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O certificado de clube formador e a formação de jogadores

Nos dias 19, 20 e 21 de agosto a Universidade do Futebol promove o seminário “o ensino do futebol – uma alternativa à captação”, com o objetivo de propor uma reflexão sobre a formação de jogadores e a gestão sustentável das categorias de base no futebol.

Um dos aspectos fundamentais para o desenvolvimento de seres humanos, e consequentemente, jogadores e jogadoras mais preparados para os desafios do futebol do futuro é a garantia de seus direitos básicos nos ambientes e processo de formação.

Nesse sentido, uma das ferramentas que têm se mostrado mais promissoras para promover a melhora das condições de vida e treinamento de jovens jogadores é o Certificado de Clube Formador – o CCF. Entretanto, a análise de alguns dados sobre as emissões do documento e o número de clubes com categorias de base ativas pelo país acabam, na verdade, acendendo um alerta sobre o assunto no âmbito nacional.

Um exemplo de como apenas o certificado não garante que os direitos básicos de jovens futebolistas são respeitados, é o nome do Flamengo estar constando na lista de clubes formadores certificados pela CBF, divulgada quatro dias antes do incêndio que vitimou 10 jovens das suas categorias de base em 2019. O incêndio, além de ajudar a trazer à tona a discussão sobre as condições de vida e trabalho às quais milhares de jovens são submetidos por todo o país, também colocou uma lupa sobre a efetividade do certificado para assegurar direitos básicos de jogadores na base, razão pela qual o documento é frequentemente celebrado.

Afinal, o que é o Certificado de Clube Formador?

Regulamentado em janeiro de 2012 pela CBF, o CCF é um mecanismo previsto na lei Pelé que incentiva as confederações esportivas nacionais, no caso do futebol a CBF, a conceder uma certificação reconhecendo clubes e entidades esportivas filiadas como formadoras caso atendam requisitos mínimos. Como contrapartida, os clubes adquirem legalmente o direito à preferência na assinatura do primeiro contrato profissional dos jovens treinados na instituição ou à uma indenização caso ele chegue a um acordo com outra agremiação e também ao mecanismo de solidariedade da FIFA, muito comemorado por clubes brasileiros em grandes transferências internacionais como a de Neymar do Barcelona para o Paris Saint Germain e de Philippe Coutinho do Liverpool para o Barcelona, que geraram, respectivamente, R$ 33 mi para o Santos e R$ 15,8 mi para o Vasco. Em resumo, o CCF previne que a instituição que investiu tempo e dinheiro na formação de um jogador deixe de contar com seus serviços em um momento crucial, que é a assinatura do primeiro contrato de trabalho ou, ao menos, receba uma compensação financeira por isso. Algo muito relevante em um cenário no qual a maioria dos clubes do país tem dívidas significativas se comparadas a seus faturamentos anuais e tem na venda de jogadores uma das poucas maneiras de equilibrar as contas.

Apesar dessa garantia jurídica, o número de clubes com certificado de clube formador representa apenas uma pequena parcela dos filiados à CBF. Em agosto de 2019 eram 25 clubes com o certificado, na última lista atualizada pela CBF em abril do presente ano, o número de clubes que possuem o documento é de 33. De 2015, quando a CBF começou a divulgar a lista de clubes certificados, para cá o número variou entre 45, em 2018, e 25, em 2019.

Para Ivan Furegato, mestre em Gestão Desportiva pela Universidade do Porto, isso acontece, pois, poucos clubes têm expectativa de grandes receitas com a negociação de jogadores formados em sua base, “[quem busca o certificado] são aqueles clubes de médio ou grande porte, que vendem jogadores, ou que tem pretensões de vender. Essa pressão do mercado, vamos dizer assim, não chegou nos pequenos e médios de uma forma mais ampla”, analisa.

Pedro Smania, diretor do Movimento dos Clubes Formadores do Futebol Brasileiro e coordenador das categorias de base do São Paulo Futebol Clube, acredita que a pouca evolução no número de clubes certificados desde a regulamentação do CCF se dá por uma falta de conscientização geral sobre a relevância do documento por um lado e regras mais rígidas, que forcem sua obtenção, por outro, “o importante é que os clubes não busquem o certificado pelo certificado e sim que se tenha o entendimento da necessidade de se atingir os requisitos mínimos para uma criança estar morando em um ambiente diferente da sua casa, independentemente de sua origem ou classe social. Por outro lado, sua obrigatoriedade para participar de determinadas competições e outras medidas nesse sentido poderiam ser mais uma maneira de pressionar os clubes a buscar a certificação”, ressalta. O dirigente não acredita que flexibilizar os requisitos, como defendem alguns clubes, seja uma medida positiva “cada clube tem a responsabilidade de contemplar essas condições básicas, considero isso extremamente positivo. Um clube minimamente saudável tem condições de atingir os requisitos do certificado. Não vejo como solução abrandá-los para facilitar que outros clubes consigam se adequar. A gente precisa ter uma responsabilidade, e a responsabilidade precisa ser de todos. Se algum clube não consegue manter os requisitos ele não merece ter o certificado”, pontua.

O Estatuto da Criança e do Adolescente

Independente das pressões do mercado, um fato é que todos os clubes que se dispõem a alojar jovens em suas dependências devem respeitar o estabelecido no estatuto da criança e do adolescente, o ECA, que é uma lei federal e possui mais de 200 artigos. É o que afirma Thais Toledo, profissional do Serviço Social com 13 anos de experiência no futebol, “assim como qualquer outra instituição dentro do país que queira trabalhar com crianças e adolescentes é necessário que o clube de futebol, escolinha ou projeto social atinja requisitos mínimos, não tem como ser diferente disso”.

Um dado alarmante é que em 2019, ano pré-pandemia, 337 clubes disputaram competições sub-15 pelo Brasil sem possuir o certificado.

As condições de vida dos jovens que defendem esses clubes preocupam. O incêndio no Ninho chocou pela tragédia e atraiu holofotes pela dimensão do Flamengo, em clubes com menos recursos diversos tipos de violação são muito mais frequentes, “a gente vê muita coisa difícil de absorver. 14 meninos em um quarto, dormindo só em colchão, um banheiro para 30 garotos. Alguns clubes que só disponibilizam almoço e jantar, refeições sem nenhum valor nutricional, arroz feijão e salsicha ou coisas piores. Outros que não viabilizam a visita dos jovens às suas famílias, o garoto fica anos sem voltar para casa, isso ocorre até em alguns grandes. Sem falar dos desgastes físicos e emocionais sem que haja um responsável para zelar. Tudo isso é muito comum de ver por aí, com mais frequência nos clubes menores”, relata Thais.

CBF “certificado não substitui fiscalização”

Dias após o incêndio, a CBF divulgou uma nota afirmando que “cumpre rigorosamente suas atribuições”, ressaltando o aspecto esportivo do certificado, “a CBF atesta a qualidade dos clubes no desenvolvimento técnico de jovens atletas. Não participa, nem concorre com as funções dos órgãos públicos quanto à adequação e segurança de instalações”.

De 2012 para cá: a melhora nas condições de vida dos jovens jogadores após o CCF

Para Ivan Furegato, que acompanhou o processo de certificação do Botafogo de Ribeirão Preto, nointerior do estado de São Paulo, o documento trouxe benefícios para os jovens jogadores do clube, “foi possível perceber que não só os diretores, mas os próprios meninos da base diziam se sentir mais à vontade, render mais, depois ter acesso a psicólogo, acompanhamento social e educacional. Isso tudo aconteceu em uma época na qual o Botafogo teve resultados expressivos no campo, sendo vice-campeão sub-20 e chegando na final da Copa São Paulo, justamente com essa garotada, a primeira geração que se beneficiou da implementação do certificado”, conta.

Ivan ainda ressalta a importância do trabalho de profissionais das áreas da psicologia e do serviço social para a garantia dos direitos básicos dos jovens jogadores “se você contrata, por exemplo, uma psicóloga ou assistente social, por mais que o clube não siga o que determina o ECA, essas pessoas, até pela sua formação, acabam por conhecer essas exigências e colocando-as em prática. A existência de um profissional que está dedicado ao clube, fazendo um trabalho de prevenção é algo muito positivo. Supondo que alguém tente abusar desses garotos, se ele souber que existe um psicólogo lá dentro, um treinador profissional, que estão ali prestando atenção e conhecem o que podem denunciar, é possível inibir muita coisa e mostrar para os meninos que eles têm pessoas ali que se importam com eles e podem protegê-los”.

Thais Toledo também enxerga uma melhora na garantia dos direitos básicos após a regulamentação do certificado, “os aspectos positivos são fortes, os clubes que tem hoje o certificado estão em melhores condições, e os que não tem estão em movimento para busca-lo, isso significa que muita coisa está sendo mudada”, ela complementa destacando que o certificado também é benéfico no aspecto esportivo, “o indivíduo melhor formado vai render melhor em todas as áreas, tanto na parte pessoal, como profissional. Então, as chances dele conseguir um resultado em campo, um bom contrato e até uma transferência aumentam. Isso eu tenho visto acontecer, claro que não no ritmo que nós desejamos, mas me sinto satisfeita em sentir esse movimento”, comemora.

Possíveis caminhos

Apesar de proporcionar uma melhora nas condições de trabalho de jovens jogadores, o número de clubes certificado permanece estagnado. Em seu estudo sobre o tema Ivan Furegato traz algumas proposições que ajudariam a fazer com que mais clubes aderissem à certificação. Para ele, CBF e federações deveriam ser mais atuantes, padronizando o processo de certificação e buscando ativamente clubes que ainda não possuem o documento, incentivando a obtenção do certificado, “ajudaria muito na organização dos processos a criação de um departamento de categorias de base e ter uma pessoa responsável apenas pelo certificado, ter um maior controle, não ser uma coisa esporádica”, argumenta. Ivan acredita que as categorias do certificado e até a redação da lei podem ser aprimoradas para permitir que mais clubes busquem a obtenção do documento “uma ideia seria a de criar categorias de acordo com as possibilidades de cada equipe para fazer o certificado realmente funcionar em todo o território. Entendendo as diferenças, por exemplo, de um clube grande de primeira divisão e outro sem divisão. Hoje é muito fácil um clube pequeno falar que é impossível atingir as exigências e a CBF, por outro lado, aceitar isso e não cobrar. Aí entra um ponto que também acho fundamental que é a obrigatoriedade, se algo não é obrigatório no Brasil, e o futebol não foge à regra, a coisa não anda”, defende.

Para Thais, independentemente da certificação, a prioridade é fazer com que o clube seja um dos agentes a promover os direitos dos jovens jogadores, “o desafio é como se organizar para vincular o clube de futebol ao sistema de garantia de direitos. Para que o estado também se responsabilize por tudo isso. Para dar um tipo de registro, autorizando o clube funcionar, algo até anterior ao certificado. Afinal, se uma entidade quer trabalhar com crianças e adolescentes ela tem que desenvolvê-los de maneira responsável. O clube que tem recurso está se mexendo depois do incêndio, mas me pergunto o que está sendo feito nos clubes menores. Mesmo sabendo que vai ser fiscalizado eles não têm recursos para mudar sua realidade e os meninos continuam lá, em situação de risco”, analisa.

Thais Toledo e Ivan Furegato serão alguns dos palestrantes presentes no seminário “o ensino do futebol – uma alternativa à captação”, que será realizado nos dias 19, 20 e 21 de agosto de maneira remota. Fique atento às nossas redes sociais, é por lá que vamos divulgar todos os detalhes referentes à inscrição e participação no evento.

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Princípios Pedagógicos – Por que sua aula ou treino é assim?

Crédito imagem – Jogos estudantis da Bahia/Divulgação

Nesta série de Princípios Pedagógicos temos refletido sobre importantes temas até agora, como a importância de a formação esportiva ensinar o gosto pela prática e pela modalidade, bem como a necessidade de o(a) professor(a) ou treinador(a) ser capaz de acolher e estimular o desenvolvimento pleno de todos e todas do seu grupo de alunos(as) ou atletas. Esses ensinamentos partem dos princípios pedagógicos de “Ensinar a gostar de futebol” e “Ensinar futebol a todos”. Qual é a sua opinião sobre eles? Já os conhecia? Fazem parte da sua prática também?

Nesta semana venho abordar outro tema fundamental à prática pedagógica, seja ela contextualizada à iniciação, especialização ou alto rendimento. Se caminharmos pelas escolas e clubes de futebol nos depararemos com aulas e treinos bastante singulares. Cada professor(a) ou treinador(a) possui a sua essência, suas verdades e seus métodos de aplicar o conhecimento adquirido ao longo de sua carreira. A forma de falar com os alunos para explicar uma atividade, a maneira de orientar uma atleta à beira do campo, a escolha dos conteúdos planejados para serem aperfeiçoados em determinada sessão de treino, são todas intervenções construídas consciente ou inconscientemente na nossa forma de trabalhar.

O treino ou a aula é um dos momentos mais especiais do exercício da nossa função, enquanto profissionais da formação e treinamento esportivo. Sabemos que cada segundo é valioso e pode ser bem ou mal aproveitado para favorecer a aprendizagem ou os comportamentos que desejamos despertar no nosso grupo. O tempo é tão escasso para fazermos tudo que queremos fazer, não é mesmo? Isso ocorre tanto para a nossa turma ou equipe quanto para a nossa vida. Precisamos saber o que fazer com o tempo que temos. O que pudermos intervir para melhorarmos individual ou coletivamente aqueles e aquelas sob nossa liderança, é nosso trabalho não deixar passar a oportunidade.

É triste andar pelas escolas e clubes e ver profissionais gastarem o tempo que têm de aula ou treino com qualquer coisa, sem terem pensado bem sobre o que poderiam ter feito de melhor naquele momento. Por outro lado, é louvável ver profissionais da nossa área procurarem meios e métodos cada vez mais eficazes de transformarem o ambiente de aprendizagem que lideram em algo cada vez mais poderoso sobre o que desejam ensinar. Ninguém nasce sabendo dar uma boa aula ou um bom treino, mas podemos aprender. Pois caso alguém nos pergunte: por que sua aula (ou seu treino) é assim? Devemos responder com tranquilidade e consciência das razões do que estamos fazendo. Se a pessoa tiver uma ideia diferente, que nos convença com argumentos melhores que os nossos. Não teremos problema em mudar, já que o que queremos é “ensinar bem futebol a todos”.

“Ensinar bem futebol a todos (e todas)” é o princípio pedagógico mestre deste artigo. Como já ouvi algumas vezes do Professor João Batista Freire: “não basta fazer com que todos participem plenamente da aula, é preciso ensinar bem o futebol!”. De fato, as crianças, adolescentes ou adultos que estiverem sob a minha liderança, precisam melhorar no futebol a partir do que eu escolho fazer com o tempo de intervenção que tenho com eles ou elas. Se alguém perguntar: por que você faz o aquecimento dessa forma e não de outra? Por que você treina fundamento com esse tipo de exercício e não com esse? Por que você para o treino para conversar? Por que você usa o jogo com essas regras e não com outras? A pessoa que se prepara para dar um treino ou uma aula terá que saber responder. Novos métodos de treino podem surgir e superar os meus. Eu preciso estar atento para perceber isso também. Contudo, jamais posso ir para uma aula ou treino sem ter claras as razões sobre como vou ensinar o que me propus a ensinar. O desafio é saber cada vez mais, para ensinar cada vez melhor.

Sobre este tema, poderíamos ir para um caminho de reflexão relacionado às diferentes abordagens pedagógicas ou metodologias de treino. Eu tenho bem claras quais são as linhas que eu sigo. Busco fundamentar minha prática a partir da Pedagogia da Rua e a Pedagogia do Jogo, utilizando uma metodologia mais próxima da sistêmica possível, fundamentadas nas minhas experiências e estudos. Se me perguntarem sobre qualquer atividade do meu treino ou cada intervenção minha, eu terei como explicar e a resposta deverá ser coerente com essa linha de pensamento. Pode ser que eu erre, que eu tenha pensado errado nessa parte, ou até agido de maneira automática. Somos serem falíveis, e não tem problema com isso. Devemos reconhecer que erramos e, em especial, porque erramos. Mas a reflexão interna para não repetir o erro faz parte fundamental deste princípio pedagógico.

Poderia me alongar sobre o porquê escolhi essa abordagem pedagógica e metodologia e não outra, mas não é o foco deste texto. Em outra oportunidade, podemos falar sobre esse tema. Eu gosto muito dele, inclusive. No entanto, o foco aqui é despertar a importância de professores(as) e treinadores(as) perceberem que cada segundo da sua aula ou treino pode ser melhorado, e é sua responsabilidade torná-lo mais eficaz do ponto de vista da aprendizagem. Aquilo que decidimos ensinar precisa ser ensinado. Sabemos que alunos e atletas aprendem de formas diferentes, em tempos diferentes. Precisamos entender esse processo e tornar o nosso trabalho efetivo. Só assim nos valorizaremos como profissionais, asseguraremos o direito daquela pessoa a ter uma educação esportiva competente, e poderemos dormir com a consciência tranquila de, como disse certa vez Mario Sergio Cortella, estarmos fazendo o melhor que podemos, até termos condições de fazer melhor ainda.  

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Por uma Pedagogia da Autonomia no futebol – Quem treina, educa

Crédito imagem – Site Puc Goiás/Reprodução

O debate, promovido por intelectuais da Pedagogia do Esporte, acerca da necessidade urgente de devolver o fenômeno jogo a quem joga, tem causado alguma disjuntura, principalmente quando levada ao alto rendimento – o que não significa que seja caro e muito potente. Dar conta da profundidade que o tema exige em duas, três ou quatro folhas de papel é missão ingrata, presunçosa, até. Como teimosia pouca é bobagem, destilaremos algumas milhares de palavrinhas nesta e nas próximas conversas na tentativa de amenizar algumas distorções epistemológicas e desvendar os porquês do incômodo com as denúncias de sequestro do jogar pleno.

(Folha de papel, não. De Word. Começamos errado, que os não-cringes me perdoem. A culpa (mais uma) é do Paulo, o famoso camarada recifense, que, em meio ao oásis de criatividade do escriba, ajudou a parir este texto, mas tem certa fama de transgressor, vide o retrato antigo). 

Embora a ideia de que treinadores e treinadoras de futebol sejam, acima de tudo, pedagogos e pedagogas do esporte, soe pretensiosa, há um inconsciente coletivo, que alimenta a premissa quando, por exemplo, esses profissionais são chamados de ‘professores’ ou ‘professoras’. São aqueles e aquelas que ensinam a executar gestos, sob as bençãos do tecnicismo utilitário, com foco total e uno no produto final, a bola na rede, por isso, técnicos e técnicas. Que treinam, ensinam, mas, mais do que isso, educam – mesmo sem saber que o fazem. É justamente por esse ‘sem querer querendo’ que antes de oferecer a carta de alforria ao jogador e a jogadora, é preciso apresentá-las aos e às que ficam à beira do campo e da quadra tenham mais consciência do papel formativo que possuem.

Vale o contraponto: nossos pressupostos esportivo-pedagógicas não são ingênuas a ponto de excluir a importância de colocar a redonda na casinha, do resultado, da vitória e das técnicas para execução dos movimentos, que fique muito claro. Nossas problematizações envolvem, sim, o reconhecimento de que, todos e todas, somos vítimas das epistemologias da prática racionalistas, que assumem o dom e a empiria como condições fundamentais para o jogar bem futebol. E, via de regra, de uma educação bancária, que incute positividade para oprimir, que rotula atitudes e coisifica afetos para sufocar palavras, que faz do questionar, ato de indisciplina e fruto da desordem e caos.

Temos, então, um paradoxo: o que é o jogo, senão o puro suco do caos?

Há um ditado popular que diz mais ou menos assim: ‘de boas intenções, o inferno está cheio’. Desconfio que, em algum momento nessas conversas pedagógicas, delineamos que bons propósitos não asseguram, automaticamente, boas práticas. Porque se pressupormos algum compromisso com o processo formativo humanizado, parece importante nos atermos à qualidade epistemológica desses propósitos: eles levam em conta o que treinadores e treinadoras supõem ser o mais adequado à aplicação e subordinação de jogadores e jogadoras, como avatares de videogame? Ou dialogam com os saberes culturais e cognitivos e dissabores daqueles e daquelas que jogam? O sim pr’uma resposta e o não à outra, demarcam a não tão sutil diferença entre intenção e intencionalidade.

Trocando em miúdos: pedagogicamente falando, mais do que saber onde queremos chegar e como, precisamos conhecer os porquês de fazermos o que fazermos. São os motivos, sustentados pela nossa segurança epistêmica, os demarcadores de uma prática pedagógica munida de intencionalidades. Podemos pensar, por exemplo, em uma atividade com estafetas, até cones, à primeira vista materiais baluartes d’um treinamento tecnicista, para, a partir deles, estruturar ambientes de jogo e de aprendizagem que contenham o dinamismo, a complexidade e a lógica desafiadora que tarefas que fragmentam gestos e descontextualizadas, do ponto de vista tático, não dispõem.

A intencionalidade pedagógica adquire sentido, de fato, quando não objetifica relações. Reverenciar os saberes e identidades de cada jogador ou jogadora, o fato de que são sujeitos inacabados, imperfeitos e imprecisos e, mais importante, oferecer espaços de diálogo e escuta, ao seu modo, conferem a fadada – e menosprezada – humanização nas relações. Pasmem, tudo isso não significa que não possamos exigir empenho, fazer cobranças, buscar e primar pela vitória. Nunca foi sobre ser legal ou precaver displicência, como já dissemos por aqui. É fazer, no fim das contas, o mínimo: destilar empatia, respeitar o próximo como gente e partilhar experiências, sob um olhar plural e sensível ao mundo.

O fazer, portanto, não é mais importante que o saber-agir e o saber-ser: forjar aquilo que pensamos, propomos e somos, em ato consumado, desembocado pela didática. Por isso, dentre outras coisas, insistimos tanto (e continuaremos a insistir) na confissão crítica de crenças, concepções e valores que nos tornam aquilo que somos – e o amigo Hudson Martins sopra no ouvido para que não confundamos esses processos de ‘auto-identificação’ como sinônimos de filosofia de treinadores e treinadoras. Da comunhão entre teorias e práticas, emerge a práxis, palavrinha que fez parte de outras conversas, que representa a efetivação d’uma pedagogia, que seja entendida como ciência da prática educativa, também atrelada ao esporte e ao ato de ensinar como prática social complexa. 

O reconhecimento das limitações do outro, passa pela confissão honesta das nossas. Ao supormos que alguém, com a incumbência de liderar indivíduos sob pressão constante admita fraquezas, confrontamos ao que parte da cultura esportiva, embebecida por ideais corporativos, neoliberais e recheados de positividade requer. Algo que soa violentamente contraditório dado que o esporte é uma atividade essencialmente antropológica e uma das mais belas formas de expressão da condição humana: ‘exemplo de vitórias, trajetos e glórias’, mas também de dores, fracassos e impotências, moradas das ‘situações-limite’ – e são nelas, que constam os pontos de partida rumo à desnaturalização de nossas situações existenciais. Pelo esporte e, mais especificamente o futebol, resistimos, esperançamos e transcendemos.

O libertar do jogador e da jogadora por uma Pedagogia do Jogo que emancipa e humaniza, infere, assim, que treinadores e treinadoras desvelem suas próprias ontologias – ao desenvolverem suas possibilidades e potencialidades de existência – e axiologias, os motivos de suas ações enquanto valores, sejam eles morais, éticos ou estéticos, de modo a não reduzirem seus saberes ao campo das ideias ou ao cumprimento de protocolos meramente instrumentais e justificados pela tradição.

Na prática, a teoria não é outra, afinal: o ato de ensinar (futebol) consciente e não ingênuo exige que coloquemos nossas marcas e afetos nele.

Espero que tenha dado pro gasto, Paulo. Qualquer coisa, a culpa é tua – como sempre.

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Outro patamar em esporte coletivo?!

Crédito imagem – Site Atlético Mineiro/Reprodução

Contratações e reforços sempre causam impacto. A cultura do futebol brasileiro, individualista e em busca de heróis, necessita sempre de grandes personagens. Ou nem tão grandes assim, mas o que importa é ter personagem. Torcedores em geral gostam disso e dirigentes embarcam na onda para dar uma resposta a esse anseio. Travestidas de ‘oportunidade de mercado’, contratações são feitas sem muito critério, muitas das vezes baseadas no passado e não no presente do jogador e muito menos observando a forma como a equipe joga e as reais carências do elenco.

O termo da moda é ‘mudança de patamar’. Quando uma contratação de impacto é feita a pergunta que logo vem é: agora esse time está em ‘outro patamar’?!  Entendo o futebol pelo viés da complexidade. Ao invés dessa frase do patamar prefiro a “o todo é maior do que a soma das partes”. 

O resultado de um clube é fruto de tudo o que acontece nele. Cada departamento, como nutrição, psicologia, fisiologia, análise de desempenho etc, tem um tipo de participação no que é entregue dentro de campo. Claro que jogadores e comissão técnica tem um peso maior. Mas para a bola entrar é necessário muito mais do que bons jogadores. Ou já não vimos verdadeiras seleções de craques reunidas em um clube e um pífio desempenho dentro de campo?!

A visão global e integral do jogo não nos permite cair nessa história do patamar diferente com uma ou duas contratações. Seria o mesmo que dizer: Messi não é tudo isso porque não conquista na seleção da Argentina o que ganha no Barcelona. Ou ‘Cristiano Ronaldo já está acabado pro futebol já que na Juventus não ganhou a Champions League. Ou até mesmo que Neymar não tem bola para ser o melhor do mundo já que até aqui não conduziu o PSG a um título europeu.

Dentro de campo vale mais organização, ideias claras, conceitos bem treinados, do que simplesmente ter os melhores talentos. E fora de campo boa gestão, contas em dia, planejamento, estrutura física e recursos humanos também tem uma parcela brutal no resultado final. Tudo isso extrapola simplesmente contratar mais um jogador. Por melhor que ele seja!

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Princípios Pedagógicos – Quero ensinar futebol a todas e todos

Crédito imagem – Jogos estudantis da Bahia/Divulgação

No texto da semana passada escrevi uma frase, que se não lembrar de nada dele, lembre-se disso: todos podem ser felizes jogando futebol. Esta frase refere-se à vasta possibilidade de o futebol incluir as pessoas, de diferentes características, de forma funcional ao jogo, proporcionando prazer em jogar e se sentir parte de um grupo. Nesta semana, vamos utilizar esse mesmo raciocínio, mas buscando avançar ainda mais. Para além da natureza do jogo, vamos abordar a capacidade de um(a) professor(a) ou treinador(a) de incluir todas e todos do seu grupo, de maneira funcional, nas suas aulas ou treinos.

Não é raro, em escolas de futebol, encontrarmos turmas heterogêneas, em que convivem meninos e meninas, alguns mais habilidosos, outros menos, outras gordinhas, magrinhas, altos, baixas, de famílias com maior poder aquisitivo, outras de menor, de diferentes culturas, origens, credos etc. Os professores e professoras dessas escolas recebem tamanha diversidade para dar sua aula ou treino de 1h a 2h, aproximadamente, tendo ainda o desafio de fazer com que todos participem plenamente.

Se trocarmos o foco das escolas de futebol e formos para as aulas de educação física escolar ou para os projetos sociais, encontraremos o mesmo cenário de diversidade. Diante dessa realidade, temos ao menos duas posturas opostas. A primeira do(a) professor(a) que não acredita que todos têm a capacidade e o direito de aprender futebol (ou qualquer modalidade esportiva). E a segunda em que o(a) professor(a) não só acredita que todos têm a capacidade e o direito de aprender futebol, mas também encara como o seu dever fazer com que todos se insiram plenamente na aula, sendo estimulados a se desenvolverem de maneira equivalente.

Quando o(a) profissional escolhe o primeiro caminho, subjetivamente ou declaradamente, separa a turma entre os seus preferidos, aqueles com maiores conhecimentos prévios para a prática do futebol, e o restante da turma, que recebe o papel de coadjuvantes naquele ambiente de aprendizagem. A consequência dessa escolha é uma menor quantidade e qualidade de estímulos e feedbacks de apoio, instrução ou correção àqueles do grupo preterido. Essa postura, certamente, prejudicará a potencialidade desse grupo de se desenvolver com as aulas ou treinos, tanto para o futebol, quanto para a vida fora dele. Ela pode ter impactos negativos sérios para essas crianças e adolescentes, já que se sentirão menos capazes, rejeitados e desrespeitados. Por outro lado, esse(a) profissional, ao olhar apenas para o grupo de alunos(as) “talentosos(as)”, pode sobrecarregá-los(as) com uma carga excessiva de cobrança por desempenho, ignorando uma série de outros conteúdos importantes para a formação humana integral.

No entanto, se o(a) professor(a) decidir pelo segundo caminho, possivelmente ele(a) terá mais trabalho e terá que ser um(a) melhor profissional, pois olhará para todos igualmente, cada um com suas potencialidades e limitações, sempre buscando dar os estímulos e feedbacks necessários para que todos consigam se desenvolver. Essa é postura que busco aplicar em minhas aulas e treinos. Ao lado do Princípio Pedagógico de “ensinar a gostar de futebol”, discorrido na semana passada, há outro de “ensinar futebol a todos”*, que ecoa em minha consciência sempre que me levanto para trabalhar.

Desafio aceito! Quero ensinar futebol a todas e todos! Mas e agora? Que estratégias posso utilizar para conseguir fazer com que as diferenças sejam aceitas e complementares ao ambiente de aprendizagem de minha aula ou treino? O pilar básico que tento construir é criar uma cultura de colaboração e respeito às diferenças. Isso será importante para todas as atividades e para a vida das crianças e adolescentes. Vivemos em uma sociedade diversa. Se os meus alunos e alunas aprenderem a respeitar essa diversidade dentro do nosso ambiente de aprendizagem, eles e elas terão mais condições de transferir esse comportamento para além desse ambiente. Essa cultura, para ser fortalecida, deve ser alimentada em todas as oportunidades, com o diálogo e atitudes que demonstrem a importância de se respeitar o outro com as características que tiver, da mesma forma como os outros devem respeito a você, com as características que que lhe são próprias. 

Em paralelo a essa intervenção mais direta ao objetivo da inclusão e respeito às diferenças, existem outras estratégias eficazes para se garantir que todos(as) os(as) alunos(as) recebam estímulos adequados aos seus respectivos desenvolvimentos. Um dos caminhos pedagógicos interessantes para isso é dar problemas possíveis de serem solucionados por eles. Costuma funcionar fazer com que a criança sinta, rapidamente, que é capaz de fazer coisas que não sabia que era. Desta forma, ela aprende a sensação de sucesso relacionada ao futebol. No entanto, sabemos que o esporte não se faz apenas de experiências de sucesso. Nem toda hora ela irá conseguir alcançar o objetivo traçado. Há tarefas que são mais desafiadoras, ou mesmo em atividades competitivas, ela pode perder para a outra equipe ou criança adversária. O que fazer para a criança não perder o seu interesse em continuar naquele ambiente de aprendizagem, mesmo quando se depara com derrotas e fracassos?

É preciso que ao longo da aula ou treino haja uma enorme possibilidade e variedade de sucesso. Jogos e brincadeiras variadas, individuais e coletivas, com diferentes objetivos e funções para ela exercer, com revezamento de funções, demandas motoras etc. Enfim, são estratégias necessárias para que todos vivenciem diversas experiências, entre elas algumas exitosas, outras não. Essa pluralidade de experiências lúdicas facilita à criança e ao adolescente se inserirem de maneira funcional no ambiente de aprendizagem. Além de promover um fator determinante para a aprendizagem, que é o volume de repetições de movimentos em contextos variados, você também estará proporcionando, se trabalhar com jogos e brincadeiras, a experiência de aprendizagem integral à criança e ao adolescente, que irão lidar com as emoções, com situações-problemas, com as relações interpessoais etc.

Soluções para superar o problema de incluir a todas e todos na aula ou treino não faltam. Você deve saber várias delas, se compartilha desse mesmo princípio pedagógico. Portanto, é uma questão de querer, se preparar e exercer o direito de todos(as) os(as) alunos(as) e atletas de participarem plenamente do ambiente de aprendizagem liderado por você. Mas antes de encerrar este texto, gostaria de deixar a seguinte reflexão: o Princípio Pedagógico de “ensinar futebol a todos” se aplica apenas às turmas de iniciação que normalmente há grupos heterogêneos? Em categorias de base também não há diversidade? Como proporcionar que todos se sintam parte importante do grupo em uma equipe principal do futebol de alto rendimento? Quais são as estratégias para esses ambientes?

Penso que esse princípio pedagógico deve ecoar na consciência de todos os educadores que levantam para trabalham com futebol! Qual a sua opinião?

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Como será o futebol das próximas gerações

Crédito imagem – C.Gavelle/PSG

Tivemos no final da última semana a divulgação de possibilidades de mudanças que a FIFA estuda implementar no futebol para os próximos anos. Não é nada oficial e até por isso nem vou entrar no mérito dos pormenores, como duração das partidas, número de substituições, o cronômetro ser paralisado quando a bola não estiver em jogo etc. Mas o que fica como positivo para mim é a entidade máxima do futebol estar atenta a maneiras de tornar o jogo mais atrativo, principalmente pensando nas próximas gerações. O futebol é algo inserido na sociedade. Se ela muda, o jogo tem que acompanhar. É nítido e notório que os mais jovens não consomem futebol como os mais velhos. Meu filho de três anos tem acesso a diversas fontes de entretenimento que eu não tinha na minha infância. Eu vivia inserido quase que ‘full time’ no jogo. Seja praticando, falando sobre, lendo, ouvindo etc. Porém ele já não. A agilidade dos games, dos celulares, das redes sociais pode tornar massante acompanhar um jogo de aproximadamente cem minutos (com acréscimos) sem nenhum gol acontecer.

A discussão hoje no Brasil é como fisgar os mais jovens para continuar torcendo pelos nossos clubes. A paixão que passa de geração para geração, de pai para filho, capta e convence apenas uma parcela. Para outras é preciso entregar algo mais, senão eles irão consumir e gerar receita para o Barcelona, Paris Saint German, Manchester City e etc. Ou o número de camisas desses clubes nas ruas é o mesmo de vinte anos atrás?!

Se nada for feito, no médio e longo prazo a discussão não será mais qual clube do mundo vende mais produtos no Brasil. E sim como criar uma nova geração apaixonada por futebol, que prefira jogar e consumir a modalidade ao invés de ficar no videogame, nas series e nas centenas de outras formas de diversão que serão criadas, mas que hoje nem fazemos ideia. Mais da metade dos aplicativos que tenho hoje no meu aparelho celular não existiam há cinco anos. Veja a velocidade das coisas!

A FIFA está atenta a tudo isso. Até porque para a própria indústria funcionar o torcedor é a parte mais fundamental. Sem ele nada gira! Portanto, por mais que eu seja tradicional e conservador na essência do jogo, tenho que admitir que algo precisará ser feito. Para que meu filho e meus netos tenham a mesma paixão que eu sempre tive por futebol. O mundo é outro e não irá parar de mudar!

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Afinal, torcer pela Argentina faz de nós não-patriotas?

Crédito imagem – Amanda Perobelli/Reuters

Não torcemos pela Argentina contra o Brasil na final da Copa América. Também não torcemos pelo Brasil. Aliás, nem mesmo acompanhamos a Copa América, pois nos faltou interesse, mas não posicionamento crítico. De fato, não sentimos essa seleção como a nossa. Ela não nos representa. Colômbia e Argentina negaram-se a sediar esse evento esportivo, pelo risco de agravamento da pandemia do novo Coronavírus. A CBF decidiu correr o risco. Os atletas decidiram correr o risco. E o governo federal decidiu correr o risco, certamente, dentre outros motivos, por acreditar na festa do presidente da república com a taça de campeão. Fomos alertados do risco e, além dos inúmeros novos infectados, já há indícios de que uma nova cepa do vírus chegou ao nosso país em decorrência da realização da Copa América de Futebol, talvez, da Colômbia ou do Equador.

Milhões de brasileiros torceram contra a seleção e festejaram a vitória da Argentina. Acreditamos que a bronca não era exatamente contra a seleção brasileira, mas com sua identificação com o momento político atual, mais exatamente com Jair Bolsonaro, dado seu empenho por trazer a Copa América para o Brasil. Talvez esses milhões de brasileiros tivessem postura diferente caso os famosíssimos e milionários jogadores brasileiros tivessem um gesto de empatia e solidariedade com a tragédia que se abate sobre nosso povo. Mais de 500 mil mortes talvez merecessem, pelo menos, uma palavra de nossos craques. Quem sabe, fruto de nossa ingenuidade, continuaremos aguardando alguma manifestação sobre a política insana e genocida de Bolsonaro vinda de algum jogador mais crítico e esclarecido. Com exceção de Richarlison, o único explicitamente sensível ao que vivemos atualmente, nada, nem um gesto, nem uma palavra.

Há quem lembre que em 1970 vivíamos situação política até pior que esta que enfrentamos hoje; pessoas sendo presas, torturadas e mortas pela ditadura e, ainda assim, torcemos como loucos pela seleção brasileira de Pelé, Gerson e companhia. Porém, havia enorme identificação entre os jogadores e o povo brasileiro; todos os jogadores atuavam no Brasil e os acompanhávamos no dia a dia, eram nossos ídolos em nossos clubes do coração. Entre os atuais jogadores da seleção, somente três atuam no Brasil e sequer disputaram o jogo final. Não convivemos com eles, alguns torcedores nem os conhecem, porque não acompanham os campeonatos de outros países.

Portanto, torcer contra o Brasil ou ser indiferente à Copa América não é falta de patriotismo, mas sim, falta de identificação do povo com essa seleção que não demonstrou a mínima empatia conosco. Ser patriota, não é só torcer pela seleção brasileira, mas também, e principalmente, solidarizar-se com as centenas de milhares de mortos em decorrência do Covid, com todos que perderam seus familiares e amigos pelo boicote sistemático à vacina e aos cuidados básicos de prevenção à doença, com os profissionais de saúde que se arriscaram e sacrificaram suas vidas para salvar as nossas, com os que voltaram ao patamar da miséria (vítimas do desemprego e da fome), com os que sofrem abusos morais e sexuais, com os que sofrem preconceitos. Não basta vestir a camisa da CBF, colocar a mão no peito e cantar o hino nacional para ser patriota.      

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Princípios Pedagógicos – Como aprendi a gostar de futebol

Crédito imagem – Jogos estudantis da Bahia/Divulgação

O futebol é, desde cedo e para sempre, um momento esperado para mim. Quando criança, sempre buscava oportunidades para jogar bola. Enquanto adulto, da mesma forma, embora seja mais difícil incluí-lo na minha rotina. Contudo, também espero atentamente os jogos da semana para projetar naqueles jogadores e jogadoras o prazer que eu tinha – e ainda tenho – em jogar futebol. De onde será que veio essa paixão pelo futebol? O que tem nessa modalidade esportiva que me atrai tanto? Essas reflexões me ocorreram por algum tempo, por isso decidi escrever sobre este tema.

Você já se perguntou, se for esse o seu caso, como aprendeu a gostar de futebol? Como foram as suas experiências para que você tivesse o sentimento que tem, jogando ou assistindo a esse esporte? Vou contar um pouco sobre o que se passou comigo nesse sentido para depois refletirmos juntos.  

O futebol sempre esteve presente na minha vida. Meu pai, apaixonado por futebol, me incentivou desde cedo com experiências relacionadas a esse jogo, seja com nosso time do coração, seja brincando juntos, me levando a escolas de futebol etc. Desde que nasci o futebol foi uma constante para mim. De maneira tão forte que minha primeira palavra, segundo contam meus pais, foi o nome de um jogador do meu time daquela época. Entre tantas experiências, uma das primeiras e principais coisas que me encantaram no futebol, certamente, foi a bola. Ela foi meu primeiro e predileto brinquedo durante toda a minha infância e adolescência. A forma como ela me desafiava a controlá-la e o prazer que sentia quando eu conseguia realizar os movimentos que imaginava com ela, fez nascer uma forte relação de amizade e companheirismo entre nós. Mais para frente, quando eu a entendia melhor, parecia que ela me entendia também, e só ficava me esperando para brincarmos e sermos felizes juntos.

Essa relação de amizade e de intimidade que tinha com a bola era transportada para o jogo coletivo. Quando acontecia o momento mágico de juntar uma turma de amigos para jogar bola, e, enfim, o jogo acontecia, eu a queria sempre por perto, para colocar em prática tudo que brincávamos só nós dois. Todos os movimentos que conseguíamos realizar numa brincadeira somente entre nós dois, eu e a bola, queríamos que acontecesse com a mesma mística no jogo coletivo. Dribles, chutes, domínios, lançamentos eram alguns deles, que, dentro do imaginário infantil, estavam sendo praticados em um estádio lotado, com ídolos como companheiros e adversários, uniformizados para um grande clássico entre o meu time do coração e o seu maior rival, isso quando eu não vestia a camisa da seleção.

Muitas vezes esse imaginário estava presente nos jogos com os amigos também, como um imaginário coletivo em que todos estavam vivendo os seus sonhos naquela partida. Tem como essa experiência não ser memorável?

Havia situações em que eu e meus amigos jogávamos contra conhecidos que moravam por perto, mas não faziam parte da nossa turma. Nesses jogos, a competitividade era ainda maior. Queríamos ganhar de toda forma. Nossa existência se justificava toda ali, naquele momento. E essa entrega plena para o jogo nos fazia viver emoções diferentes daquelas habituais que vivíamos no nosso cotidiano. Entrávamos em estado de jogo. O jogo proporcionava vivenciarmos do êxtase à frustração profunda, por ter ganhado ou perdido; do alto prestígio à humilhação, por ter exibido grandes habilidades ou ter sofrido um drible desconcertante; do cair ao se levantar, por estar perdendo e conseguir reverter o placar a tempo; do companheirismo à rivalidade, por estarem, as relações de cooperação e oposição, acentuadas pelo desejo intenso da vitória; da sensação de ter dado tudo de si e saber que faria tudo de novo, pois aquilo fazia sentido. Todas essas emoções podem ser geradas em um jogo de 30 minutos, por exemplo.

Quanto tempo seria necessário viver a nossa vida cotidiana para vivê-las com tamanha intensidade? Teríamos que esperar uma promoção no emprego para viver um êxtase? Precisaríamos conquistar uma carreira sólida para sentirmos o sabor do prestígio social? Precisaríamos adoecer e depois vencer a doença para sentirmos o que é levantar-se de uma queda? Precisaríamos formar uma família para lutar juntos contra as adversidades da vida para percebermos o companheirismo? Precisaríamos sentir que valeu a pena todo o esforço só depois de uma longa e exitosa jornada? O jogo de futebol, para mim, apresentou todas essas emoções. Aprendi a lidar com elas a partir dele. O jogo de futebol é quase como uma máquina de condensação do tempo, que nos faz viver emoções tão intensas quanto os momentos mais marcantes da vida, só que em alguns minutos. Claro que essas emoções, para mim, são geradas mais intensamente com o futebol, mas outras pessoas, apaixonadas por outro esporte, podem senti-las também a partir dele. Essa é uma primeira razão de eu gostar tanto de futebol. Ele me faz viver emoções que, na vida cotidiana, são raras com tamanha intensidade.

Outro ponto importante que me faz ver o futebol como um fenômeno apaixonante, é a sua capacidade de incluir pessoas de maneira funcional. Se pensarmos no jogo de futebol de maneira funcional, isto é, pensando em vencê-lo, vamos dar de frente com a lógica do jogo. Isto é, os meios necessários para se construir as soluções para os problemas que emergem no jogo. Vamos utilizar como referência, Claude Bayer (1994) e os seus princípios operacionais para denotar os grandes problemas a serem resolvidos no jogo de futebol. São eles:

Fonte: Adaptado de Bayer (1994, p.46)*

Esses são os grandes problemas a serem resolvidos no jogo de futebol para vencê-lo. Como cada equipe e cada jogador(a) irá resolvê-los? Depende de uma série de fatores, inclusive as características individuais de quem joga! O fato é que existem inúmeras soluções possíveis. E o interessante é que, no futebol profissional, que constitui um grupo seleto de pessoas – por consequência, excludente – não conseguimos encontrar um perfil muito bem definido de jogadores e jogadoras. Ao olhar para as características individuais de cada atleta, encontraremos pessoas altas, baixas, mais leves ou mais pesadas, mais rápidas e mais lentas, mais resistentes e menos resistentes, irreverentes e sérias, que gostam de ações mais arriscadas e outras que preferem ações mais seguras, mais habilidosas com a bola e outras menos. Enfim, no futebol profissional temos exemplos de pessoas de diferentes perfis. Isso quer dizer que é possível cumprir bem a lógica do jogo de diferentes formas, com diferentes características individuais. Se transportarmos isso para o futebol como lazer, encontremos ainda mais diversidade. Isso é uma característica sensacional do futebol, que tem o poder de fazer as pessoas se sentirem funcionais em relação a um grupo. Quem não tem aquele amigo ruim de bola, mas que faz parte da turma de amigos e sempre joga junto? Seja no gol, na defesa ou no ataque, ele arruma um jeito de ajudar, ser funcional para a equipe e se divertir com isso. Esse aspecto inclusivo do futebol agrega pessoas e o torna ainda mais apaixonante. Todos podem ser felizes jogando futebol.

Essa última mensagem eu tenho muito presente em mim, e busco sempre passar para as turmas de alunos ou grupo de atletas que trabalho. É um princípio pedagógico que aprendi com o Professor João Batista Freire (2006)**. A paixão pelo futebol é algo que faz parte de mim. Portanto, tento despertar em todas as pessoas com as quais eu me relaciono, especialmente enquanto professor ou treinador de futebol, a beleza e o fascínio que vejo nesse jogo.

Muitas crianças e adolescentes de hoje não tiveram a mesma experiência positiva e constante relacionada ao futebol que eu tive. Por isso, uma mensagem aos professores e treinadores de futebol: antes de se preocuparem em passar muitos conteúdos técnico-táticos para seus alunos e atletas, eu indicaria, se me permitem, incluir nas suas aulas ou treinos a paixão que vocês têm por este esporte.

Referências Bibliográficas:

* BAYER, C. O ensino dos desportos colectivos. Lisboa: Donalivro, 1994.

** Freire, João Batista. Pedagogia do futebol. 2ª ed. Campinas: Autores Associados, 2006.

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A queda de Rogério Ceni no Flamengo

Crédito imagem – Alexandre Vidal/Flamengo

A saída de Rogério Ceni do Flamengo é mais um capítulo que nos ensina e nos faz refletir sobre a complexidade que envolve o futebol de alto rendimento. Se dentro das quatro linhas as coisas já são complexas, aleatórias e imprevisíveis, já que a decisão de um jogador desencadeia uma ramificação gigantesca de novas situações, o que dizer então dos bastidores, das relações, das entranhas de um clube?! 

É verdade que o Flamengo não vinha jogando um futebol de encher os olhos. Mas estão mais do que óbvios que os motivos que determinaram a queda de Ceni foram extra-campo. Aliando sempre conhecimento à prática, há um consenso no mundo acadêmico de que o treinador de sucesso deve ter três competências muito bem apuradas: a técnica, a interpessoal e a intrapessoal.

A competência técnica diz respeito a questões de campo: ideias táticas bem elaboradas, metodologia eficaz de treinamentos, boa capacidade de leitura e uma correta intervenção no jogo e etc. A interpessoal trata das relações. Tudo o que envolve o relacionamento do treinador com as pessoas ligadas ao trabalho: dirigentes, jogadores, funcionários, imprensa e torcida. E por fim a competência intrapessoal é uma reflexão crítica do profissional sobre a própria prática e a consequente melhoria e aperfeiçoamento com base nos erros e acertos percebidos. É interessante notar que duas entre três dessas habilidades são comportamentais. E elas são maioria porque justamente são as mais determinantes para o sucesso. Claro que para chegar no alto nível um treinador precisa ter bons conhecimentos de campo. Mas até mesmo o jogar da equipe está relacionado a uma boa liderança do técnico, já que se a comunicação dele com os jogadores não for assertiva nem mesmo a melhor ideia de jogo do mundo será plenamente absorvida. Ou se a motivação e a visão de futuro dos atletas não estiver em dia será difícil ter o melhor de cada um.

Rogério Ceni tem uma curta, porém já vitoriosa carreira como treinador. Que essa saída do Flamengo e os flagrantes problemas de relacionamento que ele teve aflorem ainda mais suas habilidades inter e intra pessoais. Partindo do pressuposto de que não existe fracasso e sim feedback, Ceni tem bons argumentos para refletir a voltar ainda melhor.

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Brasil entre as melhores seleções do mundo, sim!

Crédito imagem – Lucas Figueiredo/CBF

Com a disputa da Copa América simultaneamente a Eurocopa as comparações são inevitáveis. Porém, mais do que falar dos gramados, da eficiência da arbitragem e até da gostosa energia que os torcedores já trazem de volta ao Velho Continente em contraste com as arquibancadas que seguem vazias por aqui, vale falarmos de bola, do jogo em si. E pelo futebol apresentado a seleção brasileira não deve em nada para nenhuma potência européia.

Por mais que eu ame estudar e entender tudo de tática, no final das contas o que vai decidir jogos e campeonatos é a técnica. É a qualidade do jogador. E todos os nossos principais atletas atuam no mais alto nível. Neymar está acostumado a driblar os principais zagueiros do mundo. Casemiro tem experiência de sobra em marcar os melhores atacantes. Alison e Ederson já pegaram bolas indefensáveis nas competições mais difíceis e importantes dos últimos anos. E por aí vai…por que então esses jogadores não estariam prontos para uma Copa do Mundo?

Reconheço que nos clubes todos eles estão inseridos em outro contexto. Há uma cultura por trás. E também o trabalho de grandes treinadores potencializando pelo coletivo todas as individualidades. Entretanto chego aqui em outro ponto: Tite não está atrás de nenhum outro técnico de seleções. O trabalho da atual comissão técnica da seleção brasileira está conectado com o que há de mais moderno em todos os aspectos. Desde a parte médica, passando pela tática, conceitos de jogo, análise de desempenho, treinamentos e etc. Há cinco anos, Tite tem conseguido uma hegemonia no continente que deve ser destacada. Se os confrontos contra os europeus inexistem, a seleção brasileira vem se impondo de maneira convincente sobre todos os adversários que encontra.

Copa do Mundo é um torneio curto. São sete jogos para ser campeão. E que fique bem claro: uma coisa é a Copa, confronto de “times” contra “times”. Outra coisa é a gestão do futebol como um todo. Organização, calendário, gestão e etc. Nisso, sim, estamos anos luz atrás. E mesmo se o Brasil foi hexa campeão no Qatar não teremos o melhor futebol do mundo. Apenas quer dizer que o “time” de Tite foi eficiente em uma competição que dura pouco mais de um mês.  E essa sexta estrela pode sim estar na nossa camisa no final do ano que vem. No quesito bola ainda estamos no bolo do que há de melhor no mundo.

*As opiniões de nossos parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol