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Gestão do comportamento humano

Quando falamos de perfil de atleta, também falamos, quase que intrinsicamente, da questão de como é formatada as “características humanas”. Há diversas formas de pensamento e linhas a se seguir sobre este assunto, mas eu particularmente penso que elas não são providas de uma fonte aleatória, fruto do acaso, mas sim resultado de um sistema não linear que segue as leis da complexidade. E, mais uma vez, só porque não entendemos a lógica, não significa que não há lógica.

Muito se fala em dividir o “desempenho”, entrando na questão que o comportamento do jogador é oriundo de 25% dos aspectos técnicos, 25% dos aspectos físicos, 25% dos aspectos táticos e 25% dos aspectos comportamentais e que nós poderíamos alterar o comportamento através do gerenciamento de cada um destes fatores isoladamente. Penso muito ao contrário, para mim a verdade está em outra direção de raciocínio. A aquisição dos aspectos técnicos, táticos e físicos que o treinador necessita para implementar sua forma de jogar, não é igual para todos os jogadores, pois depende das características individuais. Se o treinador possui no plantel somente jogadores cooperativos, por mais que atue nos fatores técnicos, táticos e físicos, ele terá imensas dificuldades em formar um time impositivo (relação todo x parte). Entenda estas características inatas e você entenderá em quais zonas de comportamento que cada  jogador poderá atuar.

Um dos mais renomados pensadores da complexidade, Morin expõe que a aptidão individual para aprender não depende de uma plasticidade análoga à da “cera”, mas supõe estruturas cognitivas/organizadoras, e depende de onde se desenvolveu mais um aparelho neurocerebral, o qual, na sua gênese, na sua constituição, na sua organização, é necessariamente inato. A aptidão para adquirir é, portanto, a aptidão inata para adquirir aptidões não-inatas. Toda a teoria da aprendizagem (aquisição de um saber, de uma competência) deve definir um estado inicial que comporta dispositivos inatos, e quanto mais rico for o dispositivo inato, mais rica será a disponibilidade para a aprendizagem. O ideal seria que discutíssemos sobre fatos que nos levam a determinados raciocínios e que estes raciocínios busquem teorias para explicar estes mesmos fatos, permitindo o gerenciamento eficaz.

O normal é  discutir teorias,  as quais comandam os nossos  raciocínios e  que nos fazem ver os fatos de determinadas maneiras.  Mesmo utilizando caros recursos, os fatos reais teimam em desafiar a nossa forma de gerenciar.  Solução aparentemente óbvia é culpar os profissionais envolvidos  e investir mais recursos em ferramentas que prometem maior eficiência.

O fatos devem comandar a lógica do raciocínio. Mas na ciência, as ideias, geralmente mais teimosas que os fatos, resistem à força dos dados e das provas. Os fatos efetivamente se batem contra as ideias, tanto que não existe nada que possa reorganizar de outro modo a experiência. Infelizmente o conhecimento não cai do céu.

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Análise de Jogo – Organização Ofensiva Campeonato Brasileiro Série A – 2017

A Universidade do Futebol (UdoF) tem como proposta pedagógica a transformação pelo conhecimento. Nesta perspectiva, acredita que a investigação, a pesquisa, a reflexão e o debate sobre um determinado fenômeno, devem ser atitudes permanentes de toda a comunidade do futebol.

Assim sendo, e entendendo a importância da Série A do Campeonato Brasileiro como expressão da realidade futebolística atual em nosso país, a UdoF coordenou uma pesquisa sobre a Organização Ofensiva das 20 equipes que disputaram essa competição.

O trabalho foi realizado entre as rodadas 32 e 34, antes da definição da equipe campeã, e tem como objetivo fomentar inúmeras discussões que tem relação direta com o desenvolvimento do futebol brasileiro, por exemplo: modelo de jogo, ideias de jogo, qualidade do jogo, treinamento, tempo de trabalho, espetáculo etc.

Queremos agradecer os seguintes profissionais que colaboraram com a Universidade do Futebol na produção dessa pesquisa:

  • Bruno Pasquarelli – Treinador de Futebol na Next Academy-SJC e Colunista da Universidade do Futebol
  • Eduardo Barros – Consultor Técnico da Universidade do Futebol e Assistente Técnico do treinador Fernando Diniz
  • Eduardo Zuma – Assistente Técnico da Portuguesa-SP e colaborador da Universidade do Futebol
  • Fernando Ziskind – Proprietário da DataPlayer – Análise de Mercado no Futebol
  • Jonas Dell’omo, Vinícius Nogueira e Vítor Hugo – Treinador sub-12, Treinador sub-14 e Analista de Desempenho, respectivamente, do Botafogo-RJ
  • Marcos Santos – Membro do Núcleo de Aprendizagem e Conteúdo da Universidade do Futebol e professor esportivo na prefeitura de Itapira-SP
  • Miguel Bormolini – Consultor Técnico de Futebol e Analista de Desempenho
  • Nicolau Frota – Analista de Desempenho das categorias de base do São Paulo, Certificação CBF (categorias de base e profissional) e Treinador CBF – Licença C
  • Rafael Ferreira – Treinador CBF Licença B e colaborador da Universidade do Futebol
  • Ricardo Belli – Treinador de Futebol UEFA1 e Mestre em Treino Desportivo

Para assistir aos vídeos, basta clicar no nome do clube que você será direcionado para a respectiva análise. Nelas, constam alguns padrões de jogo apresentado por cada equipe nas diferentes zonas de ataque:

  • Zona de Construção
  • Zona de Criação
  • Zona de Finalização 

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atletico_goianiense

ATLÉTICO-GO

botafogo

BOTAFOGO

flamengo

FLAMENGO

santos

SANTOS

atletico_mineiro

ATLÉTICO-MG

chapecoense

CHAPECOENSE

fluminense

FLUMINENSE

Sao_Paulo

SÃO PAULO

atletico_paranaense

ATLÉTICO-PR

Corinthians

CORINTHIANS

Gremio

GRÊMIO

sport

SPORT

avai

AVAÍ

logo-coritiba

CORITIBA

palmeiras

PALMEIRAS

vasco

VASCO DA GAMA

bahia

BAHIA

cruzeiro

CRUZEIRO

ponte-preta

PONTE PRETA

Vitoria

VITÓRIA

Gostaríamos que você fizesse uma avaliação crítica das equipes, compartilhasse as análises de seu interesse em suas redes sociais e contribuísse com a Universidade do Futebol nas discussões desta modalidade, que é uma das principais manifestações culturais do nosso país e deve ser melhor estudada e compreendida não só pelos seus profissionais, mas por todos os seus aficionados.

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O bom senso na gestão de um produto em que todos os clubes fazem parte

Os principais torneios de clubes do futebol do Brasil estão chegando ao fim e dois episódios chamaram a atenção nos últimos dias. O primeiro deles foi de o treino do Sport Recife – enquanto se preparava para a partida contra o Fluminense – nas instalações do Flamengo ter incomodado alguns dirigentes do clube do Rio de Janeiro. Aqueles (felizmente) que não tomam as decisões. Em Campinas, o outro episódio: a invasão de torcedores ponte-pretanos revoltados com o resultado da partida que rebaixou a Ponte Preta para a Série B.00

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

 

Por todas as discordâncias que existem entre os Rubro-Negros – carioca e recifense -, sobretudo pelo título nacional de 1987, conduzidas ao plano jurídico inclusive, não impede que as agremiações mantenham saudáveis relações esportivas. É direito de alguns dirigentes do Flamengo se incomodarem com isso. Entretanto, impedirem o treino do Sport ou mesmo ameaçarem seus afastamentos do clube (como foi o que aconteceu), é fazer “tempestade em copo d’água” e comprometer com sua cultura organizacional, já previamente estabelecida. Uma coisa é a rivalidade dentro de campo, compartilhada de maneira saudável, com respeito ao adversário. Outra completamente diferente é deturpar esta rivalidade e potencializá-la para atitudes extremas e sem o mínimo de bom senso. Ora, um não existe sem o outro. Todos fazem parte do mesmo negócio, um depende do outro.

O outro episódio – também infeliz – foi a invasão de campo por alguns torcedores da Ponte Preta, indignados com o rebaixamento do clube para a série B do campeonato nacional. Estamos no ano 2017 do século 21 e ainda vemos cenas assim. Alguns podem dizer que isso também acontece nos campeonatos mais ricos ou nos países com os melhores indicadores sociais. Sim, de fato. Mas nem por isso são aceitos pelas autoridades e sociedade. E nem aqui também deve ser. O clube foi rebaixado, mas a vida continua. Ela segue. Uma oportunidade para recomeçar e se reinventar. Ver o que deu errado e corrigir. Observar o que deu certo e continuar. Infelizmente a ausência do Estado na promoção do bem-estar é tão grande que boa parcela dos torcedores se apega de tal maneira ao clube, que o êxito dentro de campo passa a ter o mesmo significado para a vida do adepto. No entanto, não se pode mais tolerar este tipo de comportamento.

Com tudo isso, episódios como estes são inadmissíveis atualmente no universo esportivo atual.  Remetem a uma ideia de amadorismo, impunidade e conivência com o que é, no mínimo, absurdo. É preciso romper com isso. O rompimento só se dará, entre os muitos fatores, através de muito profissionalismo e uma comunicação bem clara e abrangente que valorize a cultura do futebol – que é de paz – e os bons valores.

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As declinações semânticas da bola

Começa por uma proclamação simbólica, de carácter arquetípico: ela é esférica e a esfericidade é, como intuiu o próprio Parménides, expressão simbólica de uma infinitude, sem começo e sem fim: simboliza a própria redondeza do ser cuja propriedade é simplesmente ser!

Mas a bola, como principal protagonista do jogo, ela é sinal de contradição: todos a querem ter e todos a querem acariciar – embora só uns tantos sejam entendidos neste tipo de carícias – , mas todos passam o tempo dando-lhe pontapés – ou pauladas, como no hóquei em patins ou no hóquei em campo! As equipas andam o tempo todo em busca dela, mas o que realmente se verifica é que não descansam enquanto não a vêem longe de seus domínios: ela gera simultaneamente os fenómenos de atracção e de rejeição.

As equipas têm horror que ela possa anichar-se caprichosamente nas redes do seu território definitivo e inegociável – a baliza (o gol, no Brasil) – mas festejam em delírio quando isso acontece nas redes do lado contrário do campo, um campo simultaneamente de batalha e ringue de Wrestling, de rijos gladiadores e de macios fiteiros: sim, a maior parte do tempo os soldados desta peleja entretêm-se a desentenderem-se da bola e a rebolarem-se, em estridente gritaria, na relva fofa desta versão urbana e sofisticada das guerras púnicas. A bola também como elemento de um exercício manhoso de simulação e engodo, algo que está convertendo, sobretudo o futebol, num espectáculo ilusório, o que seria bem fácil de contornar: um cronómetro que ignore, como no basquetebol ou no futsal, o tempo gasto com interrupções resolveria o escândalo.

Mas a bola, enquanto símbolo redondo do ser, encarna também, talvez por isso mesmo, a simbologia da sensatez, do juízo, daquilo que deve ser: fulano ou siclano não bate bem da bola, isto é, ele não gasta da loja do bom senso – ele não é bom da cabeça, tendo esta como o último andar do edifício corporal onde supostamente está instalado o painel de comando – e sabemos todos os problemas clássicos dos últimos andares, sobretudo quando os prédios são muito altos. Por isso uma agressão em campo a um adversário implica que o autor se esqueça da bola e perca a cabeça – que sem cabeça não há jogo que se veja, que possa agradar aos espectadores.

Mas a bola é também motivo de qualificação performativa: dizer, por exemplo, que o Bernardo Silva “é bom de bola”, como ouço aqui no Brasil invariavelmente da boca dos exuberantes relatores, é afirmar que ele é particularmente habilidoso, com superiores qualidades técnicas, que é, enfim, um desses raros acariciadores justamente da redondinha.

Neste caso, uma vez mais, a bola como signo cinético de uma perfeição que se busca na orla do infinito. Como na consagradíssima e brasileiríssima expressão “show de bola” que expressa de forma gutural e quase em registro de samba, que isso ou aquilo não poderia estar melhor, como tão gracil e sugestivamente o mostra o vendedor (brasileiro) de bolas de Berlim nas areias intermináveis de Monte Gordo, ou nas praias de Copacabana e Ipanema, onde curiosamente espontâneas equipas de vólei dão, nem mais, um grande “show” de bola!

A bola como metáfora em movimento de ventos ora benéficos ora maléficos: ela não vai à minha bola, ou seja, ela “deu-me com os pés” – pontapeou-me para longe do seu território, quanto mais longe melhor – como as equipas fazem, contraditoriamente, com a bola.

A bola é a princesa da corte do jogo, pois encarna as qualidades de leveza, de perfeição, de amor – e todos se empenham em ostensivo galanteio: todos, tomados de tórrida paixão se perdem num infatigável exercício de sedução. É por isso que a bola simboliza também a dimensão empática e convivial do jogo: “eu vou à bola dele” (ou dela), querendo com isso enfatizar a simpatia que por ele ou ela nutro – sinal unitivo, de conciliação.

Atendo-nos em exclusivo ao futebol, verificamos que é um jogo contraditório, paradoxal: tem na bola a sua menina dos olhos e desata aos pontapés a ela. Mais: reclama mestres da táctica, engenheiros que pensem um jogo que, paradoxalmente se joga com os pés, as extremidades mais afastadas da cabeça, onde se localiza o cérebro, alegadamente a sede desse pensar.

O futebol é um jogo dúplice – por várias razões, mas sobretudo porque, reclamando a cabeça, ele se baseia no timus (thymus), na sede das emoções, o que faz com que amiúde se choquem a beleza geométrica do jogo e o excesso agonístico, o que acontece quando os agentes perdem a cabeça, quando passam a bater mal da bola.

E falta fazer referência à expressão que o meu querido leitor tem entalada na garganta; “baixa a bola (bolinha)”. E eu baixo, que não quero provocar nem pôr-me em bicos-de-pés.

Expressão que conhece a seguinte variação: “bate a bola baixo”, isto é, “não faças ondas”.

Não, não faço: não quero molhar ninguém!

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A “Ciência” do futebol

O futebol, como qualquer outra modalidade desportiva é, para mim, uma das formas da motricidade humana – como é lógico! Embora a pretensa cientificidade de muitos comentadores do futebol seja proporcional à sua desumanidade, quero eu dizer: quanto mais falam de futebol menos humano se revela o seu discurso. É verdade que, desde os inícios do pensamento moderno, mormente com Galileu e Descartes, o “homem” e a “ciência” sempre se constituíram como duas realidades estranhas uma à outra: a inteligência, a personalidade, os sentimentos humanos não podiam pesar-se, medir-se, quantificar-se – não eram, com toda a certeza, científicos.  Demais, a ciência moderna nasce e desenvolve-se mecanicista. O universo é uma imensa máquina, composta por um enorme conjunto de máquinas cujas leis importa conhecê-las. E, por isso, Deus é o divino engenheiro, omnipotente criador de um universo que pode ser estudado, matematicamente.

Não é de estranhar assim que os filósofos e os cientistas de mais ampla inteligência teorizadora tenham comparado o Mundo a um relógio. O homem-máquina de La Mettrie (1709-1751), filósofo materialista e médico que pretende ensinar que, no mundo todo, só matéria se encontra e é dessa matéria que o ser humano (e tudo) nasce e de que o ser humano é feito – La Mettrie, minucioso e irónico, não abandona o mecanicismo, apontando as leis mecânicas que regem, segundo ele, as funções do corpo de um ser vivo. Um ponto a realçar: a partir desta altura, o sábio deixa de ser o clérigo aristotélico-tomista e passa a ser um leigo, uma pessoa que sabe que não tem a verdade, mas que imparavelmente a procura, pela razão e pela reflexão e pelo método experimental. No meu modesto entender, a história das ciências, que vai de Copérnico (1473-1543) a Newton (1643-1727) é de um progresso admirável e prepara o Iluminismo e informa, claramente, a Revolução Francesa…

Não surpreende, portanto, que ciência, razão e progresso caminhassem de mãos dadas e que, quando pela primeira vez, no século XVIII, a expressão Educação Física (que integrava a ginástica, os jogos e os desportos) tenha surgido, no vocabulário científico, os exercícios ginásticos se destinassem ao homem-máquina, a um corpo-instrumento que a razão esclarecia. Vale a pena reler a Proposta de Lei, de 25 de Fevereiro de 1939, apresentada à Assembleia Nacional para a criação do INEF (Instituto Nacional de Educação Física) português, onde assim se define a Educação Física: “é uma acção intencional que o homem, devidamente dirigido, exerce sobre si mesmo, pela prática racional, sistemática dos exercícios físicos – ginástica, jogos, desportos – metódica e conscientemente executados, como complemento essencial dos restantes meios educativos e higiénicos e tendo como objectivos imediatos a saúde, beleza, força, resistência, disciplina, prontidão, espírito de solidariedade, optimismo, confiança em si, domínio de si próprio, coragem, prudência, caráter, personalidade, tornando o corpo o digno instrumento de uma vontade esclarecida”.

Como se vê, uma antropagogia, ou teoria da formação do ser humano, assente no corpo-instrumento e apontando para uma antropologia declaradamente dualista. Enfim, a dicotomia corpo-mente, sentimentos-consciência, natureza-cultura emergia da educação física até meados do século XX. Muita gente que pontifica, no desporto nacional e internacional, ainda não ultrapassou, nem o mecanicismo cartesiano, nem o solo epistemológico do positivismo. Ousaria mesmo escrever que, no futebol, há muita gente que pensa que sabe explicar o futebol, sem nunca o ter compreendido. Compreendido? Sim, porque ao nível do humano nada escapa à ordem dos valores e das significações, mesmo como exigência do rigor metodológico.

O que eu aconselharia aos “agentes do futebol”?… Digo isto, após uma severa autocrítica (porque, à boa maneira socrática: só sei que nada sei): um corte epistemológico, em relação à pré-ciência de um senso comum que analisa o futebol, sem descontinuidade, nos problemas e na linguagem. O curso de um conhecimento verdadeiramente científico não é linear, o seu grande objetivo é respeitar o passado, mas construir o futuro, o que implica pôr de lado e rejeitar muito do que a tradição nos oferece. “A exigência de objetividade, no sentido de objetivação, leva-nos necessariamente a descartar o caráter meramente acumulativo e continuista do saber, bem como a fazer da ideia de progresso descontínuo a espinha dorsal de toda a cientificidade. Se é assim, também esse progresso precisa ser pensado em termos de ruptura” (Hilton Japiassu, Nascimento e Morte das Ciências Humanas, Francisco Alves editora, p. 145).  Ruptura, em primeiro lugar com uma organização apressada e desleixada dos clubes.

Há dirigentes desportivos de exemplar amor pelos seus clubes, mas sem especialização bastante para, atualmente, organizarem um clube com alta competição, ou alto rendimento. Já é clássica a definição de Peter F. Drucker: “Uma organização é um grupo humano composto por especialistas que trabalham numa tarefa comum (…). Uma organização é sempre especializada. Define-se pelas suas tarefas (…). Uma organização só é eficaz, se se concentrar numa tarefa. Uma orquestra sinfónica não tenta curar doentes, toca música. Um hospital cuida dos doentes, mas não procura tocar Beethoven (…). A sociedade, a comunidade e a família são; as organizações fazem (Sociedade Pós-Capitalista, Actual Editora, Lisboa, 2003, pp. 61/62). E, para as organizações fazerem, é imprescindível o contributo de direções competentes.

Donde, logicamente se conclui que organizar é tornar produtivos os conhecimentos. Mas, no âmbito das ciências humanas, um especialista é tanto mais eficaz quanto mais tiver em conta a complexidade humana, presente em todos os elementos que a constituem. Num treino de dominância física, o jogador de futebol (o atleta) é um ser de sentimentos. E se ele se encontra incompatibilizado com o treinador?… E, se nesse dia o pai está gravemente doente?… E se um dos filhos ficou em casa, com febre alta?… É evidente que, assim, o treino se transforma num espaço de insanável aborrecimento e, nalguns casos, de aversão. Não passo sem sublinhar as palavras de António Damásio à revista do Expresso, de 2017/10/28: “Os humanos não têm apenas a inteligência, têm por exemplo a linguagem. E, temos uma socialidade muito mais complexa do que a de outras criaturas. E os impulsos criativos. E, analisando estas respostas, vemos a ideia.

A ideia forte é a de que tudo o que há de bom e de bem, tudo o que ajudou instrumentalmente a criar culturas nunca teria acontecido se não tivéssemos sentimentos. Sentimentos, ora de dor e sofrimento, ora de plenitude e prazer”. E diz mais adiante, numa entrevista superiormente conduzida por uma jornalista com dotes notórios para o jornalismo (o que nem sempre sucede) e pessoa culta, que se topa no seu infatigável interrogar: “O sentimento é a representação do imperativo homeostático”. O que é peculiar no jogador, por ser homem, é secundário e acaba por reduzir-se às necessidades primárias da tática, nos “estudos” de alguns pseudo-especialistas. Não, eu não digo que a tática não é importante, o que eu digo é que não é essencial. Só podemos esperar respostas humanas dos jogadores, se os respeitarmos (e estudarmos) como homens. Só assim podemos fazer ciência… nas ciências humanas! Mas eu vou continuar com este tema.

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O treino (novamente) é tudo que temos

Quando se assume uma equipe, há a necessidade de se ter bem definido como se deve e vai trabalhar. Ter estabelecido como vai ser arquitetada a metodologia, como liderar, como se quer jogar, que tipo de atleta precisa-se, que perfil de atleta deseja-se, que perfil de auxiliares é o mais aconselhável, que departamento necessita-se, etc. Enfim, ter antecipadamente formado o que se quer para a equipe. Nada mais é que um processo de codificação da performance. Ou seja, modelagem. Modelar algo que quero seguir, que tenho como verdadeiro, perante minhas experiências, crenças e valores. Minhas representações internas. O meu ideal como equipe, como comportamento, minha opção de jogo. Devemos modelar algo que deve estar pré-estabelecido. No caso do treinador, envolve a reprodução da mesma seqüência de padrões de pensamento e comportamento do “meu” modelo, daquilo que pretendo. Com relação ao futebol, é como eu devo me comportar perante determinada situação no jogo.

Como dizia Vitor Frade: “Modelo de jogo é tudo. É uma sintonia com tudo que é envolvido. E pode, existindo, estar de acordo com aquilo que quero modelar ou, existindo, contrariar bruscamente aquilo que quero modelar” (atrevo-me a dizer que tudo depende do treino). O modelo de jogo é a concepção geral onde eu quero fabricar o jogo. Que alberga também a forma de jogar. E parafraseando o mesmo autor (V.Frade) “Modelo de jogo é algo que não existe a lado nenhum, todavia a gente procura encontrar”. E se, por virtude de um bom trabalho, eu chegar perto do meu ideal, devo imediatamente estabelecer um novo modelo, para a devida manutenção da máxima forma competitiva. Melhor dizendo, o modelo deve constantemente se “auto-desenvolver”, sempre buscando a sua constante evolução.

Alcançar, enfim, verdadeiramente, o alto rendimento. Essas são as necessidades fundamentais. Ser, independentemente, coerente com o tipo de jogo que pretendo, e a forma como se constrói esse jogar.

Na minha percepção, o que há de mais fascinante nisso tudo, é que não interessa qual é o modelo de jogo, qual minha opção de jogo. O que interessa realmente é que haja um modelo de jogo, invariavelmente de qual seja. Que exista uma opção de jogo bem definida, caracterizado e bem estruturada. Porque formas de jogar há muitas. E no futebol não há uma relação linear com uma dada metodologia e o sucesso na competição. Outras equipes que ganham alicerçam essa fabricação de jogar, essa forma de jogar em processos totalmente diferentes e antagônicos, mas também ganham. E, com certeza, também terão alguma validade.

Sendo o treino um meio de repetição do processo de resolver problemas, e não apenas uma repetição do meio de resolver problemas, devemos considerar o treino como um processo de ensino-treino. Desde cedo devemos estar preocupados com esse processo. Esse processo é identificado fundamentalmente pela presença de conteúdos que tenham a ver com o jogar que se pretende. Temos que, com isso, ser coerentes com os princípios desse jogar. Porque é esse processo que vai possibilitar a tal “cultura de jogo”, um conjunto de operações e comportamentos que identificam a equipe.

O entendimento desse processo passa por reconhecer a necessidade do jogo e de sistematizar e inventar os princípios inteiramente indispensáveis. E depois viabilizar o seu aparecimento, a sua construção, a sua engendração, o seu desenvolvimento, com mais ou menos tempo (dependendo do treino). Isto alicerçado numa lógica de ensino-treino que tem uma caracterização muito peculiar, a sua. Porém, devendo sempre ser arquitetada com preceitos científicos e metodológicos. Temos que assimilar nossa forma de jogar. Isso que promove identidade. Isso que faz jogar de olhos fechados. Isso só se consegue treinando, com coisas bem precisas e concretas, que são os princípios. A fim de automatizar o nosso modelo.

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As condutas preferentes para desenvolver a iniciativa defensiva no jogo

No futebol, muitos treinadores optam por condicionar suas equipes a ter uma conduta no momento defensivo do jogo que seja agressiva, intensa e determinada, na qual os jogadores estão sempre pressionando o adversário. E, desta forma, colocar a equipe em controle e protagonismo do jogo mesmo sem ter a posse de bola.

Porém, para estabelecer essa iniciativa defensiva como um comportamento tático, é preciso desenvolver cenários nos treinamentos que permitam que esse comportamento seja revelado de maneira coletiva, a partir das interações entre os atletas.

Evidente que muitos são os métodos para alcançar esse objetivo. Nesse sentido, a finalidade dessa reflexão é apenas expor de maneira simples (pois precisaria de muito mais linhas para desenvolver todo o processo) as condutas preferentes que acredito serem importantes para se buscar uma iniciativa defensiva eficiente no momento defensivo.

Penso que para operacionalizar essa ideia é necessário pré-estabelecer algumas condutas preferentes que os atletas terão que desempenhar para encontrar vantagens sobre o adversário no momento em que estão tentando recuperar a bola. São elas: a responsabilidade zonal; a ação de cobrir a bola; posicionar-se em vantagem posicional defensiva e gerar triângulos defensivos.

Essas condutas ocorrem de maneira simultânea e se estabelecem a partir da organização da equipe. Abaixo irei descrevê-las e esboçar alguns exercícios em formato de jogos que permitem manifestar tais condutas.

A 1ª) Responsabilidade zonal: divisão de zonas no campo em que os jogadores são responsáveis por pressionar o adversário.

A figura abaixo ilustra uma forma de se desenvolver a organização dessas zonas de responsabilidade em um jogo de aplicação (7×7 + 2C) em que cada jogador se responsabiliza por pressionar em uma zona (de maneira dinâmica). Podendo entrar em uma outra zona somente para fazer uma cobertura ou para gerar uma vantagem numérica (dobra de marcação) quando o adversário estiver parado ou mal perfilado.

Diretor técnico da FCBEscola São Paulo
Imagem: Agustin Peraita

 

A 2ª) Ação de cobrir a bola: o jogador antes de pressionar o adversário deve primeiramente cortar uma linha de passe para um possível receptor adversário e depois disso sair para cobrir a bola. A ação consiste em pressionar o portador da bola com determinação e não apenas “diminuir” o seu espaço efetivo de jogo.

A figura abaixo esboça uma forma de reproduzir esse contexto em um Rondo de 3×3+2C, onde dois dos jogadores são responsáveis por pressionar sempre em três das quatro zonas de maneira dinâmica.

Diretor técnico da FCBEscola São Paulo
Imagem: Agustin Peraita

 

A 3ª) Situar-se em vantagem posicional defensiva: o jogador que está pressionando na zona onde está a bola, ao cortar uma possível linha de passe, já está ficando em vantagem posicional, pois seu adversário não consegue receber a bola, ao menos que se movimente para criar uma nova linha de passe.
Nesse momento, os outros jogadores das outras zonas, estão posicionados ao lado dos adversários, onde poderão ou antecipar (se o passe for fraco), ou impedir a progressão do adversário a partir dessa vantagem estabelecida de maneira posicional.

A 4ª) Gerar triângulos defensivos: os jogadores que cercam o companheiro que está pressionando o adversário com a bola, além de estarem em vantagem posicional defensiva, buscam formar triângulo, visando realizar coberturas defensivas para recuperar a bola e evitando passes que superem essa pressão.

A figura abaixo descreve um jogo de aplicação (6×6) em espaço reduzido, em que cada jogador pode defender uma zona do campo específica. Podendo entrar em uma outra zona de um companheiro para fazer uma cobertura ou para gerar uma vantagem numérica (dobra de marcação) quando o adversário está parado ou mal perfilado.

 

Diretor técnico da FCBEscola São Paulo
Imagem: Agustin Peraita

 

A partir do estabelecimento dessas condutas e da vivência delas nos treinamentos em diferentes cenários, o comportamento da iniciativa defensiva vai se manifestando com regularidade em todas as fases do jogo.

Ainda pensando nas zonas de responsabilidade de pressão, a figura abaixo demostra como estabelecer 7 zonas a partir da plataforma 1-4-3-3 (a mesma do adversário) na saída de bola, aplicando uma pressão zonal em bloco alto.

A partir da ação do adversário, os jogadores vão se reorganizando para pressionar em mais de uma zona de maneira dinâmica e, com isso, executando as condutas necessárias para recuperar a bola.

Treinador da FCBEscola São Paulo
Imagem: Jonathan Silva

 

Caro leitor, toda essa reflexão visa apenas demonstrar um dos possíveis caminhos para gerar condutas preferentes no momento em que a equipe está buscando recuperar a posse de bola. Mas, sem dúvidas, existem outros métodos para cumprir esse objetivo.

É preciso deixar claro que esta proposta visa despertar nos atletas um comportamento de menor “expectativa” e maior iniciativa defensiva, ou seja, estabelecer na equipe um protagonismo dentro do jogo (e portanto controlá-lo) ainda que não se tenha a bola. Mostrar aos jogadores que é possível influenciar no jogo em todos os momentos, mas com as condutas certas e organizadas, evitando desgastes físicos e, principalmente, mentais.

Nessa perspectiva a frase “quem tem a bola joga e quem não tem corre”, poderá ser substituída por “quem tem a bola joga e quem não tem, joga também”.

Forte abraço e até a próxima!

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Temporada de 2017 foi produtiva para o Marketing e Comunicação dos clubes

O futebol de clubes do Brasil caminha para o fim da temporada e já tem o seu máximo campeão. Teve pontos altos e pontos baixos dentro e fora de campo. Muitos dizem que foi sem graça, haja vista o nível competitivo. Entretanto, é preciso observar todas as divisões: Copa do Brasil, campeonatos regionais e participações brasileiras em taças continentais, e então percebe-se totalmente o contrário. Teve muita graça! Em termos de marketing e comunicação o futebol do Brasil está muito atrás dos grandes mercados internacionais. No entanto, esta temporada foi a mais “produtiva”.

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Reprodução: Twitter

 

Nunca as postagens, os tweets e os memes foram tão criativos. A criatividade daqueles que controlam as redes sociais dos clubes é imensa e confere um aspecto mais leve e bem-humorado ao futebol. De valores e jogo limpo. Deixa de lado uma rivalidade doentia e rompe com um comportamento de ignorância e intolerância de alguns torcedores em relação aos de um outro clube. É um grande instrumento para a implementação de uma cultura de paz e tolerância.

Em termos de produto, como logomarca e identidade própria, a “Copa do Nordeste” foi mais uma vez muito bem-sucedida. O êxito da competição em 2017 faz com que as equipes se preparem mais para a edição do próximo ano. Aumenta-se a competitividade e o nível de jogo. Fica mais agradável ao torcedor. A idealização do “Derby do Centenário” entre Palmeiras e Corinthians, gerou conteúdo e expectativa entre imprensa e adeptos. Há poucos dias, para fins de comparação, os especialistas levantavam estatísticas dos confrontos deste ano que marcaram os cem anos do clássico.

Sorteio da Copa do Nordeste. Foto: Divulgação
Sorteio da Copa do Nordeste. Foto: Divulgação

 

Diante disso, 2017 – que ainda não terminou – sem sombra de dúvidas foi o ano mais criativo para o marketing e comunicação dos clubes de futebol do Brasil. São vários os exemplos desta temporada. E ainda há espaço para muito mais. O mercado publicitário no Brasil é enorme, maior que os de muitos dos grandes mercados mundiais do futebol de clubes. Trabalhá-lo como um produto é questão de tempo, mas que pode se antecipar conforme a estrutura profissional dos clubes aumentar: voltar-se para o mercado, predomínio de uma visão estratégica e corporativa, em busca de resultados não apenas financeiros, mas também institucionais. 2018 promete ser bem melhor.

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Sonhar, não basta. Desejar, não basta

Nos enganamos em pensar que o futebol é um jogo apenas de execução. Antes de fazer precisamos pensar no que fazer. Antes da execução temos a cognição, mesmo que de forma subconsciente. Não devemos cair na ilusão do “basta saber fazer” para termos sucesso nos diversos e distintos confrontos que ocorrem durante os 90 minutos. Necessitamos pensar sobre o que estamos fazendo e sobre o que fazemos (mesmo quando não há tempo para isso).

E aqui falo de subconsciente! Sim, a principal atuação do treinamento é no subconsciente! O movimento individual e coletivo foi trabalhado de um forma tão qualitativa que ficou para aquele lugar na “caixa craniana” que fica guardada as memórias de longo prazo.

Neste caso, preciso pedir para que relembremos daquele conhecimento que já vigora no campo da ciência há algum tempo: ⅔ do tempo total de realização do movimento é gasto em tomada de consciência e decisão, e apenas ⅓ é gasto em execução do movimento em si. O comportamento individual e coletivo é um hábito que se adquire na prática, e que fica “impregnado” na consciência. Se executar representa ⅓ de todo o tempo gasto no jogo, por qual motivo devemos apenas se preocupar com o executar?

Assim, fica inviável preocupar-nos somente em aumentar a velocidade/frequência/plasticidade do gesto, temos que ter uma atenção maior com relação ao “pensar rápido”, ao raciocínio e ao poder de decisão que um atleta pode vir a alcançar, sendo essa característica que diferencia um atleta de alto nível dos demais jogadores de futebol. É necessário captar e selecionar a informação relevante de forma rápida; é preciso conscientizar e decidir rápido para que os mecanismos de tomada de decisão e execução sejam também rápidos, eficazes e eficientes.

Não podemos dissociar corpo de mente; os dois interagem unidos e em mesma intensidade com o ambiente. O que foi o “Erro de Descartes” (filosofo francês) no ponto de vista de Antonio Damásio (Neurocientista), que escreveu um livro com este título. Neste livro ele fala da importância das emoções nos processos de memória. Conforme o mesmo, as emoções são conjuntos de reações químicas e neurais, visando sempre a sobrevivência de um organismo. Damásio demonstrou que razão e emoção não “jogam em campos diferentes”, contrariando a perspectiva amplamente difundida de que “decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão se misturam tanto quanto água e azeite”. Hoje devemos reconhecer que as emoções estão implicadas nas percepções que fazemos do mundo, nas tomadas de decisões, nos raciocínios, na aprendizagem, nos processos de memorização, nas ações, na concentração, etc. E, quanto mais treinamos com “qualidade”, mais percebemos que as emoções são os pilares para um aprendizado concreto e duradouro (subconsciente).

Por isso, treino é tudo. Na teoria dos sistemas dinâmicos, entende-se que os comportamentos e as destrezas motoras se adaptam de forma intencional aos constrangimentos impostos pelo envolvimento, durante a realização de uma tarefa. Ou seja, quanto mais a alto rendimento estamos ou pretendemos estar, mais precisamos entender que o treino deve ser considerado o principal meio a se chegar em níveis mais elevados de futebol. Mas precisamos ter um treino de “qualidade”, que almeje a qualidade e não a quantidade.

Executar é uma parte do processo. Um processo que depende de outras partes. Um processo que pode ser melhorado e aperfeiçoado. Todavia, não basta executar. Aliás, se pensarmos assim, estaremos pensando de uma forma analítica um problema complexo, o que não parece de todo certo. Deixando de pensar o futebol de uma forma sistêmica. E, em outros casos, quando optamos a se predispor em seguir (ou entender, ou copiar, etc.) determinada “forma de pensar”/metodologia, se contradizer (principalmente na relação palavras x ação) não facilita a um “possível” aprender com o mentor.

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Evoluímos, mas ainda resvalamos

Em conversa com meu amigo Gustavo Nabinger, atual treinador da categoria sub-15 da Ponte Preta, dissertamos sobre alguns pormenores que ainda dificultam a transcendência do nosso futebol para outro patamar, e isso rendeu a coluna de hoje.

Bem, inicialmente temos que enaltecer as coisas boas dos últimos anos. Após a Copa do Mundo de 2014, está acontecendo uma transformação que podemos até classificar como radical no perfil dos treinadores nacionais. Cursos da CBF, intercâmbios na Europa, troca de informações sem receio, vem ganhado cada vez mais adesão. Também, o nível dos jogos na base está, a cada ano que passa, melhor, e novamente muitas promessas estão surgindo. Porém, se por um lado a profissionalização e busca por novos horizontes dos treinadores e integrantes da comissão técnica começam a ganhar corpo, outros fatores restringem a exponenciação dos profissionais devido a paradigmas que ainda estão presentes diariamente no futebol, vejamos:

PEQUENA EVOLUÇÃO NOS DIRETIVOS

Não podemos esconder que melhorou a qualidade dos diretivos, mas ainda muitos estão no clube pelo amor antigo, e isso por um lado tem um fator bonito, significativo, mas ao mesmo tempo cria um ciclo e uma identificação que foge às vezes da racionalidade. Essa tendência, apesar da evolução dos últimos anos, ainda demonstra um perfil de gestão antiga, com limitação de conhecimento específico e discrepância de orçamentos que batem na casa de dezenas (na base) ou centenas (no profissional) de milhões de reais e pouca lógica processual em todas as áreas. E, sabemos que atualmente o clube pode ser classificado como empresa, apesar de sua particularidade cultural. Então, se necessita de capacitação, formação e currículo adequado para assumir as demandas funcionais. Negligenciando isso, temos o que acontecia e ainda acontece em alguns lugares: gestão ruim da marca, instabilidade de desempenho ano a ano, dívidas, desperdício de dinheiro e de talentos e péssimo aproveitamento dos recursos do clube.

SABER CATIVAR O TORCEDOR

Poucos clubes sabem que sua maior riqueza é a torcida (o que é de uma empresa que não tem ou não conhece seus consumidores?), e por isso mesmo, pouco investem em atrair novos torcedores e conhecer os atuais. Temos exemplos claros de outros esportes ou outras culturas relativamente a isso. Por que empresas pagam fortunas para ter acesso a bancos de dados de clientes e seus hábitos de consumo e os clubes de futebol não investem em ter estas informações e aproveitá-las comercialmente? Nada melhor para o marketing do que associar sua marca a um nicho específico de consumidores num ambiente com grande apelo emocional. Isto vale uma riqueza e precisa ser mais bem explorado pelos clubes para aumentar o orçamento.

ENTENDIMENTO DAS CATEGORIAS DE BASE

Qual a razão da categoria de base existir no clube? É gasto ou investimento? É formar atletas para a equipe profissional ou para o mercado? Ou para os dois? Qual o perfil do atleta que deve ser captado e desenvolvido e como fazer isto? Qual o planejamento de carreira para este atleta chegar ao profissional? Qual a relação da equipe profissional com a base? Em muitos clubes são dois departamentos que pouco conversam ou que rivalizam ideias e pessoas. Quanto custa um atleta para o clube de sua formação até chegar ao profissional e por qual valor deve ser negociado para que tenha custo/benefício vantajoso? Como mensurar a qualidade do trabalho desenvolvido? Através de títulos, desempenho competitivo, estatísticas, algum outro índice?

ESTRUTURA DE TRABALHO

No Real Madrid o gramado de todos os campos do Centro de Treinamento (base e profissional) são trocados a cada um ano. A razão disso é: após este período, por melhor que seja a manutenção, eles deixarão de ser impecáveis e, economizar meio milhão de reais na troca de cada campo, pode custar milhões de reais em prejuízo se um atleta se lesionar, sem contar a perda de desempenho por conta de questões técnicas, como velocidade de jogo. É como se você ganhasse uma Ferrari na loteria e colocasse pneus carecas para economizar. Não parece uma decisão inteligente, não é mesmo? Esse pode ser um exemplo radical a nossa realidade, mas acontece. Em menor escala e possível de ser realizado aqui, outras equipes, de nível inferior e até mesmo sem divisão no profissional, possuem grandes estruturas, com campos bons, materiais bons e outros aspectos para o jogador receber melhores condições de treinamento. Nada astronômico como os grandes centros, mas coisas simples, bem organizadas e especialmente mantidas e cuidadas. Então, tudo inicia pela estrutura.

Para fechar, está claro que investir em profissionalização, ou seja, em pessoas, identificadas com o progresso, com as novas tendências, é uma das melhores soluções para o momento. Isso é um pequeno investimento e trará retorno, dará lucro. Como no Brasil não temos o costume de ter a infra-estutura em primeiro plano para depois realizar o trabalho, e se trabalha com baixas possibilidades de estrutura, se o foco estiver na capacitação dos profissionais gerindo uma boa relação com múltiplas-possibilidades, com os torcedores que são os verdadeiros patrimônios do clube, aos poucos o clube vai ganhando corpo, vai criando um caixa funcional, formando jogadores, vendendo jogadores, instituindo um mecanismo financeiro anual, e aí sim melhorando sua infra-estrutura, pois começamos tudo de ponta cabeça por aqui. Acredite, esse ciclo evolutivo, fará a diferença, mas tudo começa pela cachola das pessoas e não apenas pelas emoções do resultado de um jogo.