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RH no futebol – a humanização e o futuro do jogo

Créditos – Rubens Chiri/SPFC

Os recursos humanos, ou RH, é uma área que tem tido cada vez mais atenção na administração das empresas e engloba, entre outras atividades o treinamento, que é a capacitação de curto prazo, como por exemplo o aprendizado para trabalhar com determinada ferramenta ou software e o desenvolvimento, mais relacionado à capacitação de longo prazo, como o alinhamento com a cultura e valores da empresa.

Na gestão dos clubes de futebol, a área também tem ganhado relevância, mas não com a velocidade esperada, como explica a psicóloga Juliana Mazepa psicóloga, pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas e líder do grupo de estudos sobre Neurociência e Desempenho na Universidade do Futebol, “no futebol o RH ainda é visto como uma área de departamento pessoal, que faz pagamento de folha, questões burocráticas. Não existe nos clubes a área, ou sub-áreas do RH, o chamado T&D, que é o treinamento e desenvolvimento, que contempla a análise de perfil comportamental, direcionamento de carreira, análise por competências, desenvolvimento de competências, sinergia de grupo, treinamento de líderes e gerentes, fortalecimento da cultura organizacional, tudo isso que já acontece em grande parte das empresas, mas não no futebol. É essa mudança que precisa acontecer definitivamente”, conclui.  

Ainda para Juliana, é importante que os clubes estejam atentos ao treinamento e desenvolvimento dos profissionais de todas as áreas do clube, tanto daqueles que participam dos setores relacionados às atividades-meio, como o marketing e a gestão, como às atividades-fim, o trabalho dos treinadores, por exemplo, “os clubes poderiam aperfeiçoar esses processos começando pela análise de perfil comportamental, quando é feito o alinhamento do desejo e o talento profissional que a pessoa tem com a necessidade do clube. Esse olhar de alguém especifico para o desenvolvimento de carreira é com certeza uma área que os clubes vão precisar explorar, obrigatoriamente. Se a gente quer elevar o nível do resultado em campo, da performance do atleta, a gente precisa elevar o nível técnico e comportamental de todas as pessoas que trabalham no entorno”, explica.

O conceito de atividade-meio e atividade-fim no futebol são aprofundados no curso Gestão Técnica no Futebol, nossa próxima turma terá matrículas abertas em maio

Os cargos técnicos no futebol, em especial o dos treinadores, são aqueles que acabam sendo mais impactados pela pressão por resultados e, consequentemente, apresentam uma maior rotatividade. Um estudo do pesquisador Matheus Galdino, publicado recentemente na Universidade do Futebol e que você pode acessar aqui, mostra como o Brasil é um destaque negativo nesse sentido, sendo o líder mundial no ranking de troca de técnicos.

É por conta desse cenário um tanto “caótico” que o treinador Eduardo Barros classifica como “utópico” o estabelecimento de um plano de carreira para treinadores atualmente no Brasil. Ele também aponta como um fator que dificulta o estabelecimento desse plano a heterogeneidade de patamares pelos quais os treinadores são reconhecidos e iniciam as suas trajetórias. “É muito difícil estabelecer objetivamente como é o planejamento de carreira do treinador. Ele precisa entender quem ele é, quais competências ele tem e não tem, quais formações ele precisa. Ela vai se iniciar de diferentes formas, pela escolinha ou até pelo profissional, dependendo do nível do treinador em questão”, analisa.  

No FutTalks #52, Thiago Scuro conta como o Red Bull Bragantino busca sanar a descontinuidade dos trabalhos com a análise de mercado voltada para treinadores, por meio do estudo de modelos de jogo e estilos de liderança de potenciais substitutos – Acompanhe a entrevista na íntegra.

Como exemplo de treinadores que já contavam com certo prestígio no meio e conseguiram uma inserção mais acelerada em clubes de elite, temos Rogério Ceni, que assumiu o São Paulo em 2017 e atualmente comanda o Flamengo.  Na outra ponta temos como exemplo de profissional que iniciou pelas categorias menores o treinador Zé Ricardo, que subiu da categoria sub-15 até o profissional do mesmo clube, se estabelecendo como treinador elite do futebol brasileiro desde então. A evolução da carreira de Zé Ricardo ilustra bem um dos modelos incidentais de progressão de carreira mais comuns no futebol brasileiro e mundial que é a escalada entre as faixas etárias de um ou mais clubes.

Rogério Ceni em ação pelo Flamengo. Crédito: Marcelo Cortes/Flamengo

Levando em consideração as diferentes demandas de trabalho e características dos jogadores e jogadoras em faixas etárias tão distintas como o sub-15 e o profissional, uma das discussões que podem ser levantadas acerca do planejamento de carreira de treinadores é a possibilidade de progressão, inclusive financeira, dentro de uma própria faixa etária. Afinal, é bastante compreensível que determinado treinador seja mais propenso a lidar com todo o ambiente que envolve o trabalho em um sub-15 e menos com as demandas do profissional, e vice-versa. Sobre a questão Zé Ricardo acredita que “é legítimo que a maioria dos profissionais queira subir na carreira e vislumbrar uma trajetória no profissional, mas creio sim existir treinadores que são especialistas em determinadas faixas etárias e que poderiam, se assim fossem devidamente valorizados e remunerados, ser de ótima valia para o clube na formação de seus atletas. Os clubes poderiam, e deveriam, participar mais disso. São poucos os exemplos de intercâmbios entre profissionais para uma melhor formação deste. Imagino que não seja fácil, mas certamente seria um investimento que retornaria em forma de um melhor atleta no seu profissional. E isso como se sabe, não é pouco. A realidade me parece mais no sentido de um profissional ter que buscar por seus meios, essa formação”, opina o treinador.

“Em funções de gestão e coordenação tentei criar um ambiente que permitisse o desenvolvimento do profissional, mas acho que isso não é o mesmo do que uma criação formal de um plano de progressão de carreira, vejo isso ainda como utópico pensando no nosso futebol, dada as mudanças de gestão que são muito frequentes. Falta aos nossos clubes de maneira geral, uma visão mais clara de médio e longo prazos, que permita a criação de fato de um plano de carreira institucional, uma política do clube pensada não só para o treinador mas para todas as funções da área técnica e diretiva de um clube” – Eduardo Barros

Apesar de não existir, pelo menos por hora um plano de carreira efetivamente estruturado para treinadores, Eduardo Barros conta sobre algumas iniciativas no futebol brasileiro que ao menos buscaram caminhar nesse sentido, “participei efetivamente de dois movimentos nessa direção. O primeiro foi em 2015 no Coritiba, sob a gestão inicial do João Paulo Medina. Fui um dos líderes técnicos das categorias de base e o primeiro grande movimento que nós fizemos no clube foi o de diminuir a disparidade entre os treinadores de toda a cadeia do sub-11 ao sub—20. A ideia era a de implantar uma progressão de carreira que respeitasse o perfil do profissional e que permitisse que ele pudesse ter reconhecimento até financeiro na própria categoria, sem necessariamente ter que subir de categoria para ter esse reconhecimento. Esse movimento também foi feito no Athletico Paranaense em 2019 e 20 sob a gestão do Paulo André como diretor de futebol de forma muito semelhante”, aponta.

A formação de jogadores

Essa falta de planejamento de carreira na área técnica encontrada em grande parte dos clubes também pode acabar influenciando negativamente um outro processo fundamental da vida de um clube que é o desenvolvimento de seus jogadores, já que é difícil estabelecer um trabalho de longo prazo sem uma qualificação dos profissionais que caminhe na mesma direção e com trocas tão frequentes no comando do trabalho. Gabriel Puopolo, que é psicólogo das categorias de base do São Paulo Futebol Clube destaca a necessidade da formação integral, ou de uma priorização do desenvolvimento humano dos jogadores e jogadoras nas categorias de base e como esse trabalho pode render frutos aos clubes, “falar de desenvolvimento humano não é sobre criar um PHD em física, tampouco lordes ingleses, mas sobre o desenvolvimento da capacidade de processar informação, de compreender a relevância do papel do jogador na sociedade, que ele aprenda a trabalhar em equipe, a ser autônomo e a tomar decisões em sua vida. Tudo isso impacta dentro de campo, principalmente na perenidade e manutenção desse desempenho ao longo do tempo. Se eu quero que um jogador renda por bastante tempo, de maneira mais sustentada, preciso estar atento ao desenvolvimento dele como pessoa”, defende.

Pensar mais nas pessoas, tanto nos jogadores, como nos demais profissionais envolvidos direta ou indiretamente no que acontece dentro do campo de jogo, pode ser o caminho para a necessária evolução do futebol brasileiro.

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Ciências dos dados, conhecimento e o futuro do futebol

“Sabedoria não é ter opinião certa, é mantê-la aberta.
 Para isso servem os dados e as informações:
 para que o conhecimento seja sempre revisto.”

(Daniel Piza, jornalista e escritor brasileiro, 1970-2011).

Crédito imagem: Walmir Cirne/AGIF/CBG

Há quem afirme que estamos vivendo na “Era do Conhecimento”. Mas talvez seja melhor falarmos em “Era dos Dados” ou “Era da Informação”. Com a rápida evolução da tecnologia e das redes digitais e sociais, particularmente a partir da década de 1990, o mundo tem ficado progressivamente mais interconectado, tornando o acesso aos dados e às informações mais barato e, consequentemente, em princípio, disponível a todos.

Porém, é prudente não nos apressarmos em concluir que essa tendência já está devidamente consolidada e se constituindo em uma verdadeira conquista dentro de um movimento de democratização universal do acesso aos dados, informações e conhecimentos. Para contrapor a esta ideia, basta lembrarmos que algumas pesquisas mais críticas nos sinalizam que – sem contar a população que não tem qualquer acesso à Internet (cerca de 25% dos brasileiros, por exemplo) – há ainda diferenças gritantes na qualidade deste benefício, disponível supostamente a todos, incluindo as camadas mais carentes da sociedade. Sem muitos recursos e uma adequada formação educacional, por exemplo, o próprio acesso aos dados e às informações dá-se de forma precária, insuficiente, e, desta forma, contribui muito pouco no sentido de promover o conhecimento ou um verdadeiro desenvolvimento humano e social mais ampliado.  

Além de tudo, temos que reconhecer que o simples acesso aos dados e às informações não significa, necessariamente, acesso ao conhecimento propriamente dito. E para reforçar este exercício intelectual, vamos inicialmente destacar as diferenças entre “dados”, “informações” e “conhecimentos”.

Dados são elementos quantitativos ou qualitativos dos fatos e que, em si, não significam muita coisa. São apenas e tão somente dados extraídos dos fatos. Para deixar mais claro, e tomando o futebol como exemplo, podemos afirmar que um dado quantitativo seria constatar que determinado jogador percorreu 7,5 quilômetros em uma partida de 90 minutos. Já um dado qualitativo seria constatar que o jogador X se lesionou gravemente no último jogo de sua equipe.

Por sua vez, as informações são os elementos quantitativos do fato, contextualizados aos elementos qualitativos. A informação ocorre quando, diante de determinadas circunstâncias e contexto, conseguimos dar algum significado aos dados. Seguindo o exemplo anterior, podemos afirmar que uma informação surge quando juntamos alguns dados, tais como os já citados, e verificamos que determinado jogador percorreu 7,5 quilômetros durante 90 minutos (dado quantitativo), enquanto outros jogadores na mesma posição e modelo de jogo semelhante correm, em média, 9 a 10 quilômetros (outro dado quantitativo). A estes dados, juntamos mais o dado qualitativo de que o jogador, após uma inatividade por lesão, se afastou dos jogos por um longo período. Temos aqui um conjunto de dados que nos fornece uma informação, uma vez que demos algum contexto aos dados.

Dentro desta lógica, os conhecimentos seriam o resultado qualitativo das conexões entre as diversas informações. Ou seja, o conhecimento ocorre quando conseguimos dar sentido ao conjunto de informações obtidas. E voltemos ao exemplo: a partir de diversas informações obtidas, podemos concluir que o percurso de 7,5 quilômetros, abaixo da média de outros jogadores da mesma posição e jogando em modelos de jogo semelhantes, se deveu a uma opção do treinador que, pela qualidade técnica do jogador em questão, preferiu escalá-lo mesmo considerando suas limitações físico-fisiológicas para poder cumprir integralmente as suas funções neste jogo de retorno após uma lesão.

Além do conhecimento no sentido aqui adotado, podemos também incluir um outro tipo de conhecimento – poderíamos dizer, mais avançado – que chamaríamos de “sabedoria”. A sabedoria ocorre quando entendemos a complexidade das relações envolvidas nos fatos analisados e sabemos relacionar inteligentemente todos os conhecimentos disponíveis, sempre dinâmicos e em movimento, a ponto de sermos capazes de tomar decisões acertadas, conforme determinado objetivo.

Nesta perspectiva, a partir de uma compreensão ampla e sistêmica, que inclui o propósito (profissional e de vida) do jogador, podemos ministrar treinamentos específicos e gerais e orientar o atleta através de procedimentos que o auxilie a superar as dificuldades na fase pela qual passa (boa ou má). Enfim, podemos tomar as melhores decisões a partir dos dados, informações e conhecimentos adquiridos, melhorando a capacidade do jogador individualmente e do seu desempenho junto à equipe, devidamente alinhado às metas individuais e coletivas traçadas.  

Portanto, a ideia central desta proposta conceitual é que os dados devem gerar informações, que por sua vez geram conhecimentos, e que, finalmente, esses conhecimentos possibilitem melhorar a nossa capacidade para tomar boas decisões, ou seja, decidir com alguma sabedoria.

Porém, ao lidar com essas tomadas de decisão não podemos ser ingênuos, concluindo que elas dependem única e exclusivamente de nossa vontade individual. É preciso que tenhamos o claro entendimento de que a produção do conhecimento, seja no futebol ou em qualquer outra área da atividade humana, não é algo que surge apenas a partir de decisões pessoais. Significa, na verdade, o resultado de uma construção histórica, desenvolvida a partir de determinados contextos econômicos, culturais, políticos e sociais em que vivemos. Entender isso é fundamental para que possamos também entender aquilo que chamamos de conhecimento e como ele é produzido e aplicado.   

Outro aspecto igualmente fundamental sobre este fenômeno – e que não pode ser desprezado na análise crítica sobre o papel do conhecimento no desenvolvimento humano e social – relaciona-se à tendência de que os dados e informações, armazenados, organizados e processados exponencialmente pela Inteligência Artificial, através de algoritmos criados pelos cientistas de dados, começa a colocar novos desafios para a humanidade e, em nosso caso, ao futebol.

Qualquer pessoa que acompanha atentamente esta tendência é capaz de imaginar que, em breve, será perfeitamente possível que, em competições de alto rendimento, cada jogador entre em campo, por exemplo, com pontos eletrônicos em seus ouvidos e possa acompanhar uma voz de comando (que pode ser de um treinador ou de uma máquina), que indique ou defina qual será a melhor jogada a ser executada nas circunstâncias que o atleta se encontra em cada instante do jogo. Mesmo que tentativas como essas já tenham sido reprovadas no passado, a tendência permanece e, mais cedo ou mais tarde, voltam para ser implementadas em novas circunstâncias. Aconteceu com a regra do impedimento, com o número de substituições, com a implantação do V.A.R., entre tantas outras mudanças.

Mas o mais impactante de tudo isso talvez seja imaginar que pouco importa se gostemos ou não dessas inovações, uma vez que muitas delas, dentro do modelo de sociedade que vivemos, são definidas muito mais pelo mercado de consumo do que pelos nossos desejos individuais.

Portanto, pensar sistêmica e criticamente, buscando identificar os limites de interferência das ciências dos dados e da informação no futebol – e em nossa vida em sociedade, de forma geral – é algo que merece, e muito, a nossa atenção. Pensemos nisso!

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Quando a torcida decide tudo em um clube

A pressa sempre existiu no futebol. O resultado sempre teve que vir “para ontem”. Mas de uns tempos para cá essa impaciência tem ganhado proporções gigantescas e nocivas para o desenvolvimento do jogo. Como pensar em qualidade e desenvolvimento de ideias se com três derrotas tudo já é mudado?!

Valeria uma densa observação antropológica sobre nossa sociedade, que hoje está mais farta de informação e que por isso, e também por tantos outros fatores, tende a querer tudo muito rápido, tudo pronto. Vou me ater ao futebol, mas entendendo que ele está inserido dentro de algo maior, que exerce uma grande influência. 

Futebol de alto nível dá trabalho. Não se faz da noite para o dia. A construção de conceitos de jogo é de uma complexidade absurda. Depende não só do treinador, mas também do ambiente, do contexto, do entendimento e da bagagem que cada jogador traz, da interação entre os atletas e de cada setor da equipe, se o salário está em dia, se a logística para jogos fora de casa é bem feita e outras centenas de fatores. E tudo isso pode demorar…

Frisando dentro desse cenário: não sou contra demitir treinador. Se há conhecimento para avaliar o trabalho e não há perspectiva de melhora a troca passa a ser natural. Mas o que vemos hoje não é bem isso. 

O torcedor atual cada vez mais afoito quer ver seu time jogando bem e convencendo. Sem lembrar que do outro lado tem um adversário com os mesmos objetivos. Esse mesmo torcedor, que em tempos pré-pandêmicos ia ao estádio, hoje tem no ambiente virtual sua plataforma preferida, e talvez única, de desabafar. E o dirigente sente esse desabafo de uma maneira mais direta e paradoxalmente mais real e não virtual do que uma vaia no estádio após o jogo . E se não há base sólida para uma avaliação criteriosa, trabalhos promissores são interrompidos com a famigerada expressão “dar uma resposta pra torcida”.

O futebol é o que é muito por conta da participação do torcedor. Ele é fundamental. É a grande essência de tudo. Mas torcedor torce e dirigente dirige. Quem manda no processo tem sempre que ouvir a torcida, mas nunca se basear apenas nela para tomar decisões. Até porque o foco do torcedor é ganhar o próximo jogo, curto prazo. E nada grandioso no futebol foi construído sem uma clara visão de futuro, pensando no longo prazo.

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Precisamos falar sobre interacionismo I – O modernismo de Taubaté

Crédito imagem: Lucas Figueiredo/CBF

‘Migalhas dormidas do teu pão,

raspas e restos, me interessam,

pequenas porções de ilusão,

mentiras sinceras me interessam’

Nas últimas conversas – o leitor e a leitora devem se recordar – falamos de conceitos que parecem mais convenientes ao meio acadêmico do que o chão de quadra ou campo, do tipo paradigma ou epistemologia. Termos, contudo, um tanto importantes para compreendermos os porquês, os comos e quandos de ações e intervenções tomadas na vida vivida e, por tabela, da associação entre método e didática que compõe o fazer pedagógico em treinamentos e jogos no esporte e no futebol.

Ressaltamos as diferenças entre as teorias do conhecimento inatista, empirista e interacionista e suas consequências práticas, sem perder de vista que, seres humanos complexos que somos, somos influenciados, em maior ou menor medida, por cada uma dessas correntes epistemológicas. Mesmo assim, o(a) professor(a)/treinador(a) não deve jamais se furtar perseguir mais fortemente uma delas para embasar seu fazer docente. Não existe prática, afinal, sem teoria. As teorias existem como ‘farol’ às práticas.

Tentamos deixar claro, também, o apreço ao interacionismo, teoria epistemológica descendida do paradigma emergente e que norteia abordagens didático-metodológicas voltada ao ensino, aprendizagem e treinamento esportivo – e ao futebol, mais especificamente. Modelos de ensino interacionistas tem ecoado com alguma força, pelas palavras de pedagogos e pedagogas no Brasil e no exterior, mesmo que distantes, evidentemente, da unanimidade (e Nelson Rodrigues respira, em algum lugar, aliviado). Se o tradicionalismo, no jogo e na vida, insiste em resistir à fórceps, sob batuta, às vezes, de gente grotesca, não são poucos e poucas os e as que sabem que as relações humanas e o ato de jogar ganharam novas conotações e não podem ficar presos ao passado. 

Toda essa estima por condutas interacionistas não pressupõe cegueira crítica. Enquanto pedagogos e pedagogas do esporte precisamos nos ater ao interacionismo educacional que vislumbramos e dizemos praticar. Existem várias ramificações dele, alicerçados por autores, linhas de pensamentos e, mesmo, intencionalidades que possuem diferenças significativas. Trocando em miúdos, tem muita coisa aí por que até parece, mas não é. Falando de futebol, tenho, de modo particular, notado certa confusão retórica: como se a confirmação de uma conduta interacionista não-tradicional passasse, necessariamente, pela aplicação rasa de termos como moderno, jogo, lúdico e, principalmente, aos pertencentes ao ‘tatiquês’ – e, então, enche-se a retórica de basculações, amplitudes, organização funcional, jogo posicional, entre tantos outros.

O interacionismo que defendemos é aquele que, sim, fundamenta o jogo, ou melhor, a Pedagogia do Jogo, dotada, por sua vez, de uma conceito-chave: intencionalidade. A natureza de uma prática pedagógica, em qualquer contexto e, principalmente, no futebol, é regida por intenções – e lá se vão quase três décadas que intelectuais do esporte, como o francês Claude Bayer e o português Júlio Manuel Garganta, para não citar o Prof. João Batista Freire, reverberam essa ideia.

Se tens a intenção de controlar e prever todas as condutas de seus ou suas atletas em campo ou quadro, trago notícias não tão boas, camarada. Interacionista não é aquele ou aquela que simplesmente baseia suas aulas e treinamentos a partir das matrizes de jogos, supostamente contextualizados. A não aplicação de sessões de atividades analíticas e o aposentar das filas indianas e dos cones marcadores podem representar nada mais que uma ingênua pseudo-fuga aos métodos tradicionais se a essência imprevisível, caótica, sistêmica e incontrolável do jogo não for contemplada. É, como a gente diz no interior paulista, comida requentada.

Boa intenção nem sempre é sinônimo de intenção adequada. O ato de condicionar comportamentos, ações e jogadas pré-estabelecidas – gatilhos estimuladores – a todo momento, ainda que pelo jogo, é clássica representação do behaviorismo ou comportamentalismo pedagógico. O jogo, que deveria ser fim, é meio para se praticar o comportamentalismo, abordagem derivada da psicologia positivista do início Século XX, essencialmente técnica e empirista. Trata-se de querer pintar uma parede com cor azul, utilizando tinta vermelha.

O comportamentalismo, de modo bastante objetivo, possui duas vertentes: uma tida como ‘metodológica’, atribuída ao estadunidense John Watson, e outra entendida como ‘radical’, fundada por Burrhus Frederic Skinner, já citado em conversas anteriores. Esta última dá o tom às práticas pedagógicas tecnicistas pela noção de condicionamento operante: estimulo uma ação desejável através de reforços negativos (punição) ou positivos (premiação). O bicho pós-vitória ou as intermináveis corridas ao redor do gramado dos(as) jogadores(as) atrasados(as) no treinamento são exemplos corriqueiros de posturas comportamentalistas, mas não nos apeguemos apenas a eles.

Condicionar a atuação de jogadores(as) de acordo com as zonas que ocupam no campo de jogo e impor a execução de um mesmo sistema de jogo, sem levar em consideração as especificidades dos contextos e circunstâncias enfrentadas, são ações que evidenciam uma perigosa armadilha a que, desconfio, não nos damos conta: é relativamente fácil nos tornarmos escravo(as) de padrões táticos imutáveis, de certo fetiche pela ordem e controle das condutas de quem joga (como se estivéssemos no Play Station) e vestirmos a carapuça de senhores do jogo e reproduzem, didática e metodologicamente, o tecnicismo behaviorista. Que também é refletido por aqueles ou aquelas que, à beira do campo ou da quadra, gritam, esperneiam, berram e narram o jogo aos(às) atletas, ditando, com detalhes, o que cada um deve fazer. E, que fique claro, não me refiro diretamente às cobranças, usualmente feitas com vocabulário não muito sereno e, sim, às instruções fechadas e impositivas. 

Não há nada de interacionismo nisso tudo. O que existe, no máximo, é uma maquiagem pedagógica que rebusca mais do mesmo: o neo-tecnicismo. Expõe, na verdade, o conflito do profissional que almejo ser, o dito ‘moderno’, que rompe paradigma, e o que, de fato, sou, contraditório, imperfeito e que leva consigo, sim, alguma bagagem do tradicionalismo pedagógico – internalizado depois de tantos anos de influência. Por essas e outras, (re)conhecermos nossas próprias epistemologias da prática é crucial porque elucida muitas de nossas crenças e concepções que interferem nos processos relacionais, de aprendizagem e ressignificação do conhecimento – qualquer conhecimento. 

O neo-tecnicismo passa, primeiro, pela cultura sebastianista e messiânica que ronda o cotidiano de treinadores(as) de futebol: acima do bem e do mal, validam heteronomia demais e autonomia de menos neste meio. Segundo, pelo profundo (des) conhecimento de instâncias conceituais do fenômeno jogo. Quando o Prof. Alcides Scaglia clama pela necessidade de que se devolva o jogo ao jogador, há um pedido implícito e urgente de que reconheçamos nossas limitações frente a ele e deixemos de tentar domar seu caráter anárquico. E que, fique claro, não extingue, em hipótese alguma, nossas responsabilidades em organizar e sistematizar processos de ensino, aprendizagem e treinamento, para alcançar determinado objetivo ou estrutura de jogo. 

Não tenho a intenção aqui de imputar juízo de valor às condutas tomadas como exemplos do comportamentalismo pedagógico. No altíssimo rendimento, treinadores(as), reféns do resultadismo tresloucado, das exigências absurdas de performance a curtíssimo prazo, de condições estruturais e financeiras pouco viáveis e do calendário de jogos irracional, optam por salvar a própria pele a partir do, supostamente, convencional. É legítimo, dado que os gatilhos proporcionados por esse tipo de abordagem são capazes de atender as necessidades imediatas do contexto. No fim das contas, funciona como um extintor, que até ajuda a apagar o incêndio em uma casa.

O problema é que o condomínio, o bairro e a cidade seguem todos em chamas.

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A construção de programas multidisciplinares na formação – O papel da preparação física

Crédito imagem: FC Bayern Campus

Introdução

Em 2016 e 2017 participei como preparador físico de uma equipe Sub-17, com atletas de muita qualidade técnica, com grande conhecimento tático e com muitas qualidades físicas. Os atletas de geração 1999, 2000 e 2001 tiveram contato com o treino específico da modalidade com qualidade e baseados em um sistema da instituição, criado por uma equipe de profissionais envolvendo nutricionistas, médicos, fisioterapeutas, preparadores físicos, treinadores, gestores e analistas de desempenho. Curiosamente, essa geração e as mais jovens que tiveram um contato mais prolongado com a metodologia de trabalho desenvolvida até então deram frutos financeiros e desportivos para o clube.

Não menos importante, gostaria de abordar a necessidade do desenvolvimento das qualidades de força ao longo dos anos de formação e começo da transição para a profissionalização do atleta de futebol. As categorias mais jovens que contemplam até a idade dos 17 anos se caracterizam por uma grande heterogeneidade a nível maturacional, idade de treinamento e competência de movimento, características essas que reforçam a importância dos clubes contarem com comissões técnicas compostas por profissionais qualificados que saibam aproveitar as supostas janelas de treinamento e introduzir um maior contexto de “treinamento de performance atlética” para além da pedagogia e treinamento do e através do jogo.

O treinamento físico como suporte a modalidade e desenvolvimento do atleta de futebol
Em um extensa revisão recente de Clemente et al (2021), o treino através de jogos reduzidos se mostra importante para muitas valências táticas, técnicas e psicológicas, no entanto, não consegue desenvolver todas as competências necessárias para um atleta de futebol, sobretudo naquelas que estão mais relacionadas as capacidades físicas: altura de salto, velocidade linear e mudança de direção. Isso nos indica que para além de pensarmos no desenvolvimento do jogador de futebol, é preciso pensar no atleta, com treino individualizado de qualidades de força, resistência e competência de movimento.

O infográfico abaixo mostra três momentos de avaliação ao longo de uma época competitiva, com atletas de Sub-17 em métricas relacionadas a composição corporal: Massa Gorda, Massa Magra, área muscular do braço e da coxa. Apesar dessas medidas não se relacionarem diretamente as suas capacidades físicas (i.e. uma maior área muscular da coxa não necessariamente implica uma maior capacidade de salto ou maiores níveis de força) (Meyers et al 2015), esses valores demonstram a necessidade de se desenvolver os atletas em idades sensíveis, com especial atenção aos estímulos de força e orientações nutricionais para suportar o aumento das cargas de treino, das exigências competitivas e as alterações funcionais que se conseguem ao longo do processo maturacional e que irão impulsionar o atleta para a carreira profissional de alto nível.

Figura 1 Gráficos de evolução da Composição Corporal ao longo da temporada em 3 momentos de avaliação. (Idade média nos momentos > A1 [fevereiro]: 16,5 anos A2 [junho]: 16,5 anos A3 [novembro]: 16,4 anos)

Quando recorremos a literatura científica, muitos estudos corroboram a relevância do processo de treino no estímulo dos atletas, unindo o útil (estímulos ideais para melhor aproveitar o processo maturacional) ao agradável (ganhos de performance e bases físicas e fisiológicas bem estabelecidas) (Lloyd et al, 2016).

“De forma geral, jogadores jovens de futebol apresentam valores acima da média para altura, peso e massa muscular, assim como tendem a apresentar um estado mais avançado no status maturacional com o aumento da idade e envolvimento em programas de desenvolvimento de elite (Malina, 2003, 2011). Valores mais baixos a nível antropométrico e de performance funcional tendem a ser geralmente observados em jogadores de futebol que foram dispensados, abandonaram ou não foram selecionados para jogarem no próximo nível de programas de performance de elite. Comparados com aqueles que tiveram a oportunidade de serem promovidos a um nível mais alto.  (Figueiredo et al., 2009; Gil, Ruiz, Irazusta, Gil, & Irazusta, 2007). Resultados similares foram encontrados em jogadores de formação de elite que superaram a idade de formação e não tiveram contratos profissionais assinados (Le Gall, Carling, Williams,& Reilly, 2010).” (Carling et al. 2012)

Um programa de formação integral do atleta, deverá incluir aspectos que se encaixam na última fase do plano de desenvolvimento atlético de longo prazo, ou seja, educar o atleta para competir e para ser um atleta com longevidade, ou um atleta para a vida. Os nossos atletas, para além do treino específico da modalidade, recebiam 2-3 estímulos de treino de força (variando entre qualidades de força máxima, resistência de força e potência) de acordo com a caracterização do microciclo, sempre com respeito a progressão da competência de movimento, identificação de necessidades individualizadas, gestão da carga de treino (nomeadamente através do volume total) e principalmente as necessidades específicas da modalidade e as constrições do calendário competitivo. Veja na figura 2 um exemplo de construção de planificação semanal, nomeadamente no desenvolvimento das qualidades físicas.

Figura 2 Exemplo para a organização semanal (1 Jogo) dos conteúdos físicos de treinamento para atletas em formação (>U15-U20). *Sessões programas em períodos opostos ao treino de campo quando possível.

Em resumo quando consideramos programas de formação de atletas, busca-se que essa formação seja integral, não negando ao atleta a participação em treinos com diferentes orientações e diferentes direções de treinamento, não apenas com treinos específicos, mas também treinos mais generalistas integrados ao programa de treinamento de futebol, onde a preocupação passa por desenvolver e potencializar o atleta, não apenas o jogador de futebol.

Referências

Carling C, Le Gall F, Malina RM. Body size, skeletal maturity, and functional characteristics of elite academy soccer players on entry between 1992 and 2003. J Sports Sci. 2012;30(15):1683-93. doi: 10.1080/02640414.2011.637950. Epub 2012 Jan 31. PMID: 22292471.

Clemente FM, Afonso J, Sarmento H (2021) Small-sided games: An umbrella review of systematic reviews and meta-analyses. PLoS ONE 16(2): e0247067. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0247067

Meyers RW, Oliver JL, Hughes MG, Lloyd RS, Cronin JB. Influence of Age, Maturity, and Body Size on the Spatiotemporal Determinants of Maximal Sprint Speed in Boys. J Strength Cond Res. 2017 Apr;31(4):1009-1016. doi: 10.1519/JSC.0000000000001310. PMID: 26694506.

Lloyd RS, Radnor JM, De Ste Croix MB, Cronin JB, Oliver JL. Changes in Sprint and Jump Performances After Traditional, Plyometric, and Combined Resistance Training in Male Youth Pre- and Post-Peak Height Velocity. J Strength Cond Res. 2016 May;30(5):1239-47. doi: 10.1519/JSC.0000000000001216. PMID: 26422612.

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A polêmica criação da Superliga Europeia e seus entraves legais e morais

No dia 18/04/2021, o mundo do futebol foi surpreendido com a notícia de que 12 (doze) dos principais clubes da Europa se uniram para criar uma competição, a chamada Superliga Europeia.

AC Milan, Arsenal FC, Atlético de Madrid, Chelsea FC, FC Barcelona, FC Internazionale Milano, Juventus FC, Liverpool FC, Mancheser City, Manchester United, Real Madrid CF e Tottenham Hotspur seriam os clubes fundadores desta nova competição. Contudo, até a redação deste artigo, apenas Real Madrid e Barcelona resistem oficialmente à continuidade do projeto.

De acordo com o anúncio, a Superliga está sendo criada em um momento no qual a pandemia global acelerou a instabilidade no modelo econômico atual do futebol europeu, sendo alegado que, por anos, os clubes fundadores têm tido o objetivo de melhorar a qualidade e intensidade das competições europeias e de criar um formato para que os principais clubes e jogadores pudessem competir com regularidade, o que proporcionaria um crescimento econômico significativamente maior do que com o atual modelo da Champions League.

Diferentemente da Champions League, principal campeonato do futebol europeu e um dos principais do mundo, a Superliga possui poucos critérios esportivos para definição dos participantes, sem um sistema de rebaixamento para divisões inferiores, em que os clubes fundadores teriam “vagas eternas” no campeonato, não podendo ser rebaixados, o que vai totalmente de encontro, contrariamente à prática futebolística profissional em quase todos os países afiliados à FIFA.

Não é de assustar que o anúncio da criação da Superliga irritou a UEFA, a qual já se posicionou oficialmente contra o projeto, assim como várias Federações Nacionais. Em nota oficial, a UEFA, organizadora da Champions, principal concorrente da Superliga, declarou que espera que não seja dado seguimento ao projeto de criação deste novo campeonato, afirmando que a Superliga trata-se de um projeto cínico e que visa privilegiar o interesse particular das equipes envolvidas, justamente em um momento que a sociedade precisa de solidariedade, declarando, ainda, que pretende tomar as medidas cabíveis para impedir a criação do campeonato.

Mas afinal de contas, os gigantes da Europa podem criar um campeonato de futebol?

A FIFA afirmou que “só pode desaprovar uma Liga Europeia fechada e dissidente fora das estruturas do futebol” e que está “firmemente posicionada em favor da solidariedade no futebol e de um modelo de redistribuição justo”. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, reprovou fortemente a criação de uma superliga fechada, afirmando que “está fora do sistema e que é uma ruptura em relação às federações, à FIFA, à UEFA e demais instituições”.

A UEFA ameaçou punir os clubes envolvidos na Superliga, tanto esportivamente quanto judicialmente, assim como com o banimento das competições nacionais e internacionais, além da proibição dos jogadores desses times defenderem as suas respectivas seleções.

Alguns governos europeus também se posicionaram contra a criação da Superliga. O governo do Reino Unido, por exemplo, ameaçou até criar impostos aos clubes ingleses que estariam entre os fundadores da competição.

Com base no julgamento de casos parecidos nos Tribunais Europeus, que discutem monopólio, a livre concorrência e as regras de participação em campeonatos, a Superliga poderá ser legalmente praticável, desde que esteja em conformidade com o direito europeu de concorrência e com as estruturas do futebol.

Caso a nova competição não esteja em conformidade com o direito europeu da concorrência, os outros clubes poderão iniciar um batalha jurídica para que a Superliga não possa ser oficializada.

O que estaria realmente em jogo seria a questão moral na criação deste novo campeonato. Não é razoável criar uma liga apenas com fins econômicos, sem critérios desportivos básicos, que poderá impactar negativamente toda a estrutura do futebol europeu e do mundo, até mesmo a carreira dos jogadores.

Até o momento, a possibilidade de cooperação entre este novo campeonato e os outros torneios nacionais e internacionais e as principais organizações desportivas é mínima, quase nula, o que bem provavelmente irá ocasionar a ruína da Superliga.

A verdade é que a repercussão negativa da criação da Superliga, não apenas entre a UEFA e outros campeonatos europeus importantes, mas entre os torcedores e a grande mídia, esfriou o sonho dos clubes fundadores.

A briga entre a Superliga e os outros principais campeonatos europeus pode até parecer interessante em um primeiro momento, mas a longo prazo, poderá fazer com que os clássicos entre os gigantes, que hoje é considerado um duelo especial e que atrais os olhares e fascina todos os amantes do futebol, algo monótono e recorrente, tirando toda a magia dos clássicos, além do grande impacto financeiro negativo.

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Estruturas pedagógicas informais e a formação do futebol na história

O pontapé inicial será junto ao do futebol na sua fase moderna, isto é, na segunda metade do século XIX quando suas regras foram padronizadas, permitindo a realização das primeiras competições em âmbito nacional e no primeiro momento em um âmbito legal o rompimento brusco com o rúgbi.

O futebol até a segunda metade do século XIX era “um arranjo de códigos tribais mais ou menos semelhantes preferidos pelas diferentes escolas públicas” (Giulianotti, 2002). Foi primeiro com a fundação da Football Association (FA) em 1863 e posteriormente com o rompimento institucional com o rúgbi em 1871 e a fundação da Rugby Football Union que o futebol toma uma forma reconhecível com o quê conhecemos hoje.

A partir da década de 1870 as instituições de ensino começaram a dar espaço para clubes formados também por comunidades religiosas, associações de classe média e operárias. É importante lembrar que se trata de um período em que o Império Britânico era aquele que “nunca dormia”, tão vasta era suas dimensões, com territórios em todos os cantos do planeta. Sem o poderio dos britânicos, é difícil imaginar o futebol alcançando o mundo inteiro no século XIX e se consolidando, afinal os ingleses não dominavam apenas territorialmente, mas também através da cultura. Entender isso é fundamental para perceber um papel cultural dos clubes aristocratas ingleses.

Retornando mais uma vez ao Giulianotti, ele aponta o zelo missionário de Charles W. Alcock, secretário da FA por 25 anos. Com ele, o “jogo do drible” foi introduzido por toda a Grã-Bretanha. O drible faz referência ao dribble em inglês, que faz referência mais à condução da bola do que a algum tipo de truque com a bola para superar adversários.

A ideia de jogo era que o jogador em posse da bola a conduzisse o máximo possível para frente, com o passe sendo a última alternativa. Assim também eram as regras na Inglaterra; a regra 6, precursora da lei do impedimento, até 1866 só permitia passes para os lados e para trás. Em 1866 foi introduzido o impedimento mais similar ao atual, mas com 3 jogadores ao invés de 2 para dar condição. Conduzir solitariamente, encarando os vários adversários era sinal de masculinidade, qualquer ideia relacionada à defesa e a passe era considerada subalterna e afeminada.

Nas escolas públicas, espaços de educação formal reservado às elites, eram repreendidos aqueles que raciocinavam demais. Jogar futebol era abaixar a cabeça e correr para frente.

“Um jogador de primeira classe (…) jamais perderia a bola de vista, ao mesmo tempo mantendo sua atenção dedicada a vislumbrar os espaços nas linhas inimigas, ou qualquer ponto fraco na defesa que possa dar a ele uma chance favorável de chegar ao cobiçado gol adversário.” (The Times, 1870)

Junta-se a isso às ideias de Muscular Christianity, originário da Inglaterra no mesmo século XIX e que reforçava o patriotismo, disciplina, masculinidade e beleza através do atletismo, com o objetivo de controle total do corpo dos garotos.  Acreditava-se até que a prática dos esportes impediria os jovens de “se tocarem”.

Era um jogo extremamente físico, um kick and rush puro, repleto de duelos individuais que exigiam muita força, resistência e velocidade. A valorização da vitória do indivíduo. Essa era a base da estética aristocrática do Império Britânico: o homem britânico superior. Quando um clube aristocrático derrotava um clube operário era uma forma de defender os valores da elite, e quando um time inglês derrotava algum estrangeiro em alguma excursão, era a vitória do Império, reforçando para o resto do mundo a superioridade física e de valores dos ingleses. Através do futebol tinha-se a “reprodução da estrutura das relações de força e das relações simbólicas entre as classes” (Bourdieu, 1982).

***

Este sistema pedagógico informal – vamos assim chamar – não era o único na Grã-Bretanha, apesar de ser o de maior predominância por uma relação de poderes entre classes. Podemos fazer uma divisão entre as regiões de predomínio de cada sistema. No sul, próximo da capital Londres e onde havia maior concentração dos poderes e de escolas públicas, o predomínio era deste sistema já visto. Ao norte, e em especial na Escócia, onde se concentravam cidades industriais e por consequência, muitos operários, marinheiros e trabalhadores livres, as realidades eram outras.

Os trabalhadores jogavam o jogo que Kant poderia chamar de desinteressado, ou seja, ao contrário dos homens da religião e aristocratas, a classe operária não se preocupava em – intencionalmente – passar conjunto de valores adiante que fugissem do âmbito do jogo. De certa forma era o jogo mais lúdico, que se preocupa com as preocupações de jogo. Em seus momentos de folga no trabalho, queria jogar e óbvio, ganhar seus jogos assim como os aristocratas também queriam ganhar, mas sem se preocuparem em propagarem valores através do jogo.

Daí surgem as primeiras táticas; não só os primeiros esboços para esquemas táticos diferentes (saindo do 1-1-2-7 para 1-2-2-6 e 1-2-3-5) mas também a preocupação em técnicas e movimentos táticos que buscassem melhorar o rendimento da equipe visando a vitória. Surgiu o jogo do passe, em contraste ao jogo do drible (ou jogo da condução), com jogadores buscando se aproximarem para fazerem um jogo associativo.

Os jogos de futebol entre os trabalhadores eram o momento do ócio. Não entenda este momento um simples “não fazer nada”, associando-o à vadiagem. O ócio é o momento do fazer nada, mas que é também fértil para reflexão e criação, ou lembrando Luiz Antônio Simas, um momento de síncope; quando há uma quebra repentina de ritmo, para então recomeçar a batucada, em outro ritmo. Muitas formas de interpretar o mundo e de se organizar (como o surgimento de sindicatos) surgiram com uma bola sendo a razão das pessoas se juntarem.

Não é de se estranhar que deste meio venha o jogo do passe e em contrapartida o jogo da condução tenha também sua origem distinta. Em ambos os casos, suas condições materiais de existência fomentavam um determinado habitus, isto é, “esquemas de percepção, apreciação, e ação adquiridos pela prática e colocados em obra no estado prático” (Bourdieu, 1972). A internalização e naturalização de símbolos implica em entendermos que a cultura é mais do que um reflexo mistificado e abstrato da realidade material, mas também instância constituinte da realidade. O habitus é, portanto, “necessidade feita virtude” (Bourdieu, 1972).

Na Escócia as regras permitiam desde muito cedo os passes sejam para onde fossem. O impedimento no início já considerava dois adversários como estamos habituados, mas somente era impedimento nos últimos 15 metros do campo de ataque. A primeira partida entre as seleções de Inglaterra e Escócia aconteceu em 1872 em Londres, os escoceses já eram familiarizados com o jogo do passe. Assim, dominaram os ingleses nos primeiros anos do confronto, com 10 vitórias e apenas 2 derrotas nos primeiros 16 jogos. Depois o profissionalismo foi tomando forma, jogadores escoceses iam jogar na Inglaterra e os ingleses foram se adaptando – ao menos parcialmente – ao jogo do passe e começou a ser dominante nos confrontos contra os escoceses. Um pouco disso é visto na série The English Game, disponível na Netflix.

Até hoje estruturas pedagógicas informais formam os mais variados jogadores, que ao mesmo tempo que preservam suas individualidades e maneiras próprias de interpretar o seu entorno, o fazem a partir de um conjunto de relações, com cultura própria. O futebol é um fenômeno que não permite a ausência de significados, às vezes eles estão explícitos e podem gerar simpatia ou repulsa, outras vezes estão em um simples passe ou drible, mas estão lá.

Bibliografia

Bourdieu, P. (1972). Esquise d’une théorie de la pratique. Genêve: Droz.

Bourdieu, P. (1982). A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva.

Giulianotti, R. (2002). Sociologia do futebol: dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo: Nova Alexandria.

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Sobre os ricos e os riscos de um futebol líquido

Crédito imagem – Reprodução

Causou bastante alvoroço quando, no último domingo, doze dos auto-intitulados grandes clubes da Europa anunciaram a criação de uma Super Liga, com participantes fixos (portanto, sem acesso nem rebaixamento), a ser iniciada tão breve quanto possível. A criação dessa nova liga significa, por exemplo, o automático desligamento desses clubes da UEFA Champions League. Tenho certeza de que vocês leram muitas coisas sobre isso desde então, de um modo que eu não preciso entrar em muito mais detalhes de um ponto de vista informativo.

O que de fato gostaria de fazer é pensar com vocês em que medida nós, profissionais do futebol, podemos lidar com as mudanças de hoje e com as mudanças que se avizinham. Embora não seja exatamente uma novidade, é importante considerarmos que a tendência, nos próximos anos, é que os profissionais do futebol tenhamos cada vez menos voz. Posso estar errado, mas imagino que isso acontecerá a partir da premissa contrária, ou seja, os espaços de reflexão e de fala de atletas, treinadores, gestores e etc podem até aumentar (muito pelas novas formas de comunicação que haverá nos próximos anos), mas essa será apenas uma forma de maquiar que a real tomada de decisão levará cada vez menos em conta o bem-estar do jogo e dos seus profissionais: o mais provável é que sejamos cada vez mais um meio a partir do qual investimentos são aplicados e recuperados. Os vínculos humanos, por exemplo, são cada vez mais um problemas. Em outras palavras, trata-se de um claro processo de desumanização.

Quando penso nessas coisas, não deixo de considerar a grande influência que recebi, ainda nos meus primeiros anos de formação, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Bauman é um sujeito que me foi importante enquanto eu ainda engatinhava numa tentativa de saber mais do que apenas futebol. Foi por ele que pude pensar, por exemplo, sobre esse caráter líquido da modernidade, que se caracteriza por um tempo em que nada é feito para durar muito. Não é preciso irmos muito longe para perceber como isso pode se refletir no jogo jogado: nossos vínculos profissionais são bem mais efêmeros do que já foram (e o mercado de treinadores ilustra isso bem), a meia-vida estratégica das nossas equipes parece cada vez mais curta (porque a circulação das informações pela internet faz com que os padrões das nossas equipes sejam ainda mais identificáveis) e mesmo a nossa própria formação está sempre sob ameaça, de um modo que estamos constantemente nos pressionando para saber cada vez mais (porque os saberes que sabemos nunca são suficientes). E é claro que o mesmo se sucede com as relações humanas, que também não são feitas para durar. Embora sejamos conhecidos de muita gente pelas redes sociais, não estamos necessariamente mais próximos uns dos outros. Na verdade, a impressão é que as relações não apenas estão se fragilizando, como estão se tornando empecilhos, de um modo que lidar com o outro, especialmente aquele que nos incomoda (como incomoda, por exemplo, a existência dos clubes pequenos), é uma tarefa da qual fugimos cada vez mais.

Sobre essa dificuldade na lida com o outro, Bauman escreve o seguinte, no seu clássico livro Amor Líquido:

“O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais frequentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida – ao contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar. Os contatos também exigem menos tempo e menos esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A distância não é obstáculo para se entrar em contato – mas entrar em contato não é obstáculo para se permanecer à parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de um botão.”

Não deixa de ser um exemplo muito simbólico sobre o que se passa nessa conversa da Super Liga. Quando pegamos a entrevista de um Florentino Pérez, por exemplo, cuja noção de solidariedade parece que passa por considerar a compra de atletas para clubes médios e pequenos, fica bastante claro que a criação de uma outra liga é como o mero apertar de um botão, um movimento destituído de compromissos sociais mais amplos, e obviamente muito mais preocupado com interesses particulares. Florentino fala do novo brinquedo como um adolescente falaria da nova namoradinha virtual – sem qualquer preocupação com os sentimentos da anterior. Quando vemos a postura dos clubes alemães, desde a divulgação da notícia, que em uníssono dizem não à nova liga, parece que temos uma conversa diferente. É claro que não seremos ingênuos de achar que a postura dos alemães é apenas e tão somente solidária, mas também não podemos ignorar que eles parecem considerar outras variáveis que não apenas a flutuação das ações na bolsa.

Mas reparem que todos esses movimentos, dos quais estamos falando, não estão à parte, mas na base do jogo jogado. Não é por um acaso que normalizamos a busca desenfreada pela intensidade, que o tempo-espaço do portador da bola parece cada vez menor, não é por acaso que a posição foi se dissolvendo no sentido da função, não é por acaso que os sistemas táticos, que por muito tempo foram vistos como sinônimos de tática, hoje são apenas números de telefone – e logo serão ainda menos. Quando escrevi, no início de 2020, sobre isso que se chama de futebol moderno, defendi que ele passa por pelo menos duas características básicas. A primeira, que não é bem o nosso ponto aqui, é um jogo de palavras – o futebol moderno tem uma novilíngua, que se apresenta menos como alternativa do que como obrigação. Mas a segunda característica, essa sim mais relacionada com o que estamos falando, tem a ver com uma nítida dissolução de fronteiras: o que o futebol moderno escancara é o sumiço das margens que separavam, por exemplo uma posição da outra, uma função da outra, que separavam defesa, ataque e transições, que separavam os saberes de cada membro da comissão, enfim… as fronteiras que deixavam mais claro o lugar de uma coisa e de outra no jogo jogado foram se dissolvendo – da mesma forma como se dissolveram as fronteiras do mundo nessa revolução tecnológica que vivemos hoje em dia.

De modo que não será uma surpresa se o futebol do futuro se tornar um tipo de futebol em que o sólido vai se desmanchando ainda mais em favor do líquido – talvez do vapor. O que, evidentemente, também nos exige uma resposta. E que pode ser – considerando que as megaligas serão privilégio de poucos – tanto passiva quanto subversiva.

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Jogar futebol sem a bola

Crédito imagem: Lucas Figueiredo/CBF

Não me canso de falar de cultura, ambiente e contexto ao analisar futebol. A intervenção de uma comissão técnica, por exemplo, deve ponderar sobre tudo que circunda determinado clube para ser mais eficaz. E pesam, também, conceitos macro. O que está por trás do jogar de determinado país?! Como o futebol foi praticado até então?! O que está enraizado na cultura, no inconsciente coletivo?

Quero trazer essa discussão para o futebol brasileiro sob a ótica do jogador sem a bola. Tanto defensiva como ofensivamente. Já ouvi de vários técnicos a dificuldade em implementar sistemas mais complexos de jogo pela falta de entendimento e  vontade dos nossos atletas em atuarem distantes do centro de jogo. A explicação mais palpável para mim vem da cultura. Isso porque esses mesmos jogadores quando vão para a Europa cumprem papéis táticos muito bem definidos. Mas aqui são engolidos pelo contexto.

O contexto histórico é muito importante para entendermos o presente e projetarmos o futuro: o jogo se desenvolveu no Brasil pautado na individualidade. O bom jogador era aquele que driblava muitos adversários. O bom treinador era aquele que não ‘atrapalhava’ o talento. E isso está enraizado até hoje. Aparece nas crianças que brincam na rua e na escola. Nos adolescentes que jogam nas categorias de base. Até no cenário profissional há  uma complacência dos próprios companheiros com aquele jogador mais habilidoso, liberando-o de atividades mais intensas de marcação. E claro que esse cenário todo desemboca na forma de o torcedor enxergar o jogo e até na maneira com que a imprensa retrata os acontecimentos.

Sei que uma cultura não se muda da noite para o dia. Leva-se anos, décadas, gerações. E vejo boas sementes sendo plantadas por aqui. Espero muito em breve ver jogadores habilidosos satisfeitos por participar de um gol, mesmo não tocando na bola, apenas guardando uma posição para atrair a atenção da marcação adversária, gerando espaço para outros companheiros. Ou então esse mesmo jogador fechando uma linha de passe quando está sem a bola, e até recompondo um setor do campo para impedir a progressão do rival. Quanto não ganharíamos com essas situações?! Quanto não seria benéfico a quebra do dogma de que se um atacante voltar para marcar ele não teria ‘força’ (?) para cumprir suas obrigações ofensivas…evolução é tudo! O mundo mudou e, claro, o futebol também. Que nossa cultura seja preservada. Sempre. Mas evoluindo para sermos mais eficazes, abandonando aquilo que não nos aproxima mais da vitória.

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A importância da avaliação inicial para o planejamento no futebol de formação

A Avaliação Inicial é a fase mais embrionária da temporada. Este momento tem especial importância no momento do início de um novo trabalho, e quando um grupo recebe novos elementos, quer venham de outra categoria ou de outro clube. Principalmente quando tratamos de categorias de base, onde ainda existem grandes diferenças de nível de jogo entre os jogadores e também grandes alterações do ponto de vista maturacional.

A Avaliação Inicial tem como principal objetivo compreender o que os jogadores conseguem executar e o seu entendimento do jogo.

Neste momento da temporada, o mais recomendado são tarefas e exercícios com menor complexidade, onde o foco está em evidenciar aspectos individuais de relação com a bola e comportamentos do jogo de forma mais isolada, além de realizar “jogos livres/formal” de acordo com a quantidade de alunos disponíveis. Este é também um momento em que, em maior proporção em relação ao que acontece na maior parte da temporada, o que se procura são sinais dos jogadores para o treinador, em detrimento de grandes instruções do treinador para os jogadores.


Como referido anteriormente, este é um momento em que o treinador observa o que os jogadores já sabem fazer, não é propriamente um momento aquisitivo (ainda que inevitavelmente os jogadores poderão evoluir). Como tal, quem tem de nos dar informações são os jogadores.

Observamos a realização dos exercícios, vamos orientando, mas se constatamos uma sucessão de erros com a mesma origem e o erro persiste mesmo depois da intervenção, isto é um alerta.

Está ali identificada uma falha que é preciso trabalhar. Depois de reunir todas essas informações, temos vários pontos de partida para começar a delinear o planejamento segundo as necessidades dos jogadores.

O treinador não deveria instruir os jogadores sem saber as suas carências/necessidades assim como um médico não pode medicar um paciente sem saber do que este sofre, primeiro o médico tem de proceder a alguns exames iniciais para, depois de ter toda essa informação reunida, prescrever a medicação necessária para o seu tratamento.

E você, como inicia os trabalhos com um novo jogador/time?