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As vaias nos Estaduais: apenas pressa?

Disputado no último sábado (27), o clássico entre Flamengo e Vasco, válido pelo Estadual de futebol do Rio de Janeiro, não teve gols. Não chamou atenção por dribles, jogadas de efeito ou mesmo pela disposição. No entanto, há um motivo para o jogo ter sido extremamente emblemático: foi a partida em que uma parcela considerável da torcida rubro-negra demonstrou ter perdido totalmente a paciência com Éverton Ribeiro e Rômulo, dois dos reforços mais caros que desembarcaram na Gávea nas últimas temporadas. Ambos foram vaiados por torcedores que queriam mais espaço para atletas como Lucas Paquetá e Ronaldo, que atuam nas mesmas posições dos medalhões criticados.
Rômulo chegou ao Flamengo no início de 2017, e Éverton Ribeiro foi contratado meses depois. Ambos voltaram ao Brasil sob grande expectativa – eram postulantes a vagas na seleção quando foram negociados por Cruzeiro e Vasco, respectivamente. Pelo que fizeram anteriormente em suas carreiras e pelos valores que movimentaram na ida e na volta ao país, preencheram sonhos de muitos rubro-negros.
As duas negociações têm a ver com um momento positivo das finanças do Flamengo. A diretoria vigente conseguiu reduzir consideravelmente a dívida, aumentar o potencial de investimento do clube e reforçar o elenco com jogadores de um nível alto de custo.
Entretanto, a chance de ir ao mercado e brigar por nomes de peso fez com que o time carioca fechasse um pouco os olhos para seu próprio DNA. A reação dos torcedores ao rendimento claudicante dos reforços tem muito a ver com o time que eles gostariam de ver em campo: um perfil mais aguerrido, mais ligado às raízes. Em outras palavras, os rubro-negros podem até se empolgar com atletas que recebem salários milionários, mas ainda preferem jogadores forçados no próprio clube e que realmente os representem em campo.
Os torcedores não vaiaram Rômulo e Éverton Ribeiro apenas porque os reforços ainda não se encaixaram (e essa falta de encaixe pode ter inúmeras razões). Vaiaram porque o time que eles gostariam de ver em campo teria Ronaldo, Lucas Paquetá e outros garotos revelados pelo próprio Flamengo, identificados com o clube e com o Rio de Janeiro.
Os apupos também refletem um aspecto cruel do atual calendário do futebol brasileiro. Os torneios estaduais, do jeito que estão posicionados, funcionam apenas como usinas de pressão e de rótulos. O primeiro mês de 2018 ainda não acabou, mas já serviu para criar craques e determinar nomes desprezíveis.
No Santos, por exemplo, o menino Rodrygo, de 17 anos, precisou de poucos minutos em campo para se tornar o próximo raio da Vila. Montagens já começaram a circular entre torcedores com fotos que simbolizam passagens de bastão entre Pelé, Robinho, Neymar e o novo candidato a jogador.
Em contrapartida, Rodrigão precisou de apenas alguns jogos da temporada para ratificar a desconfiança que a torcida tinha com ele. O centroavante já foi eleito como vilão e ponto fraco de um elenco com tanto a se acertar na atual temporada.
Kazim (Corinthians) e Borja (Palmeiras) também já convivem com pressão a despeito de terem feito poucos jogos na temporada. E Felipe Melo, que até outro dia era uma incógnita na equipe alviverde, virou uma das grandes armas do meio-campo montado por Roger Machado.
A sensação de que o futebol brasileiro tem vivido de certezas inócuas e voláteis, por mais paradoxal que isso seja, tem sido ainda mais clara numa temporada em que os principais times do país não tiveram tempo para se preparar adequadamente. O futebol pode evoluir em diferentes aspectos, mas nunca vai atingir um patamar mais alto se não respeitar as necessidades básicas de aspectos físicos e técnicos.
Num calendário apertado pela Copa do Mundo e por estaduais que teimam em não diminuir, a primeira fase da temporada serve apenas para que os grandes times do país sejam testados em condições inadequadas e convivam com pressão que não faz nada bem ao trabalho.
Contudo, não se pode confundir a pressa que os estaduais geram com um descolamento entre o projeto dos clubes e o anseio de seus torcedores. O processo de comunicação deve lutar constantemente com esses exageros do Brasil no início do ano, mas também precisa considerar a importância de entender o que o público quer. Os flamenguistas são apenas um exemplo disso.

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Poluição visual

O cenário não é favorável, sem sombra de dúvidas. Qualquer patrocínio é bem-vindo e em nome destes recursos financeiros, as marcas aparecem nos lugares mais diversos: na frente, nas costas, nas mangas, nos ombros, na frente mais em cima…nas axilas! O escudo do clube fica imperceptível e às vezes até mesmo a cor do uniforme inidentificável, em função de dezenas de patrocinadores, apoiadores ou simples anunciantes.
Conseguir patrocínio não é tarefa das mais fáceis, sem dúvida. Décadas de má gestão fizeram com que a administração do futebol no Brasil gerasse desconfiança por parte da iniciativa privada. Isso somado a um cenário econômico nem sempre favorável, torna a conquista de uma empresa parceira ser celebrada sob o título de “salvadora da pátria”. Muitas vezes.
Não é este o caminho. Existem inúmeras opções de expor a marca de um patrocinador nas propriedades do clube (uniforme, placas de publicidade, estádio, redes sociais e conteúdo de mídia). E tudo isso é construído com base em um plano de comunicação dentro do planejamento estratégico cujas ações tem base na missão, visão e valores da instituição, tudo isso elaborado e executado por uma equipe de gestores do esporte.
Tudo isso em nome da preservação e valorização de dois dos elementos mais importantes para um clube: seu distintivo e uniforme. É o que o dinheiro não compra. Os elementos através dos quais a instituição será reconhecida Brasil adentro e mundo afora, facilmente de serem identificados. Simbolicamente, um escudo especialmente preservado na camisa e em escala maior que os patrocinadores, significa a instituição está acima dos interesses comerciais e financeiros. Sem falar que visualmente é bem mais agradável.

Camisa do Santos Laguna/MEX da temporada 2010/2011, repleta de patrocinadores. Imagem: Divulgação

 
Com tudo isso, é inegável que os patrocinadores são importantes e peças fundamentais para o sucesso de um clube de futebol. Para uma potencialização da exposição das suas marcas e valorização da instituição esportiva, é preciso planejamento de comunicação, haja vista as infindáveis formas de veiculação dos produtos do clube (jogos, treinos, plantel, estádio, história), para além da televisão.

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Convencendo torcedores a entrar mais cedo

Um dos mais sérios problemas do match day é o acesso ao interior do estádio. Não pela falta de catracas, mas porque a grande maioria dos torcedores resolve entrar faltando de 10 a 15 minutos para o início da partida. O motivo varia entre o hábito de deixar tudo para o último momento e o desejo de aproveitar um pouco mais as liberdades e facilidades que existem do lado de fora, causando então um efeito funil, tumultuando os acessos, gerando empurra-empurra, insegurança no público e contribuindo para que aproveitadores, sem ingresso, se comprimam à entrada na tentativa de fazer com que o organizador ou a PM abram os portões para esvaziar esse “coágulo”.
Nos últimos quatro anos, acompanhando match days, no Brasil e na Europa, testemunhei vários tipos de ações que mitigavam esse problema, mas nunca encontrei nenhuma solução isolada que o resolvesse, o que me faz concluir que, como muitas das vezes quando enfrentamos uma dificuldade, não há uma solução mágica que resolva de pronto, mas sim um conjunto de soluções que diminuem ou solucionam a questão.
No caso do acesso ao estádio observei algumas excelentes ideias que funcionaram pontualmente; criei e implantei outras várias quando no Flamengo, e pensei em algumas que ainda não foram testadas, mas creio que se combinarmos todas essas possibilidades, teremos um acesso muito mais organizado.
Se os torcedores se sentem confortáveis e atraídos pelo que há do lado externo do estádio, precisamos mimetizar essa estrutura internamente em todos os graus.
Eles ficam nos bares ao redor, tocando, cantando e bebendo. Então se faz necessário ter bares e restaurantes simples, ou até botecos, no perímetro interno, com preços iguais ou até menores aos que encontramos do lado de fora, preços esses que podem ser majorados faltando cerca de 15 minutos para começar a partida principal.
Sim, digo partida principal pois um outro atrativo que precisamos voltar a ter é a preliminar, que pode ser um jogo do mesmo campeonato entre times de menor orçamento, das categorias de base, ou ainda partidas de másters, combinados ou entre sócios torcedores, com duração menor.
Além disso, os torcedores que entrarem até 30 minutos antes da partida principal podem receber um voucher, pessoal e intransferível, com desconto para algum jogo que o mandante queira promover, para produtos licenciados do clube ou mesmo para bebida ou lanches durante o jogo.
Já no anel interno, aconteceriam eventos pré-jogo com a presença de ídolos, ações de patrocinadores e sorteio de brindes, que envolveriam desde a bola do jogo, uniforme do jogador, até ir a saída do vestiário pós jogo e tirar foto com ídolo entre uma série de outras possibilidades.
Na parte externa, como já citado em outro texto, liberar o acesso ao raio de influência do estádio somente a torcedores com ingressos, sendo que as bilheterias devem ser colocadas em containers blindados e climatizados fora desse raio, e também a implantação de certas “dificuldades” para quem postergar sua entrada para os últimos 15 minutos, como delimitação por grades mais distante, maior zig zag e afunilamento do gradeado (curral).
Tudo isso deve ser amplamente comunicado, deixando claro como será o funcionamento dos acessos, evitando surpresas
Creio que se focarmos nas atrações, facilidades e semelhança entre ambiente e preços de bares e restaurantes interno e externo, teremos um ótimo fluxo pré-jogo. Minimizando os problemas de acesso dos últimos 15 minutos.
http://m.extra.globo.com/esporte/flamengo/flamengo-aprova-volta-ao-maracana-mas-quer-convencer-torcedor-entrar-mais-cedo-20350485.html

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Entre o Direito, o seu clube e o atleta depois da base

Bem-vindos ao fechamento do Especial Copinha 2018 sobre o futebol de base aqui no nosso “Entre o Direito e o Esporte”. Hoje vamos conversar um pouco sobre mais uma maneira que o seu clube tem para ter um retorno quando investe na formação de um jogador: o “eu voltei” do futebol de base. Vamos começar com um resumo desse mês para chegar na origem do “mecanismo de solidariedade” até explicar o que é e como funciona.
Vamos lá?
A base do nosso futebol não é brincadeira. De lá saem os atletas que jogam pelos nossos times em todo o Brasil, de lá saem os craques que representam o nosso país na seleção canarinho, de lá saem os jogadores que são transferidos e dão retorno para o seu clube quando não conseguem mais fazer a diferença em campo – seja por uma falta de salário aqui, umas férias no Peru ali, ou até falta de qualidade técnica mesmo.
Afinal, entre o Direito, o Esporte e a Base, o seu clube tem que pagar as contas também.
E os clubes conseguem esse dinheiro quando investem na formação do jogador. O futebol de base é a base do nosso futebol. E como a gente tem conversado nesse último mês, os clubes que investem na formação de um jogador precisam que o departamento de base seja sustentável. Ou seja, que a base não gaste mais dinheiro do que ganha – como tudo deveria ser, né?
É por isso que falamos sobre o Certificado de Clube Formador (CCF) da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que serve como um “manual do bom clube” de base. Esse CCF é uma maneira de proteger o seu clube em troca da sua base fazer o “mínimo do mínimo” e tratar a criança como pessoa e como jogador durante o “período de formação” dela.
É aí que o seu clube pode assinar aquele primeiro contrato (de formação) com o jogador, e receber aquele primeiro respiro financeiro quando tem planejamento. A indenização por formação é um dos jeitos de ter dinheiro em caixa com o futebol de base. É uma das maneiras de deixar a base do nosso esporte autossustentável. Só que não é a única.
Imagina que em 10 de janeiro de 2008 um menino de 15 anos estreava na Copa São Paulo de Futebol Junior – a “Copinha”. Esse menino dez anos atrás já estava na capa do jornal que dizia que ele “estreia e mostra talento”. Esse menino já era tratado como joia pelo seu time e era apadrinhado pelo “Rei das Pedaladas”. Esse menino, segundo os jornais, já tinha uma multa de 25 milhões de dólares em um contrato (de imagem) com o clube dele. O clube dele via o menino como o próximo Pelé até.
O resto da história a gente sabe: o menino virou jogador, o jogador virou ídolo, o ídolo virou craque. E o craque foi ser rei em outro lugar. Foi ser rei em outro país. Foi ser rei em outro continente. E para entender melhor como essa história ainda afeta o seu clube formador, a gente tem que conversar sobre o mecanismo de solidariedade no futebol.
A gente, torcedor, fala que o jogador hoje em dia não tem amor pela camisa e vai para fora só para ganhar mais dinheiro. A gente, torcedor, fala que lá atrás o que valia era esse amor pela camisa e que aquilo que era futebol. A gente, torcedor, fala que o futebol no Brasil hoje é mais fraco por isso. Não importa se isso é verdade, certo, ou mesmo justo, e, sim, que lá atrás existia o “passe” e hoje não.
Resumindo décadas de história em uma linha: um jogador belga conseguiu romper os “ferros” do futebol nos anos 90, e isso mudou todo o sistema de transferência de atletas no mundo. E um de seus reflexos aqui no Brasil foi o fim do “passe”. A ideia desse “passe” era que o jogador continuava “preso” ao seu clube mesmo que não fosse mais empregado e só era “liberado” quando o seu clube dava o “passe” para outro. Hoje não é mais assim, e os jogadores estão livres quando seu contrato acaba. Aliás, como a gente bem sabe, mesmo durante o contrato os jogadores podem ir para outro time, outro país, outro continente.
Para compensar os clubes, a FIFA criou um novo sistema para que entrasse dinheiro no futebol de base. Um sistema que ajudasse os clubes a manter seus jogadores. Um sistema que desse um retorno aos clubes mesmo depois que um jogador seu saísse. É aí que entra o “mecanismo de solidariedade” – o bom “eu voltei” do futebol de base.
Esse mecanismo é parte da síntese do futebol moderno que nem o “mercado de transferência” de hoje e a “indenização por formação”. E, como síntese do futebol brasileiro com seus dribles, irreverência e talento, o Neymar é o melhor exemplo de tudo isso desde quando vi a sua estreia no profissional contra o Oeste de Itápolis pelo Campeonato Paulista lá em 2009 no Pacaembu quando ele tinha 17 anos. Seu sucesso foi instantâneo. Convocado em 2010 para a seleção brasileira, transferência para o Barcelona de tantos outros craques nacionais em 2013, e um dos líderes no ouro olímpico em 2016.
E quando ele saiu da Espanha rumo a Paris por 222 milhões de euros, o Santos Futebol Clube ainda sorriu e ganhou dinheiro com ele mesmo depois de todos esses anos.
O atleta tem seu “passaporte”. Esse “passaporte” é o histórico do jogador. Lá você vai achar todos os clubes que ele fez parte desde os 12 anos de idade. E se o seu clube é um desses, é motivo de sorriso. Toda vez que esse atleta se transferir para outro clube por algum dinheiro, o seu clube vai ganhar até 5% do valor dessa transferência.
O valor que o seu clube vai receber depende de duas coisas: de quanto tempo o jogador ficou no seu time durante período de formação dele, e se vai para fora ou outro clube daqui. Para o seu time receber 5% da transferência quando o ex-jogador do seu clube vai de um time brasileiro para outro, ele tem que ter treinado no seu time dos 14 aos 19 anos. Já se ele vai para fora, o “período de formação” começa aos 12 anos e acaba aos 23 anos.
É por isso que o Paris Saint Germain repassou cerca de R$ 33 milhões ao Santos Futebol Clube como mecanismo de solidariedade quando o Neymar foi para lá, cerca de 4% do valor total para tirar ele do F.C. Barcelona. Neymar ficou no Santos dos 12 aos 21 anos, e por isso vai continuar distribuindo sorrisos na base do seu clube formador até se aposentar.
É isso, espero que tenham gostado do nosso “Especial Copinha 2018”. Eu fico por aqui, e em fevereiro retornamos para falar um pouco sobre “entre o Direito e a Torcida”. Convido vocês para falarem comigo nos comentários ou pelas redes sociais, toda ideia é bem-vinda. Um bom final de semana a todos e até a próxima!

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A enganação dos estaduais

Calma e cautela para analisar futebol não são sinônimos de falta de opinião. Como cronista, tento sempre exprimir um ponto de vista e deixa-lo muito claro. Às vezes acerto, em outras erro. Mas antes de qualquer comentário é sempre bom ter duas coisas: muitos fatos e evidências para ponderar, e entender que tudo pode cair por terra por conta do caos imprevisível que é uma partida de futebol. Coloco isso para acalmar os torcedores que estão eufóricos e acalentar os que estão ressabiados com o início dos seus respectivos times nos campeonatos estaduais. Tudo pelo meu primeiro argumento: não há dados factíveis para analisar nenhuma equipe.
Um padrão de comportamento e resposta de um time para as fases do jogo se manifesta em no mínimo de cinco a oito partidas. Isso em condições normais de uma temporada. E não com apenas dez dias de preparação, como é o caso agora.
Pego o Palmeiras, por exemplo – até porque mais uma vez pelo alto investimento, a equipe é apontada como favorita em tudo. Como saber com apenas duas partidas que o 1-4-1-4-1 utilizado até aqui será a plataforma de ocupação de espaço que mais vai potencializar as virtudes dos jogadores? Ou como sem ver nenhuma partida podemos prever que Lucas Lima e Gustavo Scarpa vão se complementar dentro de campo? Só pelo nome? Bem, Everton Ribeiro e Diego também tem nomes imponentes e não produziram juntos o que o Flamengo esperava no ano passado.
Sem falar das relações interpessoais do elenco e e da comissão técnica de Róger Machado. Como o ambiente vai reagir quando um Dudu ou um Felipe Mello tiverem que ir para o banco de reservas? O clichê ‘elenco rachado’ em 99% das vezes desmonta qualquer time de futebol.
O jogo é muito complexo para tirarmos conclusões e estabelecermos verdades e mentiras absolutas. Basear-se então em apenas duas partidas é um completo suicídio.

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O caminho é difícil

Muitos meninos sonham em se tornar jogador profissional. Vários deles até chegam às categorias de base, mas será mesmo fácil de se realizar esse desejo da infância e adolescência? Uma análise aprofundada sobre o funil que o futebol produz desde o sub-15 até a categoria adulta, mostra que as probabilidades de concretizar tudo isso não são grandes.
Ao falar com atletas e pais de atletas das categorias de base ou até mesmo adolescentes que querem ser jogador, faço esse exercício:

Na maioria dos times mais estruturados, o elenco sub-15 possui em média 40 atletas, enquanto o sub-17, 20 e profissional têm 30.
No sub-15 e no sub-17 são dois anos de competição e no sub-20, três. Por exemplo, em 2017 jogam:

  • Sub-15: nascidos em 2002 e 2003
  • Sub-17: nascidos em 2000 e 2001
  • Sub-20: nascidos em 1997, 1998, 1999
  • Profissional*: nascidos em 1979, 1980, 1981, 1982, 1984, 1985, 1986, 1987, 1988, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997 e 1988

*Corinthians como exemplo 20 anos: Pedrinho e Leo Santos (1998) e Danilo (1979)
Se dividirmos o número de jogadores de cada categoria pela diferença de idade, teremos:

Ou seja, quando você está no sub-15, existe em média 20 jogadores do mesmo ano de nascimento que o seu, e no profissional esse número cai para apenas 1,5. Há muitos jogadores nas categorias de base para poucas vagas no profissional.
Esse funil que já é extremamente apertado, está ficando ainda mais competitivo com a maior longevidade dos atletas com o passar dos anos. Hoje, o mais longevo do Brasil é Zé Roberto, que completou 43 anos em julho.
Em 2017, a diferença de idade é a seguinte nos 4 grandes de SP:

  • Santos – 19 anos: Arthur Gomes (1998) e Ricardo Oliveira (1980)
  • Corinthians – 20 anos: Pedrinho e Leo Santos (1998) e Danilo (1979)
  • Palmeiras – 23 anos: Fuzato (1997) e Zé Roberto (1974)
  • São Paulo –  21 anos: Brenner (2000) e Lugano (1980)


Uma outra forma de verificar esse afunilamento é olhando para o número de times. De acordo com o site da FPF, há o seguinte número de equipes disputando cada categoria:

Ao confrontar o número de equipes com a estimativa de diferença de idade do profissional (em média 20 anos), temos:

 
Por ano de competição, existem 10 vezes o número de times no sub-15 e 17 do que no profissional. Se multiplicarmos por 30 (como média de jogadores por elenco), temos uma estimativa do número de jogadores por categoria. Ao dividir esse número pela diferença de idade nas categorias, temos:

São 1035 jogadores por idade no sub-15 (14 e 15 anos), 1035 jogadores por idade no sub-17 (16 e 17 anos), 730 jogadores por idade (18, 19 e 20 anos) e, veja, 90 jogadores por idade (dos 18 em diante) nos profissionais.
Com o auxílio da matemática, veremos que essa redução do sub-20 ao profissional é drástica, e que há 88% menos vagas entre os adultos por ano de nascimento. Na prática, podemos concluir que em média 1 a cada 11 jogadores do sub-15 e 1 a cada 11 jogadores do sub-17 serão profissionais. Trata-se de uma estimativa, que pode variar: alguns clubes formam melhor que outros, alguns clubes dão mais oportunidades que outros
Vale ressaltar que os exemplos estão concentrados no Estado de Sao Paulo que têm clubes mais estruturados, e que é o maior mercado do Brasil. Acredito que esses números sejam parecidos no restante do país.
Ainda sobre o afunilamento, em São Paulo, houve uma diminuição do número de times nas séries A1, A2 e A3 do campeonato paulista que passaram de 20 para 16 times em cada série. Além disso, há um limite de jogadores inscritos por campeonato que será de 26 jogadores a partir de 2018. Menos times e menos vagas.
Uma força que alguns poderiam dizer que expandem o funil é a exportação de  jogadores, mas isso não é suficiente para absorver todos os jogadores formados, principalmente se levarmos em conta a numerosa população brasileira comparada com outros países de tradição no futebol. Também existe o processo contrário, cada vez maior, de estrangeiros que atuam no futebol brasileiro. Não há limites para contratações, e a presença em partidas foi esticada de 3 par 5 jogadores por cada equipe.
Apesar disso, os times, famílias, empresários e empresas investem muito em questões físicas, técnicas e materiais para os jogadores e quase nada em aspectos humanos e sociais. Investem milhões em equipamentos e treinamentos, mas muito pouco em assistência social, educação e outras questões que iriam ajudar muito mais a grande maioria dos meninos que não se tornam jogadores profissionais bem sucedidos.
Dessa forma, como já mencionado, tem muito jogador de base para poucas vagas para jogador profissional.
 
Gostaria de deixar algumas considerações, principalmente aos atletas e pais de atletas das categorias de base.

  • O caminho é muito difícil.
  • Ser titular nas categorias de base não é garantia de que será jogador profissional.
  • Não conseguir se tornar profissional não é algo tão grave. Tem que estar preparado para as decepções dentro de um ambiente competitivo e nem sempre justo, como a maioria das profissões.
  • Ter ou não um empresário/agente/intermediário forte não é um fator determinante. Normalmente os agentes buscam os atletas mais promissores porque sabem desse afunilamento.
  • Não subiu para o profissional, não virou, não jogou em tal time ou não passou no teste, muito provavelmente, não é porque não faz parte do esquema do treinador, auxiliar, diretor ou presidente. É porque é difícil mesmo. Infelizmente há um esquema de corrupção para beneficiar jogadores e interessados, mas são poucos casos e, no final das contas, o maior prejudicado é o próprio menino.
  • Não transfira a responsabilidade para outros. Treine mais e se dedique ao máximo, todos os dias.
  • Ser jogador ganhando pouco não compensa. Chegará aos 30 com poucos anos de carreira, muitos de vida e nenhum patrimônio. E sem uma perspectiva de carreira, como os outros que não tentaram ser jogador e já estão trabalhando, formados ou empregados, ou seja, com uma vida profissional fora do futebol.
  • Apesar das dificuldades de se tornar um jogador de futebol profissional bem sucedido, deve-se ressaltar o quão desafiador será lutar pelo seu sonho, mesmo que isso não resulte na meta (sonho) estabelecida. Muitos ganhos poderão vir dessa determinação, necessária para qualquer carreira profissional.
  • Essas crianças e adolescentes não podem ser vistos como fonte de riqueza no futuro. Isso é uma fábrica de frustrações, diferenças entre os familiares e uma inversão de valores. O normal ou natural é os pais educarem e sustentarem a família e não o contrário. Esses meninos irão crescer e terão suas famílias para sustentar. Têm pais que abandonam os empregos e mudam de cidade para viver na dependência do filho.
  • O excesso de transferências dentro das divisões de base também é um risco enorme. Trocar de clube pode ser prejudicial e muitas vezes é uma escolha de curto prazo, que trará dinheiro imediato e limitará o crescimento no futuro. Degrau a degrau, o foco deve estar na transição para os profissionais.
  • Estudar é um caminho indispensável, principalmente porque o futebol de hoje valoriza os jogadores inteligentes dentro e fora de campo. Estudar mais tornará o jovem uma pessoa melhor, e as pessoas mais capazes têm mais chances de sucesso em tudo. Uma parte do sucesso pode vir de um dom. Mas só o trabalho potencializa isso. Isso também vale para o mundo corporativo, na busca de empregos e estágios, assim como para o vestibular das melhores universidades. Tenha um plano B. Se a sua paixão pelo futebol continuar, a cadeia do futebol está crescendo e hoje abrange muitas profissões nas áreas médicas, humanas, sociais e, obviamente, na parte técnica do futebol.
  • Estude inglês, pelo menos, já que o sonho da maioria é jogar no exterior. Prepare-se para ser um jogador melhor e para os muitos anos de vida após a carreira.
  • Valorize os bons professores. A chanceler alemã Ângela Merkel costuma dizer que professores não são pessoas comuns e que pessoas comuns não são professores. Seu treinador/professor pode te ajudar muito. Respeite-o.
  • Cuidado com aproveitadores! Nunca dê dinheiro para time, treinador, empresário, diretor, etc. O time que tem que pagar os jogadores e não o contrário. Os que “compram” isso adiam um problema, porque se já é difícil esse caminho de ser jogador profissional por mérito, imagine se for por interesse?
  • Seu filho está preparado para isso? Vocês pais estão preparados para dar o amparo necessário e o apoio que tem que ser dado? Seus filhos terão muitas dificuldades no clubes, como de relacionamento, alimentação, privacidade, descanso, entre tantas outras. Eles só podem ter vocês de pais. Não estrague isso.
  • O caminho é difícil. Pense bem antes de querer ser jogador e saiba que a competitividade é gigante e que terá que abrir mão da infância, adolescência, e do convívio familiar e dos amigos. Você está disposto a isso, de verdade?


  • Beto Rappa é agente de jogadores desde 2007 (intermediário CBF). Trabalha no futebol desde 2002 quando foi diretor executivo do Paulista e Votoraty. É formado em Administração pela FEA – USP – RP

 

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O hino do Brasil no futebol

Muitos podem achar este não ser tema tão importante, entretanto, é pelo fato de fazer parte de um produto do esporte, que é o jogo de futebol profissional. Um produto que é colocado no mercado e à disposição de consumidores que podem ou não adquiri-los. Falo da execução do Hino Nacional Brasileiro antes das partidas.
Este texto tem como origem uma tarde de domingo vendo jogo de futebol americano. Especificamente o cerimonial e protocolo em torno do hino dos Estados Unidos da América. Ora, a modalidade é uma das que simbolicamente mais representam o estilo de vida norte-americano e, mesmo com a presença de militares nestas cerimônias pré-jogos, o culto aos símbolos nacionais não é diretamente associado às forças armadas ou a um período em que elas governaram um país. Não é preciso ser perito em história estadunidense, mas o trabalho que fazem em torno da sua bandeira, hino e selo resgatam valores e propósitos daquele lugar, conhecidos e divulgados desde a sua fundação. Por mais que possam não cumpri-lo (ausência dos direitos civis nos anos 1960, por exemplo), existem e acredita-se nisso. Com isso, surge o respeito aos símbolos e ele se solidifica com o tempo.
Não é o que acontece no Brasil. Pode ser que um dia mude, mas vai levar tempo. O cenário da construção e valorização dos símbolos pátrios foi bastante diferente. Somado a isso, o caos político, social e administrativo, além da crise de valores em que vive o país. A exclusão dos menos favorecidos e o constante desrespeito ao cidadão, quer seja através da corrupção (quer seja dos governantes ou do cotidiano) ou das filas nos postos de saúde, são capazes de desintegrar a sociedade. A prazo, é possível o indivíduo se afastar da crença em uma ideia de nação. Como consequência, a falta do costume em cantar o hino nacional e o uso da bandeira como fim político.

Imagem: Divulgação

 
Desta maneira, o hino do Brasil é colocado antes dos jogos para que o público cante, celebre. Mas não é o que acontece. Salvo raríssimas exceções. Isso serve nos jogos das seleções brasileiras, serve sim. Se os símbolos nacionais tivessem um quarto elemento, ele certamente seria a camisa amarela. Cantar o hino não representa mais civismo ou faz alguém ser mais patriota. No futebol americano, poucos cantavam o hino. Os que cantavam, murmuravam. No entanto, todos respeitavam.
Com tudo isso, não vai ser o gesto de cantar o hino do Brasil antes dos jogos de futebol, fazer com que haja uma popularização da sua canção e letra. Isso vai acontecer a partir do momento em que os direitos e deveres de todos os cidadãos sejam compartilhados, respeitados e cumpridos.

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A arte do desnecessário

Foi cheio de simbolismo o anúncio da aposentadoria de Ronaldinho Gaúcho, 37. No dia 17 de janeiro deste ano, em um post na rede social Instagram, ele oficializou o desfecho de sua carreira profissional depois de ter passado “quase três décadas dedicadas ao futebol” e fez um agradecimento amplo, genérico, justificado por timidez e por “não ter o costume de falar muito”.
Ronaldinho foi, durante dois ou três anos, o maior jogador de futebol do planeta. Ganhou dois prêmios de melhor do mundo em eleição da Fifa (2004 e 2005), mas isso conta apenas parte da história. Ele não ocupou apenas o topo do esporte: naquele período, o brasileiro foi genial a ponto de ter tornado maior o próprio meio em que estava.
Uma das histórias mais recorrentes sobre Pelé é que o Rei chegou a interromper guerras. Durante excursões com o Santos ou com a seleção brasileira, países paravam o que estavam fazendo apenas para ter a chance de vê-lo em ação. Numa era totalmente diferente, num contexto totalmente diferente e numa proporção totalmente diferente, Ronaldinho tem um mérito extremamente similar. O agora ex-jogador conseguiu atrair atenção e expectativa de um público que é municiado de informações por todos os lados, recebe conteúdo constantemente e tem cada vez menos disponibilidade.
Hoje em dia, talvez o maior desafio do processo de comunicação seja captar e manter atenção do público. É cada vez mais fácil imaginar que o consumidor de informação se disperse ou tenha menos tempo de concentração em determinado tema. Por isso, é extremamente relevante que um jogador de futebol tenha conseguido se transformar em atração e em assunto relevante.
A construção de Ronaldinho como personagem foi alicerçada em uma série de elementos únicos. Contaram aspectos como o carisma, a trajetória vitoriosa e o fato de ter representado alguns dos maiores clubes do planeta, é claro, mas pesaram ainda mais a alegria, o amor quase infantil pelo jogo e uma das traduções mais perfeitas do que é o futebol como entretenimento.
Ronaldinho é, por diversas razões, a antítese do que representam Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, os jogadores que dominaram premiações individuais na última década. O português é eficiente, direto e simboliza o uso de um esforço descomunal para atingir o máximo da capacidade; até por isso, tem uma relação de orgulho exacerbado com o produto que entrega em campo. O argentino, por sua vez, é um minimalista: Messi é genial exatamente por fazer parecer que todos os movimentos são estritamente necessários. O camisa 10 do Barcelona e da seleção argentina é responsável por alguns dos lances mais geniais do futebol nos últimos anos, mas tente revê-los agora, sem o calor do jogo: a impressão é que ele busca sempre a solução mais rápida e que comete poucos excessos (em campo e fora dele).
Se fossem artistas de outro segmento, Ronaldo seria o resultado de anos de dedicação e estudo, com um conteúdo seguro e extremamente focado no que faz sucesso com público e crítica. Messi, por outro lado, seria aquele pintor que não coloca uma cor a mais na tela se não houver necessidade ou aquele escritor que suprime absolutamente todas as linhas menos relevantes de seu livro.
Ronaldinho foi o contrário disso porque nos mostrou o prazer do supérfluo. Foi um jogador que subverteu a lógica de que o futebol, como qualquer jogo, é apenas sobre perder ou ganhar. A distância mais curta entre dois pontos pode ser sempre uma reta, mas o futebol não é sobre a distância mais curta ou mais eficiente; futebol é entretenimento, e uma das principais funções do entretenimento é contar histórias que emocionem verdadeiramente e que produzam encantamento.
No futuro, estou certo de que olharemos para trajetórias de outros jogadores e diremos que foram muito maiores do que Ronaldinho Gaúcho. Cristiano Ronaldo e Messi, por exemplo, têm trajetórias e currículos muito mais significativos. Mas pense bem: é sobre os lances de Cristiano Ronaldo e Messi que você vai contar para seus filhos ou netos?
Até nesse sentido a trajetória de Ronaldinho é única. As principais críticas ao brasileiro são sobre ele não ter conquistado muitos títulos como protagonista ou ter se omitido em muitos momentos decisivos. Contudo, quem diz isso não entende o que significou Ronaldinho ou o quanto ele é relevante em nuances do jogo que vão além do resultado, do protagonismo ou da estratégia. Ele pode não ter encantado em profusão, mas o que ele entregou fez diferença para quem verdadeiramente ama o jogo. Compreender isso demanda um pouco de criatividade, de inocência ou de apreço por um modelo que contraria o pragmatismo.
A relação de Ronaldinho com o jogo sempre foi um amor que transcendia o que acontecia em campo. Era, como outros foram antes, uma figura extremamente onírica. Era um produtor de excessos e de pouco (ou nenhum) compromisso com a realidade, como Buñuel.
Mas Ronaldinho durou pouco. Durou pouco porque esse tipo de relação no futebol de hoje é pouco sustentável. Não só no futebol, aliás: o que ele representou para o esporte é um tipo de figura que tem pouco espaço em qualquer seara.
Antes da Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha, era comum ler, ver ou ouvir até os comentaristas mais comedidos questionando se Ronaldinho poderia estar entre nomes como Pelé e Garrincha em caso de uma campanha positiva da seleção. Depois de o time nacional ter sido eliminado pela França nas quartas de final, a marca que ficou daquele certame foi a de uma equipe que levou o evento pouco a sério, que se preparou mal e que teve jogadores pouco comprometidos.
Depois daquela frustração, a figura de Ronaldinho viveu apenas de lampejos. Foi o jogador que fracassou no Flamengo, a despeito de ter produzido mais uma série de lances plásticos para sua coleção pessoal, mas também foi um dos líderes de um Atlético-MG campeão da Libertadores, por exemplo. Voltou a frequentar listas de convocados para a seleção, mas não chegou às Copas de 2010 ou 2014, por exemplo.
Em vez de amadurecer, ser o líder que dele se esperava ou lutar para que seu talento tivesse longevidade no alto nível competitivo, Ronaldinho foi se apagando. Lembrar dele hoje é pensar mais no que ele poderia ter sido do que no que ele realmente foi.
Todas essas questões têm a ver, é claro, com a comunicação da figura Ronaldinho. O jogador que, como ele mesmo disse no ocaso da carreira, “nunca gostou de falar muito”, acabou sendo um exemplo de gênio muito cobrado por coisas que jamais tentou entregar. Acabou lidando com expectativas descabidas e fez isso com um silêncio que mais pareceu escapismo.
Por isso o anúncio da aposentadoria é tão simbólico. Ronaldinho escolheu o Instagram e uma mensagem genérica porque ele precisava dar alguma satisfação, mas nunca foi uma pessoa exatamente preocupada com a imagem pública. No fim, além da genialidade com a bola nos pés, o que fica sobre o brasileiro é a ideia de alguém que não soube conduzir a carreira e que se subjugou (por interesse ou apenas por uma questão de personalidade) diante de um irmão que realmente era o protagonista da “empresa Ronaldinho”.
Ronaldinho poderia ter ficado para a história como um dos maiores exemplos de amor ao jogo. Podia ser o símbolo de magia em diferentes acepções da palavra (por ser um produtor de surpresas ou por provocar uma relação mágica das pessoas com o jogo, por exemplo). Em vez disso, por silêncio ou por dificuldade para se explicar, acaba a trajetória como um produtor de lampejos. Ronaldinho foi um gênio, mas um gênio hermético em muitos momentos. Talvez em algumas décadas possamos compreender exatamente o tamanho de seu legado.

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A estrutura geral do futebol amador nos EUA

O futebol (ou soccer) nos EUA tem tido um crescimento exponencial nos últimos anos. Por exemplo, o site do futebol para juventude nos EUA (US Youth Soccer) estima que há mais de 3 milhões de crianças jogando futebol atualmente (http://www.usyouthsoccer.org/media_kit/ataglance/). Dentro dessa demografia, os Americanos se estruturaram em diferentes clubes e ligas, normalmente ligadas ao sistema educacional.
Ao se começar de baixo para cima, jovens normalmente recebem suas primeiras instruções na American Youth Soccer Organization (AYSO – http://www.ayso.org/). A AYSO introduz o desporto aos jovens a partir de 6 anos de idade e conta com participação de pais e voluntários que são treinados pela própria organização.
Uma vez a criança mostrando propensão e vontade de continuar a prática, daí vem a possibilidade dupla de participação: em clubes e nas escolas. Clubes estão normalmente afiliados às instituições estaduais (http://www.usyouthsoccer.org/) e possuem todos os tipos de níveis de prática (por exemplo podem ser locais, “de viagem” ou travel clubs, e de nível de academias ou academies). Há também um programa chamado de Programa de Desenvolvimento Olímpico (ODP – http://www.usyouthsoccer.org/programs/OlympicDevelopmentProgram/) no qual jovens que se destacam em clubes se reúnem esporadicamente para receberem treinamento avançado com o intuito de se aprimorarem e um dia chegarem a seleção nacional. Já as escolas também têm ligas e competições (normalmente no semestre oposto aos clubes) que são disputadas dentro de cada estado (exemplos podem ser vistos no site http://www.eurosportscoreboard.com/page_nation.php).
Uma vez os jovens chegando ao nível pós-ensino médio, as oportunidades estão basicamente associadas ao desporto universitário. Há basicamente três ligas universitárias principais: a NAIA (http://www.naia.org/), a NCAA (www.ncaa.org) e a NCCAA (http://www.thenccaa.org/). Existem mais de duas mil universidades associadas às diferentes ligas. Há também um nível intermediário entre o ensino médio e universitário chamado de junior college (www.njcaa.org).
Os junior colleges e as universidades são organizados em conferências que são subdivididas em regiões. Os campeões das conferências e os times ranqueados na região avançam ao campeonato nacional. Exemplos de times ranqueados em cada semana estão aqui: https://unitedsoccercoaches.org/web/Rankings/College_Rankings/web/Rankings/COLLEGE_RANKINGS.aspx?hkey=e4b1854e-6781-4e7c-8c51-84442fef296e
Paralelo ao campeonato universitário, durante as férias de verão, atletas que tenham proficiência e interesse podem participar em ligas pré-profissionais. As duas principais ligas são a PDL (http://www.uslpdl.com/) e a NPSL (http://www.npsl.com/) no masculino e a UWS (http://www.uwssoccer.com/) e WPSL (http://www.wpsl.info/) no feminino. Essas ligas são preparatórias para o nível profissional e tem caráter amador.
Na ponta da pirâmide vem o nível profissional. Nos EUA não há acesso e descenso e os clubes estão distribuídos na primeira divisão (MLS – http://www.mlssoccer.com/), e duas ligas consideradas de segunda divisão, a NASL (http://www.nasl.com/) e a USL (http://www.uslsoccer.com/). O feminino tem apenas uma divisão (https://www.nwslsoccer.com/).
Por último, a seleção nacional é administrada pela federação americana (masculino: http://www.ussoccer.com/mens-national-team e feminino: http://www.ussoccer.com/womens-national-team).
Os EUA têm grandes ambições a médio-longo prazo tanto a nível interno quanto mundial, e a pirâmide de participação conta com uma base que continua a crescer e uma estrutura que continua a se organizar. O futuro é promissor.

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Futebol: a unificação da mentalidade não deixa o resultado ao acaso (Parte I)

Olá, sou Diogo Cardoso Santos e hoje começo uma jornada de grandes expectativas como colunista da Universidade do Futebol. Aqui neste espaço tratarei de assuntos relacionados ao processo de formação, mas não somente daqueles que fazem ou evitam os gols.
Entretanto, antes de começar a falar regularmente sobre este tema, contarei um pouco da minha história.
Posso arriscar em dizer que desde o meu primeiro chute em uma bola de futebol até a minha graduação em Ciência do Esporte na UEL em 2007, a minha concepção sobre a prática ou ensino do futebol não teve grandes mudanças. Todavia, ao abraçar uma oportunidade de realizar um mestrado em 2009 na Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa, pude conhecer meios e métodos de ensino que realmente abriram meus olhos.
Com acesso irrestrito à um acervo fantástico de estudos relacionados ao futebol, apesar de me identificar totalmente com aquela mentalidade, me deparei com uma questão: será que isto realmente funciona?
Sim! Funciona! Não era uma receita pronta, mas sim uma indicação de como o processo de treino/ensino deveria ser levado, e durante toda a temporada 2010-2011 pude observar de perto, participando ativamente dos treinos, jogos e eventos para captação como treinador estagiário do U9 do Sporting Clube de Portugal. Naquele momento percebi que existiam executantes extraordinários da teoria tanto dentro como fora do campo.
De lá para cá, muitas ideias foram surgindo e a aplicação da teoria nos treinos foi melhorando. Seguramente, o período de trabalhos no Programa Atleta Cidadão em São José dos Campos foi dos mais enriquecedores e conseguiu reunir muitas partes num todo. Ali discutia-se como seria todo o processo (do sub-11 ao sub-20), rotinas e conteúdos de treino, abordagem durante o treino, aplicação adequada dos conteúdos e assim por diante.
De certa forma foi algo isolado. Quase dez anos após minha ida à Portugal, ainda não vejo aqui no Brasil um nível de produção massificado de conhecimento, e isto nos leva a encontrar trabalhos que deveriam ser sustentados por princípios pedagógicos sendo facilmente substituídos por valores imediatistas, desrespeitando o desenvolvimento saudável dos praticantes, sejam eles treinadores ou jogadores.
Por fim, uma obra deste perfil representa o nosso esforço em conjunto para abordarmos este tema de importância excepcional. Enquanto a mentalidade entre todos dentro de um clube não estiver alinhada, restará somente o resultado do jogo e isto é nocivo para todos os envolvidos no processo de formação.
O desafio agora é elevar o nível da discussão e mostrar que o talento também está fora das quatro linhas!