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José Guilherme Oliveira, professor da Univ. do Porto

Foi na Universidade do Porto que tudo começou. Desenvolvida pelo professor Vítor Frade, a Periodização Tática apareceu para o mundo do futebol como uma nova metodologia de treinamento e que propunha a quebra de um paradigma da época, onde os treinos ainda eram baseados basicamente em princípios analíticos e mecanicistas.
José Guilherme Oliveira vivenciou de perto toda essa transformação na maneira de se pensar os treinos no futebol e, décadas depois, ainda é um grande defensor do método que tem entre os seus principais expoentes o atual treinador do Chelsea, José Mourinho.
Licenciado em Educação Física com a especialização em Futebol na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), além do mestrado em Treino de Alto Rendimento, o atual técnico do Porto B já atuou até como assistente da seleção de Portugal, como adjunto de Carlos Queiroz na Copa do Mundo de 2010.
Para ele, a Periodização Tática (PT) é uma metodologia que se diferencia das outras em praticamente tudo. O modo como se olha para o jogo e a forma como concebe o processo operacional para se criar uma equipe são alguns dos fatores que o profissional considera fundamentais deste método.
“A Periodização Tática parte da equipe e vai manipulando os diferentes níveis de complexidade, desde o coletivo até ao individual, passando pelo intersetorial, setorial, e grupal. Isto é, a PT pretende criar, com a articulação dos seus níveis de complexidade e através dos seus princípios metodológicos, um gênero de padronização neural, ou seja, uma padronização de conexões deliberadas, ao longo da semana e das diferentes semanas, que permitem que a equipe e os jogadores adquiram competências para resolverem os problemas que o jogo coloca, expressando-se através das ideias de jogo que se pretende para a equipe”, explica Oliveira.
Para que um treinador possa realmente aplicar a Periodização Tática, um dos pressupostos fundamentais é ter ideias de jogo. São essas ideias e as respectivas interações que possam existir entre elas que vão ser objeto de treino, acrescenta o treinador do Porto B.
“Não quer dizer com isso que a qualidade de jogo seja boa, porque a qualidade de jogo está relacionada com a qualidade das ideias dos treinadores. Se as ideias forem boas e atrativas, os padrões de jogo que a equipe evidencia terão essa matriz. Porém, se as ideias forem de um futebol aborrecido, a manifestação do jogo dessa equipe evidenciará essas características, isto é, também será enfadonho”, completa.
Nesta entrevista exclusiva à Universidade do Futebol, José Guilherme Oliveira ainda aponta o diferencial da formação acadêmica de Portugal em relação à pedagogia adaptada às práticas esportivas. Confira a íntegra:
 
Universidade do Futebol – Qual é a sua formação acadêmica e como se deu sua trajetória no futebol profissional?
José Guilherme Oliveira – Licenciei-me em Educação Física com a especialização em Futebol na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), na altura denominada de Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física. Mais tarde, realizei o mestrado em Treino de Alto Rendimento, também com a especialização em Futebol, e no ano passado apresentei as minhas provas de doutoramento em Ciências do Desporto, que estão relacionadas com o treino de futebol, mais especificamente com “A influência do treino técnico sobre o “pé não-preferido” na redução da assimetria funcional dos membros inferiores em jovens jogadores de futebol”.
A minha trajetória no futebol profissional tem dois distintos momentos. O primeiro teve a duração de 4 anos, aproximadamente, e reporta-se às épocas de 1993/94 a 1996/97, ao serviço do Sporting Clube de Espinho, que participava na II Divisão Portuguesa. Todavia, na época de 1995/96, conseguimos ser promovidos à I Divisão Nacional Portuguesa e, em 1996/97, participamos no principal escalão do futebol português.
A partir dessa data, enveredei pela carreira de treinador principal nos escalões de formação e estive nessas funções até à época de 2007/08, no Futebol Clube do Porto. Em 2008/09, reiniciei a minha experiência no futebol profissional, passando a ser treinador assistente da seleção portuguesa, como adjunto do professor Carlos Queiroz. Mantive-me nessas funções até ao final da nossa participação na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.
Na temporada seguinte, 2010/2011, tive uma passagem muito rápida pela Associação Acadêmica de Coimbra, clube que disputava o Campeonato da I Divisão Portuguesa, mas por motivos de incompatibilidades com alguns jogadores, optei por terminar prematuramente a minha ligação ao clube.
No ano seguinte, voltei a treinar a formação do FC Porto e na época de 2013/14, em virtude de alguns ajustes que o clube fez no seu futebol profissional, fui convidado a ser o treinador do FC Porto B, tendo sido uma experiência muito enriquecedora e, simultaneamente, gratificante.

O erro é um mecanismo primordial no processo ensino-aprendizagem e, consequentemente, na evolução dos jogadores. O processo ensino-aprendizagem pressupõe experienciar e vivenciar um conjunto de contextos para que as equipes e respectivos jogadores estejam capacitados para resolver os problemas que o jogo lhes vai colocar, tanto a nível coletivo como individual, afirma

Universidade do Futebol – A inserção de aparatos tecnológicos para auxílio da comissão técnica já é vista de forma consolidada pelos principais clubes europeus? Se sim, a relação entre custo e benefício é válida?
José Guilherme Oliveira – As exigências que o futebol profissional evidencia atualmente são, de tal forma, grandes que tudo o que seja facilitador do trabalho da equipe técnica e permita uma melhor operacionalização da planificação e do treino, nas suas diferentes vertentes aquisitivas, avaliativas e de recuperação, são sempre positivas.
Face a essas exigências, a oferta de produtos tecnológicos tem-se exponenciado nas várias áreas de intervenção da preparação das equipes e dos jogadores – tática, observacional, fisiológica, médica, análise e avaliação de desempenho, entre outras. Se uns são realmente importantes na melhoria do trabalho, levando a um acréscimo da qualidade de desempenho da equipe e do jogador, outros nem tanto. Surgem por modas, pelo aparato que podem ter ou pelo aproveitamento de algumas aparentes lacunas que possam existir.
Sou da opinião de que as equipes técnicas, tendo em consideração a sua forma de trabalho, devem escolher os instrumentos que lhe são realmente importantes e produtivos. Penso que para umas equipes técnicas, pelos aspetos que assumem como relevantes, serão uns instrumentos, para outras serão necessariamente outros.
Exatamente por esse motivo não são raros os casos em que os clubes fazem investimentos em instrumentos numa temporada e, com a vinda de uma nova equipe técnica, no ano seguinte, esses instrumentos são colocados de lado e são adquiridos outros. No entanto, nos últimos tempos, tem existido uma oferta muito maior de equipamentos com características similares, o que tem baixado consideravelmente os custos.
Não obstante o referido, penso que ainda não existe nenhum instrumento que substitua a nossa capacidade de reflexão sobre os acontecimentos. Pretendo com isto mencionar que a falta de aparatos tecnológicos não deve servir de pretexto para nós não realizarmos, independentemente do contexto onde estamos inseridos, um trabalho de excelente qualidade. Por vezes, a escassez de meios apura muitas competências.
Universidade do Futebol – Qual o diferencial da formação acadêmica de Portugal em relação à pedagogia adaptada às práticas esportivas?
José Guilherme Oliveira – Nos últimos anos, em Portugal, existiu uma evolução muito grande nesse aspecto por dois fatores distintos que, coincidentemente, interagiram e elevaram bastante a qualidade do processo formativo.
O primeiro fator está relacionado com normas legislativas passadas pelo governo português e que se prendem com a obrigatoriedade de todos os treinadores, de qualquer escalão do futebol português, terem o respectivo curso para assumirem o cargo. Esse certificado pode ser tirado na Federação Portuguesa de Futebol, nas Associações de Futebol ou nas Escolas/Faculdades de Educação Física ou de Desporto que estejam habilitadas para fazê-lo.
Esta norma impôs que os clubes fossem obrigados a recorrer a pessoas especializadas e com formação adequada para as funções que tinham de desempenhar. Também teve o mérito de fazer com que as pessoas que já estavam a exercer as funções de treinador, e não tinham formação para tal, tivessem de se certificar, permitindo o aumento considerável dos seus conhecimentos e competências. Ou seja, uma norma legislativa resultou no acréscimo da qualidade da formação dos treinadores em Portugal.
O segundo fator está relacionado com a mudança de paradigma que os clubes tiveram de passar a assumir nos seus escalões de formação. Até alguns anos atrás, a participação dos jogadores nos escalões de formação dos diferentes clubes era gratuita, no entanto, atualmente, a maior parte dos clubes, por dificuldades financeiras, começou a ter necessidade de exigir um pagamento aos seus jogadores, de modo a poderem sustentar a sua formação. Essa mudança de paradigma, no futebol, permitiu um aumento da oferta e, consequentemente, um maior investimento na qualidade das infraestruturas oferecidas, assim como a necessidade de recorrer a treinadores mais qualificados. Desse modo, o recrutamento dos treinadores para os escalões de formação dos diferentes níveis de clubes é assente, na sua maior parte, em jovens licenciados em Educação Física e em Desporto com a especialização em Futebol.
Desta forma, o panorama da formação do futebol português está alicerçado em jovens treinadores com formação acadêmica específica que, na maioria dos casos, têm um passado de jogadores de futebol na formação ou em níveis secundários, pressuposto que não sendo imprescindível, penso ser importante no exercício da profissão.

Relativamente à formação do indivíduo enquanto jogador, penso que a formação geral desportiva não é muito relevante. O que será determinante é a sua formação específica sem que exista especialização precoce, sobretudo, da criança, aponta o treinador e docente José Guilherme Oliveira

Universidade do Futebol – Em sua opinião, quais os conhecimentos e competências o treinador deve possuir para ser um considerado um treinador de qualidade?
José Guilherme Oliveira – A competência de um treinador, atualmente, é multidisciplinar e eclética. Não é suficiente ser muito competente em termos de conhecimento de jogo e de metodologia de treino específica. Tem de ser um ótimo gestor de recursos humanos, porque tem de interagir e maximizar não só o rendimento dos jogadores, mas também dos diferentes elementos da equipe técnica, dos diferentes departamentos que tem ao seu dispor, como o médico, o psicológico, o fisiológico, o de observação, o de scouting, o de análise do rendimento, o de formação, o de informação, o diretivo, entre outros que poderão existir dependendo das equipes.
O treinador atual tem de ser um promotor de sinergias entre os diferentes departamentos de modo a que todos tenham a consciência da relevância do trabalho em equipe para a equipe e, simultaneamente, tenham a liberdade e a capacidade de interagirem para produzirem novos conhecimentos e capacidades, tanto para o respectivo departamento como para o time e o clube.
O treinador também tem de ser um líder, porque os clubes e as equipes necessitam sempre de alguém que indique os caminhos que devem ser seguidos. Se alguns devem ser traçados pelo departamento diretivo, muitos terão de ser pelo treinador e para que todos acreditem, trabalhem e se envolvam num projeto coletivo, é necessário um líder reconhecido por todos pelo mérito das suas ideias e pela capacidade de empreendedorismo que evidencia.
Um outro aspecto que acho muito relevante num treinador de qualidade é a capacidade que tem de transmitir as suas ideias e opiniões, tanto para a massa associativa do clube como para a imprensa. Um treinador deve ter um discurso que permita que os seus adeptos se revejam nas suas ideias e seja um catalisador positivo do envolvimento emocional que os adeptos nutrem pelo clube. Por outro lado, também deve ter um discurso claro, coerente, atraente e consistente para que a imprensa se torne um aliado pelo reconhecimento de uma postura meritória e não encontre contradições nem incoerências no modo de estar e na exposição das ideias ao longo dos tempos.

Uma boa liderança é muito importante tanto para a Periodização Tática quanto para qualquer outra metodologia de treino. Um líder orienta, direciona, motiva e envolve todos os que o rodeiam num projeto comum, mesmo que tenham objetivos individuais diferenciados, explica o profssional português

Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação sobre o trabalho de José Mourinho? O que ele representa em termos simbólicos para o país?
José Guilherme Oliveira – O trabalho de José Mourinho enquanto treinador está à vista de todos e é patenteado pelos títulos que todos os anos ele conquista. Mais ainda, para o país e para a classe de treinadores, em Portugal, a relevância do seu êxito ultrapassa o aspecto pessoal para passar a ser nacional.
Com a sua forma de ser e de estar no futebol, com a metodologia de treino que utiliza e faz questão de em determinados momentos a assinalar, com o reconhecimento que foi granjeando ao longo dos anos, conseguiu com que o treinador português fosse reconhecido mundialmente e, a partir do seu êxito, muitos outros treinadores tiveram a possibilidade, também, de se afirmarem em diferentes países europeus, africanos e asiáticos.
José Mourinho é, atualmente, um dos maiores símbolos do desporto nacional português e estou convencido que, no futuro, será reconhecido como uma das figuras portuguesas, nas diversas áreas, que mais permitiu que Portugal fosse reconhecido mundialmente.
Universidade do Futebol – Como você definiria o que é a Periodização Tática e no que ela se diferencia dos outros modelos de periodização? Além disso, quais são os benefícios de usá-la como metodologia de treino?
José Guilherme Oliveira – A Periodização Tática (PT) é uma metodologia que se diferencia das outras em praticamente tudo, porém, existem dois aspectos que julgo serem nucleares. O primeiro é no modo como olha para o jogo. O segundo é na forma como concebe o processo operacional para criar esse jogo.
Não obstante esta minha opinião, não pretendo entrar em discussões de quais os benefícios de uma relativamente a outras, porque penso que essa é uma discussão inócua. Concentra-se a discussão no conflito quando, do meu ponto de vista, deve ser centralizada no esclarecimento para que depois as pessoas possam seguir as suas convicções e ideias. Até porque, antes de existir a PT e mesmo atualmente, existem outras metodologias em que os resultados são muito positivos para quem as utiliza. Como tal, não está em causa a credibilidade de umas relativamente a outras, mas sim em formas diferentes de ver e atuar perante a realidade, que neste caso é o futebol.
Voltando aos aspectos nucleares que referi no início desta questão, a PT olha para o jogo de futebol através de uma perspectiva que se alicerça no paradigma da complexidade. Como nos refere Edgar Morin, existem duas grandes formas de analisar e de intervir na realidade, através do paradigma da simplificação e do paradigma da complexidade.
O primeiro tem acompanhado muitas áreas do conhecimento e é responsável pela evolução dos seus conhecimentos. Evidencia-se pelo isolamento de algumas questões e, posteriormente, pelo estudo exaustivo e minucioso dos problemas levantados. Por sua vez, o paradigma da complexidade caracteriza-se por estudar os problemas sem os isolar, isto é, eles continuam inseridos no seu contexto de expressão. A análise que dele se faz está relacionada, também, com as interações que possam ter com tudo o que o rodeia e que possa existir reciprocidade de influência. Não se pretende dizer que apenas se estude o todo com todas as suas interações. Não!
Também se estuda as partes que constituem o todo, contudo, essas partes são estudadas com as interações de reciprocidade que elas evidenciam no contexto em que se manifestam. Para se perceber melhor esta abordagem, existe a necessidade de se entrar em algumas áreas que não estão diretamente relacionadas com futebol, contudo, ajudam a explicar como as coisas se articulam e emergem em fenômenos complexos, como são os casos da teoria dos sistemas, da teoria do caos, da cibernética, da geometria fractal, das neurociências, entre outras áreas.
Esta segunda forma de analisar e estudar os fenômenos tem particularidades distintas da primeira. Atribui importância a aspectos que, para a primeira, não são muito relevantes e, por sua vez, esta também não confere pertinência a coisas que a outra concebe. Ou seja, estamos perante duas distintas formas de analisar a realidade.
A PT assenta o seu entendimento e a sua construção nesta segunda. Como tal, tem que ser entendida nesta perspectiva e, normalmente, tenta-se ler a PT com o olhar do paradigma da simplificação. Esta é a primeira grande diferença de outros modelos.
Esta forma de interpretação da realidade repercute-se no modo como as pessoas dos diferentes paradigmas vêm e definem os problemas com que têm de lidar. O jogo, o treino, as dimensões do jogo, entre muitos outros fatos, tudo é visto numa perspectiva complexa. Por esse motivo, embora a PT possa evidenciar, em algumas circunstâncias denominações similares, os respectivos conceitos assumem interpretações distintas, porque as “lentes” que se utilizam para a sua interpretação também são diferentes e na maioria das situações incompatíveis.
A segunda diferença está relacionada em como o processo de construção é concebido. Estou consciente de que realmente existem outras concepções de treino que também têm como lógica assente no paradigma da complexidade, contudo, invertem a lógica que a PT utiliza para a construção da equipe.
A PT parte da equipe e vai manipulando os diferentes níveis de complexidade, desde o coletivo até ao individual, passando pelo intersetorial, setorial e grupal. Isto é, a PT pretende criar, com a articulação dos seus níveis de complexidade e através dos seus princípios metodológicos, um gênero de padronização neural, ou seja, uma padronização de conexões deliberadas, ao longo da semana e das diferentes semanas, que permitem que a equipe e os jogadores adquiram competências para resolverem os problemas que o jogo coloca, expressando-se através das ideias de jogo que se pretende para a equipe.
Assim, o que orienta todo o processo de construção são as ideias que o treinador tem acerca de como pretende que a equipe resolva os diferentes problemas com que permanentemente vai ser confrontada. O que modela o processo é o respeito e a interação dos princípios metodológicos
Tendo em consideração a importância que as ideias do treinador assumem em todo o processo, talvez seja pertinente clarificar alguns aspectos para que se fique esclarecido acerca do que se pretende dizer. As ideias vão sendo transmitidas aos jogadores através dos contextos de prática que se vão criando, expressos nos diferentes níveis de complexidade apresentados. Os jogadores com os seus conhecimentos, capacidades e características vão interagindo com essas ideias recriando-as, no entanto, sempre com os padrões gerais – ideias de jogo do treinador – perfeitamente identificáveis.
Por vezes, para melhor explicitar este conceito, costumo utilizar uma analogia com cores. Imaginemos que as ideias de jogo do treinador eram manifestadas pela cor azul. Quando a transmitimos aos jogadores, eles vão captá-las, mas essa percepção está condicionada pelos seus gostos, pelas suas experiências e por muitas outras coisas vivenciadas com a cor azul. Como tal, cada jogador assumirá a cor azul com uma tonalidade que pode ser distinta. Quando essas diferentes tonalidades interagem vai emergir uma nova tonalidade, que também de certa forma poderá ser desconhecida, contudo, será sempre azul.
A criação de um modelo de jogo é um processo idêntico. O treinador transmite as ideias, que serão interpretadas de forma diferente pelos jogadores e a respectiva interação vai fazer com que sejam recriadas, contudo, essas ideias terão sempre a cor azul e nunca amarela, vermelha ou verde. É um processo que na PT se denominou auto-eco-hetero. Como tal, o modelo de jogo é um processo dinâmico e não linear, em permanente construção, que parte sempre das ideias que o treinador tem para resolver os problemas que o jogo levanta.
Outras concepções partem do jogador e vão aumentando o nível de complexidade até chegar à equipe. Isto é, os jogadores, através das suas qualidades, competências e características é que vão direcionar o processo de construção da equipe. As ideias do treinador são secundarizadas pelo protagonismo que os jogadores assumem. Utilizando a analogia das cores anteriormente apresentada, podemos dizer que na PT sabemos qual vai ser a cor final – vai se o azul –, apenas não sabemos qual vai ser a tonalidade, porque essa está relacionada com os processos de interação que emergem da reciprocidade ideias-jogadores-ideias-jogadores. Já em outras concepções não sabemos qual a cor nem a tonalidade que vai surgir no produto final, tudo está muito mais dependente das características e capacidades dos jogadores, as ideias do treinador são secundarizadas.
Com isso, podemos afirmar que são processos de construção da equipe manifestamente diferentes.

Para que um treinador possa realmente aplicar a Periodização Tática, um dos pressupostos fundamentais é ter ideias de jogo. São essas ideias e as respectivas interações que possam existir entre elas que vão ser objeto de treino. Tudo o que se possa fazer no processo de treino é para que essas ideias sejam adquiridas, recriadas e exponenciadas por parte da equipe e dos jogadores, diz Oliveira

Universidade do Futebol – Costuma-se falar que a Periodização Tática nega todo tipo de exercício que não seja pautado na abordagem tática (exercícios com oposição, jogos reduzidos, etc.) isso é verdade? A Periodização Tática pode contemplar exercícios mais técnicos ou até físicos dentro da lógica do modelo de jogo? Se sim, qual percentagem destinada a este tipo de método?
José Guilherme Oliveira – Para responder a esta questão, a primeira coisa que temos de fazer é colocar os “óculos” da Periodização Tática (PT) e, desse modo, entender o conceito de tática para esta concepção.
A dimensão tática normalmente está associada ao plano organizacional da equipe. Porém, na PT, a dimensão tática não é apenas o plano organizacional, tudo o que se faz no jogo é tático. Quando um jogador que se encontra no lado oposto ao da bola se movimenta para abrir espaço, podemos considerar esse movimento como tático. Quando um jogador opta por fazer um passe em detrimento de um arremate, podemos considerar esse passe como tático. Quando um jogador se desmarca rapidamente para poder receber a bola isolado, podemos considerar essa desmarcação como tática. Ou seja, durante um jogo não existe qualquer ação de um jogador que não tenha uma intencionalidade, que surja no abstrato. Tudo acontece em função do que emerge do jogo, como tal, tudo é tático.
É nesta perspectiva que temos de olhar para a palavra tática e não na perspectiva simplesmente organizativa. Isto é, temos de olhar para a tática como uma dimensão complexa que emerge da interação das dimensões organizativa, técnica, fisiológica, psicológica e decisional. Se alguma destas não estiver presente, não existe a dimensão tática. Do mesmo modo, as outras dimensões também devem ser vistas como complexas, contudo evidenciam níveis de complexidade diferenciados.
Como exemplo, consideremos a dimensão técnica. Qualquer habilidade motora específica que se realize no jogo não surge por acaso, tem sempre uma intencionalidade, um objetivo que lhe está adjacente. Nesse sentido, quando estamos a criar contextos de prática cujo objetivo é o desenvolvimento técnico, não devemos esquecer esses pressuposto e, desse modo, criar contextos que deem sentido à habilidade. Esse sentido não deve ser só o jogo no abstrato, deve ser sim o jogo que pretendemos para a nossa equipe, em função das ideias que estão a ser transmitidas. Se o fizermos, tendo em consideração também outras particularidades que caracterizam as habilidades específicas do futebol – abertura, variabilidade, precisão, consistência, variabilidade, flexibilidade e equivalência motora – estamos a respeitar a complexidade com que a dimensão técnica se expressa no jogo de futebol.
Para as outras dimensões acontece exatamente o mesmo. Têm de ser sempre analisadas na sua complexidade e, por esse motivo, se diz que na PT a tática é a dimensão que coordena todo o processo de treino. Mas não é a tática organizativa, é a tática do todo, da equipe.
Vendo as coisas nesta ordem de ideias, penso que será fácil de entender porque é que não devem existir contextos de prática técnicos, físicos ou mesmo táticos que não estejam relacionados como o modelo de jogo que se está a criar.

Penso que ainda não existe nenhum instrumento que substitua a nossa capacidade de reflexão sobre os acontecimentos. Pretendo com isto mencionar que a falta de aparatos tecnológicos não deve servir de pretexto para nós

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Corrupção na Fifa: como fica o futebol?

Na última quarta-feira o mundo amanheceu assombrado com a prisão, por corrupção, de sete dirigentes do alto escalão da Fifa. A prisão se deu faltando dois dias para a eleição da entidade e foi criteriosamente arquitetada para deter os dirigentes que estariam reunidos e hospedados no mesmo hotel, em Zurique.

Dúvida sobre a idoneidade da Fifa não é algo recente. O jornalista escocês Andrew Jennings, em 2006, publicou o livro “Foul!: The Secret World of FIFA: Bribes, Vote Rigging and Ticket Scandals”, traduzido para o português como “Jogo Sujo, o mundo secreto da FIFA: Compra de votos e escândalo de ingressos”, onde descreve histórias de falcatruas, subornos, armações, compra de votos, de ingressos para os jogos da Copa do Mundo, de fraudes na escolha de países-sede dentre outros esquemas.

Os fatos que ocasionaram as prisões foram investigados pelo FBI (Polícia Federal dos EUA), já que eventuais subornos e pagamentos se deram em território norte-americano. De certo, os detidos não contavam com a exímia capacidade investigativa da polícia dos EUA e, muito menos, com a celeridade processual, já que a ação penal foi proposta no dia 20 de maio, em Nova Iorque e as prisões se deram sete dias depois, na Suíça.

Os EUA estão começaram a tomar gosto pelo futebol e é praticamente unânime o entendimento de que em médio prazo passarão a figurar entre as maiores seleções do mundo. Entretanto, não se esperava que a revolução imposta pela eficiência ianque iria para além das quatro linhas a ponto de estremecer a poderosa FIFA.

Em um primeiro instante, sem dúvidas, arranha-se a imagem do futebol e gera-se a incômoda sensação de que a corrupção possa ter interferido até em resultados.

Mas, se hoje o futebol “chora”, amanhã ele “sorrirá”, pois as medidas adotadas pela Justiça norte-americana auxiliarão estrondosamente a transparência e a lisura na administração do esporte mais popular do mundo.

Aqui, no Brasil, é importante aprendermos e viabilizarmos uma Justiça célere e efetiva, bem como uma imparcial investigação dos meandros das entidades administradoras do futebol, a fim de que, rapidamente, os nomes mais badalados do esporte bretão possam ser os craques e não os dirigentes nas atividades extracampo. 

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Ciranda, cirandinha no futebol

Mais uma vez estamos vendo a reprodução da canção popular “Ciranda Cirandinha” no futebol brasileiro, ou seja, a ciranda dos técnicos nos clubes que disputam o campeonato brasileiro da série A.

Apesar de terem se passado apenas três rodadas, os clubes já se movimentam, demitem seus comandantes e partem em busca por novos profissionais para comandar suas equipes.

O curioso é percebermos que os técnicos que ontem figuravam como os profissionais mais adequados para atingir as metas do clube e que contavam com a confiança do grupo de gestão em seus clubes, rapidamente passaram a ser o principal problema pelo desempenho inicialmente ruim de suas equipes.

Se pensarmos em nossa vida cotidiana, os gestores muito se assemelham à alguns motoristas dirigindo seus automóveis em dias de engarrafamento nas grandes cidades.

É comum vermos um motorista mais impaciente trocar de faixa da esquerda para a direita acreditando que a outra faixa está evoluindo numa velocidade maior do que a que ele estava. Porém, quando ele passa à faixa ao lado, logo cria a percepção de que a faixa anterior está evoluindo melhor e por aí segue, trocando de faixa sucessivamente em busca de conseguir atingir mais rapidamente seu objetivo no trânsito.

Os gestores muitas vezes pensam da mesma forma e buscam nos outros clubes opções de comando técnico que aparentemente trarão melhor desempenho para suas equipes, mas na maioria das vezes isso não se materializa ou não se sustenta por muito tempo. O clubes acabam passando o ano com dificuldades para obter melhores resultados e invariavelmente brigam apenas para se manterem na mesma divisão do Campeonato Brasileiro.

É ou não é a verdadeira “Ciranda, cirandinha” representada no futebol? Um sai, outro vem e muita coisa não muda na situação atual de cada clube na tabela.

De fato, nos resta refletir se realmente a melhor alternativa para os clubes é se antecipar aos primeiros sinais de baixo desempenho e promover rapidamente uma troca de comando, ou se é ter um pouco mais de paciência, validar a confiança no trabalho que está sendo desenvolvido e aguardar um pouco mais para que o trabalho amadureça e apresente seus melhores resultados. Ah, levando em consideração que o material humano disponível (no caso os atletas) não muda com a troca de comando, são os mesmos comandados que serão corresponsáveis por obter na prática melhores e diferentes resultados dentro de campo.

E aí, amigo leitor, na sua opinião qual pode ser a melhor alternativa?

Até a próxima. 

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MP 671/15: Porque a “MP da Dívida dos Clubes” é inconstitucional

Perde-se, na memória, quando se deu, no Brasil, a transformação da prática esportiva futebol em fenômeno sócio cultural que atravessa a sociedade por inteiro, e do qual decorre o sem número de associações civis desportivas mantenedoras de futebol, levando ao surgimento do que se chamou: “Pátria de Chuteiras”.

Nada mais justo, portanto, do que louvar o forte engajamento da sociedade e seus representantes legislativos nas discussões envolvendo assuntos relativos ao universo do futebol. Por essa razão, tem provocado grande repercussão nos veículos da mídia brasileira, a apresentação pela União da Medida Provisória 671/15, conhecida como “ Medida Provisória do Futebol”

Embora, certo que alguns aspectos de organização do esporte necessitem reformulação – o que deve ser feito exclusivamente no âmbito dos organismos do futebol -, também certo que a Medida Provisória apresentada configura flagrante atropelo à Carta Constitucional, tamanha a infringência constitucional perpetrada.

Numa palavra, a Medida Provisória é irremediavelmente peça inconstitucional em sua íntegra, não havendo como os legisladores no Congresso Nacional emendá-la ou corrigi-la, porque desrespeita princípios fundamentais estabelecidos no artigo 5º, incisos I e II da Constituição Federal, e ainda, os limites constitucionais para intervenção ( artigos 34/36).

O artigo 5º, inciso I ,estabelece regra fundamental de … …serem todos iguais perante a lei. Princípio não observado na Medida Provisória, que flagrantemente, por suas disposições, se aplicáveis, gera distinção entre associação desportiva, configurando lei de exceção entre iguais, porque havendo no país mais de 700( setecentas) agremiações, pouco mais de 15 (quinze) ou 20(vinte) suportariam as regras dispostas, ficando todas as demais relegadas ao limbo. Também, não há razoabilidade em submeter as associações de pequeno porte as hipóteses administrativas e de sanções inaceitáveis nem mesmo pelos que têm mais capacidade de discussão.

O artigo 5º, inciso II, estabelece: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.” Princípio violado na fundamentação legal da Medida Provisória ao estabelecer no parágrafo único do artigo 2º que:“… considera-se entidade desportiva profissional de futebol …”, porque o vocábulo “considera-se” não tem natureza obrigacional, não tendo, portanto, força legal para transformar associações civis em sociedades empresariais.

A infringência desses dois princípios fundamentais torna a Medida Provisória, na íntegra, posto, afeta todos seus dispositivos, inconstitucional, não havendo como aproveitá-la, devendo ser rejeitada de plano, para evitar que as associações civis, tenham de submete-la ao crivo do controle de constitucionalidade do pleno do STF, onde, com certeza não resistirá cinco minutos.

Também, assim é – não bastassem as inconstitucionalidades já apontadas – , no que concerne às hipóteses de intervenção postas em dispositivos da Medida Provisória, porque, infringem o disposto nos artigos 34 a 36 da Carta Constitucional, principalmente, tendo em conta tratar-se de associações civis, que não são concessionárias de serviços públicos ou recebem verbas federais.

Como se vê, trata-se, se aprovada, de disciplinamento imposto, com todas características de regra ditatorial, aberração jurídica inaceitável e inédita no mundo do esporte, nunca havida ou imaginada, nem mesmo nos regimes de exceção, infelizmente já vividos no país.

Nada obstante, nas audiências públicas realizadas na Comissão Mista do Senado Federal, surpreendentemente, essas inconstitucionalidades não foram examinadas, limitando-se a discussão a como liquidar a dívida dos clubes para com a União, e outros aspectos adjetivos da Medida Provisória, que como vimos, não tem validade legal.

Quanto ao endividamento dos clubes, definido como alarmante, porque insolúvel, ao menos em sua porção maior não se afigura como exigível, vez que decorre de lançamento efetuado sem amparo legal. Nessa condição, ainda que no âmbito das grandes benesses dispostas na Medida Provisória, confessar débito sem discutir os valores controversos, poderá configurar desídia administrativa do dirigente da associação, causando flagrante prejuízo.

Os clubes esportivos são constituídos por associações civis, fundadas nos exatos balizamentos do artigo 53 e seguintes do Código Civil, são, portanto, de raiz, instituições sem cunho econômico, posto sua arrecadação não gera ganho patrimonial, nem distribuição de lucro, ao contrário, é, integralmente direcionada à manutenção de seus objetivos sociais. Por essa razão legal, as associações civis desportivas somente vertem contribuições previdenciárias e para os Programas Pis / Cofins sobre folha de salário.

Em consequência, o “débito fiscal” relativo a incidência das contribuições Pis/Cofins sobre receitas das associações é absolutamente despido de amparo legal, não devendo os clubes assumi-lo, sob pena de confessarem indébito.

A conclusão é que as irrefutáveis inconstitucionalidades apontadas, notadamente a violação aos princípios posto no artigo 5º, inciso II , deixam transparente, que neste triste momento vivido no país, o objetivo da União em querer “goela abaixo” transformar associações civis em sociedades empresariais, tem como único objetivo, justificar os lançamentos de débitos ilegais e perpetuar e legitimar arrecadação sobre receitas que não têm cunho econômico.

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Engajamento do torcedor

Há um hábito, nos últimos tempos, em criticar ou apontar erros nos departamentos de marketing dos clubes pela sua inoperância ou ineficiência. E é fato! Precisamos evoluir muito em termos de ações de engajamento e aproximação junto ao torcedor/consumidor. Mas quando aparecem boas práticas, é preciso destacar para servir de modelo com a finalidade de evoluirmos como indústria.

Para tal, vou citar o início de uma campanha de conscientização do torcedor feita pelo Joinville Esporte Clube. O mote é “# Tô Fechado com o JEC”, que procura abrir um ponto de reflexão no sentido da cobrança por resultados esportivos do clube na sua volta a Série A do Campeonato Brasileiro (veja o vídeo aqui: http://globotv.globo.com/rbs-sc/jornal-do-almoco-sc/v/joinville-lanca-campanha-to-fechado-com-o-jec/4192240/).

O sentido é fazer com que o torcedor siga apoiando o clube independente do resultado dentro de campo. E é exatamente a isso que se presta um bom departamento de marketing de clube de futebol: desenvolver um trabalho que transcenda os resultados esportivos.

Logicamente, a campanha é tanto arriscada quanto ousada. O risco está, principalmente, se a performance da equipe for muito aquém do previsto, podendo virar alvo de torcedores rivais contra os do JEC. Mas estes pormenores do universo do futebol não podem inibir a liberdade criativa e os projetos necessários para melhorar o relacionamento do clube com o seu consumidor.

O que de fato acredito é que a ousadia poderá trazer frutos muito mais positivos do que negativos. E esse é o seu grande valor em uma campanha que percorre essa linha tênue! Reforçar a paixão do torcedor pelo clube através da campanha poderá gerar reflexos muito bons no presente e no futuro, como maior participação nos programas de sócio torcedor do clube, venda de produtos licenciados e ativações diferentes por parte dos patrocinadores.

O ambiente do futebol brasileiro precisa de ações mais efetivas para dialogar de forma mais clara e direta com o torcedor. Que bom, também, que podemos começar a citar exemplos de clubes com impacto regional. Isto é um bom indicador que as coisas podem evoluir muito bem em um futuro próximo à medida que os clubes começarem a ver os seus departamentos de marketing como “Centro de Investimento” e não como “Centro de Custos”! 

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Agenda positiva

Um amigo meu costuma dizer que “nós não vivemos mais na Era da Dúvida”. Instantes depois, desliza os dedos em alguns movimentos na tela de um smartphone e apresenta resposta para questões que anos antes perdurariam por horas – o autor de um gol numa partida histórica, o filme que ganhou o Oscar em determinado ano ou o autor de uma frase marcante, por exemplo. O advento da internet proporcionou uma disseminação inigualável da informação, e isso transformou o controle dos dados em grande diferencial. O problema é que o esporte muitas vezes não entende isso.

Hoje em dia, qualquer dado está a poucos cliques de distância. Com um acervo tão vasto à disposição, vivemos um período em que o controle da informação é a grande moeda: saber como tratar, entender o que é relevante e ter relevância (credibilidade + popularidade + popularidade com os nichos certos).

Um dos pilares desse controle é o trabalho reativo, que muitas vezes é baseado em administração de crise. Pensar em gerenciamento de informação demanda criar uma estrutura para conter vazamentos e direcionar o que é publicado sobre determinado assunto, mas também inclui um esforço para minimizar o que foge desse espectro.

É o que acontece em um escândalo, por exemplo. Uma equipe de comunicação tem de montar estratégias para minimizar denúncias, preparar porta-vozes e estruturar contragolpes para reduzir o impacto de algo que já é negativo.

O ponto aqui, contudo, é outro: o trabalho proativo. O esporte brasileiro tem bons exemplos de gerenciamento de crise, mas quais são os esforços para criação de agenda positiva? Já falamos inúmeras vezes sobre a falta de cultura de promoção de evento, e esse é um aspecto nevrálgico para a deficiência.

O Campeonato Brasileiro, principal torneio do futebol brasileiro, já teve três rodadas em 2015 e serve como exemplo. A média de gols (2,00 por jogo) é a pior desde 1990, e o público não chega a 13 mil por partida (12.968, para ser exato), com taxa de ocupação de estádios em torno de 28%.

As histórias do início da temporada são negativas. É um campeonato de baixo nível técnico, com estádios vazios e times grandes em momentos conturbados (Corinthians, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Palmeiras e São Paulo, por exemplo). A quantidade de notícias ruins sobre o certame é infinitamente maior do que o volume de críticas. Agora pense: o que é feito para mudar isso?

Sport e Goiás, times que ocupam as duas primeiras posições da tabela, são dois bons exemplos de histórias que podiam ser mais bem contadas. Além de tudo, são elencos com boas opções de personagens.

No entanto, quais são os grandes jogadores de cada uma das equipes? O que eles fazem para ter um índice de ascendência que extrapole suas próprias torcidas? Trabalhar apenas com o público que já consome sua marca é fácil, mas contribui pouco para o evento no sentido institucional.

Um projeto eficiente de comunicação no esporte tem de ser totalmente alicerçado em protagonistas. O contato direto e bem feito de atletas com o público ainda é a melhor forma de vender uma ideia. Qualquer liga estruturada entende isso.

E o Campeonato Brasileiro? O que o torneio faz para criar uma agenda positiva e garantir que as pessoas tenham uma percepção favorável sobre o que está acontecendo? Que tipo de controle é exercido sobre a informação?

A resposta é “nenhum”. O futebol brasileiro simplesmente não controla a informação. Não há um projeto direcionado a aproveitar melhor os bons personagens ou as boas histórias. Não há qualquer esforço para que as pessoas falem bem do produto.

Agora tente transportar essa lógica para a publicidade – ignorando uma série de particularidades das duas áreas, é claro: qual empresa se contenta em mostrar um produto apenas a pessoas que já têm pré-disposição para comprá-lo, e ainda por cima não faz qualquer esforço para falar bem da marca? É isso que acontece no Campeonato Brasileiro.

O mercado americano tem dado dois bons exemplos contrários. O primeiro vem da NBA, a liga profissional de basquete dos Estados Unidos. A competição tem uma temporada regular arrastada, que muitas vezes é criticada por questões técnicas e físicas, mas é inegável o esforço para gerar conteúdo. Isso fica ainda mais nítido em períodos como o atual, perto do término da disputa.

Você não precisa acompanhar a NBA para ter ouvido falar em nomes como James Harden, LeBron James e Stephen Curry, por exemplo. E mesmo se você não ouviu os nomes ou não viu os conteúdos gerados pela liga sobre seus protagonistas, certamente viu as imagens deles em alguma peça publicitária do torneio, dos times ou dos parceiros.

A temporada da NBA está a poucos jogos do desfecho. O conteúdo sobre a liga, contudo, extrapola demais o limite imposto pelo calendário. Essa é uma lição relevante.

Outro exemplo foi dado pelas 500 Milhas de Indianápolis. Veja: é apenas uma etapa de uma categoria que nem de longe é um fenômeno mundial de popularidade no automobilismo. Ainda assim, é uma marca extremamente relevante, que desperta interesse muito além dos fãs do esporte.

As 500 Milhas de Indianápolis são, na verdade, um evento que dura 30 dias, com uso do circuito para shows, apresentações de diversos esportes e diferentes formas de interação com o público. A corrida é apenas um detalhe nesse projeto todo.

Com uma programação tão extensa, o evento movimenta o noticiário local e atrai consumidores que não são apenas os apaixonados por corrida. É uma chance perfeita para aumentar a base de vendas.

Além disso, trata-se de uma forma de ampliar a relação de patrocinadores com o público, reduzindo a importância da exposição de mídia para essas marcas. É algo que aumenta consideravelmente o valor associado aos aportes, portanto.

O Brasil, o tal país do futebol, não consegue lotar estádios em sua principal competição nacional e não consegue fazer com que o evento seja notícia por motivos positivos. Achar que a simples paixão do povo pelo esporte vai ser suficiente para virar esse jogo é ingenuidade demais ou preguiça demais.

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Boca, River, rivalidade e violência

Boca e River protagonizam a maior rivalidade da Argentina e uma das maiores do mundo. Esta rivalidade atingiu o ápice da violência no confronto válido pelas oitavas de final da Libertadores da América, quando um torcedor do Boca, dono da casa, lançou gás de pimenta no túnel de jogadores do River. O incidente culminou com decisão do Tribunal Disciplinar da Conmebol que eliminou o Boca Jrs da competição.

Fundado em 1901, o River Plate é fruto da fusão de dois clubes amadores de Buenos Aires e, nos anos 30 adquiriu a alcunha de “Millionarios” devido ao elevado número de associados que garantia ao clube uma receita considerável.

O Boca Juniors, por seu turno, foi fundado em 1905 por imigrantes italianos que residiam no bairro de La Boca, região menos abastada de Buenos Aires. Sua origem ligada à população humilde trouxe ao clube grande identidade com o povo.

A rivalidade acentua-se no paradoxo socioeconômico estabelecido entre os clubes.

No intuito de banir a violência que ronda o confronto, passou-se a adotar as torcidas únicas. Entretanto, como se percebeu e já era previsto pelos pesquisadores, tal medida não é eficaz no combate à violência nos estádios de futebol.

Ora, a paz nos estádios de futebol necessita de medidas pedagógicas, bem como punição célere e efetiva, dentre outras.

Não obstante, os dirigentes e as autoridades buscam restrições ao álcool e torcida ao invés de atacar o problema na sua raiz.

No caso em comento, a Conmebol acertou ao punir o Boca com a eliminação e perda de mandos de campo e, ainda, demonstrou significativa evolução desde que seu Tribunal Disciplinar foi criado, eis que no incidente do Corinthians, em 2013, na Bolívia onde ocorreu uma morte, a punição havia sido extremamente branda.

O futebol sul-americano precisa extirpar a violência de seus estádios de forma a valorizar seu produto e fortalecer seus clubes, caso contrário cada dia perderão mais torcedores e telespectadores para o futebol europeu.

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A formação acadêmica para os treinadores de futebol: ter ou não ter o diploma?

1 – Introdução

Futebol, o esporte mais amado pelos brasileiros. Lazer, para alguns. Para outros, o trabalho. Nesse artigo, irei falar um pouco mais sobre um cargo muito importante no meio futebolístico: o treinador de futebol. Mais especificamente, irei discutir sobre a importância da formação acadêmica para o treinador. Afinal, o comandante da equipe deve ter formação? Ex-jogador ou professor de educação física? O curso especializante basta? E sem curso dá pra dirigir algum time?

No meio do futebol, muito preconceito existe com quem não foi “boleiro”. Desde dirigentes, até os próprios jogadores, existe uma rusga com quem não jogou bola e tenta a vida dentro da área técnica. Medo de não funcionar, talvez. Medo de a aposta dar errada e de ser a resposta quando alguém perguntar quem colocou aquele professor de educação física que afundou o time. Despeito, talvez, de não serem considerados legítimos treinadores de futebol, visto que a lei 6.354, de 2 de setembro de 1976, em seu vigésimo sétimo artigo, diz: “Todo ex-atleta profissional de futebol que tenha exercido a profissão durante 3 (três) anos consecutivos ou 5 (cinco) anos alternados, será considerado, para efeito de trabalho, monitor de futebol”. (BRASIL, 1976)

A verdade é que tal preconceito existiu e sempre vai estar no Brasil, até que o futebol seja profissionalizado de verdade e o amadorismo pare de reinar pelos gramados brasileiros. Cabe a nós, treinadores, que busquemos mudar essa visão antiquada e que quem comande o time seja, de verdade, o mais bem preparado para tal função. Não só por isso, mas sendo um dos fatores preponderantes também, vemos o nosso futebol cada vez mais ultrapassado pelo restante do mundo. Para ilustrar, as ligas da UEFA exigem a formação no curso da própria entidade para todos os técnicos que disputam seus campeonatos. Todos devem fazer os cursos até chegar o nível máximo, para, assim, poder assumir as equipes que disputam os campeonatos de ponta da Europa.

A rigidez com a formação é tão grande lá, que podemos citar o caso do francês Zinedine Zidane, ex-jogador, famoso internacionalmente e, agora, treinador de futebol. Ele treina a equipe do Real Madrid B, o Castilla, mas não tinha licença para tal, sendo um dos seus assistentes que assinava a súmula por ele. Descoberto tal fato, a UEFA puniu com 3 meses de suspensão do comando da equipe, mostrando que a entidade é rígida até mesmo com quem já foi um dos maiores jogadores do mundo. Vale lembrar que Zidane já estava no final de seu curso que o habilitava a treinar a equipe, embora estivesse errado do mesmo jeito.

2 – Desenvolvimento

A formação acadêmica para os treinadores de futebol é extremamente importante por vários motivos. Primeiramente, falando dos cursos preparatórios para a função, a necessidade é clara: não se pode acreditar e aceitar que em um futebol tão avançado e moderno, a antiga ideia de que para comandar uma equipe basta ter jogado de futebol ainda exista. Hoje em dia, com tantas variáveis, desde tecnologias, possibilidades de avanço em termos de treino, entre outros, não se pode concordar que um simples ex-jogador possa assumir um time, sem nenhum time de preparação. Como dito anteriormente, se uma entidade como a UEFA puniu um ex-jogador como Zinedine Zidane por não ter o curso completo, por que aqui deve ser diferente?

Ninguém pode fazer um trabalho sem ter estudado, sem ter se preparado para tal função. Esse tipo de processo só acontece, infelizmente, no futebol brasileiro. Porém, como alegria para o país, cada vez mais o interesse pelo estudo, pelo aperfeiçoamento aumenta nas cabeças de nossos comandantes. Dessa forma, cada vez menos se encontra técnicos completamente despreparados. Seu espaço no mercado vai diminuindo, já que por sua falta de preparo, não consegue obter resultados contundentes.

Em relação à formação em Educação Física, há uma grande discussão sobre a necessidade do diploma. Em um primeiro momento, temos que analisar o fato de que o treinador é, acima de tudo, um professor. Sua função é ensinar, explicar, comandar, ordenar. Quem, de fato, tem a qualificação para tal é o formando em Educação Física. Em um segundo momento, devemos analisar quais são as outras funções e suas participações dentro do clube. Acredito que, como comandante do time, ele seja um elo entre todas as variáveis presentes. Fisiologia, preparação física, tática e técnica, departamento médico, entre outros, são funções que existem dentro de uma comissão técnica e que trabalham para o bom funcionamento da equipe. Se o elo maior entre todos os departamentos não souber o básico das outras funções, como ele irá desempenhar a função de uni-los?

Num futebol, em que cada vez mais se fala sobre a interdisciplinaridade dentro da comissão técnica, não existe possibilidade de o chefe da equipe não saber como liderar os outros cargos. E essa preparação se consegue dentro da faculdade. Não podemos esquecer, jamais, que o técnico é e deve ser sempre um estudioso do corpo humano, já que lida com ele em seu desempenho máximo.

Como exemplo, podemos lembrar treinadores extremamente competentes, vitoriosos e que vieram das salas de aula das universidades, acabando assim com o preconceito de que esses não podem ser bons comandantes de equipe. José Mourinho, “The Special One”, nunca jogou bola profissionalmente, fez a faculdade e hoje é um dos melhores (se não o melhor) treinadores de futebol do mundo em atividade. Seus títulos e vitórias comprovam isso. Seu pupilo, André Villas-Boas, da mesma forma, também usou seu diploma para adentrar os gramados.

Para citar um exemplo mais próximo de nossa realidade e que ressalta como a formação é importante, podemos falar também de Vanderlei Luxemburgo. Luxa, como é conhecido, foi jogador de futebol e se engana que por isso virou treinador. Antes, consciente da necessidade do aprendizado, ele se lançou nas salas de aula para aprender o que é necessário para desempenhar sua função. Assim, é um dos diversos técnicos que tem a noção de que a formação na Educação Física, mesmo com toda a sua experiência adquirida durante sua carreira de jogador, é extremamente importante para a carreira no banco de reservas.

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Para ilustrar, também podemos falar sobre como acontece a formação de um treinador de futebol americano, basquete e outros esportes nos Estados Unidos, como modo de comparação, apenas. Lá, o “coach” é formado através de um longo processo, na maioria das vezes, em que ele vai subindo de degrau em degrau, saindo desde um simples professor do esporte no colégio, indo para a faculdade, até chegar às principais ligas do país. Logo, o técnico tem a preparação adquirida na Educação Física e a experiência de ter passado por todo um tempo de preparo durante o período treinando o colégio e a faculdade, chegando ao mais alto nível esportivo.

Segundo Cunha (2009), “os professores de Educação Física possuem conhecimentos em fisiologia, anatomia, biomecânica, crescimento e desenvolvimento humano, pedagogia, aprendizagem motora, nutrição, possuem também conhecimento sobre psicologia, sociologia, medicina e antropologia do esporte. As formas de ensino das habilidades motoras básicas e específicas do esporte também são fornecidas na faculdade de educação física. O problema é que não tem muita experiência em competição, principalmente de alto nível.”

Tal citação exemplifica muito bem todos os benefícios que a faculdade trazem para o futuro profissional do futebol, embora fale também da dificuldade em que enfrentam a respeito da experiência. Porém, também deve ficar claro que ninguém nasce com essa experiência e que ela só pode ser conseguida através de anos de trabalho, esforço e dedicação.

 
3 – Conclusão

Podemos concluir, então, que a formação acadêmica é extremamente importante para o bom desempenho da função de treinador de futebol. Vimos que o curso de preparação para o cargo é necessário e que é inadmissível que ainda exista alguém que comande uma equipe no futebol brasileiro e que não tenha feito nenhum tipo de curso para tal.

Concluímos, também, que o professor de Educação Física pode, sim, ser um excelente técnico e que o preconceito que existe em relação a esse fato é completamente infundado. O formando em tal curso é, sim, mais preparado para assumir o cargo, devido aos inúmeros aprendizados que ele obtém dentro da universidade. É claro, também, que como para os ex-atletas, os professores também devem fazer os cursos preparatórios e também devem se especializar para poderem trabalhar no meio futebolístico. A verdade é que merece estar a frente da equipe aquele que melhor se preparar para isso e, dessa forma, o estudo do futebol aparece como a principal necessidade existente para que nosso país volte a reinar como um dos maiores do mundo nesse esporte.

4 – Referências Bibliográficas
• CUNHA, Fabio Aires da. Ex-atletas ou professores de educação física? Revista Cooperativa do Fitness, Belo Horizonte, Janeiro de 2009. Disponível em: http://www.cdof.com.br/futebol27.htm. Acesso em: 31 jan. 2015.
• Zidane é suspenso por 3 meses do comando do Real B. Revista Veja, São Paulo, Outubro de 2010. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/zidane-e-suspenso-por-3-meses-do-comando-do-real-b. Acesso em 29 jan. 2015.
• POLITO, L. F. T. A importância da formação acadêmica em Educação Física para a atuação do técnico de futebol: breve reflexão. Universidade do Futebol, Brasil, Junho de 2009. Disponível em: https://universidadedofutebol.com.br/Artigo/2064/A+IMPORTANCIA+DA+FORMACAO+ACADEMICA+EM+EDUCACAO+FISICA+PARA+A+ATUACAO+DO+TECNICO+DE+FUTEBOL+BREVE+RE. Acesso em: 29 jan. 2015.

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Equipes em armadilha

Mal começou o Campeonato Brasileiro de futebol deste ano e já nos deparamos com a primeira demissão de um treinador. Após apenas duas rodadas, o primeiro técnico de um clube da série A já deixou o comando do seu clube.

O que terá acontecido para que os resultados esperados não se materializassem?

Sabemos que este tipo de situação se manterá presente durante a competição, seja para um ou outro clube. Mas como se prevenir de algumas questões que podemos considerar como armadilhas que os times estão sujeitos a passar, conforme as citadas por Patrick Lencioni em seu livro “As cinco disfunções de um time”.

Quero citar uma destas cinco armadilhas como um ponto de importante análise por parte das equipes de seus treinadores – “a falta de confiança”. Esta armadilha é como se fosse a causa raiz de problemas que causam a partir dela uma certa quantidade de efeitos colaterais para o time.

Se pensarmos na palavra confiança, podemos compreende-la como a crença de que as pessoas de quem dependemos irão realmente cumprir com nossas expectativas. A confiança está lastreada em 3 pilares básicos:

• Resultados
• Demonstração de preocupação
• Integridade

É raro um time conseguir uma relação de confiança que resista a resultados insuficientes dentro de campo, assim podemos entender que o resultado pode ser considerado uma premissa para que a confiança se instale em qualquer grupo de atletas. Em relação a preocupação, toda vez que uma pessoa se preocupa com outra, demonstra todo esforço dedicado a cumprir com as expectativas do outro, estimulando assim a criação de um elo de segurança que sustentará a relação de confiança entre os membros do grupo. A integridade se qualifica como uma palavra que pode ser decomposta em Ética, Honestidade, Consciência e Responsabilidade.

Nos grupos em que a confiança se faz presente, os atletas demonstram comportamentos como por exemplo:

• Pede ajuda a outro membro do grupo
• Aceita sugestões de pessoas externas
• Admite fraquezas e erros
• Fornece o benefício da dúvida antes de concluir algo pelo simples julgamento do outro
• Cumpre as expectativas dos outros e informar quando não irá conseguir cumpri-las
• Aprecia as competências compartilhadas dos membros do grupo

Neste sentido, o papel do treinador pode ser fundamental pois a confiança nunca é adquirida do dia para a noite, irá requerer que o grupo dedique seu tempo juntos e que efetivamente possam tratar francamente suas vulnerabilidades. Seguindo nessa direção o treinador poderá exercer um papel de integrador e também de membro deste grupo, criando elos duradouros de segurança com seus atletas, para que possam aceitar as vulnerabilidades da equipe e com isso possam admitir que algo de melhor possa ser feito em termos de evolução tática e técnica dentro de campo.

E aí amigo leitor, concorda que esta armadilha poderá estar presente durante todo o campeonato?

Até a próxima. 

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Bolhas de gestão

A gestão do esporte entrou definitivamente na pauta dos principais programas e reportagens sobre o esporte nos últimos tempos. Ainda que, por vezes, muitos dos argumentos são construídos de maneira empírica, é inegável como este tem sido um tema recorrente, a ponto de se tornar pauta, também, dos “papos de botequim”, o que evidencia a sua “popularização”. Não são raros os programas que passam do debate das quatro linhas do jogo para falar de patrocínio, finanças e política dos clubes de futebol.

Bom por um lado, uma vez que passamos a começar a olhar os resultados de campo de uma maneira diferente, a partir de uma percepção mais cética, cautelosa e ampla. Muito ruim, porque, ainda, existem muitas percepções completamente distorcidas da realidade vivida pelos clubes de futebol do país e dos significados sobre os conceitos de gestão do esporte, o que atrapalha em certas circunstâncias o desenvolvimento desejado para as organizações do esporte.

No que diz respeito a forma e aos casos relacionados a gestão dos clubes, uma definição que para mim começou a ser convincente no ambiente de diálogo com colegas (especialistas ou não da área) ou alunos ou mesmo individualmente, para analisar os fatos, é o que passei a chamar de “Bolha de Gestão”.

O significado deste conceito é que a gestão por especialistas ainda não se tornou uma cultura enraizada nos clubes de futebol, passando por processos de altos e baixos. São levados ao sabor do vento sob as crenças e atitudes de grupos que passam pelo clube a cada ciclo eleitoral, ou seja, quando há um grupo político disposto a melhorar a forma como as coisas funcionam, conseguem fazê-lo por um curto período de tempo, até a chegada de um novo que, com pensamentos diferentes, podem dar continuidade, com aperfeiçoamento, ou simplesmente mudar tudo, retrocedendo um conjunto de mudanças positivas.

Como dois ou quatro anos, por vezes, é muito pouco tempo, na prática, consegue-se apenas formar uma bolha que blinda momentaneamente aquilo que não é desejável entrar de fora para dentro. Como as intervenções necessárias para o futebol brasileiro deveriam ser pensadas e executadas em décadas em virtude da sua complexidade e defasagem histórica sobre processos de inovação, o quadro final é o que temos hoje: “causos” e não “cases” de gestão do esporte! E é sob esta confusão, especialmente, o aspecto principal que os analistas mais erram, o que prejudica a evolução continuada.

Também e, talvez, principalmente, que as decisões do presente, na grande maioria dos casos, são para resolver problemas unicamente do momento, sem uma visão sobre os impactos no futuro. A sustentabilidade das decisões é moldada conforme a necessidade de hoje!

É por isso que assistimos um Corinthians avassalador no início desta década e já vemos uma situação periclitante na metade dela, apenas 5 anos depois. A conta demorou um pouquinho a chegar, mas veio. E com força que pode ser devastadora para os projetos do clube nos próximos anos se não aparecer um fato novo que mude o quadro preocupante de hoje.

O São Paulo é um exemplo ao contrário. Cansou de acertar nas décadas de 1990 e início dos anos 2000. De tanto acertar, parece que resolveu voltar a um modelo de clube do passado. A situação talvez só não seja pior porque a construção histórica deu bases muito sólidas para a manutenção de um status razoável hoje em dia, isto é, uma cultura forte de gestão que é difícil ser mudada no curto prazo para gerar um efeito tão negativo.

Já o Flamengo é a “menina dos olhos” do momento. E de forma justa! Os problemas do passado são enormes e desafiadores, impactando em muitas coisas na gestão do presente. Muito provavelmente, as intervenções dos últimos 3 anos só terão efeito positivo daqui mais uns 3 a 5 anos, se não mais. O dilema aparece quando há um conflito entre o que deve ser feito no âmbito da gestão ante aquilo que o torcedor (e opinião pública) desejam que se faça no campo, no próximo jogo… É aí que os bons projetos tem perdido a mão no país.

Não que a boa gestão é contrária à performance em campo. Muito pelo contrário: um lado contribui com o outro. A boa gestão irá garantir que se faça um bom trabalho no aspecto esportivo sem afetar o desenvolvimento organizacional futuro, de modo a manter de forma mais perene a performance e os resultados econômicos do clube.

O ponto de inflexão está nas dificuldades em processos de tomadas de decisão pelo ambiente de conflito entre uma gestão mais racional e equilibrada com a necessidade de resultados esportivos de curto prazo. Eis uma situação peculiar da indústria do esporte que não é percebida em outros ambientes de negócio.

Por isso, o equilíbrio é fundamental! Para não termos as tais “bolhas” ao longo do tempo, para o bem ou para o mal, é necessário que os clubes passem a trabalhar com mais clareza e transparência seus processos de gestão e onde querem chegar com o tempo – e com recursos próprios!

Outra forma de “bolha” comum no meio do futebol é a chegada de dirigentes mais abastados que colocam dinheiro no clube, seja por meio de doação ou mesmo por empréstimo. A falsa sensação de melhoria em um período específico dá lugar à realidade anos mais tarde. Por isso o termo “recursos próprios” foi enfatizado no parágrafo anterior.

Enfim, para o bem do futebol brasileiro, precisamos desenvolver urgentemente um processo de melhoria da visão de performance organizacional em detrimento a performance de diferentes dirigentes. Se invertermos um pouco esta lógica, tenho plena convicção de que muitas coisas poderão mudar positivamente!