do atleta pode evitar as graves doenças relacionadas ao trabalho, como também facilitar a percepção do melhor momento para tomar as decisões de carreira e realizar as mudanças que se fizerem necessária; permite ainda resgatar a capacidade de pensar sobre a realidade e tomar a consciência do que diz respeito aos seus interesses internos e ao que pertence aos desejos do mundo que o cerca; facilita também o reconhecimento de seus próprios limites e ajuda a definir o grau de tolerância às interferências externas.

Mas, como promover reflexões adequadas e eficientes em momentos de decisão extra campo?

No processo de coaching, um coach capacitado e experiente utiliza com o atleta como cliente ferramentas que apoiem na tomada de decisão e nesta coluna compartilho com vocês uma delas: a análise do campo de força, um modelo baseado no trabalho de Kurt Lewin’s – "Teoria dos Campos".

A análise do campo de força descreve o campo de forças ou pressões agindo em um evento particular num determinado momento. Essencialmente, a teoria sugere que forças que agem para mudar uma situação são balanceadas com forças que agem para resistir a mudança.

E na prática, como funciona?

O Coach avalia junto ao coache (atleta, como cliente) quais são as forças que impulsionam e as forças contrárias em relação a uma determinada situação, cenário ou objetivo. Ou seja:

• Define-se a situação atual da carreira do atleta;

• Define-se o objetivo do atleta (resultado desejado);

• Identifica-se todas as possíveis forças impulsionadoras;

• Identifica-se toas as possíveis forças contrárias;

• Realiza-se uma análise das forças concentrando-se em:

o Redução das forças contrárias a resistência;
o Fortalecimento ou adição de forças impulsionadoras e favoráveis ao processo.

Tendo em mãos estas reflexões o atleta tem maiores condições de perceber se o cenário avaliado é o que mais de adere aos seus objetivos de carreira e aos seus desejos pessoais. Sendo este cenário o escolhido pelo atleta, deve-se elaborar um plano de ação para atender os itens que fortaleçam e impulsionem a realização do cenário escolhido.

Aos atletas em momento de decisão, procurem um coach e aumentem as chances de sucesso na sua tomada de decisão fora do campo. Além de apoiar no processo decisório o trabalho de um coach é fundamental na elaboração de metas, planejamento estratégico da carreira, bem como no aumento da performance esportiva.

E voltando ao assunto Neymar, será que ele também tem um coach?

Faça coaching e potencialize sua carreira esportiva!

 

Para interagir com o autor: gustavo.davila@universidadedofutebol.com.br

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O scout técnico e a análise de uma equipe de futebol: os números da campanha do Vasco no Brasileiro 2011

O Vasco da Gama, apesar de ser vice-campeão brasileiro de 2011, foi apontado por muitos especialistas e jornalistas como o melhor time do campeonato, mesmo já tendo a vaga assegurada para a Taça Libertadores da América em 2012 por ter vencido a Copa do Brasil.

Este estudo teve como objetivo fazer uma análise tática completa dos números apresentados pelo time e jogadores, utilizando a ferramenta do scout técnico para fazer o levantamento dos dados.

A coleta dos dados foi feita durante o Campeonato Brasileiro de 2011, que aconteceu de maio a dezembro, enquanto a análise dos mesmos foi realizada no mês de janeiro de 2012. Foram analisados os seguintes itens:

1) Parte Tática: esquemas utilizados, com possibilidades e variações dos mesmos;

2) Parte Técnica: posse de bola média; finalizações; participações do goleiro; assistências; roubadas de bola; faltas; passes; impedimentos e cartões;

3) Parte Tática – Gols Marcados e Sofridos: turno que aconteceram; tempo que ocorreram; local; tipo; lado; bola parada e característica;

4) Parte Tática – Posições: jogadores utilizados pelo Vasco da Gama durante o Campeonato Brasileiro 2011 e seus números individuais.

A análise destes números permitiu concluir que a variação tática imposta pelos treinadores Ricardo Gomes e Cristóvão Borges, além dos bons números individuais de seus jogadores titulares e reservas ajudaram na boa campanha do Vasco da Gama durante o Campeonato Brasileiro de 2011.

Confira o artigo completo aqui

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O futebol não é só uma atividade física. É de facto uma atividade humana

Como presidente do Real Madrid, Florentino Pérez já despediu do seu clube vários treinadores: o Vicente del Bosque, o Carlos Queirós, o Camacho, o Garcia Remón, o Wanderley Luxemburgo e o Pellegrini. Desta feita, foi o José Mourinho, para mim, o melhor treinador do mundo, que foi despedido também. Foram estas as palavras de Florentino, segundo a Marca, de 21 de Maio de 2013: “Mou me dijo que era mejor irse y yo lo comparto, es lo adecuado”. Mas acrescentou: “Con él (Mourinho), hemos dado un importante salto deportivo y competitivo y le deseamos suerte en su nueva etapa”.

Em entrevista à televisão portuguesa, o Special One afirmou: “Considero esta minha temporada, de 2012/2013, no Real Madrid, a mais infeliz de todas as que já levo como treinador de futebol”.

Ora, precisamente nesta temporada, de 2012/2013, o Real Madrid venceu a Supertaça, classificou-se em segundo lugar na Liga e na Copa do Rei e chegou às meias-finais da Liga dos Campeões. Para José Mourinho, tudo isto é muito pouco e vai procurar fazer melhor, noutro clube e noutro país. Embora todos os seus erros, todas as suas imperfeições (ele é um ser humano, nada mais do que isso), torna-se evidente que ele exige muito de si mesmo e, por isso, quer voltar a fazer melhor, ciente de que é mesmo capaz de mais êxitos, iguais aos que ele tem, no seu currículo. Ele faz suas as palavras de Florentino Pérez: “La temporada no es suficiente para el nível de exigencia de Mou e del Madrid”.

Quais os motivos do fracasso, se o treinador, os jogadores e os métodos eram precisamente os mesmos da época anterior, em que o Madrid foi o campeão de Espanha? Porque o futebol alemão é, hoje, o melhor da Europa (para mim, a Alemanha é o país favorito à vitória, no Mundial do Brasil) e porque a liderança de José Mourinho entrou de ser contestada, no seio da equipa madridista, pois que, nela, há jogadores mais importantes do que o treinador, qualquer que ele seja. Iker Casillas e Sérgio Ramos são campeões da Europa e do Mundo, afirmam-se madridistas convictos, Vicente del Bosque considera-os indiscutíveis na seleção de Espanha – se os resultados desportivos não ajudam, o Iker e o Sérgio passam a ter mais importância, entre os aficionados, do Real que o treinador e os seus métodos de treino.

No futebol, quem não ganha, não sabe: é assim que pensa o senso comum. “A Verdade é o Todo” o Hegel o disse; o Mourinho já foi campeão em Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha e já venceu uma Taça da Europa e duas Ligas dos Campeões – mas isso pouco interessa a quem precisa das vitórias do seu clube, para superar as frustrações do dia-a-dia.

O Real Madrid foi proclamado, com pompa e circunstância, o maior clube mundial do século XX. Muitos madridistas de fracos recursos económico-financeiros, vítimas da crise que assola a Europa do Sul, precisam, a cada instante, de um “Madrid” forte, invencível, dominador, para esquecerem as dificuldades, que parecem insuperáveis, da vida económico-política.

Sim, é verdade que há madridistas da “alta sociedade” que, ao nível do futebol, pensam como uma pessoa de mais baixa condição. Mas também têm frustrações, como qualquer ser humano! E o futebol também, para eles, é remédio. Para uns e para outros, a sabedoria é o melhor dos remédios – a sabedoria que “é o esforço por concordar as próprias exigências emocionais e morais, com a ordem profunda do Universo”. E, no Universo, nem sempre se ganha, nem sempre se perde e alguns até perdem menos do que os outros (como o José Mourinho). Ganhar sempre, é impossível – até para o ex-treinador do Real Madrid, José Mourinho!

Em Portugal, são também muitas as frustrações, entre os benfiquistas. Nos três últimos jogos, perderam o campeonato e, como habitualmente, o F.C.Porto voltou a ser campeão! Em Portugal, o futebol define-se deste modo: é um desporto em que jogam onze contra onze e, no fim, o F.C.Porto ganha! Por quê? Porque o líder nunca é o treinador, é o presidente do clube, Jorge Nuno Pinto da Costa que, de há trinta anos até hoje, estabeleceu normas que permitiram grandes vitórias e sólida unidade e por isso foram aceites e são vividas, intelectual e emocionalmente, por todos, treinadores e jogadores, como sinal certo de altos desempenhos.

Quando recebeu o prémio Príncipe de Asturias, o neurologista português, António Damásio, afirmou ao El País, de 21 de Outubro de 2005: “La toma de decisiones correctas exige tres elementos: emoción, conocimiento y razón, que deben manejarse en equilibrio”. Para um clube vitorioso, não basta a competência do treinador – o clube tem que ser competente, todo ele, desde o presidente ao mais humilde funcionário. E assim nasce e se perpetua uma cultura de vitória. Como a que distingue o F.C.Porto.

Poderia até dizer que o F.C.Porto é uma equipa emocionalmente inteligente. E não só fisicamente…


*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal.

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

 

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O que Neymar nos ensinou?

Neymar nos ensinou que é possível fazer diferente!!! Não exatamente o Neymar Jr., atleta, com seu talento e trabalho, que vem se prestando a jogar futebol e a desenvolver muito bem sua imagem em diferentes plataformas de comunicação, como produto efetivo de marketing.

Mas sim como fator relevante de mercado. Desde o início dos anos 2000 que ouço de especialistas e leio em bibliografia especializada, conteúdo que mostra a importância do ídolo para o esporte, potencializando negócios diretos e indiretos para as marcas que se associam a ele e para a equipe que o tem em seu elenco de jogadores.

Por força do amadorismo e das fraquezas da nossa economia, acompanhamos uma enxurrada de ações malsucedidas de venda precoce destes talentos.

É por tal razão que Neymar e Santos, com um pouco de inteligência e compreensão holística da indústria do esporte, provaram que é possível fazer diferente. Tem-se, nesta nova ordem, uma comprovação explícita de que as teorias da gestão e do marketing esportivo estavam alinhadas com a realidade.

Cabe, por fim, colocar dois pontos importantes: o primeiro para rechaçar alguns argumentos que fizeram aquilo que chamamos de "conta de padaria" ao afirmar que o "Santos perdeu dinheiro com a venda do Neymar apenas em 2013", pois poderia ter feito anteriormente e teria, por conseguinte, recebido mais pela comercialização de seus direitos federativos – nestes casos, não faz-se a conta do montante exato aferido pelo clube pela exposição de sua marca, tampouco dos produtos licenciados, do valor de patrocínio ou da atração de novos torcedores que a equipe capitaneou ao longo do tempo; o segundo que, apesar do case, ainda temos muito a evoluir na entrega do espetáculo esportivo, que necessita ainda de mais e mais ídolos para que se potencialize todas as oportunidades de negócios – lembrando que, Neymar, apesar de tudo que conquistou e repercutiu, tem apenas 21 anos de idade!!!

 

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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O sapo na panela

Robert Kaiser, secretário de redação do jornal norte-americano "Washington Post", viajou ao Japão em 1992. Na volta, produziu um relatório endereçado à cúpula do periódico e alicerçou a argumentação em uma analogia.

Segundo ele, o veículo era como um sapo em uma panela com água. Incapaz de perceber alterações sutis na temperatura ambiente, o animal ficaria inerte até diante da fervura.

A metáfora de Kaiser abre a conclusão de um estudo do Tow Center for Digital Journalism, núcleo da Columbia Journalism School. O material foi publicado no Brasil pela edição do bimestre maio / junho da revista de jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), e eu já havia citado o material na semana passada.

Naquela época, Kaiser comparou o "Washington Post" ao sapo na panela porque viu no modelo de negócio do periódico uma discrepância muito grande com o mundo proposto pelos produtos eletrônicos tão disseminados na cultura asiática. O relatório de 2.700 palavras que ele elaborou propõe duas medidas ao veículo norte-americano: a criação de um jornal eletrônico e o desenvolvimento de um produto eletrônico de classificados.

Mais de 20 anos após a analogia de Kaiser, contudo, a mídia mundial ainda é como o sapo. A diferença agora é o que faz a água ferver. A tecnologia e os produtos eletrônicos já foram assimilados ao cotidiano do segmento, mas o advento de novas mídias provocou uma revolução que as empresas e os profissionais ainda não compreenderam totalmente.

O site "Buzzfeed" publicou em maio deste ano um artigo que corrobora essa ideia. O texto parte de um fato: em 2012, todas as séries de televisão dos Estados Unidos perderam audiência. O curioso é que o índice de pessoas que viram esses produtos na TV caiu, mas o número de seguidores não.

Se as pessoas não deixaram de ver as séries, como todas perderam audiência? Uma das explicações para isso é que os espectadores migraram para plataformas que oferecem o conteúdo on demand, no horário mais adequado à rotina deles e sem interrupções para comerciais.

O artigo sustenta que as novas gerações vão consolidar uma sociedade com ideias e conceitos diferentes. E assim como o casamento gay será uma adição natural ao dia a dia, o atual formato de comerciais e publicidades não será sequer considerado.

Sim, isso tem total relação com a penúria enfrentada por emissoras de rádio e TV no Brasil. Não é por acaso que canais nacionais ainda precisam alugar horários para fechar a conta. As gerações mais novas simplesmente não admitem a ideia do comercial tradicional.

Em maio deste ano, o grupo Publicis fez uma pesquisa com dois mil estudantes de marketing. Para 70% deles, o segmento vai ser dominado no futuro por "criação de conteúdo" e "estratégias de relações públicas".

O levantamento é interessante também para ratificar uma série de ideias sobre o futuro. Por exemplo: quase 90% acham que os executivos de marketing deveriam estar mais preocupados com as mídias digitais, mas 80% preveem a morte das agências que trabalham exclusivamente com esse tipo de plataforma de comunicação.

É claro que os jovens estudantes de marketing não são necessariamente a melhor fonte de previsões sobre o futuro da indústria, mas a análise deles tem muito fundamento. As mídias sociais precisam deixar de ser elementos externos no plano de comunicação.

Aliás, os planos de comunicação precisam deixar de ter elementos externos. Como em outras searas, a comunicação precisa vencer o pensamento multidisciplinar e avançar à interdisciplinaridade.

Nos últimos dias, o esporte deu dois grandes exemplos do quanto o mundo está mudando e do quanto as mudanças são drásticas. O primeiro foi dado por Neymar, principal ícone do futebol brasileiro nos últimos anos. O camisa 11 do Santos usou a rede social Twitter para anunciar no sábado que vai trocar o time alvinegro pelo Barcelona.

Há alguns anos, o anúncio de Neymar jamais teria sido feito no Twitter. Quando aceitou jogar no Corinthians, o atacante Ronaldo, representante de uma geração anterior, foi ao "Jornal Nacional", principal jornalístico diário da "TV Globo", para anunciar o acordo.

O anúncio de Neymar é um exemplo escancarado do quanto o paradigma mudou. Ele não correu à emissora mais popular do país, mas aproveitou um assunto de interesse nacional para se valorizar como plataforma de comunicação. O atleta é a própria mídia.

O outro caso aconteceu no Grand Slam de Roland Garros, disputado na França. Na segunda-feira, o ucraniano Sergiy Stakhovsky, número 101 do mundo, protagonizou uma cena curiosa durante o revés para o francês Richard Gasquet.

O duelo era válido pela primeira rodada. No primeiro set, Stakhovsky discordou de uma marcação da arbitragem. Revoltado com a decisão, o ucraniano foi até a bolsa, pegou um iPhone, correu até a linha e tirou uma foto. Depois, publicou a imagem no Twitter e a utilizou como argumento para reclamar.

Neymar tem 21 anos. Stakhovsky, 27. Os dois são representantes de gerações diferentes, mas os exemplos recentes mostram que ambos têm uma ideia clara do poder que possuem como mídia.

Em 2012, Neymar foi a terceira figura mais acionada na publicidade brasileira. O astro do Santos fez no país um caminho raro: ultrapassou o limite do esporte e se transformou em celebridade. O que ele faz fora de campo também passou a ser notícia, e uma das explicações para isso é uma boa estratégia de comunicação, ainda que muito se deva a um misto de carisma e empirismo.

A idolatria em torno de Neymar não tem como base apenas o que ele fez dentro das quatro linhas. Sem desmerecer as conquistas, os gols e os dribles fantásticos do atacante, há um componente que o diferencia de outros grandes atletas no Brasil: o comportamento. O cabelo, as roupas, o jeito de falar e a atitude do jogador ditam tendência no país.

Neymar também é ídolo porque sabe como falar com os jovens brasileiros. E isso passa por um bom uso de plataformas de mídia. O atacante não se restringe ao espaço tradicionalmente oferecido ao esporte.

A lógica é parecida com a que move a rede varejista Ponto Frio. A empresa é uma das maiores anunciantes do país no modelo convencional de publicidade, mas tem investido um valor gradativamente maior em novas mídias. O resultado disso é que ações integradas em redes sociais geraram R$ 20 milhões em vendas para a companhia em 2012.

O bom uso das novas plataformas de mídia não depende de estratégias especificamente focadas nelas. Na verdade, o fundamental é inserir essas ações em um contexto. É isso que as novas gerações mais querem, e não apenas na comunicação.

O clichê diz que a internet e os
novos meios de comunicação aproximaram as pessoas e findaram barreiras. O resultado, porém, é muito maior. O que temos hoje em dia é um novo paradigma de pensamento, e pensar de forma integrada é premente.

O estudo do Publicis que eu citei anteriormente tem mais um dado curioso: questionados sobre as maiores campanhas de marketing de 2012, os estudantes elegeram, na ordem: Red Bull Stratos, My time is now (Nike) e a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres.

Grifo: a pergunta não era sobre as maiores campanhas de marketing do esporte; era abrangente, e qualquer área podia ter sido citada. O resultado mostra como a emoção produzida pelo esporte é um componente difícil de ser substituído.

Há outros aspectos que permeiam os três exemplos vencedores: todos eles foram universais e passaram por diferentes plataformas da "velha" e da "nova" mídia.

Se continuarmos a olhar para as coisas como elementos dissociados, seguiremos como o sapo na panela. O salto dali depende de estratégia e de esforço para uma abordagem sistêmica das coisas. A sobrevivência da mídia e o bom uso dela no esporte dependem disso.

 

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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O conhecimento complexo e a volta ao passado: os vários caminhos para o sucesso

Apesar de já ter discorrido sobre o tema desta semana, faço-o novamente porque infelizmente – em minha opinião – o assunto tem sido retomado (acreditem!) com mais frequência do que eu poderia imaginar a essa “altura do campeonato”.

Existem muitas maneiras de se chegar ao sucesso. No que diz respeito à preparação desportiva do futebolista, a história tem nos mostrado que os caminhos são muitos para alcançá-lo.

A evolução do conhecimento, a exposição a problemas similares e frequentes na prática do treinamento desportivo e o estreitamento e desaparecimento das fronteiras científicas e tecnológicas, têm trazido à tona a ideia geral de que o aperfeiçoamento de soluções diferentes pode trazer resultados igualmente bons na preparação de jogadores de futebol (formação, desenvolvimento e aperfeiçoamento).

Seja no Brasil, observando as distintas ideias e concepções culturais regionais para a forma de se jogar, ou no mundo, tentando entender o sucesso dinâmico que se alterna pelo futebol italiano, francês, holandês, espanhol e mais recentemente alemão, fica cada vez mais claro que não há fórmulas mágicas, ou certos e errados.

O que existe é aquilo que funciona melhor ou pior em determinado ambiente, o que pode trazer resultados mais rapidamente ou não em determinada realidade, o que pode potencializar o ganhar ou o perder.

Pois bem, mas ainda que isso tudo seja assim, é importante ressaltar e lembrar sempre que, circunstancialmente, são muitas as variáveis que complexamente se envolvem com problemas e soluções, êxitos e insucessos.

Isso quer dizer que ainda que sejam muitas as possibilidades para superar os mesmos desafios, é importante que essas possibilidades estejam intimamente conectadas com a evolução do conhecimento, com o desenvolvimento do mundo e com a inegável contribuição que a ciência e experiência prática diária dão para entendimento do passado, compreensão do presente e planejamento para o futuro.

É óbvio que não serve ao futebol (ou a qualquer outra coisa) a verdade científica produzida dentro das salas de aula das universidades ou dos seus laboratórios de pesquisa, se essa verdade estiver desconectada do mundo real e dos seus problemas reais (como não é incomum).

Mas é óbvio também que não serve o discurso viciado e vazio de que aquilo que sempre deu certo em 1970 (80 e/ou 90 – porque não no início dos anos 2000), servirá ainda hoje, absolutamente, sem adaptações ou transformações.

O treino físico de outrora, por exemplo, não pode mais ser o treino físico de hoje. O treino técnico-tático de outrora não pode mais der o treino técnico-tático de hoje. O treino psicológico de outrora não pode mais ser o treino psicológico de hoje.

Venho da Fisiologia e Bioquímica do Exercício e do Esporte (ainda ministro uma disciplina de pós-graduação nessa área). Venho do Treinamento Desportivo, da Pedagogia do Esporte. Estudei Psicologia. Me aprofundei em conhecimentos das Ciências Exatas e da Filosofia Humana. Sou Professor de Educação Física. E quero mais! Tudo isso porque sempre acreditei na necessidade da compreensão de diversas coisas para saber um pouco de todas elas e entender bem o que eu concluísse ser essencial.

Não consigo conceber hoje tomadas de decisão e/ou planos de ação que considerem conhecimentos de uma área só.

Não consigo conceber hoje o desconhecimento sobre qualquer variável que esteja presente em determinada área de atuação.

Não consigo conceber hoje a ignorância sobre o Todo e de suas Partes…

Ainda que mudanças sejam difíceis, mais ainda é se desprender da burrice que nos cega a olhos bem abertos que enxergam apenas uma direção…

Que sobrevivam os jogadores de futebol!
 

PS – Gostaria de aproveitar e agradecer publicamente o apoio tecnológico e operacional da ClanSoft, e o seu pronto atendimento no desenvolvimento de ferramentas específicas, de grande utilidade didático-pedagógica, no aplicativo Tactical Pad para uso desse treinador que vos escreve. Obrigado!
 

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

 

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Iniciação esportiva – aspectos positivos e negativos da especialização esportiva precoce no futebol

As Modalidades Esportivas Coletivas, desde a sua origem, têm sido praticadas pelas crianças e adolescentes dos mais diferentes povos e nações. Sua evolução é constante, ficando cada vez mais evidente seu caráter competitivo, regido por regras e regulamentos (Teodorescu, 1984).

Entre todas as Modalidades Esportivas Coletivas praticadas com bola, o futebol é a mais apaixonante e que exige combinações mais complexas do sistema neuromuscular. Sua história ou pré-história inicia na Ásia, primeiro na China, com o chamado Tsú Chu, umas das primeiras referências ao jogo praticado com as mãos e com os pés, e, depois na era medieval, no Japão, com o nome de Kemari (Rose Junior, 2006).

Na sociedade contemporânea, o futebol tem se mostrado um fenômeno de grande relevância sociocultural e é, também, amplamente vivenciado pelo brasileiro em seu cotidiano e ressignificado a partir de sua institucionalização e de sua apropriação pelos diversos grupos sociais. (Valentin; Coelho, 2005).

Filgueira e Schwartz (2007) diz que no Brasil o futebol é um fenômeno cultural que cativa e impressiona pela sua grandeza, cuja prática tem crescido rapidamente, envolvendo um número significativo de participantes, desde a infância até a vida adulta. O futebol é para os brasileiros, sem dúvida, mais do que um esporte: uma paixão que faz parte da cultura.

Muitos jovens brasileiros sonham em um dia poder ser um atleta profissional de futebol, na intenção de unir a paixão que sentem pelo esporte à perspectiva de um futuro melhor para si e suas famílias , com isso passam a praticá-lo vendo-o como um caminho mais rápido de conseguirem sucesso e independência financeira.

Para isso, muitos acabam recorrendo às escolinhas de futebol para se aperfeiçoarem nas técnicas desse esporte e assim adquirirem a formação necessária que possa levá-los um dia a ser um atleta profissional.

O que antes era "privilégio" de prefeituras e clubes, hoje está sendo explorado, por agências, ex-atletas e clubes nas formas de escolhinhas de futebol .

Scaglia (2006), mostra que as escolinhas ganharam espaço com a expansão imobiliária que acabou provocando o desaparecimento de muitos campos de várzea existentes nas médias e grandes cidades brasileiras. Implantadas como alternativa para a formação de novos atletas para o futebol brasileiro, as escolinhas fizeram com que o futebol, que antes era jogado de forma aberta e espontânea nos campos de peladas espalhados pelo Brasil, passasse a ser praticado em locais quase sempre fechados – muitos deles sob a responsabilidade de ex-atletas – que viram nisso uma oportunidade de poderem repassar aos seus alunos o que aprenderam dentro do futebol, e também uma forma de explorarem lucrativamente essa atividade.

Não é o suficiente que alguém tenha jogado futebol para ser um técnico deste esporte (Lembrando que existem profissionais altamente capacitados que foram atletas e tornaram-se excelentes treinadores , posteriormente em equipes profissionais), no que se refere ao treinamento ou trabalho com crianças.

É necessário, também, que este profissional conheça sobre o que Zakharov (1992) citado por Gomes e Machado (1999) chama de períodos sensitíveis do treinamento, que são os períodos etários em que as influências específicas de treino no organismo humano provocam elevada reação de resposta, que assegura os ritmos consideráveis de crescimento da função em treinamento; que ele tenha conhecimentos suficientes sobre a anatomia da criança; que possua boa preparação psicológica e amplo conhecimento específico; é preciso ter noções das etapas de desenvolvimento desportivo até atingir a fase adulta competitiva; e que ele saiba com aproveitar as fases de desenvolvimento da criança.

Este trabalho levando em consideração o crescente numero de escolhinas de futebol e o numero elevado de profisionais que se interessam pela area ocupa-se de criar subsídios aos profissionais que atuam na área do ensino/ treinamento de futebol para crianças.

Há intenção aqui não é, entretanto, formar uma única maneira de treinamento para essa faixa etária. Mas, sim, fazer com que os profissionais que dele tomarem conhecimento, sejam levados a refletir sobre os treinamentos, buscando outros caminhos, auxiliando o desenvolvimento não só do futebol – levando até a realização de estudos futuros, uma vez que há pouca literatura sobre o tema.

Especialização Esportiva Precoce

A Especialização Precoce (EP) é um processo que vem sendo a tempos discutido por especialistas em treinamento esportivo, e consequentemente no meio futebolístico.Para Personne (1987) "iniciação esportiva precoce" é a atividade esportiva desenvolvida antes da puberdade, caracterizada por uma alta dedicação aos treinamentos (mais de 10 horas semanais) e principalmente por ter uma finalidade eminentemente competitiva.

Já Kunz (1994), referindo-se a "treinamento especializado precoce", entende que este ocorre quando crianças são introduzidas antes da fase pubertária a um processo de treinamento planejado e organizado a longo prazo , que se efetiva em um mínimo de três sessões semanais com o objetivo do gradual aumento do rendimento, além da participação periódica em competições.

Para Krebs (1992), a especialização se da quando o atleta tem um sistema de treinos levados a picos máximos de sua capacidade, acompanhados de competições de nível elevado, havendo um relacionamento em tempo quase que integral entre o técnico e o atleta.

Iniciação Esportiva no Futebol

Para aprender a jogar um esporte qualquer, uma criança deve ter a oportunidade de experimentar um número grande de situações. Cada situação dessas será responsável pela abertura de um grande número de possibilidades, sendo que, cada possibilidade dessas, quando for experimentada, poderá abrir outras tantas.

Ao final de um longo processo, o acervo de possibilidades motoras, intelectuais, sociais, morais, e assim por diante, disponível no jovem que se formou nesse esporte, será imensamente mais amplo que no jovem formado em uma equipe ou escolinha que lhe impôs um sistema de superespecialização (Freire, 2002).

O primeiro fator a ser considerado são as fases de desenvolvimento físico da criança. Existe uma série de transformações ou mudanças da estrutura física da criança na faixa de idade da iniciação no futebol, compreendida nas chamadas categorias menores de 07 á 13 anos de idade.

É importante considerar, na iniciação esportiva, a idade biológica, o nível de coordenação motora e o grau de inteligência para a elaboração das atividades a serem desenvolvidas pela criança, a fim de contribuir com o maior número de vivências motoras possíveis.

Na formação de base, todas as coisas d
evem ser aprendidas por experiências as mais diversificadas possíveis (Freire, 2002). Haveria outro caminho a seguir no desenvolvimento esportivo que não esse percorrido tradicionalmente, que inclui, nos casos extremos, especialização precoce, contusões, limitações da inteligência, excessos de treinamento?

Claro que há, e foi seguido por vários excepcionais atletas do futebol, entre eles, Garrincha, Pelé e Maradona, que aprenderam enquanto brincavam, como qualquer criança de vida normal. Fossem nossos técnicos esportivos melhores observadores, encontrariam nesses fenômenos esportivos a orientação mais segura para suas pedagogias (Freire, 2002).

A prática do futebol, na iniciação esportiva, se manifesta através do jogo, nas diversas manifestações lúdicas que podem ser instituídas na aprendizagem do futebol.

O jogador de qualidade é aquele que vivencia um número enorme de possibilidades e, para cada situação do jogo, ele encontra a melhor. O jogador de hoje tem poucas possibilidades, imposta por rotinas exaustivas e limitadas, portanto, formando um jogador de pouca qualidade, o que torna o jogo de menor qualidade com movimentos estereotipados, sem qualidade. Por isso, estamos cada vez mais frequentemente vendo jogadores de baixo nível técnico e equipes de péssima qualidade.

Aspectos Negativos Da Especialização Esportiva Precoce

Aspectos físicos

Negrão (1980) alerta para os danos físicos que podem ser ocasionados pelo esporte altamente competitivo praticado em idade precoce. O trabalho muscular intenso excessivo, associado a sobrecarga emocional que a competição provoca, pode ocasionar perturbações no desenvolvimento normal da criança, principalmente no ritmo do crescimento em altura e no desenvolvimento somático, funcional e intelectual.

O esporte competitivo implica treinamentos específicos de cada modalidade, o que poucas vezes vem ao encontro das necessidades fisiológicas da criança. Para Negrão (1980), crianças só podem suportar esforços reduzidos, fisiologistas renomados, são unânimes em afirmar a importância de treinamento aeróbico para crianças.

Nahas (1980) diz ainda que,quando a intensidade e a frequência das atividades competitivas são grandes e extrapola o ambiente escolar e grupal, exigindo da criança um grau de especialização incomum para a idade em que se encontra, passam a existir dúvidas consideráveis sobre se os benefícios para um desenvolvimento ótimo são importantes bastante para se desprezarem os perigos de lesões e traumas psicológicos (às vezes irreparáveis) .

As possíveis consequências de se especializar a criança precocemente estão diretamente ligadas ao fato de se adotar, por longo período de tempo, uma metodologia incompatível com as características, interesses e necessidades dela. Logo, os possíveis efeitos podem não se manifestar diretamente, mas no decorrer de temporadas (Santana, apud Ramos e Neves, 2008)

A respeito disso, Kunz (1994) apud Ramos e Neves (2008), diz que os maiores problemas que um treinamento especializado precoce provoca sobre a vida da criança e especialmente seu futuro, após encerrar a carreira esportiva, podem ser enumerados como:

a) formação escolar deficiente, devido à grande exigência em acompanhar com êxito a carreira esportiva;

b) a unilateralização de um desenvolvimento que deveria ser plural,

c) reduzida participação em atividades, brincadeiras e jogos do mundo infantil, indispensáveis para o desenvolvimento da personalidade na infância.

Santana (2005) apud Ramos e Neves (2008), acrescenta mais alguns riscos da especialização precoce na criança:

a) stresse de competição: que se caracteriza por um sentimento de medo e insegurança, causado principalmente por conflitos oriundos de uma prática excessivamente competitiva. A criança, neste caso, tem medo de errar, sente-se insegura e com a auto-estima ameaçada;

b) saturação esportiva: que se manifesta quando a criança apresenta sinais de desânimo (enjôo) e desinteresse em continuar a prática do esporte. Sente-se, assim porque o praticou em excesso e quer abandoná-lo.

Teixeira (1981) diz, durante nossa longa vivencia esportiva, o que chamamos de "síndrome da saturação esportiva". Indivíduos que iniciaram muito cedo a pratica esportiva especializada são acometidos por essa síndrome, caracterizada por certa aversão pelo esporte que praticam, exatamente naquele momento em que deveriam praticá-lo com mais intensidade (adolescência).

Também é bastante discutido o fato estarem desde muito cedo especializados em determinada função, no caso dos jogadores de futebol, limitando–os a uma posição específica dentro da equipe, o que, certamente, pode limitar suas possibilidades de ação no futuro.

Exemplo bem característico deste acontecimento é o fato de muitos treinadores optarem por relacionar alguns jogadores, que se apresentam em estágios de crescimento mais avançados que a média para a categoria, para jogarem exclusivamente de atacantes aproveitando da maior força adquirida com o crescimento.

Porém, mesmo com todo êxito conseguido na juventude, muitos destes jogadores falham em idades mais avançadas por não serem capazes de atuar contra jogadores que apresentam níveis de força equiparados ou mesmo superioresuma realidade nas idades mais avançadas e nos profissionais.

Aspectos Positivos da Especialização Esportiva Precoce

Segundo Estigarriba (2005), a criança na prática esportiva vivência a cooperação, o convívio social, desenvolve o respeito pelos outros, a competitividade sadia, o espírito de equipe, disciplina e a persistência.

Nunes e Gonçalves (2008) entrevistaram os professores das instituições que participaram do campeonato: Copa Bahamas de Futsal 2007 e de acordo com a opinião dos entrevistados, são apresentados como aspectos positivos fundamentais em uma competição: o entrosamento, a convivência, o lúdico, o espírito de grupo, a coletividade, o respeito às regras, a integração, a participação, a responsabilidade e o aprendizado que se tira com a vitória com a derrota.

Mostrando-se assim que o esporte ou a prática esportiva nas categorias de iniciação é muito mais do que competir, que ganhar e perder, é ter motivação, é viver momentos, e fazer amigos, além de desenvolver o físico e o bem-estar.

Considerações Finais

A iniciação ao futebol é ideal para adquirir habilidades coordenativas motoras básicas. A princípio, o treinamento técnico deve objetivar a aprendizagem de movimentos, e não o gesto técnico específico do futebol.

Deve-se lembrar que a criança é levada à prática do influenciado pelo meio e aspirando tornar-se um atleta profissional de futebol. Mas, para que isto aconteça, deve-se considerar que este pequeno atleta n&at
ilde;o pode ser submetido ao mesmo processo de formação técnica e competitiva dos adultos.

O trabalho feito com crianças deve ter a adaptação adequada para ela, considerando seu desenvolvimento, além de respeitar também os seus interesses. Gomes e Machado (1999)

WeineckK (1991) diz que no período dos 09 aos 12 anos, a criança encontra-se na primeira infância escolar (09 anos) e infância escolar tardia (10/11 e 12 anos). Este período de tempo compreende a época de melhor aproveitamento para a aprendizagem dos gestos esportivos sem, entretanto, propor a formação especificada de gestos.

Isto explica-se pelo fato de que a criança nesta idade já passou por um período de aprendizagem multilateral e plurificado, formando uma ampla gama de movimentos generalizados, que formam uma base consistente para o aprendizado de movimentos com maior teor técnico.

A estratégia ou planejamento tático deve ser simples sem muitas variações de jogo (defensivas e ofensivas), podendo ser em forma de jogos reduzidos com elementos e objetivos essenciais ao jogo formal.

Para concluir, lembramos que a criança não é um adulto em miniatura e que o professor além de sua tarefa técnica, também deve ter responsabilidade pedagógica com o futuro da ciança a ele confiado.

Bibliografia

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Banco de Jogos – jogo 8

Muitos gols ocorrem a partir de jogadas de transição ofensiva. Sendo assim, ter comportamentos de jogo bem definidos após a recuperação da posse de bola, aproveitando a desorganização adversária, pode aproximar a equipe das vitórias.

Na atividade desta semana, a equipe que melhor gerir sua transição ofensiva, cumprindo a Lógica do Jogo criado, é quem terá maiores possibilidades de êxito.

Jogo Conceitual em Ambiente Específico de Transição Ofensiva

– Dimensões do campo oficial. ~ 100m x 70m;
– Campo dividido em 4 corredores laterais, 2 faixas centrais e 1 faixa horizontal, conforme ilustra a figura:

 

 

Regras do Jogo

  1. Três toques no campo de defesa e passe somente pra frente (para cada jogada é permitido 1 toque pra trás);
     
  2. Recuperar a posse de bola no corredor lateral e em até 4 passes ultrapassar o meio campo com a bola dominada ou através de passe = 1 bônus;
     
  3. Recuperar a posse de bola na faixa central defensiva, em frente a grande área e errar o passe = 1 ponto para o adversário;
     
  4. Recuperar a posse de bola na faixa horizontal intermediária e acertar o passe para o campo de ataque, à frente da faixa = 1 bônus;
     
  5. Cinco bônus = 1 ponto;
     
  6. Gol = 5 pontos;
     
  7. Gol de contra-ataque = 8 pontos;

Assista aos vídeos com os exemplos de algumas regras:

Regra 2

O jogador número 2 da equipe listrada recupera a posse de bola no corredor lateral e em menos de 4 passes a equipe ultrapassa o meio campo. Esta ação vale 1 bônus para a equipe listrada.

Regra 3

O jogador número 5 da equipe vermelha recupera a posse de bola na faixa central. Na sequência da jogada erra o passe para o jogador número 9. Esta ação vale 1 ponto para a equipe listrada.

Regra 4

O jogador número 5 da equipe listrada recupera a posse de bola e na sequencia acerta o passe para o jogador número 7 no corredor lateral. Esta ação vale 1 bônus para a equipe listrada.

Aguardo dúvidas, críticas e sugestões. Abraços e bons treinos!
 

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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