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Música e bola

O relato desta coluna tem relação com o perfil de espetáculo da música e do futebol. A analogia nada tem a ver com as dancinhas (horrorosas, diga-se de passagem) das comemorações de gol dos artilheiros do Campeonato Brasileiro. A reflexão vem desde um fato que ocorreu comigo no último final de semana e uma conversa com um amigo, pertencente ao mundo do futebol.

A história se resume a um show musical que fui com minha noiva no sábado (27/10). Um espetáculo que aguardava com grande expectativa, com um valor compatível ao seu porte – na base de R$ 60 por pessoa – e que lotou a casa, evidenciando que o mesmo era de fato popular.

Acontece que o roteiro do show, conforme todos vinham esperando, praticamente inexistiu por conta de um certo amadorismo do músico, que não se encontrava nos melhores dias (para ser gentil, pois claramente este não se preparou para fazer um grande espetáculo, aparentando embriaguez ou algo do gênero). Para ser sucinto, fomos para casa no meio do show, ouvindo outras pessoas dizer que “foi o pior show da minha vida”, o que simplifica o ocorrido.

Trata-se da “boleragem da música”, pelas palavras deste meu amigo. E de fato foi, tal e qual acontece quando um grande jogador vai para a noite na véspera de um jogo (importante ou não) e não consegue render todo o seu potencial.

Quando falamos em criação de um espetáculo ímpar, com um conteúdo atraente em um ambiente agradável de entretenimento, devemos pensar no conjunto da obra, que vem desde a formação de uma excelente equipe técnica, que prepare adequadamente o artista para que este possa brilhar e gerar retornos satisfatórios em termos de imagem e marketing para o clube.

Para concluir o raciocínio: está claro que as pessoas dispõem de recursos para o consumo de plataformas de entretenimento, estando na mira tanto a música quanto um jogo de futebol. Mas os consumidores precisam ser respeitados e quem entrega o espetáculo precisa fazê-lo na mesma medida das expectativas de seus clientes.

Do relato de caso temos como resultado o fato de eu não querer mais ir a shows deste cantor, se alastrando em um pequeno viral à medida que eu contar para amigos e grupos de amigos o ocorrido. Na mesma medida, pesquisas mostram e conversas com pessoas próximas que atestam que evitam sumariamente ir a estádios de futebol por conta de péssimas experiências do passado. E assim se (des) constrói uma imagem…

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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A formação de jornalistas esportivos

Não conheço nenhum segmento profissional que atraia pessoas com perfis tão diferentes quanto o jornalismo esportivo. A despeito de ser repleta de problemas – e qual não é, afinal? –, essa seara ainda é vista como uma opção de unir paixões, um cotidiano sem rotina e a chance de formar opiniões.

“Eu abriria mão de tudo isso”. Ouço isso recorrentemente de pessoas que estão em situação estável na carreira, mas insatisfeitas com a atual posição, e que veem no jornalismo esportivo uma chance de guinada.

Uma das coisas mais legais de dar aulas de jornalismo esportivo é ver o quanto as pessoas que se interessam pela área têm origens diferentes. O segmento parece comportar tudo, desde aqueles que sempre sonharam com isso até os que enxergaram aí um meio de redirecionar a carreira.

Com os megaeventos esportivos que o Brasil receberá nos próximos anos, então, o segmento passou a ser ainda mais atraente. Até para pessoas que não são naturalmente apaixonadas por esporte, mas consideram o segmento promissor em função do calendário de curto e médio prazo no país.

O curioso é que eu sempre considerei a paixão como o maior elo entre os profissionais e postulantes a vagas em jornalismo esportivo. Nos últimos tempos, porém, nem isso tem sido um fator comum a todos os que tentam enveredar por esse caminho.

Se o elã não é o único requisito básico no jornalismo esportivo, o que sobra, então? Com base empírica, posso dizer que as características comuns a todos na área são a vontade de opinar e a impressão de conhecer. Afinal, todo mundo acha que entende de esporte.

Esse é um problema muito maior do que o jornalismo, na verdade. É algo que atinge até as pessoas que estão no meio e que vivem o esporte. Tê-lo como assunto cotidiano, saber as regras e conhecer as táticas não são sinônimos de entender como o jogo funciona.

Independentemente da modalidade, o esporte tem atletas que sabem resolver problemas e sabem os melhores caminhos em cada situação. Só não sabem por que escolheram aquela solução ou aquela rota. Também é assim no jornalismo.

Pense em quantas vezes você leu, ouviu ou viu alguém dizendo que “o time A está melhor em campo porque finalizou mais”. Ou então descrevendo todos os movimentos de um lance para relatar o que acabou de acontecer.

Em geral, descrições de movimentos ignoram o mais relevante em um lance: os porquês. É fácil dizer que um atacante driblou dois marcadores, invadiu a área e finalizou no canto esquerdo do goleiro. Difícil é explicar a quem acompanha o jogo o motivo de aquilo ter acontecido. Mesmo se o motivo for simplesmente o improviso.

Essa transição da opinião pura para uma análise fundamentada é o que separa a maioria dos postulantes ao jornalismo esportivo dos que realmente desempenham bem a profissão.

Entender os porquês do jogo – qualquer jogo – exige um grau muito maior de atenção. Paulo Vinícius Coelho, comentarista dos canais “ESPN”, certa vez comparou a atenção que as pessoas dedicam ao futebol com o grau de concentração que elas têm no cinema.

No cinema, não há nada além do filme. Isso permite, por exemplo, que alguns diretores escondam informações ou até homenagens em algumas cenas. Nos Estados Unidos, esses elementos são chamados de Easter Eggs.

Se houvesse Easter Eggs no futebol, sou capaz de apostar que eles seriam pouco notados pelo público em geral. Há um teste de atenção no site de vídeos YouTube que mostra um pouco disso. Jogadores de basquete trocam passes, e o objetivo do exercício é dizer quantas vezes
a bola muda de mãos. Veja a avaliação:
 


 

E aí? Você fez o teste? Acertou o número de passes? É óbvio que esse é um exemplo extremista e que uma situação assim nunca aconteceria em um jogo de futebol profissional. Também é óbvio que o grau de atenção ao lance que acontece em primeiro plano nunca é tão alto quanto o que dedicamos quando seguimos a movimentação da bola no vídeo do YouTube. Tente pensar, porém, no quanto você não tem o hábito de olhar um jogo de futebol de forma sistêmica.

O problema é que você pode ter esse hábito. Um profissional, não. O jornalista que se contenta com o que vê e com o que faz parte do cenário comum a ele perde a chance de fomentar discussões sobre o que realmente importa e estabelecer debates que enriqueçam a análise do jogo.

PS: Como tantos amigos e colegas de profissão, aprendi a ler jornalismo esportivo com exemplares do “Jornal da Tarde”. Foi ali que eu tive as primeiras noções de estilo, jargões e do quanto essa área admite visões dicotômicas. Foi ali que eu tive a certeza de que jornalismo esportivo era o que eu queria para mim. O veículo surgiu nessa área e foi sinônimo de excelência durante muitos anos. Entretanto, não foi só o esporte que perdeu com a morte do “JT”. Toda a sociedade perde com um veículo a menos para se manifestar, e isso é muito triste.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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Vantagem de se jogar em casa no futebol

Atualmente são vários os estudos que buscam identificar os fatores que podem influenciar diretamente nos resultados do jogo de futebol. Um dos fatores mais indicados é a vantagem de se jogar em casa (VC), ou seja, no seu próprio estádio.

A metodologia que vem sendo utilizada para a quantificação da VC é a de Pollard (1986), a qual caracteriza que existe a VC quando o aproveitamento é maior que 50%. O cálculo é realizado da seguinte maneira: o número de pontos ganhos em casa pelo mandante dividido pelo número total de pontos adquirido no campeonato. Por exemplo, o mandante registrou 300 pontos em casa e 100 pontos fora de casa. A VC seria calculada dessa maneira: 300 / (300+100) = 0,75 = 75%.

Utilizando esse método e fazendo a análise de 1.520 partidas dos campeonatos nacionais de 2007 de quatro países (Brasil, Espanha, Inglaterra e Itália), identificou-se o favorecimento da VC em todos os campeonatos estudados, sendo: Brasil (65%), Espanha (59%), Inglaterra (62%) e Itália (62%) (Pinto et. al., 2008).

Buscando observar essa VC no Campeonato Paulista de futebol entre os anos 2007 e 2011, foram analisados 1.010 jogos das equipes profissionais e, utilizando a mesma forma de quantificação da VC, ficou evidente que em todos os anos de disputa do principal campeonato estadual brasileiro houve a VC. Os resultados foram: no ano de 2007 (59%), 2008 (67%), 2009 (63%), 2010 (57%) e 2011 (57%) (Mascara et. al., 2011).

Analisando as categorias de base do Campeonato Paulista de futebol de 2007 (infantil, juvenil e juniores), totalizando 1.590 partidas, sendo 533 jogos do infantil, 537 jogos do juvenil, 260 partidas da equipe juniores da 1ª divisão e 260 jogos da equipe juniores da 2ª divisão, viu-se que a VC não se apresentou favorável em todas as categorias.

O grupo infantil apresentou 49% da VC e o juvenil registrou 48%. Já para os grupos de juniores, a VC se mostrou favorável, computando 56% na equipe da 1ª divisão e 61% na equipe da 2ª divisão (Coledam et. al., 2008).

Com os atuais dados da literatura seria possível ponderar que a vantagem de jogar em seu campo de jogo exista para as categorias profissionais, tanto do Brasil como de outros países.

O fenômeno, porém, não parece apresentar regularidade nas categorias de base. Notoriamente, há a necessidade de se desenvolver um corpo de pesquisa mais sólido a respeito. Realizar estudos que possam se aprofundar nas inúmeras questões pertinentes do fenômeno.

Referências bibliográficas:

Coledam, D. H. C.; Pinto, F. P.; Santos, J. W. Comparação da vantagem de jogar em casa nas categorias Infantil, Juvenil e Junior no campeonato paulista de futebol do ano de 2007. Revista Motriz, Rio Claro, v. 14, n. 2, p. S1-S141. abr./jun. 2008.

Mascara, D. I.; Carvalho, D. M.; Chiminazzo, J. G. C. Vantagem de jogar em casa no campeonato paulista de futebol. Anais 4° Congresso Brasileiro de Ciências do Futebol, 2011.

Pinto, F. P.; Coledam, D. H. C.; Santos, J. W. Comparação da vantagem de “jogar em casa” nos campeonatos nacionais brasileiro, espanhol, inglês e italiano da primeira divisão na temporada de 2007. Revista Motriz, Rio Claro, v. 14, n. 2, p. S1-S141. abr./jun. 2008.

POLLARD, R. Home advantage in soccer: a retrospective analysis. J. Sports Science, v. 4, n.3, p. 237-248, 1986.

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Futebol e a análise tática, uma união necessária para o desenvolvimento

No futebol, é comum afirmarmos que o mesmo é multidimensional, pois há vários aspectos que o integram, como fatores táticos, técnicos, físicos e psicológicos. (Bangsbo, 1993; Miller, 1995).

Nesse sentido, o entendimento do jogo de futebol se faz necessário, principalmente, destacando suas características de imprevisibilidade, irredutibilidade, sendo sistêmico, aonde irá requerer habilidades abertas e alta capacidade de adaptação às necessidades que o próprio jogo expressa.

Ao jogador de futebol, o jogo requer a todo tempo, inúmeras tomadas de decisões em diversos lances, sendo que neste processo, o praticante tem que observar processar e avaliar as situações, para que a partir disso ele tome a melhor ação técnica e tática para a resolução do problema encontrado no jogo.

Sendo o futebol um esporte situacional (Pittera & Riva, 1982; Morino, 1985) de prevalência tática (Gréhaigne, 1992; Garganta, 1997), observa-se a necessidade do analista de jogo em clubes de futebol. O mesmo tem como função observar, coletar e tratar dados a fim de poder oferecer ao clube em que trabalha um feedback e/ou um diagnóstico da performance, afim de que se demonstre os pontos positivos a serem valorizados e os pontos que vão requerer melhorias.

Sendo assim, o aumento de interesse de clubes e acadêmicos por este tipo de trabalho tem demonstrado a valorização e a necessidade de maior sustentação teórica e prática que permita aos analistas passar informações reais sobre o desempenho de sua equipe sendo antes, durante ou após a partida.

No futebol, os instrumentos existentes apresentam variáveis técnicas ou de simples descrição dos eventos do jogo, como o tempo de posse de bola, ocorrência de passes, setor de origem da jogada, entre outros (Castellano Paulis; Hernández Mendo, 2002).

No futebol, poucos estudos buscam a inter-relação entre os componentes deste esporte, a fim de entender o jogo em referência à configuração situacional do futebol.

Sendo assim, podemos realizar questionamentos (Garganta, 2001), para que possamos entender o jogo de futebol de uma melhor maneira:

• Quem – executa a ação?
• Qual – como e de que tipo a ação é realizada?
• Onde – se realiza a ação?
• Quando – é realizada a ação?

Como isso, apresento o CAAF (Centro de Análises Aplicadas ao Futebol), que está inserido no LEPE (Laboratório de Estudos em Pedagogia do Esporte, FCA, Limeira), e que proporciona aos seus integrantes discussões sobre diversas vertentes do futebol através de reuniões periódicas em nosso laboratório, que em crescente expansão e início de produção e divulgação científica (Añon, et. all. 2012; Añon & Scaglia, 2012; Catanha, et. all. 2012; Duarte, et. all. 2012; Lima, et. all. 2012), desenvolveu uma metodologia de análise de jogo, que apresenta e descreve as características do modelo do jogo de equipe de futebol.

Referências bibliográficas:

AÑON, I. C, CATANHA, I. F. L, LIMA, L., VIEIRA, L. M., SANTOS, M. V. R., FRANCHINI, V. H. F., DUARTE, J. G. S., LIZANA, C. J. R., SCAGLIA, A. J., Análise comparativa dos fundamentos técnicos realizados pelo santos F.C. e seus adversários na copa Libertadores da América. In: XIV Congresso Ciências do Desporto e Educação Física dos Países de Língua Portuguesa, 2012, Belo Horizonte. Desporto: cultura, estética e excelência. Belo Horizonte : UFMG/Casa da Educação Física, v. 1. p. 1-1. 2012.

AÑON, I. C., SCAGLIA, A. J., “Scout zona de ação do segundo jogo Barcelona e Real Madrid no Campeonato Espanhol”. V Congresso Brasileiro de Ciências do Futebol. São Paulo, 2012.

BANGSBO, J. (1993): The Physiology of Soccer – with special reference to intense intermittent exercise. August Krogh Institute. University of Copenhagen. Denmark.

CASTELLANO PAULIS, J.; HERNÁNDEZ MENDO, A. Análisis diacrônico de la acción de juego en fútbol. Revista Digital, Buenos Aires, Ano 8, no 45, 2002. Disponível em: . Acesso em: 17 jul. 2012.

CATANHA, I. F. L., VIEIRA, L. M., AÑON, I. C., SCAGLIA, A. J., “Scout fundamentos do segundo jogo Barcelona e Real Madrid no Campeonato Espanhol”. V Congresso Brasileiro de Ciências do Futebol. São Paulo, 2012.

DUARTE, J. G. S., AÑON, I. C., SCAGLIA, A. J., “Análise dos dados Técnicos e táticos realizados pelos goleiros no confronto Barcelona e Real Madrid (BBVA 2012)”. V Congresso Brasileiro de Ciências do Futebol. São Paulo, 2012.

GARGANTA, J. (1997): Tactical modelling in soccer. A study about the attack organisatin in top lever soccer teams. PhD Thesis. Faculty of Sport Sciences and Physical Education. University of Porto.

GARGANTA, J. “ A análise da performance nos jogos desportivos. Revisão acerca da análise do jogo.“ Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, v.1. n.1. p.57–64. 2001.

GRÉHAIGNE, J.F. (1992): L´Organisation du jeu en football. Editions Actio. Joinville-le-Pont.

LIMA, L. O., AÑON, I. C., SCAGLIA, A. J., “Scout Tempo e número de jogadores por ataque do segundo jogo Barcelona e Real Madrid no Campeonato Espanhol”. V Congresso Brasileiro de Ciências do Futebol. São Paulo, 2012.

MILLER, R. (1995): A “small-game” approach to tactical awareness. Scholastic Coach, 64 (10): 27-30.

MORINO, C. (1985): Alcuni problemi dei giochi sportivi. Rivista di Cultura Sportiva, IV (1): 54-58.

PITTERA, C. & RIVA, C. (1982): Pallavolo – dentro il movimento. Tringale Ed. Torino.

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O que o futebol deveria aprender com Robert Plant

Fui ao espetacular show de sir Robert Plant neste fim de semana. Muitas memórias de adolescência vieram à tona, pois o rock and roll clássico do Led Zeppelin marcou algumas das experiências e momentos dessa época de descobertas e incertezas.

Naturalmente, esperava-se que Plant desfiasse o repertório de músicas da banda que o consagrou como vocalista.

Não foi o que se viu. Para um respeitável senhor de 64 anos, foi um show de bastante intensidade e energia, mas a plateia pode conhecer músicas do próprio Plant, todas muito bem conduzidas pela banda que o acompanha, The Sensational Space Shifters.

A banda conta com músicos de primeira linha, mas um dele roubou a cena: Juldeh Camara, africano (pelo que entendi, de Gâmbia), que tocou dois instrumentos típicos do continente e que se encaixaram perfeitamente à experiência vanguardista de Plant em misturar rock com tais infusões sonoras.
 


 

Plant tem se negado a ficar refém e escravo do legado do Led Zeppelin. No show, foram apresentados temas da banda, com essa pegada distinta e rica.

No futebol brasileiro, alguns dogmas, hábitos, costumes pautam o comportamento de muitos profissionais. Isso é decorrente da visão de curto alcance que se tem do futebol.

Enxerga-se longe quando o assunto é exaltar conquistas e feitos do passado. Um saudosismo, uma nostalgia, paralisantes, que impedem a introdução do novo – sejam ideias, pessoas e processos de gestão.

Plant rompe com o mecanismo que lhe permitiria ficar eternamente preso àquilo que ele mesmo construiu, mas que já não serviria mais se fosse sempre realizado.

Paulinho da Viola, na introdução da música “Meu mundo é hoje”, diz que “não vive no passado; o passado vive em mim”.

Jamais conseguiremos, ainda que queiramos, renegar a história, pois ela nos acompanhará sempre, em versões contadas pelos outros ou por aquelas que construímos.

Esse tipo de autoanálise, no espelho, ainda precisa melhorar muito no futebol brasileiro.

Assim, vamos evoluir com consistência e fundamento. Adaptar-se para evoluir. Darwinismo puro.

Simplesmente, confrontar ou negar o passado e o presente é sinal de teimosia involutiva. Para mim, Robert Plant merece o título de “sir”, porque se nega à paralisia, vive em movimento uniformemente variado.

Poderia ficar na Inglaterra, no seu chá com bolachas e vivendo dos royalties do Led Zeppelin. Esperando descer sua “Stairway to Heaven”. Prefere rodar o mundo fazendo boa música e compartilhando essa energia.

Nosso futebol precisa rolar muitas pedras ainda para alcançar esse estado de espírito que o rock consegue provocar.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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A construção de referências coletivas

Uma das grandes justificativas para a utilização do jogo no processo de treinamento em futebol deve-se à possibilidade de, através dele, induzir os jogadores, por meio de adequadas intervenções, a um nível de aplicação de comportamentos de jogo individuais e coletivos que, com outros métodos de treino, demorariam muito mais tempo para serem construídos.

Nesse sentido, as ações de cada elemento da equipe respeitam certos princípios e regras que tendem a dar ordem ao sistema e que, se estiverem em direção à lógica do jogo criado, irão aproximar a equipe da vitória.

Incontestavelmente, treina-se futebol para aperfeiçoar o nível de desempenho atual. Em contrapartida, o que já não pode ser definido como consenso é o modo que as comissões técnicas do futebol brasileiro desenvolvem suas periodizações e as operacionalizam. A julgar pelo baixo número de referências coletivas comuns apresentadas por nossas equipes na atualidade é possível concluir que os jogos (e a necessária indução) não estão sendo utilizados.

Conforme discussão semelhante de semanas atrás, quando nossas equipes recuperam a posse de bola no setor defensivo, é comum observarmos em muitas delas, dois ou três jogadores se omitirem da ação de transição ofensiva e posterior ação ofensiva. Se, por circunstância do jogo os omissos acabam sendo acionados, restam-lhe os chutões – comportamento que não precisa de jogo qualificado para ser treinado.

Outro grande problema que escancara nossa distância do nível de jogo elaborado é a ação realizada após a perda da posse de bola no campo de ataque. Enquanto dois, três ou até quatro jogadores arriscam uma pressão desordenada no portador da posse de bola (o que pede uma distância não excessiva entre linhas da equipe de modo que a mesma não fique “espaçada”), um outro grupo de jogadores (que já não subiu o bloco) recua ainda mais na ânsia de proteger o gol, ou então, procura adversários distantes da bola para “ir à caça”.

Em organização defensiva a situação é deprimente. Não é difícil observar uma distribuição semelhante a que será identificada a seguir em relação à estratégia defensiva adotada: dos dez jogadores de linha, um não marca ninguém e, quando marca, ataca o portador da bola de qualquer maneira; três ocupam o espaço e marcam individualmente os jogadores que estão na sua área de atuação; dois acompanham até o final a descida dos laterais adversários e outros quatro alternam aleatoriamente combates desordenados, proteção do gol e marcações individuais.

Mas como modificar esses comportamentos de jogo? Qual a solução que pode ser posta em prática afim de melhorar o nível de organização do nosso futebol?

A solução está no elemento central da periodização: o nível de jogo atual da equipe. Hipoteticamente, uma determinada equipe apresenta um nível de jogo “X” identificado em cada um dos momentos do jogo.

Se, para um determinado momento do jogo, o treinador espera algum comportamento coletivo e o mesmo não está acontecendo com a frequência e qualidade de ações pretendidas fica evidente que, no referido problema, a equipe (unidade complexa) não está conseguindo interpretá-lo e resolvê-lo. Não consegue, pois os jogadores (elementos da unidade complexa) estão enxergando o problema de forma diferente. Como enxergam o problema de forma diferente, consequentemente responderão a ele também de forma diferente. Em termos sistêmicos, o produto/resposta será o “todo desorganizado”.

Esta equipe de nível de jogo “X” precisa de um treinador que identifique as falhas circunstanciais apresentadas nos momentos do jogo e que elabore as sessões de treino ideais para corrigi-las.

E as correções passam, necessariamente, pela construção de referências coletivas comuns para os onze jogadores.

Se o treinador conseguir fazer com que toda sua equipe, durante o maior tempo possível, jogue o mesmo jogo, o upgrade de organização será notável.

Com bons treinos e intervenções, gradativamente os jogadores passarão a apresentar o mesmo padrão de comportamento nas situações que se repetem no jogo e nos diferentes problemas do jogo. Então, a partir das diferentes referências do jogo (bola, alvo, adversário, espaço, ou qualquer outra que a comissão deseje criar), que serão comuns a todos os jogadores, um novo nível de organização está estabelecido.

Em toda essa construção, não se pode esquecer que os objetivos do treino devem incidir nas partes (fractais) específicas do jogo e que favoreçam o cumprimento da lógica do jogo. Somente dessa forma a construção das referências coletivas faz sentido.

Para exemplificar, como exemplos de referências coletivas: linha de marcação, zonas de pressing, perda da posse da bola, adversário chegar à faixa lateral próximo à zona de risco, escanteios a favor, recuperação da posse de bola, zonas de finalização, entre outras.

Quais referências coletivas você já construiu em sua equipe?

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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A constante busca de atualização no futebol: os motivos e as desculpas para falta de iniciativa dos profissionais de futebol

O processo de evolução do ser humano é inerente às diversas áreas e setores que compõem a sociedade ao longo dos anos. A atualização constante e a busca pelo novo conhecimento é o grande diferencial do ser humano para as outras espécies.

Precisamos dia após dia nos adaptar as novas tendências sem desprezar e ignorar o que foi feito e passado por nós ou nossos antepassados, mas sim buscar sempre técnicas novas para a melhora do nosso padrão de vida.

Esse processo de atualização constante vai ao encontro de todos os setores da sociedade. Desde a medicina, tecnologia, transportes, informática, entre outros. O treinamento desportivo não pode ficar à margem dessa evolução, e a cada ano novas tendências de aplicação de treino, ou análise das modalidades específicas aparecem no mercado e facilmente são absorvidas, sem desconsiderar o que foi feito anteriormente.

Tradicionalmente, o futebol, sempre foi o esporte que mais impôs barreiras para esse processo de evolução e absorção de novas informações oriundas do meio científico.

Ao conseguir introduzir algum meio novo ou uma nova tendência no futebol, certamente ela já foi aplicada e manipulada por vezes uma década antes nos outros esportes de alto rendimento.

E esse mesmo método quando já introduzido e aceito no futebol, na maior parte das vezes, nunca é aceito na sua totalidade – muito pelo contrário, sempre nos deparamos com a maior parte dos clubes aplicando os mesmos treinos de décadas passadas, simplesmente ignorando o que foi introduzido e comprovado pelas outras modalidades como um meio mais seguro e específico de se atingir o rendimento dos atletas.

Ao analisar os recordes individuais das modalidades olímpicas nas últimas décadas percebemos que a cada ano o rendimento do ser humano vem evoluindo, mesmo ele tendo o mesmo biótipo (o corpo humano não sofre mutações), os tempos e os rendimentos dos atletas vem evoluindo cada dia mais. Pois bem, qual seria a causa desse processo de evolução?

O direcionamento dessa evolução é voltado para a atualização constante da medicina esportiva e do treinamento desportivo, em suas diversas áreas, desde a fisioterapia, fisiologia, nutrição e especialmente as técnicas de melhoras nos meios é métodos de treinamento.

Pois bem. Não conseguimos imaginar um ginasta, um nadador, um saltador, um corredor (de fundo, ou velocidade), entre tantos, treinando da mesma forma das últimas décadas, pois caso fizesse desse jeito seus tempos não evoluiriam como estão evoluindo.

O triste é analisar que no futebol é exatamente isso que não acontece. Ao observar os meios de aplicação do maior parte dos times, percebemos que aplicam os mesmos treinos das últimas décadas e por nada aceitam as mudanças. Os clubes não têm culpa, e sim os profissionais que vivem o dia a dia desse clube que tem acesso a essa nova informação e tem medo de aplicar as técnicas modernas e atualizadas de treino com receio de tirar os atletas da zona de conforto e ser responsabilizado por uma culpa caso o resultado não venha. E com isso entramos em um ciclo vicioso em que ninguém muda, e quem quer mudar, sempre é visto com maus olhos, e o processo de evolução não acontece na velocidade que deveria acontecer.

Dessa forma, no caso do futebol, os “resultados” seriam os mesmos da década de 70/80, pois a maioria dos profissionais aplica os mesmos treinos de décadas passadas sempre ignorando o que a ciência demonstra e comprova.

O principal argumento é que ouvimos dos profissionais que não aceitam os métodos modernos que o futebol é um jogo e não uma ciência, e que uma coisa é aplicar em esportes individuais e outra é aplicar em esportes coletivos.

Pois bem. Esses profissionais não estão percebendo que vôlei, basquete, rúgbi, entre tantos, também praticam um jogo e também em um desporto coletivo, e não treinam da mesma forma que nas décadas passadas.

Algum de nós viu no período de preparação do vôlei feminino ou masculino para as últimas olimpíadas os atletas saltando degraus de arquibancada para ganhar força? Ou saltando na areia para melhorar a “impulsão”?

Pois bem. Era dessa forma que treinava o vôlei na década de 80. Era errado? Não, era a informação da época. Hoje, os profissionais do vôlei se atualizaram e aplicam treino específico da modalidade o tempo todo e o resultado é fabuloso.

Mesmo exemplo vem do basquete. Antigamente, os jogadores dos clubes treinavam corridas longas para ganhar resistência e atualmente não vimos na preparação da olimpíada nenhum atleta da modalidade fazendo corridas de 1000 metros ou tiros de 300 metros para ganhar resistência – pelo contrário, treinaram e muito, mas de forma específica, e conseguimos ver o resultado positivo dessa equipe.

Um argumento recorrente para os profissionais que optam em não se especializar é que não existe tempo para treinar e o calendário é cheio de competições.

Existe meia verdade nesse argumento. Sim, pois de fato não existe muito tempo para treinar, mas quando há esse espaço (e sempre existe por menos que seja), por que se treinar de forma inespecífica?

Vamos a outro esporte. Existe algum outro calendário mais inchado que o do tênis? Os tenistas jogam de segunda a domingo, todos os dias e na semana seguinte estão competindo em outro país sempre buscando vitórias, sem pausas ao longo de toda a temporada. Treinam? Sim. Treinam muito? Não. Mas quando treinam o fazem de forma específica.

Algum de vocês imagina o Federer realizando corridas longas para suportar os cinco sets do jogo? O Nadal realizando cadeira extensora para melhorar a força do quadríceps ou rosca direta para melhora do saque? Essas cenas seriam “inusitadas” para não dizer “grotescas” em se tratando do nível dos atletas que estamos falando.

No futebol, vemos constantemente tudo isso.

Mas não quero aqui comparar esportes, cada um tem sua forma de treinar e competir. É exatamente isso que estou querendo dizer: devemos cada vez mais ver nosso esporte (o futebol) de forma específica.

Não há como ser mais específico para um futebolista do que jogar futebol, desde a partida oficial, até os exercícios que simulem as ações recorrentes ao jogo.

Esse método ligado a um trabalho de força multiarticular que visa à melhora do padrão do movimento e não de grupamento musculares isolados, proporciona uma forma menos lesiva e incisiva no ganho de rendimento do futebolista, possibilitando uma menor chance de desgaste/lesões, e aumentando a chance de aporte de rendimento específico dos atletas de futebol.

Hoje, as informações estão à disposição em livros, artigos, sites, entre outros. Todos têm acesso, diferentemente do inicio da minha carreira, em que éramos obrigados a ler livros de atletismo. Hoje, o futebol está no meio acadêmico e as informações são múltiplas, podendo todos ter acesso.

Não estamos pontuando que está certo e nem quem está errado, longe disso. Tampouco criticando aqueles que não querem ter um meio mais específico de treino. Essa é apenas mais uma ferramenta que visa despertar os profissionais do futebol a se atualizarem cada vez mais, apenas para o bem do nosso esporte.

*Sandro Sargentim é preparador físico de futebol e autor do livro “Treinamento de força no futebol”. Além disso, é docente no curso de pós graduação em Treinamento Desportivo – UNiFmu/Gama Filho e Treinam
ento Funcional – Ceafi e coordenador da pós graduação em Ciências no Futebol – UniFmu.

 

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Adriano Civita, diretor geral da série “FDP”

Humanizar a história do mais contestado dos personagens do ambiente futebolístico. Talvez esta seja a frase mais sintética para explicar a proposta de “FDP”, série do canal de TV pago HBO que estreou há um mês e conta a rotina de Juarez Gomes da Silva (Eucir de Souza), árbitro que tem um grande sonho: apitar um jogo de Copa do Mundo.

Até a concretização do momento máximo para a maioria dos representantes desta classe, ele segue com a carreira atuando em jogos de menor repercussão. Na primeira temporada, composta por 13 episódios, Juarez tem a grande responsabilidade de apitar na Copa Libertadores da América. E enquanto o trilho profissional se mostra bem concatenado, a vida pessoal apresenta um contorno oposto.

O casamento com Manuela (Cynthia Falabella), uma bióloga marinha, é encerrado quando ela descobre a traição do marido, que é expulso de casa. Mas a vida de ambos ainda tem convergência por causa de Vini (Vitor Moretti), filho do casal.

Determinado a conseguir uma guarda compartilhada, Juarez leva Manuela à justiça. Como resultado, perde as economias e possibilita à ex-esposa se relacionar com Rui Zwiebel (Gustavo Machado), advogado que tem como alvo conquistar a cliente.

Na tentativa de uma retomada e um equilíbrio financeiros, Juarez volta a morar com a mãe Rosali (Maria Cecília Audi), guarda de trânsito aposentada, viúva e hipocondríaca, que mantém um caso com Guzmán (Adrian Verdaguer), um argentino que fala portunhol. Funcionário aposentado, ele trabalhou nos correios mantendo uma vida pacata. Agora busca aproveitar todo o tempo que lhe resta ao lado da nova paixão.

No trabalho, Juarez conta com o apoio dos colegas e melhores amigos, Romeu Carvalhosa (Paulo Tiefenthaler) e Sérgio Roberto de Paula, mais conhecido como Serjão (Saulo Vasconcelos), os bandeirinhas. Ao longo da série, Juarez se envolve ainda com Vitória da Matta (Fernanda Franceschetto), assistente que ganharia mais fama pela beleza do que propriamente pelas qualidades técnicas.

O conceito de “FDP” surgiu quando Adriano Civita, diretor geral e um dos produtores, ficou amigo de um árbitro que apitava em divisões de acesso. As filmagens tiveram pontapé incial em 2010, as quais foram interrompidas para aguardar a definição da nova lei do mercado audiovisual – a Prodigo Films, produtora da qual Adriano é CEO, levou quatro anos para produzir a primeira temporada.

Vendida para os países da América Latina, onde estreou simultaneamente com o Brasil, para os Estados Unidos, com dublagem em inglês e em espanhol, e a dois países da Europa, “FDP” trabaha basicamente com equipes ficcionais de futebol que atuam em partidas realizadas especialmente para as filmagens.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, gravada na própria sede da Prodigo, Adriano Civita, que também é conselheiro da ABPI TV – Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão, fala sobre as peculiaridades do projeto.

Além disso, explicita a integração na direção dos episódios com Caito Ortiz, Johnny Araújo e Kátia Lund, as dificuldades encontradas e como a série o fez ter uma compreensão diferente sobre a arbitragem – e o futebol como um todo.

Bloco 1 – (fdp)

Bloco 2 – (o juiz)

Bloco 3 – (gravando)

 

Bloco 4 – (futebol e produção cultural)


 

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Lilia Schwarcz, antropóloga e historiadora
 

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Vila Belmiro, ambulância e interdição: aspectos jurídicos

Na quarta-feira, 17 de outubro, Atlético-MG e Santos duelaram na Vila Belmiro pela 31ª rodada do Campeonato Brasileiro quando, aos 27 minutos do primeiro tempo, logo após o segundo gol da equipe visitante, momentos de apreensão tomaram conta do estádio quando o zagueiro atleticano Rafael Marques se chocou com o companheiro Leonardo Silva ao tentar cabecear a bola e desmaiou.

Imediatamente percebeu-se a gravidade da lesão, mas o atleta da equipe mineira demorou dez minutos para deixar o estádio a caminho do hospital.

A demora se deu em virtude de um problema no acesso ao gramado da Vila Belmiro, pois um desnível de cerca de um metro entre o campo e o saguão do estádio impediu que a ambulância entrasse no gramado e fosse até o Rafael Marques.

Dessa forma, os médicos de Santos e Atlético-MG prestaram os primeiros socorros no local do choque até que o zagueiro fosse colocado numa maca que atravessou o gramado e entrou na ambulância e deixou a Vila.

Angustiados com a espera, jogadores das duas equipes gritavam por socorro, inclusive, Léo e Neymar chegaram a puxar placas de publicidade para que a ambulância entrasse no campo.

Rafael Marques foi levado para a Santa Casa de Santos com suspeita de traumatismo craniano. No final, tudo transcorreu bem e o atleta está bem.

Em virtude desses fatos, o procurador do STJD, Paulo Schmidt, requisitou as imagens da partida entre Santos e Atlético-MG e pediu a interdição do estádio da Vila Belmiro.

Diante do pedido, o presidente do STJD, Flávio Zveiter, concedeu a liminar e interditou o estádio até que uma nova vistoria e novos laudos sejam concedidos com o problema resolvido.

O Estatuto do Torcedor, em seu artigo 16, estabelece como dever da entidade responsável pela organização da competição disponibilizar uma ambulância para cada dez mil torcedores presentes à partida, donde se apreende que se trate de maquinário em perfeitas e completas condições de uso.

O legislador buscou trazer segurança a todos os envolvidos no evento, razão pela qual uma ambulância sem combustível, sem pneus ou sem acesso não atinge o espírito da lei.

Outrossim, o Código Brasileiro de Justiça Desportiva assim dispõe em seu artigo 211:

– Deixar de manter o local que tenha indicado para realização do evento com infraestrutura necessária a assegurar plena garantia e segurança para sua realização;

– Pena: multa de R$ 100 (cem reais) a R$ 100.000 (cem mil reais), e interdição do local, quando for o caso, até a satisfação das exigências que constem da decisão.

Portanto, agiu acertadamente o STJD ao interditar a Vila Belmiro e, certamente, aplicando-se a legislação, o Santos deverá ser multado.

No intuito de liberar o estádio para partidas, o alvinegro praiano, no dia seguinte à interdição da Vila Belmiro iniciou obras para melhorar o acesso de ambulâncias ao gramado do estádio, mas a liberação depende de laudo da CBF.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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Musculação e especificidade: duas moedas sem taxa alguma de câmbio

“As ideias estão no chão, você tropeça e acha a solução” (Titãs)

Defendemos nossos conceitos e nossas ideias de que maneira? Argumentamos com sabedoria? O que a musculação representa para nós como uma equipe específica?

Os defensores da prática da musculação alegam que há uma certa “proteção ao corpo”, no sentido, é claro, de se evitar lesões, para haver um equilíbrio entre músculo agonista, antagonista e sinergista, e desenvolver a famigerada força, explosão, impulso, enfim, sempre os mesmos argumentos levianos.

Claro, quem defende irá sempre justificar com argumentos científicos, e há a necessidade de se respeitar, pois ciência será sempre ciência, e não é à toa que fazemos o uso da mesma para justificar os nossos argumentos. Entretanto, a ciência não é lei. E o futebol é muito mais do que ciência, muito mais do que artigos, teses e etc.

Em conversa com amigo, mencionamos que alguns treinadores e preparadores físicos utilizam como treinamento regenerativo o uso da musculação (onde não deveria se chamar regenerativo, mas sim degenerativo, como um câncer linfático, matando aos poucos, uma metástase). Utilizam-se de agachamento, legpress, mesa extensora, mesa flexora e etc.

Evidentemente, todos os adeptos ferrenhos da Periodização Tática já conhecem os motivos da abolição da musculação, assim como faz determinada equipe da Espanha, líder do campeonato local, que tem um ratio de lesões totalmente inferior ao seu rival, e obviamente inferior a outras equipes europeias, quem dirá então comparando com as equipes brasileiras.

Primeiramente, a atividade de musculação preconiza cadeias musculares diferentes, com contrações diferentes, velocidade de movimento e tensões diferentes do que realmente um jogo de futebol exige, e ponto final, não se discute mais isso. Além disso, a evidência ridícula da tal transferência da força adquirida com máquinas para os gramados já foi derrubada, ponto final novamente.

Segundo, a propriocepção para o futebol é literalmente destruída pela atividade muscular, pois se fosse auxiliar, não haveriam tantas lesões de quadríceps, isquiotibiais, gastrocnêmio, sóleo, adutores e abdutores, púbis e demais. O fuso muscular é prejudicado, bem como os órgãos tendinosos de Golgi e demais receptores.

Um músculo forte jamais significará músculo adaptado para troca de direções, frenagens, sprints com ou sem bola, fintas rápidas, dribles, ultrapassagens, saltos potentes e etc. Aliás, cabe aqui lembrar que o termo “potência” deveria substituir o termo velocidade, pois não existe velocidade. Todo corpo se desloca carregando alguma carga (o próprio peso, onde necessariamente a força estará presente), portanto sempre alguém que é dito como veloz, na realidade será demasiado potente, não existe velocidade pura no ser humano.

Em recente entrevista ao nosso amigo Luis Esteves, nosso também amigo Jorge Maciel abordou algumas questões interessantes sobre o fazer musculação no futebol.

Para Maciel, “quem faz não percebe as implicações que isso tem a nível biomecânico, e muito menos pondera a história do corpo. Parte do pressuposto, errado, que o músculo é exclusivamente um órgão efetor de movimento, mas não, o músculo (e tudo o que lhe dá vida) tem inteligência, sensibilidade e como tal ao sofrer alterações no sentido de haver mais músculo, haverá ali uma parte nova que é estranha que como tal necessita de ser educada. Há perda de proprioceptividade, sobretudo, no que se refere à manifestação de uma atividade específica (o futebol), já que essas mudanças se fizeram tendo por base uma estimulação que em nada se assemelha ao que depois será exigido. Por tudo isto, pelo desfaçamento na forma de adquirir, pelo desfaçamento entre o corpo e o cérebro (corpo não tomou consciência das alterações) a propensão para lesões e descoordenação é muito maior. É comum jogadores que em poucos meses verificaram incrementos significativos, manifestarem perda de fluidez de movimentos, maior descoordenação com a bola, e em alguns casos aumentaram significativamente o número de lesões”.

Na musculação, a despolarização, repolarização e hiperpolarização acontecem de forma diferente quando comparado com a especificidade exclusiva da Periodização Tática, bem como a ativação de canais de cálcio, potássio, sódio, a quantidade de unidades motoras envolvidas, e a coordenação intermuscular e intramuscular, que por consequência lógica também será diferente. No futebol, em definitivo, a atividade de musculação não tem mais espaço, com exceção da recuperação de lesão, onde a fisioterapia exige, e que servirá para uma recuperação funcional, nada tendo relação com o jogo.

No Brasil, os jogadores se lesionam facilmente nos treinos mais do que em jogos. Sentem dores e acabam jogando um jogo e ficam de fora de três, são poupados de treinamentos e etc. E isso não se dá apenas pelo número de jogos acumulados, mas sim pela metodologia de treinamento equivocada. Se o treinamento fosse eficaz, se a musculação fosse eficaz, certamente isso não aconteceria, isso é de fácil dedução.

Voltando à potência, é necessário um ganho de potência específica que o jogo exige, o que não tem nada de relação com o que os livros de treinamento esportivo objetivam. E essa potência é totalmente treinável através da Periodização Tática, basta ler e estudar para se ver que é apenas uma questão de especificidade de treinamento. Está na cara, somente ignorantes não enxergam.

Jamais tal potência será possível de ser medida, pois a validade ecológica dos testes não permite isso; quem estudou metodologia de pesquisa sabe disso, quem não estudou, que leia o livro Research Methods in Physical Activity do Thomas, Nelson e Silverman.

Não queremos aqui que todos utilizem a Periodização Tática, até porque a mesma é para quem quer transcender. Quem tem a capacidade de enxergar a longo alcance algum dia entenderá o que aqui estamos explicando. Não impomos nada para ninguém, o Brasil é um país livre, os treinadores e preparadores físicos possuem seus “livres arbítrios para o bem ou mal treinar”. Cada um crê no que quer, (lembrando que a Periodização Tática não é religião e nem um Cristo), mas nem sempre essa crença irá beneficiar de forma eficaz para o que se pretende atingir.

Aliás, para que aqui não fique algo ambíguo, a metodologia de treinamento do futebol aqui defendida possui conhecimento científico pleno para ser aplicada, tudo por processo indutivo e dedutivo, o que alguns cientistas são incapazes de entender, quem dirá alguns treinadores. Vão ficar criando pesquisas para comprovar algo que é quase uma metafísica. Não vão conseguir, pois a gama de variáveis independentes, dependentes, intervenientes, covariantes e covariadas, são tão amplas que é impossível um controle com qualidade interna e externa aceita em periódicos, seja o qual for.

Fato este sim comprovado, é que a tática condiciona todas as outras dimensões do jogo, e isso é fácil de se encontrar, basta procurar, achar, ler, modificar, reconstruir e aceitar.

Então a musculação vai acabar? Não, não se pretende isso. Na verdade, ela nunca começou na Periodização Tática. Agora nos outros modelos de treinamento…