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Pau de selfie nos estádios: vilão?

A grande sensação das férias de verão no Brasil tem sido o “selfie stick”, mais conhecido como “pau de selfie”.

Assim como grandes sucessos musicais de verão como “A Festa” e “Explode Coração”, o “pau de selfie” chegou aos estádios brasileiros.

Entretanto, a utilização do “selfie stick” está proibida na grande maioria dos estádios brasileiros diante do entendimento de que poderia ser utilizado como uma arma e prejudicaria a segurança nos locais de evento esportivo.

O fundamento legal para a medida está no artigo 13-A, inciso II, do Estatuto do Torcedor que proíbe o porte de objetos suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência.

A grande questão é avaliar se o “pau de selfie” é de fato um instrumento hábil a causar violência nos estádios de futebol.

Ano após ano, a violência é presença constante no futebol brasileiro. Já tiraram dos estádios as hastes das bandeiras, a bebida alcoólica, as torcidas rivais e a violência persiste.

Na contramão do mundo, ao invés de se preocupar com o conforto dos torcedores, com melhor preparo dos agentes públicos de segurança e com a contratação segurança privada, o futebol brasileiro optou pelo caminho das proibições.

Na Inglaterra, em alguns estádios, como o do Arsenal, o “selfie stick” foi proibido não pela violência, mas, para impedir que sua utilização prejudicasse a visibilidade dos torcedores durante os jogos.

O fato é que as autoridades brasileiras ainda não perceberam que a questão da violência não se resume a momentos circunstanciais potencializados pela bebida alcoólica, por uma haste de bandeira ou pelo “pau de selfie”.

Vale dizer que o potencial de violência do “selfie stick” é o mesmo de um radinho, de suas pilhas, de um celular ou de um cinto.

A violência no futebol é um fenômeno multifacetado e que merece medidas específicas, como as adotadas pela Inglaterra na década de oitenta após a conclusão do Relatório Taylor que foi um minucioso estudo da violência no futebol inglês e apontou suas causas e soluções.

Quase trinta anos depois, a Inglaterra tem a Liga de futebol mais valiosa e mais rentável do mundo e a violência, outrora generalizado, hoje é raríssima.

Já passou da hora do futebol brasileiro se inspirar nos bons exemplos de Inglaterra, Espanha e Estados Unidos e extirpar a violência dos estádios, eis que com ou sem “pau de selfie”, infelizmente, a violência tende a permanecer.
 

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Da poesia ao futebol

Gonçalo M. Tavares pode saudar-se como um dos grandes escritores, portugueses e europeus, do nosso tempo. Professor da Faculdade de Motricidade Humana, é hoje o docente da disciplina que eu lecionei também: Epistemologia da Motricidade Humana. Do seu Livro da Dança, colhi o poema seguinte:

“o dedo que é só dedo nem sequer é dedo o corpo que é só corpo só tapa o espaço só tapa o espaço só tapa o espaço – deixem-me ver o espaço ou então – deixem-me ver tudo (para que importa exibir o corpo se é só para exibir o corpo; só importa exibir o corpo se é para exibir o que não é corpo) para que importa exibir o corpo se é só para exibir o corpo?”.

 

O poeta Eugénio de Andrade, num livro que fez história, Poesia, liberdade livre, escreveu: “De Homero a S. Juan de la Cruz, de Vergílio a Alexandre Blok, de Lio Po a William Blake, de Basho a Cavafy, a ambição do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo (Eis o Homem) parece dizer cada poema”. Na leitura crítica da poesia, ou seja, após um estudo lúcido e interrogativo, é o autor que emerge, sobre o mais, dando sentido ao processo poético. António Ramos Rosa, também poeta de grande originalidade, no seu livro, A poesia moderna e a interrogação do real – assinala que a liberdade da linguagem poética não nega, acentua a “experiência vital, por vezes exaltante, que subjaz ao poema”.

Não há fenómeno cultural que, para compreender-se, não deva compreender-se antes o homem que o produziu. Escrever um poema é a revelação originária do poeta criador. Por isso, venho dizendo, há algum tempo já, que no futebol não há saltos, mas homens (e mulheres) que saltam, não há fintas, mas homens (e mulheres) que fintam; não há remates, mas homens (e mulheres) que rematam. À semelhança da poesia, nos remates e nas fintas e nos saltos, há a revelação originária daqueles (daquelas) que os produziram. Quando a poesia se adensa e indetermina, tal significa que o homem-autor ainda está por conhecer. O Homem é um ser em perpétua e constante redefinição…

Não conheci (posso mesmo adiantar: e não conheço), no mundo do futebol, nem em Portugal nem no estrangeiro, um treinador com a cultura literária do nosso Fernando Vaz, infelizmente já falecido e jornalista de A Bola. Um dia (julgo que na década de oitenta) encontrei-o no bar do Hotel Tivoli, em Lisboa, na Avenida da Liberdade. Ele tinha entre mãos um livro. Disparei a pergunta: Que livro é esse? E ele: “É um livro do José Cardoso Pires”. E, com um sorriso cordial, acrescentou uma frase que nunca mais esqueci: “Quando será que os homens do futebol descobrem que livros, como este, nos ajudam a uma melhor compreensão do futebol?”. E lá volto eu, com os meus oitenta e um anos, a repetir-me: é que o futebol, como o desporto, é uma Atividade Humana, não é só uma Atividade Física. Quem ainda não entendeu isto sabe bem pouco de futebol.

Nas táticas de Josep Guardiola, de José Mourinho, de Jorge Jesus, ou de qualquer outro treinador; no instante criador de golos inesquecíveis – há, antes do mais, pessoas. Ou se conhecem as pessoas, ou não se entendem, nem as táticas, nem os golos. Como é lógico!

O meu Amigo, Dr. Aldo Rebelo, ilustre Ministro do Esporte, ofereceu-me, em Brasília, o livro A Pátria das Chuteiras, do jornalista e escritor Nelson Rodrigues, um dos grandes intérpretes do Brasil, tendo no futebol a sua grande metáfora. Nele encontrei o seguinte, de um artigo que o Nelson publicou, em Janeiro de 1959: “Amigos, o meu personagem do ano de 1958 tem de ser um jogador do escrete que levantou a taça do Campeonato do Mundo. Mas é um problema catar, num time invicto, um jogador que seja, exatamente o símbolo pessoal e humano desse time e desse escrete. E logo um nome me ocorre, de uma maneira irresistível e fatal: Pelé! Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das núvens. É, de fato, um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme da Brigitte Bardot, seria barrado, seria enxotado. Mas reparem: é um génio indubitável. Pelé pode virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com íntima efusão: Como vai, colega?”.

É que, em Miguel Ângelo, Homero, Dante e Pelé, há o que de melhor tem a arte, isto é, há poesia! E se procurássemos, todos nós os que vivemos atentos e presos ao futebol, a poesia que dele desponta? Seriam outras, com toda a certeza, a lucidez e a serenidade, nas conversas que se escutam sobre o “desporto-rei”. E muito menor o agressivismo verboso, a diatribe exibicionista, venenos da sociabilidade, que por vezes o sacodem.
 

*Manuel Sérgio é antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

 

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Gerindo conflitos no esporte

No esporte, como em qualquer outro ambiente profissional, um dos grandes desafios dos líderes e gestores é gerir os conflitos que acontecem ao longo do tempo. Ainda mais se pensarmos na necessidade sempre urgente de bons resultados que pressionam todos os profissionais envolvidos, principalmente no futebol, essa questão demanda preparo e conhecimento para ser tratada com o devido êxito.

Mas como gerir conflitos, se eventualmente não compreendemos o que é um, e quais os seus níveis de gravidade; informações estas básicas e importantes para compreendermos a necessidade de gerirmos os conflitos.

Para tal tarefa, vamos os basear nas contribuições de Idalberto Chiavenato feitas em seu livro Gerenciando com as pessoas. As pessoas nunca possuem têm objetivos e interesses idênticos. As diferenças de objetivos e de interesses individuais sempre produzem alguma espécie de conflito. Assim podemos compreender que um conflito é inerente à vida de cada pessoa e faz parte inevitável da natureza humana e no ambiente esportivo de alto rendimento como o futebol, ele está cada dia mais presente.

O conflito existe quando uma das partes envolvidas, seja indivíduo ou grupo, tenta alcançar seus próprios objetivos interligados com outra parte e esta interfere diretamente na que procura atingir os objetivos. São dois os tipos de interferência:

• Ativa – mediante ação para provocar obstáculos, bloqueios ou impedimentos;

• Passiva – mediante omissão ou deixar de fazer alguma coisa.

Um conflito então pode ser visto como mais do que um simples desentendimento, na verdade ele se constitui numa interferência ativa ou passiva, porém deliberada, para impor algum bloqueio sobre a tentativa de outra parte em alcançar seus objetivos ou resultados.

Um time de futebol pode sofrer grandes impactos por conflitos mal geridos, pois o conflito pode acontecer no contexto do relacionamento de duas ou mais partes, seja entre pessoas ou entre grupos, enquanto conjunto de pessoas, bem como entre mais de duas partes ao mesmo tempo. Ou seja, entre dois atletas apenas ou até mesmo entre grupos distintos de atletas de uma mesma equipe.

No caso de conflitos individuais, eles podem ser:

• Internos – quando ocorrem intimamente dentro de uma pessoa em relação a sentimentos, opiniões, emoções, desejos e motivações divergentes. Este conflito provoca um colapso nos mecanismos decisórios normais e pode provocar dificuldade na escolha entre alternativas de ação.

• Externos – quando ocorre entre uma pessoa e outra ou entre dois grupos de pessoas. Mais conhecido como conflito social, que ocorre entre pessoas ou grupos de pessoas com interesses ou objetivos antagônicos.

É importante saber também que os conflitos possuem níveis de gravidade, conforme abaixo.

• Conflito percebido – ocorrem quando as partes percebem e compreendem que o conflito existe porque sentem que seus objetivos são diferentes dos objetivos dos outros e que existe oportunidade para interferência.

• Conflito vivenciado – acontece quando o conflito provoca sentimentos de hostilidade, raiva, medo, descrédito entre uma parte e outra. É o chamado conflito velado, quando é dissimulado, oculto e não manifestado exatamente com clareza.

• Conflito manifesto – este reflete o conflito expresso e manifestado pelo comportamento, que é a interferência ativa ou passiva por pelo menos uma das partes. É o chamado conflito aberto, que se manifesta sem dissimulação entre as partes envolvidas.

E quando o líder, gestor ou treinador percebe a existência de conflito, como ele deve proceder? Para poder lidar com estas situações, é importante que saibamos quais são os tipos de estilos que podem ser utilizados para uma eficaz gestão de conflitos.

Fique ligado e acompanhe nossa coluna da próxima semana, pois abordaremos esses estilos para lidar com os conflitos em suas equipes. Até lá! 

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Dá uma ajudinha aí…

A medida que procuramos fazer uma abordagem sobre negócios no futebol brasileiro, vez por outra nos deparamos ainda com uma linha arcaica de raciocínio, que se inicia no discurso do clube e chega, naturalmente, ao torcedor. Pela forma como esta relação é construída atinge-se tão somente o torcedor e não o consumidor!

Já manifestei aqui na Universidade do Futebol minha resistência a alguns projetos de sócio torcedor, que hoje, a bem da verdade, são tratados como “a salvação da lavoura”. Não pelo projeto de relacionamento com o torcedor, que é salutar e fundamental para a sustentação financeira dos clubes, mas a crítica é sim pela forma como é apresentado e desenvolvido na grande maioria dos casos.

A tal resistência é sustentada precipuamente pela ausência de um trabalho efetivo de CRM dos clubes para com seus torcedores, que, a bem da verdade, deveria ser a razão de existir deste tipo de projeto – hoje, no final das contas, ele é administrado por uma empresa patrocinadora dos clubes, a AMBEV, que, por sinal, faz muito bem este trabalho.

E também porque ele se pauta no viés de descontos em ingressos ou acesso livre aos estádios/arenas, que via de regra se torna um tiro no pé em casos de grande desempenho esportivo ou fracasso esportivo temporada após temporada. Ou seja, os extremos, em termos financeiros, acabam transformando alguns programas de sócio torcedor difíceis de se administrar em função das expectativas criadas, sejam elas positivas ou negativas.

Repito, para reforçar o conceito: no mundo todo, nos países onde a taxa de ocupação dos estádios é significativa e a rentabilidade proveniente da bilheteria segue a mesma premissa, os Programas de Sócio Torcedor servem tão somente para o desenvolvimento de um trabalho de relacionamento com o torcedor, a um custo de anuidade baixo e a bilheteria está centrada nos Bilhetes de Temporada e/ou na comercialização de ingressos avulsos. Ponto.

Na prática, aqui no Brasil, não se vende o “senso de pertencimento” a um grupo, que poderia atrair melhor as tribos de cada clube, tampouco se oferece algo que tangibilize benefícios para o torcedor.

Uma síntese da percepção que o torcedor tem sobre o Programa de Sócio Torcedor está no Tweet que copiei e colei abaixo: 

Um torcedor de um grande clube que vê no programa de sócio-torcedor a possibilidade de ajudar o seu clube de coração. Apesar do exemplo isolado, esta premissa ocorre sim em escala. E isto só ocorre pelo baixo valor percebido destes programas. Ora, o dirigente ou o gestor do clube, em entrevistas coletivas, não vende efetivamente o benefício de consumo. Naturalmente, quem compra, o faz seguindo esta lógica.

Ajudar funciona apenas uma vez. Qualquer dificuldade financeira, o primeiro corte é na “ajuda”. Qualquer mudança de humor, o corte é na ajuda. A fidelização para o consumo só vai ocorrer se de fato passarmos a vender benefícios. Eis uma prerrogativa bem distante de acontecer no curto prazo em muitos projetos de sócio-torcedor.

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A TV e a promoção do espetáculo

O nome do adversário; o logotipo; o nome do estádio; a programação pré-jogo. O canal fechado “Sportv” exibiu ao vivo o amistoso entre Palmeiras e Red Bull Brasil, no último domingo (25), no Allianz Parque. Para isso, porém, “escondeu” uma série de elementos da partida e evitou a divulgação de parceiros comerciais das duas equipes. De quem é a culpa?

Em vez de Allianz Parque, o estádio que recebeu a partida foi chamado de Arena Palmeiras em toda a transmissão. O Red Bull Brasil virou RB Brasil, e o escudo do time paulista foi desfocado para evitar a exposição da empresa patrocinadora. O Sportv também não mostrou a extensa programação pré-evento, com apresentações de motocross, paraquedismo e de ídolos alviverdes.

Quer pensar em como podia ter sido? Poucas horas depois do amistoso, a liga profissional de futebol americano (NFL) realizou seu jogo das estrelas. É um evento anual conhecido por ser um jogo de pouco apelo esportivo (é difícil imaginar uma disputa atraente de futebol americano sem ter alto grau de competitividade). Ainda assim, é um show de enorme popularidade global. E o perfil de transmissão televisiva do evento tem a ver com isso.

Transmitir a NFL envolve acordos como exibição de compactos durante a semana, inclusão da liga em programas de notícias, enquadramento de câmera em dias de transmissão, hora de abertura e encerramento de jornada e nomenclaturas da liga, das franquias e dos parceiros. Até os comerciais são regulados.

O modelo das ligas esportivas dos Estados Unidos é adotado há tempos pela Liga dos Campeões da Uefa – não por acaso, esse é o maior torneio de clubes do futebol mundial. Quando a TV Globo comprou o pacote de transmissão da competição para rede aberta no Brasil, foi preciso um enorme acordo para respeitar os parceiros comerciais da emissora. A Uefa exigia comerciais da cerveja Heineken, por exemplo, mas o canal tem a Ambev como anunciante de todo o pacote de futebol. O conflito só foi dirimido por um adendo ao contrato de direitos de mídia.

A Globo precisou de um aval da Uefa para não incluir comerciais da Heineken nos intervalos dos jogos. Também teve de negociar com a entidade para traduzir o nome do torneio – o padrão internacional é “Uefa Champions League”, em inglês. Mas precisou fazer concessões de enquadramento e conteúdo, em contrapartida.

Menos permissiva nesse sentido, a Fifa é outro exemplo de controle absoluto de conteúdo no futebol. Jogos da Copa do Mundo têm um padrão determinado pela entidade, e as emissoras dispostas a mostrá-los precisam concordar com isso.

Para garantir esse padrão, aliás, a Fifa assumiu há décadas a geração do conteúdo. A entidade tem uma empresa chamada HBS, que é a responsável por toda a transmissão ao vivo de eventos. Parceiros de mídia têm direito a um número determinado de câmeras exclusivas, mas elas só respondem por uma pequena parcela do que é mostrado ao público.

E aí chegamos ao futebol brasileiro. A Globo boicota deliberadamente os parceiros comerciais das equipes nacionais. A explicação da emissora para isso é que essa é uma forma de separar o conteúdo informativo e jornalístico do que é publicidade. Em teoria, notícias não servem para divulgar nenhuma marca.

O problema é que essa lógica não é irrestrita. A Globo faz concessões a parceiros comerciais e a empresas que pagam por isso. Na década passada, a emissora chegou a oferecer a algumas marcas a possibilidade de cobrir digitalmente as placas de campo da Copa do Brasil, que eram vendidas na época pela Traffic. Times e organizadores do campeonato faziam prospecção e buscavam empresas interessadas em aparecer numa propriedade deles, e a TV cobriria tudo isso para priorizar seus anunciantes. Isso só não aconteceu porque nenhuma companhia quis comprar a briga.

Ao fazer isso, a Globo se coloca como um concorrente direto dos clubes. Empresas interessadas apenas em mídia preferem investir no canal do que nas equipes. Isso enfraquece os times financeirametne, e o processo tem duas consequências diretas: eles usam a parceira de transmissão quando precisam de socorro financeiro e têm menos poder quando vão negociar direitos de mídia. É um ciclo que só interessa à TV.

O caso do amistoso de domingo escancara duas necessidades prementes no futebol brasileiro: é preciso criar projetos que não sejam focados apenas em mídia (e o que a Red Bull faz é exatamente isso), assim como é preciso rever o papel da TV no esporte. O termo “parceiro de mídia” não parece correto para alguém que deliberadamente trabalha para asfixiar os times e criar relação de dependência.

Contudo, os dois caminhos dependem de ação dos clubes. Em uma frente, ação individual (criação de departamentos de marketing mais eficientes, com métricas e protocolos que sejam menos balizados pela exposição, alicerçados no conteúdo e no vínculo com o torcedor). Em outra direção, é fundamental uma ação coletiva (isoladamente, nenhum clube tem poder suficiente para contestar o modelo vigente de parceria com a TV).

As duas frentes passam necessariamente por um mesmo processo. Clubes precisam desenhar a experiência de seus torcedores com a marca, independentemente do modelo de consumo dessa marca. A comunicação só vai subir de nível no futebol brasileiro quando as diretorias entenderem que esse é um processo sistêmico, que abrange toda a relação das pessoas com o esporte – e com o time, por consequência. Nesse sentido, todo conteúdo é relevante e precisa ser bem cuidado. Isso vale até para os parâmetros adotados pela TV. Há tempos, a exposição deixou de ser suficiente.

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A carreira e o mercado de trabalho no futebol

Existe um ditado popular que afirma: “Se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia”.

Esta máxima, que você já deve ter escutado inúmeras vezes e, talvez, pronunciado quando estava avesso às opiniões alheias, retrata bem o que não deve balizar a sua conduta profissional.

Com alguns exemplos, na coluna de hoje tentarei retratar a relevância dos (bons) conselhos em nossa trajetória profissional. Se considerarmos os cargos disponíveis na gestão de campo (treinadores, assistentes, analistas, preparadores e adjuntos), é certo que existem cerca de 50 vagas no Brasil, para cada uma destas funções, que representam o topo do mercado de trabalho. É claro que dentre estas 50 vagas, as diferentes condições estruturais e financeiras dos clubes proporcionam um ranking que elitiza ainda mais os principais cargos de gestão de campo do futebol brasileiro.

É grande a chance de você que está lendo esta coluna não estar (bem como este que vos escreve), atualmente, numa destas vagas. Ao mesmo tempo, cabe a você construir a sua história, trilhar os seus caminhos e tomar as decisões que poderão conduzi-lo ao topo de sua profissão, ao menos no âmbito nacional.

Ao longo de minha ainda curta carreira profissional, uma das decisões que tomei (mais de uma vez) foi ter os ouvidos sempre prontos para escutar profissionais que, de alguma forma, exercem influência sobre minha atuação.

E entre os inúmeros conselhos que ouvi ao longo de quase 8 anos de profissão, três (de três profissionais diferentes) marcaram muito e foram determinantes nas constantes tomadas de decisão que são inerentes a nossa carreira. Foram estes:

“O mercado precisa saber quem você é, pois quem não é visto não é lembrado.”

“Você está preparado. Acredite!”

“A carreira no futebol não é linear.”

O primeiro conselho surgiu num momento de pouca experiência profissional e crença de que um trabalho bem feito, independentemente do local, seria suficiente para atrair os olhares do mercado e proporcionar um convite/proposta de crescimento profissional. Na ocasião fui alertado que o mercado precisaria saber quem eu era e quais eram as minhas ideias sobre o jogo de futebol.

O segundo conselho surgiu num momento em que hesitei participar de um processo seletivo (se é que podemos chamar de processo seletivo a maneira que o clube em questão contratava profissionais) para ser treinador numa das equipes das categorias de base de um grande clube do futebol brasileiro.

Ao comentar com um companheiro de profissão, ele me disse que eu estudava futebol constantemente, estava atualizado em relação as metodologias de treinamento e não possuía menos competências do que muitos outros profissionais que já haviam ocupado o cargo e, portanto, estava preparado. Naquele momento aprendi que deveria acreditar mais em mim e em meu trabalho.

E, por último, o conselho que inicialmente me incomodou, pois estava certo de que, após trabalhar como auxiliar-técnico do profissional e técnico de uma equipe sub-20, os próximos trabalhos seriam exclusivamente com estas categorias. Em minha (equivocada) opinião, profissionalmente, não seria cabível retornar as equipes iniciais de formação. Era mais uma de minhas crenças e esta classificava como um “rebaixamento” retornar a uma função com crianças e adolescentes. Através do conselho pude ampliar o olhar e entender melhor a rotatividade e dinâmica do mercado de gestores de campo e o quanto são distintas de outras profissões. Do momento em que o conselho foi dado até hoje, saí de uma equipe sub-17, passei pela sub-13, 17 e profissional de outra e, agora, estou em uma sub-23 de outra. Como “vítima” da rotatividade e dinâmica, uma crença poderia ter me impossibilitado de vivenciar experiências profissionais incríveis.

Quem me deu o conselho, recentemente saiu de uma equipe sub-15 para trabalhar com profissionais. Mais uma grande prova de que “a carreira no futebol não é linear”.

Para terminar, é bem provável que você ainda não esteja no ponto máximo que almeja para a sua carreira (bem como esse que vos escreve). É certo também que alguns conselhos não são suficientes para conduzir uma vida profissional de sucesso. Some a essa caminhada inúmeros desafios, aprendizados, escolhas, acertos, erros, vitórias, derrotas, alegrias, decepções, conquistas e fracassos. Some também inúmeros conselhos que não lhes serão úteis. Cabe a você ouvi-los e ter capacidade de discernimento.

Para você, deixo o meu conselho: Dedique-se muito, mantenha expectativas realistas e acredite que é possível chegar aos principais cargos de gestão de campo do futebol brasileiro. Dizem que se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia. Você tem algum?

ps: Obrigado a todos que, em algum momento, me deram conselhos e, em especial, aos 3 profissionais que me referi na coluna. 

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Osmar Moreira Júnior, professor da UFSCar

Apesar dos bons resultados já obtidos em Olimpíadas, Pan-Americanos e Mundiais, o futebol feminino no Brasil ainda conta com uma série de problemas e conflitos que deixam as jogadoras entre o cenário do profissionalismo e amadorismo.

As condições estruturais, desde aspectos como baixos salários ou mesmo o não pagamento por parte dos clubes, a instabilidade profissional durante toda a carreira, até as questões históricas, como o preconceito e a desigualdade de gênero nas escolas de iniciação ao futebol, ainda são os grandes entraves para o desenvolvimento da modalidade no país.

E, para o professor Osmar Moreira Júnior, docente da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), no interior paulista, esta realidade só mudará quando as próprias mulheres passarem a protagonizar a transformação neste esporte, ocupando espaços de tomada de decisão em esferas que vão desde jogadoras com atuação política, representantes sindicais, treinadoras, até a participação em cargos executivos em clubes, federações e em meios de comunicação.

Com sua tese de doutorado sendo realizada sob a perspectiva de jogadoras que querem seguir o caminho do profissionalismo no futebol brasileiro, Moreira Junior tem a exata ideia das ações que poderiam ser realizadas para que as mulheres tivessem mais oportunidades para atuar diretamente no futebol.

“O espaço destinado para as mulheres nos clubes está nitidamente demarcado pelas construções sociais de gênero, restringindo-se a funções tidas como femininas, como as de assistente social ou psicóloga. Mesmo em equipes de futebol de mulheres, em geral, são os homens quem dirigem e cuidam dos treinamentos. Não consigo vislumbrar grandes possibilidades de mudanças a curto ou médio prazo, mas acredito que seja necessária a adoção de políticas de ações afirmativas pautadas pela equidade de gênero, dentre as quais a criação de cursos de formação e qualificação profissional em gestão e treinamento esportivo exclusivo para mulheres ou com cotas bem distribuídas nesses cursos, bem como uma reserva de mercado para gestoras e treinadoras formadas por esses cursos”, aponta o professor.

Nesta entrevista exclusiva à Universidade do Futebol, Osmar Moreira Júnior ainda fala sobre quais são os principais erros cometidos no processo de detecção, seleção e captação de talentos no futebol feminino, e a importância do movimento Bom Senso F.C. para cobrar melhorias junto à CBF. Confira a íntegra: 

 

Universidade do Futebol – Fale sobre a sua formação e como se deu o seu contato e interesse pelo futebol feminino.

Osmar Moreira Júnior – Sou graduado em Educação Física pela Unesp de Rio Claro e, em meu último ano de curso, quando da realização de minha monografia de conclusão, sob a orientação da professora Suraya Darido, optei por pesquisar o ensino do futebol para meninas de 5ª série do Ensino Fundamental em uma época (1991) em que as turmas de Educação Física eram separadas por sexo e o futebol, para as meninas no espaço escolar, era um grande tabu.

A pesquisa nos permitiu identificar que apesar das meninas se sensibilizarem pela prática da modalidade, envolvendo-se efetivamente nas aulas, continuavam com um discurso de que não se sentiriam à vontade para jogar o futebol ou futsal fora do ambiente escolar. No meu mestrado (2000-2003), também na Unesp, estudei as relações de gênero nas aulas de Educação Física em aulas com o conteúdo futebol/futsal. No período do mestrado, passei a desenvolver um trabalho voluntário como treinador e “gestor” de uma equipe de futebol e futsal de meninas, que participava de competições em nível municipal (Rio Claro-SP) e regional.

A equipe chamada de Minerva Futebol Feminino manteve atividades de 2000 a 2008, contando com um número expressivo de meninas nesse período e conquistando uma série de resultados positivos do ponto de vista esportivo e da formação de um protagonismo juvenil de boa parte das participantes. Por fim, entre os anos de 2010 e 2013, realizei meu doutorado na Unicamp, sob a orientação da professora Heloisa Reis, estudando o futebol como projeto profissional de mulheres.

As condições estruturais observadas e narradas pelas jogadoras vão desde aspectos como baixos salários ou mesmo ausência desses vencimentos até as dificuldades enfrentadas para tratar de contusões devido à ausência de algum tipo de cobertura médica que proporcionasse maior agilidade de tratamento, lista o professor

Universidade do Futebol – Sua tese de doutorado foi realizada sob a perspectiva de jogadoras que querem seguir o caminho do profissionalismo no futebol. Você poderia nos falar um pouco mais sobre seus resultados e reflexões?

Osmar Moreira Júnior – Em minha tese, pesquisei três clubes que participaram do Campeonato Paulista de Futebol Feminino de 2011. Nesses clubes, acompanhei algumas rotinas e entrevistei gestores, treinadores e treinadoras, e fiz entrevistas em grupos focais com jogadoras. A ideia era compreender um pouco quais as condições objetivas e subjetivas vivenciadas por essas jogadoras, para interpretar as aproximações e distanciamentos de um "modelo de profissionalismo".

Os resultados da pesquisa indicaram uma série de conflitos que instituem o campo de atuação daquelas jogadoras em uma fronteira marginal entre o profissionalismo e o amadorismo (termo retirado da legislação esportiva, mas ainda corrente). As condições estruturais observadas e narradas pelas jogadoras vão desde aspectos como baixos salários ou mesmo ausência desses vencimentos até as dificuldades enfrentadas para tratar de contusões devido à ausência de algum tipo de cobertura médica que proporcionasse maior agilidade de tratamento.

Em contrapartida, as jogadoras afirmaram-se como profissionais, argumentando que se dedicavam quase exclusivamente ao futebol (salvo as demandas de estudos de parte delas), cumprindo rotinas como treinamentos, jogos, repouso funcional e outras atividades similares àquelas que jogadores profissionais homens cumprem em seu dia a dia. Porém, elas ainda ressentem-se do fato de não possuírem contratos e principalmente carteira de trabalho assinada, relatando que essa lacuna configura-se no principal motivo para a pressão que sofrem por parte dos familiares para abandonarem o futebol e dedicarem-se a outra atividade que socialmente seria reconhecida como trabalho.

Algumas das entrevistadas apontaram que uma das demandas necessárias para uma maior valorização do
futebol feminino estaria ligada à criação de uma legislação que obrigasse a formalização do vínculo das jogadoras por contrato e carteira de trabalho. Destaco aqui uma passagem da entrevista da tese em que a fala das jogadoras faz menção a essa percepção (os nomes das jogadoras são fictícios):

PESQUISADOR: […] Na opinião de vocês, o que poderia ser feito para o futebol feminino ser mais valorizado, mais transmitido, mais bem remunerado no Brasil?

[…]

PATRÍCIA: Ah, eu vejo esse negócio de profissionalizar mesmo. Ter uma lei que tenha que ter… sabe, que a gente tenha carteira assinada… porque, daí, assim, consequentemente vai ter mais gente vindo pro futebol feminino… não só gente que é amador, vamos dizer assim.

AMANDA: E pra ter essa… pra… pra ter uma lei, daí as pessoas que é…. empresário, que tem aquela renda pra investir, pra poder ser patrocinador, vai ser… vai ter que patrocinar, porque… assim, não tendo a lei é difícil vir aquelas pessoas que querem patrocinar, que querem ajudar, é difícil.

O curioso é que, conforme pudemos constatar na tese, por meio de uma análise da legislação esportiva brasileira, tal situação já é legalizada. Ocorre que a Lei Pelé (lei nº 9.615/1998 alterada pela lei nº 12.395/2011) determina que o futebol obrigatoriamente deve seguir um regime profissional nas situações em que os atletas estão submetidos às exigências que descrevi anteriormente, fazendo jus à remuneração pactuada em contrato especial de trabalho desportivo, de natureza acessória ao respectivo vínculo empregatício.

A interpretação que fazemos é de que houve uma tentativa legal de salvaguardar os direitos dos futebolistas homens, mas tal mecanismo abre precedente para que as mulheres tenham seus vínculos com os clubes reconhecidos como profissionais, na medida em que a legislação não faz distinção de gênero, até porque tal distinção iria ferir a Constituição Federal que dispõem em seu artigo 5º, inciso I que: “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.

A partir dessas investigações, pudemos concluir que, recorrendo à legislação esportiva que atua de forma solidária com a legislação trabalhista, nenhum dos clubes pesquisados cumpre com as diretrizes legais, tendo em vista que submetem as atletas de suas equipes às exigências previstas como deveres de atletas profissionais na Lei Pelé, mas não oferecem a contrapartida que seria a remuneração pactuada por um contrato de trabalho esportivo.

Retomando a afirmação de uma de nossas entrevistadas, que assume considerar-se profissional do futebol e cotejando-a com a organização macro e microestrutural apresentada, podemos inferir que o estatuto de profissional de futebol pode ser aplicado a essas atletas, pautado nas definições do campo teórico e nas legislações vigentes.

Tomando como referência o texto da Lei Pelé, que estabelece que atleta profissional é aquele que tem remuneração pactuada por contrato especial de trabalho esportivo, nossa pesquisa percebe um paradoxo, pois as futebolistas participantes da pesquisa não deveriam considerar-se profissionais do futebol, pois não desfrutam desse direito. Em contrapartida, de fato, elas são profissionais, por possuírem respaldo legal e cumprirem com as exigências previstas nessa legislação.

Portanto, assim como explicitado nos discursos dessas atletas, acreditamos que é preciso cunhar uma representação alternativa para o estatuto do qual estão investidas e, nesse sentido, reconhecemos que elas são, sim, profissionais do futebol (embora não tenham tal estatuto reconhecido e efetivado), pois são detentoras de um capital simbólico referendado por seus pares no campo esportivo, como uma expertise forjada a partir da dedicação ao aprimoramento tático-técnico e a consequente e concorrente abnegação em relação a qualquer outro campo de atuação profissional concomitante.

Algumas das entrevistadas apontaram que uma das demandas necessárias para uma maior valorização do futebol feminino estaria ligada à criação de uma legislação que obrigasse a formalização do vínculo das jogadoras por contrato e carteira de trabalho. O curioso é que, conforme pudemos constatar na tese, por meio de uma análise da legislação esportiva brasileira, tal situação já é legalizada, aponta Osmar Moreira Júnior

Universidade do Futebol – Que tipos de barreiras existem ainda no futebol feminino para chegarmos a um patamar minimamente ideal?

Osmar Moreira Júnior – Sei que vai soar como senso comum, mas a maior barreira ainda é a do preconceito. Embora tenhamos avançado bastante nos últimos anos, ainda não se leva a sério o futebol praticado pelas mulheres. Temos uma representação alternativa para essa prática. É como se fosse um jogo “café com leite”, no qual elas estariam garantindo espaço a partir de concessões dos homens que seriam os detentores do legítimo futebol, do futebol para valer.

Juntamente com essa perspectiva, acredito que uma postura de vitimização do futebol de mulheres também se configura em um entrave para o seu desenvolvimento. É recorrente o discurso de falta de apoio e tal discurso contribui para que a modalidade continue “sobrevivendo de migalhas”.

É importante que as mulheres passem a protagonizar a transformação desse cenário, ocupando espaços de tomada de decisão em esferas que vão desde jogadoras com atuação política, representantes sindicais, treinadoras, até a participação em cargos executivos em clubes, federações e em meios de comunicação.

Esse reordenamento de papéis das mulheres vem acompanhado de seu empoderamento pelo esporte, instituindo uma relação na qual essas mulheres se apropriem de seus corpos para si, rompendo com os pilares daquilo que o sociólogo francês chamou de dominação masculina.

É importante que as mulheres passem a protagonizar a transformação desse cenário, ocupando espaços de tomada de decisão em esferas que vão desde jogadoras com atuação política, representantes sindicais, treinadoras, até a participação em cargos executivos em clubes, federações e em meios de comunicação, afirma o docente da UFSCar

Universidade do Futebol – Em sua opinião, como é tratada a questão do gênero nas escolas de iniciação ao futebol? Quais os reflexos disto no interesse das meninas em jogar futebol?

Osmar Moreira Júnior – Não tenho dados empíricos para me aprofundar no tema, mas tenho a percepção de que as escolas de futebol configuram-se – assim como os outros espaços do futebol – em uma reserva masculina, ficando as meninas incumbidas de se adequarem às normatizações desses espaços, assumindo o ônus de terem sua feminilidade contestada, por exemplo.

Nesse sentido, entendo que poucas são as meninas que se lançam a desafiarem as fronteiras simbólicas de gênero que operam nos espaços ligados ao futebol. Poderíamos ter muito mais meninas e mulheres praticando o futebol se elas fossem tratadas com respeito nesses espaços.

Universidade do Futebol – Como se manifesta o preconceito em relação às meninas que jogam ou desejam jogar futebol? Como isto interfere no modo que as pessoas percebem este esporte?

Osmar Moreira Júnior – O preconceito se manifesta de diferentes formas, indo desde situações veladas até as explícitas. Conheço algumas histórias de meninas que adoravam jogar futebol e suas famílias não as proibiam, mas faziam uma oposição silenciosa, por meio de ações como não comprar equipamento esportivo (tênis, chuteira ou bola, por exemplo), ou não acompanhá-las em seus jogos, em contraposição ao apoio aos seus irmãos.

Em outros casos, temos as proibições declaradas dos familiares ou atitudes de professores que realizam campeonatos escolares de futebol para os meninos e de queimada ou voleibol para as meninas, sem ao menos consultá-las sobre seus interesses. Assim, desde cedo as pessoas crescem com a impressão de que o futebol é um campo de interesse apenas dos homens, deslegitimando a participação das mulheres nesse campo.

Tenho a percepção de que as escolas de futebol configuram-se – assim como os outros espaços do futebol – em uma reserva masculina, ficando as meninas incumbidas de se adequarem às normatizações desses espaços, assumindo o ônus de terem sua feminilidade contestada, por exemplo, analisa

Universidade do Futebol – Qual a relação dessas meninas com os pais? Existe alguma resistência por parte deles na carreira da menina que deseja ser ou é jogadora?

Osmar Moreira Júnior – Acho que já tratei um pouco disso na questão anterior, mas para ampliar um pouco mais a discussão, as jogadoras que entrevistei relataram as mais diversas relações com seus familiares, mas um aspecto recorrente dizia respeito à preocupação desses familiares com relação à prática do futebol por mulheres não ser reconhecida como uma profissão e delas terem um vínculo precário com os clubes.

Quanto mais velhas as jogadores, mais essa preocupação se acentua, demonstrando que, na transição da adolescência para a idade adulta, a expectativa de inserção dessas mulheres no mercado de trabalho implica em uma rejeição familiar do futebol, tido por eles como uma atividade mais próxima da esfera do lazer do que do trabalho.

Quanto mais velhas as jogadores, mais essa preocupação se acentua, demonstrando que, na transição da adolescência para a idade adulta, a expectativa de inserção dessas mulheres no mercado de trabalho implica em uma rejeição familiar do futebol, tido por eles como uma atividade mais próxima da esfera do lazer do que do trabalho, aponta o especialista

Universidade do Futebol – Como a área acadêmico-científica vem se desenvolvendo em relação à produção de conhecimentos e formação de profissionais voltados para futebol feminino? Como isto pode ajudar a desenvolver a modalidade?

Osmar Moreira Júnior – O espaço ocupado pelo futebol de mulheres na academia é bastante limitado. Assim como no campo esportivo, as mulheres também ocupam um espaço periférico no campo acadêmico, no qual existe um desprestígio em cascata, na medida em que o tema é abordado pelas ciências humanas, nos subcampos do esporte/futebol e dos estudos de gênero, que são dotados de pouca representatividade e recursos financeiros na academia e, consequentemente, são raros os programas de pós-graduação e pesquisadores que se dedicam ao tema.

A academia deve ter um papel estratégico no desenvolvimento da modalidade, identificando as mazelas que assolam as múltiplas esferas de participação das mulheres no universo do futebol, bem como apontando caminhos para superar os desafios postos para a consolidação de políticas de equidade de gênero ligadas ao esporte e em especial ao futebol.

O preconceito se manifesta de diferentes formas, indo desde situações veladas até as explícitas. Conheço algumas histórias de meninas que adoravam jogar futebol e suas famílias não as proibiam, mas faziam uma oposição silenciosa, por meio de ações como não comprar equipamento esportivo (tênis, chuteira ou bola, por exemplo), ou não acompanhá-las em seus jogos, em contraposição ao apoio aos seus irmãos, afirma

Universidade do Futebol – Costuma-se falar muito em jogadoras de futebol, mas o fato é que, infelizmente, também há poucas mulheres trabalhando nas outras áreas do futebol, sobretudo de caráter mais técnico (professoras, treinadoras, preparadoras físicas, etc.). No seu entendimento a que se deve este cenário? O que poderia ser feito para que as mulheres tivessem mais oportunidades para atuar diretamente no futebol?

Osmar Moreira Júnior – Também já tangenciei esse assunto em outra questão, mas cabe novamente enfatizar a importância das mulheres ocuparem as esferas de tomada de decisão no universo futebolístico. Existe, sim, um teto de vidro para a atuação das mulheres no futebol
e, mais do que isso, uma blindagem para que elas não acessem determinados cargos como treinadoras e dirigentes. Um clube da elite do futebol brasileiro jamais aceitaria que uma mulher participasse de sua diretoria de forma mais efetiva ou que fosse a treinadora ou mesmo preparadora física de seu elenco principal, ou mesmo das categorias de base.

O espaço destinado para as mulheres nesses clubes está nitidamente demarcado pelas construções sociais de gênero, restringindo-se a funções tidas como femininas, como as de assistente social ou psicóloga. Mesmo em equipes de futebol de mulheres, em geral, são os homens quem dirigem e cuidam dos treinamentos. Não consigo vislumbrar grandes possibilidades de mudanças a curto ou médio prazo, mas acredito que seja necessária a adoção de políticas de ações afirmativas pautadas pela equidade de gênero, dentre as quais a criação de cursos de formação e qualificação profissional em gestão e treinamento esportivo exclusivo para mulheres ou com cotas bem distribuídas nesses cursos, bem como uma reserva de mercado para gestoras e treinadoras formadas por esses cursos.

Em geral, as meninas passam a jogar futebol mais tarde do que os meninos e mesmo quando iniciam mais cedo, tem a desvantagem de não treinar sistematicamente ou competir em altos níveis de exigência antes (e mesmo após) a idade adulta, relata Osmar Moreira Júnior

Universidade do Futebol – No vôlei, por exemplo, há adaptações na altura da rede para a modalidade feminina. Você acha que no futebol, mudanças em tamanho do gol e/ou das dimensões do campo também seriam importantes? Como estas mudanças poderiam alterar a atratividade do jogo?

Osmar Moreira Júnior – Vejo como inviáveis tais adequações no futebol. Na verdade, com relação às dimensões do gramado, acredito que sejam desnecessárias, pois se eventualmente possamos identificar que falta preparo físico para que as jogadoras consigam distribuir-se de forma mais organizada pelo campo de jogo, mantendo o volume de jogo durante os 90 minutos da partida, isso se deve muito mais às desigualdades de condições de treinamento encontradas entre as equipes de homens e de mulheres, do que propriamente a algum tipo de limitação biológica.

Já no caso das metas, até concordo com a dificuldade que se tem de encontrar mulheres acima de 1,80 metros que consigam preencher de maneira mais efetiva as dimensões de uma trave oficial, contudo, qualquer tipo de adequação acaba inviabilizando a utilização dos campos espalhados pelo país e pelo mundo afora. Penso também que tal prejuízo em termos de biótipo das goleiras possa ser minimizado com o aprimoramento técnico das mesmas.

Acredito que o processo de detecção, seleção e captação de talentos no país é inviável, justamente pelo fato dos clubes não manterem divisões de base. Sem uma estrutura de treinamentos sistematizados nessas categorias e um circuito de competições organizado, nosso processo de formação de talentos continuará refém do acaso, dependendo de peneiras que muito mais deformam do que formam. Aliás, nada formam, diz

Universidade do Futebol – Qual é a sua avaliação, de maneira geral, sobre o nível de formação das jogadoras no futebol brasileiro? E quais são os principais erros cometidos no processo de detecção, seleção e captação de talentos?

Osmar Moreira Júnior – O nível de formação é precário. Poucos são os clubes que mantém categorias de base e mais raros ainda aqueles que possuem um trabalho de boa qualidade nessas divisões. Em geral, as meninas passam a jogar futebol mais tarde do que os meninos e mesmo quando iniciam mais cedo, tem a desvantagem de não treinar sistematicamente ou competir em altos níveis de exigência antes (e mesmo após) a idade adulta.

Acredito que o processo de detecção, seleção e captação de talentos no país é inviável, justamente pelo fato dos clubes não manterem divisões de base. Sem uma estrutura de treinamentos sistematizados nessas categorias e um circuito de competições organizado, nosso processo de formação de talentos continuará refém do acaso, dependendo de peneiras que muito mais deformam do que formam. Aliás, nada formam.

O espaço destinado para as mulheres nesses clubes está nitidamente demarcado pelas construções sociais de gênero, restringindo-se a funções tidas como femininas, como as de assistente social ou psicóloga. Mesmo em equipes de futebol de mulheres, em geral, são os homens quem dirigem e cuidam dos treinamentos, explica

Universidade do Futebol – Recentemente, alguns jogadores do futebol masculino (e que também vem tendo apoio de algumas jogadoras do futebol feminino) lançaram o Bom Senso F.C., um movimento que reivindica algumas mudanças na estrutura da modalidade. O que você pensa sobre isso?

Osmar Moreira Júnior – Penso que o Bom Senso é o maior movimento de engajamento político de jogadores de futebol pós-Democracia Corintiana, com o diferencial de não ter sido gestado em um clube, mas sim por uma legião de jogadores de distintos clubes. Penso que é o caminho para que as jogadoras passem a protagonizar as transformações necessárias, mas acredito que a participação delas nesse processo ainda é bastante tímida até pela política ditatorial imposta pela CBF, que sempre se mostrou pronta para retaliar qualquer manifestação de descontentamento em relação à sua gestão.

Vivendo de migalhas da CBF, é nítido que as jogadoras não queiram se expor, temendo perder até as migalhas. Porém, acredito que uma organização com caráter sindical ou por meio de um maior engajamento no Bom Senso F. C., seja fundamental para superar o estado de vítimas e promover o empoderamento das mulheres futebolistas. Uma adesão por parte de jogadoras com capital futebolístico incontestável, como Marta, Formiga, Rosana, Érika e Cristiane, seria fantástico para desestabilizar os pilares da ditadura impos
ta ao futebol de mulheres pela CBF. Ou será que a entidade seria capaz de retaliar não convocando a espinha dorsal de nossa seleç&atild

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Leandro Damião é multado pela Justiça

Recém-contratado pelo Cruzeiro para a temporada de 2015, o primeiro destaque do atacante Leandro Damião se deu nos Tribunais.

O atacante propôs perante a Justiça do Trabalho de Santos reclamatória trabalhista a fim de se desvincular do clube alvinegro praiano.

No intuito de se isentar das taxas e custas processuais, o atleta, com base no artigo 4º, da Lei 1060/50, apresentou “Declaração de Pobreza” e requereu os benefícios da Justiça Gratuita.

Segundo a lei 1060/50, terá os benefícios da Justiça Gratuita a parte que não estiver em condições de pagar as custas do processo e honorários de advogado sem prejuízo próprio e de sua família.

O Juiz da 4ª Vara do Trabalho de Santos, conhecedor da condição financeira de Leandro Damião que recebe cerca de R$ 650.000,00 (seiscentos e cinquenta mil reais) por mês, negou o pedido de Justiça Gratuita e condenou o atacante ao pagamento de multa de 1% e a indenizar o clube santista no valor de 20% do valor da causa , nos termos do artigo 18, do Código de Processo Civil.

Como a causa tem o valor de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), Leandro Damião deverá pagar ao Santos R$ 5.000,00 (cinco mil reais) de multa e R$ 100.000,00 (cem mil reais) a título de indenização.

Prática bastante comum, especialmente na Justiça do Trabalho, a Justiça Gratuita tem o condão de permitir o acesso à Justiça aos cidadãos que não possuam condição financeira de arcar com as dispendiosas taxas e custas processuais.

Entretanto, tal prerrogativa há de ser avaliada com bastante cautela a fim de se evitar que cidadão com boa condição financeira não se beneficie em detrimento de partes verdadeiramente carentes.

Por outro lado, tanto a multa, quanto a indenização, foram bastante desproporcionais, eis que, além do processo ainda estar em seu início, a Lei 1060/50 estabelece a presunção do direito à Gratuidade da Justiça até que a parte contrária, no caso o Santos, a impugne.

Assim, por mais que seja correto, o indeferimento e consequente condenação do atleta não observaram a tramitação prevista em lei.

Ainda que o Magistrado esteja no exercício de seu dever de impedir violação dos direitos tributários do Estado, seria mais razoável negar o pedido de Justiça Gratuita e intimar o atleta a pagar as custas, sob pena de extinção do processo.

Por fim, destaque-se que a medida judicial no caso do atacante Leandro Damião pode instaurar precedente e acabar por inspirar decisões semelhantes em ações em que as partes não sejam tão claramente capazes de arcar com as taxas e custas processuais. 

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Sanção x Solução

Ganhamos uma batalha! Mas levamos? Essa é a dúvida que paira minha mente há algum tempo após inúmeros movimentos que vem surgindo no âmbito do futebol para pressionar por melhorias da governança da modalidade no país.

Nesta segunda-feira veio o esperado (???) veto presidencial da Lei de Responsabilidade Fiscal dos Clubes, a partir de um texto que previa o refinanciamento de dívidas dos clubes sem as contrapartidas destes para o implemento de um trabalho mais qualificado de gestão e de efetiva responsabilidade sobre as contas das entidades.

Ótimo! Ponto para aqueles que querem as mudanças, como eu. Na verdade, conquistou-se tempo para voltar a um debate sobre um modelo de legislação e efetiva aplicação desta lei (coisas de um país com amplo descrédito institucional: a lei pega ou não pega? Eis uma dúvida ridícula, mas factual. Se é lei, deveria ser lei. E ponto!).

E não se enganem: a CBF já trouxe a solução para a fiscalização da Lei. Prometeu incluir no regulamento de competições, evitando qualquer ensaio de agentes externos sobre o sistema. Disse, inclusive, que quem mais está apto a fazer este tipo de julgamento são eles mesmos, com sistema de justiça constitucionalmente reconhecidos. Olhando sob a ótima institucional, não estão errados em pensar desta maneira.

Enfim, por todo o histórico (passado e recente) de movimentos sobre ajustes econômicos, fiscais e financeiros dos clubes de futebol, o fato é que ainda não vejo com bons olhos o caminho que se está tentando seguir.

Não consigo ter a clareza de que uma lei possa provocar a mudança no comportamento dos gestores de clubes de futebol. Haverá, sim, uma adaptação aos pré-requisitos de uma regulamentação que poderá vir e, por mais que seja bem feita e respeitada, não será a garantia para que haja melhor gestão destas organizações.

Eu já fiz esta abordagem em outros textos aqui na Universidade do Futebol e, por isso, insisto: precisamos de um modelo de estímulos ao invés de punição. É preciso ensinar boas práticas de gestão aos clubes e, por seu turno, ao mercado, que compreende muito mal as similaridades e as diferenças das entidades esportivas de outras organizações que exercem uma atividade qualquer de negócios. Os dirigentes precisam, antes de tudo, competir para serem melhores gestores, na acepção da palavra!

Em suma: antes de punir, que tal estimularmos aqueles que fazem direito? Se o que se quer efetivamente é uma solução do problema para o futebol brasileiro, é fundamental rediscutir a forma desta solução e como se chega até ela. O veto presidencial deu tempo para este repensar – para todos os lados, é bom que se diga – e, quem sabe, buscarmos uma solução mais inteligente para aquilo que queremos. 

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7º Valor das Marcas dos Clubes Brasileiros

INTRODUÇÃO

Você está recebendo, a 7ª edição do estudo sobre as marcas mais valiosas do futebol brasileiro. A metodologia empregada no estudo desse ano foi a mesma da edição de 2013 com a inclusão de mais clubes em relação às edições anteriores. Assim contamos agora com o ranking dos 30 clubes mais valiosos do futebol brasileiro.

Utilizamos variadas informações históricas disponíveis no mercado, como dados financeiros dos clubes, perfil e hábitos dos torcedores, dados de marketing esportivo, além de informações econômicas e sociais dos mercados nacional e local em que eles atuam. Os dados foram atualizados para a composição da métrica de mensuração do valor da marca de cada clube analisado.

Nosso estudo desse ano, além do Valor das Marcas dos Clubes Brasileiros, traz diversas informações do mercado de futebol, incluindo uma breve abertura sobre as receitas da FIFA (Federação Internacional de Futebol), da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), das Federações Estaduais, além da análise das finanças dos maiores clubes de futebol do Brasil.

O estudo sobre valor das marcas dos clubes de futebol do Brasil tem como objetivo contribuir com o fluxo de informações e ferramentas de marketing para o mercado do futebol. As análises apresentadas e os dados de cada clube podem contribuir para que os players do futebol no Brasil possam executar seus projetos de marketing com dados atuais e focados nos negócios dos clubes e de seus patrocinadores.

Para ler o artigo completo, basta clicar aqui