Categorias
Sem categoria

Caminhando para uma Teoria da Tecnologia Esportiva

 

Olá amigos. No último texto falando sobre a análise do técnico, voltamos a tocar no ponto da tecnologia a serviço do futebol.

Sabemos que muitos pontos devem ser observados à luz desse tema. Existe uma lacuna de estudos que pode servir de subsídio para uma Teoria da Tecnologia Esportiva.

E antes que alguns se apeguem ao termo “teoria”, explico que seu uso vem da necessidade de um conhecimento consolidado, aplicado ao futebol, que seja capaz de determinar os limites, usos e atribuições da tecnologia. Uma teoria no sentido de desmistificar e evitar que se tome o gato pela lebre.

No futebol, e não exclusivamente nele, quando surgem mudanças, elas não acontecem em bela e harmoniosa calmaria. Surgem em meio a tempestades e trovoadas. São mudanças de paradigmas. E, a cada mudança, a zona de conforto de quem está envolvido com o meio é afetada, e, em conseqüência disso, vêm as polêmicas e crises seguidas de adaptações e evolução.

Por meio de alguns e-mails recebidos ao longo da última semana, estabelecemos, junto a alguns amigos, um debate sobre o papel da tecnologia no futebol. Em síntese, dois focos:

1.    A tecnologia é entendida como aspecto importante e necessário ao futebol atual

2.    Existe uma série de aspectos que devem ser considerados no futebol que determinam o resultado e a tecnologia não pode ser o aspecto central

Acredito que ambas são opiniões que se complementam e caracterizam um ponto de compreensão para a tecnologia a serviço do futebol.

Um dos amigos, Ronald de Carvalho, tratou desses dois aspetos de uma forma que resume essa sincronia existente entre eles. Defendendo a qualidade e a importância que podem adquirir no papel do técnico, aponta como ressalva que o técnico  de qualidade “é aquele que sabe treinar uma equipe. Que escolhe bem seus jogadores dentro do elenco. Que retira de cada um deles, somente aquilo que eles realmente podem dar. Nem mais, nem menos. Que potencializa as qualidades de cada jogador, minimizando seus defeitos na organização coletiva de sua equipe. Que vê as falhas da sua equipe durante um jogo e tenta corrigi-las no seu desenrolar”.

Quando defendo a ciência e a tecnologia, estou ciente que ambas, por si só, não resolverão, assim como creio que a resistência que o futebol coloca sobre elas, sob a justificativa de sua imprevisibilidade ou de outras variáveis, são errôneas.

Concordo que saber montar um elenco, saber conduzi-lo sobre todos os aspectos é uma virtude que deve ser destacada. O que defendo e acredito é que todo detalhe pode fazer diferença em busca do resultado. E a ciência, seja ela exata ou não, porque em seu seio ela é por si mesmo falha, a ciência é uma verdade em busca de ser falseada.

Nessa teia complexa de fatores que influenciam o resultado do jogo, o menosprezo de boa parte dos envolvidos com o futebol é que incomoda. Porém, também vejo  culpa naqueles que defendem e pintam a ciência como salvadora do futebol. Afinal, o futebol não depende da ciência, e esse pensamento acaba corroborando para aumentar ainda mais o preconceito, seja por criar expectativa exagerada do que ela realmente é capaz ou por gerar desconfiança. Mas, a ciência e a tecnologia podem contribuir e muito com o futebol, desde que entendidas sobre suas reais atribuições.

Com base nesses dois pontos tentarei desenvolver uma sequência de textos nas próximas colunas que abordem um pouco essa questão, caminhando para uma Teoria da Tecnologia Esportiva, pensando muito mais em levantar aspectos de debates a luz de algumas experiências e observações, compartilhando com todos a postura frente à tecnologia que acredito necessária ao profissional moderno. Buscando identificar quais competências e habilidades devem ser desenvolvidas sobre a questão da tecnologia.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

 

Categorias
Conteúdo Udof>Grupos de Estudos>Gief|Sem categoria

O futebol: “veneno remédio” do Brasil

Se compararmos o cenário editorial atual ao de vinte anos atrás, podemos dizer sem grandes riscos de equívoco que são cada vez mais recorrentes, quantitativa e qualitativamente, as publicações que se apresentam para ter o futebol como seu principal mote. Contudo, grande parte dessas obras contém, como sendo sua razão de ser, uma interpretação de questões, digamos, adjacentes ao futebol ou à sociedade brasileira, sendo raros os que, com o devido vigor que o tema exige, abarcam tanto questões contextuais quanto análises referentes às especificidades dos modos de se jogar futebol.
 
Pois é essa a proposta do ensaio “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, de autoria de José Miguel Wisnik, publicado pela Companhia das Letras (2008). O autor, conhecido musicista e linguista, envereda pelo universo do futebol sem abandonar o campo que lhe consagrou, estabelecendo uma relação entre futebol, música e literatura com a propriedade e o sucesso de poucos. Assim, mantendo constante interação com as perspectivas metodológicas e interpretativas que são recorrentes na música e nas letras, sem, contudo, limitar-se a elas, Wisnik relaciona Machado de Assis com Pelé, envereda em elucubrações acerca das primeiras práticas do “esporte-bretão” em terras brasileiras, trata da propagação da prática do esporte nas primeiras décadas do século XX, e das várias participações brasileiras em Copas.
 
Ao tratar do trauma da Copa de 50, por exemplo, realizando o esmiúce da letra de “Touradas em Madri” (“delírio eufórico absoluto (p. 254)”, entoado na sonora vitória sobre a Espanha, por 6 a 1, por sinal última vitória antes da derrota para o Uruguai na final), e tratando dos elementos simbólicos, de dimensões psicológicas inclusive, que estavam postos nos jogos e na relação que a torcida brasileira estabeleceu com aquela equipe (digo eu, aqui, “torcida brasileira de um modo genérico”), Wisnik nos aponta que:
 
Esse fato [o empate do Uruguai na final], que garantia ainda ao Brasil um resultado favorável, é vivido, no entanto, como um desabamento surdo que desvela o inacreditável: o Outro existe. A situação é um momento emblemático de uma vicissitude do veneno remédio brasileiro: o outro, que subsiste tão naturalmente quando objeto de apropriação e paródia – vide as “Touradas em Madri” – existe com dificuldade quando reverte como limite (p. 261).
 
O mesmo apuro no discurso se faz presente em outros tantos relatos sobre as participações do Brasil em Copas: a redenção que a Copa de 58 veio a ser, o apogeu do estilo “poético” do time de 1970, as outras singularidades de outros títulos e de outras derrotas, e como estiveram envolvidos nessas tantas histórias jogadores, técnicos, torcida, imprensa, e nação brasileira como unidade.
 
Pois bem, até aqui, nada de muito diferente dos outros ensaios que foram feitos, fosse numa perspectiva sociológica ou não, com a pretensão de discutir as repercussões do futebol na sociedade brasileira, ou ainda sobre o jeito de se do povo brasileiro. O título do livro, por exemplo, remete-nos ao homem cordial que nos foi apresentado por Sérgio Buarque de Holanda, aquele que estabelecia uma relação entre público e privado sem separações rígidas, atrelando méritos e deméritos ao homem brasileiro, assim, sem uma escala precisa de medição sobre o começo de um e o término de outro. O que surge como diferencial nesse ensaio de Wisnik é a disposição em, mais do que discutir o racismo no futebol, as questões de gênero, a violência nos estádios, as nuances dos que operam nas instâncias superiores do poder, mais do que apresentar versões categóricas do porque o futebol ter se constituído e permanecer como um importante elo de identificação do brasileiro para com sua nação, seu diferencial consiste em propor uma discussão rara em grupos acadêmicos que se dispõem, de um modo mais ou menos intenso, em recorrer ao futebol em suas analises: tratar dos elementos técnicos próprios do jogo, que além de serem passíveis de análise (diferente, que fique claro, daquelas que nos são apresentadas por alguns veículos de comunicação antes, no intervalo ou após os jogos), são um dos grandes responsáveis pelo elevado grau de popularidade que a prática do futebol tem no mundo.
 
Sobre o componente bola, por exemplo, nos diz Wisnik:
 
O poder de irradiação do futebol é impensável sem uma fenomenologia da bola: esse objeto distinto de todos os outros (…), que rola e quiçá como se animado por uma força interna, projetável e abraçável como nenhum. A bola é redonda – não há como recuar diante da mais rotunda das obviedades. Ao contrário, é preciso redescobrir esse fato espantoso, que a distingue de todo o resto (pp. 57-58).
 
As considerações de ordem técnica se dão, também, no que tange às especificidades do futebol em contraste com outros esportes. Para exemplificar, surge-nos como justificativa a tal perspectiva a relação tempo-espacial que seria própria do futebol: as ações que não são absolutamente objetivas não decorrem necessariamente em prejuízo ao seu executor – caso do drible, por exemplo, que pode inclusive ser um importante elemento para desestabilização, senão explícita, implícita do adversário – enquanto que em outros esportes coletivos, uma prática “sem objetividade” como o drible decorre, necessariamente, perdas à equipe.
 
Outro exemplo, dos muitos do livro, sobre peculiaridades do futebol, seria o alto teor subjetivo concedido aos juízes, a quem cabe o veredicto se a bola ultrapassou toda a linha do gol ou não, se tal jogador tocou com a mão na bola intencionalmente ou não, se houve intenção de falta do zagueiro ou o mesmo apenas “foi na bola”.
 
Evocações a Pasolini, a Gilberto Freyre e às letras de música e textos de Chico Buarque também são feitas. Esse livro não deixa de ser uma declaração apaixonada de um torcedor de futebol – e não embuto nenhuma carga pejorativa quando faço tal constatação. Talvez um ponto não muito interessante seja que a classificação ensaio permita uma postura perigosamente conveniente para que o autor se esquive de discussões mais ardilosas (caso da presença dos negros no futebol, por exemplo, que é elogiada em boa parte da obra, mas quando emerge a possibilidade de uma perspectiva racialista ser problematizada, ela não o é).
 
Para encerrar, digo que um dos méritos do autor foi apresentar um pequeno memorial seu, logo ao início do livro, declarando sua relação visceral com o futebol, e explicitando ao leitor sobre onde é o ponto em que ele se situa para fazer suas observações.
 
É digna de reverência tal atitude, pois não escamoteia a parcialidade que é própria de alguns que se dispõem sobre seus objetos de análise e que, não percebendo – ou não querendo declarar – a parcialidade que é inalienável da condição humana, evocam o verniz da imparcialidade científica, fazendo com que esta se torne, em vez de vantagem, um calcanhar-de-aquiles de insuficientes análises. “Veneno remédio” esta à margem disso; os interessados por futebol e por discursos sofisticados agradecem.
 
Bibliografia
 
WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Categorias
Sem categoria

A função da imprensa

Pelé disse que não falou aquilo. Robinho disse que tudo bem. E a imprensa no mundo todo noticiou a “reconciliação” entre o Rei do Futebol e seu súdito mais notório, pelo menos dentro da Vila Belmiro.

Na semana passada, uma troca de farpas entre Pelé e Robinho ocupou boa parte do noticiário em todo o mundo. Tudo porque, numa palestra, o ex-camisa 10 do Santos deu a entender que Robinho teria feito uso de drogas e, com isso, manchado a sua imagem.

O ex-número 7 do mesmo Santos ameaçou processar Pelé num texto publicado em seu site oficial. Depois da repercussão do episódio, que forçou o Rei a cancelar um evento (com a devida cobertura da imprensa) que teria com o presidente mundial da Puma, o recuo veio na mais manjada das desculpas:

Não foi bem aquilo que eu disse. A imprensa deturpou o que eu falei”…

Menos, Pelé, menos. Não só porque o seu passado de frases antológicas o condena, mas porque você, mais do que ninguém, tem de saber muito bem qual a função da imprensa no cotidiano de um esportista, ainda mais alguém tão famoso quanto Pelé.

Qualquer evento que tenha Pelé terá a presença de pelo menos um representante da mídia. E qualquer frase que ele disser será estampada nos jornais, sites, revistas, canais de TV, emissoras de rádio, sinais de fumaça ou qualquer outro meio de comunicação existente.

Porque Pelé é notícia. Em qualquer circunstância. Por isso mesmo ele deve ter dito o que disseram que ele disse na semana passada. E depois quis jogar a culpa na imprensa “sensacionalista”, que busca sempre “vender jornal”.

Ora, a essência do ser humano é sempre retratar aquilo que foge do comum quando encontra um conhecido. No caso de vermos um acidente na rua, logo saímos contando, nos mínimos detalhes, aquele fato que nos tirou do cotidiano.

A imprensa é o termômetro disso. É a fuga do cotidiano repetitivo das pessoas. E, para alguém como Pelé, ou mesmo Robinho, qualquer deslize pode ser “fatal”.

Não cola mais dizer que a imprensa deturpou uma frase, colocou-a fora do contexto ou qualquer coisa do gênero. Não porque de uma hora para outra a mídia se tornou o exemplo mais bem acabado de racionalidade e correção. Muito pelo contrário. Porque Pelé já sabe há 50 anos o que é ser o alvo da mídia durante 150% do seu tempo.

O esporte tem de saber começar a usar a imprensa a seu favor, em vez de criticá-la depois de uma frase fora do eixo ou de um comportamento infeliz. Se não for a mídia dando atenção para um atleta ou uma modalidade, muitas vezes o ostracismo chega para engoli-los. 

Com um pouco de preparo e muita atenção nos atos e frases, Pelé não correria nunca o problema de ter de desmentir algo que fez. Pelo contrário, sempre seria visto como uma pessoa infalível, ganhando ainda mais poder de barganha em diversas coisas que faz.

Robinho poderia, por exemplo, aprender com atos bonitos do maior ídolo do futebol mundial. E não sair facilmente transferindo a culpa para a “imprensa”, como se não fosse também dela uma parte da responsabilidade do grande sucesso que essas duas figuras tiveram.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Conteúdo Udof>Grupos de Estudos>Gief

O futebol: "veneno remédio" do Brasil

Se compararmos o cenário editorial atual ao de vinte anos atrás, podemos dizer sem grandes riscos de equívoco que são cada vez mais recorrentes, quantitativa e qualitativamente, as publicações que se apresentam para ter o futebol como seu principal mote. Contudo, grande parte dessas obras contém, como sendo sua razão de ser, uma interpretação de questões, digamos, adjacentes ao futebol ou à sociedade brasileira, sendo raros os que, com o devido vigor que o tema exige, abarcam tanto questões contextuais quanto análises referentes às especificidades dos modos de se jogar futebol.
 
Pois é essa a proposta do ensaio “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, de autoria de José Miguel Wisnik, publicado pela Companhia das Letras (2008). O autor, conhecido musicista e linguista, envereda pelo universo do futebol sem abandonar o campo que lhe consagrou, estabelecendo uma relação entre futebol, música e literatura com a propriedade e o sucesso de poucos. Assim, mantendo constante interação com as perspectivas metodológicas e interpretativas que são recorrentes na música e nas letras, sem, contudo, limitar-se a elas, Wisnik relaciona Machado de Assis com Pelé, envereda em elucubrações acerca das primeiras práticas do “esporte-bretão” em terras brasileiras, trata da propagação da prática do esporte nas primeiras décadas do século XX, e das várias participações brasileiras em Copas.
 
Ao tratar do trauma da Copa de 50, por exemplo, realizando o esmiúce da letra de “Touradas em Madri” (“delírio eufórico absoluto (p. 254)”, entoado na sonora vitória sobre a Espanha, por 6 a 1, por sinal última vitória antes da derrota para o Uruguai na final), e tratando dos elementos simbólicos, de dimensões psicológicas inclusive, que estavam postos nos jogos e na relação que a torcida brasileira estabeleceu com aquela equipe (digo eu, aqui, “torcida brasileira de um modo genérico”), Wisnik nos aponta que:
 
Esse fato [o empate do Uruguai na final], que garantia ainda ao Brasil um resultado favorável, é vivido, no entanto, como um desabamento surdo que desvela o inacreditável: o Outro existe. A situação é um momento emblemático de uma vicissitude do veneno remédio brasileiro: o outro, que subsiste tão naturalmente quando objeto de apropriação e paródia – vide as “Touradas em Madri” – existe com dificuldade quando reverte como limite (p. 261).
 
O mesmo apuro no discurso se faz presente em outros tantos relatos sobre as participações do Brasil em Copas: a redenção que a Copa de 58 veio a ser, o apogeu do estilo “poético” do time de 1970, as outras singularidades de outros títulos e de outras derrotas, e como estiveram envolvidos nessas tantas histórias jogadores, técnicos, torcida, imprensa, e nação brasileira como unidade.
 
Pois bem, até aqui, nada de muito diferente dos outros ensaios que foram feitos, fosse numa perspectiva sociológica ou não, com a pretensão de discutir as repercussões do futebol na sociedade brasileira, ou ainda sobre o jeito de se do povo brasileiro. O título do livro, por exemplo, remete-nos ao homem cordial que nos foi apresentado por Sérgio Buarque de Holanda, aquele que estabelecia uma relação entre público e privado sem separações rígidas, atrelando méritos e deméritos ao homem brasileiro, assim, sem uma escala precisa de medição sobre o começo de um e o término de outro. O que surge como diferencial nesse ensaio de Wisnik é a disposição em, mais do que discutir o racismo no futebol, as questões de gênero, a violência nos estádios, as nuances dos que operam nas instâncias superiores do poder, mais do que apresentar versões categóricas do porque o futebol ter se constituído e permanecer como um importante elo de identificação do brasileiro para com sua nação, seu diferencial consiste em propor uma discussão rara em grupos acadêmicos que se dispõem, de um modo mais ou menos intenso, em recorrer ao futebol em suas analises: tratar dos elementos técnicos próprios do jogo, que além de serem passíveis de análise (diferente, que fique claro, daquelas que nos são apresentadas por alguns veículos de comunicação antes, no intervalo ou após os jogos), são um dos grandes responsáveis pelo elevado grau de popularidade que a prática do futebol tem no mundo.
 
Sobre o componente bola, por exemplo, nos diz Wisnik:
 
O poder de irradiação do futebol é impensável sem uma fenomenologia da bola: esse objeto distinto de todos os outros (…), que rola e quiçá como se animado por uma força interna, projetável e abraçável como nenhum. A bola é redonda – não há como recuar diante da mais rotunda das obviedades. Ao contrário, é preciso redescobrir esse fato espantoso, que a distingue de todo o resto (pp. 57-58).
 
As considerações de ordem técnica se dão, também, no que tange às especificidades do futebol em contraste com outros esportes. Para exemplificar, surge-nos como justificativa a tal perspectiva a relação tempo-espacial que seria própria do futebol: as ações que não são absolutamente objetivas não decorrem necessariamente em prejuízo ao seu executor – caso do drible, por exemplo, que pode inclusive ser um importante elemento para desestabilização, senão explícita, implícita do adversário – enquanto que em outros esportes coletivos, uma prática “sem objetividade” como o drible decorre, necessariamente, perdas à equipe.
 
Outro exemplo, dos muitos do livro, sobre peculiaridades do futebol, seria o alto teor subjetivo concedido aos juízes, a quem cabe o veredicto se a bola ultrapassou toda a linha do gol ou não, se tal jogador tocou com a mão na bola intencionalmente ou não, se houve intenção de falta do zagueiro ou o mesmo apenas “foi na bola”.
 
Evocações a Pasolini, a Gilberto Freyre e às letras de música e textos de Chico Buarque também são feitas. Esse livro não deixa de ser uma declaração apaixonada de um torcedor de futebol – e não embuto nenhuma carga pejorativa quando faço tal constatação. Talvez um ponto não muito interessante seja que a classificação ensaio permita uma postura perigosamente conveniente para que o autor se esquive de discussões mais ardilosas (caso da presença dos negros no futebol, por exemplo, que é elogiada em boa parte da obra, mas quando emerge a possibilidade de uma perspectiva racialista ser problematizada, ela não o é).
 
Para encerrar, digo que um dos méritos do autor foi apresentar um pequeno memorial seu, logo ao início do livro, declarando sua relação visceral com o futebol, e explicitando ao leitor sobre onde é o ponto em que ele se situa para fazer suas observações.
 
É digna de reverência tal atitude, pois não escamoteia a parcialidade que é própria de alguns que se dispõem sobre seus objetos de análise e que, não percebendo – ou não querendo declarar – a parcialidade que é inalienável da condição humana, evocam o verniz da imparcialidade científica, fazendo com que esta se torne, em vez de vantagem, um calcanhar-de-aquiles de insuficientes análises. “Veneno remédio” esta à margem disso; os interessados por futebol e por discursos sofisticados agradecem.

 
Bibliografia
 
WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Categorias
Conteúdo Udof>Grupos de Estudos>Geffut

Iniciação: técnica descontextualizada ou compreensão do jogo?

Sabe-se que o processo de iniciação no futebol deve ser realizado de forma paulatina, respeitando as necessidades e individualidades das crianças. Porém, o que observamos nos campos tupis-guaranis são “mini-craques” realizando atividades estafantes, monótonas, fora do contexto real do jogo, visivelmente impróprias para seu estado maturacional, objetivando apenas os aspectos técnicos.

Nessa linha de raciocínio, Garganta (1998) afirma que o ensino do jogo centrado principalmente na técnica individual é uma conseqüência da transposição direta de meios e métodos do treino das modalidades individuais para as coletivas, sem levar em consideração a especificidade estrutural e funcional desse último grupo de modalidades.

Diante disso, muitos professores-treinadores entendem que as crianças não devem começar a jogar futebol até que não possuam o domínio correto de todas as técnicas, desconsiderando, assim, as outras dimensões do jogo.

Se analisarmos que a iniciação, de acordo com Gomes (1999), é a fase onde irá desenvolver o ser como um todo, propiciando a formação e preparação multilateral e harmoniosa, formando uma base sólida através da diversificação das atividades, constituindo-se, mais tarde, como alicerce para as etapas seguintes, percebemos que o único meio multilateral, que desenvolve a criança como um todo, é o jogo.

Portanto, é sem fundamento nossas crianças treinarem apenas aspectos técnicos, como cruzamentos, desarmares, passes, finalizações, entre outros, sem vivenciarem por inteiro as demais dimensões do jogo. Ou seja, de nada adianta termos jogadores que executam com perfeição os gestos técnicos, se os mesmo apresentam deficiências ao nível da compreensão do jogo.

Voltando aos primórdios do nosso futebol, notamos que a aprendizagem era feita de uma forma não organizada, na rua; com bolas de diferentes tamanhos; através de jogos reduzidos de 2×2, 3×3; em espaços variados; e com um conjunto diversificados de situações-problemas.

É evidente que as crianças de hoje não são as mesmas de antigamente e que o futebol atual requer novos ensinamentos e novas exigências. Entretanto, não podemos descartar um acervo de atividades, com constantes tomadas de decisões, por atividades que não garantam a compreensão do jogo e um jogar inteligente. 

Corroborando essa idéia, Vikers (2000) afirma que os exercícios baseados na tomada de decisão promovem, a longo prazo, melhores resultados na capacidade de adaptação às exigências do jogo. Já em curto prazo, o ensino tradicional centrado nos comportamentos estereotipados (técnicas) apresenta vantagens aparentes numa fase inicial da aprendizagem, não sendo confirmadas, mais tarde, na capacidade de interpretação do jogo. 

Sendo assim, se seguirmos no “curto prazo”, continuaremos a formar atletas com comportamentos pré-estabelecidos, incapazes de lidar com situações adversas, fugindo do aprendizado específico que tiveram desde a época de menino na escolinha. Dessa forma, se o aluno, na iniciação, prosseguir reproduzindo determinados movimentos, ditos perfeitos, nunca entenderá a globalidade, a imprevisibilidade e a variedade situações – problemas que acontecem no decorrer do jogo. 

Após essa breve reflexão, entendo que as idéias acima são suficientes para tentarmos modificar alguns vícios que perpetuam o ensino do futebol. Portanto as metodologias baseadas no jogo e sua compreensão trazem novos horizontes para o ensino do esporte. 

Diante desta perspectiva, listo cinco sugestões  sucintas, que podem contribuir para os professores-treinadores elaborarem seus planejamentos:

1 – Como a iniciação requer alguns cuidados em suas atividades, o processo de ensino-aprendizagem o deve apresentar uma gama de brincadeiras em forma de jogos que desenvolvam os aspectos lúdicos;

2 – Proporcionar contato com diversos matérias dentro dos jogos;

3- Definir o princípio do jogo a ser trabalhado (penetração, contenção) de forma simples, já que a compreensão geral do jogo nessa fase ainda é limitada.

4 – Aumentar progressivamente a complexidade das atividades. Exemplo: jogos situacionais (1×1, 1×1 + 1, 2×1 …) e jogos reduzidos (regras adaptadas dependendo dos objetivos da sessão, como zonas de finalização, zonas de 3 toques, zonas livres quanto a  toque, passar a bola entre todos companheiros para finalizar a gol, etc.);

5- Utilizar preceitos do voleibol, como o rodízio dos atletas, seja nos jogos reduzidos ou jogos situacionais. Nessa situação haverá uma troca constante de posições. Em tese, os alunos trocarão de posições e tarefas após um determinado tempo, experimentando as diversas situações impostas pelo jogo naquela determinada zona do campo. 

Para finalizar, se quisermos no futuro jogadores inteligentes e universais, que entendam as situações-problema do jogo nos vários setores do campo, é fundamental utilizarmos o jogar. Esse jogar não é entregar uma bola e sentar na casamata ou realizar exercícios descontextualizados; é planificar jogos que desenvolvam a criatividade, a liberdade intuitiva e as tomadas de decisões, que é a maior atividade do jogo.

Crie e adapte. Entenda a complexidade do jogo e a individualidade da criança que está ao seu lado, assim sua formação será completa!

Categorias
Sem categoria

Scout analfabeto

 

Hoje, vou mais uma vez falar um pouco sobre “scout quantitativo”, ou melhor, das ferramentas quantitativas que são utilizadas por equipes, especialistas e mídias envolvidas de alguma forma com o futebol.

Infelizmente, ainda tem se tentado explicar o jogo de futebol por meio de números que representam um diagnóstico “do mundo da lua” e que pouco se relacionam com a realidade da complexidade inerente ao jogo.

Partidas são vencidas e perdidas sem que os sintomas das ferramentas quantitativas apontem o caminho concreto daquilo que os gerou.

Obviamente a culpa não é dos números, e sim, como chamaria John Allen Paulos, de um “analfabetismo em matemática” e de uma – como eu completaria – falta de entendimento do jogo como fenômeno complexo.

Vivemos num país em que o futebol faz parte do dia-a-dia dos cidadãos, onde sua força está impregnada com muitas fincas na cultura do povo. Seu papel na sociedade vem ao longo do tempo tomando formatos diferentes, mas sua presença nunca andou um milímetro para trás. Milhões de brasileiros adotam a postura de “entendidos do assunto” e vestem a cada partida de suas equipes a camisa de treinador (perspicaz, que para tudo têm solução). Os treinadores, os “verdadeiros”, de profissão, têm então junto de si, a sombra dos companheiros de trabalho e daqueles que se colocam como donos da verdade (os milhões de “torcedores-técnicos”), que bem ou mal, fazem parte de uma máquina (que funciona como uma cadeia alimentar) que gera informação, necessidade e consumo.

O mau entendimento do jogo leva muitas vezes então, não só a intervenções equivocadas por parte de quem atua profissionalmente no futebol, mas também em todas as dimensões que de maneira direta ou indireta, próxima ou distante interferem nele.

E é aí que o que deveria ajudar, acaba por vezes atrapalhando mais.

Especialistas, imprensa, equipes e treinadores usualmente acabam por dispor da ferramenta que chamam de “scout”, e através de índices estatísticos tentam entender e relacionar desempenho de jogadores e equipes. Há muito tempo estes índices vêm sendo usados. Não existe um padrão definido para formatação dos dados que esse tipo de ferramenta oferece, e o que se observa é sua representação feita de acordo com as preferências de quem o faz ou utiliza.

Como os números, de maneira mal trabalhada, podem nos induzir a conclusões não verdadeiras, não é incomum que emirjam e predominem muitas vezes as conclusões “não verdadeiras”.

Paulos (1994, p.69), usa um exemplo muito interessante para descrever as ciladas que os números, colocados de maneira errônea, podem nos pregar. Este exemplo está descrito em seu livro “Analfabetismo em matemática”. Vejamos:

“Suponha que um teste para câncer que tem precisão de 98%, isto é, se uma pessoa tiver câncer o teste será positivo 98% das vezes, e, se não tiver, o teste será negativo 98% das vezes. Suponha, além disso, que 0,5% – uma em duzentas pessoas – realmente tem câncer. Agora, suponha que você fez o teste e que seu médico lhe anunciou lugubremente que seu teste deu positivo. A pergunta é: qual deve ser o seu nível de preocupação? A resposta surpreendente é que você deveria ficar cautelosamente otimista. Para descobrir por que, vamos dar uma olhada na probabilidade condicional de você ter câncer, dado que seu teste foi positivo.

Imagine que 10 mil testes para câncer são realizados. Destes, quantos são positivos? Na média, cinqüenta dessas 10 mil pessoas (0,5% de 10.000) terão câncer, e assim, uma vez que 98% delas terão teste positivo, teremos 49 testes positivos. Das 9.950 pessoas que não têm câncer, 2% terão teste positivo, para um total de 199 positivos (0,02×9.950=199). Portanto, do total de 248 testes positivos (199+49=248), a maioria (199) são falsos positivos, e assim a probabilidade condicional de se ter câncer dado que o próprio teste é positivo é somente 49/248, ou cerca de 20% (este percentual relativamente baixo deve ser comparado com a probabilidade condicional de se ter um teste positivo dado que se tem câncer, que por hipótese é 98%)“.

Numa análise inicial, realmente nossa tendência em acreditar nos números sem entendê-los é muito grande, e por muitas vezes eles nos servem de argumento indiscutível para afirmações que fazemos. Muitas vezes nos deixamos levar por eles, em uma súbita necessidade inconsciente de termos uma explicação plausível para dado acontecimento. No esporte em geral, e particularmente no futebol isso acontece bastante.

Se a proposta de uma ferramenta como essa (o scout) é dar informações relevantes sobre o jogo, deveria ela antes de mais nada garantir alta correlação com o comportamento das equipes e jogadores enquanto jogam, de maneira que possa expressar não o volume de ações ou eventos e sim seus significados.

Caso contrário, corremos o risco de mergulhar não mais somente num analfabetismo de números, mas também em um rio de analfabetas verdades, que não são reais, simplesmente porque não existem…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

O poder dos grandes clubes – Parte 2

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Na coluna da semana passada discutíamos o poder dos grandes clubes de futebol, em vista dos últimos acontecimentos no mundo do futebol profissional na Europa, nomeadamente as reuniões do conselho executivo da Fifa e da Uefa, e dos rumores na mídia sobre uma eventual criação da chamada “super league”, uma liga independente dos principais clubes europeus.

Discutíamos também qual seria o efeito prático da criação de uma liga independente das federações. Quem teria mais poder?

Essas discussões são bastante teóricas, e muito longe de um acontecimento real, na prática. Isto porque, em nossa opinião, nenhum dos dois lados da balança (clubes de um lado e federações do outro) dariam um primeiro passo nesse sentido, o que certamente traria consequências negativas para muitos envolvidos, atletas e torcedores, entre outros. O risco seria muito grande.

O fato é que, coincidência ou não, tivemos um anúncio público ontem, entre Uefa e ECA (Associação dos Clubes), em que foi externado um aumento das verbas a serem repassadas aos clubes com relação às receitas da Liga dos Campeões. 

As verbas que aumentam são, especificamente, para clubes que não participam da competição e também àqueles que são eliminados na fase de grupos. 

Quem ganha é o futebol como um todo, já que clubes menores terão maior acesso (ainda que pouca coisa) a verbas da competição para melhor estruturarem suas categorias de base.

Ao final das contas, vemos que clubes e federações na Europa continuam cooperando, o que distancia ainda mais qualquer hipótese de “super league”.

De toda forma, há que se ressaltar a força dos clubes no anúncio em questão. Afinal, os rumores tiveram uma motivação específica? E tiveram o sucesso esperado? Ou foi tudo mesmo coincidência?

Perguntas que ficarão sem respostas.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

A consequência da violência para os clubes de futebol

Nessas duas últimas semanas muito tem se discutido sobre a violência nos estádios de futebol. Ótimo. É um sinal da sociedade clamando por mudanças, que – mesmo que sejam implementadas imediatamente – possivelmente ainda tardarão a apresentar resultados mais visíveis.

Isso porque há um claro desentendimento nos discursos apresentados. Cada um corre para um lado, sem que haja um consenso nas causas, medidas e consequências sobre o assunto. De um lado, o governo fala uma coisa. De outro, a federação. Noutro, os clubes. Em ainda outro, a mídia. E, se não bastasse, ainda tem os torcedores. Em um assunto onde deveria haver um consenso linear, o que se vê é um complexo poligonal com pequena tendência de convergência.

Quem tem falado mais alto, até o momento, é o governo. Até porque a violência dentro dos estádios, e é preciso frisar a delimitação do espaço ao estádio de futebol, parece ser assunto de segurança pública. Mas não é. Ela é um assunto que ganha contornos massificados pela onipresença esportiva do futebol no país. Só que, fazendo as contas, ela interessa muito menos à totalidade da população do que pode parecer.

Considerando que a média de público por jogo da Série A do Campeonato Brasileiro de 2008 foi de aproximadamente 17 mil torcedores e da Série B 6 mil, e que cada uma das competições tinha, na maioria das vezes, dez jogos por final de semana, pode-se concluir que os estádios de futebol do Brasil receberam aproximadamente 230 mil torcedores por rodada, o que representa apenas 0,12% da população brasileira. Longe, portanto, de ser considerado um problema que assola todo o país ou que deva despertar tanta atenção do poder público.

Os maiores interessados em resolver esse problema são os clubes e suas consequentes associações, seja uma federação ou uma liga, uma vez são eles que tem no futebol a sua principal razão de existência. A violência nos estádios deveria importar muito mais a eles do que ao governo, portanto. Mas não é o que aparenta acontecer.

O problema é que o efeito da violência e da insegurança nas receitas dos clubes é avassalador. Todos, absolutamente todos os canais de receita são, com maior ou menor intensidade, afetados. Vamos a eles:

Dia de jogo

Nesse canal de receita, os efeitos são os mais óbvios. Quanto menor for a segurança e maior for a violência dentro do estádio, menos pessoas vão aos jogos, seja na arquibancada, na cadeira, ou no camarote. Aqueles que vão, o fazem ciente dos riscos e, portanto, tendem a não estender a sua estada dentro do estádio, o que – em conjunto também com uma menor disposição do indivíduo a levar maiores somas de dinheiro – limita o poder de consumo, seja de comida, bebida ou outros produtos. Com o sentimento de insegurança generalizado, existem também as proibições da venda de bebidas alcoólicas, que, depois do jogo em si, é o principal produto de consumo em uma partida.

Receita de patrocínio

Um dos principais motivos que levam empresas a patrocinar um esporte, no caso o futebol, é a oportunidade de conectar sua marca a uma imagem de saúde e bem-estar, benefícios da prática esportiva. Quando a marca de uma empresa aparece no momento de uma briga, a empresa acaba transmitindo uma imagem oposta àquilo que ela deseja. Logicamente que esse risco tende a afastar patrocinadores, principalmente os mais conservadores, o que diminui a concorrência e, consequentemente, o valor do patrocínio.

Receita de licenciamento

A maior parte da receita de licenciamento de um clube vem da venda de camisas oficiais. A insegurança e a violência inibem a venda de camisas, uma vez que usá-la no estádio ou fora dele se torna um risco à integridade do torcedor. Como produtos licenciados são essencialmente bens simbólicos – eles valem muito mais por aquilo que eles representam do que por aquilo que eles fazem – o torcedor pode vir a substituir a camisa por produtos mais reservados, como xícara e chaveiro, que são também muito mais baratos e com distribuição bem mais limitada.

Receita de transferência de jogadores

Mais violência e menos dinheiro significa menor poder de competitividade no salário de jogadores, o que tende a reduzir o poder de barganha do clube na negociação com outros clubes que queiram contratar seus atletas. Além disso, a insegurança pode motivar o atleta a querer deixar o clube, o que também influencia no valor final da venda e, possivelmente, na sua performance em campo, que acaba também diminuindo o seu valor.

Receita de direitos de transmissão (televisão, internet, etc.)

Com estádios vazios e sem atmosfera, com poucos jogadores importantes e com patrocínios escassos, o valor do futebol como entretenimento televisivo é bastante reduzido. As matérias veiculadas pela imprensa em geral também denigrem a imagem do jogo, o que também acaba afetando o seu valor. Com a diminuição do valor televisivo de um campeonato, poucos canais se dispõem a disputar a exclusividade dos seus direitos, o que também diminui substancialmente o montante arrecadado com a venda de um campeonato.

Como é possível perceber, o peso da insegurança e da violência na arrecadação de um clube de futebol é enorme. Daí, portanto, a razão pela qual os grandes interessados em acabar com ela devem ser os clubes, e não tanto o governo. Cabe ao Estado fiscalizar e incentivar a idéia, mas não cabe a ele puxar a responsabilidade toda para si. Seria possivelmente muito mais efetivo que o governo enrijecesse o controle fiscal sobre os clubes para que eles começassem a perceber o quanto que a insegurança afeta na sua própria arrecadação, e consequentemente na sua performance esportiva, e tomar medidas práticas e constantes que busquem a melhoria das estruturas dos seus estádios e o maior controle sobre o comportamento da sua própria torcida.

Enquanto o governo for o único a se mexer e os clubes não perceberem o quanto esse processo afeta o seu próprio bolso, o futebol brasileiro estará fadado a enfrentar ciclos de ações contra violência com prazo de validade bastante limitado.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Sempre com a bola nos pés

Assisti neste fim de semana, nos arquivos do ESPN 360, fantástico site dos canais ESPN, a entrevista de Jorge Valdano para o programa “Bola da Vez”.

Valdano não chegou a ser craque, mas teve uma carreira exitosa como jogador da seleção argentina, campeã mundial em 1986 e, principalmente, nas fileiras do Real Madrid.

Tornou-se craque, sim, fora de campo, como treinador do Tenerife, da Espanha, e diretor de futebol o clube merengue, onde permanece à frente do programa de MBA em Gestão Esportiva oferecido em conjunto com Universidade Européia em Madrid e que acaba de chegar ao Brasil, em parceria com a Anhembi-Morumbi de São Paulo.

Na estupenda entrevista, Valdano, um fora-de-série na mediocridade de idéias e posicionamento que ainda impera entre nossos atletas e ex-atletas, relata um episódio ocorrido ao longo da campanha vencedora da seleção argentina em 1986, envolvendo Maradona.

O treinador da equipe, Carlos Bilardo, defendia a tese de que “o jogador sempre deveria estar com a bola nos pés, pois nunca deveria deixar de se aperfeiçoar em seus fundamentos”. 

Não importava onde. Para Maradona, nem como…

Maradona, ao que parece, teria dado ouvidos ao mestre e, desde sempre, conta Valdano, preparava-se arduamente para ser o melhor jogador do mundo.

Eis que Maradona, em tom de brincadeira, resolveu percorrer todo o trajeto de seu quarto ao restaurante do hotel, controlando uma bola nos pés. Passou pelo elevador, corredores, saguão, até chegar aos companheiros no restaurante.

Ao avistar a cena, Bilardo disse a todos, rindo e premiando o pupilo: “Vê, é por isso que ele é o Maradona…”.

É mais do que surrada a noção de que a prática conduz à perfeição. No futebol, diria que tanto dentro quanto fora de campo, nos respectivos exemplos de Maradona e do próprio Real Madrid, esse aforismo é ainda mais visível e acompanhado por todos.

A evolução em ambos os casos jamais se deu ou dará espontaneamente, ao acaso. Isso é fruto de sucessivos esforços visando melhorias contínuas, ora imperceptíveis a olho nu que, somadas, em médio-longo prazo, explicam o porquê do sucesso de uns, dificuldades de outros.

Tome-se o exemplo de um ícone nacional, o São Paulo Futebol Clube. Os menos atentos podem achar que os seis títulos nacionais, três da Libertadores, e três Mundiais, sempre estiveram umbilicalmente ligados à sorte.

Engano. O clube, além de um elenco de jogadores valorizados e de alto nível, possui estádio particular muito bem servido, CT para a equipe profissional e para as categorias de base, o Reffis, além de departamentos de marketing, jurídico, administrativo e técnico extremamente competentes e atuantes, com profissionais de destaque em todas as posições – do cozinheiro ao ponta-esquerda, passando pelo presidente.

No meio disso tudo, o clube investe continuamente nos processos de gestão, que não costumam contar com a sorte para a tomada de decisão sobre o que foi planejado exaustivamente. 

A sorte, o aleatório existem sim. Mas, se pode passar uma vida inteira esperando por ela. Mas ela pode resolver se albergar na competência do vizinho.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Conteúdo Udof>Grupos de Estudos>Gedd

Breves críticas ao artigo 19 do Estatuto do Torcedor à luz da conceituação da responsabilidade objetiva

Primeiramente, importante que façamos uma leitura do Art. 19 da Lei 10.671/2003 (Estatuto do Torcedor): “As entidades responsáveis pela organização da competição, bem como seus dirigentes respondem solidariamente com as entidades de que trata o art. 15 e seus dirigentes, independentemente da existência de culpa, pelos prejuízos causados a torcedor que decorram de falhas de segurança nos estádios ou da inobservância do disposto neste capítulo”.
 
Em comunhão com os ditames do Código de Defesa do Consumidor, vem o Estatuto, mais especificamente em seu artigo 19, imputar a responsabilização objetiva (sem culpa) pelos prejuízos causados aos torcedores ocorridos nos estádios.
 
Senão vejamos, sabemos que a responsabilidade objetiva requer apenas os elementos dano e o nexo de causalidade (ligação da conduta e do dano sofrido pela vítima).
 
Na responsabilização subjetiva, por sua vez, onde o elemento culpa está inserido à ação e ao nexo causal, o agente da conduta ou fato danoso age com negligência, imprudência ou imperícia.
 
Importante referir os elementos que interrompem o nexo causal. Quais sejam, a culpa exclusiva da vítima e o caso fortuito e de força maior.
 
Dessarte, voltando à leitura do artigo em questão, vide destaque: “As entidades responsáveis pela organização da competição, bem como seus dirigentes respondem solidariamente com as entidades de que trata o art. 15 e seus dirigentes, independentemente da existência de culpa, pelos prejuízos causados a torcedor que decorram de falhas de segurança nos estádios ou da inobservância do disposto neste capítulo”.
 
Ora, é certo que o termo “falhas” diz respeito à culpa. Com efeito, empregando literalmente o artigo 19, constatamos o elemento culpa inserido no contexto sabidamente voltado à responsabilização objetiva.
 
“Falha” do legislador.
 
Tal imprecisão confunde inclusive a análise do julgador, que, ao sustentar a responsabilidade objetiva, aduz e remete o dano à falha na segurança do respectivo estádio.
 
Onde quis chegar o legislador? Certamente na responsabilidade objetiva, analisando sistematicamente a norma.
 
Entretanto a culpa inegavelmente está na letra do artigo. Abrindo uma janela para o clube suscitar a isenção de culpa (ou falha) em determinado evento.
 
*Carlos Eduardo Licks Flores é advogado especialista em Direito Desportivo e membro do Gedd – Grupo de Estudos de Direto Desportivo