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Time no papel?! Faz me rir!

Nosso futebol foi construído, desenvolvido e vitorioso com base nas individualidades. O Brasil sempre se agarrou em craques, em jogadores que poderiam fazer a diferença. Em nossas conquistas, falamos muito mais de talentos específicos do que de esquemas coletivos bem ajustados. Sempre Pelé, Garrincha, Romário e Ronaldo serão mais lembrados do que engrenagens táticas, movimentos sincronizados entre setores, elos de ligação dentro da própria equipe potencializando todos e outros aspectos que de um jeito ou de outro vão existir sempre, com mais ou menos qualidade, por se tratar de um jogo coletivo.
Como consequência disso temos impregnado em nossa cultura que a equipe que tiver os melhores jogadores é a que vai ganhar. Não existe mentira mais absurda do que essa! Me causa calafrios cada vez que ouço a expressão “time bom no papel”. Como assim time no papel? Quer dizer que somando as partes (jogadores) teremos um todo (equipe) melhor? É claro que um grupo que conta com atletas inteligentes e competentes para melhor resolver os problemas do jogo terá uma vantagem. Mas apenas isso, uma vantagem.
O Corinthians de 2017, apontado como quarta força de São Paulo, é o exemplo que mais grita sobre tudo isso. No famigerado ‘papel’ a equipe parecia fraca para muitos. Porém, com sinergia entre os jogadores em campo, as ideias do técnico Fábio Carille e o bom ambiente entre todos os profissionais de campo parecia que o Corinthians tinha 14, 15 jogadores em campo e não apenas 11.
E para falar do ano atual, já dá para perceber claramente o erro de prognóstico de quem viu o desempenho de São Paulo e Corinthians na janela de contratações. Ao passo que o Tricolor foi mais bombástico, o Timão foi mais certeiro. Para quem achava que Pablo, Hernanes e cia. mudariam o patamar (outra expressão medonha!) da equipe são-paulina a eliminação para o Talleres na primeira fase da Libertadores já foi um banho de água fria. E venho sustentando em meus comentários que o Corinthians vai evoluir, vai criar mecanismos de jogo que o colocarão como favorito em toda competição que disputar. Falo isso por enxergar no elenco jogadores que se complementam e um treinador capaz de extrair o melhor de cada um.
Pagar fortunas para treinadores badalados não é sinônimo de privilegiar o jogo coletivo. Dirigentes usam técnicos que já foram vitoriosos como escudo. A fórmula para o sucesso no futebol envolve inúmeros fatores, alguns deles já conhecidos: planejamento e conhecimento na formulação do elenco, definição de uma ideia de jogo a ser desenvolvida e ambiente e mentalidade propícios a vitória. Com esses elementos, o time em campo terá muito mais chance de ser melhor do que no papel.
 

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Sobre a criação de espaços vazios

Phil Jackson e Scottie Pippen, então no Chicago Bulls: a partir das desordens, uma ordem imparável. (Foto: Sports Illustrated)

 
Cesar Luis Menotti, em frase já conhecida, disse certa vez que o jogo é feito de tempo, espaço e engano (essas frases me agradam, aliás). Engano é um termo levemente poético, mas não é nele que vamos nos dedicar aqui. Tempo e espaço, por sua vez, são conceitos centrais, não apenas para o futebol mas para modalidades coletivas em geral.
O ato de encontrar espaços vazios ao longo do tempo, em função da lógica do jogo, é um desafio para todos nós, treinadores e treinadoras, especialmente aqueles que têm pretensões mais ofensivas. Sonhar com ataques eficazes é simples, mas transformá-los em matéria exige ideias, reflexão, treinamento. Por isso, gostaria de dedicar nosso espaço dessa semana para pensarmos por um instante sobre o encontro dos espaços vazios em campo.

***

Em primeiro lugar, pensemos o seguinte: em modalidades coletivas de invasão, o número de jogadores em campo será, evidentemente, sempre inferior à área disponível. Isso quer dizer que os espaços livres são absolutamente inerentes ao espaço de jogo. A questão é: os espaços livres a priorisão espaços ótimos? Bom, não necessariamente. E se não são, é preciso então que atletas e treinadores modelem o jogo, através de ideias e ações, não exatamente para usar os espaços que já existem, mas para criar outros, potencialmente melhores, capazes de atrelar os mecanismos ofensivos ao que nós queremos. Por isso, aliás, me parece importante recorrermos ao conceito de espaço efetivo de jogo, do colega Rodrigo Azevedo Leitão, pois talvez ali estejam os espaços-chave para se chegar ao gol. Quando pensamos em espaços livres, pensamos nos espaços dentro ou próximos ao espaço efetivo, que nos permitam criar situações capazes de facilitar nosso alcance ao alvo adversário.
A questão é que as ideias e as ações, por si, não geram os espaços que nos interessam. O jogo, como sabemos, não funciona a partir de uma relação de causa/efeito. Se visto como um sistema, o jogo está muito mais próximo de uma espécie de caos ordenado, mas uma ordem própria cujos gatilhos são desordens sucessivas, nascidas do próprio jogo, a partir das ações dos jogadores, das interferências externas, da racionalidade própria ao jogo. Repare que ambivalente: nós criamos estratégias para encontrar os espaços vazios. Eles surgem, mas não necessariamente de acordo com a nossa vontade primeira. Mas a adaptação ao caos originado pelo próprio jogo (a que se seguem novas ordens) é o que gera novas os espaços que nos interessam. Parece complexo – e é!
Embora estejamos submetidos à complexidade do jogo, o termo criação, que escolhi para o título, é particularmente necessário. Em primeiro lugar, porque o ato de criar, como superação de si, talvez seja uma das coisas capazes de distinguir o humano de outros seres – e já nos detivemos aqui sobre a necessidade do processo de humanização no futebol. Depois porque, embora soe óbvio, o ato de criar não pode ocorrer de maneira passiva. Para criar, não bastam apenas as ideias e não é possível viver da aleatoriedade: é preciso ação! E, mais ainda, não se trata de uma ação meramente individual. Deste modo, pense comigo duas coisas: I) criar espaços, em uma modalidade coletiva de invasão, deixa de ser um adorno e passa a ser um compromisso moral, a ser constantemente realimentado, pois sem ele tendem a ser menores as chances de se chegar ao gol adversário em uma base regular; II) se o jogo é feito de ordens criadas a partir do caos, se pensamos o jogo como fluxo, então quaisquer tentativas sólidas tendem a fracasso, pois vão na contra-mão daquilo que parece estar no coração do jogo: o movimento. Independentemente do modelo de jogo, parece razoável que a criação de espaços vazios está vinculada ao movimento dos atletas ao longo do tempo – especialmente sem bola. Talvez, quanto mais coordenado for este movimento, melhor.

***

Quem já brincou pelas páginas do ótimo Cestas Sagradas, de Phil Jackson, encontrou um registro histórico importante sobre a criação de espaços livres. O triângulo ofensivo, batizado por Tex Winter e aprimorado por Jackson, tornou-se uma estratégia quase que imarcável, segundo ele próprio, porque não apenas era capaz de valorizar o movimento inerente ao jogo (o caos gerador de novas ordens), como o fazia de modo que, invariavelmente, sempre houvesse espaços vazios no ataque. Repare que interessante: a criação de um triângulo, com três jogadores afastados por cinco metros de distância cada, presumia portanto que houvesse uma desordem, uma assimetria na estruturação espacial, fazendo com que, através dela, fosse possível encontrar os espaços ótimos. Os espaços eram criados! Este é um ponto especialmente importante se observarmos que parece haver uma certa tentação, percebo em alguns colegas, não pelo caos (gerador de ordens), mas pela ordem, sozinha. Este é um problema grave. Isso se expressa, neste caso, em uma obsessão bastante particular pela posição, ainda que isso signifique a morte do movimento de que falamos acima. Não surpreende, portanto, que os espaços vazios, vez por outra, sejam tão difíceis de se encontrar.

Finais da NBA, temporada 1991/92, Chicago Bulls (treinado por Phil Jackson) e Portland Trail Blazers. Michael Jordan tem a bola, o triângulo é mais do que visível. Caso não haja condição de chute, o atleta do triângulo na zona morta pode atacar a zona morta oposta, formando outro triângulo, deixando outro espaço vazio – e assim sucessivamente. Na assimetria também se constroi a ordem – Reprodução: YouTube.

 
Repare que isso não significa uma defesa da assimetria como a única forma de criação de espaços ao longo do tempo, mas sim como uma referência importante a ser considerada, ao lado da própria simetria, desde que as duas se alternem, pois essa alternância, veja só, também expressa o movimento de que falamos anteriormente. A criação de espaços livres presume movimento, o movimento ocorre a partir de referências (bola-companheiros-adversários-alvo) e, especialmente, não há evidências que nos façam pensar que a lógica do jogo será tão mais facilmente alcançada quanto mais ‘organizada’ estiver uma equipe (especialmente se essa ‘ordem’ for engessada), ou quanto mais racional for a ocupação de espaços. As estruturas, não se esqueça, são voláteis. Sua meia-vida é curta.
Não admira, portanto, que Phil Jackson, no mesmo livro que citei acima, faça uma observação importante sobre o croata Tony Kukoc:
“Quando Toni Kukoc entrou para os Bulls, tendia a gravitar na direção da bola, sempre que esta não estava em suas mãos. Agora [após adaptar-se ao modelo] ele aprendeu a girar para longe da bola e estar sempre em locais livres – o que o torna um jogador muito difícil de marcar.”

***

Claude Bayer, na página 123 do excelente O Ensino dos Desportos Colectivos, nos traz uma referência importante neste sentido:
“Consequência do problema precedente, os espaços surgirão decerto em função das deslocações dos adversários, mas igualmente em função das dos companheiros. Trata-se, pois, para o jogador não-portador da bola, de estruturar os espaços do campo de jogo, quer dizer, procurar a todo o momento os espaços onde vai realizar as suas acções, tendo em conta o que fazem os seus companheiros, situando-se portanto, continuamente em relação a eles, conservando uma possibilidade de trocas com o portador da bola. Esta actividade supõe uma recolha de informações contínua, para ver os espaços alteráveis privilegiados, afim de poder mudar de direcção e escolher um outro local do terreno, caso um companheiro se proponha ocupar o espaço previamente escolhido. O educador deve esforçar-se para tornar significativo este elemento do jogo, que obriga o jogador não-portador da bola a descentrar-se dela momentaneamente, a esquecê-la por instantes, para se informar das zonas onde poderá desenvolver a sua acção (aprender a olhar outra coisa além da bola e ter em conta o que fazem os seus companheiros).”
Ou seja, para além do movimento em si e para além das possíveis assimetrias, é preciso que este movimento esteja comprometido com algo maior. Será que este algo seria o modelo? Não sei, pois não se joga pelo modelo: se joga para ganhar e o modelo é o caminho, o meio que escolhemos em vista do fim. Mas ganhar, em si, não é o ponto: fosse assim e todas as equipes teriam consigo o combustível necessário para supostamente jogarem bem. É preciso algo mais.
Daí a função do educador (do treinador, para quem a pedagogia é central), que não apenas pensa sobre o modelo (ao lado dos atletas), como pensa nos pormenores do modelo, nos potenciais espaços a serem criados – centrais, laterais, próximos do próprio gol, distantes…. Este mesmo educador deve ter didática, pois sem ela as ideias morrem consigo – quando elas precisam, na verdade, viver nos atletas. E o mesmo educador (que é mais do que treinador), deve também fazer o atleta identificar os espaços vazios nele próprio, para superar-se a si mesmo e, assim, perceber-se capaz de algo maior.
O que também é parte do relato de Phil Jackson em Cestas Sagradas, diga-se.

***

Na ausência de caminhos universais, é preciso criar caminhos próprios, meios que nos façam encontrar os espaços vazios e, assim, do gol adversário. Por ora, fico com a importância do movimento, da assimetria, da solidariedade e, acima deles, da pedagogia. Uma vez mais, não se tratam de regras estáticas, mas sim de direções.
Que dialogam entre si em um fluxo constante.
 

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Frases Infelizes & Presenças Incômodas

Não é novidade a polêmica em que o já antigo Diretor de Marketing do Corinthians, Luís Paulo Rosenberg, se envolveu, ao mencionar a aids ao tentar explicar a situação do clube em relação a patrocinadores, em emissora de televisão. Uma infeliz declaração, sem dúvida. Talvez em outros tempos isso pudesse ser observado de uma outra maneira, deixando isso passar. No entanto, este tipo de fala desde sempre é incorreta e percebe-se que não há mais espaços para deslizes. O público cobra, questiona. Rejeita.

É a imagem de uma centenária instituição em jogo. Colocada em cheque pelo departamento de marketing, um dos principais – senão o principal – responsáveis por ela. Incoerente, no mínimo. Sobretudo em um clube amplamente lembrado pela sua “Democracia”, cuja palavra está diretamente associada aos conceitos de inclusão e respeito.

O antigo Diretor de Marketing do Corinthians, Luís Paulo Rosenberg. Em segundo plano, o Presidente do clube paulista, Andrés Sanchez. (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

 

No Palmeiras, a presença de Marco Polo del Nero (ex-Presidente da CBF) no conselho deliberativo do clube pode trazer problemas em breve. A FIFA o baniu de quaisquer atividades do futebol em função das investigações que levaram à prisão de José Maria Marin (ex-Presidente da CBF) e outros dirigentes do futebol da América do Sul. Por mais que del Nero tenha pedido licença, ele ainda é conselheiro e a entidade máxima da modalidade prevê rigorosas sanções, tais como perda de pontos no campeonato nacional e, consequentemente, rebaixamento para divisão inferior.

Neste caso, a imagem do Palmeiras também é colocada em cheque. Uma também centenária instituição, reconhecida pela saúde financeira e capacidade de gerar receitas, e que faz pouco lobby em comparação com seus rivais, manter o antigo dirigente – mesmo licenciado – no conselho é, de alguma maneira, estar conivente com velhas e irregulares práticas na gestão do futebol. Acredito que o clube – arrisco-me a dizer que todos eles – queira(m) romper com elas.

Não há mais espaço na sociedade para declarações exclusivas e desrespeitosas. É vergonhoso reconhecer que em outros tempos elas não foram reprovadas publicamente e, com isso, dirigentes esportivos, juristas, ministros de Estado e outras pessoas públicas mantiveram-se no poder ou tiveram reconhecimento positivo ao longo de suas carreiras. No alvinegro, Rosenberg demitiu-se. Claro, deve ter havido alguma questão política, mas a declaração foi a gota d’água. Resta saber o que acontecerá no alviverde.

Termino esta coluna do jeito como encerrei a anterior: o Brasil que se quer – justo, de paz, tolerante, eficiente e produtivo – passa obrigatoriamente também pelo futebol. Se queremos mudar pra melhor, é preciso romper com o passado de velhas práticas e costumes que vão na contramão dos valores mencionados no início deste parágrafo. A pressão exercida para o pedido de demissão do antigo Diretor de Marketing do Corinthians é ainda sensível sinal desta mudança.

Ainda há muito para ser feito.

 

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Frases Infelizes & Presenças Incômodas

Não é novidade a polêmica em que o já antigo Diretor de Marketing do Corinthians, Luís Paulo Rosenberg, se envolveu, ao mencionar a aids ao tentar explicar a situação do clube em relação a patrocinadores, em emissora de televisão. Uma infeliz declaração, sem dúvida. Talvez em outros tempos isso pudesse ser observado de uma outra maneira, deixando isso passar. No entanto, este tipo de fala desde sempre é incorreta e percebe-se que não há mais espaços para deslizes. O público cobra, questiona. Rejeita.

É a imagem de uma centenária instituição em jogo. Colocada em cheque pelo departamento de marketing, um dos principais – senão o principal – responsáveis por ela. Incoerente, no mínimo. Sobretudo em um clube amplamente lembrado pela sua “Democracia”, cuja palavra está diretamente associada aos conceitos de inclusão e respeito.

O antigo Diretor de Marketing do Corinthians, Luís Paulo Rosenberg. Em segundo plano, o Presidente do clube paulista, Andrés Sanchez. (Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

 

No Palmeiras, a presença de Marco Polo del Nero (ex-Presidente da CBF) no conselho deliberativo do clube pode trazer problemas em breve. A FIFA o baniu de quaisquer atividades do futebol em função das investigações que levaram à prisão de José Maria Marin (ex-Presidente da CBF) e outros dirigentes do futebol da América do Sul. Por mais que del Nero tenha pedido licença, ele ainda é conselheiro e a entidade máxima da modalidade prevê rigorosas sanções, tais como perda de pontos no campeonato nacional e, consequentemente, rebaixamento para divisão inferior.

Neste caso, a imagem do Palmeiras também é colocada em cheque. Uma também centenária instituição, reconhecida pela saúde financeira e capacidade de gerar receitas, e que faz pouco lobby em comparação com seus rivais, manter o antigo dirigente – mesmo licenciado – no conselho é, de alguma maneira, estar conivente com velhas e irregulares práticas na gestão do futebol. Acredito que o clube – arrisco-me a dizer que todos eles – queira(m) romper com elas.

Não há mais espaço na sociedade para declarações exclusivas e desrespeitosas. É vergonhoso reconhecer que em outros tempos elas não foram reprovadas publicamente e, com isso, dirigentes esportivos, juristas, ministros de Estado e outras pessoas públicas mantiveram-se no poder ou tiveram reconhecimento positivo ao longo de suas carreiras. No alvinegro, Rosenberg demitiu-se. Claro, deve ter havido alguma questão política, mas a declaração foi a gota d’água. Resta saber o que acontecerá no alviverde.

Termino esta coluna do jeito como encerrei a anterior: o Brasil que se quer – justo, de paz, tolerante, eficiente e produtivo – passa obrigatoriamente também pelo futebol. Se queremos mudar pra melhor, é preciso romper com o passado de velhas práticas e costumes que vão na contramão dos valores mencionados no início deste parágrafo. A pressão exercida para o pedido de demissão do antigo Diretor de Marketing do Corinthians é ainda sensível sinal desta mudança.

Ainda há muito para ser feito.

 

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Hierarquia

Tive um chefe que identificava na lógica salarial uma das razões de o futebol ser um ambiente profissional tão propenso a desgastes. Afinal, como aplicar qualquer métrica ou procedimento comum em empresas de outros segmentos numa seara em que um funcionário posicionado nas regiões mais inferiores do organograma ganha milhões a mais do que qualquer superior? Como estabelecer relação de hierarquia entre técnicos ou dirigentes que são sempre o elo mais fraco em discussões com um jogador, mais remunerado, mais assediado pelo mercado e mais relevante para todas as instâncias envolvidas no esporte? O time depende de seus atletas para ter desempenho, as federações e confederações dependem dos atletas para venderem campeonatos, os parceiros de mídia dependem dos atletas para vender direitos de transmissão e até os torcedores dependem de atletas para construírem relação de idolatria e se sentirem impelidos a frequentar eventos esportivos e/ou consumir produtos relacionados ao tema.
O atleta não é o ponto mais alto da hierarquia em uma equipe, mas é sempre o protagonista. Além disso, num esporte coletivo é mais fácil mudar o comando (técnicos ou dirigentes, por exemplo) do que fazer alterações realmente significativas no dia a dia da operação. Se Neymar comprar uma briga com qualquer superior no Paris Saint-Germain ou Lionel Messi se indispuser com alguém no Barcelona, apenas algo irrefutável faria esses clubes se voltarem contra eles. E se isso acontecesse, o impacto no vestiário poderia destravar outras questões – como o restante do grupo reagiria, afinal, se tivesse de dividir as responsabilidades hoje concentradas nesses jogadores?
No último domingo (24), o espanhol Kepa Arrizabalaga, 24, protagonizou um episódio propício para discutir hierarquia no futebol. Contratado pelo Chelsea em abril de 2018 por 80 milhões de euros (mais de R$ 339 milhões na cotação atual), em negociação que fez dele o goleiro mais caro de todos os tempos, o titular da equipe londrina se recusou a ser substituído nos minutos finais da prorrogação contra o Manchester City, na decisão da Copa da Liga Inglesa. Permaneceu em campo a despeito da evidente revolta do técnico, o italiano Maurizio Sarri, 60, e defendeu a meta do Chelsea na disputa de penalidades – os citizens venceram por 4 a 3.
Pense agora em outro ramo profissional: o que aconteceria com você ou com qualquer conhecido se resolvesse ignorar em público uma determinação de um superior e o fizesse assim, sem qualquer argumentação ou demonstração de respeito?
“Kepa nunca mais deveria jogar pelo Chelsea. Esse deveria ter sido seu último compromisso com a camisa do clube. É uma desgraça”, disse Chris Sutton, ex-jogador do time inglês, ao site “Goal.com”. “Por um lado, o goleiro que mostrar sua personalidade e sua confiança. Mas quando ele faz isso, deixa seu técnico e as outras pessoas em situação frágil”, complementou José Mourinho, ex-treinador da equipe, à plataforma “DAZN”.
No Brasil, o caso similar mais chamativo nos últimos anos aconteceu no Campeonato Paulista de 2010, quando o meia Paulo Henrique Ganso se recusou a sair de campo. Era o segundo duelo daquela decisão, e o técnico Dorival Júnior pretendia tirar seu camisa 10 para fechar mais a equipe. Em vez de acatar a decisão, uma vez que era o principal responsável por reter a bola e reduzir o ritmo da partida, o jogador gesticulou para anunciar que seguiria no campo.
O caso de Ganso é tratado até hoje como demonstração de personalidade forte. O próprio Dorival Júnior, anos depois, admitiu que estava errado ao pensar naquela substituição e agradeceu. No entanto, retomo o questionamento anterior: o que teria acontecido em outro ambiente profissional?
Em relação à geração dos treinadores e dos dirigentes, os jogadores que estão em atividade atualmente têm uma dinâmica absolutamente diferente com hierarquia. São pessoas formadas em ambientes mais abertos e mais esclarecidos – alguns anos antes, por exemplo, era aceitável que um pai ou uma mãe batesse em seus rebentos como forma de repreensão; hoje, felizmente, essa solução física deu lugar a uma necessidade cada vez maior de diálogo.
Reside nessa diferença entre gerações uma das principais explicações para alguns treinadores simplesmente não funcionarem durante muito tempo. Alguns nomes tinham mais êxito na relação com atletas mais preparados para uma relação hierárquica e militarizada. Falar com quem tem autonomia e segurança para responder é sempre um processo mais complicado.
É por isso que tem tanta relevância a criação de processos internos de comunicação no esporte. Um dos motivos para Sarri ter ficado tão exposto no Chelsea é que o clube não tem um protocolo para lidar com esse tipo de insubordinação – e claramente não está disposto a comprar briga com um jogador que custou tanto e tem tanta importância esportiva.
Para qualquer instituição esportiva, é premente definir linhas de comunicação interna – por que os jogadores precisam respeitar publicamente as decisões de superiores, por exemplo – e estabelecer canais para contestações. A atitude de Kepa não estava necessariamente errada. O errado, no caso, foi a manifestação pública e desrespeitosa.
Enquanto preferirem tratar seus jogadores como estrelas que podem tudo e não se preocuparem com a disseminação interna de mensagens específicas, porém, os clubes seguirão sujeitos a esse tipo de debate.
O que aconteceria com Kepa se tivesse tomado essa atitude em outro contexto profissional? Numa organização eficiente, a resposta é “nada”. A atitude do goleiro simplesmente não teria acontecido.
 

 

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Um Novo Calendário para o Futebol Brasileiro Entrar no Século XXI

Se queremos que o futebol brasileiro evolua, este precisa ser melhor gerido. E, para haver melhor gestão, é preciso repensar o calendário.
Esse é o discurso que tem sido feito reiteradas vezes. É preciso que deixe de ser discurso, para se tornar realidade.
Um passo fundamental para isso é que se torna necessário tomar uma decisão corajosa, no futebol brasileiro: não é possível fazer futebol profissional para mais de 600 clubes, de acordo com o número de clubes que disputam Campeonatos Estaduais atualmente.
O que proponho, alternativamente, é o seguinte: tenha-se, no Brasil, 256 clubes profissionais, com os outros revertendo ao amadorismo e certames compatíveis.
Atualmente, o futebol brasileiro possui mais de 600 clubes em atividade. Já tive a ilusão que todos estes deveriam jogar a temporada inteira, como forma de prolongar vínculos profissionais ao longo de cerca de um ano de profissionais de futebol, “inundando” o mercado de empregos.
No entanto, hoje afirmo: isso não é viável.
Dos 600 e tantos clubes mencionados, muitos, a maioria deles, são modestíssimos, incapazes de gerar receitas com constância. Não existe condições para tantos clubes jogarem competições profissionais e, assim, boa parte deles devem aderir ao futebol amador.
Partindo do princípio que pouco mais de 100 clubes no Brasil tenham algum apelo comercial, mesmo que no caso de alguns deles seja um apelo relativo, elaborar um calendário em que mais de 600 clubes estão em atividade a temporada total significaria, das duas, uma:

  • Ou muitas centenas de clubes, de pequeníssimo porte, perderiam cada vez mais dinheiro a cada partida oficial.
  • Ou se precisaria de mega subsídios, um valor monetário exorbitante, para financiá-los, levando os diversos stakeholders da atividade futebolística à bancarrota (não sou contra subsídios aos clubes menores, mas estes devem ser corretamente direcionados).

Cabe ressaltar, contudo, que a antítese a esta ideia também não é salutar para o nosso futebol: ter-se uma estrutura em que de 40 a 60 clubes, apenas, jogam a temporada inteira é igualmente um erro. Seria uma verdadeira elitização do futebol brasileiro.
Elitizar o futebol é algo equivocado, que não é bom para o negócio, não condiz com nossa tradição, com nossa dimensão, com nossa vocação democrática.
Levando-se em consideração que nosso país tem 27 unidades federativas, e que cada uma delas tivesse três clubes profissionais, só aí se está contemplando 81 clubes.
Acrescente-se o seguinte: um estado como São Paulo, com tantos clubes de futebol tradicionalíssimos, pode ter menos de 30 clubes profissionais? E como um estado como o Rio de Janeiro pode ter menos de 20 clubes profissionais? E como estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul podem ter menos, cada um, de 15 clubes profissionais? E assim por diante.
Em suma: futebol profissional no Brasil com apenas dezenas de clubes não é algo condizente com o tamanho e a população do país.
Como costumam dizer que no meio é que está a virtude… nem tanto, nem tão pouco. Um calendário não para dezenas de clubes, mas para centenas. Mas não para muitas centenas, e sim para poucas centenas. Um calendário contemplando atividades para 256 clubes ao longo de toda a temporada parece uma solução que, por um lado, não é elitista e, por outro, não é populista.
Partindo-se dessa premissa, os clubes são divididos em duas categorias: os 256 profissionais, que jogam a temporada toda; as centenas de outros, que jogam certames amadores e locais.
Precisa-se, portanto, engendrar um calendário racional, pertinente, eficaz, para os 256 principais clubes do futebol brasileiro. É uma realidade que tem que ser refletida pela Confederação Brasileira de Futebol, pelas Federações, pelas Redes de Televisão, pelos Sindicatos e pelos próprios clubes.
 
*Luis Filipe Chateaubriand acompanha o futebol há 40 anos e é autor da obra “O Calendário dos 256 Principais Clubes do Futebol Brasileiro”
 

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Jardine, o fracasso tricolor e os experientes rindo a toa. Mais uma vez

A tragédia anunciada do São Paulo se cumpriu. O roteiro parecia já traçado desde o final do ano passado. André Jardine efetivado, reforços caros chegando sem muito critério e uma direção de futebol totalmente perdida. Em meus textos e comentários pontuei que o roteiro do fracasso se desenhava de maneira estupidamente bem feita. Não quero me gabar. Longe disso. Não faz sentido. Mas se o sucesso deixa pistas e rastros também funciona assim o fracasso. E o São Paulo cumpriu direitinho cada passo para se dar mal.
André Jardine é mais um dos jovens treinadores que não consegue se firmar no hostil ambiente do futebol profissional. A irrecusável e tentadora proposta de um time grande caiu em seu colo, mas faltaram competências para a sustentação do trabalho. Jardine pode até ter os seus méritos em metodologia de treinamento e possuir ideias de jogo interessantes. Porém, faltaram habilidades de comunicação, de liderança e um melhor entendimento de como gerir o pouco tempo que haveria de trabalho e a enorme pressão para obter desempenho e resultados rápidos.
É claro que a situação de Jardine é apenas um sintoma que o doente São Paulo apresenta hoje. O clube está pressionado pela falta de títulos e acaba dando vários tiros no próprio pé em função de sua administração confusa e em vários setores amadora. Porém, se os jovens treinadores forem esperar o cenário ideal para triunfarem no futebol brasileiro é melhor esperarem sentados.
Ainda não há o entendimento dessa nova geração de qual é o real perfil de treinador que a nossa cultura pede. Não vejo nenhum desses jovens profissionais com uma abordagem mais direta do trabalho, principalmente com relação a gestão do grupo e a forma de conduzir os conteúdos de jogo. O comando de pessoas não permite concessões a todo momento. Independentemente da idade do técnico e do perfil do grupo de atletas em questão. Temporizar para sobreviver no cargo acaba se tornando auto-destrutivo. E dentro das quatro linhas há formas de organizar equipes, mesmo com pouco tempo de treino, para que padrões com e sem a bola que te aproximem da vitória sejam rapidamente levados a campo.
Sobre liderança, como exemplo, em algum momento surgiu um José Mourinho em Portugal, jovem de tudo, sem ter sido jogador profissional, peitando atletas, dirigentes e jornalistas que se colocassem entre o seu trabalho e os troféus que ele almejava. Ou, para ficar no futebol brasileiro mesmo, no início dos anos 90, apareceu um tal de Vanderlei Luxemburgo, que havia sido um jogador apenas mediano, usando ternos, não se submetendo a jogadores tarimbados e que conseguiu se destacar também em uma entre-safra de treinadores.
É claro que o que vai sustentar qualquer trabalho é a qualidade, o desempenho, o resultado. Porém, Mourinho, Luxemburgo e tantos outros que eu poderia citar, se impuseram com uma comunicação agressiva e eficaz e conquistaram um espaço de muito destaque no mercado muito por conta disso. Enquanto os jovens treinadores atuais não entenderem que isso conta, continuaremos tendo Felipão, Cuca, Abel Braga e tantos outros mais experientes, comandando os maiores clubes e tendo os melhores salários. Porque esses entendem o que a nossa cultura pede. Se isso vai nos fazer evoluir é outra conversa. Mas é assim que a banda toca no futebol tupiniquim. Para o bem e para o mal.
 

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Sobre as variáveis do meio-campo em losango

Marco Giampaolo, treinador da Sampdoria: uma das raras equipes que jogam em 4-3-1-2 na temporada atual. (Foto: LaPresse – Jennifer Lorenzini/ Divulgação: Minuto Settantotto)

 
Uma rápida lembrança sobre como jogava cada seleção na última Copa do Mundo da FIFA, e teremos uma informação interessante do ponto de vista estrutural: das 32 seleções, apenas uma adotou, com alguma regularidade, um 4-3-1-2. Foi o Uruguai. De alguma forma, este é um retrato interessante do locus ocupado pelo losango de meio-campo na hierarquia das ideias de treinadores mundo afora.
Neste texto, quero dedicar algumas linhas ao losango, não exatamente do ponto de vista histórico, mas mais como estrutura: vamos discutir algumas das potencialidades e limitações que fazem dele tão singular.

***

A maior peculiaridade do 4-3-1-2 reside, evidentemente, na disposição de meio-campo. A primeira ideia que me ocorre é a seguinte: imagine um 4-4-2 ortodoxo, com duas linhas de quatro e uma terceira linha de dois atacantes. Essa estrutura apresenta, de modo geral, três linhas horizontais (traçadas entre as duas laterais) e quatro linhas verticais (traçadas entre as duas linhas de fundo), correto? Do ponto de vista geométrico, acho razoável dizer que se trata de uma estrutura conservadora. Não como juízo de valor, mas apenas como constatação.
Mas quando saímos dessa estrutura e pensamos em um losango, há uma primeira modificação importante: agora, ao invés de apenas uma linha horizontal no meio-campo, você haverá de convir comigo que temos três: volante + meias externos + armador(os termos são secundários), de modo que podemos traçar cinco ou seis linhas horizontais – caso os atacantes não estejam em linha. Da mesma forma, ao invés de quatro linhas verticais, talvez possamos ter até seis ou sete. Evidente que, em si, as linhas não dizem absolutamente nada. Mas quando contextualizadas, elas podem representar um ganho fundamental, especialmente no ataque: a equipe parte, desde o início, de um ataque em diversas alturas diferentes, cujas diagonais podem ser potencialmente incômodas para o adversário, partindo da grande possibilidade de que ele se defenda em linha. Ao menos de cara, é uma estrutura levemente subversiva.
Para equipes interessadas em atacar apoiado, especialmente a partir do corredor central, o losango me parece uma alternativa realmente muito interessante. São várias as possibilidades de conexões por dentro, com distâncias relativamente curtas entre os meias (o que também possibilita eventuais movimentos velozes da bola), sabendo que, de acordo com a ocupação espacial do adversário, ou o volante ou o armador da equipe em losango têm boas possibilidades de encontrarem-se livres em algum momento. Daí a importância, aliás, de que este volante tenha qualidade para jogar. Quem fez isso muito bem em um passado recente, inclusive nessa mesma estrutura, foi Leandro Paredes, recentemente contratado pelo Paris Saint Germain.
A concentração de jogadores na faixa central tem uma outra implicação importante do ponto de vista estratégico: os flancos do campo, em largura e profundidade, são setores quase que exclusivos dos laterais. Em um primeiro momento, talvez isso nos faça pensar que as exigências físicas sejam maiores. Mas, para além disso, vejo que os laterais precisam ser altamente inteligentes. Especialmente quando precisam defender.

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Talvez uma das dúvidas importante do losango esteja na organização defensiva. Qual ideia é melhor: defender-se também em losango ou defender-se em linha?
Começaria a resposta por outra pergunta: quais são as referências de marcação da equipe? Se nossas referências forem individuais ou individuais no setor, não me parece que defender-se em losango seja uma boa alternativa, talvez por um motivo muito simples: se a referência é o adversário, então a criação de qualquer forma geométrica será secundária, submetida ao movimento do adversário. Ou seja, o losango raramente existirá, de fato. Por outro lado, se nossa referência for zonal, se quisermos ocupar o espaço em função do movimento da bola, aí a conversa é distinta. Podemos manter a estrutura do losango, agora flutuando de acordo com a bola. A Sampdoria, treinada por Marco Giampaolo, é uma das raras equipes que adotam essa estrutura na atual temporada.

A compactação é tão grande que podemos ver até dois supostos losangos de meio-campo. Mas o ‘verdadeiro’ é o que está mais abaixo. Repare como a referência é zonal e como a equipe terá várias linhas de passe disponíveis assim que recuperar a posse. (Reprodução: Serie A Pass)

 
Quando os comportamentos estão consolidados, essa é uma estrutura que realmente me agrada muito. A própria Sampdoria, diga-se, é uma equipe agradabilíssima de se ver jogar. Mas defender-se em losango, mesmo com referência zonal, tem uma fragilidade importante: a estrutura de meio-campo provavelmente deixará espaços importantes nos lados, logo à frente dos laterais. Neste caso, uma alternativa razoável para quem ataca é a seguinte: levar a bola para um dos lados, direcionando toda a defesa, e então buscar uma inversão, às costas dos meias do losango, eventualmente construindo uma situação de 1 v 1 entre o extremo oposto e o lateral. A Juventus, quando recebeu a Sampdoria, em dezembro, abusou dessas inversões e o primeiro gol sai exatamente em uma delas: Cristiano Ronaldo recebe de frente para o lateral e finaliza. Veja o gol aqui, a partir dos 0:20.
Por outro lado, há também a possibilidade de atacar em losango, mas defender-se em linha. Salvo engano meu, é algo próximo do que fez, por um bom tempo, o Botafogo de Jair Ventura – para usar um exemplo nacional. Quando defendida, a equipe desfaz a estrutura em losango e recompõe-se em outra linha de quatro. É bem verdade que essa estrutura permite defender melhor os espaços em largura, diminuindo, por exemplo, as possibilidades de inversões como as que citei acima. Por outro lado, sinto uma perda importante para as equipes que se defendem em linha: as possibilidades em transição diminuem sensivelmente. Especialmente se a intenção for transitar por dentro, com apoios, as conexões em potencial serão sensivelmente menores quando se defende em linha, não apenas pela possível redução da superioridade próxima ao setor da bola (quando comparamos com um bom losango) como, especialmente, pela inexistência das diagonais, que citamos no começo do texto. Novamente, sem qualquer juízo de valor, talvez a manutenção do losango, no ataque ou na defesa, denote um olhar ligeiramente mais ofensivo por parte do treinador, enquanto a organização em linha mostre uma certa predileção pela defesa.
Faço ainda uma breve observação sobre as equipes que se defendem em losango e sobem as linhas. Defender-se em um losango alto é tarefa que exige enorme sincronia e coordenação, especialmente por parte dos dois meias abertos neste losango. São eles que, caso o adversário circule a bola até o flanco, provavelmente pressionarão os laterais adversários, de modo que o suporte de volante e meia oposto é primordial. Mais uma vez, acho o comportamento zonal mais adequado neste caso, ou então os espaços potencialmente abertos por dentro serão fatais. Ainda na pressão, as regras de ação do trequartista, o meia logo atrás dos atacantes, também são importantes: caso ele fique responsável por fazer a cobertura dos atacantes, é preciso ser um pêndulo tão eficiente quanto o volante o é quando a equipe se defende. Para este jogador, em específico, talvez não seja uma tarefa tão confortável. Caso o adversário jogue com uma linha de cinco atrás (como são Lazio e Atalanta, para ficar nos exemplos italianos), talvez o armador suba para a linha dos atacantes, de modo que cada um dos três fique responsável por um zagueiro, enquanto os dois meias e o volante (responsável pela cobertura) seguem com o comportamento zonal.

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Teríamos ainda muitos tópicos a explorar: se o losango favorece mais ataques posicionais ou funcionais, a influência das distâncias e das diagonais (ou não) dos atacantes no momento ofensivo, poderíamos refletir sobre a história do losango, passando por nomes como Johan Cruyff, Louis van Gaal, Pep Guardiola. Pretendo falar sobre tudo isso futuramente.
Por ora, acho que temos um bom debate sobre uma estrutura que me agrada muito e que, como disse no início, não apenas parece escanteada em nível internacional, como também por aqui. Talvez o losango seja um escape interessante para um futebol que, progressivamente, parece se homogeneizar.
 

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Marketing e Futebol em tempos de crise

Estamos em crise. Está tudo errado e muita coisa ainda acontece errada. Parece que não se aprende. O Brasil não aprende. A sociedade brasileira não aprende. Não basta o ocorrido em Brumadinho/MG. Não basta o incêndio no alojamento do centro de treinamento do Flamengo. Chega-se ao ponto de uma enorme confusão – evitável – em decisão da Taça Guanabara. São apenas alguns exemplos das tragédias que acontecem diariamente, sem falar daquelas que não se tem conhecimento.

Não há mais como trabalhar no improviso e no tráfico de influência, com base no “tapinha-nas-costas” e na ausência de método e mérito. No esporte do Brasil e, em especial no futebol isso há muito. Nas medíocres disputas verborrágicas, sem qualquer bom senso, que destroem e não constroem. Em um discurso intolerante e intransigente; quer seja de um lado, do outro, ou dos dois lados. Está escancarado que isso dá muito errado. Vide exemplo do último domingo no Maracanã.

Não há “marketing esportivo” que solucione toda esta bagunça a não ser o de um discurso de tolerância e agregação. De olhar o coletivo mais do que o indivíduo e seus grupos. Não apenas do seu clube, mas de todos e entre todos. Mais do que campanhas, materiais gráficos e inúmeras ideias, é preciso que isso não seja da boca pra fora. Que seja aplicado, que as atitudes sejam praticadas, vividas e partilhadas. Sobretudo valores e princípios básicos para a convivência em sociedade.

Confusão à entrada do Maracanã no Domingo (17) para a decisão da Taça Guanabara entre CR Vasco da Gama e Fluminense FC. (Foto: Agência Estado)

 

Esta coluna mais uma vez repete a máxima de que o futebol reflete o país. Longe de posições políticas, ela se cumpre, sim. As demandas da sociedade de hoje – bem estar, estabilidade, segurança, saúde e educação – não são capazes de ser atendidas mais à base de como era outrora, no improviso ou nas relações políticas. Ou seja, sequer eram/são atendidas de maneira universal. Se o país não consegue fazer isso, o futebol segue a linha.

É preciso urgentemente romper com este paradigma. Ser eficiente. Ser eficaz. Agir com método e mérito. Excelência e resultados. Este é o legado que o futebol também é capaz de dar ao Brasil, para além da ideia da união das raças, a Copa de 1938 e a obra de Gilberto Freyre. Para além das conquistas dentro de campo e do papel do país no mundo.

O Brasil que queremos – justo, de paz, tolerante, eficiente e produtivo – passa obrigatoriamente pelo futebol. Portanto, é neste ponto que a gestão e o marketing devem também obrigatoriamente trabalhar. Se queremos mudar pra melhor, é preciso colaborar, dialogar, tolerar, aceitar. Ninguém será menor por ceder. Será menos por estar aberto. A vantagem tem que ser para todos. Valores e princípios difundidos, postos em prática e partilhados.

É isto também que o futebol pode deixar à sociedade. E deve ser vontade de todos que as gerações futuras tenham um país melhor do que o recebido pela atual.

 

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Jogo não é guerra

“Joguei sem saber como estava a minha família. Minha esposa e minha filha vieram ao jogo, e eu não sabia se estava tudo bem. Precisamos minimizar essas coisas para o bem do esporte”.
A declaração de Danilo Barcelos, autor do gol da vitória do Vasco por 1 a 0 sobre o Fluminense no último domingo (17), é o melhor resumo do clima que permeou o clássico decisivo da Taça Guanabara, equivalente ao primeiro turno do Estadual do Rio de Janeiro. Não havia ambiente para um jogo decisivo: o que existia entre os cariocas era um misto de tensão, medo, guerra e reações exacerbadas por uma sequência de decisões e declarações. O futebol perdeu, e isso é extremamente representativo para o atual momento do Brasil.
A celeuma em torno do clássico começou na sexta-feira (15), quando Fluminense e Vasco tiveram reunião na Ferj (Federação Estadual do Rio de Janeiro) para debater o plano de ação para a decisão. Houve um sorteio, e os cruzmaltinos ganharam o mando de campo da partida.
Com base nisso, o Vasco pediu para ficar no lado azul do Maracanã, área que sua torcida ocupou de 1950 a 2013. Desde então, como o consórcio responsável pela gestão do estádio fechou apenas com Flamengo e Fluminense, o time tricolor estabeleceu em contrato que o uso do estádio estava condicionado à primazia de usar o setor.
A diretoria do Fluminense, portanto, recorreu ao contrato de gestão do estádio e rechaçou o pedido do Vasco. No entanto, os responsáveis pelo Maracanã alegaram que a equipe das Laranjeiras tem atrasado pagamentos – e descumprido o contrato, por consequência –, e deram razão aos cruzmaltinos, com quem ainda tentam alinhavar um novo acordo.
No sábado (16), véspera da partida, o Fluminense conseguiu uma vitória na Justiça: uma determinação para que o clássico fosse realizado com portões fechados, sem que nenhuma das equipes ocupasse o setor azul. A decisão liminar motivou outra reunião entre clubes e Ferj, e o Vasco, apoiado pela Polícia Militar, assumiu o risco de pagar uma multa para fazer o clássico com portões abertos – mais de 20 mil ingressos haviam sido comercializados, afinal.
A menos de uma hora do início da partida, contudo, a Justiça ignorou a postura do Vasco e emitiu nova determinação para que os portões fossem fechados. E os torcedores que já tinham ingressos, em meio a essa guerra de liminares, se aglutinaram nas imediações do estádio.
A situação gerou revolta entre torcedores que estavam perto do Maracanã e tinham ingresso. Houve confrontos envolvendo a polícia, e cerca de 30 pessoas tiveram de ser atendidas por médicos de plantão no estádio – a maioria por efeito de gás lacrimogêneo.
Diante da confusão, o Jecrim (Juizado Especial Criminal), que havia bancado o fechamento dos portões, resolveu concordar com o parecer da Polícia Militar e permitir a entrada do público. Tudo isso sem que os torcedores do Fluminense estivessem presentes, é claro, e depois de uma parte considerável dos vascaínos ter desistido.
Todo o processo de batalha nos bastidores foi acompanhado por declarações extremamente infelizes dos presidentes dos dois clubes. Pressionados internamente, Alexandre Campello (Vasco) e Pedro Abad (Fluminense) nada fizeram para aplacar a animosidade gerada. Em vez disso, jogaram apenas mais gasolina.
“O Pedro Abad chamou a torcida para a guerra, e isso foi sanguinário”, disse André Valentim, procurador-geral do TJD-RJ (Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro), em entrevista ao UOL Esporte.
Também em contato com o portal, o ex-presidente do Atlético-MG e atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (Podemos), afirmou que “estádio é para rico”. “Pobre assiste pela televisão. Isso é discriminação? Não. Eu fui assistir ao futebol americano num estádio que não era coberto, que se estivesse chovendo eu estava molhado, num frio de 1ºC, e paguei US$ 500. Não tinha lugar para uma mosca sentar”, completou.
A lógica de gentrificação de Kalil é apoiada no conceito de que a receita de match day é um pilar importante no faturamento de uma instituição esportiva. Portanto, é melhor ter o estádio cheio de gente que pague muito para entrar e que tenha condição de consumir no interior. Funciona em grandes ligas esportivas pelo mundo, como a NBA (basquete), a NFL (futebol americano) e até as principais competições de futebol da Europa.
Kalil esquece, entretanto, de algumas características bem específicas do mercado brasileiro. O futebol, para começo de conversa: trata-se de uma seara extremamente popular em âmbito nacional, e historicamente funcionou como um ambiente para ignorar diferenças de classe que o país não conseguia reduzir.
O futebol no Brasil sempre foi um bem do povo. É isso, aliás, que justifica tanto investimento público na modalidade ao longo das últimas décadas. Atletas, clubes, federações e confederação sempre tiveram respaldo de políticas voltadas ao bem-estar social porque sempre foram parte fundamental da sociedade – e não apenas de uma parcela.
Outro ponto é que o futebol brasileiro, como produto dentro e fora de campo, não está preparado para atender o segmento premium. Não é que o pobre ou que o consumidor com menos condição tenha de receber um tratamento pior, mas essa estrutura atual, com tanta desorganização e a violência que muitas vezes decorre da própria estrutura viciada, acaba atraindo um tipo muito específico de público. E o elã desse público específico não é a vontade de consumir produtos oficiais no interior do estádio ou o desejo de curtir um bom programa cultural com família ou amigos.
Para ser um produto “de rico”, o futebol brasileiro precisa entender com quem concorre. Não adianta olhar apenas para a estrutura de jogos em outros países, mas para a realidade local: o esporte perde público para o cinema, para o teatro e para outras atrações culturais, como shows e outros eventos. O orçamento das famílias é limitado e não comporta todas as opções existentes.
O futebol também concorre com o conforto de casa e com a profusão de produtores de conteúdo – Amazon Prime, Globoplay e Netflix, apenas para citar alguns. E todos eles cobram menos do que o ingresso de uma grande partida.
Kalil tem razão apenas em um aspecto: é imprescindível que o futebol brasileiro tenha uma estratégia clara para captação de público, e esse planejamento não precisa ser “para o estádio” ou “para a TV”. Ao contrário: é fundamental que os clubes trabalhem para cativar diferentes perfis de público, com diferentes hábitos de consumo de informação.
Contudo, nada disso vai acontecer enquanto os próprios dirigentes se sabotarem. Nada disso vai acontecer enquanto o futebol brasileiro não tiver o mínimo, que é a capacidade de organizar partidas e de entender o que realmente é relevante. A maior vergonha de toda a história da decisão entre Fluminense e Vasco é saber que pessoas correram risco real apenas por causa de um setor de estádio. Se isso não é sinal de maturidade em um nível assustador, não sei o que poderia ser.