Categorias
Colunas

Sobre o crepúsculo dos ídolos

José Mourinho, após um dos vários títulos europeus: é preciso ser especial? (Photo by Alex Livesey/Getty Images | Divulgação: Fox Sport)

 
Corria o ano de 2015, primeira metade da nova temporada, e eu assistia à uma entrevista de José Mourinho, então treinador do Chelsea, após uma derrota para o Liverpool, no Stamford Bridge. Mourinho passava por um momento particularmente difícil, defendendo o título inglês e o próprio emprego com menos forças do que o usual (ao menos na aparência), um cansaço inescapável aos nossos olhos e, como de costume, um relacionamento instável com a imprensa.
Na entrevista a que me refiro, lembro perfeitamente de ter tido uma espécie de epifania, que manifestou-se ali embora ameaçasse se manifestar há tempos, como se eu acordasse de uma hipnose acometia não apenas a mim, como a vários colegas treinadores ou postulantes à profissão. Quando Mourinho diz que não estava preocupado com o futuro, da maneira como disse, me admirou como não havia nenhuma verdade ali, como o corpo, ao seu modo, dizia exatamente o contrário. Ele me parecia visivelmente exausto, cansado, mas mesmo assim tentava sustentar o personagem confiante que sempre esteve ali.
Aos meus olhos, havia uma condição, em especial: Mourinho havia se humanizado.

***

Na literatura sobre futebol produzida neste século, a figura de José Mourinho é absolutamente central. Foram linhas e mais linhas dedicadas a entendê-lo, a interpretar suas práticas supostamente heterodoxas – destaque aqui para a descoberta guiada, que acabou se tornando uma espécie de mantra -, sua liderança (tida como) carismática, e tudo o que fazia dele único e especial. Mourinho tornou-se, principalmente após o título da UEFA Champions League com o FC Porto, uma espécie de personagem mainstream, a referência de uma série de profissionais que queriam se dedicar à arte do treinamento.
Simultaneamente, embora não nos tenha sido tão claro, sinto ter havido um outro fenômeno fundamental: este afã de admiração fez com que nos escapasse a humanidade do treinador. A partir de um dado momento, Mourinho deixou de ser humano para ser uma marca, um ícone praticamente inabalável e, especialmente (aqui reside minha maior crítica), um modelo que, se imitado, levaria inevitavelmente ao sucesso. Vários dos nossos colegas treinadores viam em Mourinho o dono de uma espécie de cartilha, cuja cópia seria a chave não apenas para as vitórias que moram nos sonhos de quaisquer treinadores e treinadoras, como o status que as acompanham, a figura quase que mitológica e reificada em que são transformados aqueles que têm sucesso no futebol.
Este movimento de transferência (de poder) é tão forte, tão recorrente, que fere de morte o nosso lugar. Treinadores como Mourinho, especialmente em um tempo de tamanha velocidade informacional, são colocados em um patamar que soa inalcançável, inatingível a nós, meros mortais, embora nós mesmos estivéssemos de olho na fórmula mágica que o próprio Mourinho havia revelado. Nesta relação, há uma parte cujas forças são vendidas para subversão absoluta de quaisquer fraquezas, enquanto a outra parte, aquela que nos cabe, parece estar na outra ponta, cheia de supostas fraquezas e distante de tamanhas qualidades. Não é preciso avançarmos muito para percebermos não apenas o quão ilusório é este processo, mas também os efeitos devastadores causados por ele.
Nas conversas a que tenho me detido nos últimos tempos, meu ponto é outro: é evidente que precisamos de referências nos sejam salutares, como treinadores e treinadoras que somos. Ao mesmo tempo, é imprescindível que o caminho escolhido por nós seja realmente o nosso, não o de outrem. A subjetividade humana permite que floresça uma inteireza e unicidade em cada ser, e desconfio que as tentativas de fuga de si, conscientes ou não, serão sempre meias verdades, atalhos que podem ser temporariamente saciadores, mas que não se sustentam no longo prazo, são indigestos, incompletos. O caminho de treinadores e treinadoras, aos meus olhos, é o caminho de si. É preciso olhar para fora, mas é duplamente preciso olhar para dentro.
Quem me parece ter feito isso muito bem (sem quaisquer comparações aqui), é Jurgen Klopp, treinador do Liverpool. Um momento que me parece absolutamente genial no ideário do futebol contemporâneo é sua apresentação no atual, dois meses antes da saída de Mourinho do Chelsea. Quando perguntado sobre como ele se descreveria (em clara referência à auto descrição feita por Mourinho onze anos antes), Klopp deu uma das tiradas mais espirituosas dos últimos tempos: se disse o Normal One. A despeito da piada, minha impressão naquele dia foi bastante clara: Klopp humanizou-se com uma habilidade ímpar – muito embora este pareça ser um trabalho de anos – e talvez ali resida uma das suas grandes qualidades como treinador: a de ser quem se é, genuína e alegremente.
O que parece ainda maior em tempos de crepúsculo dos ídolos.
Ou de aurora de si.
 

Categorias
Colunas

Ideias e Ideais

Recentemente o FC Barcelona (Catalunha/Espanha) quis se desvincular de Ronaldinho Gaúcho como “Embaixador” da instituição, em repúdio à associação do atleta com candidato à presidência do Brasil, que não compartilha com os valores e princípios que o clube defende. Como justificativa, na condição de “Embaixador”, o ex-futebolista brasileiro não pode estar ao lado de ideais que contrariam as que a instituição que o emprega, acredita.

Podia ser Ronaldinho Gaúcho, podia ser qualquer outro futebolista ou pessoa de grande renome. Mais que os rendimentos financeiros, os ganhos institucionais para uma entidade como o clube catalão são importantes. Ademais, os princípios moldam quaisquer organizações, são os pilares da entidade e regem – pelo menos devem reger – quaisquer tomadas de decisão. O seu “Embaixador”, publicamente a posicionar-se alinhado a alguém estranho aos princípios da instituição é, no mínimo, incoerente.

Por isso o rompimento. Não é de se estranhar. Decisão, no mínimo, coerente.

Já foi escrito aqui diversas vezes, sobre as características de uma organização (esportiva ou não), sua missão e visão. A repetir. Atentos à missão e visão: qual a missão que seu clube possui? Qual o legado quer deixar para o público? Dentro de uma visão (enquanto organização), onde o clube quer estar, ou como quer ser visto daqui vinte, trinta anos…ou seja, qual a visão enquanto instituição, o futuro a ele projetado e perseguido?

Ronaldinho Gaúcho, ex-futebolista do FC Barcelona. (Foto: iG Esporte)

 

Com tudo isso percebe-se o extremo cuidado mundo afora no que diz respeito a estes temas. Clubes que dispensam seus atletas acusados de doping, manipulação de resultados; envolvimento em violência doméstica ou outros crimes. Tudo isso interfere na imagem da instituição vinculada aos atletas. Não à toa temos exemplos de clubes com ligações com a extrema-direita, à esquerda, a grupos étnicos e, em alguns casos, religiosos.

É toda uma história em xeque. E isso não tem preço.

 

Categorias
Colunas

Criando vantagens em cobranças de escanteios ofensivos com dois cobradores

O futebol está em constante evolução, seja no que se refere ao processo de treino, bem como ao nível da ideia de jogo. A necessidade permanente de aumentar a qualidade de jogo para obter vantagem sobre os adversários e vencer os jogos, leva a que novos conceitos, variantes e estratégias sejam frequentemente desenvolvidas.
As bolas paradas – cada vez mais valorizadas no futebol – não fogem à regra. De fato, esta é uma questão tão valorizada que alguns clubes já possuem um treinador exclusivo para as bolas paradas. O italiano Gianni Vio, com passagens por Leeds, Al Nasr, Fiorentina, Milan, e autor do livro Palla Inativa: un ataccante da 15 reti, é um exemplo.
Analisando o que tem sido feito de uns anos para cá, me chama a atenção algumas equipes que organizam suas cobranças de escanteio ofensivo de uma maneira um pouco diferente do que tradicionalmente se faz.
O que habitualmente vemos é a presença de um único cobrador nos escanteios. Porém o que acontece quando posicionamos dois jogadores ao invés de um?
Eis algumas vantagens que penso que a equipe poderá obter sobre seu adversário com este posicionamento inicial[1]:
1)  Normalmente a equipe que ataca, posiciona um jogador a mais no equilíbrio defensivo, para garantir vantagem numérica em um possível contra-ataque do rival (exemplo: se o adversário posiciona dois jogadores na linha do meio campo, a equipe que cobra posiciona três). Conforme ilustrado no exemplo da figura “A”, tendo em conta esta vantagem numérica no “equilíbrio defensivo”, e o cobrador (quando há apenas um), a defesa adversária possui vantagem numérica na zona da grande área de 2 + goleiro.

Neste exemplo, com 1 jogador (equipe vermelha) na cobrança, a defesa (azuis) tem vantagem numérica de 2 jogadores (de linha) + goleiro dentro da área.

Porém, conforme vemos na figura “B”, se seguirmos a mesma lógica de raciocínio, ao colocar dois jogadores na cobrança, a tendência é que o adversário seja “obrigado” a levar dois jogadores para neutralizar qualquer tentativa da equipe vermelha em levar vantagem numa cobrança curta.

Isso fará com que a vantagem numérica que levavam dentro da área se reduza, e se a equipe que cobra tiver jogadores com bom jogo aéreo, colocar dois jogadores para cobrar é vantajoso, pois há mais espaço de manobra para esses jogadores atuarem.

Seguindo a lógica anterior, agora o vermelho possui 2 cobradores, obrigando o azul a retirar 2 jogadores de dentro da área. Agora, a vantagem numérica do azul é de apenas 1 jogador (de linha) + goleiro dentro da área.

Exemplo prático da imagem anterior – Campeonato Brasileiro 2018: América Mineiro com 2 cobradores, reduz a superioridade numérica gremista dentro da área, já que o Grêmio evita a cobrança curta colocando 2 jogadores na zona da bola.

Existe ainda a possibilidade do treinador da equipe que está realizando a cobrança, optar por deixar o equilíbrio defensivo no “mano-a-mano”. Neste caso, a vantagem ofensiva aumenta ainda mais (comparando com a situação “A”), uma vez que dentro da área passará a haver igualdade numérica (excluindo o goleiro), conforme ilustra a figura “C”.

2) Se o adversário estiver desconcentrado e demorar para ajustar, não enviando ninguém para neutralizar os 2 na cobrança, a equipe poderá jogar curto e provocar desordem no posicionamento do adversário. Equipes que defendem os escanteios em zona, em jogadas curtas, podem cometer o erro de todos saírem em direção à bola, desprotegendo a zona do segundo poste, o que poderá ser aproveitado a partir de uma saída curta.

3) Se o adversário enviar apenas um jogador, a equipe que ataca, poderá fazer 2×1 e obter vantagem na ação ofensiva subsequente.

Na imagem acima, De Bruyne e Silva fazem 2×1 sobre Mané, em função da superioridade numérica criada em torno da bola (Manchester City 2018 – Pep Guardiola).

Neymar e Messi se aproveitam da desatenção do Roma para realizarem uma situação inicial de 2v1. É a partir deste lance que Luís Suarez marca o terceiro gol do jogo, pela Champions League (Barcelona 2015 – Luis Enrique).

4) Existem equipes que organizam seu posicionamento defensivo a partir do conhecimento do pé que cobrador utiliza para realizar a cobrança. Por exemplo, equipes que defendem um escanteio cobrado com o “pé aberto” se posicionam de maneira diferente de quando a cobrança vem de “pé fechado”. Tendo dois jogadores na mesma bola, poderá causar perturbação e confusão no posicionamento da equipe que defende.

Na imagem acima, em virtude do posicionamento do corpo de Rakitiće Messi, verificamos a presença de dois cobradores em potencial. Quem irá cobrar? Pé aberto ou fechado? (Barcelona 2015 – Luis Enrique)

5) Tendencialmente, este posicionamento gera facilidades para sair jogando curto, caso a equipe – pelos mais variados motivos – não queira arriscar perder a posse da bola, lançando-a diretamente para a área.

Acúmulo de jogadores em torno da cobrança para manter a posse da bola no campo de ataque. “Queimar tempo” durante os minutos finais do jogo (Palmeiras 2018 – Felipão)

6) Algumas equipes que posicionam 2 na cobrança, tão logo a bola rola, propositalmente acumulam de 3 à 5 jogadores em torno da cobrança, realizando um pequeno rondo antes de terminar a jogada, algo que pode ser muito bom em caso de possuir jogadores capacitados para realizar este tipo de jogada, dada a superioridade numérica/posicional criada e, principalmente, pela dificuldade do adversário conseguir realizar rapidamente os ajustes de marcação.

Diante do cenário atual, penso que posicionar mais de um cobrador é uma ideia que veio para ficar, mas não no sentido de se sobrepor ao que é habitual (lançar a bola diretamente para a área com apenas 1 cobrador), mas para possibilitar variabilidade, enriquecendo e aumentando as possibilidades ofensivas nas cobranças de escanteio, sempre com o intuito de criar vantagem sobre o adversário e alcançar a vitória.

Vale lembrar que no futebol não existe “fórmula secreta”, nem certo e errado. Tudo tem suas vantagens e desvantagens, cabendo ao treinador saber a característica dos seus jogadores e do adversário para criar situações benéficas à sua equipe

 
[1]Posicionamento inicial vs “elemento surpresa”: Sublinho a palavra posicionamento inicial, para diferenciar equipes que tem como um padrão a colocação de 2 jogadores próximos a bola antes do apito do árbitro, das equipes que circunstancialmente aproximam um jogador para próximo da bola com a finalidade de realizar uma jogada curta distraindo momentaneamente o adversário.

Categorias
Entrevistas

Marcelo Paz – Presidente do Fortaleza Esporte Clube

“Futebol não pode ser tratado de forma amadora”

 
Sentado na cadeira da presidência do Fortaleza Esporte Clube há quase um ano, Marcelo Paz, de 35 anos, sonha alto. Não à toa, contratou Rogério Ceni para comandar o Tricolor no ano do centenário – comemorado neste 18 de outubro – e disputa o título da Série B do Campeonato Brasileiro, conquista nacional que seria inédita para o clube. Fora de campo, o dirigente também optou pela ousadia: aposta na profissionalização do clube para melhorar a gestão e obter mais receitas para, no fim, investir mais no futebol e ter sucesso nas quatro linhas.
Para movimentar as finanças do Leão do Pici, o mandatário aposta em dois setores: marketing e licenciamento da marca. O primeiro, para divulgar a imagem do clube; o segundo, para capitalizar a imagem do clube e a marca própria, a Leão 1918 – os produtos oficiais vão de picolé, cerveja e vinho aos próprios uniformes da equipe. Com dinheiro em caixa, segundo Paz, é possível formar um time competitivo, que terá resultados positivos, incentivará o torcedor a comprar mais produtos, ir aos jogos e se associar e possibilitará novas receitas, o que viabilizará novos investimentos na equipe e no clube. Mas, inicialmente, é necessário ter ousadia para montar um elenco qualificado para depois o torcedor dar a resposta, na visão do presidente.
No Tricolor desde 2015, Marcelo Paz já foi diretor de futebol e vice-presidente. Em novembro do ano passado, assumiu o comando do clube. Adotou medidas por uma gestão mais moderna e profissional, como a contratação de uma empresa de consultoria – o dirigente é formado em Administração e proprietário de uma escola na capital cearense, da qual se licenciou para se dedicar ao novo cargo. Com as finanças em dia, o presidente aponta as dificuldades, como dívidas antigas, mas destaca a autossustentabilidade do clube e ressalta a necessidade de responsabilidade na administração.
No departamento de futebol, priorizou a montagem de um elenco com condições para disputar o acesso à Série A, após oito anos na Terceira Divisão nacional. Exalta o perfil vitorioso do ex-goleiro e agora técnico Rogério Ceni, mas admite a pressão pela mudança no comando em momentos de turbulência na temporada, algo corriqueiro no futebol brasileiro, e diz que é preciso ter convicção no momento de escolher o treinador.
Graduado em Gestão Técnica no Futebol pela Universidade do Futebol, Marcelo Paz enxerga avanços na gestão do futebol brasileiro, mas reconhece que é necessário avançar e cobra mais oportunidades para qualificação dos dirigentes, também por meio das Federações e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Marcelo Paz e Muricy Ramalho. (Créditos: Divulgação/Fortaleza EC)

 
Confira a entrevista completa:
Universidade do Futebol: Qual a importância da profissionalização da gestão das diversas áreas do clube?
Marcelo Paz – Eu entendo que a profissionalização é uma obrigação, uma necessidade. Quando você trata o futebol como um “negócio, que movimenta milhões e paixões, ele não pode ser tratado de forma amadora, apenas com o tempo disponível da pessoa, quando der. A necessidade de profissionalização de um clube de futebol de massa é premente porque só vai funcionar assim. E mesmo se estiver tudo profissionalizado, ainda é difícil ganhar, porque futebol é difícil. Um clube de futebol é uma grande empresa, que emprega pessoas, paga impostos, tem um serviço social com a comunidade, está sujeito à legislação e penalidades esportivas e fiscais, então os diversos setores precisam estar profissionalizados, não só o futebol, mas também a administração, a contabilidade, o marketing, para fazer bom uso da imagem para captar recursos, o jurídico, porque muitos clubes sucumbem por contratos mal feitos, distratos mal feitos, passivos trabalhistas… Então tudo isso tem que ser olhado com muito profissionalismo. Se isso funcionar, vai ajudar a bola entrar.
Universidade do Futebol: O Fortaleza pensa em profissionalizar e remunerar os cargos de diretoria ou presidência e vice-presidência?
Marcelo Paz – Eu acho que tem que atingir essa condição, porque não é justo que as pessoas saiam dos seus trabalhos, das suas empresas, do seu dia a dia, dediquem-se ao clube e não sejam remuneradas. E o estatuto do Fortaleza já permite isso, porém tem que ser aprovado junto ao Conselho (Deliberativo) quando você vai lançar o orçamento anual. E eu acho que no dia em que isso for lançado, vai ter alguma rejeição de algumas pessoas mais conservadoras que entendem que quem está como dirigente tem só que servir e não pode ser remunerado. Mas é um contrassenso, né? Você pede profissionalismo, mas não remunera quem se dedica ao clube. É algo que tem que ser avançado politicamente. Alguns clubes já partiram na frente, fazem a gestão assim e têm tido sucesso.
Universidade do Futebol: Algum dos dirigentes atuais é remunerado?
Marcelo Paz – Não. Dirigente estatutário, presidente e vice-presidentes eleitos, ninguém é remunerado.
Universidade do Futebol: No início da sua gestão, o clube contratou uma empresa de consultoria para definir diretrizes de gestão. O que já foi realizado até agora e o que já há planejado para o seu próximo mandato?
Marcelo Paz – Muito foi realizado com a ajuda deles, porque a gente traçou um planejamento estratégico e faz um acompanhamento dele. Nós temos reuniões periódicas, já tivemos quatro, em que nós vemos o planejamento e fazemos a checagem do andamento desses pontos. Não vou lembrar de cabeça, mas foram 32 itens, alguns foram concluídos, outros vão estar sempre em andamento e alguns não andaram. Por exemplo, nós tínhamos a ideia de fazer aqui, no Pici, uma visita guiada, que seria uma forma de gerar receita. O clube está em reforma, talvez ainda não esteja tão atrativo e ainda não foi feito, mas foi definido no planejamento estratégico e a gente não executou. É um exemplo do que pode vir a ser feito, assim como muitas outras coisas já foram executadas.
Universidade do Futebol: Já é possível ver avanços e resultados em algumas áreas profissionalizadas do clube, como marketing e licenciamento da marca?
Marcelo Paz – O marketing do Fortaleza, hoje, é uma referência até a nível nacional, com números crescentes de seguidores em redes sociais, estando entre os principais do Brasil, em termos de engajamento estamos entre os principais da América, já tivemos comercial premiado até fora do país. Então, está a olhos vistos que o caminho da profissionalização gerou resultado para o clube como um todo. No licenciamento, hoje temos mais de 10 mil produtos licenciados e todos geram receita para o clube de alguma forma, nem que seja um pouquinho em cada. E nós temos que caminhar mais, porque licenciamento é um mundo. Todos os produtos que existem podem ser licenciados. Uma geladeira, por exemplo, pode ter a marca do Fortaleza. Um copo, um lápis, até um carro, se for o caso. O que não pode é usarem a marca do Fortaleza sem a nossa autorização. E nós temos combatido isso, não necessariamente brigando, mas trazendo para dentro, fazendo o licenciamento para realizar a venda de forma legal. São dois setores que já estão trazendo resultados e bons exemplos de que a profissionalização vale a pena.

Universidade do Futebol: Como o Fortaleza cuida da marca própria, a Leão 1918?
Marcelo Paz – Eu digo que o Fortaleza produz futebol e paixão. Isso é o que a gente produz. Na parte de camisas, a gente até tem um controle maior, porque nós compramos toda a produção da fábrica para revender aos lojistas para que o clube tenha um lucro maior. Nós desenvolvemos o layout da camisa e quem produz é a fábrica. Nós não temos uma fábrica de camisas aqui dentro, porque não é o nosso foco, nosso core business. Dos demais produtos, a empresa traz o produto no padrão que irá vender com a marca do Fortaleza, nós aprovamos e ela inicia a venda autorizada, tendo o nosso controle através dos selos que certificam que o produto é oficial. O cuidado que nós temos é de formalizar em contrato, muitos com garantia mínima de produção e retorno financeiro, e o controle através do selo. O Fortaleza não produz, mas licencia a marca, que é o principal ativo e é o que as pessoas amam. Se em um supermercado tiver um vinho sem a marca do Fortaleza e outro com a marca do Fortaleza, eu tenho certeza que o nosso torcedor vai preferir comprar com a marca, pelo menos a primeira vez, para provar. Se for bom, ele vai comprar mais vezes.
Universidade do Futebol: Quais as dificuldades de fazer futebol com finanças menores que os grandes clubes do Brasil, mas com despesas altas para a realidade do clube?
Marcelo Paz – A primeira forma de encontrar esse equilíbrio é não assumir despesas tão altas. É preciso ter cuidado com o que vai assumir. Por outro lado, se você for extremamente conservador, sem ousadia, você não vai formar um time competitivo, não vai ter uma comissão técnica competitiva. Tem que achar esse equilíbrio entre a hora que é preciso realmente investir e a hora em que tem que dar uma segurada. Por exemplo, nesse ano mesmo, na Série B, chegou um momento em que nós vimos que tínhamos chances de subir, e eu disse: ‘A hora de investir é agora. Vamos contratar mais para não faltar peças lá na frente’, aí trouxemos mais quatro jogadores para dar ao Rogério (Ceni) toda a condição. E aí é um investimento, porque você arrisca. Se o time conseguir subir, o dinheiro volta. O gestor tem que ter a coragem e a habilidade de fazer essa aposta e trabalhar para que dê certo. É o tempo todo nesse limite, mas a bola entrando facilita muito. Mas a bola só vai entrar se tiver um time bom e só vai ter time bom se apostar antes. Então, primeiro, você acredita e aposta, o time passa a ser competitivo – não é uma regra, mas é o ideal que seja – e depois o dinheiro passa a entrar, com venda de camisas, sócio-torcedor, estádio cheio, e isso faz o círculo ser virtuoso.
Universidade do Futebol: Esse é o melhor caminho?
Marcelo Paz – Esse é o caminho. Você pode ter a melhor gestão do mundo, o maior profissionalismo, todo mundo remunerado, um bom trabalho no marketing, administrativo, em todos os setores…mas se a bola não entrar, o dinheiro vai ficar mais escasso. O torcedor não vibra com o balanço (financeiro) do clube, ele vibra com o balanço da rede. Quando a bola entra na rede, aí ele vibra, consome, participa. Nós temos que ter muita responsabilidade com as finanças do clube, mas a bola tem que estar entrando. Isso é um fator determinante. Quando ela não está entrando e você tem um clube organizado, demora mais para a coisa ficar complicada. Então, o clube tem que estar organizado sempre. E quando está entrando e o clube é organizado, o dinheiro também vai entrar, porque as pessoas têm o que e como consumir.
Universidade do Futebol: Hoje, o Fortaleza é autossustentável com as próprias receitas?
Marcelo Paz – Hoje, o Fortaleza funciona só com as receitas próprias. Uma vez ou outra, a gente precisa fazer uma antecipação do sócio-torcedor, que é receita do clube, para um mês que teve um custo a mais, mas sempre com receitas próprias. Temos algumas doações ainda? Temos. Pequenas, dentro do todo que já foi, mas muito úteis. Às vezes não são valores, mas um equipamento. Você precisava daquilo, mas a prioridade era pagar a folha, aí alguém dá o equipamento. Que bom, porque senão só seria comprado daqui a dois ou três meses. São coisas que fazem parte de um clube de futebol, porque o torcedor também tem o prazer de poder ajudar. Mas hoje, com muita dificuldade, o Fortaleza é autossustentável, e a gente precisa avançar mais nisso.
Universidade do Futebol: O Fortaleza está com as finanças equilibradas? 
Marcelo Paz – As finanças estão equilibradas e em dia. Pagamos alguns débitos anteriores existentes, mas é no aperto. Eu preciso muito que nos próximos quatro jogos (em casa, pela Série B) entre um bom dinheiro no clube, para equilibrar as contas do final do ano.
Marcelo Paz (Créditos: Divulgação/Fortaleza EC)

Universidade do Futebol: Há muitas pendências de gestões passadas? 
Marcelo Paz – Têm algumas. O Fortaleza não é um clube que tem tantas dívidas, não, mas tem algumas. Se não tivesse seria melhor, porque esse dinheiro sobraria para agora. Mas faz parte, não cabe aqui criticar. Todo mundo que esteve aqui deu o seu melhor e buscou contribuir. Não é algo que chega a assustar. Quando aparece (dívida antiga), atrapalha, mas não chega a assustar.
Universidade do Futebol: Quais os critérios do clube para a contratação de um técnico de futebol?
Marcelo Paz – Primeiro de tudo, honestidade. No futebol, a gente consegue colher informações. Tem que ser honesto. É fundamental ser trabalhador. Não gosto muito daquele treinador espetaculoso, nem daquele perfil enérgico demais, porque isso tem prazo de validade e depois não tem tanto resultado. Eu gosto de quem estuda adversário, estuda o seu time, usa dados e estatísticas, e isso é importante porque te mostram algumas coisas. Eu gosto do perfil mais moderno de treinador de futebol. Aí, sim, eu declaro essa preferência por treinador mais jovem, que estudou, entende a importância de dados da fisiologia e preparação física, a importância da logística de viagem, da alimentação. São fatores que fazem a diferença. E, sobretudo, tem que ter o perfil vencedor. O Fortaleza é um clube que sempre entra para brigar para ganhar, então o perfil tem que ser vencedor, e esse foi um dos grandes pontos para trazer o Rogério Ceni. Embora como treinador ainda não tivesse uma carreira vitoriosa, ele foi tão vitorioso como jogador que não se permite ser diferente como treinador. E esse perfil tem sido interessante para o clube.

 
Universidade do Futebol: Em uma cultura resultadista como a brasileira, quais os desafios para se manter o técnico e a comissão técnica ao longo da temporada, principalmente nos momentos adversos?
Marcelo Paz – É difícil. Uma vez, eu estava conversando com uma psicóloga, e ela me disse que futebol é um drama. Todo drama tem um mocinho e um vilão. Eu já fui vilão no Fortaleza há um tempo. Às vezes, o vilão é o treinador. Como é um drama, o público quer uma cabeça e é a do treinador, mas não é o melhor a se fazer naquele momento. Como dirigente, você tem que tomar a frente, levar porrada. Eles vão bater no treinador, mas se o dirigente não tomar atitude, eles passam a bater em você. Aí, você tem que ter convicção de que está fazendo o melhor pelo clube e que o melhor é a continuidade. A troca de comando técnico mexe muito com o clube. Quando chega um novo treinador, se tiver tempo para contratar, ele vai querer contratar; alguns atletas que estão lá, talvez ele vá querer dispensar; o prepador físico que chega vai fazer um trabalho diferente do anterior, e o corpo do atleta é um só. Muda muita coisa. Então, o ideal é que se faça uma escolha muito bem feita para que não precise trocar no meio do caminho. Mas, às vezes, a troca também é necessária. Eu já tive, como diretor de futebol, situações em que foi necessário trocar e a mudança fez bem ao clube. Mas o ideal é você pensar bem e escolher bem para ter uma continuidade
Universidade do Futebol: O que você pensa sobre os atuais dirigentes do futebol brasileiro, tanto em termos de CBF quanto de clubes?
Marcelo Paz – Eu acho que a gente está evoluindo. O futebol brasileiro, em linhas gerais, tem tido clubes com melhores gestões. Em um passado muito recente, você via clubes com três, quatro meses de salário atrasado. Hoje, eu ouço muito pouco isso. Ainda tem um ou outro, mas diminuiu demais. Antes, era quase uma regra, hoje é uma exceção. Vejo os presidentes mais preocupados com orçamento, muitos com boas ideias. Não vou aqui criar um choque de gerações. O Grêmio, por exemplo, é um clube muito bem administrado, pelo que tenho de conhecimento, e o presidente (Romildo Bolzan Júnior) é um cara mais velho. O que existe é capacidade de gestão no futebol. Às vezes, você tem um grande gestor em outra área e ele assume um clube de futebol, mas não consegue fazer uma grande gestão. Acho que os clubes, hoje, estão bem geridos, porém tem muito o que se avançar ainda e acredito que falta capacitação, através da CBF e das Federações, porque aí ganha o futebol como um todo.
Universidade do Futebol: Algum deles serve como referência para você?
Marcelo Paz – Eu gosto muito do modelo do Flamengo, porque é um gigante que durante muito tempo teve problemas de gestão, com dívidas, e o modelo implantado pelo Bandeira (Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo) foi espetacular, porque hoje o clube é altamente superavitário, entendeu o tamanho da sua marca, capitalizou a marca, entendeu o peso da camisa e capitalizou isso, entendeu a importância da categoria de base, investiu, revelou talentos e vendeu jogadores, entendeu a importância de estrutura física e fez um CT maravilhoso. Então, são muitos avanços no Flamengo. E o futebol foi muito beneficiado pelos avanços dessa gestão, porque desde que essa gestão entrou, o clube pode até não ter tido conquistas espetaculares, mas nunca mais foi motivo de vergonha para o seu torcedor, porque está sempre brigando lá em cima nas competições.
Universidade do Futebol: Qual a importância do presidente ou gestor de um clube se capacitar e realizar cursos?
Marcelo Paz – A importância é máxima. Isso é formação continuada e serve para qualquer setor. Todos são diferentes. Se eu for administrar uma padaria, eu vou ter dificuldade, porque eu não entendo de padaria, qual o ponto do pão, que horas o padeiro chega, qual horário o cliente prefere comprar, quais produtos precisa ter, a localização… Todo segmento é diferente. A confecção é de um jeito, a escola é de outro, a padaria, a borracharia, o shopping… E o futebol também. Então, para estar no futebol, você tem que ter vivência esportiva, o traquejo, a lida dos problemas do futebol, e aí a capacitação é fundamental, porque é como você pode aprender muito, trocar experiências, fazer networking. É algo que eu acho muito necessário. Fiz curso na Universidade do Futebol, de Gestão Técnica do Futebol, e sempre que tem palestra ou algo parecido eu procuro estar presente para estar aprendendo.
 
*Colaboração especial

Categorias
Colunas

Entre o Futebol e o Doping

Bem-vindos ao nosso Entre o Direito e o Esporte” dessa sexta-feira! Nesse mês a gente deu uma olhada no que a gente acha “Entre o Esporte e o Doping”. Nesse mês a gente passou “Entre o Direito e o Doping” para ver um pouco mais sobre a AMA ou Agência Mundial Antidopagem. Nesse mês a gente conversou sobre o controle antidopagem que fica “Entre o Atleta e o Doping”. E hoje a gente fecha o nosso mês de outubro com o que a gente acha entre o futebol e o doping: a Justiça Desportiva Antidopagem no Brasil.
E para deixar tudo mais direto, esse é o nosso passo a passo dessa coluna que fecha o nosso “mês antidopagem” aqui na Universidade do Futebol: vamos começar com o “início” de um processo disciplinar antidopagem; depois vamos dar uma olhada no “meio” que é o julgamento dessa violação à regra antidopagem por aqui; e daí fechamos com o “fim” que fala de um tal de “julgamento de novo” só que dessa vez lá fora!
Fechou?

Fonte: Pexels, Vural Yavas

 
E… valendo! Lembra que semana passada a gente viu sobre o controle antidopagem? Exato, aqui é a continuação desse controle. Aqui é quando esse controle vira processo. Aqui esse controle é o início da nossa história de hoje.
Imagina que você voltou para a sua infância. Imagina que você quer assistir uma partida do time da sua cidade. Imagina que você foi… sozinho. E aí, pode? Não. Criança tem que estar acompanhada – ou deveria. Sem um responsável (pai, mãe, avó… peixinho dourado, sei lá), não vai entrar. E isso por que? Porque você teve um “resultado analítico adverso”, ou seja, foi demonstrado que você não cumpriu uma regra geral (a de ir acompanhado).
No controle antidopagem é a mesma coisa! Esse procedimento administrativo da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) que segue o Código Brasileiro Antidopagem (CBA) começa quando (alguém) “testa positivo” – em outras palavras, um resultado analítico adverso. Essa análise preliminar de violação de regra antidopagem (leia-se: não seguiu a “regra x”) é repassada pela ABCD à Justiça Desportiva Antidopagem que pode suspender preventivamente a pessoa (no nosso caso, isso significa que você não entrou no estádio).
Tranquilo, faz sentido e até aqui parece que a “Justiça” faz sentido – #choquei. Agora quando a gente vai do começo para o meio continua assim? Aí a pergunta vai para a Justiça Desportiva Antidopagem que fica em Brasília!
Imagina que você foi sozinho nesse jogo. Imagina que não querem te deixar entrar porque você é uma criança e foi sem um “responsável”. Imagina que você chamou o supervisor responsável pela entrada dos torcedores no estádio. Você tem duas opções: aceita o “resultado analítico adverso” ou pede a abertura de uma amostra B. Em outras palavras, chama o seu “peixinho dourado” para assistir essa partida com você – ah, te falei que esse é o apelido do seu primo mais velho que por acaso é advogado? Assim o supervisor pode te deixar passar, se o “responsável” não tiver um “ir” na frente.
Aqui é a mesma coisa! A Justiça Desportiva Antidopagem vai aparecer daí para frente para decidir o que vai acontecer com o seu caso quando você não aceita o “resultado analítico adverso” e chama o seu advogado para te defender lá em Brasília em um Tribunal formado por 09 pessoas que ficam em 03 câmaras cada uma com 03 pessoas caso você tenha sido denunciado pela Procuradoria por uma violação a uma regra antidopagem.
Lembra da Justiça Desportiva Disciplinar? Pois é, aqui a história é bem parecida – é quase que o “outro lado da moeda” só que com duas exceções (quem faz parte e o fato de ser um tribunal único para todas as modalidades esportivas no Brasil todo). Esse Tribunal de Justiça Disciplinar Antidopagem (TJD-AD) foi criado com o objetivo de julgar esse tipo de caso e decidir o que acontece com quem “não segue as regras”. O TJD-AD fica no Conselho Nacional do Esporte (CNE) que faz parte do Ministério do Esporte (ME) em Brasília (BSB), então se vocês virem algo do tipo: TJD-AD/CNE/ME/BSB. Bom, já sabem que no fundo até faz sentido!
Agora, o que o TJD-AD falar “tá falado”? É… quase. Como falei o TJD-AD é o meio (e muitas vezes o fim) desses processos disciplinares antidopagem que vem de um controle antidopagem dentro do sistema mundial antidopagem da AMA. E… [“se você falar antidopagem de novo eu paro de ler!”] ah, melhor ir para a nossa analogia direto então!
Imagina que chegou o seu “peixinho dourado”. Imagina que ele explicou que vai entrar com você na partida. Imagina que mesmo assim o supervisor disse que não pode. E aí? Exato, você vai no Juizado Especial de Defesa do Torcedor que (talvez) tem (tenha) ali no estádio na hora do jogo e fala: “tenho ingresso, meu peixinho dourado também tem ingresso, nós queremos entrar no estádio para assistir essa partida com os nossos ingressos que a gente comprou”. E você, o seu peixinho dourado, e o seu time entram em campo finalmente!
Nos casos de doping tem uma situação curiosa bem parecida. Essa decisão imposta pelo Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem aqui no Brasil pode ser “apelada” (pedir uma nova decisão) “lá fora” no Tribunal Arbitral do Esporte (CAS/TAS) que fica em Lausana na Suíça! Pois é, tudo isso porque estamos conversando sobre o sistema mundial antidopagem – então vale para o “mundo todo” (ou quase). Esse “STF” do esporte mundial vai rever a decisão e decidir o que acontece com quem descumpriu uma regra antidopagem, esse julgamento chama “julgamento de novo” (juro).
Depois de todo esse caminho a gente vai saber o que acontece: se a (pessoa) realmente descumpriu uma regra antidopagem e todas as outras regras foram cumpridas ao longo desse caminho (os IS, o CMA e o CBA que vimos nas outras semanas), aí é game over e ela vai ser punida (leia-se suspensa, entre uns extras como perder medalha). Único lembrete que eu deixo é que estamos conversando sobre o que acontece no Brasil, e não na Libertadores (CONMEBOL), na Copa do Mundo (FIFA), ou nos Hermanos (AFA)… afinal, se a gente muda de competição ou de país tudo pode mudar – como tudo no esporte.
Fico por aqui hoje e desejo a todos vocês uma ótima convocação da seleção brasileira! Convido a ficarem comigo no “Entre o Direito e o Esporte” nesse próximo mês quando vamos conversar sobre o “eFutebol” na Universidade do Futebol. Combinado? Deixo meu convite para falarem comigo por aqui, pelo meu LinkedIn ou pelo meu Twitter. Obrigado e até novembro!
 

Categorias
Colunas

O choro lamentável após Palmeiras x Ceará

Quem trabalha no futebol deveria pensar sempre em como melhorar tudo o que envolve o jogo: as ideias com e sem a bola, os comportamentos táticos, os gestos técnicos dos atletas, o marketing, a gestão fora de campo, a condição dos gramados, enfim, tudo que compõe o futebol como um produto. Especialmente aqui no Brasil, vemos uma fuga das novas gerações para o futebol europeu onde realmente o esporte é visto de uma maneira ampla e plural. Sem complexo de vira-latas, amigos. Lá fora, cada ‘player’ da indústria trabalha para um avanço coletivo onde todos ganham. Aqui somos individualistas e lutamos não só para ganhar, mas também para o outro perder. Por isso, nosso futebol está na segunda, quase caindo para a terceira divisão na escala mundial.
Na última rodada do Campeonato Brasileiro, tivemos um grande jogo entre Palmeiras e Ceará. Foi interessante demais ver o líder da competição tendo um embate duro contra uma equipe que luta contra o rebaixamento. Porém, após a partida, ao invés de debaterem as ideias, as ações que foram determinantes para o resultado final, o que se viu foram acusações de ambos os lados sobre o comportamento da arbitragem. O técnico do Palmeiras, Luis Felipe Scolari, respaldado pelo diretor do clube, Alexandre Mattos, levantou suspeitas sobre os cartões amarelos recebidos pelos seus jogadores que estavam pendurados, insinuando algo premeditado para o jogo seguinte diante do Flamengo. Do outro lado, o técnico do Ceará, Lisca Doido, jurou de pé junto que houve interferência externa na marcação do pênalti que resultou no primeiro gol palmeirense. Com que prova ele disse isso publicamente, em sua entrevista coletiva? Nenhuma.
Não quero aqui entrar no mérito de quem está certo e quem está errado. Apenas busco refletir que será difícil evoluirmos como modalidade esportiva enquanto ficarmos discutindo sobre erros dos árbitros – que absurdamente não são profissionais. Não se busca nesse tipo de discussão uma proposta de melhorias e avanços e sim jogar pressão na arbitragem visando as próximas rodadas.
Felipão faz um trabalho espetacular no Palmeiras. Sua equipe tem uma identidade de jogo que é ao mesmo tempo simples, porém eficaz. É muito difícil hoje bater essa equipe palmeirense. Já o Ceará vem em uma recuperação fantástica, com uma equipe muito bem organizada nos quatro momentos do jogo e intensa com e sem a bola.
Mas para que falar de jogo se o que vale é usar o microfone pensando no efeito que cada palavra pronunciada irá gerar no arbitragem para o próximo jogo? Quem deveria enaltecer apenas empobrece o nosso produto futebol.
 

 

Categorias
Colunas

Sobre os ajustes do talento raro

Lionel Messi: o talento se encerra em si? (Divulgação: Site Oficial FC Barcelona)

 
Em algum momento, pretendo me deter mais atentamente à ótima Six Dreams (Amazon Prime), série recém-lançada que acompanha a temporada de seis personagens importantes do futebol espanhol de elite durante todo o último ano. Um deles é Saúl Ñiguez, do Atletico de Madrid.
Na reta final da última temporada, o Atletico estava a cinco pontos do então líder Barcelona, quando foi visitá-lo no Camp Nou. Como têm sido os confrontos recentes entre as equipes (grande mérito de Diego Simeone neste sentido, diga-se), o jogo foi absolutamente equilibrado. A vitória do Barcelona se deu pelo placar mínimo, com um gol obsceno de Messi. Depois do jogo, conversando com seu pai, Saúl ainda estava indignado. A fala dele, já no final do diálogo, me chamou a atenção:
– O pior é que ele nem treina. (…) Ele não treina! Ele é tão bom que não precisa treinar. É muito fácil para ele.

***

Messi não é o primeiro e nem será o último jogador que nos parece ser tão bom que não precisa treinar (mesmo que seja um fundamento, apenas). Jogadores como ele, na nossa visão, foram agraciados com um tipo especial daquilo que nos habituamos a chamar de talento. Sabemos muito bem, ao menos são as informações que nos chegam, que Messi é um excelente profissional, responsável, cuida de si e do grupo, e que há um longo trabalho oculto na magia daquele pé esquerdo. Ao mesmo tempo, parece haver alguma coisa nele que não há nos outros.
Enquanto isso, ainda nos degladiamos para saber qual é a real proporção deste talento na performance de um jogador como ele. Sabemos que, por um lado, ainda é latente a ideia de que o talento basta: não há trabalho que possa afiná-lo. Por outro, há uma vertente que acredita na ideia de que através do trabalho absolutamente tudo é possível. Não nego que me soa uma ideia bastante perigosa, mas é fato que jogadores e equipes não são, eles estão: podem ir para o alto e adiante. É disso, afinal, que cuidamos na Pedagogia do Esporte. De toda forma, há uma espécie de dualidade, que talvez possamos dissolver aqui.
Para isso, acho importante uma lembrança filosófica.
Quando falamos de talento, falamos basicamente do assim chamado inatismo. O talento, para além da parábola bíblica, seria uma habilidade inata, um traço distintivo do indivíduo desde o seu nascimento. No inatismo a que estamos habituados, parece comum entender que o talento basta: quem nasceu com ele, está dispensado do trabalho duro. Mas será mesmo assim? Bom, como bem sabemos, a paternidade do inatismo pode ser dada a Platão. Platão foi discípulo de Sócrates que, décadas antes, havia entrado em um jogo duro com um grupo de filósofos que migrara da Ásia Menor em direção à Ática: os sofistas.
As diferenças básicas entre Sócrates e os sofistas eram duas: Sócrates acreditava na verdade; os sofistas, não. Por isso, os sofistas eram tidos como relativistas, ou céticos. Além disso, havia uma divergência metodológica. Enquanto os sofistas acreditavam na retórica (eloquência individual com o objetivo de persuadir), Sócrates acreditava na dialética, no diálogo entre sujeitos, que permitia que o ouvinte chegasse à verdade por si mesmo, através das rigorosas perguntas feitas pelo interlocutor. Assim como a mãe fora uma parteira de corpos, Sócrates queria ser um parteiro de almas. O conhecimento, assim como um trabalho de parto, era doloroso e deveria vir do próprio indivíduo.
Pois bem, o mais notório herdeiro do pensamento socrático é exatamente Platão. Mas ele (de forma ligeiramente religiosa) acredita que existem dois mundos: um mundo das ideias (ou inteligível), onde está a verdade, e um mundo sensível, este em que vivemos, um mundo das ilusões (pois os sentidos nos enganam). No olhar platônico, repare bem, não se pode aprender nada: todos nascemos sabendo. A explicação está no Mito de Er: no mundo das ideias, prestes a reencarnar neste mundo sensível (Platão acreditava na imortalidade da alma), nós mergulhamos em um rio, o rio Lethe. O rio Lethe é o rio do esquecimento. Quanto mais profundo o mergulho no Lethe, maior o esquecimento, ou seja: mais distante estará a verdade no mundo sensível. Quanto menor o mergulho, mais próximo. A intensidade do mergulho está diretamente relacionada com o tipo de atividade intelectual que o sujeito realizará no mundo sensível. Os filósofos, por exemplo, mergulhavam apenas brevemente no Lethe. Qual seria, aliás, a intensidade do nosso mergulho como treinadores?
Isso significa que Platão não entende o conhecimento como contemplação (como fará Aristóteles mais tarde), mas como reminiscência. Conhecimento é lembrança: é lembrar-se de algo que se sabe, sem saber que se sabe! Assim, o talento, em si, não seria suficiente, pois estaria adormecido, à espera de um parteiro/obstetra de (um treinador ou treinadora, por exemplo), que possa despertá-lo e trazê-lo à vida.

***

Na fala de Saúl sobre Messi, imagino que os leitores e leitoras também percebam um certo descompasso em relação ao que escrevi nos parágrafos anteriores. Saúl (ainda sob efeito do jogo, compreensível) dá a entender que, para Messi, o talento basta. Mas, nas linhas que escrevi acima, me parece que não: qual foi a quantidade e a qualidade dos estímulos a que Messi esteve submetido desde a mais tenra idade? Qual é o seu envolvimento afetivo com o clube, em todas as suas dimensões? Em que nível está enraizado o DNA do clube e o modelo de jogo nas suas estruturas cognitivas? Assim como o mais belo instrumento não toca as melhores notas se não estiver corretamente afinado, Messi poderia ser menos genial, talvez fosse comum, se não estivesse em um ambiente frutífero, sob estímulos adequados. Talvez o talento não baste. É preciso afinação.
A afinação, aliás, não ocorre no excesso, nem na falta. A afinação é precisa! A afinação do atleta e da equipe passam, evidentemente, pela inteligência e pela sensibilidade do treinador, que pode tanto lidar com um talento evidente, como o de Messi, quanto com o talento escondido, adormecido, daqueles atletas que sabem sem saber que sabem (me lembro aqui de Guimarães Rosa). Não somos inatistas, somos prudentes: quanto talento não se perde por mau treino? Quanto talento não se perde porque damos ao humano um tratamento de coisa? Despertar o que já está desperto não é necessariamente simples, mas despertar o que está silenciado, ver o que não é normalmente visto, iluminar a escuridão, são tarefas das mais sofisticadas, e que exigem de nós, treinadores e treinadoras, o mesmo afinamento que queremos dos nossos atletas e da equipe.
O que, evidente, não é fácil.
Mas é possível.

Categorias
Colunas

Esporte e Política (Internacional) se misturam?

Recentemente a seleção brasileira de futebol realizou dois amistosos na Arábia Saudita: dia 12 de Outubro, contra a Arábia Saudita, vitória por 2 a 0 na capital, Riad. Dia 16, em Jidá, triunfo sobre a Argentina (!?!?) por 1 a 0. Durante a presença da equipe em solo saudita, um renomado jornalista daquele país, Jamal Khashoggi, que trabalha para o jornal norte-americano “The Washington Post”, desaparece. Fora visto pela última vez no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia. Ademais, vem à tona os paradoxos e incoerências das políticas interna e externa do país saudita, que afetam direta e indiretamente todo o povo árabe espalhado pelo mundo, ou seja, atinge o Brasil também.

Desde já, temas delicados. Existem os que defendem que o esporte não se mistura com a política, que esporte não é política, e que o futebol é isento destas iniciativas. Nunca foi, não é e não será. Sem exageros, não há dúvidas de que hoje, depois destes jogos, a Arábia Saudita seja percebida por muitos como um país que existe no planeta. Por outros, como um ator importante da geopolítica internacional. Vários tantos podem considerar o futebol local saudita como importante na modalidade, por haver disputado uma partida contra os brasileiros e, ademais, Brasil e Argentina terem disputado um jogo de seleções entre si em pleno território do país. Estes eventos oficializam gestos, ações e, diante disso, dão margem a inúmeras interpretações por parte da opinião pública.

De que o Brasil é conivente com as polêmicas que envolvem a Arábia Saudita. Sim. Claro que não é isso, mas permite esta interpretação. Por mais que uma seleção esportiva nacional não represente a linha política de seu país, o esporte e, neste caso, o futebol, por si só é um fato social total. Por ele se entende uma sociedade: a economia, a estrutura e sua organização política. É, portanto, o reconhecimento informal da sua similar (a seleção adversária) e, dentro de um ‘pacote’, o reconhecimento de todos os valores, princípios e orientações que o outro país compartilha. A França por pouco deixou de participar do Mundial FIFA de 1978 em função da ausência de Direitos Humanos na Argentina, país-sede do torneio. Johan Cruijff não viajou com a seleção holandesa para aquela Copa, sob a mesma alegação.

Neymar cumprimenta membros do governo saudita (foto: Lucas Figueiredo/CBF)

 

Com tudo isso, não é de se estranhar – e de se esquivar de – pergunta feita por um jornalista ao futebolista Neymar, antes do jogo contra a Argentina, sobre o desaparecimento do jornalista saudita. Pode não haver relação com o jogo. Entretanto, tem com tudo aquilo com que o jogo se relaciona. Por conta disso, esporte e política internacional sim, se relacionam. É preciso cuidado nestes temas, porque a organização esportiva pode arrastar questões consigo que sequer sabia que existiam! Querer dissociar esporte da política internacional é negar, por exemplo, a importância da seleção brasileira de futebol para o reconhecimento internacional do Brasil.

Categorias
Conteúdo Udof>Artigos

Alternativas táticas para ser vantajoso na subfase de finalização do jogo

“Pra quem não sabe para onde vai. Qualquer caminho serve” (Lewis Carroll)

 
Ao acompanhar jogos de diversos campeonatos nacionais e internacionais podemos evidenciar (de maneira empírica) a ausência de comportamentos táticos bem definidos na subfase de finalização do jogo. O que pode ser considerado como um dos fatores para a dificuldade encontrada pelas equipes para chegar aos gols e alcançar as vitórias sem tanto sacrifício.
O jogo evoluiu e hoje temos visto nas equipes ideias claras de como se deve sair jogando e qual caminho busca-se percorrer para chegar ao ataque. No entanto, é na subfase de finalização que constatamos a ausência de condutas coletivas e movimentos preferenciais que possam guiar os atletas a encontrar as melhores vantagens no último quarto do campo.
Nessa subfase do jogo somente a livre intuição dos jogadores tem sido preconizada. Não que essa seja uma alternativa errada. Pelo contrário, a intuição do jogador deve estar em tudo! Porém ela deve fazer interação com os princípios táticos da equipe como um todo e estes devem ser revelados em todas as subfases do jogo.

Figura 1 – As subfases do jogo de futebol

 
Nesse contexto, apresento abaixo comportamentos táticos que podem ser desenvolvidos no último quarto do campo. Partindo da ideia do Jogo Posicional onde interpreta-se o jogo a partir de 4 tipos de vantagem: vantagem posicional, vantagem numérica, vantagem qualitativa e vantagem cinética.
É importante ressaltar que existe uma diferença entre chegar ao ataque e ficar no ataque. Para ter vantagem na subfase de finalização é preciso primeiro se estabelecer de maneira posicional nessa região do campo (temporização ofensiva) caso não haja uma vantagem clara para ir ao gol.
Após a equipe se localizar no campo de ataque busca-se explorar três corredores verticais (corredor lateral-esquerdo, corredor central e corredor lateral-direito).
 
Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.
 
BIBLIOGRAFIA
PERAITA, A. Quero que minha equipe jogue como o F.C. Barcelona de Guardiola. Edição 1. Murillo Saif, Audiovisual y ediciones S.L., 2018

Categorias
Colunas

Entre o Atleta e o Doping

Bem-vindos ao nosso Entre o Direito e o Esporte” dessa sexta-feira! Na nossa terceira coluna desse mês de outubro nós vamos dar uma olhada sobre como o que a gente acha “Entre o Esporte e o Doping” e “Entre o Direito e o Doping” acontece na prática. Na nossa conversa de hoje a gente vai ver um pouco mais sobre o tal do “controle antidopagem”.
E quando a gente pensa em qualquer tipo de controle já vem 3 perguntas na cabeça: começando por “quem?”, passando por “onde?” e chegando em “quando?”. É bem esse o mapa da nossa coluna dessa sexta-feira de outubro quando vamos ver como o “sistema mundial antidopagem” cuida do que a gente acha entre o atleta e o doping.
Bora lá?
A AMA e as suas ANAs. Como já dá para imaginar pelo próprio nome, o controle antidopagem serve para “pegar” aqueles que não seguem as regras (antidopagem). Aí a gente tem um pouco de tudo: atletas, técnicos, médicos… governos, digo Agências Nacionais Antidopagem (não tão) independentes (quanto a maioria).
Imagina que você estuda em uma escola bem conservadora. Imagina que nessa escola bem conservadora você não podia nem entrar se usasse uma meia vermelha. Imagina que você foi um dia nessa escola bem conservadora com essa tal da meia vermelha. E aí? Pois é, um bedel te parava e mandava tirar a meia (parar de usar) ou ir para casa (suspensão).

Fonte: Pexels, Susanne Jutzeler

 
A ideia aqui é a mesma, e nesse primeiro momento a gente vai conversar sobre esse bedel. Quem é o bedel que cuida dessa “investigação de quem quebra as regras” no caso do sistema mundial antidopagem? Isso mesmo, uma Agência Antidopagem!
Na “família AMA/WADA” nós temos a Agência Mundial Antidopagem e muitas Agências Nacionais Antidopagem (ou ONA, Organização Nacional Antidopagem, em português “mais correto”), e como a gente lembra da primeira semana… aqui no Brasil é a ABCD, que é a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem que faz parte da estrutural regimental do Ministério do Esporte lá em Brasília.
Agora você me fala: “tranquilo e favorável. Mas… e isso vale pra tudo e o nosso futebol é a mesma coisa que corrida de cavalo quando a gente fala em doping?”. Ufa, essa foi uma pergunta longa e o melhor jeito de responder é lembrando as sábias palavras de Caetano Veloso e Gilberto Gil: “Cho chuá, cada macaco no seu galho. Cho chuá, eu não me canso de falar”.
Afinal, aqui a regra geral é que cada um tem suas especificidades (regras) e esse controle antidopagem acontece de um jeito dependendo da competição que o atleta disputa e da modalidade que ele faz parte.
Lembra de novo dessa escola que a gente falou aí em cima. Imagina agora que você tem cabelo que cai no olho. Imagina que é dia de futebol na educação física e você quer colocar uma faixa para ajudar no jogo. Imagina que a escola não deixa você usar essa faixa porque é durante o campeonato interno e não num torneio com outros colégios – é, a vida lá não era fácil!
É a mesma ideia nos casos de doping, as regras variam de acordo com a Federação Internacional responsável pela modalidade (como a FIFA), pela Entidade Organizadora da Competição (como a CONMEBOL na Libertadores), e pela Agência Antidopagem responsável pela testagem (como a ABCD na Copa do Brasil – doping e não VAR).
Seja como for, esse procedimento de controle antidopagem segue o IS (parâmetro internacional da AMA) sobre Testagem e Investigação (ISTI) e aí inclui tudo isso aqui: a seleção do atleta que passa pelo exame antidopagem (Guerrero naquele jogo), a notificação do atleta (quem foi avisar o Guerrero naquele jogo), a coleta da amostra (urina e/ou sangue, e sempre 2 amostras de cada “material biológico”), o envio dessa amostra aos laboratórios credenciados da AMA (como o Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem por aqui – pelo menos quando a AMA não suspende o LBCD).
“Legal, agora… isso quer dizer que alguma dessas sopas de letrinhas aí só pode me testar durante uma competição e eu posso tomar (neosaldina) quando quiser se eu estiver de férias. Né?”. Amigo… desculpa, mas não. É sempre bom seguir as regras, ainda mais que esse “quando” pode ser a qualquer momento– principalmente se você for bom mesmo, tipo um atleta “bolsa-pódio” ou “bolsa-atleta”.
As Agências Antidopagem podem fazer esses testes parte do controle antidopagem tanto em competição, quanto fora de competição. E mais! O atleta tem o deverde informar (whereabouts) todo e qualquer detalhe que ajude aos oficiais de controle de dopagem (“agente de controle”) a achar esse atleta em qualquer hora e lugar ao longo do ano.
Advinha? Isso mesmo! Imagina que você vai jogar um torneio por aquela escola. Imagina que logo antes de pegar a carona para ir jogar “fora de casa” você tinha aula – e, logo, deveria estar em sala. Imagina que você faltou por (escolha o motivo e coloque aqui) e não avisou. É… tomou gancho, deveria ter avisado a escola. E é assim que funciona no whereabouts, se o atleta não avisa… pode (quase que um vai, na verdade) dar ruim para ele ou ela.
Em outras palavras, tem sempre que avisar a Agência Nacional Antidopagem do país que o atleta representa (ABCD por aqui) ou da Federação Internacional da modalidade na qual o atleta é registrado (FIFA se for do futebol). É claro, não é todo e qualquer atleta que tem que fazer isso… são alguns atletas de elite, como os que ganham bolsas federais para treinar e competir pelo Brasil ou que são “atletas de nível internacional” (ou seja, que representam o nosso Brasil lá fora).
Resumindo: o sistema mundial antidopagem tem seu próprio mecanismo de controle que conta com a participação direta dos atletas numa “cooperação obrigatória”. E quem não segue essas regras só corre risco… e o risco aqui é não pode mais ser atleta, por um tempo ou até “para sempre”. Por isso que é importante saber mais sobre o que a gente acha entre o atleta e o doping.
É isso gente, fico por aqui e desejo a todos vocês um final de semana tranquilo e favorável! Convido a ficarem comigo no “Entre o Direito e o Esporte” nessa próxima sexta-feira para continuar a nossa conversa sobre o doping aqui na Universidade do Futebol. Fechamos o mês falando sobre o que vem depois do controle antidopagem. Feito? Deixo meu convite para falarem comigo por aqui, pelo meu LinkedIn ou pelo meu Twitter. Obrigado e até semana que vem!